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CASE Tools – Parte II
Upper CASE, Lower CASE, I-CASE e Como Essas Ferramentas Mudaram a Engenharia de Software
"A maioria dos programadores acredita que escrever código é desenvolver software. Os engenheiros que criaram as CASE Tools descobriram que programar era apenas uma pequena parte do trabalho."
Introdução
No primeiro artigo desta série vimos como nasceu a ideia das CASE Tools.
Conhecemos a crise do software dos anos 70, a origem da Engenharia de Software e a proposta revolucionária de construir sistemas a partir de modelos, em vez de começar diretamente pelo código.
Agora vamos mergulhar no funcionamento dessas ferramentas.
Você descobrirá que praticamente tudo o que fazemos hoje em ferramentas modernas — UML, Enterprise Architect, Visual Studio, Eclipse, IntelliJ, PowerDesigner, IBM Rational, DevOps, Low-Code e até Inteligência Artificial — possui raízes nas CASE Tools.
Se você programa COBOL no IBM Z, prepare-se para uma surpresa.
Grande parte das boas práticas utilizadas atualmente em grandes bancos nasceu justamente nessa época.
O ciclo de vida do software
Para entender as CASE Tools precisamos primeiro entender uma ideia simples.
Um sistema não nasce quando alguém escreve um programa COBOL.
Ele nasce muito antes.
Imagine que um banco deseja lançar um novo sistema de financiamento imobiliário.
Antes do primeiro programa existir, diversas atividades já aconteceram.
Primeiro alguém identifica uma necessidade.
Depois surgem reuniões.
Em seguida aparecem regras de negócio.
São feitas entrevistas.
Modelam-se processos.
Projetam-se bancos de dados.
Criam-se protótipos.
Somente depois disso alguém começa a escrever código.
As CASE Tools perceberam que cada uma dessas etapas poderia ser apoiada por software.
O ciclo clássico
O ciclo de desenvolvimento normalmente segue esta sequência:
Necessidade
↓
Análise
↓
Projeto
↓
Implementação
↓
Testes
↓
Implantação
↓
Manutenção
Cada fase possui ferramentas diferentes.
Foi justamente daí que nasceu a divisão mais famosa das CASE Tools.
Upper CASE
Upper CASE significa:
Ferramentas para as fases iniciais do desenvolvimento.
Seu foco não era programação.
Era engenharia.
Essas ferramentas ajudavam analistas e arquitetos.
Seu objetivo era responder perguntas como:
O que o sistema fará?
Quem utilizará?
Quais dados existirão?
Como os processos funcionam?
Como os departamentos se relacionam?
Em outras palavras,
Upper CASE modelava o negócio.
Ferramentas típicas do Upper CASE
Entre suas funções estavam:
levantamento de requisitos;
entrevistas estruturadas;
diagramas de fluxo de dados (DFD);
diagramas entidade-relacionamento (ER);
modelagem de processos;
regras de negócio;
dicionário de dados;
documentação funcional;
análise de impacto.
Observe que ainda não existe código.
Existe conhecimento.
Exemplo
Imagine um banco.
Antes de escrever qualquer programa COBOL, alguém desenharia:
Cliente
↓
Abre Conta
↓
Conta Corrente
↓
Movimentações
↓
Saldo
↓
Extrato
Esse fluxo serviria como base para toda a equipe.
Lower CASE
Depois da análise vem a implementação.
É aqui que entra o Lower CASE.
Enquanto o Upper CASE dizia o que fazer,
o Lower CASE ajudava a construir.
Suas funções incluíam:
geração de código;
compilação;
gerenciamento de versões;
testes;
documentação técnica;
engenharia reversa;
manutenção;
integração entre módulos.
Aqui começam a aparecer programas COBOL.
Exemplo
Imagine o modelo abaixo.
Cliente
Nome
CPF
Endereço
Telefone
Uma CASE Tool poderia gerar automaticamente:
tabela DB2;
programa COBOL;
tela CICS;
programa de cadastro;
documentação;
layout de arquivos VSAM.
O programador não começava do zero.
Começava com uma estrutura pronta.
Integrated CASE (I-CASE)
O sonho da indústria era unir tudo.
Assim nasceu o Integrated CASE.
Ou simplesmente
I-CASE.
Ele integrava todas as fases.
Requisitos
↓
Modelagem
↓
Projeto
↓
Banco de Dados
↓
Código
↓
Testes
↓
Documentação
↓
Produção
Uma alteração no modelo propagava mudanças automaticamente.
Essa era uma ideia extremamente avançada para os anos 80.
Hoje chamamos isso de rastreabilidade.
Forward Engineering
Outro conceito importante.
Imagine que você desenhou um sistema.
A CASE Tool poderia transformar o desenho em código.
Esse processo chama-se
Forward Engineering.
Modelo
↓
Código COBOL
↓
Compilação
↓
Sistema
Hoje praticamente toda ferramenta RAD faz isso.
Reverse Engineering
Mas existia outro problema.
Imagine um sistema COBOL com 15 milhões de linhas.
Sem documentação.
Como descobrir sua arquitetura?
As CASE Tools criaram uma solução.
Ler o código.
Gerar os diagramas automaticamente.
Esse processo ficou conhecido como
Reverse Engineering.
Código COBOL
↓
Parser
↓
Modelo
↓
Diagramas
Hoje ferramentas modernas fazem exatamente isso.
Round Trip Engineering
Depois surgiu uma terceira evolução.
Imagine:
Você altera o modelo.
O código muda.
Depois altera o código.
O modelo também muda.
Esse sincronismo recebeu o nome
Round Trip Engineering.
Hoje é comum.
Na década de 90 era quase magia.
O Repositório Central
Uma das maiores inovações das CASE Tools era o Repository.
Pense nele como um enorme banco de conhecimento.
Ali não eram armazenados apenas arquivos.
Mas informações.
Por exemplo:
Cliente.
Conta.
Agência.
Produto.
Funcionário.
Transação.
Tudo era conhecido pela ferramenta.
Assim qualquer mudança propagava automaticamente.
O Dicionário de Dados
Imagine o campo:
CLI_NUM
Sem documentação ninguém sabe o significado.
Agora veja um Data Dictionary.
Nome:
CLI_NUM
Descrição:
Número único do cliente
Formato:
PIC 9(09)
Origem:
Cadastro
Responsável:
Área Comercial
Usado por:
132 programas COBOL
Agora imagine um analista alterando o tamanho do campo.
A CASE Tool imediatamente informaria:
Esta mudança afeta 132 programas.
Isso economizava semanas de trabalho.
Análise de Impacto
Talvez esta tenha sido uma das funções mais valiosas.
Imagine alterar:
CPF
9 posições
↓
11 posições
Sem CASE?
Era preciso procurar manualmente.
Com CASE?
A ferramenta mostrava:
programas COBOL
JCL
CICS
telas
DB2
relatórios
APIs
batchs
Tudo em poucos segundos.
Hoje ferramentas como IBM Application Discovery seguem exatamente esse princípio.
Geração Automática de Código
Uma das funcionalidades mais famosas.
A ferramenta criava automaticamente:
IDENTIFICATION DIVISION
↓
ENVIRONMENT DIVISION
↓
DATA DIVISION
↓
WORKING-STORAGE
↓
PROCEDURE DIVISION
Também podia gerar:
SQL
CICS
BMS Maps
JCL
DDL
documentação
Naturalmente, o desenvolvedor refinava esse código conforme as regras de negócio.
Padronização
Imagine cem programadores COBOL.
Sem padrões.
Cada um cria:
nomes diferentes;
estruturas diferentes;
comentários diferentes;
organização diferente.
Agora imagine uma CASE Tool gerando todos os programas.
Subitamente todos seguem o mesmo padrão.
Isso reduz manutenção.
Reduz erros.
Melhora treinamento.
Reutilização
Outro conceito revolucionário.
Antes.
Cada cadastro era feito novamente.
Depois.
Criava-se um modelo reutilizável.
Por exemplo.
Cadastro de Cliente.
Era utilizado por:
conta corrente;
cartão;
empréstimo;
seguros;
investimentos.
Uma alteração refletia em todos.
As metodologias que impulsionaram as CASE Tools
As CASE Tools não surgiram sozinhas.
Elas acompanharam metodologias importantes da Engenharia de Software.
Entre as principais estavam:
Structured Analysis (Yourdon/DeMarco)
Baseada em processos.
Utilizava:
DFD
Data Dictionary
Processos
Fluxos
Foi extremamente utilizada em Mainframe.
Information Engineering (James Martin)
Talvez a metodologia mais famosa dos anos 80.
Seu foco era:
informação;
entidades;
relacionamentos;
planejamento corporativo.
Influenciou diretamente ferramentas como IEW e IEF.
MERISE
Muito utilizada na Europa, especialmente na França.
Separava claramente:
modelo conceitual;
modelo lógico;
modelo físico.
Essa separação ainda existe em muitos projetos de banco de dados.
SSADM
Criada pelo governo britânico.
Foi amplamente utilizada em órgãos públicos e grandes empresas.
Destacava:
documentação detalhada;
rastreabilidade;
controle de mudanças;
validação formal.
UML
Na década de 90 a UML substituiu boa parte dos diagramas proprietários.
Embora normalmente não seja chamada de CASE Tool, sua utilização em ferramentas como Rational Rose, Enterprise Architect e Visual Paradigm mantém viva a filosofia CASE.
Principais CASE Tools da história
Algumas ferramentas marcaram época.
IBM AD/Cycle
Um dos maiores projetos da IBM.
Tentava integrar desenvolvimento corporativo completo.
Muito utilizado em grandes ambientes Mainframe.
Texas Instruments IEF
Posteriormente conhecido como
CA Gen.
Foi um dos maiores geradores de aplicações corporativas do mundo.
Muitos bancos ainda possuem sistemas produzidos por ele.
KnowledgeWare IEW
Baseado na metodologia Information Engineering.
Extremamente popular entre grandes empresas.
Oracle Designer
Dominou muitos ambientes Oracle durante os anos 90.
Gerava:
banco de dados;
formulários;
relatórios;
documentação.
System Architect
Muito utilizado em arquitetura corporativa.
Ainda influencia ferramentas modernas.
Onde as CASE Tools falharam?
Apesar do sucesso, havia limitações.
Muitas ferramentas:
eram caras;
exigiam hardware robusto;
precisavam de treinamento intensivo;
geravam código excessivamente padronizado;
criavam dependência do fornecedor;
dificultavam migrações.
Além disso, alguns projetos tentavam modelar absolutamente tudo antes de começar a implementar.
O resultado eram meses de documentação e pouca entrega de valor, o que abriu espaço para métodos mais iterativos e, posteriormente, para as metodologias ágeis.
O legado das CASE Tools
Mesmo que o nome tenha desaparecido, seus princípios permanecem vivos.
Quando você usa:
UML;
Enterprise Architect;
IBM Rational;
IBM Engineering Lifecycle Management;
IBM Application Discovery;
Visual Paradigm;
PowerDesigner;
ferramentas Low-Code;
plataformas No-Code;
GitHub Copilot;
ChatGPT para gerar código;
está, de alguma forma, utilizando ideias herdadas das CASE Tools.
A diferença é que, hoje, a inteligência artificial acelera a criação dos modelos e do código, enquanto no passado quase todo o trabalho dependia da interação direta entre analistas e ferramentas.
O que isso significa para um programador COBOL?
Muitos desenvolvedores COBOL acreditam que CASE Tools pertencem apenas à história.
Na realidade, elas continuam extremamente relevantes.
Quando um banco decide modernizar uma aplicação de milhões de linhas, a primeira pergunta raramente é "como reescrever o código?". A pergunta correta é "como entender o sistema?".
É justamente aí que entram conceitos como engenharia reversa, análise de impacto, repositórios de metadados e documentação automática — todos herdados do universo CASE.
Dominar esses conceitos torna o programador COBOL muito mais valioso. Em vez de apenas implementar programas, ele passa a compreender a arquitetura completa, identificar dependências, avaliar riscos de mudanças e apoiar iniciativas de modernização para APIs, microsserviços e aplicações híbridas.
Conclusão
As CASE Tools representaram uma mudança profunda na forma de desenvolver software. Elas mostraram que escrever código é apenas uma etapa de um processo muito maior, que envolve análise, modelagem, documentação, padronização, rastreabilidade e reutilização.
Os conceitos de Upper CASE, Lower CASE e Integrated CASE continuam presentes em praticamente todas as ferramentas modernas de engenharia de software. A tecnologia mudou, as interfaces ficaram mais amigáveis e a Inteligência Artificial passou a participar da construção do código, mas a ideia central permanece a mesma: modelar primeiro, automatizar o que for repetitivo e permitir que os engenheiros concentrem seu tempo nas decisões de negócio.
No próximo artigo, veremos como essas ideias chegaram ao IBM Mainframe, conheceremos as principais ferramentas CASE utilizadas em ambientes COBOL, CICS, DB2 e IMS e entenderemos por que bancos, seguradoras e governos continuam utilizando seus princípios para manter alguns dos sistemas mais críticos do planeta.
"O melhor programador não é aquele que escreve mais linhas de código. É aquele que constrói sistemas que continuam compreensíveis, seguros e evolutivos décadas depois. Essa sempre foi a verdadeira missão das CASE Tools."
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