✨ Bem-vindo ao meu espaço! ✨
Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens.
Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê.
Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão.
Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
“COBOL 4 não é ruptura.
É a IBM dizendo: ‘vamos modernizar… sem quebrar nada’.”
— Bellacosa, depois de recompilar 3 milhões de linhas
🧬 Contexto histórico: onde o COBOL 4.00 se encaixa
O Enterprise COBOL for z/OS 4.0 faz parte da família COBOL 4.x, que surgiu no início da década de 2010, num momento crítico:
Mainframes mais poderosos (z10, z196)
Arquitetura 64 bits amadurecendo
Pressão por performance, modernização e integração
COBOL 3 ainda dominante… mas envelhecendo
👉 O COBOL 4 não veio para “mudar a linguagem”.
Veio para mudar o compilador.
📅 Data de lançamento (contexto realista)
Enterprise COBOL for z/OS 4.0: final de 2007 e primordios da primeira década de 2010.
Consolidação real aconteceu nas versões 4.1 / 4.2
Foi o degrau obrigatório antes do COBOL 5.x
💡 Tradução Bellacosa:
Se você saiu do COBOL 3 direto para o 5, o 4 foi o “meio do caminho” que você pulou… e pagou depois.
🖥️ Equipamentos mainframe indicados
COBOL 4 foi feito para explorar hardware moderno da IBM:
Mainframes ideais:
IBM z10
IBM z196
IBM zEC12
Totalmente compatível com zEnterprise
Por quê?
Porque o COBOL 4:
Gera código mais otimizado
Explora melhor o pipeline do processador
Se beneficia de novas instruções de CPU
🥚 Easter-egg:
Recompilar COBOL antigo em COBOL 4 sem mudar uma linha já dava ganho de performance.
🔄 O que muda em relação ao COBOL 3.x?
🧠 1️⃣ Compilador totalmente redesenhado
Novo backend
Melhor otimização de código
Melhor uso de registradores
👉 O código fonte parece igual.
👉 O código objeto não é.
⚙️ 2️⃣ Melhor suporte a arquitetura moderna
Preparação para 64 bits
Melhor alinhamento de dados
Base para o futuro COBOL 5 (LE-only)
📊 3️⃣ Performance real
Redução de CPU em batch
Melhor performance em loops
Melhor otimização de PERFORM
🥚 Easter-egg:
Muitos shops recompilaram só para economizar MIPS.
🧨 4️⃣ Mais rigor (menos permissividade)
Alguns “pecados antigos” começaram a ser cobrados:
Dados mal definidos
Uso implícito perigoso
Código que “sempre funcionou” 😅
👉 COBOL 4 começa a expor bugs escondidos há 20 anos.
🧪 Exemplo simples (nada muda… mas muda tudo)
IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. EXEMPLO4.
DATA DIVISION.
WORKING-STORAGE SECTION.
01 WS-TOTAL PIC 9(9) VALUE 0.
PROCEDURE DIVISION.
PERFORM 10 TIMES
ADD 1 TO WS-TOTAL
END-PERFORM
DISPLAY WS-TOTAL
STOP RUN.
➡ Em COBOL 3: funciona
➡ Em COBOL 4: funciona mais rápido
💡 O ganho está no objeto gerado, não no código.
🛠️ Dicas técnicas Bellacosa Approved™
✔ Recompile, mesmo sem modernizar
COBOL 4 já entrega valor só na recompilação
✔ Use parâmetros certos:
OPTIMIZE
ARCH
SSRANGE (para pegar erro escondido)
✔ Teste batch crítico
Principalmente cálculos
Principalmente datas
Principalmente arredondamentos
✔ Compare CPU antes/depois
Você vai se surpreender
⚠️ Armadilhas clássicas
🚨 Código que dependia de comportamento indefinido
🚨 Campos mal alinhados
🚨 MOVE CORRESPONDING em estruturas duvidosas
🚨 Arredondamento implícito não documentado
🥚 Easter-egg cruel:
COBOL 4 não cria bug.
Ele revela.
🧠 Curiosidades de bastidor
COBOL 4 foi o primeiro passo sério rumo ao LE-only
Muitas empresas ficaram “presas” no 4 por anos
Ele é visto como a versão mais estável da transição
Serviu de base para o radical COBOL 5
🧘 Primeiros passos para o Padawan
Se você está começando agora:
1️⃣ Entenda COBOL clássico primeiro
2️⃣ Saiba compilar e linkar
3️⃣ Entenda parâmetros de compilação
4️⃣ Recompile código antigo e observe
5️⃣ Leia o listing — ele ensina mais que o código
“Quem lê o listing, domina o mainframe.”
🧠 Visão Bellacosa Final™
O COBOL 4.00 não é famoso.
Não é revolucionário.
Não é hype.
Mas ele é:
Estável
Inteligente
O verdadeiro ponto de virada técnico do COBOL moderno
Se o COBOL fosse uma saga:
COBOL 3 = trilogia clássica
COBOL 4 = o episódio de transição
COBOL 5 = o reboot corajoso
E lembre-se, Padawan:
“Modernizar não é reescrever.
É entender o que funciona… e deixar melhor.”
Bellacosa Mainframe e os caçadores de fantasma em Ghost Hunt
☕💣👻 OPERADOR, EXISTEM JOBS EXECUTANDO NO ALÉM!
GHOST HUNT — O ANIME QUE TRANSFORMOU CAÇA-FANTASMAS EM UMA OPERAÇÃO DE DEBUG SOBRENATURAL DE ALTO RISCO
📋 Ficha Técnica
Item
Informação
Título Original
ゴーストハント (Ghost Hunt)
Título Internacional
Ghost Hunt
Autora Original
Fuyumi Ono
Ilustrações da Novel
Shiho Inada
Estúdio
J.C.Staff
Diretor
Rei Mano
Exibição Original
3 de outubro de 2006 a 27 de março de 2007
Episódios
25
Origem
Light Novel
Gênero
Terror, Mistério, Sobrenatural, Investigação, Suspense, Drama
Classificação Indicativa
14 anos
Status
Concluído
☕ Introdução
Existem animes de terror que tentam assustar usando sangue.
Existem animes que usam monstros.
Existem animes que usam violência psicológica.
E existe Ghost Hunt, que consegue causar desconforto apenas com um corredor vazio, uma porta fechada ou um ruído vindo do andar de cima.
O que torna Ghost Hunt especial é que ele mistura:
Investigação científica
Paranormalidade
Espiritualidade japonesa
Psicologia
Folclore oriental
Tudo isso embalado como se fosse uma série de casos investigativos.
É praticamente um cruzamento entre:
Arquivo X
Supernatural
Scooby-Doo (versão adulta)
CSI Paranormal
📖 Sinopse
Mai Taniyama é uma estudante comum que gosta de contar histórias de fantasmas.
Ao se envolver acidentalmente em uma investigação paranormal conduzida pela empresa:
Shibuya Psychic Research (SPR)
ela acaba tornando-se assistente do brilhante e arrogante investigador:
Kazuya Shibuya (Naru)
A partir daí, Mai passa a participar de casos envolvendo:
Escolas assombradas
Mansões amaldiçoadas
Espíritos vingativos
Possessões
Poltergeists
Fenômenos inexplicáveis
Cada caso leva a equipe para situações cada vez mais perigosas.
📚 A História por Trás da Obra
Ghost Hunt nasceu como uma série de novels escritas por Fuyumi Ono durante os anos 1980.
Curiosamente, a autora pesquisou profundamente:
Parapsicologia
Fenômenos sobrenaturais
Religiões orientais
Casos paranormais reais
Isso explica por que a obra possui uma abordagem muito mais técnica do que a maioria dos animes do gênero.
Enquanto outros animes simplesmente dizem:
"É um fantasma."
Ghost Hunt pergunta:
"Temos certeza?"
👻 O Que Torna Ghost Hunt Diferente?
Aqui está o grande diferencial.
Na maioria dos animes de terror:
Fantasma → susto → exorcismo.
Fim.
Em Ghost Hunt:
Fantasma → investigação → coleta de evidências → hipóteses → confronto de teorias → conclusão.
Parece quase uma análise de incidente em produção.
☕ Analogia Bellacosa Mainframe
Imagine um ambiente z/OS.
Surge um problema misterioso.
Ninguém sabe a causa.
Os logs não mostram nada.
Os operadores estão desesperados.
Os usuários reclamam.
O gerente quer respostas.
É exatamente isso que acontece em Ghost Hunt.
Só que em vez de:
JES2
CICS
DB2
os problemas envolvem:
Espíritos
Maldições
Assombrações
Possessões
Naru é basicamente um Analista de Suporte Nível 3 especializado em incidentes sobrenaturais.
🧑💻 Principais Personagens
👻 Mai Taniyama
A protagonista.
Representa o espectador.
Curiosa.
Impulsiva.
Corajosa.
É através dela que aprendemos as regras daquele universo.
🕶️ Kazuya "Naru" Shibuya
O cérebro da operação.
Frio.
Lógico.
Extremamente inteligente.
Age como um dump analyzer humano.
Nada escapa à sua investigação.
✝️ John Brown
Padre católico.
Especialista em exorcismos.
Uma das figuras mais equilibradas da série.
🔥 Houshou Takigawa
Monge budista.
Responsável pelos rituais orientais.
Também fornece momentos de humor.
⛩️ Ayako Matsuzaki
Sacerdotisa xintoísta.
Muitas vezes entra em conflito com Naru.
Representa a fé tradicional japonesa.
🔮 Masako Hara
Médium profissional.
Possui uma conexão espiritual muito mais forte do que aparenta.
🏚️ As Grandes Aventuras
Diferentemente de muitos animes, Ghost Hunt funciona por arcos independentes.
Cada caso é praticamente um incidente diferente.
Escola Assombrada
O clássico ponto de partida.
Corredores escuros.
Barulhos.
Sombras.
Uma excelente introdução ao universo.
Mansão dos Espíritos
A equipe enfrenta fenômenos muito mais agressivos.
Aqui percebemos que algumas entidades são perigosas de verdade.
Casa dos Bonecos
Um dos arcos mais perturbadores.
Utiliza o medo psicológico de forma magistral.
Labirinto Sangrento
Considerado por muitos fãs o melhor caso da série.
O nível de tensão sobe drasticamente.
Possessões e Exorcismos
Os casos finais exploram temas mais pesados:
Morte
Culpa
Trauma
Obsessão
🧠 As Mensagens Ocultas
Ghost Hunt possui muito mais profundidade do que aparenta.
O Medo do Desconhecido
A obra sugere que aquilo que não entendemos sempre parece sobrenatural.
É uma discussão constante entre:
Ciência
versus
Crença
A Verdade Pode Ser Assustadora
Muitas vezes o verdadeiro horror não é o fantasma.
É a história por trás dele.
Trauma Não Desaparece
Diversos espíritos representam emoções não resolvidas.
Mágoa.
Dor.
Arrependimento.
Culpa.
Nem Tudo Tem Explicação
Mesmo Naru, com toda sua lógica, encontra fenômenos impossíveis de explicar completamente.
🎭 Simbolismos Escondidos
Cada membro da equipe representa uma forma diferente de interpretar a realidade.
Personagem
Simbolismo
Naru
Ciência
Ayako
Tradição
John
Fé
Masako
Sensibilidade
Mai
Curiosidade
Takigawa
Espiritualidade
A série mostra que nenhuma visão é suficiente sozinha.
🎨 Qualidade da Animação
O estúdio J.C.Staff fez um excelente trabalho.
Em vez de investir em ação exagerada, apostou em:
Atmosfera
Iluminação
Som ambiente
Silêncio
O resultado envelheceu surpreendentemente bem.
🚫 Houve Censura?
Não houve censura significativa.
Entretanto, o anime suavizou alguns elementos das novels.
As obras originais possuem:
Mais violência psicológica
Casos mais detalhados
Explicações mais profundas
Desenvolvimento maior de Naru
Alguns fãs consideram as novels superiores justamente por isso.
🌎 Impacto Cultural
Ghost Hunt ajudou a popularizar um subgênero que mais tarde inspiraria obras como:
Another
Dark Gathering
Ghost Hound
Shinrei Tantei Yakumo
Dusk Maiden of Amnesia
Até hoje é frequentemente citado em listas de:
"Melhores animes de terror psicológico"
e
"Melhores histórias de fantasmas dos animes."
⭐ Avaliação Bellacosa Mainframe
Critério
Nota
Terror
9/10
Mistério
10/10
Atmosfera
10/10
Personagens
9/10
Suspense
10/10
Reassistibilidade
9/10
Impacto Emocional
8/10
Sobrenatural
10/10
☕ Conclusão
Ghost Hunt é um daqueles animes raros que não dependem de gore, violência extrema ou monstros gigantes para funcionar.
Seu verdadeiro poder está em criar a sensação de que existe algo errado no ambiente.
Algo observando.
Algo esperando.
Algo que não deveria estar ali.
Na linguagem do operador de mainframe:
Ghost Hunt é o equivalente a encontrar um JOB consumindo CPU há 40 anos, sem owner, sem documentação, sem JCL catalogada e sem ninguém vivo para explicar por que ele continua executando.
E quanto mais você investiga...
mais percebe que talvez fosse melhor nunca ter aberto o ticket. ☕👻💣🖥️
Porque naquele exato instante o pequeno e-mail é arrancado do conforto do cliente de correio eletrônico e lançado em uma das maiores burocracias automatizadas criadas pela humanidade.
Ele encontrará servidores SMTP, consultará DNS, procurará registros MX, atravessará conexões de rede e será interrogado por SPF, DKIM, DMARC, mecanismos de reputação, antispam, antivírus e políticas corporativas.
Tudo isso antes de conseguir tocar na sagrada pasta:
INBOX.
Nosso pequeno e-mail ainda não sabe.
Mas alguém bate à porta.
— Toc, toc.
— Quem está aí?
Três homens aparecem.
Vestidos de vermelho.
O primeiro carrega uma enorme documentação de DNS.
O segundo segura uma chave criptográfica.
O terceiro traz uma política DMARC impressa em pergaminho.
E gritam:
NOBODY EXPECTS THE SPANISH INQUISITION!
Bem-vindo à autópsia de um e-mail.
🎬 Ato I — O botão SEND é apenas o começo
Uma das primeiras coisas que precisamos destruir é a ideia de que apertar SEND significa que o destinatário recebeu alguma coisa.
Não significa.
Significa apenas que você entregou a mensagem para a próxima etapa de uma cadeia.
Dependendo da arquitetura utilizada, existem diferentes componentes envolvidos, mas podemos imaginar inicialmente:
Usuário
│
▼
Cliente de e-mail
│
▼
Servidor de envio
│
▼
Internet
│
▼
Servidor destinatário
│
▼
Mailbox
De maneira simplificada, DMARC pode ser satisfeito quando existe SPF válido e alinhado ou DKIM válido e alinhado conforme suas regras.
O Grande Inquisidor olha para nosso pequeno e-mail.
— SPF?
— PASS!
— DKIM?
— PASS!
— Alignment?
Silêncio dramático.
Uma orquestra imaginária começa a tocar.
— PASS!
Todos comemoram.
O e-mail corre em direção à Inbox.
O Cardeal DMARC segura-o pela gola.
— Onde pensa que vai?
⚖️ Ato IX — none, quarantine ou reject
DMARC também permite que o domínio publique uma política.
Entre as políticas clássicas encontramos:
p=none
p=quarantine
p=reject
p=none permite essencialmente uma postura de monitoramento em relação ao tratamento DMARC.
p=quarantine solicita tratamento mais cauteloso para mensagens que falham à política.
p=reject solicita que mensagens que falhem sejam rejeitadas.
O domínio está dizendo ao mundo algo próximo de:
“Se alguém tentar se passar por mim e não atender às minhas regras de autenticação, eis como desejo que você trate a situação.”
Isso é extremamente importante contra determinadas formas de falsificação de identidade de domínio.
Mas existe uma pegadinha maravilhosa.
Nosso e-mail passou SPF.
Passou DKIM.
Passou DMARC.
Então está garantido na Inbox?
NÃO!
E essa é uma das lições mais importantes desta autópsia.
🕵️ Ato X — “Sabemos quem você é. Agora precisamos decidir se gostamos de você.”
Autenticação não é reputação.
Repita comigo:
autenticação não é reputação.
Um operador de spam pode possuir seu próprio domínio.
Pode configurar SPF corretamente.
Pode implementar DKIM.
Pode publicar DMARC.
E continuar enviando porcaria industrial em escala planetária.
Portanto, depois da Spanish Inquisition da autenticação, aparece outro departamento.
ANTISPAM.
Esse pessoal não usa roupas vermelhas.
Usa dashboards.
O que é muito mais assustador.
🔬 Ato XI — A máquina de suspeitar
Sistemas modernos de proteção de e-mail podem considerar uma quantidade enorme de sinais.
Por exemplo:
IP remetente
domínio
reputação
volume de mensagens
velocidade de envio
histórico
SPF
DKIM
DMARC
URLs
anexos
conteúdo
headers
padrões de phishing
malware
feedback de usuários
Não devemos imaginar necessariamente uma fórmula universal:
Received: from mail-a
by mail-b;
Received: from mail-b
by mail-c;
Essas informações ajudam a reconstruir partes do caminho percorrido pela mensagem.
É quase uma investigação forense.
A mensagem diz:
“Eu fui diretamente daqui até lá.”
O header responde:
“Curioso. Tenho testemunhas.”
🖥️ Ato XVI — O programador COBOL entra na investigação
Agora chegamos à parte Bellacosa Mainframe.
Alguém abre um incidente:
E-MAIL NÃO ESTÁ FUNCIONANDO.
Isso é quase tão útil quanto abrir um chamado dizendo:
COBOL DEU PROBLEMA.
Nossa primeira missão não é resolver.
É reduzir o universo do problema.
Pergunte:
Todos os usuários?
Um usuário?
Um domínio?
Um destinatário?
Mensagens externas?
Mensagens internas?
Somente mensagens com anexo?
Somente um tipo de anexo?
Começou quando?
Existe mensagem de erro?
Existe bounce?
Qual o timestamp?
Qual o Message-ID?
Veja como o incidente muda.
Antes:
EMAIL NÃO FUNCIONA
Depois:
Mensagens enviadas por determinado
domínio externo começaram a ser
rejeitadas às 03:17.
Agora temos alguma coisa investigável.
🥚 Easter egg — O incidente das 03:17
São 03:17.
Telefone toca.
— Bellacosa?
— Sim.
— O e-mail caiu.
Primeira pergunta:
— Todo o e-mail?
Silêncio.
— Não sei.
— Então ainda não sabemos se o e-mail caiu.
Essa frase deveria estar pregada na parede de toda War Room.
Porque existe uma tendência humana terrível de transformar:
“Qual foi o último ponto que sabemos que funcionou?”
Imagine:
Cliente
│
│ GOOD
▼
SMTP origem
│
│ GOOD
▼
DNS
│
│ GOOD
▼
MX
│
│ GOOD
▼
Servidor destino
│
│ GOOD
▼
SPF
│
│ GOOD
▼
DKIM
│
│ GOOD
▼
DMARC
│
│ ???
▼
Antispam
Pronto.
Acabamos de transformar um universo gigantesco em uma região investigável.
SMTP é fundamentalmente associado ao envio e transferência de mensagens.
Mas depois que a mensagem está armazenada, historicamente outros protocolos são utilizados para acesso às caixas postais.
Entre eles:
POP3
e:
IMAP.
Uma visão didática:
ALICE
│
SMTP
▼
SERVIDOR A
│
SMTP
▼
SERVIDOR B
│
├──── IMAP ────► BOB
│
└──── POP3 ────► CLIENTE
As arquiteturas modernas podem envolver APIs, sincronização proprietária, serviços em nuvem e inúmeras abstrações adicionais.
Mas essa separação é excelente para construir o modelo mental inicial:
SMTP transporta.
IMAP/POP tradicionalmente ajudam clientes a acessar mensagens armazenadas.
🧠 Ato XIX — O e-mail moderno é uma cadeia de confiança
Agora podemos finalmente enxergar o quadro completo.
Quando apertamos SEND, não estamos simplesmente transportando texto.
Estamos iniciando uma negociação de confiança.
O sistema precisa responder sucessivamente:
PARA ONDE?
│
▼
DNS / MX
QUEM ESTÁ CONECTANDO?
│
▼
SMTP / IP
ESTÁ AUTORIZADO?
│
▼
SPF
EXISTE ASSINATURA VÁLIDA?
│
▼
DKIM
AS IDENTIDADES ESTÃO ALINHADAS?
│
▼
DMARC
QUAL A REPUTAÇÃO?
│
▼
REPUTATION SYSTEMS
O CONTEÚDO É SUSPEITO?
│
▼
ANTISPAM
EXISTE AMEAÇA?
│
▼
ANTIMALWARE
QUAL O DESTINO?
│
▼
INBOX / SPAM / QUARANTINE / REJECT
E aqui está a grande diferença conceitual.
SPF, DKIM e DMARC não dizem simplesmente:
“Este e-mail é bonzinho.”
Eles trabalham com propriedades de autenticação, autorização e alinhamento de identidade.
Depois disso ainda existe outra pergunta:
“Mesmo sabendo melhor quem está falando, devo confiar no que ele trouxe?”
É exatamente por isso que autenticação e antispam coexistem.
🏛️ Ato XX — A Internet aprendeu a desconfiar
Nos primórdios das redes acadêmicas, muitos protocolos nasceram em ambientes muito diferentes da Internet comercial moderna.
A rede cresceu.
Vieram empresas.
Vieram milhões de usuários.
Vieram bilhões de mensagens.
E naturalmente vieram:
spam, phishing, malware, falsificação, campanhas automatizadas e fraude.
A arquitetura precisou ganhar camadas adicionais de defesa.
É um fenômeno recorrente na computação.
Primeiro criamos:
“Faça A conversar com B.”
Depois descobrimos que precisamos perguntar:
“Quem é A?”
Depois:
“A pode fazer isso?”
Depois:
“Posso provar que é A?”
Depois:
“Mesmo sendo A, seu comportamento é aceitável?”
É praticamente a história inteira da segurança da informação condensada em uma mensagem eletrônica.
🏰 Ato XXI — A Catedral do E-mail
Gosto de pensar nesses sistemas como catedrais.
Ninguém acordou numa terça-feira e desenhou toda a infraestrutura mundial de e-mail exatamente como ela existe hoje.
Camadas foram acrescentadas.
Problemas apareceram.
Soluções surgiram.
Protocolos foram ampliados.
Mecanismos de segurança foram incorporados.
E o resultado é uma construção que atravessa décadas mantendo enorme compatibilidade com conceitos antigos.
Isso deveria soar extremamente familiar para quem trabalha com mainframe.
O novo não necessariamente destrói o velho.
Muitas vezes:
o novo envolve o velho.
SMTP continua lá.
DNS continua lá.
Sobre eles construímos novas camadas.
Essa é uma das grandes lições da engenharia de sistemas maduros.
🇪🇸 Epílogo — O julgamento final
Nosso pequeno e-mail finalmente chega diante dos três inquisidores.
Depois de SMTP, DNS, MX, SPF, DKIM, DMARC, reputação, antispam, antimalware e políticas, finalmente cumpriu sua missão.
João chega ao escritório oito horas depois.
Abre a caixa postal.
Olha rapidamente para a mensagem.
E clica:
DELETE.
Silêncio absoluto.
SMTP olha para SPF.
SPF olha para DKIM.
DKIM olha para DMARC.
DMARC olha para o antispam.
Todos atravessaram meio planeta, executaram consultas DNS, verificaram identidades, calcularam criptografia, analisaram reputação e protegeram a infraestrutura para aquilo.
O Cardeal SPF pergunta:
— Podemos interrogá-lo novamente?
O Grande Inquisidor responde:
— Não.
— Por quê?
— Porque ninguém espera...
As portas se abrem.
...A SPANISH INQUISITION DO E-MAIL!
E em algum datacenter distante, às 03:17, outro alerta acaba de surgir.
SMTP DELIVERY FAILURE
O telefone toca.
— Bellacosa?
— Sim.
— O e-mail caiu.
— Todos?
Silêncio.
Pegue o café.
A investigação está apenas começando.
☕ Bellacosa Mainframe — moral da história
Nunca trate um sistema complexo como uma caixa preta chamada “não funciona”.
Divida-o em checkpoints.
Descubra quem falou com quem.
Identifique as evidências.
Encontre o último estado conhecido como GOOD.
Localize a transição:
GOOD
│
▼
GOOD
│
▼
GOOD
│
▼
???
│
▼
BAD
E comece exatamente ali.
Seja investigando SMTP, COBOL, CICS, Db2, MQ, RACF ou um job misteriosamente desaparecido no JES, o princípio continua extraordinariamente útil:
não interrogue o sistema inteiro quando você pode interrogar cada etapa.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe — z/OS 1.9: o gigante mais inteligente e autônomo da era System z
🕰️ Ano de lançamento
O IBM z/OS 1.9 foi lançado em setembro de 2007, acompanhando o IBM System z10 em seu ciclo de desenvolvimento — embora também suportasse o System z9.
Essa versão simboliza o amadurecimento da plataforma z/Architecture, consolidando avanços em autonomia, automação, segurança e processamento paralelo inteligente.
⚙️ Introdução técnica
Enquanto o z/OS 1.7 havia trazido a plena transição para 64 bits, o z/OS 1.9 foi a versão que deu “consciência situacional” ao sistema operacional.
Ele começou a analisar sua própria performance, otimizar cargas automaticamente e dialogar melhor com o hardware via novas interfaces do PR/SM e do z/Architecture.
E fazia jus ao nome. O 1.9 é considerado o primeiro z/OS verdadeiramente autonomic, aquele que gerencia, ajusta e distribui recursos de forma dinâmica, sem intervenção manual constante.
🧠 Avanços de arquitetura e uso de memória
Com suporte pleno a 64 bits, o z/OS 1.9 trouxe avanços notáveis:
Melhor gerenciamento de memória virtual, com page fixing otimizado e melhor cache awareness;
Expansão do suporte a Large Memory Objects (LMO), beneficiando cargas Java, DB2 e WebSphere;
Hipervisores e LPARs podiam agora consumir memória dinamicamente sem reboot, via Dynamic Storage Reconfiguration (DSR);
O sistema passou a entender afinidade de CPU/memória — recurso crucial para evitar latências em ambientes SMP (Symmetric Multi Processing).
Na prática, isso resultou em redução de page faults, melhor throughput em batch workloads e resposta mais rápida para transações CICS e IMS.
🧩 Aplicativos internos e softwares embarcados
O z/OS 1.9 trouxe grandes renovações no ecossistema IBM interno:
RACF (Security Server): novos controles de senha, expiração adaptativa, integração com LDAPv3 e criptografia AES-256 para chaves simétricas.
JES2 e JES3: otimizações no gerenciamento de spool e segurança, com controle refinado de job classes.
DFSORT e ICETOOL: passaram a explorar SIMD (Single Instruction, Multiple Data) da z/Architecture para aceleração de sorting.
RMF (Resource Measurement Facility): agora suportava métricas em tempo real integradas ao WLM — base para os primeiros dashboards de auto-tuning.
UNIX System Services (USS): maior compatibilidade com padrões POSIX, suporte a NFSv4 e novas APIs de rede para integração WebSphere/DB2.
Communications Server (TCP/IP stack): suporte robusto a IPv6, IPSec nativo, e QoS (Quality of Service) ajustável via WLM.
🔬 Instruções de máquina e firmware
O System z9 e o z/OS 1.9 trabalharam juntos para explorar novas instruções da z/Architecture:
Criptografia assistida por hardware (CPACF v2) — aceleração de AES, SHA e RSA diretamente no processador;
Instruções de controle de cache e pipeline, otimizando acessos concorrentes a memória;
Suporte a “Restartable Instructions”, garantindo integridade mesmo em falhas intermediárias;
Sincronização estendida (Compare-and-Swap, Fetch-and-Add) — base para virtualização eficiente e paralelismo seguro.
No firmware, o PR/SM (Processor Resource/System Manager) ganhou um salto em inteligência:
Capacidade de redistribuição automática de processadores lógicos entre LPARs com base no WLM;
Suporte aprimorado a zAAPs (Application Assist Processors) e zIIPs (Integrated Information Processors);
Introdução do Group Capacity Limit e Soft Capping Dinâmico — controle refinado de consumo de CPU por partição.
Essa combinação tornou o z/OS 1.9 um sistema operacional mais previsível, justo e elástico, precursor direto das políticas de cloud elástica do z/OS moderno.
🧮 Créditos de CPU e desempenho
No z/OS 1.9, os créditos de CPU (entitlement) ganharam vida nova:
Introdução do WLM Goal Mode aprimorado, que realoca créditos em tempo real;
Possibilidade de mover créditos entre LPARs sem intervenção;
Integração total com IRD (Intelligent Resource Director) — permitindo que o sistema negocie recursos entre workloads.
A consequência?
Mais performance em workloads DB2, WebSphere e CICS com menor custo por MIPS — e maior eficiência energética (conceito que começava a ser prioridade).
🧭 Curiosidades e bastidores
O z/OS 1.9 foi a primeira versão totalmente construída sobre z/Architecture, sem dependências de compatibilidade com 31 bits.
A IBM apelidou o projeto internamente de “Nova”, pois a meta era “iluminar” a inteligência dentro do mainframe.
Foi a última versão a rodar confortavelmente em System z9 BC, antes que o z/OS 1.10 se tornasse exclusivo de z10 e superiores.
Alguns engenheiros da época chamavam o WLM + IRD de “mini-cérebro”, por sua capacidade de autoajuste.
☕ Dica Bellacosa Mainframe
Se você é curioso sobre autotuning, WLM e virtualização, o z/OS 1.9 é uma joia de estudo.
Ele é leve o suficiente para rodar em ambientes zPDT/Hercules e rico o bastante para mostrar o início real da era autonomic — onde o mainframe aprendeu a pensar sozinho.
Além disso, suas métricas de RMF são excelentes para treinar operadores e analistas de performance.
📜 Resumo técnico rápido
Item
Descrição
Versão
z/OS 1.9
Ano de lançamento
2007
Hardware principal
IBM System z9 / início do z10
Arquitetura
z/Architecture (64-bit)
PR/SM
Redistribuição automática de CPU e memória
Processadores
Suporte total a zAAP e zIIP
WLM
Goal Mode dinâmico e autoajuste
Segurança
RACF com AES-256 e LDAPv3
Rede
IPv6, IPSec, QoS dinâmico
Curiosidade
Primeira versão “autonomic”, cognitiva e autoajustável da IBM
💬 “O z/OS 1.9 foi quando o mainframe deixou de apenas trabalhar — e começou a pensar.”
Bellacosa Mainframe explica o email e seu nêmese o SPAM
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🥫 SPAM, SPAM, SPAM! — Do ARPANET ao Príncipe Nigeriano
Uma história do e-mail, da linha discada, dos vírus, dos golpes e da interminável guerra pela caixa de entrada — sob a batuta do Monty Python
Imagine um restaurante inglês.
Você entra, senta-se educadamente e pergunta:
— O que temos hoje?
A garçonete responde:
— Ovos com SPAM.
— Sem SPAM?
— Temos ovos, bacon e SPAM.
— Sem SPAM.
— SPAM, ovos, salsicha e SPAM.
— Eu não gosto de SPAM!
Nesse momento, um grupo de vikings sentado ao lado começa:
SPAM! SPAM! SPAM! SPAM!
A garçonete tenta continuar.
Os vikings aumentam o volume:
SPAM! SPAM! SPAM! WONDERFUL SPAM!
Corta.
Agora estamos diante de um computador conectado à Internet.
A caixa de entrada contém:
Você ganhou US$ 5.000.000!
VIAGRA COM 80% DE DESCONTO!
Conheça mulheres solteiras perto de você!
Seu cartão foi bloqueado!
Empréstimo pré-aprovado!
URGENTE: atualize sua senha!
O usuário grita:
— EU NÃO QUERO SPAM!
Ao fundo:
SPAM! SPAM! SPAM! SPAM!
Bem-vindo à história do correio eletrônico.
Uma das invenções mais úteis da computação acabou criando também uma das maiores indústrias de porcaria digital já inventadas.
E o mais maravilhoso é que a palavra que usamos para descrever tudo isso nasceu justamente de uma piada do Monty Python.
Pegue seu café.
Configure o modem.
Feche todos os telefones da casa.
E, pelo amor de Deus, não abra o anexo.
🎬 ATO I — Antes do e-mail havia computadores solitários
Antes de começarmos, precisamos destruir uma pequena lenda.
Ray Tomlinson não acordou certa manhã de 1971 e inventou sozinho o conceito de alguém deixar uma mensagem eletrônica para outra pessoa.
Computadores multiusuário dos anos 1960 já possuíam mecanismos pelos quais um usuário podia deixar uma mensagem para outro usuário da mesma máquina.
Era uma espécie de bilhete eletrônico.
Imagine um grande computador compartilhado por dezenas de pessoas:
PARA: ARTHUR
DE: JOHN
TERMINEI O PROCESSAMENTO.
PODE USAR A FITA 17.
Funcionava.
Mas havia um detalhe importante:
Arthur e John estavam usando o mesmo computador.
Era como deixar um bilhete na geladeira.
Útil, porém geograficamente limitado.
A verdadeira mágica começaria quando o bilhete pudesse sair de uma máquina e chegar a outra.
📡 ATO II — 1971: aparece Ray Tomlinson
Estamos no começo dos anos 1970.
A ARPANET estava crescendo.
Computadores distantes começavam a conversar através da rede.
Ray Tomlinson, trabalhando na BBN, adaptou programas para permitir o envio de mensagens entre computadores.
Então surgiu um problema aparentemente banal:
Como representar:
usuário + computador?
Precisávamos de algo como:
VAGNER está no computador BELLACOSA
Tomlinson escolheu:
vagner@bellacosa
E o símbolo @ entrou para a história.
A escolha era elegante porque o caractere era relativamente pouco utilizado em nomes e podia ser interpretado como:
vagner AT bellacosa
Ou:
Vagner em Bellacosa.
Nascia uma convenção que atravessaria décadas.
Hoje bilhões de pessoas reconhecem imediatamente:
usuario@dominio
E quase ninguém pensa no pequeno problema de engenharia que precisou ser resolvido para chegarmos ali.
🤓 Curiosidade Pythoniana nº 1 — ninguém sabe exatamente o que dizia o primeiro e-mail
Perguntaram posteriormente a Tomlinson qual havia sido a primeira mensagem.
Ele não lembrava.
Provavelmente alguma sequência de caracteres de teste.
Algo equivalente a:
QWERTYUIOP
Isso é maravilhoso.
Uma das tecnologias de comunicação mais importantes da história pode ter começado com o equivalente digital de:
TESTE TESTE TESTE 123.
Se fosse hoje, certamente seria:
asdfasdfasdf
E algum gerente de projeto imediatamente abriria uma reunião para discutir o roadmap.
💌 ATO III — Os humanos descobrem que computadores também servem para conversar
A ARPANET tinha objetivos muito mais sofisticados.
Compartilhamento de recursos.
Pesquisa.
Computação remota.
Protocolos.
Infraestrutura.
Os humanos olharam para aquilo e descobriram:
— Posso mandar mensagem para alguém?
Sim.
— Excelente!
Pouco tempo depois, o correio eletrônico já representava uma parcela enorme do tráfego da ARPANET.
Essa é uma constante maravilhosa da história tecnológica.
Criamos computadores capazes de bilhões de operações por segundo.
Usamos para mandar:
Bom dia, pessoal.
Criamos redes planetárias.
Usamos para mandar:
Segue anexo.
Criamos inteligência artificial.
Usamos para perguntar:
Melhore este e-mail dizendo que estou enviando o anexo.
A humanidade é absolutamente consistente.
📢 ATO IV — 1978: alguém descobre que podemos estragar tudo
Chegamos a Gary Thuerk.
Gary trabalhava para a Digital Equipment Corporation, a famosa DEC.
A empresa queria divulgar apresentações de seus computadores DECSYSTEM-20.
Então alguém teve uma ideia comercial extraordinariamente moderna:
— Temos uma rede cheia de pessoas interessadas em computadores.
— Sim.
— Temos os endereços delas.
— Sim.
— Podemos mandar propaganda para todas.
Silêncio.
Ao fundo, um viking levanta lentamente a cabeça.
🥫
Em maio de 1978, centenas de usuários da ARPANET receberam uma mensagem comercial promovendo apresentações da DEC.
Hoje isso parece banal.
Naquele contexto, foi extraordinário.
E irritante.
Muito irritante.
Usuários reclamaram.
Administradores reclamaram.
Mas uma importante descoberta econômica já havia sido feita.
Mandar mensagem eletrônica para centenas de pessoas era praticamente grátis.
E essa descoberta nunca mais seria esquecida.
💰 ATO V — A matemática maligna do spam
O correio tradicional possui custos.
Imagine enviar um milhão de propagandas físicas.
Precisamos de:
papel;
impressão;
envelopes;
endereçamento;
transporte;
distribuição;
mão de obra.
Agora imagine enviar um milhão de e-mails.
Precisamos de:
SEND
Naturalmente existem infraestrutura e custos computacionais.
Mas o custo marginal de adicionar mais um destinatário é minúsculo.
Isso cria uma economia bastante peculiar.
Suponhamos que enviemos:
1.000.000 mensagens
E somente:
0,01%
das pessoas respondam.
Ainda temos:
100 respostas
Se cada resposta produzir lucro suficiente, a campanha funciona.
O spammer não precisa convencer todo mundo.
Não precisa convencer 10%.
Nem 1%.
Precisa encontrar alguns poucos indivíduos em uma multidão gigantesca.
Essa é uma das razões pelas quais o spam nunca morreu.
🥫 ATO VI — Mas por que SPAM?
Agora entra oficialmente o Monty Python.
Em 1970, o grupo apresentou um famoso sketch ambientado num café onde praticamente todas as opções do cardápio continham SPAM, a carne enlatada da Hormel.
Uma personagem tenta pedir algo sem SPAM.
Isso se torna progressivamente impossível.
E um grupo de vikings começa a cantar repetidamente sobre SPAM, tornando qualquer outra conversa praticamente impossível.
A genialidade da associação está justamente nisso.
Uma mensagem indesejada é irritante.
Mil mensagens indesejadas afogam a comunicação desejada.
Exatamente como os vikings.
Em comunidades online posteriores — BBSs, MUDs, Usenet e ambientes semelhantes — "spam" passou progressivamente a ser associado a mensagens repetitivas e indesejadas.
Até tornar-se aquilo que conhecemos.
Portanto existe uma linha histórica deliciosamente absurda:
Conforme o correio eletrônico cresceu, precisávamos de programas especializados.
Surgiram clientes e sistemas que marcaram gerações.
Entre eles:
Eudora;
Pegasus Mail;
Netscape Mail/Messenger;
Microsoft Mail;
Outlook;
Outlook Express;
e muitos outros.
Para milhões de usuários domésticos dos anos 1990 e começo dos anos 2000, o Outlook Express tornou-se praticamente sinônimo de correio eletrônico no PC.
A interface estabeleceu uma gramática visual que continua conosco:
📥 Caixa de entrada
📤 Caixa de saída
📨 Itens enviados
📝 Rascunhos
🗑️ Itens excluídos
O correio físico havia sido metaforicamente transportado para dentro do computador.
📥 ATO X — "Recebendo mensagem 3 de 17"
Havia algo quase ritualístico no correio eletrônico via linha discada.
Conectávamos.
Abríamos o programa.
Clicávamos em:
Enviar/Receber.
Então:
Recebendo mensagem 1 de 17...
Recebendo mensagem 2 de 17...
Recebendo mensagem 3 de 17...
Maravilha.
Mensagem quatro.
Cinco.
Seis.
Então chegávamos à:
Recebendo mensagem 7 de 17...
E ela não terminava.
Um minuto.
Dois.
Cinco.
Dez.
Alguém havia enviado uma fotografia gigantesca.
Talvez 3 MB.
Hoje 3 MB parece nada.
Em dial-up, 3 MB era praticamente uma encomenda marítima internacional.
O computador parecia dizer:
— Esta mensagem chegará quando chegar.
📦 ATO XI — MAILBOX QUOTA EXCEEDED
E havia outro inimigo.
Espaço.
Caixas postais podiam ter limites que hoje parecem hilários.
5 MB.
10 MB.
20 MB.
Uma apresentação PowerPoint e duas fotografias podiam transformar a infraestrutura numa emergência nacional.
Então chegava:
MAILBOX QUOTA EXCEEDED
O administrador dizia:
— Limpe sua caixa postal.
Você apagava vinte mensagens.
Nada.
— Limpei!
— Esvaziou Itens Excluídos?
Silêncio.
Descobríamos que apagar uma mensagem significava colocá-la numa segunda pasta para posteriormente apagá-la de verdade.
Monty Python aprovaria.
📢 ATO XII — O spam industrializa-se
Quando milhões de pessoas entraram na Internet, seus endereços passaram a possuir valor comercial.
Nasceu uma indústria.
Listas eram coletadas.
Compradas.
Vendidas.
Copiadas.
Roubadas.
Programas percorriam páginas da Web procurando padrões semelhantes a:
qualquercoisa@qualquercoisa.com
E surgiram os harvesters.
Robôs coletores de endereços.
Publicar seu e-mail publicamente numa página podia significar alimentar uma máquina que posteriormente o adicionaria a centenas de listas.
E as caixas começaram a receber:
BUY NOW!!!
FREE!!!
CASINO!!!
MORTGAGE!!!
VIAGRA!!!
HOT GIRLS!!!
YOU WON!!!
Os vikings haviam descoberto SMTP.
🔞 ATO XIII — A fase pornográfica da caixa de entrada
Houve uma época particularmente desagradável da Internet em que pornografia era uma presença constante no spam.
Não importava quem você fosse.
Professor.
Estudante.
Empresa.
Igreja.
Universidade.
Departamento governamental.
Seu servidor provavelmente receberia propaganda sexual.
Isso criou inclusive problemas corporativos.
Imagine abrir o Outlook durante uma apresentação.
Projetor ligado.
Trinta pessoas assistindo.
Surge:
🔥 HOT...
O administrador de sistemas passa a desejar viver numa cabana sem eletricidade.
Spam deixou de ser apenas inconveniência.
Virou:
problema de produtividade;
problema corporativo;
problema jurídico;
problema de segurança;
problema reputacional.
Precisávamos lutar.
🛡️ ATO XIV — Primeira solução: procurar palavras ruins
Os primeiros filtros podiam ser relativamente simples.
Algo como:
IF SUBJECT CONTAINS "VIAGRA"
MOVE TO SPAM
END-IF
Programador COBOL iniciante, perceba a lógica.
Temos uma regra.
Encontramos um padrão.
Tomamos uma decisão.
Maravilhoso.
Até o spammer descobrir.
Então:
VIAGRA
virou:
V1AGRA
Filtro atualizado.
Spammer:
V I A G R A
Filtro atualizado.
Spammer:
V|AGRA
Filtro atualizado.
Spammer:
— Segure minha cerveja.
E colocou o texto dentro de uma imagem.
Agora o filtro procurava palavras.
Mas não havia palavra.
Havia pixels.
Começava oficialmente a corrida armamentista.
👑 ATO XV — Entra Sua Alteza Real da Nigéria
Poucos personagens conseguiram atingir tamanha importância cultural quanto:
o príncipe nigeriano.
A fraude pertence à família dos golpes de adiantamento de pagamento.
O roteiro normalmente envolve uma fortuna bloqueada.
Talvez:
US$ 12 milhões.
US$ 47 milhões.
US$ 93 milhões.
Um príncipe, banqueiro, viúva, ministro ou funcionário público precisa retirar o dinheiro do país.
Por alguma razão, entre bilhões de seres humanos, ele escolheu você.
DEAR SIR,
I AM PRINCE...
I HAVE US$ 48,000,000...
Fantástico.
Um sujeito possui quarenta e oito milhões de dólares.
Mas precisa de você para pagar US$ 600 de documentação.
Monty Python dificilmente escreveria algo melhor.
O mais curioso é que funciona.
Não com todo mundo.
Não precisa.
Lembra da matemática do spam?
Basta encontrar algumas vítimas.
🦠 ATO XVI — Então o spam ganha dentes
Até aqui poderíamos pensar:
— Basta apagar.
Então chegaram vírus, worms, cavalos de Troia e outros códigos maliciosos distribuídos por correio eletrônico.
O e-mail era perfeito.
Ele chegava diretamente ao usuário.
E possuía algo extremamente poderoso:
confiança.
Uma mensagem podia aparentemente vir de alguém conhecido.
Naturalmente marketing legítimo e spam não são sinônimos. Consentimento, identificação do remetente, possibilidade de descadastramento, legislação e boas práticas fazem enorme diferença.
Mas houve historicamente uma zona cinzenta deliciosa.
Você nunca pediu aquela mensagem.
Mas alguém decidiu que você é um:
LEAD.
Parabéns.
Você deixou de ser Vagner.
Agora é:
LEAD_ID = 0000047281
E está na etapa:
FUNNEL_STATUS = WARM
Monty Python teria orgulho.
🧹 ATO XXI — Precisávamos de algo melhor
Filtrar palavras não era suficiente.
Então ferramentas começaram a utilizar diversas evidências simultaneamente.
Imagine:
FREE MONEY +3
VIAGRA +2
20 LINKS +2
IP SUSPEITO +5
HTML ESTRANHO +1
DOMÍNIO NOVO +2
REMETENTE FALSO +4
Total:
SPAM-SCORE = 19
Resultado:
MOVE TO SPAM
Ferramentas como o SpamAssassin tornaram-se símbolos dessa abordagem.
Agora o e-mail estava sendo interrogado.
— De onde você veio?
— Quem enviou você?
— Quantos links possui?
— Conhecemos esse IP?
— Seu HTML está estranho.
— Por que você escreveu FREE 47 vezes?
A mensagem começa a suar.
🧠 ATO XXII — O filtro aprende estatística
Depois vieram técnicas estatísticas mais sofisticadas, incluindo os famosos filtros bayesianos.
Em vez de depender exclusivamente de regras rígidas:
VIAGRA = SPAM
podemos perguntar:
Considerando mensagens classificadas anteriormente, qual é a probabilidade de esta mensagem ser spam?
Palavras e padrões ganham pesos estatísticos.
O sistema aprende diferenças entre mensagens desejadas e indesejadas.
E aqui encontramos uma das melhores piadas involuntárias da computação.
Se mensagem ruim é:
SPAM
mensagem legítima frequentemente é chamada:
HAM
Temos então:
EMAIL
│
┌───────┴───────┐
▼ ▼
🥫 SPAM 🥩 HAM
Décadas de ciência da computação.
Probabilidade.
Estatística.
Machine Learning.
E terminamos discutindo presunto.
🤖 ATO XXIII — Os computadores zumbis
O spammer ainda possuía um problema.
Se milhões de mensagens partissem do mesmo servidor, poderíamos bloquear aquele servidor.
Então surgiu uma solução criminosa muito eficiente:
não usar um único servidor.
Use milhares de computadores infectados.
Um PC doméstico no Brasil.
Outro na Alemanha.
Outro no Japão.
Outro nos Estados Unidos.
Outro na Índia.
Outro na França.
Todos controlados remotamente.
Temos uma:
BOTNET.
Agora o spam possui um exército.
👿
│
Command & Control
│
┌─────────┼─────────┐
▼ ▼ ▼
PC PC PC
Brasil Japão Itália
│ │ │
└──── SPAM SPAM ────┘
Os vikings agora estavam distribuídos mundialmente.
🪪 ATO XXIV — Precisávamos saber quem realmente enviou a mensagem
O e-mail original nasceu numa Internet relativamente pequena e baseada em confiança.
A Internet moderna não possui esse luxo.
Então foram criados mecanismos adicionais de autenticação.
Três nomes são fundamentais:
SPF
Ajuda a responder:
Quais servidores estão autorizados a enviar mensagens por este domínio?
DKIM
Adiciona assinatura criptográfica que permite verificar características de autenticidade e integridade da mensagem.
DMARC
Define políticas utilizando SPF e DKIM e permite ao domínio indicar como determinadas falhas devem ser tratadas, além de oferecer relatórios.
Para um programador mainframe podemos fazer uma analogia divertida:
SPF
"Esse sujeito pode entrar por esta porta?"
DKIM
"Essa assinatura realmente pertence a ele?"
DMARC
"Se alguma coisa estiver errada,
qual é a política?"
Não é RACF.
Mas podemos brincar:
RACF emocional do SMTP.
🌐 ATO XXV — A caixa postal deixa de morar no PC
Outra revolução mudou completamente nosso relacionamento com o e-mail.
Antes:
SERVIDOR
│
│ POP3
▼
COMPUTADOR
Baixávamos mensagens.
Arquivávamos localmente.
Fazíamos backup.
Perdíamos o HD.
Chorávamos.
Com webmail, IMAP e serviços em nuvem, o modelo mudou:
☁️
MAIL SERVER
│
┌─────────┼─────────┐
▼ ▼ ▼
PC CELULAR WEB
A mesma caixa aparece em vários lugares.
Lemos no celular.
Respondemos no notebook.
Arquivamos no navegador.
O estado é sincronizado.
Parece óbvio.
Não era.
☁️ ATO XXVI — O antispam moderno vira uma investigação criminal
Hoje uma mensagem pode passar por dezenas de análises antes de aparecer diante de você.
Por trás daquela banalidade existe uma infraestrutura gigantesca trabalhando.
🤖 ATO XXVII — E então demos inteligência artificial aos dois lados
Aqui chegamos aos dias atuais.
Durante décadas havia um pequeno consolo.
Muitos golpes eram linguisticamente ruins.
Erros gramaticais.
Traduções bizarras.
Saudações estranhas.
Textos obviamente artificiais.
Então chegou a IA generativa.
Agora um criminoso pode produzir rapidamente mensagens:
gramaticalmente corretas;
personalizadas;
contextuais;
em vários idiomas;
adaptadas ao cargo;
imitando linguagem corporativa;
com aparência extremamente profissional.
Aquele velho:
DEAR SIR
I HAVE MONEY
pode transformar-se em:
Olá Vagner,
Estou retomando nossa conversa sobre
o fechamento financeiro deste trimestre.
A planilha revisada está disponível no
link abaixo para sua validação.
Muito mais perigoso.
O conteúdo deixou de ser necessariamente o melhor indicador de fraude.
Identidade, contexto, reputação e comportamento tornam-se ainda mais importantes.
🎭 ATO XXVIII — O Ministério dos E-mails Inúteis
Se Monty Python estivesse documentando nossa infraestrutura atual, provavelmente existiria:
Ministry of Silly Emails
Departamento de Mensagens que Poderiam Ter Sido uma Linha.
Departamento de "Conforme Meu E-mail Anterior".
Departamento de Reply All Acidental.
Departamento de Anexos Esquecidos.
Departamento de "Segue anexo" sem anexo.
Departamento de reuniões convocadas para discutir e-mails sobre reuniões.
E naturalmente:
Department of Unsolicited Commercial Communications and Nigerian Royal Affairs.
Com 14 mil funcionários.
Nenhum deles autorizado a bloquear spam porque o formulário SPAM-42B precisa primeiro ser aprovado pelo Departamento de Formulários.
🥚 EASTER EGG — 03:17
Existe um pequeno detalhe escondido nesta história.
Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe
desde 1988
,
é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2,
z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais,
conhecimento técnico, história da computação e práticas
do universo mainframe para aproximar novas gerações das
tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos
ao redor do mundo.
IBM Champion
IBM Z
COBOL
CICS
Db2
z/OS
Mainframe desde 1988