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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

🔥 FULLMETAL HACKER: O DIA EM QUE OS CIBERCRIMINOSOS TRANSFORMARAM GELADEIRAS EM FORNALHAS NA EUROPA!

 

Bellacosa Mainframe e o ataque as geladeiras de armazenamento de alimentos e bancos de sangue

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🔥 FULLMETAL HACKER: O DIA EM QUE OS CIBERCRIMINOSOS TRANSFORMARAM GELADEIRAS EM FORNALHAS NA EUROPA!

Edward Elric e a Lei da Troca Equivalente: como invasores atacaram supermercados, destruíram alimentos e revelaram o lado perigoso da Internet das Coisas

Bellacosa Mainframe — Arqueologia da Computação, COBOL, Mainframes, Cibersegurança e os Fantasmas do Código Legado

Uma investigação sobre os ataques à cadeia de frio europeia em 2026, acompanhada de curiosidades históricas, engenharia de segurança e um laboratório didático em COBOL.



⚗️ Prólogo — A Lei da Troca Equivalente chegou ao supermercado

"Para obter alguma coisa, é preciso sacrificar outra de valor equivalente."

Quem conhece Fullmetal Alchemist reconhece imediatamente a ideia que governa a alquimia praticada pelos irmãos Edward e Alphonse Elric.

No universo criado por Hiromu Arakawa, a alquimia permite transformar a matéria, mas exige respeito a determinadas regras.

E o que acontece quando alguém tenta ignorá-las?

Desastres.

A história começa justamente com uma tentativa de transmutação humana que termina em tragédia. Edward perde partes do corpo, enquanto Alphonse perde o corpo inteiro e tem sua alma vinculada a uma armadura.

Agora imagine nosso alquimista de aço diante de uma notícia bastante real.

Europa, madrugada de 2 de novembro de 2026.

Em supermercados espalhados por diferentes países, equipamentos de refrigeração começam a apresentar temperaturas anormais.

Alguns sistemas indicam valores próximos de 50 graus Celsius.

Funcionários chegam ao trabalho e encontram câmaras frigoríficas comprometidas, congeladores fora das condições adequadas de conservação e produtos que precisam ser descartados.

Milhares de euros em alimentos podem desaparecer economicamente em poucas horas.

Mas não houve necessariamente uma pane elétrica.

Também não foi preciso um criminoso entrar fisicamente em cada estabelecimento.

Os sistemas haviam sido alcançados por meio de conexões digitais.

Edward Elric observa os números e protesta:

— Esperem! Quem foi o idiota que resolveu transmutar um congelador em uma fornalha?

Alphonse, sempre mais ponderado, examina o painel:

— Irmão, parece que alguém alterou os parâmetros de funcionamento remotamente.

Edward fecha o punho metálico.

— Então a Lei da Troca Equivalente continua funcionando. Alguém alterou alguns números, e os supermercados perderam toneladas de mercadorias!

Bem-vindos a uma nova fronteira da cibersegurança.

Uma fronteira onde bits modificam átomos.

Onde comandos digitais afetam equipamentos reais.

E onde o verdadeiro prejuízo não precisa aparecer primeiro numa base de dados, mas pode surgir diretamente dentro de uma câmara frigorífica.

Pegue seu café.

Hoje nossa investigação começa nos supermercados europeus, passa pela tecnologia operacional e termina num laboratório COBOL, sob a supervisão do nosso pequeno — não digam isso perto dele! — Alquimista de Aço.



Capítulo I — Outubro de 2026: a primeira transmutação proibida

Nossa história começa na França.

Na madrugada de 11 para 12 de outubro de 2026, centenas de estabelecimentos comerciais enfrentaram problemas provocados por ataques aos sistemas informatizados de refrigeração.

Entre os grupos atingidos estavam lojas ligadas a Intermarché, Coopérative U, Carrefour, E.Leclerc e Monoprix.

Segundo a cobertura do jornal Le Monde, determinados invasores conseguiram alterar parâmetros relacionados ao descongelamento e ao controle térmico dos equipamentos.

Em um dos episódios relatados, o ciclo de descongelamento foi prolongado de aproximadamente uma para oito horas.

Pense no significado disso.

Uma operação de descongelamento é absolutamente normal em determinados equipamentos frigoríficos.

O objetivo é remover gelo acumulado, preservando a eficiência da refrigeração.

O problema surge quando alguém altera indevidamente sua duração, frequência ou temperatura.

Um recurso criado para conservar a eficiência do equipamento pode passar a produzir o efeito oposto.

É quase uma transmutação alquímica.

O recurso continua existindo.

O equipamento continua ligado.

Mas seu comportamento foi modificado.

No universo de Edward Elric, seria como alterar discretamente a composição de um círculo de transmutação.

Uma pequena diferença nos símbolos produziria uma transformação inteiramente inesperada.

Na engenharia industrial, uma pequena alteração em um parâmetro crítico também pode produzir consequências enormes.

E o resultado francês foi grave: mercadorias descartadas, interrupção de operações e investigações sobre os mecanismos utilizados.

A grande curiosidade

O ataque não precisava necessariamente destruir o refrigerador.

Era suficiente fazer com que o equipamento deixasse de cumprir sua função essencial durante tempo suficiente.

Essa distinção é importantíssima.

O objetivo de um sistema de segurança industrial não é apenas impedir que máquinas sejam destruídas.

É garantir que elas continuem operando dentro de limites seguros.



Capítulo II — Novembro: o ataque atravessa fronteiras

Três semanas depois, em 2 de novembro, novos incidentes atingiram estabelecimentos em diferentes países europeus.

A lista de locais com ocorrências relatadas incluiu:

  • Bélgica;

  • Suécia;

  • Irlanda;

  • Luxemburgo;

  • Países Baixos;

  • Estônia;

  • Finlândia;

  • Itália;

  • Portugal.

Na Bélgica, lojas de redes como Carrefour, Delhaize e Intermarché relataram problemas.

Na Suécia, estabelecimentos das redes ICA e Coop também foram afetados.

Na Irlanda, a rede SuperValu informou incidentes em treze lojas.

E há uma informação especialmente relevante para nós, lusófonos: sete estabelecimentos Intermarché em Portugal foram relacionados à ocorrência.

Segundo declarações divulgadas pela imprensa, uma das hipóteses investigadas em Portugal envolvia um prestador externo responsável pela gestão de sistemas de refrigeração.

Isso nos leva a uma pergunta fundamental.

Como alguém consegue interferir em geladeiras de supermercados localizados em países diferentes?

Edward Elric poderia imaginar um gigantesco círculo de transmutação desenhado sobre o continente europeu.

Mas a explicação técnica é muito menos fantástica.

Ela envolve redes, equipamentos conectados, controladores industriais, software legado e mecanismos de acesso remoto.

E há uma ressalva importante: até 4 de novembro de 2026, as autoridades não haviam identificado publicamente, de maneira conclusiva, os responsáveis nem demonstrado que todos os incidentes pertenciam a uma única operação coordenada.

A semelhança entre ataques é uma pista investigativa.

Não é, por si só, uma prova de autoria comum.



Capítulo III — Edward Elric descobre a Tecnologia Operacional

Para compreender esses ataques, precisamos conhecer uma sigla:

OT — Operational Technology.

Em português, tecnologia operacional.

Enquanto a tecnologia da informação, ou TI, concentra-se no processamento de informações, a tecnologia operacional está diretamente associada ao controle e ao monitoramento de equipamentos e processos físicos.

Vamos comparar.

Num supermercado, os sistemas tradicionais de TI podem cuidar do faturamento, cadastro de produtos, controle financeiro, inventário, pagamentos eletrônicos e integração com fornecedores.

Já os sistemas OT podem controlar equipamentos de refrigeração, sensores térmicos, compressores, ventilação, válvulas e alarmes.

Naturalmente, os dois mundos se comunicam.

Um exemplo:

O sistema de gestão precisa saber se determinada mercadoria está disponível.

Já o sistema de refrigeração precisa garantir que ela permaneça armazenada em condições adequadas.

Um acompanha a informação.

O outro preserva fisicamente o produto.

A arquitetura de uma instalação conectada

Imagine a seguinte estrutura:

          INTERNET
             |
       ACESSO REMOTO
             |
      REDE DE CONTROLE
             |
      SISTEMA SUPERVISOR
             |
    CONTROLADOR INDUSTRIAL
             |
       +-----+-----+
       |           |
     SENSOR     ATUADOR
       |           |
 TEMPERATURA   COMPRESSOR

Esse é um esquema conceitual, não uma reprodução dos sistemas efetivamente atacados.

O sensor mede uma condição física.

O controlador interpreta essa medida.

O atuador modifica alguma coisa no ambiente.

Um compressor pode ser ligado ou desligado.

Uma válvula pode ser acionada.

Um ciclo de descongelamento pode começar.

Tudo isso permite controle preciso e economia de energia.

Porém, se alguém conseguir modificar indevidamente os parâmetros aceitos pelo controlador, poderá interferir no processo físico.

Edward observa o esquema.

— Então o controlador é como o círculo de transmutação?

— Mais ou menos — responde Alphonse. — Ele transforma informações em ações físicas.

— E quem controla seus parâmetros controla o resultado!

Exatamente.

Essa é a essência dos sistemas ciberfísicos.


Capítulo IV — A verdadeira alquimia: transformar bits em prejuízo

O aspecto mais impressionante desses ataques é a relação desproporcional entre a operação digital e a consequência econômica.

Imagine um estabelecimento fictício com cem mil euros em mercadorias refrigeradas.

Vamos supor que o sistema apresente uma condição térmica inadequada durante várias horas.

O equipamento poderá ser recuperado.

O software poderá ser restaurado.

As configurações poderão voltar aos valores normais.

Mas os alimentos não necessariamente poderão ser recuperados.

A conservação depende de fatores como temperatura efetiva, duração da exposição, natureza do produto e histórico de armazenamento.

Um alimento que sofreu uma interrupção inadequada na cadeia de frio não se torna automaticamente seguro porque foi congelado outra vez.

Esse é o ponto central.

O dano digital pode ser reversível.

O dano físico e econômico pode ser permanente.

O caso dos 50 graus

Diversas reportagens mencionaram equipamentos configurados ou indicando temperaturas de 50 °C.

É necessário distinguir uma temperatura de referência manipulada, uma leitura apresentada pelo controlador e a temperatura efetivamente alcançada pelo alimento.

Não são necessariamente a mesma coisa.

Em alguns sistemas, os indicadores podem registrar parâmetros internos ou condições específicas de operação.

Portanto, afirmar que todos os alimentos chegaram a 50 °C seria tecnicamente incorreto.

Mas mesmo sem atingir esse extremo, a perda prolongada de refrigeração pode comprometer completamente um estoque.

Curiosidade: por que o ataque noturno é tão perigoso?

Durante a madrugada, muitos supermercados estão fechados.

Há menos funcionários presentes.

Alertas podem depender de supervisão remota.

Uma falha detectada apenas na abertura da loja já pode ter provocado prejuízos substanciais.

Em sistemas industriais, o tempo entre o início da anomalia e sua detecção é tão importante quanto a própria anomalia.


Capítulo V — Os fantasmas do legado: quando o antigo continua conectado

Agora chegamos a um tema bastante familiar para quem trabalha com mainframes.

Sistemas legados.

Essa expressão costuma ser utilizada equivocadamente como sinônimo de tecnologia ruim ou ultrapassada.

Mas legado não significa necessariamente insegurança.

Um sistema COBOL desenvolvido há décadas pode continuar perfeitamente adequado, desde que seja mantido, documentado, monitorado e protegido.

O problema surge quando uma tecnologia antiga permanece exposta a ameaças modernas sem controles compatíveis.

Nos incidentes europeus, pesquisadores e fornecedores apontaram riscos relacionados a equipamentos antigos, software sem atualização, configurações inadequadas e credenciais de fábrica.

Alguns produtos já haviam ultrapassado seu período de suporte.

Isso significa que determinadas vulnerabilidades podem permanecer sem correções disponibilizadas pelo fabricante.

O paradoxo da longevidade

Considere duas instalações.

A primeira usa um computador industrial antigo, mas permanece devidamente isolada, com acesso controlado, monitoramento independente e procedimentos de manutenção.

A segunda utiliza um controlador relativamente moderno, mas deixa sua administração remota acessível sem autenticação adequada.

Qual é necessariamente mais segura?

Não podemos decidir apenas pela idade dos equipamentos.

A segurança depende da arquitetura, da manutenção, dos controles de acesso e da exposição real.

É uma lição que vale tanto para ambientes industriais quanto para o IBM Z.

Um mainframe moderno pode possuir mecanismos robustos de segurança e auditoria.

Mesmo assim, integrações externas, serviços distribuídos ou aplicações periféricas mal protegidas podem introduzir riscos.

Da mesma forma, um controlador frigorífico confiável pode tornar-se vulnerável caso sua interface de administração seja exposta indevidamente.

A lição de Edward Elric

Na alquimia, conhecer os elementos não basta.

É preciso compreender as relações entre eles.

Na segurança, proteger individualmente os componentes não basta.

Precisamos compreender as conexões, dependências e pontos de confiança.


Capítulo VI — O pequeno grande problema dos fornecedores externos

Uma parte importante das investigações envolve a forma como supermercados contratam serviços de manutenção e monitoramento.

Muitas empresas não administram diretamente todos os equipamentos frigoríficos.

Elas podem contratar especialistas responsáveis por monitorar temperaturas, verificar alarmes, diagnosticar problemas e realizar ajustes remotos.

Isso é extremamente útil.

Imagine centenas de supermercados espalhados por várias regiões.

Enviar técnicos diariamente a cada estabelecimento seria caro e pouco eficiente.

O monitoramento remoto permite detectar problemas antecipadamente.

Entretanto, também introduz uma nova dependência.

Se um fornecedor consegue administrar equipamentos em muitas lojas, as credenciais e conexões utilizadas por esse fornecedor tornam-se particularmente sensíveis.

Um comprometimento pode atingir mais de uma organização.

Esse é um risco de cadeia de fornecimento digital.

Em Portugal, a suspeita divulgada sobre o envolvimento de um prestador externo ilustra por que esse modelo precisa ser investigado.

Mas atenção: suspeitar de uma conexão de terceiros não prova que o fornecedor tenha sido invadido.

Pode haver outras formas de comprometimento, incluindo equipamentos individualmente expostos.

A investigação precisa examinar registros, credenciais, conexões, configurações e evidências forenses.

Uma pergunta para gestores

Sua empresa sabe exatamente quais fornecedores possuem acesso remoto aos equipamentos?

E consegue revogar esse acesso rapidamente?

Se a resposta for não, existe uma questão de governança que merece atenção.


Capítulo VII — O alquimista encontra o COBOL

Chegou a hora de nossa missão prática.

Edward Elric está indignado.

— Como assim vocês têm sensores, computadores, redes e sistemas corporativos, mas ainda conseguem perder um estoque inteiro?

Alphonse responde:

— Irmão, podemos construir um programa para identificar anomalias e produzir alertas.

— Então tragam o COBOL!

É importante esclarecer uma coisa.

COBOL não é normalmente a linguagem responsável pelo controle direto de compressores industriais.

Essas funções costumam ser desempenhadas por controladores especializados e sistemas de automação.

Contudo, COBOL pode participar perfeitamente do processamento empresarial de informações relacionadas à cadeia de frio.

Por exemplo:

  • receber registros de sensores;

  • validar dados enviados por sistemas externos;

  • analisar exceções;

  • produzir relatórios;

  • apoiar auditorias;

  • alimentar processos de gestão de risco;

  • registrar eventos para investigação.

Esse é exatamente o tipo de integração em que sistemas corporativos podem agregar valor.

Vamos desenvolver um pequeno laboratório didático.


Capítulo VIII — Laboratório 01: construindo um monitor de temperatura em COBOL

Objetivo: criar um programa que receba uma temperatura e determine se ela está dentro do intervalo definido para um equipamento hipotético.

Nosso exemplo utilizará uma faixa didática entre −22 °C e −15 °C.

Esses valores não constituem uma norma universal de segurança alimentar. Na vida real, os limites dependem do equipamento, do produto e dos requisitos aplicáveis.

O programa será apenas um simulador de validação, não um controlador físico de refrigeração.

Passo 1 — Entender o problema

Precisamos de três informações:

  1. A temperatura recebida.

  2. O limite mínimo.

  3. O limite máximo.

Nosso algoritmo será simples.

Se a temperatura estiver abaixo do mínimo, emitiremos um alerta.

Se estiver acima do máximo, também emitiremos um alerta.

Caso contrário, consideraremos a leitura dentro da faixa didática.

Passo 2 — Escrever o programa

O exemplo abaixo utiliza sintaxe COBOL em formato livre, adequada para estudo em compiladores que suportam esse formato.

       >>SOURCE FORMAT FREE
identification division.
program-id. FRIOALRT.

environment division.
configuration section.
repository.
    function all intrinsic.

data division.
working-storage section.

01 ws-entrada        pic x(20).
01 ws-temperatura    pic s9(3)v9(2).
01 ws-temp-minima    pic s9(3)v9(2)
                     value -22.00.
01 ws-temp-maxima    pic s9(3)v9(2)
                     value -15.00.
01 ws-temp-exibicao  pic -(3)9.99.

procedure division.

principal.
    display "BELLACOSA MAINFRAME"
    display "MONITOR DIDATICO DE FRIO"
    display "Informe a temperatura:"

    accept ws-entrada

    if test-numval(trim(ws-entrada)) not = 0
        display "ERRO: VALOR INVALIDO"
        goback
    end-if

    compute ws-temperatura =
        function numval(trim(ws-entrada))

    move ws-temperatura to ws-temp-exibicao

    evaluate true
        when ws-temperatura < ws-temp-minima
            display "ALERTA: ABAIXO DO MINIMO"

        when ws-temperatura > ws-temp-maxima
            display "ALERTA: ACIMA DO MAXIMO"

        when other
            display "TEMPERATURA NA FAIXA"
    end-evaluate

    display "LEITURA: "
        ws-temp-exibicao

    goback.

Passo 3 — Compreender o código

Vamos examinar os elementos mais importantes.

IDENTIFICATION DIVISION

Identifica o programa.

Neste exemplo, seu nome é FRIOALRT.

WORKING-STORAGE SECTION

Define as variáveis utilizadas durante o processamento.

A variável ws-temperatura utiliza um campo numérico assinado com duas casas decimais.

A cláusula PIC S9(3)V9(2) permite representar temperaturas positivas e negativas dentro de sua capacidade numérica.

A letra V indica uma posição decimal implícita.

ACCEPT

Recebe uma informação fornecida pelo operador.

Num sistema real, a temperatura poderia chegar por arquivo, mensagem ou interface com outro sistema.

TEST-NUMVAL

Ajuda a verificar se a informação textual recebida pode ser interpretada como número.

É uma validação inicial.

Em sistemas reais, também precisamos verificar o intervalo permitido, a precisão, os limites de armazenamento e a origem da leitura.

EVALUATE TRUE

Permite testar condições e selecionar o tratamento adequado.

É uma estrutura particularmente útil quando desejamos organizar regras de classificação.

Passo 4 — Executar os testes

Imagine os seguintes resultados:

Temperatura informadaResultado esperado
−18,00 °CDentro da faixa
−23,00 °CAbaixo do mínimo
−12,00 °CAcima do máximo
5,00 °CAcima do máximo
50,00 °CAcima do máximo

Ao executar, informe os valores com ponto decimal, como -18.00, de acordo com o formato previsto pelo exemplo.

Uma observação técnica: para uso com dados reais, também é importante validar limites antes da conversão para um campo de tamanho fixo, evitando truncamentos ou incompatibilidades.

Passo 5 — A principal limitação

Nosso programa identifica uma temperatura fora do intervalo.

Mas isso não significa que ele consiga determinar a causa.

Uma temperatura alta pode resultar de:

  • porta aberta;

  • falha mecânica;

  • interrupção de energia;

  • degelo normal;

  • manutenção;

  • sensor defeituoso;

  • configuração incorreta;

  • interferência maliciosa.

Um alerta é uma observação.

Não é automaticamente uma conclusão forense.

Edward Elric aprende rapidamente a diferença:

— Então meu programa pode dizer que a geladeira está quente, mas não pode afirmar que um hacker foi o responsável?

Exatamente.

E é por isso que sistemas de monitoramento precisam preservar evidências e trabalhar com informações contextualizadas.


Capítulo IX — Laboratório 02: detectando anomalias em sequência

Vamos evoluir o raciocínio.

Imagine que recebemos temperaturas a cada cinco minutos.

Uma única leitura anormal já merece atenção.

Mas uma sequência de medições pode revelar algo muito mais interessante.

Considere este cenário hipotético:

HorárioTemperatura
01:00−18 °C
01:05−18 °C
01:10−17 °C
01:15−12 °C
01:20−5 °C
01:254 °C
01:3012 °C

O que podemos observar?

A temperatura está subindo rapidamente.

Isso pode indicar uma anomalia importante.

Mas precisamos considerar o comportamento esperado durante ciclos operacionais, a localização do sensor e a confiabilidade dos dados.

Exercício para o estudante COBOL

Crie um programa que:

  1. Leia um arquivo com identificador do equipamento, horário e temperatura.

  2. Verifique se cada registro possui formato válido.

  3. Compare a temperatura com os limites configurados.

  4. Conte ocorrências consecutivas acima do limite.

  5. Produza um relatório de exceções.

  6. Registre os dados originais sem sobrescrevê-los.

Para um iniciante, esse exercício permite praticar leitura sequencial de arquivos, estruturas de dados, condicionais, contadores e relatórios.

Para um estudante mais avançado, podemos incluir validação de sequência temporal, tratamento de registros duplicados e controle de integridade.

Uma melhoria fundamental

Imagine que o próprio controlador comprometido forneça as temperaturas utilizadas pelo monitoramento.

O atacante poderia, dependendo das capacidades do sistema, interferir também nas informações exibidas.

Por isso, sensores independentes e mecanismos separados de alerta podem ser valiosos.

É o princípio de não confiar exclusivamente no mesmo componente que estamos tentando supervisionar.


Capítulo X — Laboratório 03: o que JCL tem a ver com geladeiras?

Agora vamos trazer o problema para um ambiente IBM z/OS.

Imagine uma organização que recebe periodicamente arquivos de medições enviados por uma plataforma externa.

Um processamento batch pode analisar esses registros e gerar relatórios.

Nosso fluxo hipotético seria:

SISTEMA DE REFRIGERACAO
          |
      EXPORTACAO
          |
  ARQUIVO DE LEITURAS
          |
       IBM z/OS
          |
        JCL
          |
    PROGRAMA COBOL
          |
  RELATORIO DE ALERTAS
          |
    EQUIPE OPERACIONAL

No mundo corporativo, essa arquitetura é perfeitamente plausível.

O mainframe não precisa controlar o compressor.

Ele pode trabalhar na consolidação e análise das informações recebidas.

Um exemplo didático de JCL, para um programa COBOL previamente compilado e catalogado, seria:

//FRIOJOB  JOB (ACCT),'BELLACOSA',
//         CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP01   EXEC PGM=FRIOBATCH
//STEPLIB  DD DSN=BM.LOADLIB,DISP=SHR
//ENTRADA  DD DSN=BM.FRIO.LEITURAS,
//         DISP=SHR
//RELAT    DD DSN=BM.FRIO.RELATORIO,
//         DISP=(NEW,CATLG,DELETE),
//         SPACE=(TRK,(5,5)),
//         DCB=(RECFM=FB,LRECL=120,
//         BLKSIZE=0)
//SYSOUT   DD SYSOUT=*

Esse JCL ilustra a execução de um segundo programa, chamado FRIOBATCH, que seria desenvolvido para processar arquivos.

Ele não executa diretamente nosso programa interativo FRIOALRT.

Essa distinção é importante.

O primeiro programa recebe uma informação pelo terminal.

O segundo seria uma versão batch, com arquivos definidos na FILE-CONTROL e seus respectivos descritores de registros.

Os nomes de datasets, classes, biblioteca de carga e parâmetros precisam ser adaptados ao ambiente real.

E onde entra a segurança?

A execução pode ser protegida por controles do z/OS e políticas RACF.

Podemos estabelecer permissões específicas para os datasets.

Podemos registrar as execuções.

Podemos separar usuários responsáveis por processamento daqueles autorizados a administrar a infraestrutura.

Também podemos direcionar relatórios para sistemas corporativos de monitoramento.

Mas não devemos cometer um erro conceitual.

Um relatório batch executado periodicamente não substitui um sistema de segurança industrial em tempo real.

Se uma câmara frigorífica estiver aquecendo rapidamente, esperar pelo próximo processamento noturno pode ser tarde demais.

O mecanismo primário de proteção precisa funcionar no tempo adequado ao risco físico.


Capítulo XI — O caso dos bancos de sangue: quando a consequência pode ser humana

Em 4 de novembro de 2026, surgiu uma informação ainda mais preocupante.

A Reuters noticiou que sistemas de monitoramento e controle de armazenamento refrigerado ligados a três instalações regionais do serviço francês de sangue também haviam sido afetados.

Os incidentes foram detectados.

As equipes atuaram.

O material foi protegido ou transferido para equipamentos não conectados aos sistemas comprometidos.

Segundo as informações divulgadas, não houve prejuízo às reservas de sangue.

Esse episódio demonstra por que devemos tratar a segurança de sistemas OT com extremo cuidado.

Uma falha em um congelador comercial pode produzir perdas financeiras significativas.

Uma falha em equipamentos que preservam medicamentos, sangue ou outros materiais sensíveis pode introduzir riscos sanitários.

Felizmente, no episódio francês relatado, as medidas de contingência evitaram perdas dos materiais armazenados.

Edward Elric e o valor da vida

Aqui nossa analogia com Fullmetal Alchemist ganha profundidade.

Edward e Alphonse aprendem dolorosamente que não é possível reduzir a vida humana a uma simples lista de ingredientes.

Da mesma forma, nenhuma análise de risco deve reduzir as consequências de uma falha industrial apenas ao valor contábil do equipamento.

A segurança precisa considerar pessoas, processos e impactos indiretos.

Uma organização pode substituir um computador.

Pode reinstalar um programa.

Pode comprar outro sensor.

Mas determinados prejuízos não são recuperáveis com uma simples restauração de backup.


Capítulo XII — Quem são os alquimistas criminosos?

Uma pergunta aparece inevitavelmente.

Quem realizou esses ataques?

Até 4 de novembro de 2026, não havia atribuição pública conclusiva a um grupo específico.

Também não existiam evidências suficientes para afirmar que uma determinada potência estrangeira estivesse por trás das ocorrências.

É necessário separar fatos de hipóteses.

Sabemos que houve manipulação de sistemas de refrigeração em diversos estabelecimentos.

Sabemos que equipamentos conectados e tecnologias antigas estiveram entre as preocupações identificadas.

Sabemos que diferentes autoridades iniciaram investigações.

Mas ainda existem perguntas sem resposta.

Os ataques foram coordenados?

Uma mesma pessoa ou grupo participou de todas as ocorrências?

Os invasores pretendiam extorquir dinheiro?

Queriam demonstrar capacidade técnica?

Estavam buscando provocar prejuízo econômico deliberado?

Existe algum componente de sabotagem política ou estratégica?

Todas são perguntas legítimas.

Nenhuma delas deve ser transformada automaticamente em conclusão.

Guerra híbrida?

A expressão guerra híbrida descreve, entre outras coisas, a combinação de diferentes instrumentos de pressão, incluindo operações digitais, econômicas e informacionais.

Um ataque contra a cadeia de abastecimento pode ser compatível com uma estratégia de desestabilização.

Entretanto, a natureza do alvo não comprova a identidade ou a motivação dos atacantes.

Atribuição exige evidências técnicas, contexto operacional e investigação consistente.

O bom analista não é aquele que encontra rapidamente um culpado.

É aquele que consegue distinguir o que conhece daquilo que ainda precisa descobrir.


Capítulo XIII — Dez medidas para proteger a cadeia de frio

Vamos transformar nossa investigação em conhecimento prático.

1. Inventariar os equipamentos

A organização precisa saber quais controladores utiliza, onde estão instalados e quais versões de software executam.

Não conseguimos proteger adequadamente aquilo que desconhecemos.

2. Revisar acessos remotos

Toda conexão externa deve possuir uma justificativa operacional.

Acessos desnecessários precisam ser removidos.

3. Substituir credenciais de fábrica

Senhas padrão compartilhadas entre equipamentos representam um risco conhecido.

Credenciais devem ser individualizadas e protegidas.

4. Utilizar autenticação forte

Sempre que suportado pela arquitetura, o acesso remoto deve utilizar autenticação multifator e mecanismos de identificação individual.

5. Segmentar redes

Controladores industriais não devem compartilhar indiscriminadamente a mesma superfície de acesso dos serviços corporativos.

A comunicação entre ambientes precisa ser controlada.

6. Atualizar com planejamento

Atualizações de firmware e software devem ser avaliadas conforme as orientações do fabricante e os requisitos de disponibilidade do ambiente.

Em instalações críticas, alterações exigem testes e procedimentos de contingência.

7. Implantar monitoramento independente

Sensores e alarmes independentes podem ajudar a identificar problemas mesmo quando o sistema principal de controle apresenta falhas.

8. Proteger limites operacionais

Quando a arquitetura permitir, mecanismos locais de segurança devem restringir configurações perigosas.

Esses limites precisam respeitar as especificações técnicas do equipamento.

9. Preparar planos de contingência

O supermercado precisa saber o que fazer quando perder o controle remoto dos equipamentos.

Isso pode envolver procedimentos locais, equipamentos alternativos e transferência de mercadorias.

10. Realizar exercícios de resposta

Uma equipe treinada consegue agir com mais rapidez.

O objetivo não é apenas restaurar computadores.

É preservar a segurança operacional e reduzir consequências físicas.


Capítulo XIV — Easter eggs: a alquimia escondida na computação

Como tradição do Bellacosa Mainframe, nossa história merece algumas curiosidades.

Easter egg 01 — A automação industrial nasceu antes da Internet moderna

Sistemas de controle industrial já existiam muito antes de a Internet se tornar popular.

A supervisão remota evoluiu gradualmente, utilizando diferentes tecnologias de comunicação.

A conexão generalizada desses equipamentos a redes modernas trouxe benefícios, mas também novas ameaças.

Easter egg 02 — O IBM System/360 e a alquimia da compatibilidade

Em 1964, a IBM anunciou o System/360, uma família de computadores concebida para oferecer compatibilidade arquitetural entre diferentes modelos.

A ideia de preservar investimentos em software enquanto o hardware evolui ajudou a estabelecer uma tradição importante no universo mainframe.

Aqui encontramos uma diferença interessante.

Longevidade acompanhada de manutenção e evolução arquitetural é uma qualidade.

Longevidade acompanhada de abandono e exposição pode tornar-se um problema.

Easter egg 03 — O COBOL também nasceu de uma necessidade de continuidade

COBOL surgiu em 1959, quando organizações precisavam desenvolver aplicações empresariais mais portáveis e compreensíveis.

Décadas depois, continua presente em processamento corporativo.

Seu valor não está na idade, mas na capacidade de atender necessidades reais de negócios.

Easter egg 04 — A Lei da Troca Equivalente funciona como uma metáfora econômica

Na computação, uma alteração de configuração pode custar apenas alguns bytes.

Mas as consequências podem atingir milhões de euros.

A equivalência aqui não é física.

É uma metáfora sobre responsabilidade.

Toda decisão técnica possui consequências, e uma economia aparentemente pequena em manutenção ou segurança pode produzir custos muito maiores no futuro.

Easter egg 05 — A armadura de Alphonse e a defesa em profundidade

Alphonse possui uma armadura impressionante.

Mas sua existência depende de algo muito mais delicado: o vínculo de sua alma com a armadura.

Na segurança, equipamentos robustos também podem depender de componentes discretos e críticos.

Um dispositivo industrial extremamente resistente pode perder sua proteção se a interface que controla suas configurações permanecer vulnerável.

É o clássico problema do elo fraco.

Easter egg 06 — Roy Mustang não deveria administrar refrigeradores

Nosso Coronel das Chamas seria uma escolha particularmente inadequada para supervisionar uma cadeia de frio.

Brincadeiras à parte, a separação de responsabilidades é um princípio importante.

Nem todo usuário precisa possuir poderes administrativos.

Permissões excessivas aumentam o impacto potencial de erros e comprometimentos.


Capítulo XV — O que um programador COBOL deve aprender com essa história?

Talvez você esteja começando a estudar COBOL e imaginando:

"O que supermercados europeus e equipamentos industriais têm a ver comigo?"

A resposta é: muito mais do que parece.

Primeiro, aprendemos que informações não existem isoladamente.

Um dado pode representar uma transação bancária, uma peça de estoque, uma remessa de medicamentos ou a temperatura de uma câmara frigorífica.

Segundo, descobrimos que validação não é um luxo.

Dados recebidos de sistemas externos precisam ser tratados como informações cuja origem, integridade e consistência devem ser verificadas.

Terceiro, percebemos a importância da rastreabilidade.

Um programa corporativo deve permitir compreender o que foi processado, quando, por qual origem e com qual resultado.

Quarto, entendemos a diferença entre detectar uma anomalia e explicar sua causa.

Um relatório pode mostrar que a temperatura aumentou.

Mas determinar se isso resultou de defeito mecânico, erro humano ou ataque exige outros elementos.

Quinto, aprendemos que integração entre sistemas exige responsabilidade.

Um programa COBOL que recebe informações de sensores industriais faz parte de uma cadeia de confiança.

Ele precisa tratar falhas, registros inválidos, duplicidades e inconsistências temporais.

E existe uma sexta lição.

O desenvolvedor corporativo precisa compreender o negócio que seu software protege.

Um cálculo correto executado com dados errados ainda pode produzir uma decisão incorreta.

Uma aplicação disponível vinte e quatro horas por dia não garante que o processo físico associado esteja funcionando adequadamente.

Disponibilidade, integridade, confidencialidade e segurança operacional são dimensões relacionadas, mas distintas.


Capítulo XVI — A transmutação final: quando a recuperação digital não recupera o mundo físico

Voltemos ao supermercado.

São oito horas da manhã.

A equipe técnica conseguiu restabelecer o funcionamento dos controladores.

Os equipamentos estão novamente refrigerando.

As conexões suspeitas foram desativadas.

Os especialistas começaram a investigar os registros disponíveis.

O sistema informatizado parece ter voltado ao normal.

Missão cumprida?

Não exatamente.

Ainda existem produtos que precisam ser avaliados.

Mercadorias que precisam ser descartadas.

Fornecedores que precisam ser acionados.

Funcionários que precisam reorganizar o estabelecimento.

Clientes que encontrarão prateleiras vazias.

E gestores que precisarão explicar os prejuízos.

Edward Elric contempla a situação.

— Então consertar a máquina não desfaz tudo o que aconteceu?

Alphonse responde:

— Não, irmão. Podemos recuperar o sistema, mas não necessariamente os alimentos.

Essa talvez seja a maior diferença entre um ataque tradicional contra informação e um ataque contra um processo físico.

Em muitos incidentes digitais, a recuperação de um backup confiável pode restaurar parte significativa da operação.

Num incidente ciberfísico, o mundo real não possui um botão universal de desfazer.

Uma mercadoria deteriorada não volta ao estado original porque restauramos a configuração de um controlador.

Uma consequência sanitária não desaparece porque reinstalamos o sistema operacional.

Um equipamento danificado pode precisar de reparos físicos.

A segurança digital passa, portanto, a fazer parte da segurança material das organizações.


Epílogo — A verdadeira Pedra Filosofal da cibersegurança

Na história de Fullmetal Alchemist, a Pedra Filosofal representa uma possibilidade extraordinária: superar limitações normalmente impostas à alquimia.

Mas a busca por esse poder revela consequências morais profundas.

No mundo da informática também procuramos soluções capazes de resolver todos os problemas.

Firewalls perfeitos.

Antivírus infalíveis.

Inteligência artificial capaz de detectar qualquer ameaça.

Redes completamente protegidas.

Mas essa Pedra Filosofal digital não existe.

A segurança depende de engenharia, manutenção, treinamento, governança e monitoramento contínuo.

Depende de conhecer os equipamentos.

De compreender as integrações.

De avaliar fornecedores.

De reduzir acessos desnecessários.

De preservar registros confiáveis.

E de preparar pessoas para agir quando as proteções falharem.

Os incidentes europeus de outubro e novembro de 2026 são uma demonstração dramática de que a transformação digital também amplia nossas responsabilidades.

Uma conexão remota pode economizar milhares de deslocamentos técnicos.

Pode melhorar a eficiência energética.

Pode antecipar falhas.

Pode reduzir perdas de alimentos.

Mas a mesma conectividade, quando inadequadamente protegida, pode transformar um benefício operacional em uma vulnerabilidade grave.

É a nossa Lei da Troca Equivalente tecnológica.

Não porque segurança e prejuízo sejam inevitavelmente equivalentes, mas porque toda arquitetura envolve escolhas, dependências e consequências.

Edward Elric termina seu café, observa o terminal e sorri.

— Agora compreendi. A verdadeira alquimia não é transformar chumbo em ouro.

Alphonse inclina a cabeça.

— Então o que é, irmão?

— É transformar conhecimento em prevenção!

E, lá no fundo do CPD, um programador COBOL acrescenta silenciosamente mais uma regra ao seu programa de validação.

Não para derrotar sozinho todos os hackers do planeta.

Mas para fazer aquilo que bons profissionais de tecnologia sempre fizeram:

compreender os sistemas, identificar riscos e construir soluções mais confiáveis.

Porque, no mundo real, a melhor transmutação é aquela que transforma informação em proteção antes que o desastre aconteça.


☕ Bellacosa Mainframe — Onde o COBOL encontra a História, a Cibersegurança e a Cultura Pop.

"O verdadeiro legado não está na idade do código, mas no conhecimento que nos permite mantê-lo seguro."

Fontes e referências para aprofundamento

  • Reuters, 2 a 4 de novembro de 2026 — Cobertura dos incidentes europeus, investigação e riscos de sistemas industriais conectados.

  • Associated Press, 2 e 3 de novembro de 2026 — Reportagens sobre supermercados afetados, temperaturas anormais e tecnologias de refrigeração.

  • AFP e Euronews, 2 e 3 de novembro de 2026 — Países atingidos, declarações das redes comerciais e ocorrências em Portugal.

  • Le Monde, 13 de outubro de 2026 — Investigação dos primeiros ataques em supermercados franceses.

  • BleepingComputer, 2 de novembro de 2026 — Análise dos incidentes e dos estabelecimentos afetados.

  • NIST SP 800-82 Rev. 3 — Guide to Operational Technology (OT) Security, referência para segurança de sistemas de tecnologia operacional.

Nota editorial: os acontecimentos e declarações jornalísticas foram verificados até 4 de novembro de 2026. Os diálogos de Edward e Alphonse Elric são ficcionais, utilizados exclusivamente como recurso didático. Os exemplos COBOL e JCL representam laboratórios educativos e não devem ser utilizados como sistemas de segurança física sem projeto, validação e certificação apropriados.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

O ASSALTO DE US$ 6,3 BILHÕES: AKANE TSUNEMORI CONTRA O CRIME PERFEITO NA BINANCE!

 

Bellacosa Mainframe e um dos maiores ataques cibernéticos de sempre bilhões em criptomoedas roubadas

☕ UM CAFÉ NO BELLACOSA MAINFRAME

O ASSALTO DE US$ 6,3 BILHÕES: AKANE TSUNEMORI CONTRA O CRIME PERFEITO NA BINANCE!

O dia em que uma entrevista de emprego falsa, uma inteligência artificial comprometida e algumas permissões digitais colocaram bilhões de dólares nas mãos dos criminosos.

Bellacosa Mainframe — Arqueologia da Computação, COBOL, Segurança Cibernética e os Fantasmas dos Sistemas Financeiros



🎬 Prólogo — O dia em que o Sistema Sibyl deixou escapar US$ 6,3 bilhões

29 de outubro de 2026.

Imagine uma sala de operações iluminada por dezenas de monitores. Gráficos financeiros atravessam as telas, algoritmos analisam movimentos suspeitos e sistemas automatizados processam transações em velocidades impossíveis para qualquer ser humano.

Tudo parece funcionar.

Até que um alarme aparece.

Uma carteira digital acaba de movimentar uma quantidade gigantesca de criptomoedas para um endereço desconhecido.

Outro alarme.

Mais uma transferência.

E outra.

Em apenas quatro minutos, 233,46 milhões de XRP saem de cinco carteiras conectadas à internet.

A equipe de segurança começa a investigar. Entretanto, as transferências não autorizadas continuam.

Em algum lugar da ficção científica japonesa, a inspetora Akane Tsunemori, protagonista de Psycho-Pass, observaria os acontecimentos com uma pergunta desconfortável:

— Se o sistema era tão inteligente, por que não conseguiu impedir o crime?

Na nossa dramatização, Akane não está diante de um criminoso empunhando uma arma. Tampouco de um assaltante mascarado atravessando a porta de um banco.

Seu adversário é invisível.

Ele usa credenciais legítimas, computadores comprometidos, ferramentas de desenvolvimento e mecanismos criptográficos de autorização.

E o mais perturbador: parte da preparação começou meses antes.

O resultado seria um episódio envolvendo aproximadamente US$ 6,34 bilhões em ativos digitais, segundo o relatório preliminar da Binance.

É um valor que coloca o incidente entre os maiores roubos financeiros já documentados.

Mas seria correto chamá-lo de maior roubo a banco da história?

Em sentido estrito, a Binance não é um banco tradicional. É uma plataforma de negociação e custódia de criptoativos. Também precisamos distinguir o valor total de ativos afetados, a perda efetivamente irrecuperável e os recursos posteriormente congelados.

Apesar dessas ressalvas, o episódio representa uma ruptura histórica na escala dos assaltos digitais.

E Akane tem uma nova investigação.

Seu primeiro suspeito não é uma pessoa. É a confiança excessiva depositada na tecnologia.



Capítulo I — Quem é Akane Tsunemori e por que ela deveria investigar esse crime?

Para compreender nossa investigação, precisamos visitar o Japão distópico de Psycho-Pass.

Na história, a sociedade é supervisionada pelo Sistema Sibyl, uma infraestrutura tecnológica capaz de avaliar o estado psicológico dos cidadãos e estimar seu potencial de criminalidade.

O chamado coeficiente de criminalidade influencia a forma como as autoridades tratam cada indivíduo.

A promessa parece irresistível: detectar o perigo antes que ele se transforme em crime.

A inspetora Akane Tsunemori começa sua carreira acreditando na importância da ordem pública, mas gradualmente descobre que nenhum sistema automatizado está acima do questionamento humano.

Sua grande virtude não é obedecer cegamente às máquinas.

É reconhecer que o julgamento ético, a responsabilidade e a investigação continuam necessários, mesmo quando a tecnologia parece infalível.

Essa característica torna Akane uma excelente tutora para nossa análise.

Imagine o Sistema Sibyl conectado à infraestrutura financeira de uma grande corretora.

Ele analisa milhões de operações, identifica comportamentos suspeitos e calcula pontuações de risco.

Entretanto, os criminosos não precisam necessariamente derrotar o algoritmo.

Podem conseguir que alguém execute um programa contaminado.

Podem roubar uma credencial.

Podem comprometer uma ferramenta aparentemente confiável.

Podem explorar uma autorização que o sistema já considera válida.

Eis o paradoxo central desta investigação:

Um sistema pode executar perfeitamente uma instrução que jamais deveria ter sido autorizada.

A inteligência do sistema não elimina a necessidade de controles independentes.

Esta também é uma das grandes lições de Psycho-Pass: segurança e justiça não são sinônimos de confiança absoluta em mecanismos automatizados.



Capítulo II — Junho de 2026: a primeira armadilha estava escondida numa ferramenta de IA

Nossa cronologia começa em junho de 2026.

Um profissional da equipe Wallet DevOps da Binance procurava instalar uma ferramenta de programação assistida por inteligência artificial.

Nada aparentemente extraordinário.

Programadores utilizam ferramentas de IA para entender códigos, localizar erros, escrever testes e acelerar tarefas repetitivas.

Entretanto, segundo o relatório divulgado pela Binance, o engenheiro encontrou uma instalação adulterada associada ao Homebrew, conhecido gerenciador de pacotes usado em ambientes macOS.

A instalação comprometeu o computador.

A equipe de segurança percebeu a atividade anormal, substituiu o dispositivo e realizou a rotação das credenciais relacionadas.

Até aqui, poderíamos imaginar que o problema estava resolvido.

Mas existe uma diferença entre eliminar um programa malicioso e eliminar todas as consequências de sua execução.

Durante o comprometimento, os invasores obtiveram informações sobre a função do profissional e sobre colegas associados à infraestrutura de carteiras.

Essas informações eram valiosas.

Não necessariamente porque continham a chave de um cofre digital, mas porque ajudavam a identificar quem trabalhava perto desse cofre.

🔎 Curiosidade: o ataque começa muito antes do roubo

Nos filmes, o assaltante estuda os horários dos guardas, observa os veículos blindados e identifica a localização das câmeras.

No crime cibernético, o equivalente pode envolver nomes de equipes, ferramentas utilizadas, relações profissionais e privilégios técnicos.

Conhecer o organograma de uma organização pode facilitar a seleção de novos alvos.

A esse estágio chamamos, genericamente, de reconhecimento.

Não é correto afirmar que todo o planejamento posterior já estivesse definido em junho. O que sabemos é que essa etapa forneceu aos atacantes uma oportunidade de coleta de informações.

Akane examinaria o caso e faria uma observação simples:

— Um computador pode ser substituído. Mas o conhecimento obtido pelo adversário não desaparece automaticamente.

A lição para o programador COBOL

Imagine que você trabalha em uma instituição financeira, desenvolvendo programas COBOL com VS Code e extensões relacionadas ao IBM Z.

Você encontra uma ferramenta prometendo:

  • Compilar programas automaticamente.

  • Interpretar mensagens de erro do COBOL.

  • Gerar JCL com inteligência artificial.

  • Analisar programas antigos.

  • Acelerar a conexão com ambientes z/OS.

Parece excelente.

Entretanto, antes de instalar, você precisa verificar a procedência do software, o editor responsável, as permissões solicitadas e sua aprovação no ambiente corporativo.

Um plugin comprometido pode colocar em risco não apenas seu computador, mas também tokens de acesso, repositórios e sessões autenticadas.

A regra é simples:

Uma ferramenta útil não se torna confiável apenas porque aparece nos primeiros resultados de uma pesquisa.



Capítulo III — Setembro: a entrevista de emprego que nunca existiu

Chegamos à parte mais cinematográfica da história.

Em setembro de 2026, outro engenheiro recebeu contato de alguém que se apresentava como diretor de projetos de uma empresa.

A abordagem ocorreu por uma plataforma legítima de busca de emprego.

O profissional participou de uma entrevista com uma suposta representante de recursos humanos.

Depois veio uma segunda conversa, agora com alguém que dizia ser o presidente-executivo da empresa.

A organização era fictícia.

Mas o processo seletivo havia sido construído para parecer real.

Ao final, o candidato recebeu um desafio técnico.

Precisaria baixar um repositório de código e realizar uma atividade de programação.

Quem já participou de processos seletivos em tecnologia conhece esse procedimento.

É comum que empresas solicitem exercícios de lógica, correção de programas ou desenvolvimento de pequenas aplicações.

O problema é que aquele repositório continha código malicioso.

Durante sua preparação, o projeto executava componentes capazes de comprometer o computador.

O relatório preliminar da Binance descreve técnicas de ofuscação, evasão de ferramentas de segurança e substituição de um componente legítimo de desenvolvimento por uma versão maliciosa.

A genialidade perversa da engenharia social

Os criminosos não começaram pedindo senhas.

Eles construíram credibilidade.

Primeiro, uma abordagem profissional.

Depois, uma entrevista.

Em seguida, uma figura de autoridade.

Finalmente, uma atividade aparentemente comum.

O ataque explorou uma característica humana: tendemos a confiar mais em solicitações que aparecem dentro de um processo coerente.

Em Psycho-Pass, um dos temas recorrentes é a diferença entre aparência, intenção e comportamento.

No mundo real, a mesma diferença existe entre uma mensagem profissional e uma ação autorizada.

Uma conversa educada não prova que uma empresa existe.

Uma chamada de vídeo não garante a identidade do interlocutor.

Um repositório bem documentado não garante que seu código seja seguro.

Easter egg — O teste técnico de Akane

Imagine Akane recebendo um desafio:

Desenvolva um programa COBOL capaz de processar pagamentos de clientes. Para começar, execute o instalador disponibilizado pelo nosso recrutador.

Ela provavelmente faria uma pergunta antes de tocar no teclado:

— Por que um teste de lógica de programação precisa executar componentes desconhecidos no meu computador corporativo?

Essa pergunta, aparentemente trivial, poderia interromper toda a cadeia de comprometimento.

Desconfiança técnica bem fundamentada não é paranoia. É disciplina profissional.


Capítulo IV — 20 de outubro: quando a ferramenta de IA se tornou parte do caminho de ataque

No dia 20 de outubro, os invasores avançaram.

Segundo a Binance, utilizaram o computador comprometido durante o falso processo seletivo e uma ferramenta interna de IA para alcançar ambientes associados a outros dois engenheiros da equipe de carteiras.

Entre as descobertas estava um token com permissões de implantação de contêineres.

Para um iniciante, isso talvez pareça apenas um detalhe.

Mas vamos traduzir.

Um contêiner é uma forma de empacotar e executar aplicações com seus componentes e dependências em um ambiente controlado.

Ferramentas de implantação permitem colocar esses componentes em funcionamento.

Se um invasor consegue abusar de credenciais de implantação, pode tentar introduzir código não autorizado em ambientes que confiam nessa infraestrutura.

Isso transforma um problema de estação de trabalho em um problema de cadeia de desenvolvimento.

O que a inteligência artificial fez?

É importante evitar uma conclusão sensacionalista.

O relatório não demonstra que uma IA desenvolveu consciência, escolheu assaltar uma corretora ou decidiu roubar bilhões.

O que foi descrito é o comprometimento e abuso de uma ferramenta interna de IA como parte do caminho utilizado pelos invasores.

A diferença é enorme.

Um assistente inteligente pode integrar diferentes recursos técnicos. Dependendo de suas permissões, ele pode consultar repositórios, acessar arquivos, interagir com ferramentas e executar operações autorizadas.

Se seu ambiente for comprometido, algumas dessas integrações podem ampliar os efeitos do ataque.

Quanto maior a capacidade de uma ferramenta automatizada, maior a importância de limitar seus privilégios.

O paralelo com o IBM Mainframe

Imagine uma ferramenta de IA conectada a um ambiente corporativo de desenvolvimento IBM Z.

Ela consegue consultar programas COBOL, sugerir alterações e preparar execuções de testes.

Até aqui, tudo bem.

Mas seria realmente necessário que a mesma ferramenta também pudesse alterar programas de produção, submeter jobs críticos e acessar credenciais administrativas?

Provavelmente não.

Um desenho de segurança adequado deve separar:

Ambiente de desenvolvimento, onde experimentamos.

Ambiente de homologação, onde validamos.

Ambiente de produção, onde operações reais acontecem.

Além disso, a identidade utilizada para uma função não deveria receber automaticamente acesso às demais.

Akane chamaria isso de um princípio de responsabilidade.

Nós, profissionais de segurança, chamamos de menor privilégio e segregação de funções.


Capítulo V — 29 de outubro: o cofre começa a esvaziar

Finalmente chegamos ao dia do grande assalto.

Segundo a cronologia divulgada pela Binance, entre 17h15 e 19h56 UTC, o atacante acessou o computador de um dos engenheiros comprometidos e utilizou credenciais obtidas de outro profissional.

A partir desse ambiente, implantou um contêiner e acionou um script malicioso.

Pouco depois, o dinheiro começou a sair.

Entre 20h05 e 20h09 UTC, cinco carteiras conectadas à internet transferiram 233,46 milhões de XRP para um endereço controlado pelo invasor.

Outras operações envolveram aproximadamente 970.500 SOL, 44,2 milhões de OP e 18.270 BTC, além de ativos em Ethereum.

A Binance identificou movimentações anormais e iniciou medidas de contenção.

Entretanto, desligar o serviço normal de saques não resolveu tudo.

A razão é tecnicamente fascinante.

O que é uma hot wallet?

Uma hot wallet é uma carteira de criptoativos conectada a uma infraestrutura que permite operações online.

Ela facilita transferências frequentes.

Por outro lado, precisa ser protegida contra comprometimento de seus mecanismos de autorização.

Já uma cold wallet mantém seus mecanismos sensíveis de assinatura mais isolados de sistemas conectados.

Nenhuma dessas categorias, isoladamente, substitui governança, controle de acesso e procedimentos de resposta a incidentes.

O papel do EIP-7702

Uma das partes mais complexas do ataque envolveu o mecanismo EIP-7702 do Ethereum.

Simplificando bastante, ele permite que determinadas contas deleguem capacidades de execução a código de contratos inteligentes.

A funcionalidade tem usos legítimos.

Entretanto, autorizações maliciosas também podem criar riscos caso um atacante consiga estabelecê-las.

Segundo a Binance, os invasores utilizaram o serviço de assinatura comprometido para criar delegações que permitiram continuar movimentando ativos independentemente da infraestrutura normal de saques.

Isso explica por que suspender saques não interrompeu imediatamente todas as operações.

As autorizações problemáticas já existiam na blockchain.

Era necessário revogá-las na própria rede.

O processo envolvia dificuldades adicionais por causa da arquitetura MPC, na qual operações criptográficas são realizadas por mecanismos multiparticipantes.

Não havia simplesmente uma chave privada única que pudesse ser utilizada imediatamente para resolver a situação.

A última transferência não autorizada foi finalizada às 23h56 UTC.

Às 00h10 UTC de 30 de outubro, a Binance executou uma autorização destinada a limpar a delegação maliciosa da carteira envolvida.

O paradoxo do cofre eletrônico

Imagine que você controla um banco com portas eletrônicas extremamente sofisticadas.

Ao descobrir um invasor, manda desligar o sistema principal.

Mas existe uma autorização previamente concedida a outro mecanismo de abertura, que continua válida mesmo depois do desligamento.

Seu problema não é mais apenas interromper o aplicativo.

É cancelar a autorização independente.

Essa é a lição fundamental:

Desligar um sistema não significa revogar todos os poderes que ele concedeu anteriormente.


Capítulo VI — O maior roubo a banco da história?

A dimensão financeira exige alguns cuidados.

A Binance informou que aproximadamente US$ 6,34 bilhões em ativos digitais foram afetados.

Desse montante, cerca de US$ 2,85 bilhões haviam sido congelados ou interceptados até a atualização de 3 de novembro.

A empresa também afirmou que, até 31 de outubro, havia reposto 98% dos ativos afetados e reservado recursos suficientes para cobrir as perdas.

Essas informações não significam que todo o dinheiro roubado tenha sido recuperado.

Congelar ativos, interceptar movimentações e compensar clientes com recursos próprios são procedimentos diferentes.

Também é necessário considerar que as avaliações de criptoativos variam com o mercado.

Mesmo assim, a escala do caso é extraordinária.

Curiosidade histórica: quando os assaltantes precisavam de caminhões

Em 2003, o Banco Central do Iraque tornou-se protagonista de um episódio envolvendo a retirada de aproximadamente US$ 1 bilhão.

O transporte de enormes quantidades de dinheiro físico exigia pessoal, veículos e operações logísticas.

Na era digital, o problema mudou de natureza.

O transporte deixa de ser o principal obstáculo.

O desafio passa a ser conseguir autorizações válidas para transferir valores.

Não estamos afirmando que todos os crimes financeiros sejam comparáveis juridicamente ou operacionalmente.

Estamos observando uma transformação histórica:

No século XXI, comprometer a autorização pode ser mais importante do que conquistar fisicamente o cofre.


Capítulo VII — Akane entra no CPD: o que o COBOL tem a ver com tudo isso?

Agora vamos entrar no laboratório Bellacosa Mainframe.

Imagine uma instituição financeira que utiliza COBOL para registrar e processar pagamentos.

Um programa recebe dados como:

  • Número da conta de origem.

  • Número da conta destinatária.

  • Valor da transferência.

  • Identidade do solicitante.

  • Estado da autorização.

Nosso objetivo é impedir que uma transferência seja aprovada apenas porque os dados parecem formalmente válidos.

Para isso, vamos desenvolver um exemplo didático.

Antes, precisamos compreender quatro conceitos da linguagem.

IDENTIFICATION DIVISION: identifica o programa.

DATA DIVISION: define dados e campos utilizados.

PROCEDURE DIVISION: contém a lógica executável.

IF e EVALUATE: permitem implementar decisões com base em condições.

COBOL é especialmente adequado para ensinar regras de negócio, porque sua sintaxe torna relativamente explícitas as condições aplicadas aos dados.

E uma regra de negócio pode funcionar como uma barreira financeira.


Capítulo VIII — Laboratório prático: construindo o mini-Sibyl bancário em COBOL

Vamos construir o programa AKANERISK.

Ele não pretende prever se alguém é criminoso.

Seu objetivo é muito mais limitado e verificável: classificar uma transação com base em regras objetivas.

Esse detalhe é importante.

A segurança financeira deve avaliar comportamento e contexto, evitando transformar pessoas em suspeitas por características pessoais ou critérios discriminatórios.

Nosso programa receberá três condições:

  1. O valor da transferência.

  2. Se o destinatário foi previamente validado.

  3. Se houve aprovação independente.

Para simplificar, vamos estabelecer um limite didático de R$ 10.000.

Valores superiores exigirão aprovação adicional.

Qualquer destinatário não validado fará a transferência ser bloqueada.

Passo 1 — Criando o programa

       >>SOURCE FORMAT FREE
identification division.
program-id. AKANERISK.

environment division.
configuration section.
repository.
    function all intrinsic.

data division.
working-storage section.

01 ws-valor           pic 9(9)v99 value 0.
01 ws-limite          pic 9(9)v99 value 10000.
01 ws-destino-ok      pic x value 'N'.
01 ws-aprovacao-ok    pic x value 'N'.
01 ws-resultado       pic x(12).
01 ws-valor-editado   pic z(9)9.99.

procedure division.

    display "VALOR EM REAIS: "
    accept ws-valor

    display "DESTINATARIO VALIDADO? S/N"
    accept ws-destino-ok

    display "APROVACAO INDEPENDENTE? S/N"
    accept ws-aprovacao-ok

    move function upper-case(ws-destino-ok)
      to ws-destino-ok

    move function upper-case(ws-aprovacao-ok)
      to ws-aprovacao-ok

    evaluate true
        when ws-destino-ok not = 'S'
            move "BLOQUEADA" to ws-resultado

        when ws-valor > ws-limite
         and ws-aprovacao-ok not = 'S'
            move "EM ANALISE" to ws-resultado

        when other
            move "AUTORIZADA" to ws-resultado
    end-evaluate

    move ws-valor to ws-valor-editado

    display "VALOR: " ws-valor-editado
    display "STATUS: " ws-resultado

    goback.

O exemplo utiliza sintaxe COBOL de formato livre, disponível em compiladores compatíveis com o recurso.

É um simulador educacional, não um componente pronto para processar dinheiro real.

Passo 2 — Entendendo o campo PIC

Observe:

PIC 9(9)V99

Significa que o campo possui nove posições decimais inteiras e duas posições decimais fracionárias.

O V representa uma posição decimal implícita: ele não ocupa uma posição física no armazenamento.

Essa característica permite representar valores decimais de maneira conveniente para aplicações comerciais.

Em contextos financeiros, precisamos ter extremo cuidado com escala, arredondamento, intervalos válidos e armazenamento.

Passo 3 — Entendendo EVALUATE TRUE

A instrução EVALUATE TRUE permite avaliar diversas condições em sequência.

No nosso exemplo, a primeira condição identifica destinatários que não foram validados.

Se a verificação falhar, a transação recebe o estado BLOQUEADA.

Caso contrário, o programa verifica se o valor supera o limite definido e se existe aprovação independente.

Se essa aprovação estiver ausente, o estado será EM ANALISE.

Caso nenhuma condição impeditiva seja encontrada, o programa classificará a transação como AUTORIZADA.

A ordem das verificações é importante.

Uma condição crítica deve impedir que a operação alcance uma decisão permissiva por engano.

Passo 4 — Executando os primeiros testes

Vamos imaginar três transações fictícias.

Teste A

Valor: R$ 500.

Destinatário validado: S.

Aprovação independente: N.

Resultado esperado: AUTORIZADA.

Teste B

Valor: R$ 50.000.

Destinatário validado: S.

Aprovação independente: N.

Resultado esperado: EM ANALISE.

Teste C

Valor: R$ 100.

Destinatário validado: N.

Aprovação independente: S.

Resultado esperado: BLOQUEADA.

Perceba o detalhe.

Mesmo que exista uma aprovação adicional, um destinatário não validado permanece bloqueado.

Essa prioridade representa uma decisão de segurança incorporada à regra de negócio.


Capítulo IX — O que falta para transformar nosso exemplo em um sistema bancário verdadeiro?

Muita coisa!

Nosso programa demonstra decisões básicas, mas não implementa segurança de produção.

Ele aceita informações digitadas pelo usuário sem verificar se as respostas são autênticas.

Uma pessoa poderia simplesmente informar que recebeu aprovação.

Isso não constitui autorização independente.

Numa arquitetura real, precisaríamos de verificações realizadas por serviços confiáveis e protegidos.

1. Validar a identidade

O sistema precisa saber quem está solicitando a operação.

Não basta receber uma identificação textual.

É necessário autenticar a identidade por mecanismos adequados ao risco.

2. Verificar permissões

Mesmo uma pessoa autenticada não deve necessariamente conseguir movimentar qualquer valor.

Precisamos de autorização baseada em funções, limites e contexto.

3. Validar o destinatário

Uma conta cadastrada ou um endereço previamente aprovado deve ser comparado com dados confiáveis.

O próprio solicitante não pode ser a única fonte dessa confirmação.

4. Exigir autorização independente

Transferências acima de determinados limites podem exigir aprovação de outra pessoa ou de um processo separado.

O aprovador não deveria conseguir ser representado apenas por um campo informado livremente.

5. Registrar evidências

Operações relevantes precisam produzir registros confiáveis.

Esses registros ajudam a investigar incidentes, identificar irregularidades e demonstrar que controles foram executados.

6. Evitar duplicidade de execução

Uma operação financeira precisa de mecanismos para impedir que a mesma solicitação seja executada duas vezes indevidamente.

É o problema das transações repetidas.

7. Garantir consistência

É necessário impedir que o saldo de uma conta seja debitado sem a correspondente operação financeira ser concluída ou compensada corretamente.

Aqui entram conceitos de transações atômicas, consistência e recuperação.

8. Preparar a resposta ao incidente

Uma organização precisa saber o que fazer quando descobre um comprometimento.

Isso inclui suspender operações, revogar acessos, invalidar sessões, preservar evidências e restaurar serviços com segurança.

O caso Binance demonstra que essa resposta deve considerar autorizações que continuam válidas fora da aplicação principal.


Capítulo X — O Sistema Sibyl encontra RACF, CICS e Db2

Vamos trazer nossa investigação para um ambiente IBM Z.

Imagine uma instituição financeira com milhões de contas.

O sistema possui programas COBOL executados por transações CICS e dados armazenados no Db2.

O acesso é controlado por mecanismos de segurança do z/OS, incluindo RACF.

Nessa arquitetura, cada componente cumpre uma função diferente.

RACF: controla identidades e permissões sobre recursos protegidos.

CICS: fornece infraestrutura transacional para aplicações online, incluindo mecanismos de segurança e integração.

Db2: oferece persistência, integridade transacional, controle de concorrência e recursos de auditoria.

SMF: reúne registros operacionais importantes para monitoramento, auditoria e investigação.

JCL e JES2: participam do processamento batch e exigem controles sobre submissão, execução e acesso aos recursos.

z/OS Connect: permite expor e consumir serviços e APIs de forma integrada, exigindo proteção adequada das interfaces.

Essas tecnologias podem integrar uma arquitetura segura, mas nenhuma delas constitui garantia absoluta.

É preciso configurar corretamente políticas, permissões e procedimentos.

Uma transferência bancária hipotética

Imagine uma transferência de R$ 20 milhões.

O sistema recebe o pedido.

A aplicação verifica a identidade do solicitante.

Um serviço de autorização confirma os privilégios.

As regras financeiras exigem aprovação independente.

O sistema valida o destinatário.

Uma rotina verifica limites e comportamento anormal.

O Db2 registra alterações consistentes.

Eventos relevantes são enviados aos mecanismos de auditoria.

Somente depois de todas as verificações o fluxo apropriado permite concluir a operação.

Essa sequência é ilustrativa.

Em ambientes reais, algumas verificações acontecem em etapas diferentes e utilizam múltiplos serviços.

O ponto essencial é impedir que a quebra de uma única barreira ofereça controle total sobre os recursos financeiros.

Segurança não é possuir uma porta blindada. É impedir que uma única chave abra todas as portas.


Capítulo XI — Dez mandamentos de Akane Tsunemori para o programador COBOL

Primeiro: nunca execute código desconhecido no computador corporativo.

Mesmo que a solicitação venha de um recrutador simpático ou de uma empresa aparentemente respeitável.

Segundo: não transforme ferramentas de desenvolvimento em administradores universais.

Plugins, assistentes e automações precisam somente dos privilégios estritamente necessários.

Terceiro: proteja credenciais e tokens.

Não armazene segredos em programas-fonte, repositórios ou arquivos compartilhados sem proteção adequada.

Quarto: separe desenvolvimento e produção.

Seu ambiente de testes não deveria oferecer um caminho irrestrito para operações financeiras reais.

Quinto: aplique controles de aprovação independentes.

Quem escreve uma alteração crítica não precisa necessariamente ser quem autoriza sua implantação.

Sexto: trate toda entrada como não confiável até ser validada.

Isso inclui campos de programas COBOL, parâmetros de jobs, dados recebidos por APIs e arquivos de terceiros.

Sétimo: monitore operações incomuns.

Transferências de grande valor, acessos inesperados e mudanças de comportamento podem justificar investigação.

Oitavo: prepare procedimentos de revogação.

É necessário compreender como cancelar tokens, sessões, privilégios e autorizações concedidas a sistemas externos.

Nono: teste o plano de resposta.

Uma organização não deve descobrir durante o ataque que ninguém sabe interromper determinada operação.

Décimo: preserve o julgamento humano.

Sistemas automatizados devem ajudar a decidir, mas não substituir responsabilidade, investigação e análise crítica.

Akane provavelmente aprovaria esse último mandamento.


Capítulo XII — O lado sombrio da inteligência artificial

Existe outra lição importante no episódio.

A inteligência artificial pode melhorar a defesa cibernética, mas também amplia a quantidade de ferramentas integradas ao desenvolvimento.

Um assistente pode analisar milhares de linhas de COBOL.

Pode sugerir testes.

Pode localizar dependências.

Pode ajudar a documentar um sistema legado.

Entretanto, se ele também tiver permissões excessivas, uma exploração bem-sucedida poderá atingir serviços adicionais.

Isso exige atenção especial a agentes de IA capazes de executar ações.

Um agente que apenas responde perguntas possui um perfil de risco.

Um agente que pode ler repositórios internos apresenta outro.

Um agente autorizado a executar comandos e modificar arquivos apresenta riscos adicionais.

E um agente capaz de realizar alterações em produção exige controles ainda mais rigorosos.

A solução não é abandonar a inteligência artificial.

É aplicar à IA os princípios clássicos de engenharia e segurança:

Autenticação, autorização, menor privilégio, monitoramento, isolamento e revisão independente.

Podemos utilizar tecnologia extremamente moderna sem esquecer lições desenvolvidas ao longo de décadas de processamento empresarial.

Talvez esse seja um dos ensinamentos mais interessantes do mainframe.

A tecnologia muda.

Os princípios fundamentais de integridade e responsabilidade continuam.


Capítulo XIII — Quem estava por trás do ataque?

As autoridades americanas atribuíram o incidente a agentes ligados à Coreia do Norte.

O governo norte-coreano rejeitou a acusação.

É importante distinguir atribuição de inteligência cibernética de uma conclusão judicial definitiva.

Investigadores analisam infraestrutura utilizada, ferramentas, padrões de execução, movimentação de recursos e outros elementos técnicos.

Essas evidências podem sustentar avaliações de autoria, mas nem todos os detalhes ficam publicamente disponíveis.

Outra distinção necessária: o fato de determinado grupo utilizar determinadas técnicas não significa que todos os ataques semelhantes sejam praticados pelo mesmo agente.

Uma entrevista falsa, por exemplo, é um método que pode ser reproduzido por grupos distintos.

A defesa precisa concentrar-se nos mecanismos concretos do ataque.

Isso inclui verificar a identidade de recrutadores, isolar código recebido, proteger credenciais e restringir o acesso aos ambientes críticos.

Akane compreenderia perfeitamente essa distinção.

Investigar significa buscar evidências.

Não significa escolher antecipadamente um culpado e interpretar todos os acontecimentos de acordo com essa conclusão.


Capítulo XIV — O paradoxo do Dominator: quando uma máquina autoriza o que deveria impedir

Em Psycho-Pass, o Dominator é um dispositivo associado ao Sistema Sibyl, que condiciona seu funcionamento à avaliação realizada pela infraestrutura automatizada.

O operador não possui controle absoluto sobre a decisão do equipamento.

Isso cria um dilema profundo: e se a avaliação do sistema estiver equivocada?

No universo financeiro, existe uma versão dessa pergunta.

E se uma transação carregar uma assinatura criptográfica tecnicamente válida, mas tiver sido produzida por um processo comprometido?

A assinatura comprova determinadas propriedades criptográficas.

Não comprova, por si só, que o propósito econômico da operação seja legítimo.

Essa distinção é fundamental.

Um código de retorno bem-sucedido não prova a ausência de fraude.

Uma autenticação válida não garante que o usuário esteja agindo livremente.

Um token autorizado não demonstra que o ambiente que o utilizou esteja íntegro.

E um sistema que executou corretamente suas instruções ainda pode produzir um resultado completamente indesejado.

O verdadeiro princípio de Akane

Não basta perguntar:

"Esta operação foi autorizada pela máquina?"

Precisamos perguntar:

"Como essa autorização foi obtida, por quem, para qual finalidade e sob quais condições?"

Essa mudança de perspectiva transforma a segurança.

Ela obriga arquitetos e programadores a analisar não apenas comandos, mas todo o contexto de confiança.


Capítulo XV — O que aconteceu depois do assalto?

Na atualização divulgada em 3 de novembro de 2026, a Binance informou uma série de ações de resposta.

Entre elas estavam a reconstrução de ambientes afetados, a substituição de dispositivos comprometidos, a invalidação de credenciais e o fortalecimento de controles associados às carteiras digitais.

A empresa também informou ter reconstruído a ferramenta interna de IA afetada e iniciado medidas adicionais de detecção de comportamentos anormais.

Outro ponto importante foi a decisão de contratar especialistas independentes para revisar o incidente.

Essa última providência merece atenção.

Depois de um comprometimento dessa magnitude, não basta declarar que tudo está resolvido.

É necessário investigar as causas, identificar falhas de arquitetura, testar as medidas corretivas e validar se os caminhos utilizados pelos invasores foram efetivamente interrompidos.

A empresa também afirmou que os clientes não suportariam diretamente as perdas decorrentes do episódio.

Entretanto, em 4 de novembro de 2026, a investigação ainda era preliminar.

A reconstrução completa dos acontecimentos e a recuperação definitiva dos ativos continuavam sujeitas a novos resultados.


Capítulo XVI — O exercício final de Akane: você conseguiria impedir o próximo ataque?

Imagine que amanhã você assuma a responsabilidade por um sistema financeiro desenvolvido em COBOL.

O sistema funciona há décadas.

Milhões de transações são processadas diariamente.

Existe integração com aplicações web, APIs, plataformas de automação e ferramentas de inteligência artificial.

Seu desafio não é reescrever tudo.

É descobrir onde uma autorização indevida poderia atravessar a arquitetura.

Comece pelo inventário das aplicações.

Identifique quais programas movimentam valores.

Descubra quais usuários, jobs e serviços conseguem executá-los.

Verifique quais identidades possuem privilégios elevados.

Analise como as alterações são aprovadas e implantadas.

Confira quais integrações externas podem solicitar operações financeiras.

Mapeie como a organização revoga acessos comprometidos.

Depois, desenvolva testes que representem comportamentos não autorizados.

Por exemplo:

Uma transferência acima do limite sem aprovação independente.

Uma operação com destinatário não validado.

Uma tentativa de executar novamente a mesma transação.

Uma solicitação realizada por identidade sem permissão.

Uma mudança de configuração sem autorização.

Uma execução originada de ambiente inesperado.

Para cada teste, registre o resultado esperado.

Se a aplicação permitir a operação indevida, você encontrou uma falha de controle a ser investigada.

Não é necessário simular uma invasão real para aprender.

Um ambiente isolado, dados fictícios e testes bem planejados são suficientes para demonstrar muitos problemas de arquitetura.

A aprendizagem começa quando compreendemos que os controles de segurança precisam falhar de maneira segura.


Epílogo — O crime perfeito não começou com bilhões de dólares

A investigação chega ao fim.

Akane Tsunemori observa a reconstrução dos acontecimentos.

Junho: uma ferramenta adulterada.

Setembro: uma entrevista falsa.

Outubro: computadores comprometidos, credenciais expostas, uma ferramenta interna de IA e mecanismos de autorização explorados.

29 de outubro: bilhões de dólares em ativos digitais movimentados indevidamente.

O que parecia um roubo instantâneo foi precedido por uma campanha construída ao longo de meses.

A conclusão é perturbadora.

Os criminosos não precisaram inventar uma nova linguagem de programação.

Não precisaram destruir fisicamente um centro de dados.

Não precisaram carregar dinheiro em caminhões.

Exploraram relações de confiança entre pessoas, dispositivos, credenciais, serviços e mecanismos de autorização.

E conseguiram converter acessos inicialmente limitados em consequências financeiras gigantescas.

É aqui que a filosofia de Psycho-Pass encontra a engenharia de sistemas.

Não podemos entregar toda a responsabilidade a uma tecnologia, por mais sofisticada que ela seja.

Precisamos compreender suas limitações.

Precisamos investigar suas decisões.

Precisamos impedir que uma única credencial, uma única máquina ou um único serviço concentre poderes capazes de produzir um desastre.

Para o programador COBOL iniciante, essa lição vale mais do que decorar centenas de comandos.

Programar sistemas financeiros é compreender as consequências das operações.

É proteger dados.

É preservar integridade.

É construir verificações que continuem funcionando quando alguma parte do ambiente estiver comprometida.

E, acima de tudo, é reconhecer que a segurança não termina quando o programa compila sem erros.

Ela começa quando perguntamos o que pode acontecer se alguém utilizar corretamente o software para realizar uma operação que nunca deveria ter sido permitida.

Na última cena da nossa dramatização, Akane se aproxima de um terminal IBM 3270.

A tela verde exibe:

TRANSACTION REJECTED - AUTHORIZATION FAILED

Ela observa a mensagem, sorri discretamente e encerra a investigação:

— A melhor operação não é aquela que o sistema consegue executar. É aquela que o sistema sabe quando deve impedir.

No Bellacosa Mainframe, o café termina.

O trabalho dos programadores continua.

Porque o próximo grande assalto talvez não comece com um hacker tentando quebrar uma senha. Pode começar com um convite perfeitamente educado para uma entrevista de emprego.


☕ Easter egg — O número que não deveria existir

Existe uma ironia deliciosa para quem conhece tanto Psycho-Pass quanto os sistemas corporativos.

No anime, um coeficiente pode determinar o tratamento dado a um cidadão.

No nosso laboratório, uma regra numérica pode determinar se uma transação deve ser encaminhada para análise.

Mas a comparação revela uma diferença ética importantíssima.

Pessoas não devem ser reduzidas a números supostamente infalíveis.

Transações, por outro lado, podem e devem ser verificadas com critérios objetivos, auditáveis e proporcionais ao risco.

O programa AKANERISK não precisa conhecer a personalidade, as opiniões ou a vida privada de ninguém.

Precisa apenas verificar as condições necessárias para executar uma operação financeira.

Talvez esse seja o verdadeiro ensinamento escondido nesta aventura:

Uma boa tecnologia não substitui a responsabilidade humana. Ela ajuda a exercê-la melhor.


Referências para aprofundamento

Reuters / UOL — 3 de novembro de 2026

Hackers usaram entrevista de emprego falsa antes de roubo da Binance.

https://www.uol.com.br/tilt/noticias/reuters/2026/11/03/hackers-usaram-entrevista-de-emprego-falsa-antes-de-roubo-de-us63-bi-da-binance.htm

Binance — 3 de novembro de 2026

29 October 2026 Binance Security Incident: Initial Findings and Response Update.

https://www.binance.com/en/blog/community/3229153443759566763

Psycho-Pass — Site oficial

https://psycho-pass.com/

Documentação IBM — IBM Z e Enterprise COBOL

https://www.ibm.com/docs/en/cobol-zos

Observação editorial: artigo baseado nas informações publicamente disponíveis até 4 de novembro de 2026. Os diálogos, a participação de Akane Tsunemori e o laboratório bancário são elementos educativos e ficcionais. O código COBOL não representa a infraestrutura utilizada pela Binance nem implementa um mecanismo de autorização bancária de produção.

Bellacosa Mainframe — Porque todo grande sistema tem uma história, e toda grande história merece uma investigação.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

JOHN NASH E A GUERRA DAS INTELIGÊNCIAS ARTIFICIAIS: O DIA EM QUE OS PAÍSES ENTRARAM NUM JOGO QUE NINGUÉM QUER PERDER!

 

Bellacosa Mainframe e uma visão da guerra das inteligencias artificiais e a teoria dos jogos

☕ UM CAFÉ NO BELLACOSA MAINFRAME

JOHN NASH E A GUERRA DAS INTELIGÊNCIAS ARTIFICIAIS: O DIA EM QUE OS PAÍSES ENTRARAM NUM JOGO QUE NINGUÉM QUER PERDER!

Uma viagem pela Teoria dos Jogos, geopolítica, soberania tecnológica e programação COBOL, sob a ótica de John Nash.

Bellacosa Mainframe — Novembro de 2026



🎬 Prólogo — Dois presidentes, uma inteligência artificial e uma xícara de café

Imagine o seguinte cenário.

Estamos em 2030.

Em Washington, o presidente dos Estados Unidos recebe um relatório confidencial:

— Senhor presidente, nossos especialistas acreditam que a China poderá desenvolver uma inteligência artificial capaz de superar nossos sistemas estratégicos em determinadas aplicações.

O presidente pergunta:

— Quanto precisamos investir para impedir isso?

O assessor responde:

— Centenas de bilhões de dólares.

Enquanto isso, em Pequim, acontece uma reunião muito semelhante.

— Nossos serviços de inteligência informam que os americanos estão construindo centros de processamento gigantescos. Se não acompanharmos esse ritmo, nossa indústria poderá ficar dependente deles.

O dirigente chinês pergunta:

— Quanto precisamos investir?

A resposta é praticamente a mesma.

E assim começa uma competição em que nenhum dos participantes sabe exatamente quanto o adversário está disposto a gastar.

Em algum lugar de Princeton, se pudesse observar tudo isso, John Nash talvez reconhecesse um problema familiar.

Não porque tenha previsto a inteligência artificial generativa, mas porque estudou matematicamente situações nas quais a decisão de um participante depende das decisões dos demais.

Bem-vindos à Teoria dos Jogos!

E, neste café, vamos descobrir por que ela pode ser uma das ferramentas mais importantes para compreender a geopolítica da inteligência artificial.

Nosso convidado especial será John Forbes Nash Jr., matemático americano cuja obra transformou a economia e influenciou os estudos de estratégia, negociação e competição.

E nosso laboratório será um velho conhecido: o COBOL!

Sim, meus caros programadores!

Aquela linguagem que continua processando transações bancárias também pode nos ajudar a compreender a competição tecnológica entre nações.

Peguem o café, acomodem-se diante do terminal 3270 e preparem-se.

Hoje, a PROCEDURE DIVISION vai invadir a geopolítica!



Capítulo I — Quem foi John Nash e por que seu pensamento continua revolucionário?

John Forbes Nash Jr. nasceu em 13 de junho de 1928, em Bluefield, na Virgínia Ocidental, Estados Unidos.

Demonstrou talento matemático e estudou no Carnegie Institute of Technology, posteriormente chamado Carnegie Mellon University.

Mais tarde, ingressou em Princeton, onde desenvolveu trabalhos fundamentais sobre jogos não cooperativos e equilíbrio estratégico.

Em 1950, publicou um pequeno artigo científico chamado Equilibrium Points in N-Person Games, apresentando uma ideia de extraordinária importância.

O conceito, conhecido como Equilíbrio de Nash, descreve uma situação na qual nenhum participante consegue melhorar individualmente seu resultado alterando apenas sua própria estratégia, mantendo inalteradas as estratégias dos demais.

Parece complicado?

Vamos simplificar.

Imagine dois vendedores de café em uma estação ferroviária.

Cada um pode cobrar um preço alto ou baixo.

Se ambos cobrarem caro, poderão obter boas margens, mas existe o risco de um deles reduzir o preço e conquistar clientes.

Se ambos cobrarem barato, poderão terminar recebendo menos lucro.

O interessante não é apenas quanto cada vendedor ganha.

É descobrir como a decisão de um modifica os incentivos do outro.

Esse raciocínio aparece em disputas comerciais, negociações políticas, estratégias militares, concorrência entre empresas e investimentos tecnológicos.

Em 1994, Nash recebeu o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, juntamente com John Harsanyi e Reinhard Selten, pelas contribuições à análise dos equilíbrios em jogos não cooperativos.

Sua história também inspirou o filme Uma Mente Brilhante, lançado em 2001, com Russell Crowe interpretando o matemático.

Curiosidade: o filme popularizou o nome de Nash, mas dramatiza diversos acontecimentos. Para compreender suas ideias matemáticas, é melhor consultar seus trabalhos científicos.

Agora vem a pergunta que interessa ao nosso café.

O que acontece quando os jogadores deixam de ser vendedores de café e passam a ser Estados Unidos, China, União Europeia, Índia e Brasil?

A resposta envolve bilhões de dólares, soberania nacional e o futuro da humanidade.




Capítulo II — A inteligência artificial transformou-se num recurso estratégico

Durante a Revolução Industrial, a posse de fábricas, carvão, aço, ferrovias e máquinas proporcionava vantagens econômicas e militares.

No século XX, petróleo, energia elétrica, aviação, telecomunicações e computadores ganharam enorme importância.

No século XXI, a capacidade de desenvolver e utilizar inteligência artificial passou a integrar essa lista.

Mas precisamos compreender uma coisa.

A inteligência artificial não é simplesmente um programa que responde perguntas.

Ela depende de um ecossistema complexo:

  • Semicondutores avançados.

  • Centros de processamento de dados.

  • Energia elétrica.

  • Redes de comunicação.

  • Profissionais especializados.

  • Universidades e laboratórios.

  • Bases de dados de qualidade.

  • Algoritmos e modelos.

  • Empresas capazes de transformar tecnologia em produtos.

Um país que domine vários desses componentes poderá ocupar uma posição estratégica privilegiada.

Isso ajuda a explicar os investimentos extraordinários atualmente observados.

Segundo o Stanford AI Index 2026, os investimentos privados em inteligência artificial nos Estados Unidos atingiram aproximadamente US$ 285,9 bilhões em 2025.

Na China, o investimento privado registrado foi de aproximadamente US$ 12,4 bilhões.

A diferença ultrapassou vinte vezes!

Entretanto, existe uma observação importante: esses números medem investimento privado, e não todo o financiamento público e estatal.

Portanto, não podemos concluir que os Estados Unidos investem vinte vezes mais que a China considerando todas as modalidades de financiamento.

Outra curiosidade: gastar mais dinheiro não significa automaticamente produzir a melhor tecnologia.

A história da computação está cheia de exemplos de organizações menores que desenvolveram soluções capazes de desafiar empresas gigantescas.

O próprio universo dos computadores pessoais demonstrou isso.

Nos anos 1980, a IBM enfrentou uma transformação de mercado enquanto novos fabricantes, sistemas operacionais e plataformas cresciam rapidamente.

A IBM tinha recursos extraordinários, mas dinheiro e liderança histórica não garantiam controle permanente do mercado.

Primeira lição de Nash: os recursos de um jogador importam, mas a estratégia dos adversários também.



Capítulo III — O Dilema do Prisioneiro chega à corrida pela IA

Vamos imaginar dois países fictícios.

Chamaremos o primeiro de ALFA.

O segundo será BETA.

Ambos desejam desenvolver inteligência artificial.

Cada país pode escolher entre duas estratégias:

COMPETIR: investir agressivamente para conquistar liderança tecnológica individual.

COOPERAR: compartilhar determinados investimentos, pesquisas, infraestrutura e padrões técnicos.

Para compreender os incentivos, construiremos uma matriz hipotética de benefícios.

ALFABETABenefício ALFABenefício BETA
CooperarCooperar44
CompetirCooperar51
CooperarCompetir15
CompetirCompetir22

Os números representam pontos abstratos de benefício, não dólares ou previsões econômicas.

Vamos interpretar.

Situação 1 — Os dois cooperam

ALFA e BETA compartilham determinados custos, desenvolvem padrões comuns e conseguem resultados satisfatórios.

Cada um recebe quatro pontos.

Situação 2 — ALFA compete e BETA coopera

ALFA aproveita algumas vantagens da cooperação, mas investe agressivamente em sua própria liderança.

ALFA recebe cinco pontos.

BETA recebe apenas um.

Situação 3 — BETA compete e ALFA coopera

Ocorre a situação inversa.

BETA recebe cinco pontos e ALFA apenas um.

Situação 4 — Ambos competem

Os dois países gastam grandes recursos tentando evitar que o adversário conquiste vantagem.

Cada um recebe dois pontos.

Aqui está o problema.

Se BETA coopera, ALFA prefere competir, recebendo cinco em vez de quatro.

Se BETA compete, ALFA também prefere competir, recebendo dois em vez de um.

Portanto, competir é a estratégia dominante de ALFA.

O mesmo raciocínio vale para BETA.

O resultado é COMPETIR e COMPETIR.

Esse resultado é um Equilíbrio de Nash.

Porém, ambos terminam com dois pontos, quando poderiam receber quatro cooperando.

Eis a tragédia estratégica: decisões individualmente racionais podem produzir resultados coletivamente inferiores.

É importante ressaltar que essa matriz é uma simplificação didática.

A competição real entre países envolve muito mais estratégias, incertezas, alianças e benefícios que variam ao longo do tempo.

Mesmo assim, nosso pequeno modelo oferece uma introdução poderosa ao problema.

E agora vamos programá-lo!


Capítulo IV — Laboratório COBOL: criando o simulador NASHIA

Chegou o momento esperado pelos nossos aprendizes de mainframe.

Vamos desenvolver um programa COBOL que simula duas estratégias nacionais de inteligência artificial.

Nosso programa receberá as escolhas dos países ALFA e BETA e calculará os benefícios de cada um.

O objetivo não é prever a economia mundial.

É transformar conceitos abstratos de Teoria dos Jogos em condições lógicas que qualquer programador iniciante consiga compreender.

Passo 1 — Entendendo as quatro divisões do COBOL

Um programa COBOL tradicional é organizado em divisões.

IDENTIFICATION DIVISION: identifica o programa.

ENVIRONMENT DIVISION: descreve características do ambiente e, quando necessário, arquivos e dispositivos.

DATA DIVISION: define variáveis, registros e estruturas de dados.

PROCEDURE DIVISION: contém as instruções executáveis.

Nosso primeiro exemplo não utiliza arquivos e, portanto, não precisa declarar uma ENVIRONMENT DIVISION.

Vamos utilizar apenas as divisões necessárias.

Passo 2 — Criando as variáveis

Precisamos armazenar quatro informações:

  1. Estratégia do país ALFA.

  2. Estratégia do país BETA.

  3. Benefício de ALFA.

  4. Benefício de BETA.

A estratégia será representada por um caractere.

Usaremos:

C = Competir.

O = Cooperar.

Escolhi a letra O para representar cooperação e evitar ambiguidades entre os dois nomes.

Os benefícios serão números inteiros.

Passo 3 — O código-fonte completo

O programa abaixo utiliza formato livre, adequado a compiladores COBOL modernos configurados para esse formato.

       >>SOURCE FORMAT FREE
identification division.
program-id. NASHIA.

data division.
working-storage section.
01 ws-alfa             pic x.
01 ws-beta             pic x.
01 ws-pontos-alfa      pic 9.
01 ws-pontos-beta      pic 9.

procedure division.

principal.
    display "================================"
    display " BELLACOSA MAINFRAME - NASH IA"
    display "================================"
    display "C = COMPETIR"
    display "O = COOPERAR"

    display "ESTRATEGIA DE ALFA: "
    accept ws-alfa

    display "ESTRATEGIA DE BETA: "
    accept ws-beta

    if (ws-alfa not = "C" and "O") or
       (ws-beta not = "C" and "O")
        display "ERRO: USE APENAS C OU O"
        move 12 to return-code
        goback
    end-if

    evaluate true
        when ws-alfa = "O" and ws-beta = "O"
            move 4 to ws-pontos-alfa
            move 4 to ws-pontos-beta

        when ws-alfa = "C" and ws-beta = "O"
            move 5 to ws-pontos-alfa
            move 1 to ws-pontos-beta

        when ws-alfa = "O" and ws-beta = "C"
            move 1 to ws-pontos-alfa
            move 5 to ws-pontos-beta

        when other
            move 2 to ws-pontos-alfa
            move 2 to ws-pontos-beta
    end-evaluate

    display "-------------------------------"
    display "RESULTADOS DA SIMULACAO"
    display "ALFA: " ws-pontos-alfa
    display "BETA: " ws-pontos-beta

    if ws-alfa = "C" and ws-beta = "C"
        display "EQUILIBRIO DE NASH"
        display "AMBOS COMPETEM"
    else
        if ws-alfa = "O" and ws-beta = "O"
            display "COOPERACAO MUTUA"
            display "RESULTADO COLETIVO SUPERIOR"
        else
            display "RESULTADO ASSIMETRICO"
        end-if
    end-if

    move 0 to return-code
    goback.

Passo 4 — Entendendo a instrução EVALUATE

O comando EVALUATE é um recurso poderoso do COBOL.

Ele permite selecionar ações conforme condições ou valores.

Em outras linguagens, estruturas semelhantes são frequentemente implementadas com SWITCH ou CASE.

Observe:

evaluate true
    when ws-alfa = "O" and ws-beta = "O"
        move 4 to ws-pontos-alfa
        move 4 to ws-pontos-beta
    when other
        move 2 to ws-pontos-alfa
        move 2 to ws-pontos-beta
end-evaluate

Quando utilizamos EVALUATE TRUE, cada condição WHEN é avaliada como uma expressão lógica.

A primeira condição verdadeira determina qual conjunto de instruções será executado.

Nosso programa testa as quatro combinações estratégicas.

É uma implementação direta de uma matriz de benefícios.

Passo 5 — O papel de WORKING-STORAGE

Quando escrevemos:

01 ws-pontos-alfa pic 9.

Estamos declarando uma variável numérica com um dígito decimal.

Isso é suficiente para benefícios de um a cinco pontos.

Entretanto, suponha que desejamos trabalhar com um orçamento de bilhões de dólares.

Nesse caso, precisaríamos utilizar representações maiores e escalas apropriadas.

Por exemplo:

01 ws-orcamento pic 9(12)v99 comp-3.

Essa variável pode representar um valor decimal com doze posições inteiras e duas casas decimais.

O COMP-3 indica representação decimal compactada, muito utilizada em ambientes corporativos.

Para aplicações financeiras, essa escolha de representação é importante porque evita determinadas limitações de precisão associadas a números binários de ponto flutuante.

Entretanto, nosso laboratório utiliza pontos abstratos.

Não precisamos introduzir complexidade desnecessária.

Uma das primeiras lições de programação é escolher tipos de dados adequados ao problema.


Capítulo V — Executando o programa no mainframe IBM Z

Agora precisamos transportar nosso exemplo para o ambiente z/OS.

Em instalações corporativas, os nomes dos datasets e procedimentos de compilação variam conforme as configurações locais.

Portanto, o exemplo a seguir é ilustrativo e precisa ser adaptado ao ambiente disponível.

Passo 1 — Preparar o código-fonte

No ISPF, podemos criar um membro chamado NASHIA em uma biblioteca de fontes COBOL.

Por exemplo:

USERID.COBOL(NASHIA)

O código apresentado utiliza formato livre.

Por isso, a configuração do compilador precisa reconhecer esse formato.

Em um ambiente z/OS com bibliotecas tradicionais de 80 colunas, devemos respeitar as regras de armazenamento do fonte e de configuração do compilador.

Passo 2 — Compilar

A IBM disponibiliza procedimentos catalogados que podem facilitar a compilação, linkedição e execução de programas Enterprise COBOL.

Um administrador ou instrutor poderá informar quais procedimentos estão disponíveis no ambiente de treinamento.

Uma instalação pode fornecer um procedimento semelhante a IGYWCL ou IGYWCLG, mas o nome efetivamente disponível e os parâmetros devem ser confirmados.

Em vez de copiar cegamente um JCL encontrado na internet, o iniciante deve consultar a documentação e os padrões do ambiente.

Passo 3 — Fornecer dados para o programa

Nosso exemplo utiliza ACCEPT para receber escolhas.

Em execução interativa, isso pode representar entradas digitadas pelo usuário.

Em um job batch, podemos disponibilizar os valores por meio de SYSIN, quando o procedimento de execução estiver configurado adequadamente.

Um exemplo de conteúdo seria:

//GO.SYSIN DD *
C
C
/*

Aqui, GO é apenas um nome ilustrativo para a etapa de execução do procedimento utilizado.

Os dois registros indicam que ambos os países escolheram competir.

Passo 4 — Analisar a saída

A saída esperada é:

================================
 BELLACOSA MAINFRAME - NASH IA
================================
C = COMPETIR
O = COOPERAR
ESTRATEGIA DE ALFA:
ESTRATEGIA DE BETA:
-------------------------------
RESULTADOS DA SIMULACAO
ALFA: 2
BETA: 2
EQUILIBRIO DE NASH
AMBOS COMPETEM

O interessante é perceber que o programa encontrou exatamente o resultado previsto pela matriz.

Mas atenção!

Ele não descobriu matematicamente o equilíbrio.

Nós programamos uma mensagem para a combinação COMPETIR/COMPETIR, que já havíamos identificado como equilíbrio ao analisar os incentivos.

Essa distinção é importante.

Um simulador que executa regras conhecidas não é necessariamente um solucionador matemático de jogos.

Em versões futuras, poderíamos desenvolver um programa que percorresse todas as estratégias e calculasse automaticamente os equilíbrios.

Esse seria um excelente exercício intermediário de COBOL.


Capítulo VI — A diferença entre Equilíbrio de Nash e cooperação ideal

Existe uma armadilha conceitual que merece atenção.

Muitas pessoas interpretam o Equilíbrio de Nash como o melhor resultado possível.

Isso está incorreto.

O equilíbrio representa uma situação na qual nenhum participante tem incentivo para mudar sozinho de estratégia.

Não significa que todos estejam satisfeitos.

Também não significa que o resultado seja justo ou economicamente eficiente.

No nosso exemplo, competir simultaneamente produz dois pontos para cada país.

Entretanto, cooperar simultaneamente produziria quatro pontos para cada um.

O resultado cooperativo melhora a situação dos dois participantes.

Em economia, podemos dizer que o resultado competitivo é inferior ao resultado cooperativo segundo o critério de Pareto, porque existe outra combinação que melhora o benefício de ambos.

Essa diferença é essencial para compreender a diplomacia internacional.

Um governo poderá reconhecer que todos ganhariam com determinados acordos, mas resistir à cooperação porque teme que outros países obtenham vantagens unilateralmente.

O problema passa a envolver confiança, fiscalização e mecanismos que tornem os acordos sustentáveis.

Curiosamente, esse desafio aparece também em projetos de software.

Imagine duas equipes responsáveis por módulos diferentes de um sistema bancário.

Se ambas documentarem suas interfaces, compartilharem informações e respeitarem padrões de integração, o projeto poderá avançar com menos problemas.

Mas, se cada equipe tentar proteger seus próprios indicadores de produtividade, ocultar dificuldades e transferir responsabilidades, o desempenho geral poderá piorar.

O comportamento individualmente vantajoso nem sempre produz o melhor resultado coletivo.

John Nash ajuda a compreender precisamente esse tipo de situação.


Capítulo VII — Colonialismo digital: a nova dependência entre nações?

Agora chegamos a uma das questões mais importantes deste artigo.

A inteligência artificial poderá criar uma nova divisão internacional entre países que controlam tecnologias e países que apenas as consomem?

A resposta é que esse risco existe.

Mas precisamos evitar determinismos.

Não há garantia de que a história seguirá obrigatoriamente esse caminho.

Durante o período colonial, potências europeias controlaram territórios, recursos naturais, mercados e rotas comerciais.

Na economia digital, mecanismos de dependência podem surgir sem ocupação territorial.

Imagine que um país utilize exclusivamente serviços estrangeiros para:

  • Administrar hospitais.

  • Processar transações financeiras.

  • Planejar infraestrutura energética.

  • Analisar dados tributários.

  • Coordenar transportes.

  • Desenvolver software.

  • Apoiar processos educacionais.

Se esses serviços estiverem concentrados em poucos fornecedores, o país poderá enfrentar dificuldades para negociar preços, manter a continuidade operacional ou substituir plataformas.

Esse fenômeno pode ser chamado, em análises críticas, de colonialismo digital.

Entretanto, o termo é uma interpretação política e econômica, não uma categoria técnica universal.

Precisamos distinguir dependência comercial normal de dependência estratégica perigosa.

Comprar tecnologia estrangeira não representa, por si só, perda de soberania.

O problema surge quando o país perde a capacidade de escolher alternativas, manter sistemas essenciais ou desenvolver competências próprias.

Para compreender essa diferença, imagine um banco que utiliza software de um fornecedor internacional.

Isso é perfeitamente comum.

Mas, se o banco não possui documentação, profissionais treinados, contratos adequados ou planos de continuidade, sua dependência operacional torna-se muito maior.

Agora amplie esse problema para um país inteiro.

Temos um desafio de soberania tecnológica.


Capítulo VIII — O Brasil precisa competir ou cooperar?

Sob a ótica da Teoria dos Jogos, a resposta mais interessante é: dependerá da área tecnológica e dos incentivos envolvidos.

O Brasil não precisa necessariamente desenvolver o maior modelo de inteligência artificial do planeta.

Também não deveria pressupor que basta comprar soluções estrangeiras indefinidamente.

O desafio é estabelecer prioridades estratégicas.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028 prevê investimentos de aproximadamente R$ 23,03 bilhões.

Entre suas propostas estão infraestrutura computacional, pesquisa, formação profissional, melhoria dos serviços públicos e apoio à inovação empresarial.

Esse montante representa investimento planejado, e não necessariamente recursos integralmente executados.

A eficácia dependerá de implementação, continuidade, avaliação e resultados concretos.

Como transformar isso em uma política estratégica?

Vamos imaginar cinco frentes.

Frente 1 — Educação

Investir na formação de estudantes, professores, engenheiros, pesquisadores e profissionais de tecnologia.

Nenhum país desenvolve autonomia tecnológica apenas comprando servidores.

Precisa também de conhecimento humano.

Frente 2 — Infraestrutura

Criar condições para que universidades e empresas menores tenham acesso à capacidade computacional.

Sem acesso à infraestrutura, a inovação tende a se concentrar nas organizações que podem pagar por ela.

Frente 3 — Aplicações nacionais

Desenvolver soluções para problemas brasileiros.

Exemplos incluem agricultura, saúde pública, logística, prevenção de desastres, indústria e gestão energética.

Um modelo especializado em doenças tropicais poderá apresentar valor social extraordinário, mesmo que não seja o maior modelo de linguagem do mundo.

Frente 4 — Cooperação internacional

Participar de acordos de pesquisa, padrões de interoperabilidade e iniciativas de infraestrutura compartilhada.

A cooperação pode reduzir custos e ampliar o poder de negociação.

Frente 5 — Segurança e governança

Estabelecer regras proporcionais aos riscos, proteger informações sensíveis e garantir mecanismos de auditoria.

Não basta acelerar a inovação.

É preciso assegurar que sistemas críticos permaneçam controláveis.

Sob uma perspectiva estratégica, a questão não é vencer todas as corridas, mas evitar dependências que comprometam o desenvolvimento nacional.


Capítulo IX — O mainframe ensina uma lição que a inteligência artificial está redescobrindo

Nos ambientes IBM Z, segurança, disponibilidade, rastreabilidade e continuidade operacional são preocupações tradicionais.

Sistemas corporativos importantes precisam controlar quem acessa informações e quais operações podem ser executadas.

No z/OS, tecnologias como RACF contribuem para estabelecer controles de acesso.

Ambientes CICS podem executar transações críticas.

Programas COBOL processam regras de negócios.

O Db2 mantém informações estruturadas, com recursos transacionais apropriados.

E o JCL organiza a execução de processos batch.

Agora imagine um agente de inteligência artificial integrado a esse ecossistema.

Ele poderia ajudar a:

  1. Explicar um programa COBOL antigo.

  2. Identificar dependências.

  3. Elaborar testes.

  4. Revisar documentação.

  5. Sugerir melhorias de desempenho.

  6. Investigar mensagens de erro.

  7. Comparar versões de programas.

São aplicações interessantes.

Mas o agente não deveria automaticamente receber autorização irrestrita para executar alterações em produção.

Existe uma diferença enorme entre recomendar uma modificação e executá-la.

Uma IA que auxilia na interpretação de um programa representa um tipo de risco.

Uma IA que possui autorização para alterar dados bancários representa outro, potencialmente muito maior.

O princípio é simples:

A inteligência do sistema não substitui a necessidade de controle sobre suas permissões.

Esse raciocínio pode ser estendido à geopolítica.

Um país deve compreender quais tecnologias utiliza, quem as controla, quais dependências existem e que alternativas estão disponíveis.

Da mesma forma que um administrador z/OS não deve conceder privilégios indiscriminadamente, um governo não deveria estruturar sistemas essenciais sem examinar os riscos de dependência.


Capítulo X — Laboratório avançado: como transformar nosso COBOL em um analisador de estratégias?

Nosso primeiro programa calcula benefícios a partir de escolhas conhecidas.

Agora podemos ampliar o projeto.

Em vez de trabalhar apenas com duas estratégias fixas, poderíamos armazenar uma matriz de resultados.

O programa percorreria cada combinação e verificaria se algum jogador poderia melhorar seu resultado mudando unilateralmente de estratégia.

Essa é a lógica necessária para identificar equilíbrios de Nash em jogos finitos de estratégias puras.

Vamos estabelecer um algoritmo.

Passo 1: armazenar todas as estratégias possíveis.

Passo 2: registrar o benefício de cada jogador para cada combinação.

Passo 3: selecionar uma combinação candidata.

Passo 4: verificar se ALFA conseguiria melhorar seu benefício mudando sozinho.

Passo 5: verificar se BETA conseguiria melhorar seu benefício mudando sozinho.

Passo 6: caso nenhum consiga melhorar, identificar a combinação como equilíbrio.

Essa solução pode ser implementada com tabelas COBOL e índices.

Um exemplo simplificado de estrutura seria:

01 ws-matriz.
   05 ws-linha occurs 2 times.
      10 ws-celula occurs 2 times.
         15 ws-payoff-alfa pic 9.
         15 ws-payoff-beta pic 9.

A cláusula OCCURS permite construir estruturas repetitivas.

Aqui temos uma matriz de duas linhas e duas colunas.

Cada posição contém dois resultados, um para cada jogador.

Para utilizar essa estrutura, o programa deverá preencher os benefícios e percorrer as quatro combinações.

Um cuidado importante: a ordem das estratégias deve permanecer consistente nos índices da matriz.

Por exemplo:

Índice 1 = Cooperar.

Índice 2 = Competir.

Ao avaliar uma célula, precisamos comparar o resultado atual com todos os desvios unilaterais disponíveis para cada jogador.

Em jogos maiores, com dezenas de estratégias, o mesmo princípio continua válido, mas a quantidade de combinações aumenta rapidamente.

Essa é uma oportunidade excelente para estudar laços PERFORM, índices, tabelas e algoritmos de busca em COBOL.

Desafio para o aprendiz: implemente um programa que encontre todos os equilíbrios em estratégias puras, sem codificar antecipadamente qual combinação é um equilíbrio.

Atenção: alguns jogos não possuem equilíbrio em estratégias puras. Eles podem exigir estratégias mistas, que envolvem probabilidades.

Esse tema merece outro café!


Capítulo XI — Cinco curiosidades sobre Nash, IA e o mundo dos computadores

Curiosidade 1 — Nash não inventou sozinho a Teoria dos Jogos

Antes de seus trabalhos, John von Neumann e Oskar Morgenstern já haviam desenvolvido contribuições fundamentais.

O livro Theory of Games and Economic Behavior, publicado em 1944, ajudou a estabelecer as bases da área.

Nash expandiu esse campo ao formular resultados fundamentais sobre jogos não cooperativos.

Curiosidade 2 — John von Neumann também foi pioneiro da computação

O mesmo von Neumann associado à Teoria dos Jogos teve participação fundamental na história dos computadores eletrônicos e da arquitetura de computadores.

É uma conexão fascinante.

A matemática utilizada para estudar decisões estratégicas cresceu em paralelo à revolução dos computadores.

Curiosidade 3 — O Dilema do Prisioneiro não foi criado por Nash

O jogo clássico foi formulado por Merrill Flood e Melvin Dresher em 1950, no contexto de pesquisas da RAND Corporation.

Albert Tucker posteriormente apresentou a famosa narrativa dos prisioneiros.

O jogo se tornou um exemplo particularmente útil para ilustrar problemas estudados pela Teoria dos Jogos.

Curiosidade 4 — Nem toda competição tecnológica é um jogo de soma zero

Em um jogo de soma zero, o ganho de um participante corresponde à perda de outro.

Entretanto, o desenvolvimento tecnológico frequentemente produz novos conhecimentos, produtos e mercados.

Dois países podem melhorar simultaneamente suas economias.

Isso significa que a competição pela IA não precisa ser interpretada como uma situação em que toda vantagem de uma nação corresponde necessariamente a uma perda equivalente de outra.

Curiosidade 5 — O COBOL pode ensinar economia matemática

Embora seja conhecido por aplicações administrativas, o COBOL é uma linguagem de propósito geral capaz de implementar diversos algoritmos.

Simulações discretas, matrizes de resultados, cálculos financeiros e modelos determinísticos podem ser desenvolvidos na linguagem.

É claro que outras linguagens oferecem bibliotecas matemáticas mais convenientes para muitos problemas complexos.

Mas isso não impede o COBOL de funcionar como uma excelente ferramenta didática para compreender algoritmos e regras de decisão.


Capítulo XII — O erro estratégico de imaginar que todos os países são iguais

Nosso laboratório começou com dois países fictícios e regras simétricas.

Na realidade, os jogadores são profundamente diferentes.

Estados Unidos, China, Brasil, Índia e países europeus apresentam capacidades industriais, científicas, econômicas e institucionais distintas.

Isso muda a análise.

Um país com grande infraestrutura de semicondutores poderá priorizar investimentos diferentes daqueles de um país com forte setor agrícola ou disponibilidade de energia renovável.

Um país menor poderá encontrar vantagem em especialização.

Imagine três jogadores:

ALFA possui grande capacidade de desenvolver modelos.

BETA domina determinada infraestrutura de fabricação de componentes.

GAMA possui pesquisadores especializados em aplicações médicas.

Eles podem competir em algumas áreas e cooperar em outras.

Uma aliança poderá produzir benefícios superiores aos que cada participante conseguiria isoladamente.

É importante lembrar que, na Teoria dos Jogos, os benefícios dependem das preferências, objetivos e restrições de cada jogador.

Não devemos pressupor que todos os governos valorizam exatamente os mesmos resultados.

Alguns priorizam segurança.

Outros enfatizam crescimento econômico.

Outros podem atribuir grande importância à autonomia tecnológica.

E governos diferentes podem combinar essas prioridades de maneiras distintas.

Portanto, modelos estratégicos precisam representar essas diferenças.

O uso de uma única matriz simplificada é útil para aprender, mas insuficiente para prever a política internacional.


Capítulo XIII — Como um programador COBOL pode aplicar essa mentalidade no trabalho?

Talvez alguém pergunte:

— Bellacosa, muito interessante essa história de Nash, mas amanhã tenho de revisar um programa batch. Como isso me ajuda?

Ajuda mais do que parece!

A Teoria dos Jogos nos ensina a observar como diferentes participantes reagem aos incentivos.

Em projetos corporativos, decisões técnicas afetam várias equipes.

Imagine um banco que esteja modernizando um sistema COBOL.

A equipe de desenvolvimento deseja entregar rapidamente.

A equipe de segurança exige controles rigorosos.

A equipe de operações precisa preservar disponibilidade.

A área de negócios deseja novas funcionalidades.

Todos possuem objetivos legítimos, mas parcialmente conflitantes.

Se cada equipe otimizar exclusivamente seus próprios indicadores, o projeto poderá sofrer atrasos, retrabalho e custos maiores.

Uma abordagem estratégica procura estabelecer incentivos compatíveis com o sucesso coletivo.

Isso pode envolver:

  • Definir critérios compartilhados de qualidade.

  • Automatizar testes.

  • Estabelecer responsabilidades claras.

  • Documentar interfaces.

  • Compartilhar informações sobre riscos.

  • Medir resultados de ponta a ponta.

O programador COBOL pode contribuir identificando dependências técnicas, antecipando impactos e explicando consequências das alterações.

Um bom profissional não observa apenas o que seu programa executa.

Ele compreende como esse programa influencia outros sistemas.

Esse é um pensamento sistêmico muito próximo da análise estratégica.


Capítulo XIV — Easter egg: e se Nash entrasse num CPD IBM em 1980?

Vamos imaginar uma pequena cena fictícia.

Ano: 1980.

Local: um centro de processamento de dados.

Um operador observa um terminal IBM 3270.

Na tela, um programa COBOL aguarda duas entradas.

A primeira pergunta:

ALFA: COMPETIR OU COOPERAR?

A segunda pergunta:

BETA: COMPETIR OU COOPERAR?

John Nash se aproxima.

O operador explica:

— Professor, nosso sistema sempre termina com os dois países competindo. Acho que existe um defeito no programa!

Nash examina a matriz.

Observa os benefícios.

Sorri discretamente.

— Talvez o programa esteja funcionando corretamente.

O operador parece confuso.

— Mas os dois países poderiam ganhar mais cooperando!

Nash responde:

— Exatamente. Esse é o problema interessante.

O terminal exibe:

ALFA = COMPETIR
BETA = COMPETIR

RESULTADO = EQUILIBRIO DE NASH

AVISO:
EQUILIBRIO NAO SIGNIFICA
RESULTADO COLETIVO OTIMO.

O operador pega sua xícara de café.

— Professor, então precisamos alterar o programa?

— Talvez precisemos alterar os incentivos.

Easter egg encontrado!

Em muitas situações, não basta modificar o algoritmo.

É necessário compreender as regras que orientam as decisões dos participantes.


Capítulo XV — Três cenários para o futuro da inteligência artificial

Vamos encerrar nossa investigação imaginando três caminhos possíveis para a próxima década.

Esses cenários são exercícios de análise estratégica, não previsões inevitáveis.

Cenário A — A concentração tecnológica

Poucos países e empresas controlam grande parte da infraestrutura de IA.

Outras economias tornam-se altamente dependentes de fornecedores externos.

A tecnologia avança, mas os benefícios econômicos se concentram.

Cenário B — A democratização do conhecimento

Modelos abertos, infraestrutura compartilhada, cooperação internacional e formação profissional reduzem barreiras de entrada.

Países com menos recursos conseguem desenvolver aplicações locais.

A IA passa a contribuir para uma distribuição mais ampla das oportunidades.

Cenário C — Um ecossistema multipolar

Várias potências e alianças regionais desenvolvem competências próprias.

Algumas concentram capacidade computacional.

Outras dominam componentes industriais.

Outras se especializam em aplicações científicas, serviços e modelos setoriais.

Nesse cenário, competição e cooperação coexistem.

Qual será o resultado?

Ninguém pode responder com certeza.

A própria Teoria dos Jogos nos ajuda a compreender por quê.

As estratégias evoluem.

Novos participantes surgem.

A tecnologia modifica os incentivos.

Acordos são estabelecidos ou abandonados.

E aquilo que hoje parece uma vantagem definitiva pode perder importância com uma inovação inesperada.


Epílogo — O verdadeiro equilíbrio da inteligência artificial

Chegamos ao final de mais uma jornada pelo universo da computação.

Começamos com dois países imaginários tentando conquistar liderança tecnológica.

Conhecemos John Nash e sua contribuição à matemática.

Descobrimos que decisões individualmente racionais podem produzir resultados coletivamente ruins.

Examinamos os riscos de dependência tecnológica entre países.

Discutimos políticas públicas, investimentos em IA e soberania nacional.

E, naturalmente, construímos nosso pequeno laboratório COBOL.

A grande conclusão é que a tecnologia não determina sozinha o futuro das nações.

Instituições, educação, infraestrutura, incentivos econômicos e decisões políticas também importam.

A corrida pela inteligência artificial possui características competitivas, mas não precisa transformar todos os países em inimigos permanentes.

Há espaço para cooperação científica, compartilhamento de padrões, formação profissional e desenvolvimento de soluções nacionais.

Para o programador COBOL iniciante, fica uma lição especialmente valiosa.

Programar não significa apenas escrever instruções corretas.

Significa compreender problemas, representar regras, organizar dados e analisar consequências.

O nosso simulador NASHIA é simples.

Mas o raciocínio que ele representa ajuda a compreender decisões que movimentam economias inteiras.

E talvez essa seja a beleza da computação.

Uma pequena tabela, quatro combinações estratégicas e algumas dezenas de linhas de COBOL podem abrir a porta para uma discussão sobre o futuro da humanidade.

Porque, no grande jogo da inteligência artificial, não basta ter o computador mais poderoso. É preciso compreender o jogo que estamos jogando.

E agora, meus caros aprendizes de mainframe...

STOP RUN.

O café acabou.

Mas a próxima partida já começou!


Bellacosa Mainframe

Arqueologia da Computação • COBOL • IBM Z • Inteligência Artificial • História da Tecnologia

Mensagem final: um Equilíbrio de Nash não é necessariamente o melhor resultado para todos. A verdadeira inteligência estratégica está em compreender os incentivos e construir condições em que decisões individuais também contribuam para benefícios coletivos.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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