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segunda-feira, 30 de maio de 2016

🎭 Ulisses à Deriva em Campinas — Quando Leopold Bloom Desembarcou na Estação Cultura

 

Bellacosa Mainframe e a peça Ulisses a Deriva na Estação Cultura de Campinas SP

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🎭 Ulisses à Deriva em Campinas — Quando Leopold Bloom Desembarcou na Estação Cultura



21 de maio de 2016. Estação Cultura de Campinas. Uma antiga estação ferroviária transformada em palco. Naquela noite, porém, quem desembarcou ali não veio de São Paulo, Jundiaí ou Santos. Veio de Dublin. Seu nome era Leopold Bloom.



🚂 PRÓLOGO — Todo Ulisses precisa de uma estação

Existem lugares que parecem escolhidos por acaso.

E existem lugares que, anos depois, percebemos que eram praticamente inevitáveis.

Em 21 de maio de 2016, fui à Estação Cultura de Campinas assistir a uma apresentação teatral.

O espetáculo chamava-se:

Ulisses à Deriva.

Dez anos depois, reconstruindo aquela memória, descobri que o nome completo da montagem era ainda mais interessante:

Ulisses Molly Bloom — Dançando para Adiar ou Ulisses à Deriva.

Era uma montagem da Cia. Estrela D'Alva de Teatro, de Santo André, em parceria com o Quarteto à Deriva, construída a partir do monumental Ulysses, de James Joyce.

Naquele momento, porém, eu não sabia de toda essa história.

Eu simplesmente estava ali.

E talvez isso tenha sido melhor.

Porque Ulisses é justamente uma história sobre alguém que simplesmente está ali.

Caminhando.

Observando.

Desejando.

Lembrando.

Errando.

Entrando em lugares onde talvez não devesse entrar.

E continuando.

Bloom não atravessa oceanos como o Ulisses de Homero.

Ele atravessa uma cidade.

Naquela noite, atravessaria também Campinas.



🚉 1. O primeiro personagem daquela noite já estava esperando por nós

Antes mesmo de os atores entrarem em cena, havia um gigantesco personagem diante de nós:

a própria Estação Cultura.

Quem conhece Campinas sabe que aquele prédio não nasceu como teatro.

Ali funcionou durante décadas a antiga estação ferroviária da cidade.

Trens chegaram.

Trens partiram.

Pessoas se despediram.

Imigrantes desembarcaram.

Trabalhadores passaram por suas plataformas.

Mercadorias atravessaram seus trilhos.

Famílias começaram viagens ali.

Outras terminaram.

E agora, naquele mesmo espaço destinado originalmente ao movimento, alguém apresentava uma história sobre...

um homem caminhando.

Isso é quase perfeito demais.

Leopold Bloom é um viajante urbano.

A Estação Cultura é um monumento à viagem.

Naquela noite os trilhos já não eram necessários.

O trem estava dentro da cabeça.



📚 2. Mas afinal, quem diabos é Ulisses?

Aqui precisamos voltar para 1922.

James Joyce publica Ulysses, uma das obras mais famosas — e também mais temidas — da literatura moderna.

A inspiração está na Odisseia, de Homero.

Na obra grega, Odisseu — Ulisses na tradição latina — passa anos tentando retornar para casa depois da Guerra de Troia.

Há monstros.

Deuses.

Sereias.

Gigantes.

Tempestades.

Feiticeiras.

Naufrágios.

Joyce faz algo absolutamente maluco.

Pega aquela gigantesca aventura mitológica e pergunta:

E se a grande odisseia humana coubesse dentro de um único dia?

Assim chegamos a 16 de junho de 1904.

Dublin.

Leopold Bloom sai pela cidade.

Stephen Dedalus também percorre Dublin.

Molly Bloom permanece como uma presença fundamental naquele universo.

A viagem épica transforma-se em vida cotidiana.

Comer.

Andar.

Conversar.

Beber.

Pensar.

Desejar.

Defecar.

Sentir ciúmes.

Observar pessoas.

Lembrar.

Fantasiar.

Voltar para casa.

Joyce parece dizer:

não precisamos enfrentar ciclopes para viver uma odisseia.

Às vezes basta sobreviver a uma terça-feira.



🧑‍💼 3. Leopold Bloom talvez seja um dos heróis mais estranhos da literatura

Bloom não parece herói.

E justamente por isso funciona tão bem.

Não é Aquiles.

Não é Conan.

Não é Superman.

Não entra em uma sala fazendo todo mundo parar.

É um homem comum.

Um sujeito andando pela cidade enquanto sua cabeça executa milhares de pequenos processos simultaneamente.

Para um programador COBOL, talvez possamos representar Bloom assim:

PERFORM CAMINHAR-POR-DUBLIN
    UNTIL FIM-DO-DIA.

    PERFORM OBSERVAR-PESSOAS.
    PERFORM LEMBRAR-DO-PASSADO.
    PERFORM PENSAR-EM-MOLLY.
    PERFORM SENTIR-CIUMES.
    PERFORM DESEJAR.
    PERFORM QUESTIONAR-A-VIDA.
    PERFORM ENTRAR-ONDE-NAO-DEVERIA.


O problema é que existe um GO TO perdido nesse programa.

E Bloom passa o romance inteiro tentando descobrir para onde ele aponta.


🌊 4. Ulisses estava à deriva — e nós também

A montagem da Cia. Estrela D'Alva não pretendia simplesmente colocar centenas de páginas de Joyce sobre o palco.

Isso seria praticamente impossível.

A dramaturgia de Lucienne Guedes e Marcio Castro, sob encenação de Marcelo Gianini, transformava aquele universo em um poema cênico.

E essa expressão é importante.

Não estamos falando de:

CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3

Estamos falando de fragmentos.

Imagens.

Corpos.

Sons.

Palavras.

Movimentos.

Música.

Silêncios.

Memórias.

Sensações.

Bloom está à deriva.

O público também.


🌑 5. Então a peça começa a caminhar para algum lugar escuro

Uma das lembranças que ficaram comigo daquela apresentação é justamente uma sequência que inicialmente parece não explicar absolutamente nada.

A peça caminha para a escuridão.

Não há uma placa dizendo:

ATENÇÃO: ESTAMOS ENTRANDO NO EPISÓDIO CIRCE.

Não.

Primeiro vem a sensação.

A iluminação diminui.

O ambiente muda.

Então aparecem sons.

Conversas.

Falatório.

Gritos.

Gemidos.

Risadas.

Ruídos humanos.

Alguns bastante inequívocos.

Aos poucos você começa a entender.

Aquilo não parece uma rua comum.

Há alguma coisa acontecendo naquele lugar.

E então surge o vermelho.


🔴 6. A luz vermelha não ilumina — denuncia

Finalmente aquilo ganha forma.

A famosa iluminação vermelha.

A indicação de um bordel.

E Bloom entra naquele mundo.

Hoje sabemos que existe uma conexão fascinante com o episódio 15 de Ulysses, tradicionalmente conhecido como “Circe”.

Na obra de Joyce, Bloom chega a Nighttown, região associada à prostituição em Dublin.

E então Joyce praticamente quebra seu próprio romance.

O capítulo passa a utilizar uma forma que lembra texto teatral.

Personagens aparecem.

Objetos parecem ganhar vida.

Pensamentos tornam-se acontecimentos.

Desejos transformam-se em imagens.

Culpa ganha corpo.

Medos aparecem diante de Bloom.

Fantasia e realidade deixam de obedecer a fronteiras confiáveis.

É quase como se alguém tivesse despejado o conteúdo da memória RAM de Bloom diretamente no palco.


💾 7. CIRCE.DUMP

Programadores de mainframe entenderão imediatamente.

Imagine um sistema executando normalmente.

Então alguma coisa acontece.

SYSTEM COMPLETION CODE=0C4

Você pega o dump.

E encontra memória.

Registradores.

Endereços.

Dados.

Restos de processamento.

Coisas que deveriam permanecer invisíveis tornam-se examináveis.

“Circe” é quase o dump psicológico de Leopold Bloom.

Desejos.

Vergonha.

Sexualidade.

Humilhação.

Culpa.

Fantasias.

Medos.

Tudo aquilo que normalmente permanece protegido pelo RACF da consciência começa a aparecer.

E alguém aparentemente executou:

PERMIT INCONSCIENTE CLASS(PSYCHOLOGY) ACCESS(READ)

Pior:

parece que deram ALTER.


💔 8. Mas havia outra peça acontecendo ao meu lado

E aqui aquela lembrança de Campinas torna-se muito mais pessoal.

Porque teatro não acontece apenas no palco.

Acontece também nas cadeiras.

Cada espectador assiste à mesma peça carregando um banco de dados completamente diferente dentro da cabeça.

Ao meu lado estava Ana Paula.

E aquela sequência provocou nela uma reação que eu não compreendi imediatamente.

O bordel não era apenas cenário.

A situação tocava numa lembrança dolorosa de sua própria história.

O ex-marido procurava bordéis em busca daquilo que aparentemente julgava não encontrar dentro de casa.

Então aquela sequência teatral encontrou uma memória.

E memória emocional é uma coisa estranha.

Você pode arquivar.

Compactar.

Mover para fita.

Mudar o nome do dataset.

Colocar:

OLD.PAIN.DO.NOT.OPEN

Mas ele continua catalogado.

Às vezes basta uma luz vermelha.

Um som.

Uma palavra.

Uma situação.

E alguém executa:

RECALL OLD.PAIN.DO.NOT.OPEN

🩹 9. A casquinha da ferida

Existe uma imagem que talvez descreva isso melhor que qualquer teoria.

Uma ferida cicatriza.

Forma-se aquela pequena casquinha.

Você sabe que não deveria mexer.

Mas passa o dedo.

Cutuca.

Arranca.

Dói novamente.

Às vezes sangra.

Depois outra casquinha começa a surgir.

Algumas memórias funcionam assim.

O teatro, naquele momento, havia colocado o dedo exatamente sobre uma delas.

Não porque conhecesse Ana Paula.

Não porque aquela montagem tivesse sido escrita para ela.

Mas porque a arte possui essa capacidade assustadora de encontrar coisas dentro de nós que o artista nem sabia que estavam ali.


🎭 10. É aqui que teatro deixa de ser entretenimento

Esse talvez seja o ponto mais importante daquela noite.

Podemos assistir a uma peça e sair dizendo:

— Gostei.

— Não gostei.

— Os atores eram bons.

— A iluminação estava bonita.

— A música era interessante.

Mas algumas obras fazem outra coisa.

Elas entram.

Mexem.

Provocam.

Arranham.

E às vezes incomodam.

A sequência do bordel poderia ser interpretada superficialmente como provocação sexual.

Depois de conhecer melhor Ulysses, entretanto, percebo que existe algo muito mais profundo.

Bloom não está simplesmente entrando em um bordel.

Ele está entrando nele mesmo.


🪞 11. Nighttown é um espelho

Circe transforma o ambiente num enorme espelho psicológico.

Bloom encontra desejos que talvez preferisse esconder.

Medos.

Fantasias.

Culpas.

Questões relacionadas à masculinidade.

Sexualidade.

Poder.

Submissão.

Humilhação.

Identidade.

A cidade exterior começa a confundir-se com a cidade interior.

E talvez seja por isso que aquela sequência funcionasse tão bem começando pela escuridão.

Primeiro você não vê.

Depois você ouve.

Depois imagina.

Finalmente enxerga.

É exatamente assim que muitos medos funcionam.


🧠 12. O cérebro compila antes de receber todos os dados

Existe outra coisa genial nesse recurso.

Quando estamos no escuro ouvindo sons, nosso cérebro tenta preencher aquilo que falta.

Isso é extremamente humano.

Recebemos:

INPUT:
   GEMIDO
   RISADA
   GRITO
   CONVERSA
   RESPIRACAO

E nosso cérebro começa imediatamente:

IF GEMIDO = TRUE
   AND RISADA = TRUE
   AND AMBIENTE = ESCURO
THEN
   PERFORM CONSTRUIR-CENARIO.

Quando finalmente aparece a luz vermelha, talvez o bordel já estivesse pronto dentro da cabeça do espectador.

O cenário apenas confirma aquilo que nossa imaginação havia compilado.


🎷 13. O Quarteto à Deriva

Outro componente fundamental da montagem foi justamente a música.

A aproximação entre a Cia. Estrela D'Alva e o Quarteto à Deriva ocorreu durante a trajetória do Projeto Ulisses.

Isso muda profundamente a experiência.

Porque Joyce é musical.

Seu texto possui ritmo.

Repetições.

Interrupções.

Fluxos.

Ruídos.

Vozes.

A música consegue entrar onde uma explicação racional talvez destruísse a experiência.

Em vez de explicar Bloom:

fazemos Bloom soar.


🚂 14. E tudo isso acontecendo dentro de uma antiga estação

Voltemos para Campinas.

Quanto mais penso naquela escolha de espaço, mais interessante ela fica.

Estação é transição.

Você não constrói uma estação para permanecer nela.

Você chega.

Espera.

Embarca.

Desembarca.

Parte.

Bloom também vive em trânsito.

Então tínhamos:

Dublin dentro de Campinas.

Uma odisseia dentro de uma estação.

Um homem perdido dentro de uma história.

Espectadores perdidos dentro das próprias lembranças.

E antigos trilhos silenciosos do lado de fora.


🗓️ 15. Por que aquela apresentação aconteceu em Campinas?

A resposta só apareceu para mim muitos anos depois.

O espetáculo teve origem no projeto contemplado pelo ProAC 2011.

A montagem estreou em 2012.

Posteriormente encontrou o Quarteto à Deriva.

O projeto continuou desenvolvendo-se.

Em 2015 houve novo apoio para circulação.

E chegamos a 2016.

Naquele ano, Ulisses à Deriva percorreu sete cidades paulistas, totalizando 14 apresentações.

Campinas fazia parte dessa viagem.

Portanto, naquela noite de 21 de maio de 2016, eu não estava diante de uma apresentação ocasional perdida no calendário cultural.

Estava assistindo a uma etapa de uma circulação profissional de uma obra que já possuía anos de pesquisa.

Essa descoberta mudou minha própria memória daquele evento.


🧭 16. O Ulisses de Homero queria voltar para casa

Existe uma linha ligando tudo isso.

Odisseu passa sua aventura tentando voltar para Ítaca.

Bloom passa Dublin e finalmente retorna para casa.

E nós passamos a vida inteira fazendo algo parecido.

Saímos.

Trabalhamos.

Amamos.

Erramos.

Viajamos.

Mudamos de cidade.

Mudamos de país.

Perdemos pessoas.

Conhecemos outras.

Guardamos fotografias.

Filmamos pequenos momentos.

E algum dia retornamos.

Nem sempre ao lugar.

Às vezes retornamos apenas à memória.

Foi exatamente o que aconteceu comigo agora.

2016 tornou-se minha Ítaca.


📹 17. O backup de uma noite

Existe ainda uma coisa que considero maravilhosa.

Eu registrei parte daquela experiência em vídeo.

Na época talvez fosse apenas:

— Vou filmar isso.

Dez anos depois, aquele arquivo tornou-se outra coisa.

Documento.

Registro cultural.

Memória pessoal.

Fragmento histórico.

Isso reforça algo em que acredito há muito tempo:

não sabemos quais arquivos banais de hoje serão preciosos amanhã.

Programadores antigos sabem disso.

Aquele comentário no início de um programa:

* ALTERADO EM 21/05/2016
* MOTIVO: CORRECAO PROCESSAMENTO
* PROGRAMADOR: XXXXX

pode parecer irrelevante.

Dez anos depois pode ser a única pista disponível para compreender por que alguma coisa existe.

Meu vídeo daquela noite acabou funcionando da mesma maneira.


🥚 EASTER EGG — 21/05/2016

Aqui está nosso pequeno easter egg Bellacosa Mainframe.

Imagine um job submetido naquela noite:

//ULISSES JOB (2016),'CAMPINAS'
//STEP01  EXEC PGM=BLOOM
//DUBLIN  DD DSN=JOYCE.ULYSSES,DISP=SHR
//MEMORIA DD DSN=VAGNER.2016,DISP=OLD
//OUTPUT  DD SYSOUT=*

O job terminou.

RC=0000?

Não exatamente.

Porque uma boa obra de arte não deveria terminar com RC=0000.

Ela deveria deixar alguma coisa pendente.

Talvez:

IEC999I
PROCESSAMENTO ENCERRADO
ALGUNS DATASETS PERMANECEM ABERTOS

Dez anos depois, um deles acabou de ser reaberto.


🔎 18. A curiosidade que surgiu dez anos depois

Quando comecei a reconstruir aquela apresentação, inicialmente lembrava dela quase como uma peça feita por um grupo teatral do ABC paulista.

A investigação revelou algo maior.

A companhia era a Cia. Estrela D'Alva de Teatro, de Santo André.

A montagem possuía trajetória.

Pesquisa.

Dramaturgia própria.

Edital.

Circulação.

Parceria musical.

Anos de desenvolvimento.

E isso demonstra uma coisa maravilhosa sobre memória:

lembrar é diferente de investigar.

Memória fornece pistas.

Pesquisa reorganiza as pistas.

Uma não destrói a outra.

Elas trabalham juntas.


📚 19. O roteiro que ainda permanece perdido

Há ainda um mistério.

Conseguimos localizar ficha técnica.

Registros institucionais.

Programações.

Histórico da companhia.

Registros audiovisuais.

Informações sobre circulação.

Mas o texto dramatúrgico integral de Lucienne Guedes e Marcio Castro ainda não apareceu publicamente nas buscas que fizemos.

Talvez esteja em algum arquivo.

Biblioteca.

Computador antigo.

Catálogo.

Dissertação.

Arquivo pessoal.

Backup.

HD esquecido.

Ou numa pasta chamada:

ULISSES_FINAL_FINAL_AGORA_VAI_V3.DOC

Todo programador sabe que esse arquivo provavelmente existe.


🌌 20. Talvez Ulisses nunca tenha estado realmente à deriva

Depois de revisitar tudo isso, comecei a desconfiar do próprio título.

Ulisses à Deriva.

Deriva pressupõe ausência de direção.

Mas talvez Bloom possua uma direção.

Talvez todos nós tenhamos.

Casa.

Memória.

Afeto.

Pertencimento.

Mesmo quando caminhamos aparentemente sem rumo, alguma coisa nos puxa.

Odisseu tinha Ítaca.

Bloom tinha Molly.

Eu tinha aquela noite guardada num vídeo e numa lembrança.

E foi necessário esperar dez anos para perceber que ela ainda não havia terminado.


☕ EPÍLOGO — O trem partiu, mas alguma coisa permaneceu na plataforma

21 de maio de 2016.

Estação Cultura.

Campinas.

As luzes se apagaram.

Os atores terminaram a apresentação.

O público levantou.

As pessoas conversaram.

Cada uma seguiu para algum lugar.

A antiga estação voltou ao silêncio.

Mas algumas histórias possuem um comportamento estranho.

Elas não acabam quando fechamos a porta.

Ficam executando silenciosamente em background.

Como aquele velho processo que ninguém encontra no SDSF porque ninguém lembra exatamente qual era o JOBNAME.

Até que alguma coisa acontece.

Um vídeo reaparece.

Uma pergunta surge.

Uma lembrança incomoda.

Você começa a pesquisar.

Descobre James Joyce.

Descobre Leopold Bloom.

Descobre Molly.

Descobre Nighttown.

Descobre Circe.

Descobre a Cia. Estrela D'Alva.

Descobre o Projeto Ulisses.

Descobre o ProAC.

Descobre que aquela apresentação fazia parte de uma circulação por cidades paulistas.

E finalmente percebe:

você não estava apenas assistindo a Ulisses à Deriva.

Também estava viajando.

Naquela noite, uma antiga estação ferroviária de Campinas tornou-se Dublin.

Leopold Bloom caminhou por Nighttown.

Uma luz vermelha apareceu no escuro.

Uma memória dolorosa foi tocada na cadeira ao lado.

E um homem com uma câmera guardou alguns fragmentos sem imaginar que, dez anos depois, tentaria remontá-los.

Talvez seja justamente isso que Joyce tentou nos mostrar.

As grandes odisseias não acontecem apenas quando enfrentamos monstros, atravessamos oceanos ou derrotamos exércitos.

Elas acontecem enquanto caminhamos.

Enquanto observamos.

Enquanto lembramos.

Enquanto amamos.

Enquanto carregamos nossas pequenas feridas.

E enquanto tentamos encontrar o caminho de volta.

Naquela noite, Ulisses desembarcou em Campinas.

O espetáculo terminou.

A viagem, aparentemente, não.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde algumas histórias são executadas imediatamente — e outras permanecem dez anos na fila até alguém finalmente descobrir o JOBNAME.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🎭 Teatro na Estação — Campinas 2016

Uma viagem pelos registros do Teatro na Estação, na Estação Cultura de Campinas, incluindo a passagem de Ulisses à Deriva em 21 de maio de 2016.

Esta coleção reúne vídeos, relatos e memórias registrados durante o evento Teatro na Estação, preservando diferentes momentos da programação cultural realizada na antiga estação ferroviária de Campinas.

🚂 Uma estação transformada em palco

Em maio de 2016, a Estação Cultura de Campinas recebeu apresentações em que teatro, música, performances e personagens ocuparam plataformas, vagões e antigos espaços ferroviários.

Estes registros formam uma pequena memória digital daquele encontro entre ferrovia, patrimônio histórico, teatro, música e cultura em Campinas.

Entre as apresentações estava Ulisses à Deriva, montagem relacionada ao universo de Ulysses, de James Joyce, transformando a antiga estação em mais uma parada na longa viagem de Leopold Bloom.

📺 Visor — Teatro na Estação Artigo principal carregado
↗ Abrir publicação

📚 Teatro, ferrovia e memória cultural de Campinas

O projeto Teatro na Estação ocupou a histórica Estação Cultura de Campinas com apresentações, música, teatro e performances. Estes registros publicados no Bellacosa Mainframe preservam diferentes fragmentos daquela experiência cultural.

A coleção inclui cenas relacionadas a Ulisses à Deriva, além de músicos, personagens, performances e intervenções realizadas no ambiente ferroviário.

O conjunto conecta temas como Campinas, Estação Cultura, patrimônio ferroviário, teatro brasileiro, James Joyce, Ulysses, Leopold Bloom, Molly Bloom, literatura, música e memória cultural.

domingo, 29 de maio de 2016

Danças latinas na estaçao Cultura

Templo de todas a tribos


Quem pensa que na estação cultura temos apenas modernices, esta bem enganado.. dia desse topei com a galera que faz danças latinas.

Realmente foi surreal ver o pessoal dançando sobre os binários ferroviários, ultrapassando as plataformas.

Adoro a estação cultura por causa disso, cada dia topamos com uma surpresa inequalavel, pena que agora querem fecha-la, imagino por que não alugam alguns espaços para fazer receita e liberam o restante como esta hoje?

Quem sabe apareça um mecenas e pague o serviço de vigilância para deixar este espaço democrático aberto ao publico.




Estaçao cultura e o apoio ao modelismo ferroviario

A prefeitura de Campinas ofereceu um espaço único.


Quem ama ferrovia, curte reproduzir em escala modelismo ferroviário tem na cabine 2, a chance de ouro de prestigiar a ferrovia.



Neste lugar que foi o centro nevrálgico da operação ferroviária em Campinas. Tendo uma visão fantastica de todo o complexo, ainda mantendo em seu interior diversos mecanismos utilizados na troca de linhas.

Ve.se o mapa dos binarios (trilhos) relógios e lâmpadas de controle. E observando o diorama viaja-se com tantos detalhes, uma passada rápida de camera eh cruel, pois não conseguimos capturar tudo.

Mais detalhes desta maravilhosa mini ferrovia

Bellacosa Mainframe e a cabine 2 clube de feerromodelismo

Um Café no Bellacosa Mainframe

🚂 Mais Detalhes Desta Maravilhosa Mini Ferrovia — Um Mundo Inteiro Dentro da Cabine nº 2

Era mais um sábado na Estação Cultura de Campinas.

Ana Paula estava em sua aula de teatro amador e, enquanto esperava o ensaio terminar, eu tinha algumas horas disponíveis para fazer aquilo que já havia se tornado quase um ritual: zanzar pelo antigo complexo ferroviário.

E havia muito para explorar.

A velha estação e suas construções guardavam marcas de uma época em que aquele lugar não era patrimônio histórico, espaço cultural ou cenário para fotografias. Era uma ferrovia viva. Havia gente trabalhando, locomotivas circulando, oficinas funcionando e trens chegando e partindo.

Para alguém apaixonado por ferrovias, história e máquinas, esperar algumas horas ali estava muito longe de ser um castigo.

Era uma oportunidade.

E naquele sábado meus passos acabaram novamente diante de um dos meus lugares favoritos de todo o complexo.



🚦 Meu pequeno templo ferroviário

A famosa Cabine nº 2 de comandos.

Só o edifício já era especial.

Em outra época, cabines como aquela faziam parte do cérebro operacional da ferrovia. Ali, homens acompanhavam movimentos de trens, comandavam aparelhos e ajudavam a decidir por quais trilhos aquelas enormes máquinas deveriam passar.

Mas os tempos haviam mudado.

A velha cabine ganhara outra função.

Em seu interior funcionava um clube de ferromodelismo.

E talvez não pudesse existir destino melhor para ela.

A ferrovia em tamanho real havia desaparecido de boa parte daquele cenário, mas, dentro da antiga cabine de comandos, ela renascia alguns centímetros de cada vez.

Em miniatura.



🏙️ Uma cidade inteira sobre uma mesa

Desta vez não fiquei apenas olhando os trens circularem.

Comecei a observar a maquete com mais calma.

E foi aí que ela começou a revelar seus segredos.

Havia trilhos, naturalmente.

Muitos trilhos.

Linhas se cruzavam, desviavam, desapareciam atrás de construções e reapareciam alguns metros adiante.

Mas reduzir aquela obra a uma coleção de trilhos seria uma tremenda injustiça.

Ali estava representado praticamente um pequeno universo ferroviário.

Pontes.

Árvores.

Oficinas.

Máquinas.

Locomotivas.

Vagões.

Carros.

Caminhões.

Um bonde.

E a maravilhosa rotunda ferroviária, uma daquelas estruturas que imediatamente chamam a atenção de qualquer apaixonado por ferrovias.

Quanto mais eu olhava, mais coisas apareciam.



🔍 O segredo estava nos detalhes

Essa talvez fosse a parte mais divertida daquela maquete.

Você podia olhar durante alguns minutos, afastar-se e pensar que já havia visto tudo.

Não havia.

Era só aproximar novamente o rosto e alguma coisa surgia.

Uma pequena pessoa que passara despercebida.

Um trabalhador.

Um detalhe em uma oficina.

Um veículo parado em determinado canto.

Um cachorro.

Depois outro personagem.

Era quase uma espécie de Onde Está Wally ferroviário.

Só que ninguém estava procurando Wally.

Estávamos procurando histórias.

Porque os modelistas não haviam construído simplesmente uma ferrovia.

Eles haviam criado cenas.

🍺 Até o ferroviário precisava descansar

Em determinado ponto aparecia um bar.

E dentro dele...

Uma mesa de sinuca.

Aquilo me divertia justamente porque demonstrava o cuidado colocado na construção daquele mundo.

Não bastava colocar locomotivas sobre trilhos.

Se existe uma ferrovia, existem ferroviários.

Se existem ferroviários, existem pessoas.

E pessoas trabalham, descansam, conversam, bebem alguma coisa, jogam uma partida de sinuca e continuam suas vidas.

De repente, aquela pequena mesa deixava de ser apenas um objeto decorativo.

Ela sugeria uma história.

Talvez alguns trabalhadores tivessem terminado o turno.

Talvez alguém estivesse esperando o próximo serviço.

Talvez houvesse uma aposta valendo uma cerveja imaginária.

A maquete não dizia.

Nossa imaginação completava.

🐕 Havia até cachorros

E naturalmente naquele pequeno mundo também havia cachorros.

Pequenos cães espalhados pelo cenário.

Detalhes absolutamente desnecessários para fazer um trem elétrico funcionar.

E justamente por isso maravilhosos.

Porque são essas pequenas coisas aparentemente inúteis que dão vida a um diorama.

Um cachorro não melhora o contato elétrico dos trilhos.

Não controla um desvio.

Não alimenta uma locomotiva.

Não aciona um sinal.

Mas coloca vida naquele cenário.

Assim como as pequenas figuras humanas.

A ferrovia deixa de parecer uma demonstração técnica e começa a parecer um lugar.

👷 O uniforme não precisava estar limpo

Outra coisa que me chamou atenção foi o cuidado com as figuras.

Nem tudo parecia recém-saído da caixa.

Havia trabalhadores representados em seu ambiente de serviço, inclusive com a aparência coerente com aquele universo de oficinas, graxa, carvão, óleo e manutenção.

Uniformes sujos.

Pequenas marcas.

Cores cuidadosamente aplicadas.

São detalhes minúsculos.

Mas nosso cérebro percebe essas coisas.

Um ferroviário perfeitamente limpo diante de uma locomotiva sendo reparada pareceria artificial.

Um pouco de sujeira na roupa conta imediatamente uma história:

aquele homem estava trabalhando.

Talvez seja esse o segredo dos bons dioramas.

Eles não precisam explicar tudo.

Um detalhe bem colocado faz nossa cabeça construir o restante.

🔧 A oficina em miniatura

E naturalmente fiquei fascinado pela oficina.

Máquinas, trabalhadores, equipamentos e pequenos elementos mecânicos compunham aquele ambiente.

Era possível imaginar manutenção acontecendo ali.

Uma locomotiva chegando.

Uma ferramenta sendo utilizada.

Uma peça sendo desmontada.

Um trabalhador atravessando a oficina.

Outro reclamando que alguma coisa estava atrasada.

Nada disso realmente acontecia.

Mas parecia que poderia acontecer.

Esse é o ponto em que uma boa maquete deixa de ser brinquedo e passa a ser narrativa tridimensional.

🌳 Nem tudo era ferro

Outro detalhe importante eram as árvores e a vegetação.

Quando pensamos em ferromodelismo, nossa cabeça imediatamente vai para locomotivas, trilhos, estações e pontes.

Mas uma ferrovia existe dentro de uma paisagem.

E reproduzir essa paisagem é justamente aquilo que dá escala às máquinas.

Árvores ajudam nossos olhos a entender o tamanho das locomotivas.

Casas dão proporção aos trilhos.

Pessoas mostram a dimensão dos vagões.

Carros e caminhões colocam a ferrovia dentro de uma cidade.

Aos poucos, deixamos de enxergar objetos sobre uma bancada.

Passamos a enxergar um recorte do mundo.

🚋 E lá estava o bonde

No meio de tudo aquilo ainda havia um bonde.

Mais um daqueles elementos capazes de prender minha atenção.

Porque o bonde conecta dois mundos.

O ferroviário e o urbano.

Ele nos lembra de uma época em que trilhos não estavam apenas escondidos em pátios ferroviários ou reservados aos grandes trens.

Eles faziam parte das ruas.

Ao redor dele estavam carros, caminhões, construções e pequenas pessoas.

Era Campinas reduzida a uma escala em que cabia diante dos nossos olhos.

🌉 Pontes, trilhos e a rotunda

Naturalmente, algumas estruturas roubavam a cena.

As pontes eram uma delas.

A rotunda, outra.

A rotunda ferroviária possui algo quase hipnótico para quem gosta desse universo.

Sua própria geometria denuncia sua função.

Locomotivas chegando de diferentes direções, sendo posicionadas e encaminhadas.

Na maquete, aquele elemento ajudava a contar a história de um complexo ferroviário que havia sido gigantesco.

O curioso era pensar onde eu estava.

Eu observava uma reprodução em escala do complexo ferroviário...

estando dentro do próprio complexo ferroviário.

Uma ferrovia dentro da ferrovia.

Uma memória dentro da memória.

⚡ E por baixo daquele mundo havia tecnologia

Mas havia outra camada fascinante.

Aquela cidade minúscula precisava funcionar.

Por trás das árvores, prédios, oficinas e personagens existia a parte que normalmente não aparece nas fotografias bonitas:

a engenharia.

Fiação.

Circuitos.

Comandos.

Controles eletrônicos.

Motores.

Iluminação.

Mecanismos.

Era essa infraestrutura escondida que dava vida ao cenário.

Luzes acendiam.

Trens se movimentavam.

Elementos respondiam aos controles.

Sons completavam a experiência.

Aquilo tinha algo que sempre me fascinou nas grandes máquinas: existe uma camada visível que encanta o público e outra, escondida, que faz tudo funcionar.

Talvez por isso eu gostasse tanto daquele lugar.

Na superfície havia arte.

Por baixo havia lógica.

🎛️ O antigo e o novo dividindo a mesma cabine

E tudo aquilo acontecia justamente dentro de uma antiga cabine ferroviária de comandos.

Existe uma bela ironia nisso.

Décadas antes, controles naquele prédio ajudavam a movimentar trens verdadeiros.

Agora outros controles movimentavam trens em miniatura.

Mudaram as escalas.

Mudaram as tecnologias.

Mudaram os operadores.

Mas permaneceu a mesma ideia fundamental:

alguém precisava dizer ao trem para onde ir.

A Cabine nº 2 continuava comandando uma ferrovia.

Só que agora ela cabia dentro da própria cabine.

🎥 A câmera tenta registrar tudo

Naturalmente levei a câmera comigo.

Filmei a maquete procurando registrar aqueles detalhes.

Os trilhos.

As construções.

As pontes.

A rotunda.

O bonde.

Os veículos.

As pessoas.

Os cachorros.

A oficina.

Os controles.

As luzes.

Os movimentos.

Mas existe um problema.

O vídeo nunca captura tudo.

Não porque a câmera seja ruim.

Mas porque nosso olhar funciona de maneira diferente.

Quando estamos diante de uma maquete dessas, podemos parar.

Voltar.

Aproximar.

Olhar novamente.

Descobrir alguma coisa escondida atrás de uma construção.

Perceber uma figura que estava ali desde o começo.

Então olhar pela terceira vez e descobrir mais alguma coisa.

A câmera registra aquilo para onde apontamos.

A memória registra também aquilo que sentimos.

🔎 Sempre havia alguma coisa que eu não tinha visto

Talvez essa seja minha lembrança mais forte daquela visita.

A sensação de descoberta permanente.

Eu olhava.

Encontrava alguma coisa.

Continuava.

Voltava.

E percebia:

— Caramba... isso estava aqui antes?

Estava.

Eu é que não tinha visto.

E isso se repetia.

Era justamente esse processo que tornava a maquete tão deliciosa de observar.

Ela recompensava quem tivesse paciência.

Não era uma atração para olhar durante cinco segundos e seguir adiante.

Era necessário explorar.

Quase como eu fazia com a própria Estação Cultura enquanto esperava Ana Paula terminar sua aula.

Talvez por isso aquelas duas experiências combinassem tão bem.

Do lado de fora eu explorava um gigantesco complexo ferroviário real procurando vestígios de seu passado.

Dentro da Cabine nº 2 eu explorava sua versão em miniatura procurando pequenos detalhes construídos pelos modelistas.

Macro e micro.

Ruína e preservação.

Passado e representação.

🕰️ Oito anos dentro de alguns metros quadrados

Pensar que aquele trabalho havia consumido anos de dedicação tornava tudo ainda mais impressionante.

Cada árvore precisou ser colocada.

Cada trilho, alinhado.

Cada construção, montada.

Cada personagem, posicionado.

Cada detalhe, pintado.

Cada circuito, instalado.

Cada problema elétrico, resolvido.

E certamente muita coisa foi feita, refeita e melhorada.

Quem observa uma maquete pronta durante alguns minutos dificilmente consegue perceber a quantidade de horas humanas escondidas dentro dela.

Talvez essa seja outra semelhança com uma ferrovia verdadeira.

O passageiro vê o trem chegando.

Não vê milhares de horas de manutenção, engenharia, sinalização, operação e trabalho necessárias para que aquilo aconteça.

Na maquete era parecido.

Víamos o pequeno trem circulando.

Por baixo dele existiam anos de trabalho.

🚂 Um mundo que continuava existindo

Quando saí da Cabine nº 2 naquele sábado, Ana Paula provavelmente ainda estava envolvida com seu teatro.

E eu havia conseguido novamente matar algumas horas.

Mas chamar aquilo de simplesmente "matar o tempo" seria injusto.

Eu havia viajado.

Sem sair da estação.

Durante algum tempo caminhei por uma Campinas ferroviária reduzida a alguns metros quadrados.

Vi oficinas.

Pontes.

Trens.

Trabalhadores.

Cachorros.

Um bar.

Uma mesa de sinuca.

Um bonde.

Carros.

Caminhões.

Árvores.

Luzes.

Movimentos.

E provavelmente dezenas de coisas que estavam lá e que nem naquele dia consegui perceber.

Talvez essa seja a maior qualidade de uma grande maquete ferroviária.

Você nunca termina realmente de olhar.

Sempre existe outra pequena história escondida em algum canto.

E, tantos anos depois, aquele vídeo ainda permite fazer exatamente a mesma coisa:

dar play...

aproximar os olhos...

e procurar mais uma vez por algum pequeno detalhe que passou despercebido.

Porque dentro daquela antiga Cabine nº 2 havia algo muito maior que uma maquete.

Havia um mundo inteiro esperando para ser descoberto.

☕🚂 Bellacosa Mainframe — histórias, máquinas, memória e aqueles pequenos detalhes que só aparecem para quem resolve olhar uma segunda vez.

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Rica em detalhes


Para quem ama ferromodelismo esta mini ferrovia tem tudo para alegrar.

Construída por um grupo de amigos no decorrer de 8 anos, foram incorporados diversos temas, construções, diversas linhas se intercomunicam fazendo um show para os visitantes.

 Sem contar a sensação única de estar na cabine de controle, onde os operadores através de alavancas, movimentavam os trilhos para ligar ramais internos a malha ferroviária.

Nesta maquete tem diversos tipos de túneis, pontes, construções e ate uma replica de uma refinaria de petróleo.


sábado, 28 de maio de 2016

As pontes da maquete em Campinas

Bellacosa Mainframe e a maquete de pontes e ferromodelismo 

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

As pontes da maquete em Campinas

Para entender meu fascínio pelo ferromodelismo, precisamos voltar muito antes desta visita à Estação Cultura de Campinas. Precisamos voltar à década de 1970.

Desde a infância sou apaixonado por trenzinhos.

E talvez a primeira explicação esteja no meu pai. Ele também gostava de trens e, de alguma maneira, legou-me esse fascínio. Antes que eu soubesse o que significavam palavras como ferromodelismo, diorama, escala HO ou escala N, já existia aquele encantamento infantil diante de uma pequena locomotiva dando voltas sobre os trilhos.

Meus primeiros trens eram brinquedos simples.

Trenzinhos a pilha.

Os trilhos de plástico formavam uma pista redonda ou, quando o conjunto permitia uma pequena extravagância ferroviária, um enorme oito no chão.

E aquilo bastava.

🚂 Tchuc-tchuc-tchuc...

A locomotiva passava novamente.

Mais uma volta.

E outra.

Para uma criança, entretanto, ela não estava simplesmente repetindo o mesmo percurso. Cada volta podia representar uma viagem diferente.



🚉 Os trens que eu não podia ter

É importante colocar essa lembrança dentro da realidade daquela época.

Éramos pobres.

Brinquedos sofisticados custavam caro e o orçamento familiar simplesmente não permitia determinadas extravagâncias. Um Ferrorama da Estrela já representava outro universo. E aqueles modelos ferroviários realistas, com locomotivas, vagões, trilhos, desvios, estações e acessórios em escalas como HO e N, muito mais.

Os modelos importados então pareciam pertencer a outro planeta.

Eu podia olhar.

Podia desejar.

Podia imaginar.

Mas não podia ter.

Curiosamente, isso não matou o fascínio.

Talvez tenha acontecido exatamente o contrário.

O desejo ficou guardado.



🛤️ Décadas depois...

O menino cresceu.

Passaram-se os anos, vieram computadores, trabalho, viagens, família, responsabilidades e milhares de quilômetros percorridos por ferrovias verdadeiras.

Mas alguma coisa permaneceu exatamente no mesmo lugar.

Quando encontro uma exposição ou um clube de ferromodelismo, ainda paro para olhar.

E não olho apenas para o trem.

Olho para tudo.

As pequenas casas.

Os postes.

As árvores.

As estações.

Os desvios.

Os túneis.

As passagens de nível.

As pontes.

Principalmente as pontes.

É impressionante pensar nas dezenas, centenas e às vezes milhares de horas de trabalho necessárias para construir um grande diorama ferroviário.

Uma pessoa olha durante cinco minutos.

O modelista talvez tenha trabalhado cinco meses naquela pequena paisagem.

🔎 Espionando cada detalhe da ferrovia

Foi exatamente isso que fiz naquela visita de 2016.

Espionando cada detalhe da ferrovia.

Uma ponte metálica em miniatura deixa de ser simplesmente uma ponte.

Começo a observar sua estrutura.

Como o trilho atravessa o vão?

Como foram reproduzidos os pilares?

Existe vegetação embaixo?

Há uma estrada?

Um riacho?

Algum pequeno personagem escondido por ali?

E então o trem aparece.

A locomotiva atravessa a ponte e desaparece alguns segundos depois dentro de um túnel.

Para um adulto, sabemos perfeitamente o que aconteceu: um pequeno motor elétrico movimentou uma locomotiva em escala através de alguns metros de trilhos.

Para aquele menino que ainda mora em algum lugar dentro de mim...

o trem acabou de atravessar uma montanha.

🏗️ Pequenos mundos construídos por gigantes

É por isso que tenho enorme respeito pelos clubes e pelos praticantes do ferromodelismo.

Eles não estão simplesmente brincando de trenzinho.

Estão construindo mundos.

Um bom diorama mistura pesquisa histórica, eletricidade, eletrônica, carpintaria, pintura, escultura, arquitetura, paisagismo e conhecimento ferroviário.

Uma pequena ponte pode exigir horas de trabalho.

Uma montanha precisa parecer montanha.

A vegetação precisa convencer nossos olhos de que aquelas árvores minúsculas cresceram ali.

Uma estação precisa ter proporções coerentes.

E uma locomotiva circulando por tudo isso finalmente dá vida à paisagem.

Por isso gosto de prestigiar esse trabalho.

Porque sei que aquilo que observo durante algumas horas pode representar anos da vida de outras pessoas.

🚦 Estação Cultura e a Cabine de Controle 2

Campinas possui ainda um ingrediente especial nessa história.

A antiga estrutura ferroviária da cidade.

Visitar a Estação Cultura já significa entrar em um lugar carregado de memória. E conhecer espaços como a famosa Cabine de Controle 2 transforma a experiência em algo ainda mais interessante.

Existe uma ligação maravilhosa entre esses dois mundos.

Do lado de fora está a ferrovia que existiu em tamanho real.

Dentro encontramos pessoas reconstruindo partes daquele universo em miniatura.

Estações que desapareceram podem reaparecer.

Locomotivas que já não circulam voltam aos trilhos.

Pontes podem ser reconstruídas.

Paisagens podem ser preservadas.

É quase uma pequena máquina do tempo ferroviária.

☕ Algumas horas novamente criança

Talvez seja exatamente por isso que continuo visitando exposições e clubes de ferromodelismo.

Não estou tentando comprar hoje todos os brinquedos que não pude ter na infância.

É algo muito mais interessante.

Estou preservando a capacidade de me maravilhar.

Durante algumas horas, desaparecem o analista de sistemas, os compromissos, os problemas, os boletos e todas aquelas coisas que inevitavelmente acompanham a vida adulta.

Fico olhando uma locomotiva desaparecer dentro de um túnel.

Espero alguns segundos.

Ela aparece do outro lado.

Passa pela pequena estação.

Cruza uma ponte.

Faz a curva.

E volta.

Exatamente como aquele velho trenzinho a pilha fazia décadas atrás.

Talvez seja esse o grande segredo do ferromodelismo.

A escala pode ser HO.

Pode ser N.

Pode ser outra qualquer.

Mas existe uma escala que nunca aparece escrita na caixa:

a escala da memória.

Nela, uma pequena locomotiva pode carregar uma infância inteira.

E toda vez que o trem completa mais uma volta pelo diorama, de alguma maneira também completo uma enorme volta através do tempo.

Volto à década de 1970.

Volto ao meu pai.

Volto ao chão de casa.

Volto àquela pista redonda.

E, durante alguns minutos, aquele homem parado diante da maquete da Estação Cultura volta a ser simplesmente um menino olhando maravilhado para seu trenzinho.

🚂 Tchuc-tchuc-tchuc...

Mais uma volta.

Só mais uma.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Porque algumas máquinas nos levam para frente. Outras têm o extraordinário poder de nos levar de volta.

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Espionando cada detalhe da ferrovia.


A maquete do grupo de ferro-modelismo de Campinas tem diversos pontos de interesse cultural e arquitectónico. Neste diorama encontramos pontes de ferro, pontes em madeira, pontilhoes e passagens de nível.



A parte mais divertida é a reproduçao de um boteco com mesa de bilhar e uma casa vagão invadida por algum cigano.

São tantos detalhes que vale uma segunda e terceira visita. Lembrando que esta aberta a visitas todos os sábados.

sábado, 21 de maio de 2016

8121 Teatro na Estaçao : A chegada do bebado

Bellacosa Mainframe e o final da peça na estação cultura

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🍷 Quando o Teatro Saiu do Palco — A Noite em que Ulisses Tirou a Máscara

Uma peça na Estação Cultura, alguns copos de vinho e a descoberta de que certas histórias continuam muito depois de fecharem as cortinas

Eu e Ana Paula nos divertimos muito naquele dia de 2016.

A Estação Cultura de Campinas era um cenário perfeito para nossas pequenas aventuras. Enquanto ela participava das atividades de teatro, eu circulava por aquele enorme patrimônio ferroviário, fotografando, filmando, observando trilhos, corredores, plataformas e detalhes que normalmente passariam despercebidos.

Entre as apresentações daquele dia estava a história de Ulisses.

Em uma das cenas, o personagem bêbado finalmente chegava em casa depois de suas peregrinações por bares, festas e outros lugares pouco recomendáveis. Era teatro. Era representação. Nós assistíamos, ríamos e acompanhávamos aquela figura exagerada caminhando entre o cômico e o trágico.

Só que algumas peças terminam quando as cortinas fecham.



Outras continuam dentro da cabeça da gente.

Horas depois fomos a uma pizzaria.

Conversamos, comemos, bebemos vinho. Depois de alguns copos, alguma coisa mudou. Certas emoções começaram a aparecer e assuntos normalmente escondidos encontraram uma porta aberta.

Hoje, revendo o vídeo quase dez anos depois, consigo associar aquela conversa ao que havíamos assistido algumas horas antes.

Talvez Ulisses tivesse tocado involuntariamente em alguma ferida antiga.

Não posso saber exatamente o que aconteceu dentro da cabeça da Paula naquele momento. Tampouco seria correto transformar uma lembrança minha em diagnóstico sobre outra pessoa. Mas conhecendo posteriormente partes de sua história, compreendi que determinadas cenas provavelmente encontraram lembranças que já estavam ali.

E o álcool possui uma característica perigosa: diminui alguns dos filtros que utilizamos para administrar nossas emoções.

Não é um soro da verdade.

Mas algumas portas que permanecem cuidadosamente fechadas podem ficar entreabertas.

Naquela noite conheci uma Paula diferente.

Ela sempre foi uma pessoa de extremos. Em determinados momentos podia ser extraordinariamente liberal, impulsiva e aventureira; pouco depois podia assumir posições extremamente conservadoras. Na época, algumas dessas contradições pareciam incompreensíveis.

Com o passar dos anos comecei a enxergá-las de outra maneira.

Talvez não fossem simplesmente contradições.

Havia uma mulher com experiências anteriores, cicatrizes, desejos, medos e mecanismos de defesa que eu ainda estava aprendendo a conhecer.

A pizzaria acabou funcionando como um inesperado segundo palco.

No primeiro, um ator interpretava Ulisses.

No segundo, não existiam atores.

Existiam duas pessoas sentadas diante de uma pizza e algumas taças de vinho.

Felizmente, permaneci calmo. Não transformei aquele momento emocional em discussão. Algumas coisas foram simplesmente deixadas passar, e nossa noite terminou bem.

Mas alguma coisa ficou comigo.

Aprendi que frequentemente conhecemos apenas a versão social das pessoas: aquela cuidadosamente preparada para trabalhar, namorar, conversar e enfrentar o cotidiano.

Por baixo dela existe uma história inteira que não enxergamos.

Curiosamente, durante a apresentação eu mexi na câmera e perdi justamente o grande monólogo final de Ulisses. Na época fiquei frustrado porque considerei aquele momento fantástico.

Dez anos depois, entretanto, percebo uma ironia.

Talvez eu não tenha perdido o verdadeiro último ato.

Porque naquela noite o teatro não terminou na Estação Cultura.

O último ato aconteceu algumas horas depois, numa pizzaria de Campinas.



E naquele palco improvisado não havia personagens, figurinos ou roteiro.

Havia apenas vinho, memórias e, por alguns instantes, uma máscara que caiu.

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O bêbado chega a casa


Após uma noite de bebedeira andando em bares, bordeis, bailes e outras cositas mais.

Nosso personagem retorna ao lar e encontra sua amada esposa dormindo...



Perde-se nesses pensamentos e retira minha câmera perdendo o gran finale kkkkkk

A plateia como grande vouyer acompanha o desenrolar final desta macarrônica historia. Meio chato nao me deixou filmar o final desta tragicomédia... pena, o monologo final foi fantástico que valeria a pena partilhar aqui.



☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🎭 Teatro na Estação — Campinas 2016

Uma viagem pelos registros do Teatro na Estação, na Estação Cultura de Campinas, incluindo a passagem de Ulisses à Deriva em 21 de maio de 2016.

Esta coleção reúne vídeos, relatos e memórias registrados durante o evento Teatro na Estação, preservando diferentes momentos da programação cultural realizada na antiga estação ferroviária de Campinas.

🚂 Uma estação transformada em palco

Em maio de 2016, a Estação Cultura de Campinas recebeu apresentações em que teatro, música, performances e personagens ocuparam plataformas, vagões e antigos espaços ferroviários.

Estes registros formam uma pequena memória digital daquele encontro entre ferrovia, patrimônio histórico, teatro, música e cultura em Campinas.

Entre as apresentações estava Ulisses à Deriva, montagem relacionada ao universo de Ulysses, de James Joyce, transformando a antiga estação em mais uma parada na longa viagem de Leopold Bloom.

📺 Visor — Teatro na Estação Artigo principal carregado
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📚 Teatro, ferrovia e memória cultural de Campinas

O projeto Teatro na Estação ocupou a histórica Estação Cultura de Campinas com apresentações, música, teatro e performances. Estes registros publicados no Bellacosa Mainframe preservam diferentes fragmentos daquela experiência cultural.

A coleção inclui cenas relacionadas a Ulisses à Deriva, além de músicos, personagens, performances e intervenções realizadas no ambiente ferroviário.

O conjunto conecta temas como Campinas, Estação Cultura, patrimônio ferroviário, teatro brasileiro, James Joyce, Ulysses, Leopold Bloom, Molly Bloom, literatura, música e memória cultural.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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