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domingo, 16 de agosto de 2026

Antes do ChatGPT, Tinha a Biblioteca 🍺 Não aquela biblioteca: ghostwriters, senpais eternos, antiplágio, Teoria dos Jogos e o boteco do Manoel na universidade dos anos 1990



☕ Um Café no Bellacosa Mainframe 

Antes do ChatGPT, Tinha a Biblioteca

🍺 Não aquela biblioteca: ghostwriters, senpais eternos, antiplágio, Teoria dos Jogos e o boteco do Manoel na universidade dos anos 1990

Existe uma narrativa muito confortável sobre a educação antes da inteligência artificial.

Ela costuma funcionar mais ou menos assim:

Antigamente o aluno pesquisava.
Lia livros.
Ia à biblioteca.
Escrevia o próprio trabalho.
Aprendia.
O professor lia tudo.
Corrigia.
E todos voltavam para casa intelectualmente enriquecidos.

Então surgiu o ChatGPT.

E aparentemente Satanás recebeu acesso ao Wi-Fi da universidade.

A partir daí, segundo essa versão da história, os estudantes pararam de pensar, começaram a terceirizar trabalhos para máquinas e obrigaram professores desesperados a recuperar tecnologias avançadíssimas como:

papel.

caneta.

prova oral.

Tenho uma pequena contribuição histórica para essa discussão.

Eu estava numa universidade entre 1993 e 1996.

E tenho más notícias.

O paraíso nunca existiu.


🕰️ Bem-vindo a 1994

Imagine o cenário.

Não existe Google.

Não existe Wikipédia.

Não existe ChatGPT.

Internet, quando existe, ainda parece uma experiência envolvendo ruídos estranhos, paciência e algum tipo de ritual de invocação eletrônica.

Pesquisar significa literalmente pesquisar.

Você vai até uma biblioteca.

Procura um livro.

Descobre que o livro está emprestado.

Procura outro.

Abre índices.

Consulta bibliografias.

Encontra três páginas úteis num livro de quatrocentas.

Marca.

Anota.

Fotocopia.

Volta para casa carregando uma pequena floresta convertida em papel.

Depois começa a fase dois.

Digitação.

Quem viveu aquela época talvez se lembre de WordStar, DOS, editores simples e computadores que hoje seriam considerados equipamentos arqueológicos.

O Microsoft Office ainda era um rapazinho tentando provar seu valor.

Uma alteração de última hora podia significar reorganizar páginas, imprimir novamente, descobrir que a impressora resolveu mastigar papel e começar uma negociação diplomática com uma Epson matricial às duas da manhã.

Produzir vinte páginas tinha custo.

Custava horas.

Custava xerox.

Custava transporte.

Custava papel.

Custava impressão.

Custava paciência.

E, naturalmente, quando existe custo...

surge mercado.



👻 Antes da IA, existia inteligência orgânica terceirizada

Já naquela época existiam alunos que faziam trabalhos para outros alunos.

Ghostwriters acadêmicos.

Não estou falando de uma conspiração secreta comandada por homens de sobretudo num estacionamento subterrâneo.

Era muito mais banal.

Todo mundo conhecia alguém que conhecia alguém.

O sujeito fazia um bom trabalho.

Depois fazia outro.

Guardava os arquivos.

Guardava bibliografias.

Guardava estruturas.

Guardava introduções.

Guardava conclusões.

Pouco a pouco começava a construir aquilo que hoje provavelmente seria vendido por uma consultoria com quinze slides e uma palavra em inglês:


Knowledge Base.

Só que a knowledge base estava num HD de algumas dezenas de megabytes.

Ou em disquetes.

E funcionava.

Chegava um novo cliente.

— Preciso de um trabalho sobre Administração Científica.

— Quantas páginas?

— Vinte.

— Para quando?

— Sexta.

— Professor?

E aqui aparecia uma das perguntas mais importantes de todo aquele sistema.

— Almeida.

Silêncio.

— Ahhh... Almeida.

Pronto.

Acabava de acontecer uma consulta ao banco de dados.

Porque aquele ghostwriter não conhecia apenas Frederick Taylor.

Ele conhecia Almeida.

E Almeida podia ser mais importante que Taylor.



🧠 Fine-tuning acadêmico de 1994

Um veterano experiente podia saber coisas que não estavam em nenhuma ementa.

Professor X gostava de bibliografia extensa.

Professora Y detestava introduções muito longas.

Professor Z desconfiava de textos perfeitos.

Fulano conhecia determinado livro de trás para frente.

Beltrano raramente aceitava trabalhos sem exemplos.

Ciclano lembrava trabalhos entregues em semestres anteriores.

Isso era inteligência institucional.

Hoje poderíamos chamar isso, brincando um pouco, de:

fine-tuning humano.

O ghostwriter conhecia não apenas o conteúdo.

Conhecia o ambiente.

Conhecia a cultura.

Conhecia a ameaça.

Conhecia o detector.

E adaptava o produto.



📚 Centenas de trabalhos prontos

Alguns desses personagens acumulavam dezenas ou centenas de trabalhos.

O primeiro trabalho sobre determinado assunto exigia pesquisa pesada.

O segundo reaproveitava referências.

O terceiro reaproveitava estrutura.

No décimo, boa parte do caminho já estava pavimentada.

A lógica era extraordinariamente semelhante a sistemas modernos:

corpus → recuperação → adaptação → geração → revisão → entrega

Não existia Large Language Model.

Existia:

Large Veteran Model.

LVM.

😂

Context window: memória do sujeito.

Retrieval: diretórios do HD.

Embedding: “acho que tenho alguma coisa sobre isso”.

RAG: procurar um trabalho antigo e misturar com material novo.

Temperature: quantidade de cerveja consumida.

Humanizer: erros ortográficos estrategicamente distribuídos.

E sim.

Essa última parte merece atenção.



🕵️ Quando chegaram os primeiros xerifes

Com a informatização do ambiente acadêmico começaram também a surgir ferramentas destinadas a encontrar semelhanças, reutilizações e plágio.

Na minha memória daquela época, as notícias sobre software antiplágio primeiro apareciam muito associadas ao mundo de teses e pesquisas avançadas.

Depois a lógica começou a descer a cadeia.

Doutorado.

Mestrado.

Graduação.

E aconteceu aquilo que sempre acontece quando um sistema cria uma defesa:

o outro lado começou a criar contramedidas.

O jogo havia começado.



♟️ Dicionário de sinônimos entra em produção

Se o software procurava frases iguais...

então não entregue frases iguais.

Troque palavras.

Mude estruturas.

Inverta parágrafos.

Modifique exemplos.

Misture trechos de fontes diferentes.

Faça citações indiretas.

Pegue material já usado num trabalho anterior e altere.

Se necessário, use um dicionário de sinônimos.

A frase:

“A administração científica procura aumentar a eficiência do trabalho.”

poderia se transformar em algo como:

“O gerenciamento científico busca ampliar a produtividade das atividades executadas.”

Pronto.

Mesma ideia.

Outra superfície textual.

Isso não era inteligência artificial.

Era inteligência artesanal adversarial.



🐞 O erro ortográfico como feature

Aqui começa uma das minhas partes favoritas dessa história.

Porque havia um problema curioso.

Se determinado aluno escrevia normalmente com dificuldades e, de repente, entregava um texto impecável, extremamente bem estruturado e com vocabulário quase acadêmico profissional...

aquilo também podia chamar atenção.

Perfeição demais gera suspeita.

Então surgia uma ideia brilhantemente perversa:

introduzir erros.

Um pequeno erro de ortografia aqui.

Uma construção menos elegante ali.

Uma vírgula questionável acolá.

O objetivo já não era produzir o melhor trabalho possível.

Era produzir o trabalho mais plausível para aquele aluno.

Isso é muito importante.

Porque mostra que o fraudador sofisticado não otimiza qualidade.

Ele otimiza credibilidade.

Em segurança da informação existe uma diferença enorme entre produzir algo perfeito e produzir algo que parece legítimo.

Em 1995 já havia gente entendendo isso sem usar nenhuma dessas palavras.



🎭 O texto precisava parecer humano antes de existir detector de IA

Décadas depois apareceriam ferramentas prometendo detectar textos gerados por inteligência artificial.

Depois apareceriam ferramentas prometendo “humanizar” esses mesmos textos.

É divertido olhar para trás e perceber que a lógica já existia.

O ghostwriter podia pensar:

“Esse texto está bom demais.”

Então piorava um pouco.

Hoje alguém diz para uma IA:

“Escreva como um aluno de primeiro semestre.”

“Use frases menos sofisticadas.”

“Não pareça perfeito.”

“Coloque pequenas inconsistências.”

Tecnologia nova.

Estratégia velha.



🧓 E então existiam os senpais eternos

Mas o personagem mais extraordinário daquele ecossistema não era necessariamente o melhor aluno.

Era o veterano eterno.

Todo campus parecia produzir alguns.

O sujeito estava ali havia sete, oito, dez anos.

Nunca se formava.

Ou parecia não ter nenhuma pressa especial em se formar.

Era mediano.

Debochado.

Conhecia todo mundo.

Sabia todas as histórias.

Já tinha cursado algumas disciplinas mais vezes do que determinados professores tinham ministrado.

O calouro olhava para aquela criatura e pensava:

“Esse cara está completamente perdido.”

Talvez.

Mas havia outra possibilidade.

Alguns precisavam continuar dentro do ecossistema.

Porque ali estavam os clientes.



💼 Quando ser estudante vira verniz profissional

Pense economicamente.

Para um aluno convencional, a função de utilidade é simples:

terminar curso rapidamente = bom.

Mas para alguém que ganha dinheiro produzindo trabalhos dentro daquele ambiente:

continuar circulando = acesso ao mercado.

A matrícula fornece legitimidade.

O campus fornece clientes.

A biblioteca fornece matéria-prima.

Os corredores fornecem inteligência.

As turmas novas fornecem demanda.

Os veteranos fornecem reputação.

Os professores fornecem especificações técnicas.

O aluno eterno deixa de ser apenas aluno.

Torna-se uma espécie de microempreendedor acadêmico informal.

O verniz é estudante.

Por baixo existe um pequeno negócio.



🤝 O marketplace era humano

Não existia plataforma.

Não existia aplicativo.

Não existia avaliação cinco estrelas.

Não existia checkout.

Existia uma frase:

— Fala com o Fulano.

Esse era o algoritmo de recomendação.

Alguém precisava de um trabalho.

Outro alguém conhecia alguém.

A reputação circulava.

— Ele entrega.

— É caro?

— Depende.

— É bom?

— O professor deu oito no meu.

Isso bastava.

Marketplace construído.

Sem venture capital.

Sem AWS.

Sem Kubernetes.



🍺 E então chegamos à Biblioteca

Agora preciso apresentar o coração de toda essa infraestrutura.

Havia um boteco.

Não era simplesmente um lugar para beber.

Era o lugar onde todo mundo acabava se encontrando.

Alunos.

Veteranos.

Professores.

Funcionários.

Ex-alunos.

Conhecidos.

Desconhecidos.

Figuras que ninguém sabia exatamente de qual curso eram.

E toda aquela extraordinária fauna noturna que São Paulo dos anos 1990 sabia produzir.

Uma pequena democracia alcoólica acadêmica.

O dono chamava-se Manoel.

E Manoel tinha senso de humor.

O boteco chamava-se:

BIBLIOTECA

Sim.

Acredite se quiser.


😂 “Mãe, eu estava na Biblioteca”

É difícil imaginar um nome mais eficiente.

— Onde você estava?

— Na Biblioteca.

Verdade.

— Até duas da manhã?

— Faculdade exige dedicação.

— Estudando?

— Conversando com veteranos.

Também verdade.

— Encontrou material para o trabalho?

— Encontrei.

Talvez sentado numa mesa segurando um copo.

— Fez pesquisa?

— De campo.

Manoel havia criado, sem saber, a melhor ferramenta de negação plausível universitária dos anos 1990.


🖥️ BIBLIOTECA/390

Hoje talvez descrevêssemos aquele lugar assim:

Sistema: BIBLIOTECA/390
Vendor: Manoel Systems
Interface: balcão
Authentication: reconhecimento facial do Manoel
Network: mesas
Protocol: conversa
Database: memória coletiva
Search engine: “Ô, alguém conhece alguém que...”
Recommendation engine: “fala com o Fulano”
Billing: caderneta
Knowledge management: fofoca
Threat intelligence: veteranos
Machine learning: repetir semestre
Cloud: fumaça de cigarro acumulada perto do teto
Batch window: depois da última aula
Disaster recovery: mais uma cerveja
Shutdown: quando Manoel decidia fechar

Era robusto.

Provavelmente tinha menos downtime que muito sistema moderno.



🌐 A universidade tinha departamentos. A Biblioteca tinha interoperabilidade.

Dentro da universidade formal havia divisões.

Curso.

Departamento.

Disciplina.

Professor.

Aluno.

Funcionário.

Na Biblioteca essas fronteiras ficavam mais porosas.

Professor conversava com estudante.

Veterano conversava com calouro.

Funcionário sabia histórias administrativas que ninguém mais sabia.

Aluno de outro curso aparecia.

Ex-aluno trazia notícia do mercado.

Alguém conhecia alguém procurando estágio.

Outro conhecia alguém vendendo alguma coisa.

Outro sabia quem fazia trabalhos.

Era uma rede social antes das redes sociais.

Mais importante:

era uma rede social de colisão.

As pessoas não estavam organizadas por algoritmo de recomendação.

Elas simplesmente esbarravam umas nas outras.

E conhecimento emergia dessa bagunça.



🧠 A Biblioteca oficial guardava livros. A outra guardava contexto.

Essa talvez seja uma das diferenças mais bonitas.

A biblioteca acadêmica tradicional guardava:

livros,

revistas,

artigos,

teses,

referências.

A Biblioteca do Manoel guardava:

quem sabia o quê,

quem conhecia quem,

qual professor gostava de quê,

qual disciplina derrubava alunos,

qual trabalho já tinha circulado,

qual veterano tinha material,

qual funcionário podia explicar determinado procedimento,

onde havia estágio,

quem estava contratando,

quem havia terminado namoro,

quem devia dinheiro,

e provavelmente umas cinquenta outras coisas muito mais importantes naquela noite.

Uma guardava informação.

A outra guardava relações entre informações e pessoas.

Não existia grafo de conhecimento.

Existia mesa de plástico.



♟️ E aqui entra a Teoria dos Jogos

O sistema de avaliação acadêmica nunca foi uma estrada de mão única.

Universidade cria regra.

Aluno reage.

Professor cria fiscalização.

Aluno adapta comportamento.

Software procura coincidência.

Ghostwriter altera texto.

Professor começa a desconfiar de trabalhos perfeitos.

Ghostwriter introduz imperfeições.

Novo detector aparece.

Nova técnica de evasão surge.

Formalmente podemos imaginar:

D₁ → E₁ → D₂ → E₂ → D₃ → E₃

Detecção.

Evasão.

Nova detecção.

Nova evasão.

Isso acontece em segurança cibernética.

Acontece no combate a spam.

Acontece em fraude bancária.

Acontece em doping esportivo.

Acontece em SEO.

Acontece em imposto.

E acontecia dentro da universidade.

A Teoria dos Jogos já estava sentada na Biblioteca bebendo uma cerveja muito antes de virar buzzword em apresentação corporativa.



📄 Mas há outra pergunta ainda mais desconfortável

Vamos imaginar 150 alunos.

Cada um entrega um trabalho de vinte páginas.

Temos:

3.000 páginas.

Agora olhe para o professor.

Ele dá aula.

Prepara aula.

Participa de reunião.

Corrige prova.

Orienta aluno.

Faz pesquisa.

Escreve artigo.

Responde burocracia.

Participa de banca.

Preenche sistema.

Corre atrás de prazo.

E recebe três mil páginas.



Existe uma pergunta que raramente fazemos:

ele realmente consegue ler tudo com profundidade?

Não estou dizendo que professores não leem trabalhos.

Muitos certamente fazem enorme esforço para isso.

Estou falando de física.

Tempo é finito.

Atenção também.

Se cada página exigir apenas dois minutos de leitura cuidadosa, três mil páginas exigem cem horas.

Uma única rodada.

Então talvez existisse uma segunda camada silenciosa de otimização.

O aluno aprendia a produzir um artefato que parecesse academicamente adequado.

O professor aprendia onde concentrar atenção.

Introdução.

Conclusão.

Bibliografia.

Coerência.

Trechos suspeitos.

Amostragem.

Experiência.

Ambos estavam navegando restrições.



🤖 Então chegou a IA e alguém gritou: “Agora acabou!”

ChatGPT apareceu e tornou possível produzir rapidamente textos extensos, organizados e razoavelmente sofisticados.

E muitas instituições reagiram.

Detectores de IA.

Restrições.

Trabalhos manuscritos.

Provas presenciais.

Apresentações orais.

Há uma ironia histórica enorme nisso.

Porque o sistema começa a falar:

“Agora não sabemos mais se o aluno realmente escreveu o trabalho.”

E o ghostwriter de 1995, em algum lugar do multiverso, levanta a mão.

— Professor...

Temos uma notícia.



✍️ Manuscrito não resolve terceirização intelectual

Mandar escrever à mão pode aumentar o custo.

Mas não prova autoria intelectual.

Um aluno pode pedir à IA:

“Produza duas páginas sobre determinado tema num estilo simples.”

Depois copiar tudo para o papel.

Agora o texto é manuscrito.

Mas o raciocínio continua terceirizado.

Parabéns.

Eliminamos a impressora.

A fraude sobreviveu.


🎙️ A prova oral muda o problema

Há uma diferença importante entre perguntar:

“Quem escreveu este texto?”

e perguntar:

“Este aluno domina esta ideia?”

A primeira pergunta pode gerar uma corrida armamentista infinita.

Detector.

Humanizador.

Novo detector.

Novo humanizador.

A segunda permite uma abordagem completamente diferente.

— Explique sua conclusão.

— Por que escolheu essa fonte?

— O que aconteceria se essa variável mudasse?

— Dê um contraexemplo.

— Discorde do seu próprio trabalho.

Essa última é maravilhosa.

Porque decorar não basta.

O aluno precisa manipular o conhecimento mentalmente.



😈 O professor faz Red Team do aluno

Imagine uma avaliação contemporânea.

O estudante entrega cinco páginas.

Pode usar IA.

Pode usar biblioteca.

Pode usar Google.

Pode conversar com colegas.

Pode consultar especialistas.

Mas depois precisa defender o resultado.

Professor:

— Você afirma X.

Aluno:

— Sim.

Professor:

— Agora vou remover sua premissa principal.

Aluno:

— ...

Professor:

— Reconstrua a conclusão.

Nesse momento não estamos mais detectando uma ferramenta.

Estamos testando competência.

É praticamente Red Team aplicado ao conhecimento.


🤯 Mas então o aluno usa IA para treinar a prova oral

E aqui a Teoria dos Jogos dá mais uma volta.

O estudante pode pegar o próprio trabalho e dizer para uma IA:

“Simule uma banca extremamente exigente. Faça perguntas inesperadas. Tente descobrir se eu realmente entendo este assunto.”

A IA começa:

— Por que você escolheu essa metodologia?

— Qual seria a principal crítica ao seu argumento?

— Que evidência derrubaria sua conclusão?

— Como esse conceito se aplica a outro contexto?

O aluno passa três horas treinando.

Até que surge a pergunta filosófica perfeita:

se ele estudou durante três horas para conseguir sustentar intelectualmente o trabalho... ainda estamos falando de fraude?

😂

Em algum momento, tentando trapacear, o sujeito acaba aprendendo.

Sócrates venceu novamente.


📚 Talvez o problema nunca tenha sido o ChatGPT

Durante décadas usamos determinados artefatos como proxies.

Vinte páginas significavam esforço.

Bibliografia significava pesquisa.

Texto sofisticado significava conhecimento.

Mas proxy não é realidade.

Um texto de vinte páginas pode representar:

vinte horas de pesquisa,

vinte minutos de geração,

pagamento a um ghostwriter,

reutilização de trabalho antigo,

colaboração,

ou uma mistura de tudo isso.

A IA não destruiu necessariamente a educação.

Ela destruiu a confiança automática no proxy.


🧪 O ChatGPT fez um teste de carga no sistema acadêmico

Imagine uma aplicação antiga.

Ela funciona há décadas.

Todo mundo acredita que é robusta.

Então alguém aumenta brutalmente o volume de transações.

De repente começam a aparecer gargalos que sempre estiveram lá.

Timeout.

Fila.

Deadlock.

Campo pequeno demais.

Tabela mal indexada.

Regra de negócio esquecida.

A inteligência artificial fez algo parecido com determinados modelos educacionais.

Ela aumentou a escala da terceirização intelectual.

O problema existia.

Mas era caro.

Humano.

Limitado.

Local.

Agora ficou barato.

Automático.

Instantâneo.

Global.

O bug não nasceu em 2022.

Foi apenas colocado sob carga máxima.



🦖 O ghostwriter foi disruptado

Existe até uma dimensão econômica nisso.

O ghostwriter acadêmico de baixa complexidade foi provavelmente um dos profissionais informais mais brutalmente atacados pela IA generativa.

Antes:

cliente procura intermediário.

Negocia preço.

Explica tema.

Espera.

Recebe trabalho.

Pede alteração.

Paga.

Agora:

abre navegador.

Digita.

Recebe.

Refaz.

Expande.

Resume.

Traduz.

Formata.

Em minutos.

O senpai eterno perdeu para automação.

Schumpeter ficaria orgulhoso.

Ou pediria outra cerveja.



🍺 Mas nenhuma IA substitui completamente o Manoel

Porque havia uma coisa que aquele ecossistema produzia e que é muito mais difícil digitalizar:

contexto humano local.

Quem era aquele professor.

Quem estava brigado com quem.

Quem sabia determinada matéria.

Quem tinha emprego.

Quem precisava de funcionário.

Qual disciplina estava mudando.

Qual veterano já havia passado pelo problema.

Quem tinha um livro raro.

Quem podia apresentar você para alguém.

Tudo isso circulava na Biblioteca.

Não a biblioteca dos livros.

A outra.

Aquela onde Manoel servia cerveja.


☕ Trinta anos depois

Hoje temos:

Google.

Wikipédia.

bibliotecas digitais.

bases acadêmicas.

LLMs.

detectores.

LMS.

videoconferência.

plataformas adaptativas.

analytics educacional.

proctoring.

IA generativa.

IA avaliadora.

IA tutora.

IA revisora.

IA que escreve.

IA que detecta IA.

IA que humaniza texto de IA.

IA que tenta descobrir se o humanizador humanizou a IA.

É uma corrida tecnológica impressionante.

Mas talvez a pergunta pedagógica fundamental continue sendo uma das mais antigas da humanidade:

Você realmente entende aquilo que está dizendo?

E para descobrir isso às vezes ainda funciona uma tecnologia surpreendentemente simples.

Duas pessoas.

Uma pergunta.

Uma resposta.

Uma nova pergunta.


🍻 Talvez Sócrates tivesse gostado da Biblioteca

Consigo imaginar perfeitamente.

Sócrates sentado numa mesa.

Copo na frente.

Aluno chega com vinte páginas debaixo do braço.

Sócrates olha.

— Você escreveu isso?

— Escrevi.

— Interessante.

Coloca as vinte páginas de lado.

— Explique.

O aluno começa.

Sócrates interrompe.

— Por quê?

O aluno responde.

— E se o contrário fosse verdadeiro?

Silêncio.

Manoel passa carregando cervejas.

Olha para a mesa.

Sorri.

Ele já sabe.

A prova começou.


🧩 O passado nunca foi tão limpo quanto gostamos de lembrar

É muito fácil romantizar o mundo pré-digital.

Nós pesquisávamos.

Sim.

Nós líamos.

Sim.

Passávamos horas em bibliotecas.

Sim.

Gastávamos dinheiro com xerox.

Sim.

Digitávamos trabalhos em máquinas e computadores que hoje fariam qualquer universitário chorar.

Tudo isso aconteceu.

Mas também existiam atalhos.

Trabalhos vendidos.

Trabalhos reciclados.

Ghostwriters.

Veteranos profissionais.

Sinônimos para enganar software.

Erros introduzidos propositalmente.

Reputação informal.

Mercados subterrâneos.

Estratégias para entender professores.

Estratégias para sobreviver à avaliação.

A humanidade não esperou a IA para descobrir a fraude acadêmica.

Nós somos muito mais criativos que isso.


🎯 A pergunta correta

Talvez por isso a pergunta de 2026 não devesse ser:

“Como impedir que o aluno use IA?”

Talvez devesse ser:

“Como desenhar uma avaliação em que usar IA não substitua a necessidade de saber?”

Isso muda tudo.

Porque, se o estudante precisa explicar, aplicar, criticar, transformar, defender e conectar conhecimentos...

a ferramenta deixa de ser o centro da discussão.

O conhecimento volta a ser.


🍺 Epílogo: onde você estava?

Entre 1993 e 1996 muitas coisas mudaram.

Computadores ficaram melhores.

Software acadêmico evoluiu.

A internet começou a entrar em nossas vidas.

Ferramentas de detecção apareceram.

A universidade foi se informatizando.

Décadas depois vieram Google, Wikipédia e inteligência artificial.

Mas ainda guardo uma imagem muito mais simples daquele ecossistema.

Uma noite em São Paulo.

Professor.

Funcionário.

Aluno.

Veterano.

Calouro.

Ghostwriter.

Gente que estudava muito.

Gente que estudava pouco.

Gente que provavelmente nem deveria estar ali.

Todos conversando.

Todos trocando informação.

E Manoel atrás do balcão administrando silenciosamente a maior base de conhecimento informal daquele pedaço da universidade.

Se alguém perguntasse no dia seguinte:

— Onde você estava ontem à noite?

Não havia necessidade de mentir.

A resposta era absolutamente verdadeira.

Na Biblioteca.

🍺

Só não precisava explicar qual.

Artigo que startou tudo

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2026/08/inteligencia-artificial-avanca-em-fraudes-e-ameaca-educacao-online-nos-eua.shtml

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sábado, 15 de agosto de 2026

O Milhão de Chimpanzés, Gutenberg e a Máquina do Juízo Final: quando o Homem Médio Ganhou Inteligência Artificial

 

Bellacosa Mainframe e o case do um milhão de chimpanzes e a ia generativa

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Milhão de Chimpanzés, Gutenberg e a Máquina do Juízo Final: quando o Homem Médio Ganhou Inteligência Artificial

🐒 IA generativa, teoria dos jogos, incentivo econômico, eleições, fraude, economia da atenção e a perturbadora hipótese de que talvez não precisemos de uma superinteligência para criar um desastre — basta entregar ferramentas suficientemente boas a gente suficiente durante tempo suficiente

Há uma velha experiência mental que diz que, se colocarmos um número infinito de chimpanzés diante de máquinas de escrever durante tempo infinito, eventualmente um deles produzirá as obras completas de Shakespeare.

É uma ideia simpática.

Matemática.

Elegante.

Praticamente poética.

Mas possui uma falha fundamental.

Ela pressupõe que os chimpanzés estejam interessados em usar a máquina de escrever.

Quem já observou seres humanos durante tempo suficiente sabe que essa é uma suposição perigosíssima.

Alguns chimpanzés provavelmente bateriam nas teclas.

Outros dormiriam.

Alguns brigariam.

Outros roubariam a banana do vizinho.

Uma quantidade respeitável descobriria alguma forma obscena de utilizar o equipamento.

Um provavelmente urinaria no teclado.

E inevitavelmente algum deles passaria a mão na bunda do pesquisador encarregado de observar o experimento.

A humanidade, afinal, nunca teve grande respeito pelos modelos elegantes.

Mas estamos em 2026.

E cometemos um pequeno erro experimental.

Entregamos Inteligência Artificial aos chimpanzés.

Agora eles não precisam mais escrever Shakespeare.

Podem simplesmente pedir.


🎹 Senhores, parem de bater aleatoriamente nas teclas

Imagine a sala de guerra.

Homens engravatados.

Cinzeiros.

Mapas gigantes.

Telefones vermelhos.

Um general aponta solenemente para uma tela.

— Senhores, temos um problema.

— Os russos?

— Não.

— Os chineses?

— Também não.

— Terroristas?

— Pior.

Silêncio.

— O cidadão comum descobriu Inteligência Artificial.

É aproximadamente aqui que nosso hipotético Dr. Lovestrange deixa cair o café.

Porque durante boa parte da história humana existiu uma proteção invisível para inúmeros sistemas:

a dificuldade.

Fazer determinadas coisas era difícil.

Escrever um livro era difícil.

Produzir um jornal era caro.

Montar uma campanha publicitária exigia equipe.

Editar vídeo exigia conhecimento.

Programar computadores exigia estudo.

Produzir um relatório técnico exigia competência.

Interpretar determinadas regras exigia especialistas.

Fraudar certos processos também exigia competência.

Atacar sistemas computacionais exigia conhecimento.

Produzir propaganda convincente exigia gente talentosa.

Criar música exigia músicos.

Ilustração exigia ilustradores.

Tudo possuía uma barreira de entrada.

E então começamos, lentamente, a derrubar essas barreiras.

O primeiro grande suspeito atende pelo nome de Johannes Gutenberg.


📚 Gutenberg aperta o primeiro botão vermelho

Por volta do século XV, Gutenberg ajudou a transformar radicalmente o custo da reprodução de textos.

Antes, copiar conhecimento era caro.

Depois, ficou muito mais barato.

E aqui aparece uma verdade desconfortável que acompanha toda democratização tecnológica:

quando você democratiza a produção de coisas boas, também democratiza a produção de porcaria.

A prensa não imprimiu apenas ciência.

Imprimiu propaganda.

Não imprimiu apenas literatura.

Imprimiu mentira.

Não imprimiu apenas filosofia.

Imprimiu panfletos, insultos, pornografia, superstições, ataques políticos, bobagens e todo o maravilhoso zoológico intelectual que acompanha nossa espécie.

Gutenberg não democratizou a verdade.

Democratizou a cópia.

Séculos depois, telégrafo, rádio e televisão atacaram outro gargalo:

a distância.

A Internet atacou:

a distribuição.

Blogs e redes sociais atacaram:

a publicação.

Smartphones colocaram câmera, gráfica, estúdio, rádio e emissora no bolso.

Algoritmos de recomendação começaram a industrializar:

a atenção.

E então chegou a Inteligência Artificial generativa atacando um gargalo diferente.

Talvez o último grande gargalo.

A competência produtiva.


🤖 O homem médio recebe uma promoção que ninguém aprovou

A grande transformação talvez não seja tornar gênios ainda mais geniais.

Os melhores profissionais sempre tiveram capacidade extraordinária.

O melhor advogado já sabia escrever.

O melhor programador já sabia programar.

O melhor fraudador já conhecia o sistema.

O melhor publicitário sabia capturar atenção.

Eles constituem a ponta da distribuição.

Mas a sociedade não é feita apenas das pontas.

Ela é feita principalmente da imensa barriga da curva.

O homem médio.

A mulher média.

O profissional razoável.

O estudante comum.

O cidadão curioso.

O sujeito que sabe um pouco.

O sujeito que não sabe quase nada.

O famoso:

“deixa que eu tento.”

A IA não precisa transformar esse indivíduo em especialista.

Basta transformá-lo de:

“não consigo fazer”

em:

“consigo fazer algo suficientemente plausível.”

Essa palavra — suficientemente — pode causar estragos monumentais.

Porque não estamos falando de um indivíduo.

Estamos falando de milhões.


🐒 O Teorema do Milhão de Chimpanzés

Vamos abandonar por um momento o infinito.

Não precisamos dele.

Vamos trabalhar com apenas:

1.000.000 de chimpanzés.

Cada um recebe:

um computador,

acesso à Internet,

IA generativa,

imagem,

áudio,

vídeo,

programação,

tradução,

automação,

redes sociais,

métricas,

algoritmos de recomendação,

e tempo.

Agora acrescente motivações humanas.

Alguns querem dinheiro.

Alguns querem poder.

Alguns querem passar em concurso.

Alguns querem economizar tempo.

Alguns querem produzir relatórios.

Alguns querem promover candidatos.

Alguns querem atacar candidatos.

Alguns querem fraudar seguradoras.

Alguns querem defender seguradoras.

Alguns querem escrever petições.

Alguns querem contestar petições.

Alguns querem estudar.

Alguns querem colar.

Alguns querem cometer crimes.

Alguns querem combater crimes.

Alguns querem pornografia.

Alguns querem fama.

Alguns só querem assistir jovens dançando com pouca roupa no TikTok e no Instagram.

Outros preferem plataformas mais explícitas.

Uma grande quantidade só quer matar o tédio.

E inevitavelmente alguns continuarão urinando no teclado.

Esse detalhe é importante.

Não estamos modelando agentes racionais perfeitos.

Estamos modelando seres humanos.


🎲 E então entra a teoria dos jogos

Agora nosso experimento fica interessante.

Imagine um concurso.

Um candidato usa determinadas ferramentas para obter vantagem indevida.

Outro percebe.

Ele pode seguir as regras e aceitar uma possível desvantagem.

Ou pode imitar.

Se acredita que muitos estão fazendo o mesmo, surge uma pressão:

“Se eu não fizer, perco.”

Esse pensamento aparece em inúmeras áreas.

No trabalho acadêmico:

“Todo mundo está usando.”

No marketing:

“Meu concorrente produz cinquenta vídeos por semana.”

No escritório jurídico:

“O outro escritório já usa IA.”

No relatório técnico:

“Precisamos entregar amanhã.”

Na eleição:

“O adversário domina as redes.”

Na fraude:

“Esse método está funcionando.”

O comportamento pode espalhar-se mesmo entre pessoas que inicialmente não desejavam participar.

Essa é uma das perversidades da teoria dos jogos.

Não precisamos que todos gostem do equilíbrio final.

Basta que cada agente considere irracional permanecer sozinho fora dele.


💰 E então alguém oferece dinheiro ao chimpanzé

Nesse momento a sala de guerra inteira deveria pedir café duplo.

Porque capacidade tecnológica é uma coisa.

Incentivo econômico é outra.

O chimpanzé pode desistir depois de dez tentativas fracassadas.

Mas e se a décima primeira pagar R$ 5.000?

Agora existe motivação para continuar.

Se determinada atividade apresenta retorno esperado positivo, o fracasso deixa de ser obstáculo.

Vira custo operacional.

Mil tentativas.

Novecentas e noventa e nove falham.

Uma funciona.

Se aquela única tentativa pagar o suficiente, o modelo sobrevive.

E então algo quase darwiniano começa.

tentativa

resultado

recompensa

imitação

melhoria

nova tentativa

As estratégias ruins morrem.

As boas sobrevivem.

O dinheiro funciona como função de fitness.

E estratégias lucrativas possuem uma característica desagradável:

financiam a próxima geração.

Lucro compra:

mais máquinas,

melhores modelos,

mais dados,

mais automação,

mais tentativas.

Então surge um loop:

capital → capacidade → experimentação → sucesso → capital maior.

Não precisamos de Skynet.

Temos contabilidade.


🛡️ A seguradora entra na sala

Considere seguros.

Durante décadas seguradoras construíram processos assumindo determinado custo para produzir documentação, contestar decisões, compreender contratos e executar fraudes.

Agora ambos os lados recebem IA.

O cliente legítimo passa a compreender melhor sua apólice.

Excelente.

O fraudador também.

Menos excelente.

A seguradora coloca IA para detectar padrões.

O adversário aprende como os detectores funcionam.

A seguradora melhora.

O adversário adapta.

Ataque.

Defesa.

Adaptação.

Contra-adaptação.

Estamos diante de uma corrida armamentista.

E ela não precisa ser liderada por grandes organizações criminosas.

Milhares de pequenas tentativas podem produzir conhecimento coletivo sobre o que funciona.

Depois aparecem fóruns.

Vídeos.

Tutoriais.

Ferramentas.

Serviços.

Mercados.

Especialização.

Aquilo que inicialmente exigia um especialista acaba empacotado.

Fraud-as-a-Service.

O chimpanzé agora assina mensalmente.


🎓 A universidade recebe Shakespeare demais

Agora coloque nossos chimpanzés na academia.

Milhões de estudantes recebem máquinas capazes de gerar textos plausíveis.

O problema óbvio é cola.

O problema interessante é outro.

Imagine uma alucinação.

Uma referência inexistente.

Um conceito errado.

A IA produz.

Um estudante publica.

Outro copia.

Um site indexa.

Outra IA recupera.

Outro estudante utiliza.

Uma terceira IA encontra vários textos repetindo a mesma informação.

Pronto.

Criamos uma porcaria com genealogia.

A mentira agora possui avós.

Depois de algumas gerações, ninguém sabe exatamente onde nasceu.

E temos outro problema.

A universidade coloca IA para identificar textos produzidos por IA.

O aluno coloca IA para modificar o texto.

A universidade melhora o detector.

O aluno melhora a transformação.

Outra corrida armamentista.

Senhores, alguém poderia verificar se ainda há café?


⚖️ Advogados, peritos e a aparência de competência

O problema ganha outra dimensão quando os documentos possuem autoridade institucional.

Petição.

Laudo.

Parecer.

Relatório.

Memorando.

Auditoria.

Análise técnica.

Todos possuem uma característica psicológica poderosa:

formato profissional gera percepção de competência.

Um documento de cinquenta páginas, bem diagramado, cheio de tabelas, gráficos e referências parece importante.

Mesmo quando é lixo.

Historicamente, produzir lixo sofisticado dava trabalho.

Agora talvez dê um prompt.

Temos então uma nova equação:

aparência de competência ≠ competência real.

Isso é especialmente perigoso quando o receptor também utiliza IA para analisar o documento.

Uma máquina escreve.

Outra resume.

Uma terceira classifica.

Um humano lê três parágrafos.

E todos seguem felizes.

Até alguma coisa explodir.


💻 O cybercriminoso mediano ganha estagiários sintéticos

Segurança cibernética oferece talvez o exemplo mais intuitivo.

Sempre existiram especialistas extremamente capazes.

Mas especialistas são raros.

O perigo interessante é reduzir parcialmente a barreira para quem está abaixo deles.

Pesquisa.

Tradução.

Automação.

Explicação de código.

Reconhecimento de padrões.

Adaptação.

A IA pode tornar determinadas tarefas mais acessíveis.

Do lado defensivo isso é maravilhoso.

Do lado ofensivo também existe aumento de capacidade.

Mais uma vez:

a tecnologia não escolhe o lado.

Ela reduz custo.

E incentivos escolhem como aquela capacidade será utilizada.


🗳️ Itatiba entra discretamente na sala de guerra

Agora chegamos às eleições.

E aqui tenho uma lembrança particularmente interessante.

Em 2016, em Itatiba, cidade do interior paulista, acompanhei de perto um candidato chamado Du Pedroso.

Não havia grande agência.

Não havia escritório de marketing.

Não havia exército de especialistas.

Era praticamente:

um homem contra o sistema eleitoral.

Ele produzia vídeos, jingles, fotomontagens e outras peças digitais utilizando as ferramentas disponíveis naquele período, distribuindo material por WhatsApp e redes sociais.

Independentemente da avaliação jurídica específica de cada peça, aquilo mostrava algo importante:

um indivíduo tecnologicamente habilidoso já conseguia multiplicar sua capacidade comunicacional sem possuir a infraestrutura tradicional de uma campanha profissional.

Agora retire Du Pedroso da eleição de 2016.

Coloque-o em 2026.

Entregue:

LLM,

geração de imagem,

geração de vídeo,

voz sintética,

música,

edição,

automação,

analytics,

agentes.

Um homem pode carregar uma pequena agência publicitária dentro do computador.

Agora não faça isso com um.

Faça com:

1.000.000.

Chegamos novamente aos chimpanzés.


🗳️ Um milhão de microcampanhas

Quando falamos em interferência eleitoral, nossa imaginação costuma procurar grandes estruturas.

Partidos.

Estados.

Agências.

Empresas.

Organizações.

Mas talvez o desafio mais estranho esteja em outro lugar.

E se tivermos milhões de microprodutores?

Um simpatizante cria um meme.

Outro melhora.

Outro transforma em vídeo.

Outro coloca música.

Outro traduz.

Outro exagera.

Outro distorce.

Outro corrige.

Outro transforma a correção em piada.

Outro produz uma sátira.

Outro cria uma montagem.

Outro cria resposta.

Todos parcialmente independentes.

Agora cada um possui ferramentas de produção industrial.

Temos:

geração

distribuição

feedback

seleção

mutação

nova distribuição

Isso parece menos uma campanha tradicional e mais um organismo cultural.

Não precisa haver comandante.

Não precisa haver sala secreta.

Não precisa haver plano mestre.

O sistema pode produzir comportamento emergente.


📱 Mas metade dos chimpanzés está vendo dancinha

E aqui aparece a grande piada cósmica.

Temos acesso a uma quantidade de informação jamais vista.

Bibliotecas.

Cursos.

Ciência.

História.

Literatura.

Documentos.

Universidades.

Inteligência Artificial.

Praticamente toda a memória da humanidade disponível dentro de um pequeno retângulo de vidro.

E o cidadão usa o retângulo para assistir uma dancinha.

Ou vídeo de gato.

Ou celebridade.

Ou conteúdo sensual.

Ou pornografia.

Isso não é necessariamente estupidez.

É economia da atenção.

Porque Gutenberg resolveu a escassez de cópias.

A Internet resolveu a escassez de distribuição.

IA começa a resolver a escassez de produção.

Mas ninguém resolveu:

a escassez de atenção humana.

Continuamos com dois olhos.

Um cérebro.

Vinte e quatro horas.

E sono.

Quanto mais conteúdo produzimos, mais valiosa fica a atenção.

Consequentemente, milhões de produtores começam a competir não necessariamente pela verdade.

Competem pelo clique.

Pela retenção.

Pelo compartilhamento.

Pelo choque.

Pela indignação.

Pelo tesão.

Pelo medo.

Pela risada.

Pela curiosidade.

E aqui surge uma questão terrível:

o conteúdo mais correto não é necessariamente o conteúdo mais competitivo.


📢 O algoritmo também ganhou direito a voto

Nosso milhão de chimpanzés não distribui conteúdo diretamente.

Existe um intermediário.

O algoritmo.

Ele observa.

Mede.

Classifica.

Recomenda.

Amplifica.

Oculta.

E possui sua própria função objetivo.

Assim passamos de:

chimpanzé → chimpanzé

para:

chimpanzé → algoritmo → chimpanzé.

O algoritmo também participa da seleção cultural.

Uma mensagem recebe atenção.

Outra morre.

Uma imagem viraliza.

Outra desaparece.

A seleção acontece em velocidade industrial.

Então nossos agentes recebem feedback.

“Isso funcionou.”

Produzem mais.

Outra rodada.

Mais dados.

Mais seleção.

Estamos novamente em território evolucionário.


🕵️ O burocrata de 1964 pede transferência

Agora tragam para nossa sala de guerra um burocrata brasileiro de 1964.

Ele está acostumado com outro universo.

Jornais.

Editoras.

Gráficas.

Rádio.

Televisão.

Livros.

Filmes.

Pontos físicos de produção.

Ele consegue imaginar censura porque consegue imaginar gargalos.

Então mostramos 2026.

— Quantas publicações existem?

— Muitas.

— Quantas editoras?

— Não importa.

— Onde estão as gráficas?

— No bolso das pessoas.

— Quantos jornalistas?

— Também não importa.

— Quem produziu este vídeo?

— Talvez uma pessoa.

— Qual estúdio?

— Um notebook.

— Quanto tempo levou?

— Dois minutos.

— Proíba esta imagem.

— Já existem quinze mil variantes.

— Recolha as cópias.

— Não existem originais.

— Então bloqueie tudo.

— Enquanto conversávamos surgiram mais vinte mil.

Nosso burocrata olha lentamente para o teto.

Pede um Xanax.

Depois pergunta se pode misturar com Rivotril.

O médico militar responde que talvez seja melhor apenas pedir aposentadoria.

Mas a piada possui uma conclusão séria.

Muitos mecanismos de governança foram construídos supondo pontos de concentração.

Poucos emissores.

Poucas instituições.

Poucos produtores.

Agora podemos ter milhões.


🌊 Você não precisa derrotar o fiscal. Basta afogá-lo

Essa talvez seja uma das maiores assimetrias do mundo generativo.

Produzir pode levar segundos.

Verificar pode levar minutos.

Horas.

Dias.

Gerar uma alegação é barato.

Investigar exige contexto.

Gerar uma imagem é barato.

Autenticar exige trabalho.

Gerar cinquenta páginas é barato.

Revisar cinquenta páginas continua caro.

Portanto:

custo de produção ↓↓↓

enquanto

custo de verificação ↓ lentamente.

Isso aparece em:

universidades,

tribunais,

seguradoras,

bancos,

auditorias,

moderação,

eleições,

cybersecurity,

jornalismo,

compliance.

Talvez não seja necessário quebrar o sistema.

Basta fornecer mais entradas do que ele consegue verificar.

Não invadimos a fortaleza.

Enviamos formulários.

Milhões deles.

Dr. Lovestrange sorri discretamente.


🐒 Mas o chimpanzé ainda pode urinar no teclado

Existe, porém, outro erro que devemos evitar.

Não podemos imaginar um milhão de agentes perfeitamente racionais usando IA da maneira mais eficiente possível.

Isso seria reconfortante demais.

Humanos são muito mais interessantes.

Alguns procurarão lucro.

Outros cometerão erros.

Outros experimentarão coisas absurdas.

E justamente nesses comportamentos absurdos podem surgir descobertas inesperadas.

Um agente encontra uma estratégia por conhecimento.

Outro por análise.

Outro por tentativa.

Outro porque entendeu errado.

Outro porque estava brincando.

Outro porque apertou o botão errado.

Se o resultado funcionar, alguém observa.

Copia.

Melhora.

Automatiza.

Monetiza.

Portanto, nossa civilização possui uma capacidade curiosa:

transformar acidentes em modelos de negócio.

O chimpanzé que urinou no teclado talvez apenas tenha destruído um computador.

Mas se por alguma coincidência isso revelar uma falha do laboratório...

os outros imediatamente perguntarão:

“Como automatizamos a urina?”


☢️ Senhores, construímos uma máquina do juízo final sem perceber?

A velha ficção sobre Inteligência Artificial imagina uma máquina extraordinariamente inteligente tomando uma decisão extraordinariamente perigosa.

Talvez estejamos olhando para o lado errado.

Talvez o risco sistêmico mais interessante não seja:

uma superinteligência fazendo uma coisa terrível.

Talvez seja:

milhões de inteligências humanas medianas fazendo pequenas coisas suficientemente eficientes, simultaneamente, usando ferramentas suficientemente poderosas.

Não precisamos de HAL.

Não precisamos de Skynet.

Não precisamos de um supervilão.

Podemos precisar apenas de:

N — muitos agentes

IA — capacidade suficiente

T — tempo suficiente

I — incentivo suficiente

A — automação suficiente

F — feedback suficiente

R — conectividade suficiente

B — barreira de entrada baixa

e aquela velha característica humana:

“Se está dando dinheiro, continua.”

Então eventos improváveis deixam de ser necessariamente impossíveis.

Eles podem virar:

questões de tempo.


🎰 O improvável encontra o número grande

Suponha que alguma estratégia possua uma probabilidade minúscula de funcionar.

Para um indivíduo realizando poucas tentativas, ela é irrelevante.

Mas multiplique por milhões de agentes.

Depois multiplique por milhares de tentativas.

Depois dê anos.

Depois permita compartilhamento.

Depois preserve os sucessos.

Agora aquilo que era improvável pode eventualmente ocorrer.

E, uma vez descoberto, não volta necessariamente ao estado anterior.

O conhecimento fica.

É copiado.

Melhorado.

Industrializado.

O tempo não fornece apenas mais tentativas.

Fornece:

memória.


🧠 O verdadeiro problema talvez seja a democratização da competência

Durante muito tempo discutimos democratização da informação como algo predominantemente positivo.

E, em grande parte, é.

Acesso a conhecimento é extraordinário.

IA pode ensinar.

Traduzir.

Programar.

Explicar.

Auxiliar deficientes.

Ajudar pequenos empresários.

Dar capacidade criativa a quem nunca teve acesso a especialistas.

Reduzir desigualdades de conhecimento.

Isso é maravilhoso.

Mas toda democratização possui um gêmeo desagradável.

A mesma ferramenta que ajuda alguém a compreender uma apólice pode ajudar outro a explorar o sistema.

A ferramenta que auxilia o aluno pode ajudar a fraudar uma avaliação.

A ferramenta que ajuda um advogado pode industrializar documentos ruins.

A ferramenta que protege redes pode ensinar conceitos utilizados ofensivamente.

A ferramenta que permite participação política pode industrializar propaganda.

O mesmo motor.

Duas direções.

A tecnologia não precisa ser má.

Basta ser poderosa.


📜 Gutenberg observa tudo e lentamente se afasta

Talvez exista uma linha histórica simples demais para ser ignorada.

Gutenberg democratizou a reprodução.

A Internet democratizou a distribuição.

As redes sociais democratizaram a publicação.

Os algoritmos industrializaram a atenção.

A IA generativa democratiza parte da competência.

Cada revolução remove um gargalo.

Até chegarmos ao gargalo mais curioso.

Nós.

O cérebro humano.

Nossa atenção.

Nossa ética.

Nossa capacidade de verificar.

Nossa propensão a copiar.

Nossa atração por recompensa.

Nosso desejo de vencer.

Nossa capacidade espetacular de racionalizar aquilo que queremos fazer.


☕ O programador COBOL finalmente desliga o terminal

Talvez por isso a pergunta errada seja:

“O que acontecerá quando a Inteligência Artificial ficar inteligente demais?”

Existe uma pergunta anterior.

Mais simples.

Mais feia.

Mais humana.

O que acontece quando milhões de pessoas comuns ficam suficientemente capazes de tentar coisas que anteriormente exigiam especialistas?

E depois:

O que acontece quando algumas dessas tentativas dão dinheiro?

E depois:

O que acontece quando os vencedores ensinam os outros?

E depois:

O que acontece quando algoritmos selecionam aquilo que merece atenção?

E finalmente:

O que acontece quando produzir uma nova tentativa custa quase nada, mas verificar cada tentativa continua caro?

Talvez não aconteça nada catastrófico.

Talvez nossas instituições se adaptem.

Talvez novas defesas apareçam.

Talvez o próprio mercado desenvolva mecanismos de confiança.

Talvez aprendamos a conviver com um mundo onde imagem, áudio, vídeo, texto e autoridade documental precisam ser constantemente verificados.

Ou talvez estejamos fazendo um experimento social em escala planetária sem grupo de controle.

Um milhão de chimpanzés.

Um milhão de teclados.

Um milhão de copilotos.

Um milhão de incentivos diferentes.

Alguns escrevendo Shakespeare.

Alguns fraudando seguro.

Alguns tentando passar no concurso.

Alguns criando propaganda eleitoral.

Alguns protegendo sistemas.

Alguns atacando sistemas.

Alguns vendendo curso sobre como fazer tudo isso.

Alguns vendo TikTok.

Alguns entrando no OnlyFans.

E um, inevitavelmente...

urinando no teclado.

No fundo da sala, Dr. Lovestrange olha para o painel onde uma luz vermelha começou a piscar.

Perguntam:

— Doutor, devemos desligar a máquina?

Ele olha para Gutenberg.

Olha para o smartphone.

Olha para o milhão de chimpanzés.

E responde:

Desligar qual delas?

☕🐒💣


Organizações Tabajara Mainframe™ — Seus Problemas Acabaram! (Ou Entraram em Produção)

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Organizações Tabajara Mainframe™ — Seus Problemas Acabaram! (Ou Entraram em Produção)

👻 Uma homenagem a Bussunda, ao Casseta & Planeta, à gambiarra, ao ajeitar, ao desenrasco — e aos 47 buzzwords necessários para vender aquilo que o mainframe já fazia antes de inventarem o PowerPoint

Há fantasmas que assombram casas.

Outros assombram castelos.

Alguns aparecem em cemitérios, corredores escuros ou naquela fita DAT que ninguém teve coragem de jogar fora porque alguém escreveu nela:

BACKUP — NÃO APAGAR — 1998

O meu fantasma é diferente.

Ele aparece em apresentações comerciais.

Basta colocarem meia dúzia de engravatados num palco, iluminação azul, uma mulher elegantíssima apresentando gráficos, música eletrônica corporativa, animações tridimensionais e uma tela gigantesca dizendo:

THE FUTURE IS NOW

...que alguma coisa acontece dentro da minha cabeça.

Primeiro vem uma sensação.

Depois uma lembrança.

Então, vindo diretamente de algum endereço protegido da minha memória de longa duração, surge ele.

Bussunda.

E, baixinho, começa o jingle:

ORGANIZAÇÕES TABAJARA...

Pronto.

Acabou a apresentação para mim.

O sujeito pode estar anunciando inteligência artificial generativa, quantum-safe cryptography, hybrid cloud, autonomous operations, zero-trust architecture ou uma torradeira conectada ao Kubernetes.

Não importa.

Bussunda já está sentado ao meu lado.

E quando o vendedor finalmente anuncia:

“This solution will transform your enterprise...”

o fantasma completa:

SEUS PROBLEMAS ACABARAM!



📺 Antes do hype existir, existiam as Organizações Tabajara

Para quem nasceu depois da televisão linear, talvez seja necessária uma pequena arqueologia.

O Casseta & Planeta transformou durante anos a publicidade brasileira em matéria-prima para o absurdo.

E uma das melhores invenções daquele universo foram as Organizações Tabajara.

A estrutura era genial justamente porque era simples.

Primeiro aparecia um problema.

Depois surgia uma solução completamente absurda.

Finalmente vinha a promessa definitiva:

SEUS PROBLEMAS ACABARAM!

Era uma paródia do marketing milagroso.

O produto podia ser ridículo.

A engenharia podia ser suspeita.

A demonstração podia terminar praticamente em desastre.

Mas o departamento de marketing permanecia absolutamente confiante.

E talvez seja por isso que a piada envelheceu tão bem.

Décadas depois, os velhos VHS foram digitalizados, cortados, pirateados, transformados em pequenos fragmentos e começaram a reaparecer no Instagram, WhatsApp e outras redes.

Uma nova geração começou a descobrir Tabajara.

Alguns talvez nem saibam exatamente o que foi Casseta & Planeta.

Mas entendem perfeitamente quando alguém olha para uma solução improvisada e sentencia:

“Isso está meio Tabajara.”

Quando uma piada sobrevive ao programa que a criou, alguma coisa especial aconteceu.

A palavra escapou da televisão.

Virou cultura.



🖥️ ORGANIZAÇÕES TABAJARA MAINFRAME DIVISION™

E talvez tenha chegado finalmente a hora de lançar a divisão que faltava.

TABAJARA ENTERPRISE MAINFRAME SOLUTIONS & AI CENTER OF EXCELLENCE™

Temos tudo aquilo que sua empresa precisa:

AI-POWERED.

CLOUD-NATIVE.

API-FIRST.

ZERO TRUST.

DEVSECOPS ENABLED.

QUANTUM SAFE.

DATA-DRIVEN.

EVENT-DRIVEN.

BUSINESS-DRIVEN.

VALUE-DRIVEN.

MISSION CRITICAL.

REAL-TIME.

HYPER-AUTOMATED.

SELF-HEALING.

AUTONOMOUS.

COGNITIVE.

PREDICTIVE.

OBSERVABLE.

COMPOSABLE.

SCALABLE.

RESILIENT.

AGENTIC.

GENAI-READY.

HYBRID-CLOUD-READY.

FUTURE-READY.

Não sabemos exatamente o que metade disso significa quando colocada na mesma arquitetura.

Mas fica maravilhoso no slide.


☁️ Seu mainframe está ultrapassado?

Seus problemas acabaram!

Com o novíssimo:

TABAJARA MAINFRAME CLOUDIFICATION 3000™

transformamos instantaneamente seu velho processamento centralizado em uma moderna:

HYBRID MULTICLOUD DISTRIBUTED ENTERPRISE COMPUTING EXPERIENCE

Como?

Colocamos uma API REST na frente do COBOL.

PRONTO!

Agora é transformação digital.

O programa continua sendo aquele mesmo COBOL que o Joaquim escreveu em 1987.

Mas agora existe:

POST /customer

Portanto...

CLOUD-NATIVE!

Não discuta com o marketing.


🤖 COBOL velho demais?

SEUS PROBLEMAS ACABARAM!

Apresentamos:

TABAJARA GENERATIVE COBOL AI COPILOT AGENTIC EXPERIENCE™

Nossa revolucionária inteligência artificial lê quatro milhões de linhas de COBOL e informa:

“Este programa parece processar informações financeiras.”

Obrigado.

Sem ela jamais descobriríamos.

E TEM MAIS!

Nossa IA pode gerar automaticamente documentação para aquele programa que ninguém documenta desde 1994.

Perguntamos:

“O que faz WS-CONTROLE-X?”

Ela responde:

“WS-CONTROLE-X parece ser uma variável utilizada para controle.”

Extraordinário.

US$ 4 milhões em transformação digital bem empregados.


🧠 E agora com AGENTIC AI!

Porque em 2024 tudo precisava ter AI.

Depois tudo precisava ter Generative AI.

Então veio Copilot.

Agora precisamos de:

AGENTS

O Tabajara Mainframe Agent™ não apenas responde.

Ele age.

Ele abre chamado.

Analisa SMF.

Consulta RMF.

Olha SDSF.

Examina JES2.

Interroga Db2.

Conversa com CICS.

Pergunta ao RACF.

Chama z/OSMF.

Executa um workflow.

Gera uma recomendação.

Abre outro chamado.

Fecha o primeiro chamado.

Abre um terceiro chamado explicando por que fechou o primeiro.

E finalmente envia:

“Human intervention required.”

AGENTIC!


🔐 ZERO TRUST TABAJARA™

Não confie em ninguém.

Nem usuário.

Nem aplicação.

Nem rede.

Nem administrador.

Nem API.

Nem certificado.

Nem token.

Nem inteligência artificial.

Principalmente naquela PROC criada em 1997 cujo autor já morreu e que todo mundo tem medo de alterar.

Implementamos então:

TABAJARA ZERO TRUST ARCHITECTURE

Todos precisam autenticar.

Autorizar.

Validar.

Revalidar.

Registrar.

Auditar.

Correlacionar.

Classificar.

Assinar.

Criptografar.

Exceto...

IBMUSER.

Porque alguém precisa entrar quando tudo der errado.


🧱 DEVOPS MAINFRAME TABAJARA™

Seu desenvolvimento mainframe ainda usa ISPF?

SEUS PROBLEMAS ACABARAM!

Agora o desenvolvedor pode editar exatamente o mesmo COBOL...

NO VS CODE!

🎉🎉🎉

Tem Git.

Pipeline.

CI/CD.

Automated Testing.

Shift Left.

Observability.

Infrastructure as Code.

Policy as Code.

Security as Code.

Documentation as Code.

Everything as Code.

E quando o pipeline falhar às 02h37...

alguém abrirá o ISPF.

Porque precisamos resolver essa porra.


🔧 É aqui que entra a verdadeira tecnologia

E chegamos às quatro tecnologias mais importantes da computação luso-brasileira.

Tecnologias tão sofisticadas que ainda não receberam RFC.

TABAJARA.

GAMBIARRA.

AJEITAR.

DESENRASCO.

Não são sinônimos.

Isso é importantíssimo.


🥴 TABAJARA

Tabajara descreve o estado arquitetônico da coisa.

Não significa necessariamente que seja ruim.

Significa que você olha e pensa:

“Isso não deveria funcionar dessa maneira.”

Mas funciona.

Está em produção desde 2003.

Processa R$ 700 milhões por dia.

Ninguém conhece completamente a arquitetura.

E existe uma fita isolante metafórica segurando alguma coisa essencial.

Isso é:

TABAJARA ARCHITECTURE PATTERN™


🪛 GAMBIARRA

Gambiarra é diferente.

Gambiarra é implementação.

Existe um problema.

Existe uma solução correta.

Mas a solução correta exige:

17 reuniões,

3 CABs,

2 fornecedores,

1 mudança contratual,

6 semanas,

e aproximadamente US$ 400 mil.

Então aparece alguém dizendo:

“Espera aí.”

Cinco minutos depois:

FUNCIONOU.

Não pergunte.

Isso é gambiarra.


🔧 AJEITAR

Aqui entramos numa palavra maravilhosa.

Porque ajeitar não significa consertar.

Essa diferença deveria fazer parte de qualquer curso internacional de português técnico.

Você pergunta:

— Consertou?

E o sujeito responde:

Dei uma ajeitada.

ALARME.

Porque consertar pressupõe:

causa raiz,

correção,

teste,

validação,

documentação.

Ajeitar significa:

“Parou de dar problema.”

Como?

Não interessa.

Está funcionando?

Está.

Então:

NÃO MEXE.


🇵🇹 DESENRASCO

E finalmente chegamos à contribuição portuguesa para nossa arquitetura multinacional.

O desenrasco.

Não é gambiarra.

É uma competência humana.

É a capacidade de olhar para uma situação sem documentação, sem ferramenta adequada, sem pessoa responsável, sem orçamento e possivelmente sem esperança...

e dizer:

“Ó pá... deixa cá ver.”

Quarenta minutos depois:

funciona.

O americano pergunta:

“Where is the runbook?”

O alemão:

“Where is the documented procedure?”

O português:

“Está resolvido, não está?”

Sim.

Mas como?

“Desenrasquei-me.”

Fim do incidente.


🧬 O FRAMEWORK DEFINITIVO

Portanto:

TABAJARA é a arquitetura.

GAMBIARRA é a implementação.

AJEITAR é a manutenção.

DESENRASCO é o skill.

Agora podemos finalmente escrever:

“O negócio estava meio Tabajara, então fiz uma gambiarra, dei uma ajeitada e, no desenrasco, conseguimos pôr para funcionar.”

Tente traduzir isso para inglês.

Boa sorte.

O Google Translate provavelmente produzirá alguma coisa parecida com:

“The thing was somewhat improvised, so I made a workaround, adjusted it and resourcefully managed to make it work.”

Não.

NÃO FOI ISSO QUE ACONTECEU.

A tradução está semanticamente próxima.

Culturalmente está morta.


🇺🇸 Reunião com os americanos

Imagine explicar isso numa reunião internacional.

— Vagner, did you fix the issue?

Not exactly.

— Did you implement a workaround?

Sort of. It was more like a gambiarra.

— What's a gambiarra?

— A temporary engineering solution.

— Temporary?

Yes.

— How long has it been running?

— Seventeen years.

Silêncio.

— So it's permanent.

No. It's still a gambiarra.

Outro silêncio.

— Is it documented?

— No.

— Can someone reproduce it?

— Probably.

— Who?

— The guy who did it.

— Where is he?

— Portugal.

— Can we call him?

— He retired.

— Then how do you maintain it?

We ajeita.

Reunião encerrada.


👻 E Bussunda continua sentado ao meu lado

É por isso que determinadas apresentações comerciais são perigosas para mim.

Quando aparece um palco impecável...

Executivos.

Modelos.

Vídeos.

Música.

Luzes.

PowerPoint.

E alguém anuncia:

“THIS CHANGES EVERYTHING.”

Eu tento manter a compostura.

Sou profissional.

Mainframe.

IBM.

Décadas de experiência.

Homem sério.

Então alguma região extremamente antiga do meu cérebro acorda.

E Bussunda sussurra:

ORGANIZAÇÕES TABAJARA...

O vendedor continua:

“Our AI-powered autonomous platform eliminates operational complexity...”

Bussunda:

SEUS PROBLEMAS ACABARAM!

Eu olho para o chão.

Não posso rir.

O próximo slide:

SEAMLESS MIGRATION

Bussunda:

“E TEM MAIS!”

ZERO DOWNTIME

TABAJARA!

FULLY AUTONOMOUS

TABAJARA!

NO HUMAN INTERVENTION REQUIRED

Agora até o sysprog que existe dentro de mim começa a rir.


⚰️ O humor negro e a promessa impossível

E talvez exista uma razão mais profunda para esse fantasma continuar funcionando.

Conversamos durante anos sobre uma crença:

“Hospital no estrangeiro é melhor.”

Pode ser.

Pode haver hospitais excelentes no exterior.

Assim como existem hospitais excelentes no Brasil.

Mas existe uma diferença gigantesca entre:

reduzir risco

e

eliminar risco.

Quando Tom Jobim morreu em Nova York em 1994, surgiu uma enorme discussão brasileira.

Especialistas apareceram na televisão.

Médicos explicaram procedimentos.

Começou aquela inevitável guerra:

Brasil versus exterior.

“Isso poderia ter sido feito aqui.”

“Nos Estados Unidos havia mais recursos.”

“Se tivesse ficado no Brasil...”

“Se tivesse...”

Ninguém possui o universo paralelo para saber.

Mas o marketing humano adora certezas.

E então, doze anos depois, Bussunda morreu na Alemanha durante a Copa do Mundo.

Outra ironia brutal.

País desenvolvido.

Infraestrutura excelente.

Medicina avançada.

E a biologia simplesmente respondeu:

não existe SLA para organismo humano.

Talvez as Organizações Tabajara tenham entendido antes de muita gente uma verdade fundamental:

quando alguém promete que “seus problemas acabaram”, provavelmente está tentando vender alguma coisa.


📊 ORGANIZAÇÕES TABAJARA OBSERVABILITY™

E isso vale perfeitamente para tecnologia.

Nenhuma plataforma elimina incidentes.

Nenhuma IA elimina erro humano.

Nenhum cloud elimina indisponibilidade.

Nenhum mainframe elimina aplicação ruim.

Nenhum Zero Trust elimina estupidez.

Nenhum DevOps elimina pressão de prazo.

Nenhum dashboard elimina aquilo que você decidiu não medir.

Nenhuma automação elimina completamente a necessidade de alguém entender o sistema.

Podemos melhorar.

Muito.

Podemos reduzir riscos.

Automatizar.

Observar.

Prever.

Testar.

Isolar.

Recuperar.

Mas quando alguém sobe ao palco e implicitamente promete:

SEUS PROBLEMAS ACABARAM!

Meu Bussunda interior imediatamente aumenta o volume.


🚨 TABAJARA INCIDENT RESPONSE FRAMEWORK™

INCIDENT: produção parada.

SEVERITY: P1.

ROOT CAUSE: desconhecida.

ARCHITECTURE: Tabajara.

INITIAL RESPONSE: gambiarra.

REMEDIATION: ajeitada.

ENGINEERING METHOD: desenrasco.

CURRENT STATUS: funcionando.

DOCUMENTATION: pendente.

OWNER: férias.

RISK: elevado.

BUSINESS DECISION:

NÃO MEXER.

NEXT REVIEW:


🧙‍♂️ O verdadeiro especialista

Talvez uma das coisas que décadas de mainframe ensinem seja justamente desconfiar de soluções milagrosas.

O especialista experiente raramente diz:

“Isso nunca vai falhar.”

Ele diz:

“Temos redundância.”

Não diz:

“É impossível perder dados.”

Diz:

“Temos mecanismos de recuperação.”

Não diz:

“A IA resolverá.”

Pergunta:

“E quando ela errar?”

Não diz:

“Zero downtime.”

Pergunta:

“Qual é o failure domain?”

Isso não é pessimismo.

É engenharia.

Porque engenharia começa justamente onde termina o comercial das Organizações Tabajara.


❤️ Obrigado, Bussunda

E no fim das contas este texto é uma homenagem.

A Bussunda.

Ao Casseta & Planeta.

Às Organizações Tabajara.

A uma geração inteira que aprendeu a desconfiar de comerciais milagrosos dando risada.

Bussunda morreu cedo demais.

E talvez justamente por isso a memória dele tenha adquirido aquela estranha propriedade do humor:

a gente ri...

e imediatamente sente saudade.

Até uma troca acidental de palavras consegue resumir isso:

Fazer esporte faz bem para a saudade.

Humor negro?

Sem dúvida.

Mas também carinho.

Porque quase vinte anos depois ainda conseguimos ouvir a voz, lembrar da expressão, imaginar a entrada em cena e antecipar a piada.

E enquanto houver alguém entrando numa reunião corporativa, vendo um PowerPoint cheio de promessas impossíveis e ouvindo mentalmente:

ORGANIZAÇÕES TABAJARA...

alguma coisa daquele humor continua funcionando.

Talvez não esteja oficialmente suportada.

Talvez ninguém tenha documentação.

Talvez seja incompatível com versões modernas.

Mas funciona.

Não mexe.

Foi ajeitado.

E se algum dia parar...

a gente faz uma gambiarra.

Se a gambiarra falhar...

a gente se desenrasca.

E se mesmo assim não funcionar...

bom...

ORGANIZAÇÕES TABAJARA APRESENTAM UMA NOVA SOLUÇÃO!

Agora com IA generativa, agentes autônomos, hybrid cloud, blockchain, quantum-safe cryptography e 37% mais buzzwords!

Porque no Departamento de Marketing Tabajara...

SEUS PROBLEMAS ACABARAM!™

Problemas novos podem ser adquiridos separadamente.


Em memória de Bussunda (1962–2006), com carinho, saudade e a absoluta certeza de que qualquer homenagem excessivamente séria provavelmente mereceria uma piada.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde até a gambiarra tem arquitetura — e produção é o lugar onde soluções temporárias conquistam estabilidade no emprego.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

 

Bellacosa Mainframe e lembranças do 11 de setembro

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Major Tom, American Airlines e o Furby: o dia em que conversei com uma IA 25 anos cedo demais

✈️ 11 de setembro, um Boeing quase vazio, primeira classe, Montevidéu e a noite em que um Furby aparentemente compreendeu tudo o que eu dizia

Existem histórias que contamos tantas vezes que começam a adquirir aquele perigoso perfume de lenda.

E existem histórias ainda piores.

Aquelas que aconteceram conosco e que, vinte e cinco anos depois, fazem até o próprio protagonista parar e pensar:

— Puta que pariu, Bellacosa. Conta outra.

Esta é uma delas.

E preciso começar fazendo uma declaração formal para proteção da minha reputação:

eu também acho esta história suspeita.

O problema é que eu estava lá.

Era setembro de 2001.

Eu trabalhava em São Paulo, na Avenida Paulista, em um banco.

E então chegou o dia que dividiria uma geração inteira entre o antes e o depois.



🏙️ 11 de setembro de 2001

Quem tinha idade suficiente para compreender o que estava acontecendo provavelmente lembra onde estava naquele dia.

Eu estava trabalhando.

A notícia começou a circular.

Um avião havia atingido uma das torres do World Trade Center.

No primeiro momento ainda havia espaço para acidente.

Confusão.

Informações desencontradas.

Pessoas procurando televisão.

Colegas comentando.

Então veio o segundo avião.

E naquele momento alguma coisa mudou.

Não era acidente.

Todos percebemos.

O ambiente dentro do banco ficou estranho.

Silêncio.

Comentários nervosos.

Pessoas tentando compreender imagens que pareciam pertencer a algum filme-catástrofe particularmente exagerado.

Só que não havia diretor gritando “corta”.

Aquilo estava acontecendo.

Nova York.

World Trade Center.

Pentágono.

Aviões sequestrados.

American Airlines.

United Airlines.

E, enquanto o planeta tentava compreender o que acabara de acontecer, eu tinha um pequeno problema burocrático.

No dia seguinte eu precisava viajar.



🇺🇾 Montevidéu não sabia que o mundo tinha acabado

Existe uma coisa que descobrimos quando grandes acontecimentos históricos atravessam nossa vida cotidiana:

o dia seguinte continua sendo o dia seguinte.

Você continua tendo boleto.

Cliente.

Projeto.

Reunião.

Hotel reservado.

Passagem emitida.

E eu tinha uma semana de trabalho programada em Montevidéu, no Uruguai.

Meu voo estava marcado para o dia seguinte.

Pela companhia aérea que, naquele momento, provavelmente possuía o nome mais assustador que poderia aparecer numa passagem:

American Airlines.

Pois é.

O roteirista responsável pela minha vida já demonstrava sinais preocupantes de alcoolismo.



🛫 Cumbica, 12 de setembro

Cheguei ao Aeroporto Internacional de São Paulo.

O clima obviamente não era normal.

As imagens do dia anterior ainda estavam na cabeça de todos.

As pessoas conversavam sobre aviões.

O mundo conversava sobre aviões.

A segurança aérea havia entrado numa dimensão completamente nova praticamente durante a madrugada.

E então veio a notícia.

Meu voo da American Airlines não sairia.

A operação havia sido profundamente afetada pelos acontecimentos do dia anterior.

Minha passagem foi remarcada.

Eu iria para Montevidéu por outra companhia.

AUSA.

Aerolíneas Uruguayas S.A.

Olhei para aquilo.

Um Boeing.

Jato.

Velho.

Muito velho aos meus olhos.

E lotado.

Maravilha.



😬 Noventa minutos pensando demais

A cabine estava cheia.

E havia uma coisa que todos os passageiros carregavam gratuitamente como bagagem de mão:

as imagens do dia anterior.

Talvez nunca tenha existido uma cabine comercial com tanta gente prestando atenção aos próprios pensamentos.

Qualquer ruído parecia merecer análise.

Qualquer movimento chamava atenção.

As pessoas estavam agitadas.

Pensativas.

Com aquele desconforto que não precisava ser explicado porque todos sabíamos de onde vinha.

E então aconteceu uma coisa extraordinária:

absolutamente nada.

O avião decolou.

Voou.

Pousou.

Noventa minutos perfeitamente normais.

Nenhum incidente.

Nenhum susto digno de registro.

Cheguei a Montevidéu.



🎰 E a vida continuou

Os sete dias seguintes foram normais.

Trabalho.

Burocracia.

Reuniões.

Colegas.

Diversão.

Montevidéu.

Cassinos.

Vida noturna adulta uruguaia.

Passeios.

História.

O navio alemão da Segunda Guerra Mundial ligado à memória do Admiral Graf Spee.

O Río de la Plata.

E aquela curiosa sensação de olhar para a imensidão do estuário sabendo que a Argentina estava do outro lado.

Depois de alguns dias, aquilo que parecera o fim do mundo começava a ocupar seu lugar na memória.

Até chegar a hora de voltar ao Brasil.

E então o roteirista abriu outra garrafa.



✈️ American Airlines

Minha passagem de retorno era pela American Airlines.

Uma semana havia passado desde os atentados.

Mas uma semana era muito pouco.

Muita gente continuava com medo.

Passageiros cancelaram viagens.

Outros mudaram de companhia.

Outros simplesmente decidiram que talvez não fosse uma boa semana para entrar num avião americano.

Eu precisava voltar para casa.

E embarquei.

Quando vi a aeronave, porém, tive uma surpresa.

Era um enorme Boeing da American Airlines.

Luxuoso.

Maravilhoso.

Digníssimo.

A rota continuaria depois de São Paulo para Nova York.

Era uma aeronave preparada para transportar algo próximo de trezentas pessoas.

E então entramos.


👻 Onde estão os passageiros?

Olhei para os assentos.

Vazios.

Mais assentos.

Vazios.

Fileiras inteiras.

Vazias.

Naquele enorme avião haviam embarcado menos de dez passageiros.

É aqui que normalmente alguém interrompe a história:

— Bellacosa, vai mentir para outro.

Eu compreenderia perfeitamente.

Porque ainda piora.

Ou melhora.

Depende do ponto de vista.

Pouco depois de entrarmos, eu e meus colegas fomos informados de que poderíamos ocupar a primeira classe.

Repito:

PRIMEIRA CLASSE.

Eu, que uma semana antes havia atravessado aqueles 90 minutos dentro de um Boeing velho e abarrotado da AUSA, agora estava instalado na primeira classe de um gigantesco American Airlines praticamente vazio.

Major Tom havia entrado em órbita.


🧑‍✈️ Obrigado por escolher a American Airlines

Estávamos confortavelmente instalados quando apareceu o chefe da equipe de bordo.

Ele veio falar conosco.

Não parecia estar simplesmente executando o protocolo habitual de atendimento.

Estava emocionado.

Para os padrões profissionais americanos aos quais estávamos acostumados, visivelmente emocionado.

Cumprimentou-nos.

Agradeceu.

Agradeceu sinceramente por termos escolhido voar com a American Airlines.

Naquele momento, a brincadeira do upgrade perdeu um pouco do caráter de brincadeira.

Aquelas pessoas tinham acabado de viver algo terrível.

Dois aviões da empresa haviam sido utilizados nos ataques.

Colegas tinham morrido.

A marca estampada no uniforme deles aparecia havia uma semana em praticamente todos os telejornais do planeta.

E ali estava aquela tripulação diante de um Boeing com centenas de lugares.

Quase todos vazios.

Nós éramos menos de dez.

A frase “obrigado por escolher a American Airlines” não parecia mais uma frase corporativa.

Parecia significar:

“Obrigado por ainda confiar em nós.”


👨‍✈️ Então apareceu o comandante

As portas já estavam fechadas.

Ainda nem havíamos iniciado o taxiamento.

E apareceu outro homem.

O comandante.

Em pessoa.

Saiu do cockpit e veio conversar conosco.

Apertou nossas mãos.

Sorriu.

Novamente agradeceu por estarmos ali.

E então fez uma promessa:

aquele seria um dos melhores voos das nossas vidas.

O homem não estava brincando.


🥂 First Class, senhores

Começou o serviço.

E que serviço.

Comida excelente.

Atenção praticamente individual.

Espaço absurdo.

Tripulação inteira para menos passageiros do que encontramos atualmente numa fila de padaria.

E havia as bebidas.

Quem voava naquela época talvez se lembre das pequenas garrafas individuais de destilados servidas nos aviões.

Whisky.

Vodka.

Gin.

Outras pequenas maravilhas alcoólicas cuidadosamente engarrafadas.

Em determinado momento, uma comissária apareceu com um recipiente daqueles utilizados com gelo.

E junto vieram garrafinhas.

Muitas garrafinhas.

Dezenas de garrafinhas.

Major Tom informou à Ground Control que tudo estava perfeitamente sob controle.

Ground Control provavelmente não acreditou.


🌎 Senhores, olhem pela janela

E o comandante continuou cumprindo sua promessa.

O voo começou a parecer um passeio turístico particular.

De tempos em tempos vinha a voz:

“Se vocês olharem agora pela janela...”

E lá íamos nós.

Pouquíssimos passageiros espalhados pela primeira classe de um gigantesco Boeing, olhando a paisagem enquanto o comandante praticamente narrava o percurso.

Não era mais simplesmente:

Montevidéu → São Paulo.

Era um passeio aéreo.

Com comida.

Primeira classe.

Serviço quase particular.

E um estoque de bebidas perigosamente superior ao número de passageiros.

Nunca noventa minutos passaram tão rapidamente.


🛬 Cumbica

Pousamos em São Paulo.

Quando chegou a hora de desembarcar, aconteceu mais uma pequena cena que permanece comigo.

A tripulação estava reunida na porta.

Despedidas.

Sorrisos.

Apertos de mão.

Agradecimentos.

Depois daquela semana terrível, aquelas pessoas tinham conseguido transformar um voo potencialmente carregado de medo numa celebração da própria experiência de voar.

E nós havíamos correspondido.

Especialmente no departamento de bebidas.

Desembarquei em Cumbica com aproximadamente mais álcool no sangue do que uma destilaria das Highlands escocesas consideraria prudente manter num único depósito.

Major Tom havia retornado à Terra.

O corpo, pelo menos.

O espírito continuava em órbita.


🛍️ Só precisamos passar no free shop

Meus colegas tiveram então uma excelente ideia.

Compras.

Free shop.

Perfumes.

Presentes.

Bebidas.

Eletrônicos.

Coisas absolutamente normais que pessoas absolutamente sóbrias fazem em aeroportos.

Eu os acompanhei.

Ou talvez tenha sido conduzido pela gravidade.

Minha memória dos aproximadamente sessenta minutos seguintes possui alguns setores danificados.

O álcool executou:

DELETE FROM memoria WHERE timestamp BETWEEN desembarque AND amigos_terminarem_compras;

Mas uma coisa permaneceu.


👁️ Então eu encontrei o Furby

Ali estava ele.

Um Furby.

Para quem não viveu aquela época, Furby era uma das grandes maravilhas tecnológicas do final dos anos 1990.

Um pequeno bicho eletrônico.

Olhos que se mexiam.

Orelhas que se mexiam.

Sons.

Palavras.

Reações.

Parecia observar você.

Parecia responder.

Parecia aprender.

Era uma espécie de Inteligência Artificial fake antes de sabermos que precisaríamos chamar aquilo de Inteligência Artificial fake.

E aparentemente o Furby encontrou naquele free shop o interlocutor perfeito.

Eu.


🤖 “Você entende o que estou dizendo, não entende?”

Não sei exatamente como começou.

Talvez eu tenha falado alguma coisa.

O Furby respondeu:

“Pritistóitêsdf!”

Eu ri.

Falei outra coisa.

O Furby mexeu os olhos.

Mexeu as orelhas.

Respondeu:

“Bla-prrrr-tiii-doo!”

E aparentemente meu cérebro, alimentado pela hospitalidade da primeira classe da American Airlines, concluiu:

INTERLOCUTOR VÁLIDO ENCONTRADO.

Começamos a conversar.

Não estou dizendo que brinquei cinco minutos com um Furby.

Estou dizendo que, enquanto meus colegas faziam compras durante algo em torno de uma hora, eu mantive uma conversa com aquele filho da puta.

Conversa.

Papo.

Eu falava.

Ele respondia.

Ele mexia os olhos.

Eu ria.

Ele mexia as orelhas.

Eu argumentava.

Ele emitia alguma coisa absolutamente incompreensível.

Eu aparentemente considerava aquilo uma contribuição válida ao debate.

— Hahahaha! Exatamente!

Furby:

— Plitistoitesdf!

— NÃO! Aí você está errado!

Furby:

— Brrr-dah-wee!

— Agora você entendeu!


🧠 A primeira IA que realmente me compreendeu

Vinte e cinco anos depois, existe algo extraordinariamente engraçado nessa história.

Hoje converso diariamente com Inteligência Artificial.

Discuto tecnologia.

Mainframe.

História.

Segurança.

Filosofia.

Cultura.

Anime.

Red Team.

Memórias.

Escrevo artigos em colaboração com máquinas capazes de sustentar diálogos enormes.

Em 2001 eu já estava fazendo exatamente a mesma coisa.

Havia apenas alguns pequenos problemas.

A Inteligência Artificial não era inteligência.

A conversa não era conversa.

Meu interlocutor era um brinquedo eletrônico.

E eu estava bêbado.

Muito bêbado.


🛰️ Ground Control to Major Tom

Talvez o mais extraordinário daquela semana seja a maneira como diferentes versões do mundo coexistiram.

No dia 11, eu estava diante de uma televisão na Avenida Paulista vendo algo que mudaria a história.

No dia 12, estava dentro de um avião lotado, cercado por pessoas assustadas.

Durante sete dias, trabalhei normalmente em Montevidéu.

Na volta, embarquei num enorme Boeing quase vazio da American Airlines.

Fui colocado na primeira classe.

Recebi o agradecimento emocionado de profissionais que haviam atravessado uma semana inimaginável.

Apertei a mão do comandante.

Comi maravilhosamente.

Bebi gloriosamente.

Observei a paisagem enquanto o próprio comandante fazia praticamente uma visita guiada aérea.

Desembarquei sendo cumprimentado pela tripulação.

E terminei a aventura discutindo sabe Deus o quê com um Furby.

Se alguém tivesse escrito isso como roteiro, eu provavelmente reclamaria:

“Está forçado demais.”

A vida, porém, não possui editor.


☕ O dia seguinte sempre chega

Existe uma lembrança humana importante escondida debaixo de toda essa comédia.

Grandes acontecimentos históricos parecem enormes quando os observamos retrospectivamente.

Datas.

Presidentes.

Guerras.

Mercados.

Aeroportos.

Mortos.

Consequências geopolíticas.

Mas quem vive dentro da História continua sendo apenas uma pessoa.

No dia seguinte precisa trabalhar.

Precisa pegar avião.

Precisa chegar ao cliente.

Precisa voltar para casa.

Às vezes sente medo.

Às vezes encontra pessoas extraordinariamente gentis.

Às vezes bebe além da conta.

E, ocasionalmente, encontra um Furby.

Talvez aquela tripulação tenha entendido algo importante naquela semana.

Depois de tudo que tinha acontecido, eles poderiam simplesmente executar aquele voo.

Em vez disso, decidiram fazer com que aqueles poucos passageiros voltassem a gostar de estar dentro de um avião.

Funcionou.

Quase vinte e cinco anos depois, ainda lembro deles.

Do chefe de cabine.

Do comandante.

Dos agradecimentos.

Da primeira classe.

Das garrafinhas.

Das janelas.

Da despedida em Cumbica.

E do Furby.

Principalmente do maldito Furby.


🤖 Epílogo: o roteirista estava fazendo foreshadowing

Hoje finalmente compreendo aquela criatura.

Talvez ela não estivesse falando bobagem.

Talvez estivesse tentando me avisar:

“Vagner, daqui a vinte e cinco anos você vai passar horas conversando com uma máquina.”

Infelizmente, naquela noite, minha capacidade de interpretação de Furbish estava ligeiramente comprometida.

Então respondi provavelmente alguma coisa como:

— HAHAHAHAHA! EXATAMENTE, MEU AMIGO!

E o Furby:

— Plitistoitesdf.

Maldito roteirista.

Ele não estava bêbado.

Estava fazendo foreshadowing.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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