☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Quando o Escritório Era uma Família Estendida
Ou: antes do Teams, do escritório inteligente e do RH falar em “engajamento”, já existiam o Clube da Veja, o Clube da Bolacha, a vaquinha do aniversário, o churrasco da firma — e uma certa Rosalaine capaz de fazer um office-boy correr mais rápido que Hermes
Pegue um café.
Hoje não vamos falar de COBOL.
Não haverá CICS, Db2, VSAM, JCL nem abend misterioso esperando no fim do artigo.
Hoje vamos abrir um arquivo muito mais antigo e talvez mais complicado de restaurar.
O backup da memória.
A culpa começou com a revista Veja.
Outro dia, enquanto remexia algumas lembranças envolvendo a revista, aconteceu aquilo que frequentemente ocorre com quem já possui algumas décadas de dados armazenados no HD biológico: você procura um arquivo e descobre um diretório inteiro.
Uma lembrança chamou outra.
Depois outra.
E mais outra.
Quando percebi, não estava mais pensando na revista.
Estava novamente dentro de um escritório da Avenida Paulista, antes do ano 2000, numa época em que palavras como smart office, employee experience, collaboration platform, digital workplace e people analytics ainda não haviam sido inventadas para explicar coisas que nós simplesmente chamávamos de:
trabalhar com gente.
Para otimizar essa memória, convoquei três consultores especializados em observar o comportamento do brasileiro:
Laerte, Glauco e Angeli.
E, naturalmente, deixei o temível Leão de Chácara cuidando da porta.
Porque memória corporativa antiga não é assunto para amadores.
🏢 O escritório antes de virar “workspace”
Quem começou a trabalhar nas últimas duas décadas talvez tenha dificuldade para imaginar o tamanho de alguns departamentos empresariais dos anos 1980 e 1990.
Hoje uma atividade pode passar por ERP, workflow, e-mail, portal corporativo, API, chatbot, RPA, inteligência artificial e meia dúzia de sistemas.
Naquela época, boa parte dessa infraestrutura tinha nome, sobrenome e crachá.
Eram pessoas.
Muitas pessoas.
Departamentos com cinquenta, sessenta, oitenta funcionários não eram particularmente estranhos.
Alguns chegavam perto de uma centena.
Dentro deles havia setores menores, frequentemente três ou quatro, cada qual com sua chefia, suas mesas, seus arquivos, seus telefones e seus pequenos universos.
Existia o organograma oficial:
Diretor → Gerente → Chefes → Setores → Funcionários.
Mas havia outro organograma.
Nunca impresso.
Nunca aprovado pela diretoria.
Nunca enviado ao RH.
E provavelmente muito mais importante para entender como aquela empresa realmente funcionava.
Era o organograma social.
Nele estavam as secretárias, os office-boys, o pessoal que sabia onde ficava determinada pasta, quem conhecia alguém na contabilidade, quem sabia qual gerente estava de bom humor, quem organizava o aniversário, quem cobrava a vaquinha, quem fazia o café e quem sabia onde estava a revista que desaparecera havia três dias.
Era uma rede.
Só não chamávamos de rede social.
👩💼 A secretária era o roteador social do departamento
A secretária daquela época merece um capítulo próprio.
Aliás, merece uma homenagem.
Sua função formal podia envolver agenda, telefone, correspondência, documentos, reuniões e suporte administrativo.
Mas sua função real era muito maior.
Ela sabia quem estava de férias.
Quem faltara.
Quem precisava falar com o gerente.
Quem estava esperando uma ligação.
Quem fazia aniversário naquela semana.
Quem ia casar.
Quem acabara de ter filho.
Quem estava prestes a se aposentar.
Quem ainda não havia pago a vaquinha.
E, naturalmente, quem estava enrolando para pagar a assinatura da revista.
Em termos mainframeiros, a secretária era simultaneamente:
Scheduler + Service Desk + Workflow + Event Manager + Social Network + Knowledge Base.
Com uma vantagem importante:
ela conhecia as pessoas.
E existia uma hierarquia entre elas.
Cada setor podia possuir sua secretária e uma secretária departamental ajudava a coordenar aquele pequeno universo.
Não estava escrito no organograma informal.
Não precisava.
Todo mundo sabia.
📰 O Clube da Assinatura
Eis uma instituição praticamente desaparecida:
o Clube da Assinatura.
O departamento assinava uma revista.
No nosso caso, entre elas estava a Veja.
Cada participante contribuía com uma pequena cota e, quando chegava o vencimento, entrava em funcionamento um sofisticadíssimo sistema financeiro.
A secretária.
— Pessoal, chegou a hora da assinatura.
Pronto.
Começava a arrecadação.
Não havia PIX.
Não havia aplicativo.
Não havia link de pagamento.
Havia dinheiro, controle, cobrança e memória.
Especialmente memória.
Porque a secretária sabia perfeitamente quem ainda não tinha pago.
Quando a revista chegava, começava outro protocolo.
Ela circulava.
Alguém lia.
Passava para outro.
Esse levava para o almoço.
Outro perguntava:
— Cadê a Veja?
— Está com o fulano.
Era uma espécie de Token Ring editorial.
O pacote precisava circular pelos nós da rede até completar o percurso.
E ninguém precisava de Wi-Fi.
🍪 O Clube da Bolacha
Mas o verdadeiro sistema crítico ficava dentro de um armário.
O Clube da Bolacha.
Cada participante contribuía com um ticket-almoço e, com os recursos arrecadados, abastecíamos um dos armários do departamento.
Aquilo era um pequeno paraíso da gula.
Bolachas.
Biscoitos.
Doces.
Salgados.
Coisas destinadas a salvar funcionários naquele momento crítico entre o almoço e o fim do expediente.
Hoje talvez alguém criasse um projeto chamado:
Corporate Employee Snack Experience Initiative.
Nós chamávamos de:
armário da bolacha.
Funcionava perfeitamente.
Até alguém comer a última.
Aí tínhamos um incidente de produção.
— QUEM ACABOU COM A BOLACHA E NÃO AVISOU?
Severity 1.
War Room imediatamente.
Laerte, Glauco e Angeli poderiam passar uma semana naquele departamento e sair com material para cinco anos.
🎂 A indústria da vaquinha
Outro componente essencial da infraestrutura corporativa era a:
vaquinha.
Tudo justificava uma.
Aniversário?
Vaquinha.
Casamento?
Vaquinha.
Nascimento de filho?
Vaquinha.
Aposentadoria?
Vaquinha.
Dia da Secretária?
Vaquinha.
Ocasião especial?
Evidentemente:
vaquinha.
Nos aniversariantes do mês, juntava-se dinheiro para comprar bolo e alguma lembrancinha.
E então surgia outro artefato arqueológico maravilhoso:
o cartão.
O cartão circulava clandestinamente pelo departamento.
Todo mundo precisava assinar sem que o homenageado percebesse.
Era uma operação de inteligência.
— Passa para o João.
— Mas não deixa a Maria ver.
— O Carlos ainda não assinou.
— Cadê o cartão?
— Está no financeiro.
No final apareciam dezenas de assinaturas.
Algumas simplesmente:
Parabéns!
Outras:
Muitas felicidades!
Outras continham piadas internas que provavelmente seriam completamente indecifráveis para qualquer arqueólogo digital de 2126.
Mas aquele cartão tinha uma coisa que nenhum botão de 👍 conseguiu substituir completamente.
Ele havia passado pelas mãos das pessoas.
❤️ A empresa entrava um pouco na vida
É preciso tomar cuidado para não transformar nostalgia em história cor-de-rosa.
Os escritórios antigos também tinham problemas.
Hierarquias pesadas.
Burocracia.
Chefias ruins.
Fofocas.
Favoritismos.
Conflitos.
Tecnologia limitada.
Processos que hoje consideraríamos absurdamente ineficientes.
Não estou propondo ressuscitar tudo aquilo.
Mas havia uma característica interessante:
a fronteira entre vida profissional e convivência social era diferente.
Quando alguém casava, o departamento comemorava.
Quando nascia um filho, comemorava.
Quando alguém fazia aniversário, comemorava.
Quando se aposentava depois de décadas, aquilo era um acontecimento.
E quando algo ruim acontecia, aquela mesma rede também aparecia.
Éramos colegas de trabalho.
Mas frequentemente funcionávamos como uma espécie de família estendida.
Com todas as vantagens e todos os defeitos que famílias estendidas possuem.
🏃 E no meio disso tudo havia o office-boy
Agora chegamos ao personagem que vos escreve.
O office-boy.
Hoje talvez seja difícil explicar a importância daquele sujeito correndo de um lado para outro.
O office-boy atravessava a empresa inteira.
Levava documentos.
Buscava assinaturas.
Ia ao banco.
Passava pelo protocolo.
Entregava correspondência.
Subia.
Descia.
Entrava no elevador.
Saía do prédio.
Atravessava a Paulista.
Voltava.
Levava outro documento.
Recebia outra missão.
Era uma espécie de:
TCP/IP humano.
Os pacotes eram envelopes.
O roteamento era feito de memória.
E o traceroute podia envolver quinze andares e uma agência bancária.
Como office-boy, tive a sorte de conhecer muita gente.
E entre as pessoas que marcaram aqueles primeiros tempos estavam algumas das primeiras secretárias com quem trabalhei.
Elizabeth, nossa Bethinha.
Ana Maria.
Terezinha.
Cecilia.
Depois vieram Maria Aparecida, Nilce, Eliza, Benzão, Debora, Cristina, Adriana e tantas outras mulheres com quem tive a honra de trabalhar.
E havia...
Rosalaine.
🐺 “É o lobo... é o lobo!”
Rosalaine tinha uma característica impossível de registrar num currículo.
A voz.
Era uma voz de fada.
Angelical.
Leve.
Quase adolescente.
Mas Rosalaine era uma mulher adulta.
E havia um antigo personagem de desenho animado cuja fala eu adorava ouvi-la imitar.
Eu chegava perto.
— Rosalaine...
Ela provavelmente já sabia.
— O quê, Vagner?
— Fala.
— Falar o quê?
Eu insistia.
Até que vinha aquela voz:
— É o lobo... é o lobo!
Pronto.
Podia acabar o expediente.
O dia já tinha valido a pena.
Para aquele office-boy, ouvir Rosalaine dizendo “é o lobo, é o lobo” era praticamente um benefício corporativo não declarado.
E havia outro pequeno problema.
Eu era apaixonado por ela.
Consequentemente, o sistema de prioridades do office-boy apresentava uma pequena vulnerabilidade conhecida pelas demais secretárias.
⚡ SLA ROSALAINE
As outras perceberam rapidamente.
Pedido normal?
Vagner executava.
Pedido urgente?
Vagner corria.
Pedido da Rosalaine?
O espaço-tempo sofria uma pequena deformação.
E naturalmente começaram as piadas.
Uma delas ficou na memória:
“Se for a Rosalaine a pedir para o Vagner, ele faz mais rápido que Hermes.”
Eu provavelmente protestava.
— Nada a ver!
E elas:
— Sei...
— Eu faço rápido para todo mundo!
— Claro, Vagner.
— Faço mesmo!
Bastaria então alguém chamar:
— Rosalaine, pede você para ele.
Fim da discussão.
Porque provavelmente, antes que ela terminasse:
— Vagner, você poderia...
FUUUUSH!
Cadê o office-boy?
Já estava no elevador.
🪽 Mais rápido que Hermes
Décadas depois percebo que a piada era melhor do que talvez imaginássemos.
Hermes, na mitologia grega, era justamente o mensageiro dos deuses.
E o que fazia o office-boy?
Levava mensagens.
Documentos.
Envelopes.
Ordens.
Papéis.
Atravessava territórios carregando informação.
Eu era praticamente um Hermes corporativo da Avenida Paulista.
Só havia uma diferença.
Hermes tinha velocidade divina.
Eu tinha Rosalaine dizendo:
— Vagner...
Nesse momento, meu caro Hermes:
saia da frente.
🎄 O churrasco e a festa da firma
E então chegávamos ao encerramento anual daquele grande organismo social.
O churrasco.
Às vezes viajávamos para uma pousada da própria empresa.
Em outras ocasiões alugávamos uma chácara.
E lá ia o departamento.
Chefes.
Funcionários.
Secretárias.
Famílias.
Namorados.
Maridos.
Esposas.
Filhos.
O sujeito que durante onze meses aparecia impecavelmente vestido surgia de bermuda diante da churrasqueira.
O gerente encontrava seus subordinados fora do habitat corporativo.
As famílias finalmente conheciam aquelas pessoas cujos nomes ouviam durante o ano inteiro.
— Ahhh, então VOCÊ é o fulano!
Frase perigosíssima.
Dependendo da quantidade de cerveja consumida, segredos corporativos podiam começar a vazar.
E então havia a grande instituição:
A Festa de Final de Ano da Empresa
Comentadíssima.
Esperada.
Patrocinada pela empresa.
Não era simplesmente um evento no calendário.
Era um ritual.
Porque naquela época existia uma regra não escrita:
Não bastava ser funcionário. Tinha que participar.
🧠 A empresa que não aparecia no organograma
Quarenta anos depois, algo curioso acontece.
Eu não consigo lembrar de todos os documentos que transportei.
Não lembro de todos os protocolos.
Não lembro de cada assinatura que busquei.
Não lembro de cada tarefa considerada urgentíssima.
Muitas coisas pelas quais alguém provavelmente disse:
“Vagner, isso precisa estar pronto HOJE!”
desapareceram completamente.
Urgentíssimas em 1980 e tantos.
Irrelevantes em 2026.
Mas lembro do Clube da Assinatura.
Lembro do armário da bolacha.
Lembro das vaquinhas.
Lembro dos cartões.
Lembro dos aniversários.
Lembro dos churrascos.
Lembro das festas.
Lembro das secretárias.
E lembro de uma voz dizendo:
“É o lobo... é o lobo!”
Talvez exista uma lição interessante nisso.
A memória humana possui seu próprio algoritmo de retenção.
E aparentemente ele não respeita as prioridades corporativas.
🤖 Então chegou o escritório inteligente
Nas décadas seguintes fizemos uma coisa extraordinária.
Automatizamos.
Digitalizamos.
Otimizamos.
Reduzimos departamentos.
Criamos workflows.
ERPs.
CRMs.
Portais.
Self-service.
E-mail.
Mensagens instantâneas.
Videoconferência.
Automação.
Inteligência artificial.
Hoje equipes muito menores conseguem realizar trabalhos que antigamente exigiam dezenas de pessoas.
Isso é progresso.
Não tenho saudade de carregar papel porque alguém precisava fisicamente transportar informação entre dois pontos.
Não quero trocar APIs por office-boys.
Não quero substituir workflow por pastas circulando de mesa em mesa.
Seria absurdo.
Mas talvez tenhamos cometido um pequeno erro conceitual.
Ao eliminar a ineficiência, às vezes eliminamos junto coisas que não eram ineficiência.
O armário da bolacha não era workflow.
O cartão de aniversário não era processo.
A vaquinha do casamento não era produtividade.
O churrasco não era KPI.
A secretária sabendo que alguém estava vivendo uma semana difícil não era people analytics.
A piada sobre Rosalaine e Hermes não aparecia em nenhuma métrica de desempenho.
Mas tudo isso criava uma coisa dificílima de medir:
pertencimento.
🏭 Quando eficiência demais transforma gente em recurso
Hoje projetamos escritórios fantásticos.
Estações compartilhadas.
Hot desks.
Sensores.
Reserva automática de mesa.
Salas inteligentes.
Dashboards.
Indicadores de ocupação.
Colaboração remota.
Processos digitais.
Tudo muito eficiente.
Tudo muito funcional.
Mas existe uma pergunta que talvez devesse aparecer em algum desses dashboards:
As pessoas ainda conhecem umas às outras?
Não apenas o cargo.
Não apenas o avatar.
Não apenas o nome no Teams.
Conhecem?
Sabem quem está fazendo aniversário?
Sabem quem acabou de ter filho?
Sabem quem vai se aposentar?
Sabem quem conta a pior piada?
Sabem quem sempre rouba a última bolacha?
Existe algum equivalente moderno daquela secretária que percebia o departamento como um organismo humano?
Porque uma empresa pode otimizar perfeitamente o fluxo de trabalho e, ao mesmo tempo, transformar seres humanos em unidades intercambiáveis de capacidade.
E aí talvez tenhamos criado o escritório mais inteligente da história...
para tratar pessoas como gado com extraordinária eficiência.
🎨 Laerte, Glauco, Angeli e o departamento invisível
É justamente por isso que gosto de imaginar Laerte, Glauco e Angeli caminhando por aquele escritório.
Eles sabiam observar o Brasil que não aparece nos documentos oficiais.
O Brasil da conversa lateral.
Da piada.
Da fila.
Do cafezinho.
Do sujeito tentando escapar da vaquinha.
Da secretária que sabe tudo.
Do funcionário que esconde a revista.
Do armário comunitário.
Do chefe que muda completamente depois da segunda cerveja no churrasco.
E o Leão de Chácara?
Naturalmente ficaria na entrada.
Talvez cobrando:
— Você pagou a cota da bolacha?
— Ainda não.
— Então volta.
Governança.
☕ Epílogo — O mainframe social
Talvez aquela empresa antiga tivesse dois sistemas funcionando simultaneamente.
O primeiro processava negócios.
Pedidos.
Contas.
Contratos.
Documentos.
Pagamentos.
Relatórios.
O segundo processava gente.
Aniversários.
Casamentos.
Nascimentos.
Paixões.
Amizades.
Piadas.
Brigas.
Reconciliações.
Festas.
Café.
Bolachas.
O primeiro sistema foi substituído inúmeras vezes.
Mainframes, minis, PCs, cliente-servidor, web, cloud, APIs, inteligência artificial.
O segundo nunca teve documentação.
E talvez por isso tenhamos perdido partes dele durante a migração.
Esta história é uma pequena tentativa de restaurar o backup.
E principalmente uma homenagem carinhosa a Elizabeth, a Bethinha; Ana Maria; Terezinha; Cecilia; Maria Aparecida; Nilce; Eliza; Benzão; Debora; Cristina; Adriana e tantas outras secretárias com quem tive a honra de trabalhar.
Mulheres que provavelmente jamais aparecerão no organograma histórico dessas empresas, mas que ajudaram a fazer aqueles departamentos funcionarem como comunidades.
E, claro, uma lembrança especial para Rosalaine.
A mulher de voz de fada que, sem saber, descobriu uma vulnerabilidade crítica no sistema operacional de determinado office-boy. Sabe que vendo hoje, descobri de onde gosto das vozes das personagens de anime, talvez Freud explique, mas agora entendo um pouco melhor a magia da voz feminina dos animes, o efeito que me provoque e a pessoa que iniciou esse processo.
Bastava chamar:
— Vagner...
E qualquer prioridade anterior era imediatamente reavaliada.
Se depois viesse:
— É o lobo... é o lobo!
pronto.
O expediente estava ganho.
Hoje temos máquinas capazes de processar bilhões de instruções por segundo.
Temos inteligência artificial.
Temos escritórios inteligentes.
Temos automação suficiente para eliminar departamentos inteiros.
Mas até hoje ninguém conseguiu construir um sistema capaz de reproduzir perfeitamente aquele estranho protocolo social que fazia cinquenta pessoas assinarem escondidas um cartão de aniversário.
Talvez porque aquilo nunca tenha sido tecnologia.
Era simplesmente gente vivendo parte da vida junto.
E quando alguém perguntar como eram aqueles escritórios antes do ano 2000, talvez eu não precise explicar organogramas, máquinas de escrever, arquivos de aço ou processos administrativos.
Posso simplesmente responder:
Havia um armário cheio de bolachas.
Uma Veja circulando pelo departamento.
Um cartão esperando a última assinatura.
Uma secretária cobrando a vaquinha.
Um churrasco sendo planejado.
E um office-boy atravessando a Avenida Paulista mais rápido que Hermes porque, em algum lugar do escritório, Rosalaine havia acabado de chamá-lo.
Bons tempos.
Bons e imperfeitos tempos.
Agora pegue mais uma bolacha.
Mas, pelo amor de Deus:
se pegar a última, avise.
☕🐺
Para ir mais longe
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