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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Prenda-me se For Capaz — Quando o IBM z17 Colocou uma IA na Alfândega da Transação e Mandou a Fraude Mostrar o Passaporte

 
Bellacosa Mainframe e o prenda-me se for capaz ia e ibm z17 contra fraudes

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Prenda-me se For Capaz — Quando o IBM z17 Colocou uma IA na Alfândega da Transação e Mandou a Fraude Mostrar o Passaporte

Ou: Frank Abagnale entrou no banco vestido de piloto, o programa COBOL consultou o histórico, o Telum II calculou um score em menos de um milissegundo — e o Spyre ficou no andar de cima investigando por que o cheque tinha sido emitido por uma companhia aérea que não existia

Há uma cena clássica em qualquer bom filme de vigaristas.

O sujeito entra pela porta principal usando um uniforme impecável. Caminha como se conhecesse o prédio, cumprimenta o segurança pelo nome, segura uma pasta de couro e parece tão legítimo que ninguém se lembra de fazer a pergunta fundamental:

— Quem é você?

Frank Abagnale Jr., personagem central de Catch Me If You Can, construiu sua carreira cinematográfica exatamente nesse intervalo entre parecer legítimo e alguém conferir os dados.

Ele não precisava derrubar o sistema bancário. Não precisava explodir o datacenter, quebrar a criptografia ou fazer engenharia reversa no CICS.

Precisava apenas parecer verdadeiro durante tempo suficiente.

Fraude funciona assim.

Ela raramente entra pela janela usando máscara preta e carregando um saco com cifrão. Normalmente chega pela porta da frente com:

  • nome aparentemente correto;

  • cartão válido;

  • senha correta;

  • documento convincente;

  • dispositivo conhecido;

  • comportamento quase normal;

  • história razoavelmente plausível.

O problema da segurança moderna não é encontrar aquilo que parece completamente falso. Isso costuma ser fácil.

O problema é identificar aquilo que possui 97% de verdade e esconde a fraude nos 3% restantes.

E o banco precisa perceber isso antes que a autorização seja concluída.

Não amanhã.

Não depois do fechamento do movimento.

Não quando o cliente ligar informando que nunca comprou vinte televisores em Vladivostok.

A decisão precisa acontecer enquanto a transação ainda está atravessando o corredor.

É nesse ponto que entra o IBM z17, seu processador Telum II, o acelerador Spyre e uma ideia aparentemente simples, mas arquiteturalmente poderosa:

Em vez de mandar os dados até a inteligência artificial, colocamos a inteligência artificial perto dos dados.

Puxe uma cadeira, abra o ISPF e peça mais um café. Hoje acompanharemos uma transação bancária como se ela fosse Frank Abagnale tentando atravessar a alfândega vestido de piloto.



1. A fraude não começa com um crime: começa com uma história

Imagine que um cliente normalmente faça compras assim:

  • supermercados em Itatiba;

  • combustível duas vezes por mês;

  • serviços digitais recorrentes;

  • pequenas compras durante o dia;

  • um restaurante aos sábados;

  • nenhuma transação internacional recente.

Subitamente aparece uma tentativa de compra:

  • três notebooks;

  • às 3h17 da madrugada;

  • em outro país;

  • utilizando um dispositivo nunca visto;

  • depois de quatro tentativas recusadas;

  • com endereço de entrega diferente;

  • poucos minutos depois de uma alteração cadastral.

Nenhuma dessas características, sozinha, prova uma fraude.

Pessoas viajam.

Pessoas compram notebooks.

Pessoas trocam de celular.

Pessoas esquecem senhas.

Pessoas compram presentes de madrugada porque a insônia também participa da economia mundial.

Entretanto, quando combinamos todos os sinais, surge uma história estranha.

É exatamente esse tipo de relação que um modelo de machine learning procura aprender.

Ele não está buscando apenas uma regra rígida como:

SE VALOR > 10000
    ENTÃO RECUSAR

Ele tenta responder uma pergunta mais sofisticada:

Considerando dezenas ou centenas de características, o quanto esta transação se parece com as fraudes que observamos anteriormente?

A resposta geralmente não é “sim” ou “não”.

É um score.

Por exemplo:

RISCO-DE-FRAUDE = 0,91

Isso significa que o modelo encontrou uma combinação fortemente associada a comportamento fraudulento. Não significa que ele tenha presenciado o crime, interrogado o suspeito e recuperado o dinheiro numa mala escondida no aeroporto.

A IA não produz uma sentença judicial.

Ela produz evidência probabilística para ajudar o sistema a tomar uma decisão.

Esse será nosso primeiro ensinamento para o programador COBOL iniciante:

Machine learning não elimina a lógica de negócio. Ele acrescenta uma nova informação à lógica de negócio.



2. Treinamento e inferência: a escola e a prova oral

Antes de entender o Telum II, precisamos separar duas fases frequentemente misturadas.

Treinamento

Durante o treinamento, apresentamos ao modelo dados históricos:

  • compras legítimas;

  • fraudes confirmadas;

  • contestações;

  • chargebacks;

  • dispositivos comprometidos;

  • contas invadidas;

  • identidades roubadas;

  • comportamentos considerados normais;

  • comportamentos considerados suspeitos.

O modelo tenta encontrar relações matemáticas entre as características e os resultados conhecidos.

É como mostrar milhares de cheques a um investigador e dizer:

— Estes eram legítimos. Estes eram falsificados. Descubra os padrões.

O treinamento pode ser computacionalmente pesado. Pode utilizar GPUs, plataformas de ciência de dados, clusters, ambientes cloud ou infraestrutura especializada.

Esse trabalho não precisa acontecer dentro da transação bancária.

Nenhum cliente aceitará esperar três semanas diante da maquininha enquanto o modelo reaprende a história do sistema financeiro.

Inferência

Depois de treinado, o modelo pode receber uma nova transação e aplicar aquilo que aprendeu.

Essa aplicação é chamada de inferência.

O modelo recebe informações como:

VALOR
HORARIO
LOCALIZACAO
TIPO-DE-ESTABELECIMENTO
IDADE-DA-CONTA
DISPOSITIVO
QUANTIDADE-DE-TENTATIVAS
MEDIA-DE-GASTOS
DISTANCIA-DA-ULTIMA-COMPRA

E devolve algo como:

SCORE-DE-RISCO = 0,8734

Treinamento é a escola de investigadores.

Inferência é o momento em que o inspetor olha para o passaporte, compara os sinais e decide se chamará o supervisor.

O IBM z17 é especialmente interessante nessa segunda fase: executar a inferência rapidamente, em grande escala e suficientemente perto da aplicação transacional para que o resultado ainda possa influenciar a autorização.



3. O que acontece quando o cartão encosta na maquininha?

Vamos acompanhar nossa transação passo a passo.

A implementação real varia entre instituições, bandeiras, adquirentes e sistemas, mas o fluxo conceitual pode ser representado assim:

MAQUININHA
    ↓
ADQUIRENTE
    ↓
REDE OU BANDEIRA
    ↓
BANCO EMISSOR
    ↓
SISTEMA DE AUTORIZAÇÃO
    ↓
ANÁLISE DE RISCO
    ↓
APROVAR, NEGAR OU DESAFIAR

Dentro do banco, o sistema pode consultar:

  • situação do cartão;

  • senha ou credencial;

  • saldo;

  • limite;

  • bloqueios;

  • restrições geográficas;

  • quantidade de operações recentes;

  • perfil do cliente;

  • regras antifraude;

  • resultado de modelos de IA.

Em um ambiente mainframe, partes desse processamento podem envolver:

  • CICS;

  • IMS;

  • Db2;

  • VSAM;

  • IBM MQ;

  • programas COBOL;

  • serviços Java;

  • APIs;

  • z/OS Connect;

  • componentes Linux executando no IBM Z;

  • rotinas de segurança;

  • mecanismos de criptografia;

  • serviços de inferência.

O programa COBOL não precisa “virar uma IA”.

Ele pode continuar fazendo aquilo que sempre fez muito bem: orquestrar regras de negócio, validar campos, controlar estados, registrar decisões e preservar a integridade da transação.

A diferença é que agora ele pode receber um score calculado por um modelo.

Conceitualmente, nossa lógica poderia se parecer com isto:

       EVALUATE TRUE
           WHEN CARTAO-BLOQUEADO
               MOVE '05' TO CODIGO-RESPOSTA

           WHEN SCORE-FRAUDE > 900
               MOVE 'N' TO AUTORIZAR
               MOVE 'FRAUDE ALTA' TO MOTIVO-DECISAO

           WHEN SCORE-FRAUDE > 650
               MOVE 'S' TO EXIGIR-AUTENTICACAO
               MOVE 'VALIDACAO ADICIONAL'
                 TO MOTIVO-DECISAO

           WHEN LIMITE-DISPONIVEL < VALOR-COMPRA
               MOVE 'N' TO AUTORIZAR
               MOVE 'LIMITE INSUFICIENTE'
                 TO MOTIVO-DECISAO

           WHEN OTHER
               MOVE 'S' TO AUTORIZAR
               MOVE 'APROVADA' TO MOTIVO-DECISAO
       END-EVALUATE.

Naturalmente, um sistema bancário real será muito mais sofisticado. A ordem das verificações, os limites, as exceções e as regras serão governados por políticas específicas.

Mas o princípio é este:

IA calcula o risco.
A aplicação toma a decisão.

Essa separação é saudável.

O modelo não deve possuir autoridade ilimitada simplesmente porque tem “inteligência artificial” no nome.



4. O orçamento de tempo da transação

Quando alguém lê que o z17 pode executar inferências com tempo de resposta inferior a 1 milissegundo, pode imaginar que toda a compra será concluída nesse intervalo.

Não é isso.

Um milissegundo é:

[
1\text{ ms} = 0{,}001\text{ segundo}
]

O número divulgado refere-se ao processamento da inferência no cenário medido, não ao tempo total da transação desde a maquininha até a resposta final.

A operação completa ainda pode incluir:

  • transmissão pelas redes;

  • validação criptográfica;

  • leitura de bancos de dados;

  • execução de regras;

  • verificação de limite;

  • gravação de logs;

  • atualização de saldos;

  • journaling;

  • construção da resposta;

  • retorno à maquininha.

Pense na transação como um filme de duas horas e na inferência como uma cena importante dentro dele.

O Telum II não precisa filmar o longa-metragem inteiro em um milissegundo. Ele precisa executar sua cena sem estourar o cronograma da produção.

Isso é fundamental porque toda aplicação crítica possui um orçamento de latência.

Se a autorização inteira precisa responder em determinado intervalo, não podemos entregar quase todo esse orçamento a um modelo remoto.

Uma chamada externa pode exigir:

  1. montar uma requisição;

  2. serializar os dados;

  3. criptografar;

  4. atravessar a rede;

  5. autenticar no serviço;

  6. entrar numa fila;

  7. executar a inferência;

  8. montar a resposta;

  9. retornar pela rede;

  10. tratar timeouts e erros.

Mesmo que a média seja boa, há uma pergunta mais importante:

O comportamento continuará previsível durante os picos?

Em ambiente crítico, não basta dizer que a resposta média foi de 5 ms.

Precisamos conhecer:

  • percentil 95;

  • percentil 99;

  • percentil 99,9;

  • comportamento em saturação;

  • impacto sobre outros workloads;

  • tempo máximo aceitável;

  • estratégia de fallback;

  • resultado quando o serviço não responder.

Uma média bonita pode esconder um pequeno grupo de respostas terrivelmente lentas.

E o sistema bancário não pode dizer ao comerciante:

— Tivemos um excelente tempo médio hoje. Infelizmente, sua venda caiu no percentil azarado.



5. Telum II: o investigador sentado dentro do banco

O Telum II é o processador que equipa o IBM z17 e inclui a segunda geração do acelerador integrado de IA.

A palavra mais importante é “integrado”.

A inferência pode acontecer muito perto da carga transacional, sem depender de um acelerador remoto pendurado do outro lado de uma rede.

Segundo a IBM, o acelerador do Telum II oferece quatro vezes a capacidade computacional da geração anterior, chegando a 24 TOPS, além de suporte a INT8 e melhorias destinadas a ampliar a variedade de modelos executáveis. O processador também trabalha com caches maiores, melhorias de roteamento e uma DPU destinada a auxiliar operações de entrada e saída. IBM Telum II.

O que são TOPS?

TOPS significa trillions of operations per second, ou trilhões de operações por segundo.

É uma medida da capacidade computacional do acelerador.

Entretanto, TOPS não contam toda a história.

Dois aceleradores com números semelhantes podem produzir resultados diferentes devido a:

  • arquitetura;

  • precisão numérica;

  • eficiência do compilador;

  • movimentação de dados;

  • memória;

  • cache;

  • tipo do modelo;

  • tamanho do lote;

  • utilização dos núcleos;

  • integração com a aplicação.

É como comparar dois restaurantes apenas pelo número de fogões. O resultado também depende da cozinha, dos ingredientes, dos garçons e de alguém lembrar que o cliente pediu o bife sem cebola.

Por que INT8 importa?

Modelos de IA podem trabalhar com diferentes precisões numéricas.

INT8 utiliza números inteiros de oito bits. Em muitos cenários de inferência, isso permite:

  • representar os parâmetros com menos espaço;

  • movimentar menos dados;

  • executar mais operações;

  • consumir menos energia;

  • aumentar o throughput.

Essa redução de precisão precisa ser validada para garantir que o modelo continue suficientemente acurado.

Não adianta tornar a inferência quatro vezes mais rápida se ela passar a confundir Frank Abagnale com o gerente da agência.



6. Spyre: a equipe de inteligência no andar de cima

Se o Telum II é o agente posicionado diretamente no balcão de imigração, o Spyre é uma equipe adicional de inteligência.

O IBM Spyre Accelerator é fornecido em placas PCIe e possui 32 núcleos de aceleração por chip. Várias placas podem ser combinadas para atender cargas maiores. O produto tornou-se disponível para IBM z17 e LinuxONE 5 em outubro de 2025. Anúncio oficial do Spyre.

Ele foi pensado para complementar o acelerador do Telum II em cenários como:

  • modelos maiores;

  • vários modelos trabalhando conjuntamente;

  • IA generativa;

  • modelos de linguagem;

  • aplicações multimodais;

  • assistentes;

  • agentes de IA;

  • análise de dados estruturados e textuais.

Imagine uma transação suspeita.

O Telum II pode executar rapidamente o modelo preditivo principal:

Risco calculado: 78%.

Uma arquitetura mais sofisticada pode combinar outros modelos:

  • um modelo para o comportamento do dispositivo;

  • outro para identidade;

  • outro para lavagem de dinheiro;

  • um encoder examinando descrições textuais;

  • um modelo avaliando relações entre contas;

  • um sistema generativo produzindo um resumo para o analista.

Isso é chamado de abordagem multimodelo ou, em certos contextos, ensemble.

O benchmark dos 450 bilhões de inferências antifraude não deve ser apresentado como resultado obrigatório da soma Telum II mais Spyre.

A alegação foi originalmente associada ao acelerador integrado do Telum II. O Spyre amplia a capacidade e o repertório do sistema, principalmente para modelos mais complexos e novas cargas de IA.

Em resumo:

TELUM II
Inferência transacional rápida, integrada e previsível.

SPYRE
Capacidade complementar para modelos maiores, múltiplos e generativos.

Os dois podem trabalhar dentro da mesma estratégia, mas não são peças idênticas.



7. Cinco milhões por segundo não são 450 bilhões por dia

Agora chegamos ao Easter egg matemático escondido no roteiro.

Originalmente diziamos que o z17 podia processar até 5 milhões de inferências por segundo, equivalentes a mais de 450 bilhões por dia.

Vamos convocar o programa COBOL da contabilidade:

[
5.000.000 \times 86.400 = 432.000.000.000
]

Um dia possui 86.400 segundos.

Portanto, cinco milhões de inferências por segundo equivalem a 432 bilhões por dia.

Para chegar a 450 bilhões, precisaríamos de aproximadamente:

[
450.000.000.000 \div 86.400
= 5.208.333
]

Ou cerca de 5,21 milhões de inferências por segundo.

Isso não significa necessariamente que a IBM tenha cometido um erro.

A IBM apresenta números arredondados e indicadores derivados de cenários específicos:

  • até 5 milhões de inferências por segundo;

  • até 450 bilhões de inferências por dia;

  • resposta de aproximadamente 1 ms ou inferior, dependendo da declaração.

O erro aparece quando alguém liga as duas frases com “ou seja”, transformando indicadores de benchmark em uma conversão matemática exata.

Uma formulação mais segura seria:

O IBM z17 pode alcançar até 5 milhões de inferências por segundo em determinado cenário e, segundo outro indicador divulgado pela IBM, até 450 bilhões de inferências por dia.

Curiosidade para o programador iniciante: sempre desconfie de expressões como:

  • “ou seja”;

  • “equivale a”;

  • “portanto”;

  • “isso representa”.

Elas parecem conectores inocentes, mas frequentemente escondem o exato lugar onde marketing, arredondamento e matemática decidiram falsificar um cheque juntos.



8. O que o benchmark realmente mediu?

O número de 450 bilhões por dia não caiu do céu diretamente na capa de uma revista.

Segundo a metodologia publicada pela IBM, o resultado foi extrapolado de testes internos com:

  • hardware IBM tipo 9175;

  • modelo LSTM sintético para detecção de fraude em cartões;

  • batch size de 160;

  • ambientes Red Hat Enterprise Linux e z/OS;

  • z/OS Container Extensions;

  • configuração específica de CPUs, IFLs, zIIPs e memória.

A IBM também informa claramente que os resultados podem variar. Metodologia do benchmark do z17.

O que é LSTM?

LSTM significa Long Short-Term Memory.

É um tipo de rede neural recorrente desenvolvido para trabalhar com sequências e dependências temporais.

Em fraude, isso pode ser útil porque o significado de uma transação depende frequentemente daquilo que aconteceu antes.

Exemplo:

10:01 — compra de R$ 25 em Itatiba
10:04 — compra de R$ 19 em Itatiba
10:07 — compra de R$ 12.000 em Tóquio

A última transação não é suspeita apenas pelo valor. Ela é suspeita pela relação temporal e geográfica com as anteriores.

Modelos atuais podem empregar outras arquiteturas, mas a LSTM continua sendo uma referência útil para determinados problemas sequenciais.

O que é batch size?

Batch size é a quantidade de amostras processadas conjuntamente.

No teste divulgado, o lote era de 160 inferências.

Isso ajuda o acelerador a utilizar melhor seus recursos, assim como uma transportadora consegue mover caixas com mais eficiência quando carrega um caminhão inteiro em vez de enviar um veículo para cada pacote.

Entretanto, batching cria uma consideração importante:

  • throughput mede quanto trabalho total é concluído;

  • latência mede quanto tempo cada solicitação espera e leva para ser respondida.

Grandes lotes podem aumentar o throughput, mas, dependendo da implementação, também podem fazer uma solicitação aguardar o lote ser formado.

Por isso, nunca analise apenas um número.

Pergunte:

  • Qual era o modelo?

  • Qual era o tamanho do lote?

  • Quantas threads foram usadas?

  • Qual era a configuração?

  • A latência apresentada é média ou percentil?

  • O resultado foi medido ou extrapolado?

  • Havia carga transacional concorrente?

  • O modelo era real ou sintético?

Essa é uma dica de ouro para qualquer benchmark, não apenas de mainframe.



9. Inferência não é sinônimo de transação

Outra armadilha está na palavra “operação”.

Quando ouvimos “450 bilhões de operações de inferência”, é tentador imaginar 450 bilhões de compras analisadas.

Mas uma transação pode executar vários modelos:

MODELO 1 — fraude do cartão
MODELO 2 — risco do dispositivo
MODELO 3 — identidade comprometida
MODELO 4 — localização anômala
MODELO 5 — lavagem de dinheiro
MODELO 6 — conta-laranja

Uma única compra poderia gerar seis inferências.

Logo:

1 transação ≠ obrigatoriamente 1 inferência

Também é possível processar inferências em lotes ou utilizar modelos diferentes conforme o tipo de operação.

O número demonstra capacidade de execução de modelos. Não deve ser convertido automaticamente em quantidade de cartões, clientes ou compras.

É como olhar o contador de instruções executadas pelo processador e concluir que cada instrução representa um cliente atendido.

O COBOLzeiro olha para isso, toma um gole de café e pergunta:

— Onde está o copybook com a definição dessa unidade?

Pergunta correta.



10. “Levar a IA até os dados” não significa eliminar toda movimentação

Uma das frases mais fortes da apresentação do z17 é a ideia de executar IA onde os dados residem.

Mas precisamos interpretá-la corretamente.

Não significa que nenhum byte jamais se mova.

Dentro do sistema ainda haverá:

  • leitura de registros;

  • acesso a memória;

  • comunicação entre componentes;

  • preparação das variáveis;

  • busca de características;

  • passagem de parâmetros;

  • gravação do resultado.

O que pode ser evitado é a necessidade de enviar a transação para um serviço remoto de inferência, fora do ambiente em que a aplicação crítica está sendo executada.

Isso reduz:

  • dependência da rede;

  • latência externa;

  • serialização;

  • pontos adicionais de falha;

  • exposição de dados sensíveis;

  • fronteiras operacionais;

  • complexidade de auditoria.

Compare os dois caminhos.

Inferência remota

COBOL/CICS
    ↓
API
    ↓
GATEWAY
    ↓
REDE
    ↓
SERVIÇO EXTERNO
    ↓
MODELO
    ↓
REDE
    ↓
RESPOSTA
    ↓
DECISÃO

Inferência local

COBOL/CICS
    ↓
SERVIÇO DE INFERÊNCIA NO AMBIENTE IBM Z
    ↓
TELUM II
    ↓
SCORE
    ↓
DECISÃO

O segundo caminho não é magicamente gratuito, mas reduz fronteiras.

E cada fronteira removida significa menos um lugar para:

  • perder tempo;

  • falhar;

  • expirar;

  • autenticar;

  • converter dados;

  • abrir uma porta de ataque;

  • explicar para a auditoria.



11. O cloud não é o vilão do filme

Seria confortável transformar esta história num duelo:

MAINFRAME = HERÓI
CLOUD = VIGARISTA

Mas arquitetura séria não funciona como desenho animado.

Cloud pode ser excelente para:

  • treinamento de modelos;

  • experimentação;

  • notebooks;

  • ciência de dados;

  • armazenamento histórico;

  • elasticidade;

  • processamento assíncrono;

  • comparação de versões;

  • grandes modelos;

  • investigação posterior.

O IBM Z pode ser particularmente apropriado para:

  • inferência na transação;

  • dados regulados;

  • baixa latência previsível;

  • enorme volume;

  • integração com sistemas existentes;

  • disponibilidade;

  • segurança e auditoria;

  • continuidade operacional.

Uma arquitetura híbrida madura pode funcionar assim:

PLATAFORMA DE DADOS OU CLOUD
    ↓
TREINAMENTO
    ↓
VALIDAÇÃO
    ↓
APROVAÇÃO DO MODELO
    ↓
EMPACOTAMENTO
    ↓
IMPLANTAÇÃO NO IBM Z
    ↓
INFERÊNCIA TRANSACIONAL
    ↓
MONITORAMENTO E FEEDBACK

O modelo aprende em um ambiente e trabalha em outro.

Isso também cria responsabilidades importantes:

  • versionar o modelo;

  • registrar quem o aprovou;

  • controlar sua implantação;

  • medir drift;

  • comparar versões;

  • permitir rollback;

  • manter explicabilidade;

  • preservar evidências.

O modelo é um componente de produção. Deve receber disciplina semelhante à de qualquer outro artefato crítico.

Se você jamais colocaria um load module não testado diretamente em produção, também não deveria instalar um modelo treinado na sexta-feira por alguém que escreveu no change:

“Melhorias diversas. Baixo risco.”



12. Falso positivo: quando o FBI prende o piloto verdadeiro

Um sistema antifraude pode errar de duas maneiras principais.

Falso negativo

A transação era fraudulenta, mas foi considerada legítima.

Consequências possíveis:

  • perda financeira;

  • chargeback;

  • investigação;

  • desgaste com o cliente;

  • impacto regulatório.

Falso positivo

A transação era legítima, mas foi considerada fraudulenta.

Consequências:

  • compra recusada;

  • cliente constrangido;

  • perda da venda;

  • chamada ao atendimento;

  • cancelamento do cartão;

  • deterioração da confiança.

Imagine o cliente viajando pela Europa depois de meses comprando apenas em São Paulo.

O comportamento mudou bruscamente, mas existe uma explicação legítima.

Um modelo ruim pode confundir “fora do padrão” com “fraude”.

Essa é uma distinção essencial:

Anomalia não é prova de crime. É motivo para investigar ou aplicar controles proporcionais.

Por isso, uma instituição pode criar diferentes respostas:

  • risco baixo: aprovar;

  • risco moderado: solicitar biometria;

  • risco alto: enviar notificação;

  • risco muito alto: bloquear;

  • caso complexo: análise humana.

Quanto mais rápido o score estiver disponível, mais opções o banco terá.

Em vez de escolher apenas entre aprovar e negar, pode inserir autenticação adaptativa sem destruir a experiência do cliente.


13. Segurança local não é segurança automática

Colocar a IA no mainframe não elimina:

  • credenciais roubadas;

  • engenharia social;

  • fraude interna;

  • dados de treinamento contaminados;

  • modelos enviesados;

  • configuração incorreta;

  • permissões excessivas;

  • falhas de aplicação;

  • ataques adversariais;

  • decisões de negócio ruins.

O ambiente local pode ajudar a proteger:

  • confidencialidade dos dados;

  • propriedade intelectual do modelo;

  • tráfego sensível;

  • disponibilidade;

  • cadeia de auditoria;

  • previsibilidade operacional.

Mas o sistema ainda precisa de:

  • RACF bem administrado;

  • princípio do menor privilégio;

  • criptografia;

  • segregação de funções;

  • logging;

  • monitoramento;

  • revisão de modelos;

  • gestão de vulnerabilidades;

  • resposta a incidentes;

  • governança de IA.

A IA é apenas uma camada.

A arquitetura completa se parece mais com isto:

IDENTIDADE
    +
DADOS CONFIÁVEIS
    +
MODELO VALIDADO
    +
APLICAÇÃO CORRETA
    +
REGRAS DE NEGÓCIO
    +
AUDITORIA
    +
RESPOSTA OPERACIONAL

Se qualquer camada estiver comprometida, o vigarista poderá atravessar o sistema usando um belo uniforme e um crachá perfeitamente impresso.


14. Passo a passo para o COBOLzeiro entender uma integração com IA

Você não precisa se transformar imediatamente em cientista de dados. Comece fazendo as perguntas corretas.

Passo 1 — Entenda o evento de negócio

Defina exatamente o que será avaliado:

  • compra?

  • PIX?

  • abertura de conta?

  • alteração cadastral?

  • saque?

  • pedido de empréstimo?

Passo 2 — Identifique as entradas

Descubra quais informações alimentam o modelo:

VALOR
HORARIO
PAIS
DISPOSITIVO
HISTORICO
TENTATIVAS
IDADE-DA-CONTA
TIPO-DE-CANAL

Passo 3 — Conheça o contrato

O serviço deve possuir um contrato claro:

ENTRADA:
    DADOS-DA-TRANSACAO

SAIDA:
    SCORE-DE-RISCO
    VERSAO-DO-MODELO
    CODIGO-DE-STATUS
    MOTIVO
    TEMPO-DE-INFERENCIA

A versão do modelo é fundamental para auditoria.

Passo 4 — Defina o timeout

O que acontecerá se a inferência não responder?

  • negar tudo;

  • aprovar tudo;

  • usar regras tradicionais;

  • chamar um modelo alternativo;

  • encaminhar para validação adicional?

Não responder também é um resultado operacional, e precisa de regra.

Passo 5 — Separe score de decisão

Evite permitir que o modelo controle diretamente a transação.

MODELO → SCORE
REGRA → DECISÃO

Passo 6 — Registre evidências

Grave pelo menos:

  • identificador da transação;

  • horário;

  • score;

  • versão do modelo;

  • decisão;

  • regra aplicada;

  • resultado posterior conhecido.

Isso permite reconstruir a história.

Passo 7 — Monitore desempenho e qualidade

Observe:

  • latência;

  • throughput;

  • erros;

  • timeouts;

  • falsos positivos;

  • falsos negativos;

  • mudança no perfil dos dados;

  • queda de acurácia.

Passo 8 — Prepare rollback

Se o novo modelo começar a bloquear metade da população de Itatiba, você precisa retornar rapidamente à versão anterior.

MLOps sem rollback é apenas aventura.


15. Easter eggs recuperados do cheque falsificado

Easter egg número 1 — O mainframe já fazia “IA” antes da moda

Bancos utilizam modelos estatísticos, regras, scores e análise de risco há décadas.

O que mudou não foi a descoberta repentina de que padrões podem indicar fraude. Mudaram:

  • escala;

  • variedade dos modelos;

  • integração;

  • velocidade;

  • capacidade de processar mais sinais;

  • uso de aceleradores especializados.

A inteligência transacional não nasceu ontem. Ela ganhou músculos novos.

Easter egg número 2 — O COBOL não perdeu o emprego para a IA

A IA pode calcular a probabilidade de fraude, mas alguém ainda precisa:

  • validar a mensagem;

  • aplicar o limite;

  • controlar a conta;

  • atualizar o saldo;

  • produzir o registro;

  • garantir atomicidade;

  • tratar exceções;

  • responder ao canal.

O modelo pode dizer que o cheque parece suspeito.

O COBOL continua sendo o funcionário que decide se o cheque entra no movimento e garante que o livro-caixa feche no final do dia.

Easter egg número 3 — Frank Abagnale trabalhou para o FBI

A melhor ironia da história é que o fraudador pode ensinar o sistema a identificar fraudes.

Na segurança, o conhecimento ofensivo frequentemente fortalece a defesa.

Da mesma forma, fraudes confirmadas tornam-se exemplos de treinamento. O atacante, involuntariamente, deixa material para melhorar o próximo modelo.

É quase um programa de estágio não remunerado do Red Team.

Easter egg número 4 — A velocidade pode reduzir fraude sem aumentar bloqueios

Com mais capacidade de inferência, o banco pode executar vários modelos em vez de depender de uma única regra agressiva.

Isso permite distinguir melhor:

  • comportamento incomum;

  • comportamento realmente malicioso;

  • cliente viajando;

  • conta comprometida;

  • compra legítima de alto valor;

  • fraude coordenada.

Mais inteligência pode significar não apenas bloquear mais, mas bloquear melhor.

Easter egg número 5 — O mainframe não precisa aparecer na manchete

Quando uma transação é aprovada corretamente, ninguém comemora:

— Fantástico! O sistema consultou o limite, avaliou o risco, atualizou os registros e respondeu dentro do SLA!

O cliente apenas guarda o cartão.

O sucesso do sistema crítico é frequentemente invisível.

Ele só vira notícia quando para.


16. O verdadeiro “Catch Me If You Can” da fraude moderna

Frank Abagnale precisava manter sua história por alguns minutos.

A fraude digital precisa parecer legítima por milissegundos.

Ela corre entre:

  • a captura dos dados;

  • a autenticação;

  • a análise;

  • a autorização;

  • a liquidação.

O IBM z17 procura fechar esse intervalo colocando capacidade de inferência dentro do núcleo transacional.

Não é uma solução mágica.

Não elimina a necessidade de investigadores, regras, autenticação, governança, criptografia ou analistas.

O que ele faz é permitir que a aplicação pergunte, no momento decisivo:

Esta operação se parece com aquilo que afirma ser?

E receba uma resposta antes que o suspeito chegue ao portão de embarque.

A grande inovação não está apenas em fazer cinco milhões de cálculos por segundo. Está em realizar a análise cedo o bastante para mudar o destino da transação.

Antes, muitos sistemas descobriam a fraude depois:

  1. a operação era aprovada;

  2. o dinheiro seguia seu caminho;

  3. o cliente reclamava;

  4. começava a investigação;

  5. alguém tentava recuperar o prejuízo.

Era perícia.

Com a inferência transacional, a inteligência pode participar do processo antes da conclusão:

  1. a operação chega;

  2. os dados são avaliados;

  3. o modelo produz o score;

  4. as regras interpretam o risco;

  5. o sistema aprova, bloqueia ou desafia;

  6. a decisão é registrada.

É a diferença entre encontrar a falsificação no arquivo morto e pará-la no balcão.


Epílogo — O cheque, o COBOL e o homem de uniforme

No final do filme, o vigarista não é derrotado porque alguém construiu uma parede infinitamente alta.

Ele é alcançado porque o investigador aprende a reconhecer seus padrões.

O papel usado.

A forma de imprimir.

As cidades escolhidas.

O modo como ele conta a história.

Fraude é repetição disfarçada de improviso.

A inteligência artificial encontra valor justamente nessa repetição: relações pequenas demais, rápidas demais ou numerosas demais para depender exclusivamente da observação humana.

O Telum II aproxima essa análise do lugar onde a decisão acontece.

O Spyre amplia o repertório para modelos maiores e abordagens mais complexas.

O z17 fornece o ambiente para executar isso com a velocidade, a escala, o isolamento e a previsibilidade exigidos por sistemas críticos.

E o COBOL?

O COBOL continua no balcão.

Recebe a mensagem.

Valida o cartão.

Consulta o limite.

Interpreta o score.

Executa a regra.

Grava a decisão.

Libera ou recusa a transação.

Talvez ele não apareça no trailer. Talvez ninguém compre uma camiseta escrito PERFORM UNTIL FRAUD-DETECTED. Mas, quando Frank Abagnale chegar usando o uniforme de piloto, será o velho programa transacional que olhará o score calculado em menos de um milissegundo e dirá:

       IF IDENTIDADE-PARECE-PERFEITA
          AND HISTORIA-NAO-FECHA
              MOVE 'N' TO AUTORIZAR
              MOVE 'PRENDA-ME-SE-FOR-CAPAZ'
                TO MOTIVO-RECUSA
       END-IF.

No andar de cima, o Spyre cruza os dossiês.

Dentro do processador, o Telum II examina o próximo passageiro.

No CICS, outra tarefa começa.

E em algum lugar do datacenter, um COBOL escrito quando Leonardo DiCaprio ainda era criança continua protegendo uma transação que jamais saberá seu nome.

Para ir mais longe

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/spy-vs-spy-no-tribunal-as-trapacas.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/red-team-e-os-doze-trabalhos-de-asterix.html




☕ Os Cem Barris de Saquê — Como Cinco Estudantes de Psicologia Levaram um Milhão de Chimpanzés de uma Tier List até a Teoria da Informação

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Os Cem Barris de Saquê — Como Cinco Estudantes de Psicologia Levaram um Milhão de Chimpanzés de uma Tier List até a Teoria da Informação

Ou: uma notícia sobre um grupo fechado virou discussão sobre privacidade, Valderrama, Mounjaro, Cyberpunk 2077, o Barão Vermelho, Malba Tahan, SEO, crawlers de Singapura, formigas, infovias e a descoberta de que uma conversa aparentemente bêbada pode conservar perfeita rastreabilidade

Pegue um café.

Hoje não vamos falar exatamente de Psicologia.

Nem de Cyberpunk.

Nem de SEO.

Nem de Manfred von Richthofen.

Nem de Malba Tahan.

Nem de Carlos Valderrama.

Nem de crawlers de Singapura.

Nem de formigas.

Nem sequer dos chimpanzés.

Embora, naturalmente, haja um milhão deles no datacenter e alguém já tenha aberto o centésimo barril de saquê.

Hoje vamos falar de uma coisa muito mais perigosa:

uma conversa que se recusou a morrer.

Tudo começou com uma notícia.

Cinco estudantes de Psicologia estavam sendo investigados por um ranking envolvendo dezenas de universitárias.

Tier list.

Fotografias.

Comentários.

Grupo fechado.

Indignação.

Polícia.

Universidade.

Imprensa.

Até aí, nada indicava que algumas horas depois estaríamos discutindo Hayao Miyazaki, a Primeira Guerra Mundial, Mounjaro, Tolkien, o Guia dos Curiosos e infraestrutura semântica para inteligências artificiais.

Se alguém tivesse previsto isso no primeiro parágrafo, eu teria recomendado reduzir a dose.

Mas aconteceu.

E o mais curioso:

há uma trilha entre todos os assuntos.



🐒 1. O primeiro chimpanzé encontrou uma tier list

A notícia possuía um detalhe que me chamou mais atenção que o próprio ranking.

Aquilo aparentemente havia nascido num grupo fechado.

Não era enquete pública.

Não era postagem aberta.

Não era:

“Vote aqui na mais bonita da faculdade.”

Era uma pequena confraria digital.

Alguém precisava entrar.

Alguém precisava pertencer.

Alguém precisava ser considerado parte daquele espaço.

Então apareceu a primeira pergunta:

como aquilo saiu dali?

Pronto.

Primeiro chimpanzé contratado.

Ele abriu uma cerveja.

Ainda não havia saquê.



🕵️ 2. Entrou o cagueta

A conversa foi imediatamente para uma figura muito mais antiga que WhatsApp, Telegram ou Discord:

o informante.

O infiltrado.

O X-9.

O alcaguete.

O cagueta.

O sujeito que entra, observa, coleta e entrega.

Não sabemos se houve realmente um infiltrado naquele caso.

Talvez um membro legítimo tenha se indignado.

Talvez alguém tenha mostrado o telefone para terceiros.

Talvez o conteúdo tenha passado por várias mãos.

Mas a questão apareceu:

um grupo privado continua privado se qualquer membro pode mudar unilateralmente sua audiência?

Excelente pergunta.

O chimpanzé chamou outro chimpanzé.



🍺 3. O Boteco de Itatiba entrou na investigação

Porque qualquer grupo de amigos com alguns anos de estrada conhece uma verdade simples:

há coisas que pertencem ao contexto em que foram ditas.

Conversa de boteco é uma delas.

O problema é que o boteco analógico possuía uma extraordinária política de governança de dados.

Você dizia uma enorme besteira.

Seu amigo respondia uma ainda maior.

O garçom trazia outra cerveja.

Algumas horas depois:

RETENTION PERIOD = 0

A conversa desaparecia.

Talvez alguém lembrasse.

Provavelmente lembrava errado.

E a humanidade seguia.

Então inventamos o smartphone.

Agora a besteira tem:

timestamp,

autor,

fotografia,

histórico,

backup,

busca,

screenshot,

encaminhamento.

O boteco virou cartório.

No Boteco de Itatiba adotamos uma solução civilizada:

mensagens temporárias de sete dias.

Não porque estejamos planejando um golpe de Estado.

Provavelmente estamos discutindo churrasco.

Mas porque velhos malandros entendem uma coisa que muitas empresas ainda descobrem em consultoria:

se determinada informação não precisa existir para sempre, talvez seja uma boa ideia não guardá-la para sempre.

Os chimpanzés ficaram impressionados.

Abriram o primeiro barril de saquê.



🔐 4. Segurança perfeita, até aparecer um ser humano

Claro que mensagem temporária não impede screenshot.

E surgiu imediatamente o problema clássico:

USER AUTHENTICATED = TRUE
USER AUTHORIZED    = TRUE
USER TRUSTWORTHY   = ???

Você pode possuir criptografia excelente.

Pode controlar entrada.

Pode colocar senha.

Pode exigir convite.

Pode apagar mensagens.

Mas depois que a informação chega legitimamente ao dispositivo de outra pessoa, você depende de uma tecnologia ainda experimental:

confiança humana.

Isso nos levou de volta à velha espionagem.

E então alguém comentou:

— Se vazar, hoje qualquer um pode dizer que o print foi feito por IA.

Outro chimpanzé levantou a cabeça.



🤖 5. A IA tornou o verdadeiro mais fácil de negar

Entramos então num paradoxo delicioso.

A inteligência artificial tornou muito mais fácil fabricar:

imagem falsa,

voz falsa,

vídeo falso,

conversa falsa,

screenshot falso.

Mas também tornou mais fácil dizer que uma coisa verdadeira é falsa.

A existência de falsificação sofisticada produz uma nova defesa:

“Isso aí foi feito por IA.”

Agora não basta verificar se algo parece verdadeiro.

É necessário perguntar:

como foi autenticado?

E nasceu outra diferença:

verdade não é a mesma coisa que demonstrabilidade pública.

O Facão de Occam apareceu.

Ainda estava limpo.

Não duraria.


🔪 6. O Facão de Occam entrou no boteco

A lógica era simples.

Se existe apenas um screenshot isolado e nenhuma evidência adicional, há mais espaço para dúvida.

Se existem:

vinte screenshots,

vídeo navegando pelo grupo,

mensagens posteriores,

testemunhas,

horários consistentes,

outras cópias,

a hipótese “foi tudo fabricado” começa a exigir mais e mais suposições.

Occam olha para aquilo e corta.

Não porque Occam saiba automaticamente o que é verdade.

Mas porque uma explicação que exige vinte malabarismos precisa competir com outra que exige dois.

O problema é que alguém colocou o facão perto dos chimpanzés.

Erro operacional.


👩‍⚕️ 7. Mas eram estudantes de Psicologia

Até aqui estávamos nos divertindo com privacidade, botecos e infiltração.

Então veio a parte triste.

Eram estudantes de Psicologia.

Gente que um dia poderá ouvir pacientes falando sobre:

corpo,

peso,

sexualidade,

vergonha,

humilhação,

rejeição,

autoestima,

trauma.

Ninguém é obrigado a achar todo mundo bonito.

Ninguém é obrigado a sentir atração por qualquer característica.

Mas existe uma enorme diferença entre:

“não é meu tipo”

e

“essa característica reduz o valor daquela pessoa.”

A conversa deixou de ser apenas sobre privacidade.

Passou a ser sobre objetificação.

Segundo barril aberto.


⚔️ 8. A Guerra dos Sexos entrou pela janela

E então surgiu a contradição contemporânea.

De um lado:

“não me reduza à aparência.”

Do outro:

uma indústria gigantesca dedicada a modificar aparência.

Cirurgia plástica.

Aparelho dental.

Clareamento.

Harmonização.

Academia.

Cabelo.

Maquiagem.

Filtros.

Procedimentos.

Medicamentos para controle de peso.

A sociedade diz:

“não julgue pela capa.”

e investe uma quantidade absurda de energia na capa.

Isso não é necessariamente hipocrisia.

Uma pessoa pode querer ser considerada bonita sem querer que beleza seja sua única medida de valor.

Mas a tensão existe.

Terceiro barril.


💉 9. Alguém falou “Mojaru”

E tivemos de descobrir que “mojaru” era Mounjaro.

A famosa tirzepatida.

Medicamento para diabetes que entrou com enorme força na conversa mundial sobre obesidade, emagrecimento e aparência.

A partir dali percebemos que nosso configurador humano havia ganhado novos controles.

CABELO ............ alterável
DENTES ............ alteráveis
NARIZ ............. alterável
PESO .............. cada vez mais alterável
PELE .............. alterável
ROSTO ............. alterável
CORPO ............. parcialmente reconfigurável

O mundo começou a parecer um editor de personagem.

Quarto barril.


💇 10. O Brasil virou fábrica de loiras

Então apareceu o cabelo.

E o fato cultural maravilhoso de que no Brasil “loira” frequentemente descreve muito mais uma configuração estética do que ancestralidade.

Temos:

negra loira,

asiática loira,

parda loira,

morena loira,

indígena loira,

loira natural,

loira produzida por profissional com orçamento, química e coragem.

O cabeleireiro brasileiro recebeu uma especificação:

INPUT: cabelo qualquer
OUTPUT: blonde

E respondeu:

— deixa comigo.

Aí nasceu a conclusão econômica:

Blonde as a Service.

Porque a transformação não basta.

A raiz cresce.

A cor muda.

O tratamento continua.

Receita recorrente.

Quinto barril.


🦁 11. Dormiu com a princesa e acordou com Valderrama

E aí apareceu Carlos Valderrama.

Sem qualquer aviso.

O lendário colombiano de cabeleira monumental entrou na conversa porque existe uma piada antiga:

dormir com a princesa e acordar com Valderrama.

O sentido era simples.

Produção noturna.

Sono.

Entropia capilar.

Manhã.

VALDERRAMA.

O assunto agora era:

aparência construída versus aparência percebida.

Sexto barril.


🇮🇹 12. Os italianos já tinham denunciado tudo

Daí veio uma das melhores palavras do idioma italiano:

trucco.

Maquiagem.

E também:

truque.

Artifício.

Disfarce.

Dependendo do contexto, adulteração.

A língua italiana olhou para toda essa discussão sobre aparência e disse, séculos atrás:

— Chama logo de truque e deixa o futuro resolver.

Maravilhoso.

O CSS humano havia acabado de ganhar nome.

Sétimo barril.


🐊 13. Crocodile Dundee envelheceu mal

A conversa pulou para uma velha piada de Crocodile Dundee baseada na ideia de que determinada aparência poderia ser “verificada” fisicamente.

O problema é que aquilo envelheceu em dois níveis.

Primeiro:

consentimento.

Segundo:

a própria noção de que basta olhar ou tocar determinado elemento para descobrir uma “verdade simples” sobre apresentação corporal.

Em 1986:

OLHAR
VERIFICAR
CONCLUIR

Em 2026:

OLHAR
OLHAR
OLHAR
AMPLIAR
OLHAR DE NOVO

CONFIDENCE LEVEL: 61%

O CSS ficou bom demais.

Oitavo barril.


🌃 14. Night City abriu a porta

E então entrou Cyberpunk 2077.

Não porque alguém resolveu enfiar videogame no assunto.

Porque havia uma side quest que parecia escrita especificamente para nossa conversa.

Pepe.

Cynthia.

Ripperdoc.

Modificação corporal.

Aparência reconfigurada.

Identidade.

Confiança.

Night City fez aquilo que nossa sociedade apenas começou:

transformou o corpo inteiro em plataforma atualizável.

Agora o problema já não era maquiagem.

Era:

se tudo pode ser alterado, o que significa “original”?

Nono barril.


🛶 15. O Navio de Teseu apareceu sem convite

Naturalmente, Cyberpunk nos levou ao Navio de Teseu.

Se você substitui uma peça de um navio, continua sendo o mesmo navio?

E duas?

E metade?

E todas?

Agora aplique ao corpo.

Nariz.

Dentes.

Cabelo.

Pele.

Olhos.

Membros.

Órgãos.

Quanto pode mudar antes de começarmos a perguntar:

quem exatamente é esta pessoa?

Décimo barril.

Os chimpanzés já cantavam.


🧬 16. Então o DNA estragou a festa

E alguém percebeu a pegadinha perfeita.

Você pode trocar quase todo o frontend.

Mas, numa reprodução biológica convencional, várias dessas modificações adquiridas não são simplesmente gravadas no material genético transmitido ao filho.

Ou seja:

FRONTEND = Night City Premium
GENOME   = legacy system

Nasce o bebê.

Os pais olham.

O bebê olha de volta.

E Mendel aparece no corredor sorrindo.

Décimo primeiro barril.


📰 17. A conversa voltou ao crime

E então retornamos ao ponto inicial, mas por uma estrada completamente diferente.

Falávamos de objetificação.

Passamos por aparência.

Chegamos à genética.

E surgiu a questão da notoriedade criminal.

Pessoas que cometem crimes célebres podem, paradoxalmente, tornar-se celebridades.

Filmes.

Livros.

Séries.

Entrevistas.

Documentários.

Notícias sobre trabalho.

Casamento.

Separação.

Mudança de vida.

A mídia condena alguém e simultaneamente mantém sua marca ativa.

Décimo segundo barril.


👤 18. A vítima quer desaparecer

Então veio o contraste.

No caso Richthofen, o irmão sobrevivente tornou-se exemplo de uma pessoa que não escolheu aquela história e, ainda assim, carregou seu sobrenome e suas consequências públicas.

O criminoso pode ganhar notoriedade.

A vítima pode querer anonimato.

A sociedade faz exatamente o contrário:

segue o famoso e encontra o recluso.

E apareceu uma pergunta enorme:

quem merece ser lembrado e quem deveria ter direito de desaparecer?

Décimo terceiro barril.


✈️ 19. Espera aí... Richthofen?

Foi aí que um chimpanzé ainda relativamente sóbrio levantou o dedo.

— Richthofen?

Sim.

Richthofen.

E imediatamente apareceu:

Manfred von Richthofen.

O Barão Vermelho.

Um dos maiores ases da Primeira Guerra Mundial.

Oitenta vitórias aéreas.

Figura histórica monumental.

Mas no Brasil surgiu uma ironia.

Digite:

Richthofen

e você provavelmente encontrará Suzane.

Digite:

Barão Vermelho

e provavelmente encontrará Cazuza e a banda.

O pobre Manfred sofreu um ataque semântico pelos dois flancos.

RICHTHOFEN → Suzane
BARÃO VERMELHO → Cazuza

Décimo quarto barril.


🎸 20. Cazuza derrubou o Barão

Não literalmente.

Mas semanticamente.

A banda Barão Vermelho tornou-se tão poderosa na cultura brasileira que o apelido histórico de Manfred ganhou outro significado dominante.

E aí surgiu um artigo inteiro:

O Dia em que Suzane e Cazuza Derrubaram o Barão Vermelho do Google

Primeiro artigo extraído da conversa.

Os chimpanzés comemoraram.

Abriram mais dez barris.

Péssima ideia.


🐷 21. Porco Rosso apareceu para pedir revisão

Depois percebemos:

passamos páginas falando sobre o Barão Vermelho e esquecemos anime.

Especialmente Porco Rosso.

Marco Pagot não é Manfred von Richthofen.

Mas o filme respira a mitologia dos ases da aviação.

Pilotos lendários.

Máquinas identificáveis.

Duelo.

Reputação.

Cores.

Romantismo do voo.

Então apareceu a conclusão:

talvez um personagem histórico possa desaparecer do ranking de busca e continuar vivo como arquétipo cultural.

Décimo quinto barril.


🔎 22. SEO entrou em produção

A conversa, agora completamente fora de controle, começou a perguntar:

como máquinas entendem essas associações?

Barão Vermelho.

Cazuza.

Suzane.

Manfred.

Porco Rosso.

Primeira Guerra.

Aviação.

Google.

SEO.

Mesmo sem linkar tudo explicitamente, um sistema moderno pode extrair entidades e relações contextuais.

Agora estávamos falando de:

busca semântica.

Décimo sexto barril.


🤖 23. E apareceu o artigo sobre SEO para 2027

Como se o universo resolvesse participar da piada, surgiu um artigo do iMasters falando justamente sobre:

entidades,

menções,

IA,

GEO,

busca generativa,

visibilidade além do link azul.

Aquilo que estávamos especulando havia acabado de aparecer organizado como tendência de mercado.

Os chimpanzés apontaram para a tela.

— CHEFE!

Sim.

Eu vi.

Calma.

Ninguém abre outro barril.

Naturalmente abriram.


🌏 24. Singapura estava na sala desde o começo

Então lembramos de um fenômeno observado havia algum tempo:

tráfego recorrente vindo de Singapura.

Pode ser humano.

Pode ser crawler.

Pode ser cloud.

Pode ser proxy.

Pode ser indexador.

Pode ser infraestrutura de terceiros.

Não sabemos.

Mas a coincidência ficou interessante.

Se estamos publicando milhares de relações semânticas e máquinas estão visitando regularmente o blog, vale investigar.

Não declarar vitória.

Investigar.

O Facão de Occam reapareceu.

Estava coberto de banana.


🧙 25. Gandalf entrou no datacenter

E então surgiu uma metáfora.

Talvez Vagner Bellacosa tenha virado um pequeno Gandalf da era da IA.

Não como protagonista.

Mas como personagem que atravessa diversas histórias e conecta grupos que jamais se encontrariam.

Mainframe.

Cinema.

Anime.

História.

Boteco.

Tecnologia.

Memória.

Notícia.

Filosofia.

A função não é possuir uma história central.

É carregar pontes.

Décimo sétimo barril.


📚 26. Tolkien explicou o problema

Naturalmente Gandalf trouxe Tolkien.

E Tolkien trouxe uma descoberta importante:

um texto pode ficar mais compreensível conforme o leitor acumula repertório.

Na primeira leitura:

nome estranho.

Na segunda:

reconhecimento.

Na terceira:

conexão.

O texto não mudou.

O leitor mudou.

Isso explicava por que alguém poderia entrar num Café sem entender:

chimpanzés,

COBOL,

mainframe,

Facão de Occam,

Major Tom,

Efeito VEJA.

Mas depois de dezenas de textos, tudo começa a adquirir significado.

Décimo oitavo barril.


🐪 27. Malba Tahan estava nos esperando

E então apareceu Malba Tahan.

Júlio César de Mello e Souza já fazia, décadas antes da Internet, algo muito parecido.

Ele não começava dizendo:

“Vamos estudar frações.”

Criava um problema.

Uma viagem.

Um mercador.

Um camelo.

Uma herança.

Uma história.

E o leitor aprendia matemática porque queria descobrir o que aconteceria depois.

A melhor porta para conhecimento nem sempre possui placa dizendo:

CONHECIMENTO.

Às vezes tem um camelo.

Décimo nono barril.


📖 28. O Guia dos Curiosos completou o circuito

Então lembramos do Guia dos Curiosos, de Marcelo Duarte.

A genialidade daquele livro não era apenas responder perguntas.

Era produzir novas perguntas.

Você abria procurando uma coisa.

Descobria três outras.

Uma hora depois estava lendo sobre um assunto que não sabia que existia.

E aí finalmente conseguimos formular uma diferença essencial:

a enciclopédia responde a pergunta que você já possui.

O Guia dos Curiosos cria perguntas que você ainda não sabia que possuía.

Vigésimo barril.

Os chimpanzés haviam perdido a conta.


📰 29. O Efeito VEJA voltou

E então percebemos que tudo aquilo parecia uma versão mais ampla de uma ideia que já vínhamos chamando de:

Efeito VEJA.

O texto menciona alguma coisa.

Não explica tudo.

O leitor sente uma coceira mental.

Pesquisa.

Encontra outra coisa.

Nova coceira.

Nova pesquisa.

CONHECIMENTO
    ↓
LACUNA
    ↓
CURIOSIDADE
    ↓
BUSCA
    ↓
DESCOBERTA
    ↓
NOVA LACUNA
    ↺

Nesse momento, o Efeito VEJA deixou de parecer apenas uma piada editorial.

Começou a parecer um mecanismo geral de exploração.

Vigésimo primeiro barril.


🐜 30. As formigas assumiram a infraestrutura

Apareceu então uma metáfora ainda melhor.

Formigas não precisam compreender o formigueiro.

Cada uma realiza ações locais.

Carrega.

Escava.

Segue.

Deixa trilha.

Uma pequena passagem aberta hoje pode ser usada amanhã.

Depois por outra.

Depois por cem.

Depois por milhares.

O pequeno túnel vira rota.

A rota vira:

infovia.

E isso parece descrever muito bem a Web.

Um post cria uma relação.

Alguém encontra.

Compartilha.

Outro menciona.

Um crawler indexa.

Um modelo recupera.

Outro autor escreve.

Uma relação antes rara ganha novos caminhos.

Nenhuma formiga precisou compreender o sistema inteiro.

Vigésimo segundo barril.


📘 31. Então apareceu Facebook

E houve um pequeno acontecimento curioso.

Referral vindo do Facebook.

Só que o autor do blog não usa Facebook para distribuir aquele conteúdo.

Ou seja:

se o referral foi realmente provocado por compartilhamento humano, alguém levou o link por conta própria.

A formiga abriu um túnel fora do território controlado.

Isso ainda não significa viralização.

Não significa inteligência coletiva.

Não significa que Mark Zuckerberg esteja lendo o Bellacosa Mainframe durante o café.

Significa apenas:

uma ponte pode ter sido criada por terceiros.

E isso é muito mais interessante que fabricar a própria ponte.

Vigésimo terceiro barril.


🧠 32. A conversa começou a parecer uma alucinação

Nesse momento, qualquer pessoa que chegasse no final sem conhecer o começo encontraria:

Psicologia → Valderrama → Cyberpunk → DNA → Richthofen → Cazuza → Porco Rosso → SEO → Singapura → Gandalf → Malba Tahan → formigas → Facebook.

Diagnóstico provável:

“A IA enlouqueceu.”

Só que existe um problema.

Podemos reconstruir cada transição.

Nenhum salto precisa ser inventado depois para justificar o anterior.

Há uma aresta.

Depois outra.

Depois outra.

O resultado é estranho.

A trilha não.

Isso produz uma distinção importante:

alucinação inventa a ponte.

pensamento associativo encontra pontes existentes em sequência.

Vigésimo quarto barril.


🕸️ 33. O grafo estava escondido dentro da conversa

Então percebemos finalmente o que havia acontecido.

Não construímos uma linha.

Construímos um grafo.

PSICOLOGIA
   │
   ├── privacidade
   │     └── grupo fechado
   │           └── confiança
   │
   ├── objetificação
   │     └── beleza
   │           └── corpo
   │                 └── Cyberpunk
   │
   └── notoriedade
         └── Suzane
               └── Richthofen
                     └── Manfred
                           └── SEO

E vários ramos voltaram a se encontrar.

Não era uma viagem aleatória.

Era exploração de vizinhanças semânticas.

Vigésimo quinto barril.


🍶 34. Chegamos ao centésimo barril

Naturalmente, ninguém sabe exatamente quando chegamos ao barril número 100.

O departamento de auditoria desistiu por volta do 37.

Mas imaginemos o debugger chegando.

Ele abre a conversa.

Primeiro turno:

notícia sobre estudantes de Psicologia.

Último turno:

teoria de redes, memória semântica e formigas construindo infovias.

O debugger respira fundo.

STATUS:
POSSIBLE HALLUCINATION

Volta ao começo.

Segue as arestas.

Privacidade.

Confiança.

Boteco.

IA.

Objetificação.

Beleza.

Valderrama.

Trucco.

Cyberpunk.

DNA.

Crime.

Richthofen.

SEO.

Malba Tahan.

Formigas.

O debugger chega ao final.

Olha novamente.

STATUS:
WTF

TRACEABILITY:
PASS

🐒🍶


🧩 35. A teoria da informação estava escondida no boteco

E aqui nossa história finalmente encontra o título.

O que fizemos durante toda a conversa?

Pegamos informação.

Criamos associações.

Reduzimos incerteza.

Abrimos novas perguntas.

Transferimos contexto.

Construímos caminhos entre conceitos.

Uma mensagem isolada possui significado limitado.

Uma sequência contextual pode transformar completamente a interpretação da mensagem seguinte.

“Valderrama” sozinho:

jogador colombiano.

Dentro daquela conversa:

unidade de entropia capilar matinal.

“Chimpanzé” sozinho:

primata.

Dentro do Bellacosa Mainframe:

agente caótico de produção intelectual movido a saquê.

“Efeito VEJA” sozinho:

expressão obscura.

Depois de dezenas de referências:

mecanismo narrativo em que uma lacuna de informação provoca exploração.

Contexto altera informação.

Relações alteram significado.

E memória acumulada altera interpretação futura.

Não precisamos fingir que reinventamos Shannon no boteco.

Mas chegamos por brincadeira a uma percepção séria:

informação não vive apenas nas palavras. Vive também nas relações entre elas.


🌐 36. Talvez seja justamente isso que interessa às IAs

Modelos modernos não tratam texto apenas como lista de palavras independentes.

Relações contextuais importam.

Entidades importam.

Coocorrências importam.

Estrutura importa.

Recuperação importa.

E talvez seja por isso que este tipo de escrita tenha alguma afinidade especial com a era das IAs.

Não porque tenha sido escrita “para o algoritmo”.

Muito pelo contrário.

Foi escrita seguindo curiosidade humana.

Mas curiosidade humana produz relações.

E relações são precisamente aquilo que sistemas semânticos tentam capturar.

Isso não significa que uma conversa esteja treinando diretamente um modelo global.

Não significa que escrever determinada palavra dez vezes altere magicamente os pesos de uma IA.

Mas significa que conteúdo público, quando rastreado e recuperável, cria superfícies documentais onde relações podem ser observadas.

Uma formiga abre o túnel.


🛌 37. E o chimpanzé simplesmente dorme sobre o assunto

Aqui aparece talvez a característica mais importante de todas.

Nem toda ideia precisa virar artigo imediatamente.

Algumas precisam dormir.

Uma conversa termina.

Um conceito fica.

Três semanas depois aparece uma notícia.

O chimpanzé que estava de pileque embaixo da mesa acorda.

Ainda está segurando um papel:

TOLKIEN + SEO ???

Olha para a notícia.

Olha para o papel.

Olha para Polindexter.

— CHEFE.

— O quê?

ACHEI A ARESTA.

E pronto.

A conversa ressuscita.

Por isso talvez nunca tenhamos realmente um backlog.

Temos um cemitério de chimpanzés cochilando sobre ideias incompletas.

Alguns jamais acordam.

Outros reaparecem seis meses depois trazendo ouro.


☕ 38. Dois artigos e uma montanha de minério

E foi exatamente isso que aconteceu desta vez.

Uma notícia gerou:

O CSS Humano

Um texto sobre aparência, objetificação, modificação corporal, Cyberpunk, identidade e genética.

Depois gerou:

O Dia em que Suzane e Cazuza Derrubaram o Barão Vermelho do Google

Um texto sobre memória digital, notoriedade, SEO e legado histórico.

E ainda sobraram pedaços suficientes para:

Malba Tahan.

GEO.

Tolkien.

Guia dos Curiosos.

Singapura.

Crawlers.

Formigas.

Memória algorítmica.

Privacidade.

Crime e celebridade.

Mas não precisamos transformar cada pedaço num artigo agora.

Alguns serão canibalizados por textos futuros.

Alguns vão desaparecer.

Alguns dormirão.

Um ou outro chimpanzé acordará no momento certo.


🐒 39. A verdadeira máquina criativa

Talvez aqui esteja a conclusão mais importante.

Não começamos dizendo:

“Precisamos produzir três artigos hoje.”

Começamos dizendo:

“Essa notícia me deixou pensativo.”

Esse detalhe muda tudo.

Porque criação baseada exclusivamente em pauta procura resposta.

Criação baseada em curiosidade procura caminho.

E caminhos produzem coisas que a pauta não previa.

A pergunta inicial era pequena.

O espaço de exploração era enorme.

Isso é quase o inverso do conteúdo industrial.

Conteúdo industrial:

KEYWORD
   ↓
OUTLINE
   ↓
ARTICLE
   ↓
PUBLISH
   ↓
NEXT KEYWORD

Bellacosa Mainframe:

NOTÍCIA
   ↓
"isso me lembra..."
   ↓
"espera..."
   ↓
"e aquela história?"
   ↓
"caralho, Cyberpunk!"
   ↓
"Richthofen?"
   ↓
"Malba Tahan!"
   ↓
🐒🍶
   ↓
3 ARTIGOS

Não recomendo apresentar esse fluxograma ao departamento de processos.


🧙 40. Gandalf não escreve a história principal

Voltamos então ao velho mago.

Talvez o papel de quem acumula muitas décadas de referências não seja possuir a narrativa principal.

É reconhecer caminhos entre narrativas.

Um jovem fala de IA.

Você lembra COBOL.

Alguém fala de crime.

Você lembra SEO.

Uma discussão sobre maquiagem traz italiano.

Italiano traz trucco.

Trucco traz aparência.

Aparência traz Cyberpunk.

Cyberpunk traz filosofia.

Essa capacidade não nasceu ontem.

Ela depende de:

tempo,

memória,

leitura,

experiência,

erros,

viagens,

filmes,

livros,

trabalho,

botecos.

Em outras palavras:

pegadas.

Muitas pegadas.

Algumas se perderam.

Outras viraram trilhas.


🐜 41. A formiga não sabe que está fazendo história

E talvez essa seja a melhor maneira de terminar.

Quem escreveu um post em 2005 não sabia como ele seria encontrado em 2026.

Quem deixou uma fotografia numa página antiga não sabia que um crawler futuro poderia chegar até ela.

Quem mencionou um conceito obscuro não sabia que outro autor o encontraria.

Quem abriu uma trilha não sabia que milhares passariam depois.

A maioria das ações que constroem redes complexas é local.

A formiga carrega uma folha.

Não pensa:

“estou contribuindo para a arquitetura logística do formigueiro.”

O blogueiro escreve um texto.

Não pensa:

“estou adicionando uma aresta a um grafo semântico que poderá ser recuperado por sistemas de IA daqui a dez anos.”

Ele simplesmente escreve.

E continua.


☕ Epílogo — O centésimo primeiro barril

Voltamos então ao Boteco de Itatiba.

Na mesa:

um laptop.

um café.

um Facão de Occam.

um exemplar de Malba Tahan.

um Guia dos Curiosos.

uma miniatura de Fokker Dr.I.

uma foto de Valderrama.

Cyberpunk 2077 aberto numa tela.

Gandalf observa do canto.

Uma formiga atravessa o teclado.

E um milhão de chimpanzés dorme pelo chão.

O centésimo barril de saquê está vazio.

Polindexter olha para o quadro.

No topo ainda está escrita a primeira frase:

“Essa notícia me deixou pensativo.”

Abaixo dela:

dezenas de setas.

Centenas de conceitos.

Dois artigos publicados.

Vários assuntos adormecidos.

Um pequeno túnel levando ao Facebook.

Talvez algum crawler de Singapura passando ao longe.

Um chimpanzé acorda.

Olha para o quadro.

Olha para a formiga.

Olha para o Facão de Occam.

Vai até o depósito.

Abre o barril número 101.

Polindexter grita:

— NÃO!

Tarde demais.

O chimpanzé toma um copo.

Senta no teclado.

E escreve:

“Chefe... você já reparou que...”

Silêncio.

Todos olham.

Pegue outro café.

A conversa acabou de recomeçar.

☕🐒🍶🐜

Mel Brooks — O Homem que Ensinou Frankenstein a Dançar e Hitler a Escorregar numa Casca de Banana

 

Bellacosa Mainframe faz uma homenagem ao mestre do humor Mel Brooks e confesa que muito do humor presente nestas paginas veio de inspiração dele

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Mel Brooks — O Homem que Ensinou Frankenstein a Dançar e Hitler a Escorregar numa Casca de Banana

Ou: Igor abriu a porta do castelo, encontrou um menino judeu do Brooklyn, um sapador da Segunda Guerra, um baterista dos Catskills, um roteirista enlouquecido, o amor de Anne Bancroft — e o velho mestre que passou cem anos diminuindo tiranos com gargalhadas

A porta do castelo rangeu.

Do outro lado apareceu um homem baixo, corcunda, vestido de preto e segurando uma lanterna que provavelmente não atendia a nenhuma norma moderna de segurança.

— Você deve ser Igor.

Eye-gor.

— Certo. E este é o castelo de Frankenstein?

Fronkensteen.

Percebendo que discutir pronúncia com Marty Feldman poderia atrasar nossa visita por várias encarnações, entregamos a ele a credencial temporária do Bellacosa Mainframe e pedimos que nos conduzisse até o laboratório onde Mel Brooks fabrica piadas.

Igor sorriu.

O corcunda mudou discretamente de ombro.

E começamos a descer.

🧒 O menino que nasceu sobre a mesa da cozinha

Mel Brooks nasceu Melvin James Kaminsky, em 28 de junho de 1926, no Brooklyn, em Nova York.

Não numa maternidade cinematográfica iluminada por refletores, mas sobre a mesa da cozinha da família.

Filho de Max Kaminsky e Kitty Brookman, descendia de judeus europeus. O pai morreu de tuberculose quando Mel tinha apenas dois anos, deixando a mãe responsável por quatro meninos durante os anos difíceis da Grande Depressão.

A perda deixou uma marca profunda.

Brooks reconheceria mais tarde que parte de sua comédia nasceu da raiva, do sentimento de abandono e da necessidade de transformar dor em alguma coisa que não terminasse numa briga. Pequeno, franzino e frequentemente provocado por outras crianças, descobriu cedo que uma piada bem colocada podia funcionar como colete à prova de socos.

A comédia não surgiu como passatempo.

Foi um sistema defensivo.

Se conseguisse fazer o agressor rir, talvez o agressor esquecesse de bater. Se transformasse a própria fragilidade em personagem, assumiria o controle da narrativa. O menino que parecia destinado a ser alvo descobriu que podia dirigir a cena.

Esse mecanismo continuaria presente em toda a obra de Brooks: encontre aquilo que provoca medo, retire sua solenidade, coloque-lhe uma roupa ridícula e faça o público rir.

Tiranos parecem gigantes enquanto permanecem sobre pedestais.

Mel Brooks passou a vida puxando-lhes as calças.




🥁 Antes da piada, veio o ritmo

Igor abriu outra porta.

Encontramos uma bateria.

Antes de ser cineasta, Brooks queria ser músico. Aprendeu bateria ainda adolescente e teve aulas com ninguém menos que Buddy Rich, um dos mais famosos bateristas da história do jazz.

Isso explica parte importante de seu estilo.

As piadas de Mel Brooks possuem ritmo. Elas aceleram, repetem palavras, criam expectativas, fazem silêncio e então atingem o público como a caixa de uma bateria. Seus diálogos frequentemente parecem improvisações de jazz: uma ideia é apresentada, deformada, devolvida por outro personagem e finalmente arremessada contra a parede.

O American Film Institute observa que esse treinamento musical influenciou seu modo percussivo de improvisar e construir humor. Ele não escrevia apenas frases engraçadas. Escrevia batidas.

Preparação.

Pausa.

Impacto.

Se uma piada não funcionava, Brooks não realizava uma autópsia filosófica. Mudava o tempo, trocava a palavra ou acrescentava uma buzina.

Às vezes acrescentava três buzinas.

💣 O comediante que desarmava minas

Antes de enfrentar executivos de Hollywood, Mel Brooks enfrentou um inimigo ligeiramente menos perigoso: o Exército alemão.

Alistou-se durante a Segunda Guerra Mundial, recebeu treinamento em engenharia e serviu na Europa como integrante de uma unidade de combate. Seu trabalho incluía localizar e remover minas terrestres para permitir o avanço das tropas aliadas.

Segundo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, sua unidade também construiu pontes e em algumas ocasiões precisou lutar como infantaria.

Portanto, antes de Brooks desarmar bombas culturais, literalmente desarmava explosivos enterrados no solo europeu.

Essa experiência ajuda a compreender sua obsessão posterior por Hitler, nazismo e autoritarismo. Brooks não observou o fascismo como conceito abstrato. Era judeu, serviu na guerra e testemunhou suas consequências.

Sua vingança, porém, não seria transformar Hitler num vilão grandioso.

Seria torná-lo ridículo.

Décadas depois, Brooks explicou que enfrentar um ditador apenas com discursos pode preservar sua aura de poder. O humor faz algo diferente: reduz o tirano. Em vez do líder monstruoso dominando multidões, resta um homenzinho de bigode cantando, dançando e perdendo o controle do cenário.

Uma das missões declaradas de sua vida foi fazer o mundo rir de Adolf Hitler.

Mel Brooks não perdoou Hitler. Ele o rebaixou a palhaço.

🏨 A universidade dos Catskills

Depois da guerra, Brooks entrou no circuito de hotéis e resorts dos Catskills, região conhecida como Borscht Belt.

Ali se hospedavam principalmente famílias judias de Nova York, e os hotéis precisavam de artistas capazes de manter os hóspedes entretidos durante horas. Era um ecossistema de músicos, cantores, mágicos, comediantes, dançarinos e seres humanos dispostos a cair numa piscina usando terno.

Brooks tornou-se um tummler: mistura de animador, mestre de cerimônias, comediante e funcionário encarregado de impedir que o público percebesse quanto tempo faltava para o jantar.

Essa foi sua verdadeira faculdade de humor.

Não havia edição, efeitos especiais ou algoritmo de recomendação. Se a piada fracassasse, o silêncio chegava imediatamente. O artista precisava aprender a ler a sala, recuperar o público e transformar o desastre em material para o número seguinte.

Uma de suas rotinas consistia em caminhar vestido até o fundo de uma piscina. Brooks enchia os bolsos de pedras para permanecer submerso enquanto o chapéu ficava boiando na superfície.

Era uma piada visual cuidadosamente planejada e com risco considerável de terminar no boletim de ocorrência do hotel.

O jovem Mel aprendeu ali uma regra que nunca abandonaria:

O público não é burro. Se você se diverte verdadeiramente com aquilo que criou, há uma boa chance de ele perceber.

📺 A sala de roteiristas que parecia um hospício

Em 1949, Brooks começou a escrever para a televisão. Logo entrou na equipe de Sid Caesar, primeiro em The Admiral Broadway Revue e depois no lendário Your Show of Shows.

Aquela sala reuniu nomes como Carl Reiner, Neil Simon, Danny Simon e Mel Tolkin. Outros talentos, incluindo Larry Gelbart e Woody Allen, circulariam pelo universo de Caesar.

Era praticamente um laboratório nuclear da comédia americana.

Os roteiristas gritavam, representavam cenas, brigavam por palavras, atravessavam móveis e tentavam superar uns aos outros. Brooks, elétrico, barulhento e incapaz de permanecer sentado quando uma ideia surgia, encontrou seu ambiente natural.

Ali consolidou a combinação que definiria sua obra:

  • tradição do vaudeville;

  • humor judaico de sobrevivência;

  • velocidade da televisão ao vivo;

  • paródia cultural;

  • comédia física;

  • musical;

  • anarquia verbal;

  • e uma disposição quase irresponsável para descobrir até onde uma piada poderia ir.

Foi também nesse universo que desenvolveu com Carl Reiner o personagem do Homem de Dois Mil Anos.

Reiner fazia perguntas como entrevistador sério. Brooks respondia como um homem que supostamente testemunhara toda a história da humanidade. O improviso começou em festas, virou gravação, álbum e fenômeno cultural.

Em 2026, quando Mel Brooks completou cem anos, a piada finalmente começou a parecer uma biografia em andamento.

🏫 Afinal, a que escola de humor pertence Mel Brooks?

Igor parou diante de uma sala cheia de livros.

Perguntamos:

— Em qual prateleira colocamos Mel Brooks?

Ele respondeu:

— Em todas.

Brooks pertence principalmente à tradição do humor judaico-americano do Borscht Belt, herdeira do vaudeville, do teatro iídiche, das piadas construídas como defesa e da capacidade de rir da tragédia sem negar sua existência.

Mas classificá-lo apenas dessa maneira seria insuficiente.

Ele também pertence:

À escola do vaudeville

Piadas rápidas, duplas cômicas, trocadilhos, quedas, portas, bengalas, canções e personagens exagerados.

À escola da paródia cinematográfica

Brooks não imita superficialmente os gêneros. Estuda seus códigos, reproduz sua aparência e então instala um chimpanzé no painel de controle.

À escola do burlesco

Não no sentido restrito moderno, mas na tradição de rebaixar temas grandiosos. Reis, monstros, xerifes, psicanalistas e imperadores galácticos acabam discutindo comida, sexo, dinheiro e funcionamento intestinal.

À escola da sátira política

Brooks utiliza o absurdo para atacar fascismo, racismo, antissemitismo, ganância e hipocrisia.

À escola do “vale tudo pela risada”

Se a piada exige refinamento, ele oferece refinamento.

Se exige uma orquestra, contrata a orquestra.

Se exige um cavalo desmaiando ao ouvir o nome de uma governanta, o cavalo será convocado.

Seu humor é sofisticado e vulgar, intelectual e infantil, histórico e escatológico. Uma referência a James Whale pode dividir a tela com uma piada de pum — e ambas serão tratadas como integrantes legítimas da civilização ocidental.

🕵️ Maxwell Smart abre uma porta secreta

Antes de estrear como diretor de cinema, Brooks cocriou com Buck Henry a série Get Smart, lançada em 1965.

A televisão vivia a febre de James Bond e das aventuras de espionagem. Brooks e Henry imaginaram Maxwell Smart, o Agente 86: um espião equipado com tecnologias mirabolantes e uma capacidade igualmente avançada de tomar decisões erradas.

O telefone no sapato tornou-se ícone.

As portas automáticas do quartel-general da CONTROL transformaram a entrada do herói num ritual burocrático.

A série mostrou que Brooks compreendia a tecnologia como fonte natural de comédia. Quanto mais sofisticado o sistema, maior a possibilidade de um ser humano tropeçar nele.

Maxwell Smart era o usuário perfeito do datacenter: possuía acesso a todas as ferramentas e ainda assim conseguia resolver o incidente por acidente.

🎭 Anne Bancroft: a mulher que ouviu “eu te amo” antes de “bom dia”

Em 5 de fevereiro de 1961, Brooks assistiu a um ensaio de Anne Bancroft para um programa de Perry Como.

Ela terminou uma canção.

Do fundo do estúdio, Mel gritou:

— Anne Bancroft, eu amo você!

Ela olhou para a escuridão e perguntou:

— Quem é você?

— Eu sou Mel Brooks!

— Eu tenho seu disco!

Era o álbum do Homem de Dois Mil Anos.

Brooks apaixonou-se imediatamente e passou a aparecer nos lugares frequentados por Bancroft. Quando tentava atribuir os encontros ao destino, ela deixava claro que havia percebido a operação de rastreamento.

Casaram-se em 1964 e permaneceram juntos até a morte dela, em 2005.

Anne Bancroft não foi apenas a companheira do comediante. Era uma atriz monumental, vencedora do Oscar por O Milagre de Anne Sullivan, a inesquecível senhora Robinson de A Primeira Noite de um Homem e uma das pessoas que mais acreditaram no talento de Brooks.

Tiveram um filho, Max Brooks, que seguiria carreira como escritor e criaria, entre outras obras, Guerra Mundial Z. Portanto, os zumbis que quase destruíram a humanidade saíram da casa do homem que já havia destruído o Império Romano, a Inquisição Espanhola e o merchandising de Star Wars.

Anne Bancroft também apareceu em trabalhos ligados ao marido, incluindo A Última Loucura de Mel Brooks e Sou ou Não Sou.

Brooks descreveu os 41 anos ao lado dela como os melhores de sua vida.

Por trás do vulcão cômico havia uma história de amor extraordinariamente estável para os padrões de Hollywood — o que talvez seja a piada mais improvável de toda a filmografia.

🧟 Igor conduz a visita ao laboratório

Chegamos finalmente ao laboratório de O Jovem Frankenstein.

Igor apontou para uma pilha de equipamentos elétricos.

Não eram reproduções.

Mel Brooks e sua equipe localizaram os aparelhos construídos por Kenneth Strickfaden para o Frankenstein de 1931. Guardados durante décadas, os equipamentos originais voltaram a funcionar diante das câmeras de 1974. Strickfaden finalmente recebeu o crédito que não tivera no clássico original.

Esse detalhe revela a diferença entre paródia e desprezo.

Brooks podia encher o filme de insinuações sexuais, cérebros defeituosos e cavalos aterrorizados, mas amava profundamente o cinema que estava satirizando. O Jovem Frankenstein foi filmado em preto e branco, com transições, iluminação, cenários e linguagem visual inspirados nos filmes da Universal dos anos 1930.

A Columbia Pictures queria que o filme fosse rodado em cores.

Brooks recusou.

A Fox aceitou o preto e branco e ganhou uma obra que parece ter sido encontrada numa ala secreta do estúdio de James Whale.

Gene Wilder concebeu a ideia e escreveu o roteiro com Brooks. Ele também impôs uma condição: Mel não apareceria em cena. Wilder temia que a tendência do diretor de olhar metaforicamente para o público e quebrar a quarta parede prejudicasse a realidade daquele universo.

Brooks aceitou.

Concentrou sua energia na direção — embora tenha escondido algumas contribuições vocais no filme.

A corcunda migratória

Marty Feldman decidiu mudar a corcunda de Igor de um ombro para o outro entre as cenas.

Fez isso sem avisar.

Quando perceberam, o erro virou piada:

— Seu corcunda não ficava do outro lado?

— Que corcunda?

“Walk this way”

A cena em que Igor pede que Frankenstein caminhe “deste jeito” e o cientista imita sua postura nasceu de uma antiga piada de vaudeville recuperada por Brooks.

Décadas depois, a expressão inspiraria o título de “Walk This Way”, do Aerosmith — uma piada antiga atravessando o cinema e entrando no rock.

“Puttin’ on the Ritz”

Brooks inicialmente achou absurdo demais o monstro cantar e dançar “Puttin’ on the Ritz”.

Gene Wilder insistiu.

Brooks cedeu.

Depois reconheceu que estava errado.

A sequência tornou-se uma das mais famosas de sua carreira, provando que até o mestre precisa de alguém no Blue Team disposto a impedir uma mudança desastrosa.

Frau Blücher

Sempre que alguém pronuncia o nome de Frau Blücher, os cavalos relincham de terror.

Durante anos circulou a lenda de que “Blücher” significaria “cola” em alemão, explicando o medo dos animais. Não significa.

Os cavalos simplesmente têm seus motivos.

E Mel Brooks teve inteligência suficiente para nunca abrir um chamado solicitando esclarecimentos.

🎬 Filmografia dirigida por Mel Brooks

1967 — Os Produtores (The Producers)

Um produtor decadente e um contador descobrem que podem ganhar mais dinheiro com um fracasso teatral do que com um sucesso. Para garantir o desastre, escolhem o musical Springtime for Hitler.

O plano falha porque o público interpreta a peça como comédia.

Foi a estreia de Brooks na direção e lhe deu o Oscar de roteiro original. A mãe colocou a estatueta sobre a televisão e, segundo Brooks, promovia visitas guiadas para mostrar aos vizinhos que seu pequeno Melvin vencera um Oscar.

Décadas depois, o filme virou musical da Broadway, ganhou 12 prêmios Tony e voltou ao cinema em 2005.

1970 — As Doze Cadeiras (The Twelve Chairs)

Inspirado no romance soviético de Ilf e Petrov, acompanha a busca por joias escondidas dentro de uma das doze cadeiras espalhadas depois da Revolução Russa.

É um Brooks menos explosivo, mais melancólico e europeu, mas já interessado em ganância, burocracia e personagens correndo atrás de uma fortuna que talvez não mereçam.

1974 — Banzé no Oeste (Blazing Saddles)

Uma companhia ferroviária pretende expulsar os moradores de uma cidade. Para provocar o caos, nomeia um xerife negro e espera que o racismo local conclua o trabalho.

O plano encontra Cleavon Little, Gene Wilder, Madeline Kahn, Harvey Korman e uma quantidade industrial de dinamite cômica.

Richard Pryor participou do roteiro, embora o estúdio não aceitasse escalá-lo como protagonista. O vilão Hedley Lamarr provocou um processo da verdadeira Hedy Lamarr, resolvido fora dos tribunais.

Brooks ainda contratou Frankie Laine para cantar a música-tema sem explicar claramente que se tratava de uma comédia. Queria a dramaticidade de um western verdadeiro — e conseguiu.

Em 2026, durante as comemorações do centenário de Brooks, o American Film Institute colocou Banzé no Oeste no topo de sua lista de maiores comédias.

1974 — O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein)

Frederick Frankenstein tenta fugir do legado familiar, pronuncia o sobrenome como “Fronkensteen” e acaba repetindo a experiência do avô.

É provavelmente a obra mais elegante de Brooks: uma paródia tão fiel e carinhosa que pode ser exibida ao lado dos filmes clássicos que satiriza.

Gene Wilder, Marty Feldman, Peter Boyle, Teri Garr, Cloris Leachman, Madeline Kahn e Gene Hackman formam um elenco praticamente indecente de tão bom.

1976 — A Última Loucura de Mel Brooks (Silent Movie)

Um diretor tenta salvar um estúdio produzindo o primeiro grande filme mudo em décadas.

O longa possui apenas uma palavra falada.

Ela é pronunciada por Marcel Marceau, o mais famoso mímico do mundo, que responde “Non!” ao convite para participar do filme.

É uma piada tão perfeitamente construída que deveria ser guardada no Museu Internacional das Coisas que Não Precisavam de Explicação.

1977 — Alta Ansiedade (High Anxiety)

Brooks parodia Alfred Hitchcock usando elementos de Um Corpo que Cai, Psicose, Os Pássaros, Quando Fala o Coração e outros clássicos.

Antes do lançamento, exibiu o filme para Hitchcock, que assistiu em silêncio e foi embora sem comentar. Dias depois, enviou a Brooks seis garrafas magnum de Château Haut-Brion 1961 e uma mensagem dizendo para ele não ter ansiedade.

Quando Hitchcock aprova sua paródia de Hitchcock com vinho caro, o chamado pode ser encerrado.

1981 — A História do Mundo — Parte I

Da Idade da Pedra à Revolução Francesa, Brooks reconta a civilização como uma sucessão de governos ruins, desejos incontroláveis e sistemas sanitários duvidosos.

O filme prometia uma inexistente Parte II com Hitler on Ice, um funeral viking e Jews in Space.

A piada funcionou durante 42 anos, até Brooks produzir uma minissérie chamada A História do Mundo — Parte II em 2023 e quebrar retroativamente a documentação de nosso chimpanzé.

1987 — S.O.S.: Tem um Louco Solto no Espaço (Spaceballs)

Paródia de Star Wars, Star Trek, Alien e da transformação do cinema em máquina de vender produtos.

Brooks pediu a bênção de George Lucas, que concordou desde que não fossem comercializados bonecos capazes de competir com os brinquedos de Star Wars.

A proibição gerou a melhor resposta possível: dentro do filme, Yogurt apresenta uma linha completa de produtos Spaceballs, incluindo toalhas, lancheiras, roupas de cama e papel higiênico.

O merchandising que não podia existir fora do filme tornou-se piada dentro dele.

Uma nova continuação, Spaceballs: The New One, está anunciada para 2027, com Brooks novamente envolvido aos cem anos. O homem continua atualizando piadas antigas em produção.

1991 — Que Droga de Vida (Life Stinks)

Um bilionário aposta que conseguirá viver trinta dias nas ruas de Los Angeles sem dinheiro.

Por baixo do humor, há uma tentativa incomum de Brooks de abordar pobreza, desigualdade e a distância entre quem administra números e quem vive as consequências deles.

Foi recebido de maneira fria, mas merece reavaliação.

1993 — Robin Hood: O Herói dos Ladrões (Robin Hood: Men in Tights)

Brooks ataca principalmente Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões, mas também aproveita todo o estoque histórico de flechas, castelos, cintos de castidade e sotaques britânicos.

Cary Elwes interpreta um Robin Hood que, ao contrário de outros, consegue falar com sotaque inglês.

Dave Chappelle aparece em um de seus primeiros papéis no cinema como Ahchoo, descendente espiritual de personagens de Banzé no Oeste.

1995 — Drácula: Morto, mas Feliz (Dracula: Dead and Loving It)

Leslie Nielsen interpreta Drácula numa paródia das adaptações clássicas de Bram Stoker.

Brooks vive o professor Van Helsing, Peter MacNicol rouba cenas como Renfield e Anne Bancroft faz uma participação.

Foi o último longa dirigido por Mel Brooks até agora. Recebeu críticas duras no lançamento, mas conquistou defensores com o passar dos anos — comportamento padrão dos sistemas que demoram para reconhecer uma boa piada.

🎥 Operações clandestinas da Brooksfilms

Mel Brooks também produziu obras que não pareciam pertencer ao seu universo cômico.

Em 1980, apoiou O Homem Elefante, dirigido por um jovem David Lynch. Brooks evitou destacar seu próprio nome na publicidade porque temia que o público esperasse uma comédia. O filme recebeu oito indicações ao Oscar.

A escolha revela um excelente leitor de talento. Brooks assistiu a Eraserhead, percebeu que Lynch possuía a sensibilidade necessária e protegeu o projeto sem tentar convertê-lo em “um filme de Mel Brooks”.

A Brooksfilms também esteve envolvida em:

  • 1980 — Fatso, dirigido por Anne Bancroft;

  • 1982 — Meu Ano Favorito, homenagem aos bastidores da televisão;

  • 1983 — Sou ou Não Sou, com Brooks e Bancroft;

  • 1985 — O Médico e os Demônios;

  • 1986 — A Mosca, de David Cronenberg;

  • 1986 — Solarbabies;

  • 1992 — The Vagrant.

O homem especializado em colocar monstros para dançar também ajudou David Lynch e David Cronenberg a criarem monstros que ninguém acharia engraçados.

Isso não é contradição.

É alcance.

🏆 O datacenter de prêmios

Mel Brooks pertence ao pequeno grupo de artistas que conquistaram o EGOT:

  • Emmy;

  • Grammy;

  • Oscar;

  • Tony.

Ganhou o Oscar competitivo pelo roteiro de Os Produtores e recebeu um Oscar honorário em 2024 por sua contribuição ao cinema.

O musical The Producers transformou seu antigo filme problemático num fenômeno da Broadway, conquistando 12 Tonys em 2001.

Também recebeu homenagens do Kennedy Center, do American Film Institute e incontáveis instituições. Brooks brincou que não era apenas EGOT, mas EGOTAK, acrescentando AFI e Kennedy Center à sigla.

Quando ganhou seu primeiro Oscar, colocou a mão no peito e descreveu o que havia no coração:

— Ba-bump, ba-bump, ba-bump.

O baterista nunca desapareceu.

🥚 Easter eggs para os chimpanzés bebedores de saquê

1. Mel Brooks não aparece em O Jovem Frankenstein

Foi uma condição de Gene Wilder para preservar a ilusão do filme. Brooks obedeceu, embora tenha emprestado a voz a pequenos sons e personagens.

2. A corcunda de Igor muda de lado

Marty Feldman começou a deslocá-la sem avisar. A brincadeira foi absorvida pelo roteiro.

3. O laboratório era parcialmente verdadeiro

Os equipamentos haviam sido usados no Frankenstein de 1931.

4. “Walk this way” veio do vaudeville

Brooks ressuscitou uma piada antiga e ajudou a levá-la ao rock.

5. Frau Blücher não significa cola

A explicação sobre cavalos enviados ao fabricante de cola é uma lenda. O relincho funciona melhor sem documentação.

6. O único personagem que fala em Silent Movie é um mímico

Marcel Marceau pronuncia uma única palavra para recusar participação num filme mudo.

7. Hedy Lamarr processou o filme por causa de Hedley Lamarr

Brooks considerava a verdadeira Hedy uma estrela extraordinária e preferiu chegar a um acordo.

8. Não existem bonecos oficiais clássicos de Spaceballs

George Lucas permitiu a paródia com a condição de que Brooks não produzisse brinquedos concorrentes.

9. O fracasso de Springtime for Hitler fracassa

Em Os Produtores, a fraude depende de criar o pior musical do mundo. O público acha tudo tão absurdo que considera uma sátira genial.

10. Brooks produziu David Lynch

A Brooksfilms ajudou a levar O Homem Elefante ao cinema e deliberadamente não transformou o nome do comediante em atração publicitária.

11. Max Brooks é filho de Mel Brooks

O autor de Guerra Mundial Z cresceu entre Mel Brooks e Anne Bancroft. Algumas famílias transmitem imóveis; aquela transmitiu o apocalipse.

12. A Parte II finalmente existiu

A promessa falsa de 1981 virou minissérie em 2023, quando Brooks tinha 96 anos.

👑 O velho mestre e a nova geração

Mel Brooks completou cem anos em 28 de junho de 2026.

Chegar a essa idade já seria extraordinário. Chegar aos cem ainda participando de projetos, recebendo homenagens e quebrando piadas instaladas quatro décadas antes parece comportamento típico de alguém que jamais aceitou as limitações normais do sistema.

A nova geração talvez encontre seus filmes de maneira fragmentada.

Um trecho de Spaceballs.

O monstro cantando “Puttin’ on the Ritz”.

Maxwell Smart falando pelo sapato.

O xerife Bart enfrentando uma cidade racista.

Moisés derrubando uma das três tábuas e reduzindo quinze mandamentos a dez.

Uma música sobre Hitler aparentemente feliz demais para ser permitida.

Algumas piadas envelheceram. Outras dependem de referências cinematográficas que o público jovem talvez ainda não conheça. Certas escolhas provocam discussões legítimas quando examinadas pelos valores atuais.

Mas a arquitetura principal permanece viva.

Brooks não atacava minorias para proteger poderosos. Seu movimento recorrente era expor racistas, fascistas, exploradores, aristocratas, empresários gananciosos e instituições pomposas, mostrando como todos ficam pequenos quando arrancamos o cenário que sustenta sua autoridade.

Ele entendia uma coisa essencial:

O humor pode não derrotar sozinho um tirano, mas impede que o tirano controle completamente a maneira como será lembrado.

Hitler queria entrar para a história como Führer.

Mel Brooks colocou-o num musical.

☕ Epílogo — Por aqui, mestre

A visita terminou.

Igor conduziu-nos novamente até a porta do castelo.

Antes de sair, perguntamos qual era o verdadeiro segredo de Mel Brooks.

O corcunda pensou por alguns segundos.

Então mudou novamente de ombro e respondeu:

— Ele conhece o monstro.

Talvez seja isso.

Brooks conhece o medo, a perda, o preconceito, a guerra, o fracasso, a ansiedade e a morte. Não ri porque ignora essas coisas. Ri porque sabe exatamente o tamanho que elas podem alcançar quando ninguém ousa enfrentá-las.

Seu humor não nasceu da ausência de sofrimento.

Nasceu da recusa em entregar ao sofrimento a palavra final.

O menino do Brooklyn transformou a raiva em ritmo.

O baterista transformou ritmo em piada.

O sapador transformou Hitler em palhaço.

O roteirista transformou televisão em laboratório.

O marido de Anne Bancroft encontrou uma companheira para a vida.

O diretor colocou Frankenstein para dançar.

O produtor entregou David Lynch ao mundo.

E o homem de cem anos continua escondendo explosivos cômicos dentro da história.

Um milhão de chimpanzés bebedores de saquê levanta seus copos.

Alguns conhecem todos os filmes.

Outros acabaram de aprender a pronunciar Eye-gor.

Muitos não compreenderam metade das referências, mas começaram a bater palmas porque o chimpanzé da frente bateu primeiro.

Não importa.

A nova geração acaba de receber a documentação.

E, em algum lugar do castelo, Mel Brooks prepara o próximo soco.

É bom ser o rei.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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