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| Bellacosa Mainframe e a libelula na janela |
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Um Café no Bellacosa Mainframe🪷 Uma Libélula na Janela — Duas Crianças Separadas por Décadas
Às vezes basta uma vidraça, uma libélula e duas crianças curiosas — mesmo que uma delas já tenha crescido há algumas décadas.
Era março de 2016.
Estávamos em Sorocaba, na casa da Daniela e de seu marido, Pedro. Daniela, irmã da Juliana e tia do João, tinha uma característica que sempre achei muito especial: quando podia, inventava algum motivo para reunir a família.
E nem precisava existir motivo.
Não era aniversário.
Não era Natal.
Não era casamento.
Não havia solenidade, discurso ou obrigação.
Era simplesmente:
— Vamos nos encontrar?
E pronto.
Família reunida, comida na mesa, conversa, risadas e algumas horas juntos.
Talvez sejam justamente esses encontros aparentemente sem importância que, muitos anos depois, descobrimos terem sido alguns dos mais importantes.
🍽️ Bacalhau, vinho e sofá
Naquele dia tivemos um delicioso bacalhau.
Comemos, conversamos, rimos bastante e fizemos aquilo que normalmente acontece depois de uma boa refeição familiar: começamos lentamente a escorregar pelo sofá.
Aquela deliciosa preguiça pós-almoço.
Barriga cheia.
Conversa ficando mais lenta.
Corpo procurando a posição perfeita entre sentado e deitado.
Nenhuma aventura parecia programada para aquela tarde.
Até aparecer o Formiga.
João, nosso querido Formiga, tinha encontrado alguma coisa.
Na enorme vidraça que fazia parte da sala havia pousado um inseto diferente.
Ele não sabia exatamente o que era.
E havia aquela mistura maravilhosa que as crianças possuem diante do desconhecido:
receio e curiosidade.
Primeiro olhou de longe.
Depois resolveu chamar alguém para investigar.
E lá fui eu.
🔍 Tio, vem ver isso aqui...
Aproximamo-nos da vidraça.
Olhei para o inseto.
Uma libélula.
Para o Formiga aquilo era novidade.
Para mim, porém, aquela pequena criatura imediatamente abriu uma gaveta que estava fechada havia décadas.
De repente eu não estava apenas naquela sala em Sorocaba.
Uma parte de mim havia voltado para Quiririm.
E o Vagner adulto encontrou novamente o Vaguinho.
🌾 As libélulas da minha infância
Na minha infância em Quiririm, libélulas não eram exatamente uma raridade.
A paisagem ajudava.
Havia plantações de arroz, áreas alagadas, pântanos, riachos e muita água. Era justamente o tipo de ambiente onde esses insetos apareciam com frequência.
Para nós, crianças, faziam parte daquele pequeno universo.
E uma de nossas brincadeiras era tentar capturá-las.
Não existia Google.
Não havia celular.
Não existia aplicativo identificando espécies pela câmera.
A descoberta começava olhando.
Chegando perto.
Observando.
Tentando entender.
Às vezes tentando pegar.
A natureza era simultaneamente nosso playground, laboratório e Discovery Channel.
Enquanto olhava aquela libélula na vidraça de Sorocaba, comecei a contar essas histórias para o Formiga.
E aconteceu algo curioso.
Durante alguns minutos, desapareceram as décadas que nos separavam.
Não havia mais exatamente um adulto ensinando uma criança.
Havia duas crianças investigando uma libélula.
Uma delas apenas estava algumas décadas atrasada no calendário.
📹 Vamos filmar!
Foi quando tive a ideia de pegar a filmadora.
Se havia aprendido alguma coisa ao longo da vida era que momentos aparentemente banais desaparecem depressa demais.
Na época escrevi uma frase no blog:
“Toda oportunidade é única.”
E aquela era uma delas.
Não porque estivesse acontecendo alguma coisa extraordinária.
Justamente pelo contrário.
Era uma tarde absolutamente comum.
Uma família reunida.
Um bacalhau já devidamente devorado.
Adultos espalhados pelos sofás.
Uma criança.
Uma vidraça.
E uma libélula.
Mas a vida é construída principalmente desses momentos.
Então comecei a filmar.
🪷 Um pequeno laboratório na vidraça
Agora tínhamos um espécime para observar.
Começamos a reparar em tudo.
As asas.
O formato do corpo.
Os enormes olhos.
As pernas.
A maneira como permanecia parada.
Depois o voo.
A mudança repentina de direção.
A forma como tentava compreender aquele estranho obstáculo transparente chamado vidro.
Para qualquer outro adulto passando pela sala, provavelmente seria apenas:
— Ah, uma libélula.
Para o Vaguinho e seu parça Formiga, entretanto, aquilo havia se transformado num excelente exemplar para estudo comportamental.
Observávamos.
Comentávamos.
Criávamos hipóteses.
Comparávamos movimentos.
Tentávamos descobrir o que ela faria em seguida.
Era ciência?
Formalmente, claro que não.
Mas ali estava talvez uma das raízes mais importantes da ciência:
a curiosidade.
Antes de existir laboratório, existe uma pergunta.
Antes da resposta, alguém precisa olhar para alguma coisa e pensar:
“Que negócio é esse?”
👦 Vaguinho encontra Formiga
Talvez seja essa a parte da história de que mais gosto hoje.
A libélula conectou duas épocas.
De um lado estava o Formiga, conhecendo aquele inseto.
Do outro estava eu, recordando as libélulas que havia observado quando criança em Quiririm.
O menino diante daquela vidraça em 2016 estava descobrindo.
O menino que eu havia sido décadas antes estava lembrando.
E o adulto no meio dos dois estava tentando preservar aquele encontro.
É engraçado como nossa idade biológica às vezes perde completamente a importância.
Coloque diante de mim uma locomotiva, um aquário, uma máquina antiga, um computador, um inseto estranho ou qualquer mecanismo interessante e existe uma boa possibilidade de o Vagner desaparecer durante alguns minutos.
Quem assume é o Vaguinho.
— Como funciona?
— Por que faz isso?
— Olha aquilo!
— Você viu?
Talvez envelhecer bem tenha alguma relação com conseguir manter essa criança funcionando em algum endereço escondido da memória.
🧠 Curiosidade não deveria ter prazo de validade
Existe uma coisa fantástica nas crianças: elas ainda não aprenderam quais coisas “não são importantes”.
Uma libélula pode ser um acontecimento.
Uma pedra diferente pode parar uma caminhada.
Um besouro pode render quinze minutos de investigação.
Uma locomotiva pode consumir uma tarde inteira.
Adultos tornam-se eficientes demais.
Olham e classificam:
Inseto.
Pronto.
Resolvido.
A criança pergunta:
Que inseto?
Por que essas asas são assim?
Como ele voa?
Onde vive?
Ele morde?
O que come?
Por que veio parar aqui?
E cada resposta produz outras cinco perguntas.
Naquela tarde, resolvi participar do jogo.
🕰️ Dez anos depois...
E aqui está talvez a parte mais interessante de ter registrado tudo.
Em 2016 aquilo parecia apenas um pequeno vídeo.
Uma postagem minúscula no blog.
Um daqueles registros que fazemos quase sem pensar.
Mas os anos passam.
As crianças crescem.
As casas mudam.
As famílias mudam.
As rotinas mudam.
Nós mudamos.
E aquele pequeno arquivo permanece congelado no tempo.
Daniela criando mais um daqueles encontros familiares sem grandes objetivos.
Pedro em sua casa.
Juliana.
João ainda pequeno.
O bacalhau.
As risadas.
O sofá.
A enorme vidraça.
E uma libélula que provavelmente jamais imaginou que acabaria registrada na internet e lembrada uma década depois.
Talvez seja justamente por isso que sempre gostei de fotografar, filmar e escrever.
No momento do registro nunca sabemos realmente o valor futuro de uma memória presente.
🪷 Comunicado oficial da Sociedade Protetora das Libélulas
Antes que algum defensor dos direitos dos insetos abra uma investigação contra o Vaguinho e o Formiga, deixo registrada uma informação fundamental:
nenhuma libélula foi ferida durante a produção desta história.
O espécime foi observado, analisado, admirado e posteriormente liberado para continuar normalmente sua existência.
Ao final da experiência, cada espécie seguiu sua vida.
Os Homo sapiens ficaram com uma história para contar.
E a libélula provavelmente saiu voando enquanto pensava:
“Mas o que raios queriam aqueles dois?”
Nunca saberemos.
☕ O verdadeiro tesouro daquela tarde
Revendo essa pequena história tantos anos depois, percebo que a protagonista talvez nem fosse realmente a libélula.
Era a curiosidade compartilhada.
Eu poderia simplesmente ter dito:
— É uma libélula, Formiga.
E voltado para o sofá.
Assunto encerrado em três segundos.
Mas fomos olhar.
Depois fomos observar.
Depois veio uma história da minha infância.
Depois apareceu a filmadora.
Depois nasceu uma memória.
E dez anos mais tarde aquela memória ainda existe.
Talvez educar uma criança não seja apenas entregar respostas.
Às vezes é simplesmente aceitar o convite quando ela aparece dizendo:
— Vem ver uma coisa!
Levantar do sofá.
Ir até a janela.
Olhar junto.
E demonstrar que o mundo continua sendo um lugar suficientemente interessante para merecer nossa atenção.
Naquela tarde, uma libélula pousou numa vidraça em Sorocaba.
Para a maioria das pessoas seria apenas um inseto.
Para duas crianças curiosas separadas por algumas décadas, porém, havia acabado de chegar uma pequena aula de biologia, comportamento, memória e vida.
O Formiga ganhou uma história sobre o Vaguinho de Quiririm.
O Vaguinho ganhou alguns minutos para voltar à infância.
Eu ganhei uma lembrança.
E a libélula?
Bem...
Ela conseguiu escapar daqueles dois estranhos pesquisadores e provavelmente viveu o restante de sua vida sem jamais compreender como uma simples parada numa janela havia provocado tamanha comoção.
Toda oportunidade é única.
Ainda bem que naquele dia resolvi levantar do sofá.
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