☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

Ou: antes do Teams, do escritório inteligente e do RH falar em “engajamento”, já existiam o Clube da Veja, o Clube da Bolacha, a vaquinha do aniversário, o churrasco da firma — e uma certa Rosalaine capaz de fazer um office-boy correr mais rápido que Hermes

Pegue um café.

Hoje não vamos falar de COBOL.

Não haverá CICS, Db2, VSAM, JCL nem abend misterioso esperando no fim do artigo.

Hoje vamos abrir um arquivo muito mais antigo e talvez mais complicado de restaurar.

O backup da memória.

A culpa começou com a revista Veja.

Outro dia, enquanto remexia algumas lembranças envolvendo a revista, aconteceu aquilo que frequentemente ocorre com quem já possui algumas décadas de dados armazenados no HD biológico: você procura um arquivo e descobre um diretório inteiro.

Uma lembrança chamou outra.

Depois outra.

E mais outra.

Quando percebi, não estava mais pensando na revista.

Estava novamente dentro de um escritório da Avenida Paulista, antes do ano 2000, numa época em que palavras como smart office, employee experience, collaboration platform, digital workplace e people analytics ainda não haviam sido inventadas para explicar coisas que nós simplesmente chamávamos de:

trabalhar com gente.

Para otimizar essa memória, convoquei três consultores especializados em observar o comportamento do brasileiro:

Laerte, Glauco e Angeli.

E, naturalmente, deixei o temível Leão de Chácara cuidando da porta.

Porque memória corporativa antiga não é assunto para amadores.


🏢 O escritório antes de virar “workspace”

Quem começou a trabalhar nas últimas duas décadas talvez tenha dificuldade para imaginar o tamanho de alguns departamentos empresariais dos anos 1980 e 1990.

Hoje uma atividade pode passar por ERP, workflow, e-mail, portal corporativo, API, chatbot, RPA, inteligência artificial e meia dúzia de sistemas.

Naquela época, boa parte dessa infraestrutura tinha nome, sobrenome e crachá.

Eram pessoas.

Muitas pessoas.

Departamentos com cinquenta, sessenta, oitenta funcionários não eram particularmente estranhos.

Alguns chegavam perto de uma centena.

Dentro deles havia setores menores, frequentemente três ou quatro, cada qual com sua chefia, suas mesas, seus arquivos, seus telefones e seus pequenos universos.

Existia o organograma oficial:

Diretor → Gerente → Chefes → Setores → Funcionários.

Mas havia outro organograma.

Nunca impresso.

Nunca aprovado pela diretoria.

Nunca enviado ao RH.

E provavelmente muito mais importante para entender como aquela empresa realmente funcionava.


Era o organograma social.

Nele estavam as secretárias, os office-boys, o pessoal que sabia onde ficava determinada pasta, quem conhecia alguém na contabilidade, quem sabia qual gerente estava de bom humor, quem organizava o aniversário, quem cobrava a vaquinha, quem fazia o café e quem sabia onde estava a revista que desaparecera havia três dias.

Era uma rede.

Só não chamávamos de rede social.


👩‍💼 A secretária era o roteador social do departamento

A secretária daquela época merece um capítulo próprio.

Aliás, merece uma homenagem.

Sua função formal podia envolver agenda, telefone, correspondência, documentos, reuniões e suporte administrativo.

Mas sua função real era muito maior.

Ela sabia quem estava de férias.

Quem faltara.

Quem precisava falar com o gerente.

Quem estava esperando uma ligação.

Quem fazia aniversário naquela semana.

Quem ia casar.

Quem acabara de ter filho.

Quem estava prestes a se aposentar.

Quem ainda não havia pago a vaquinha.

E, naturalmente, quem estava enrolando para pagar a assinatura da revista.

Em termos mainframeiros, a secretária era simultaneamente:

Scheduler + Service Desk + Workflow + Event Manager + Social Network + Knowledge Base.

Com uma vantagem importante:

ela conhecia as pessoas.

E existia uma hierarquia entre elas.

Cada setor podia possuir sua secretária e uma secretária departamental ajudava a coordenar aquele pequeno universo.

Não estava escrito no organograma informal.

Não precisava.

Todo mundo sabia.


📰 O Clube da Assinatura

Eis uma instituição praticamente desaparecida:

o Clube da Assinatura.

O departamento assinava uma revista.

No nosso caso, entre elas estava a Veja.

Cada participante contribuía com uma pequena cota e, quando chegava o vencimento, entrava em funcionamento um sofisticadíssimo sistema financeiro.

A secretária.

— Pessoal, chegou a hora da assinatura.

Pronto.

Começava a arrecadação.

Não havia PIX.

Não havia aplicativo.

Não havia link de pagamento.

Havia dinheiro, controle, cobrança e memória.

Especialmente memória.

Porque a secretária sabia perfeitamente quem ainda não tinha pago.

Quando a revista chegava, começava outro protocolo.

Ela circulava.

Alguém lia.

Passava para outro.

Esse levava para o almoço.

Outro perguntava:

— Cadê a Veja?

— Está com o fulano.

Era uma espécie de Token Ring editorial.

O pacote precisava circular pelos nós da rede até completar o percurso.

E ninguém precisava de Wi-Fi.


🍪 O Clube da Bolacha

Mas o verdadeiro sistema crítico ficava dentro de um armário.

O Clube da Bolacha.

Cada participante contribuía com um ticket-almoço e, com os recursos arrecadados, abastecíamos um dos armários do departamento.

Aquilo era um pequeno paraíso da gula.

Bolachas.

Biscoitos.

Doces.

Salgados.

Coisas destinadas a salvar funcionários naquele momento crítico entre o almoço e o fim do expediente.

Hoje talvez alguém criasse um projeto chamado:

Corporate Employee Snack Experience Initiative.

Nós chamávamos de:

armário da bolacha.

Funcionava perfeitamente.

Até alguém comer a última.

Aí tínhamos um incidente de produção.

— QUEM ACABOU COM A BOLACHA E NÃO AVISOU?

Severity 1.

War Room imediatamente.

Laerte, Glauco e Angeli poderiam passar uma semana naquele departamento e sair com material para cinco anos.


🎂 A indústria da vaquinha

Outro componente essencial da infraestrutura corporativa era a:

vaquinha.

Tudo justificava uma.

Aniversário?

Vaquinha.

Casamento?

Vaquinha.

Nascimento de filho?

Vaquinha.

Aposentadoria?

Vaquinha.

Dia da Secretária?

Vaquinha.

Ocasião especial?

Evidentemente:

vaquinha.

Nos aniversariantes do mês, juntava-se dinheiro para comprar bolo e alguma lembrancinha.

E então surgia outro artefato arqueológico maravilhoso:

o cartão.

O cartão circulava clandestinamente pelo departamento.

Todo mundo precisava assinar sem que o homenageado percebesse.

Era uma operação de inteligência.

— Passa para o João.

— Mas não deixa a Maria ver.

— O Carlos ainda não assinou.

— Cadê o cartão?

— Está no financeiro.

No final apareciam dezenas de assinaturas.

Algumas simplesmente:

Parabéns!

Outras:

Muitas felicidades!

Outras continham piadas internas que provavelmente seriam completamente indecifráveis para qualquer arqueólogo digital de 2126.

Mas aquele cartão tinha uma coisa que nenhum botão de 👍 conseguiu substituir completamente.

Ele havia passado pelas mãos das pessoas.



❤️ A empresa entrava um pouco na vida

É preciso tomar cuidado para não transformar nostalgia em história cor-de-rosa.

Os escritórios antigos também tinham problemas.

Hierarquias pesadas.

Burocracia.

Chefias ruins.

Fofocas.

Favoritismos.

Conflitos.

Tecnologia limitada.

Processos que hoje consideraríamos absurdamente ineficientes.

Não estou propondo ressuscitar tudo aquilo.

Mas havia uma característica interessante:

a fronteira entre vida profissional e convivência social era diferente.

Quando alguém casava, o departamento comemorava.

Quando nascia um filho, comemorava.

Quando alguém fazia aniversário, comemorava.

Quando se aposentava depois de décadas, aquilo era um acontecimento.

E quando algo ruim acontecia, aquela mesma rede também aparecia.

Éramos colegas de trabalho.

Mas frequentemente funcionávamos como uma espécie de família estendida.

Com todas as vantagens e todos os defeitos que famílias estendidas possuem.


🏃 E no meio disso tudo havia o office-boy

Agora chegamos ao personagem que vos escreve.

O office-boy.

Hoje talvez seja difícil explicar a importância daquele sujeito correndo de um lado para outro.

O office-boy atravessava a empresa inteira.

Levava documentos.

Buscava assinaturas.

Ia ao banco.

Passava pelo protocolo.

Entregava correspondência.

Subia.

Descia.

Entrava no elevador.

Saía do prédio.

Atravessava a Paulista.

Voltava.

Levava outro documento.

Recebia outra missão.

Era uma espécie de:

TCP/IP humano.

Os pacotes eram envelopes.

O roteamento era feito de memória.

E o traceroute podia envolver quinze andares e uma agência bancária.

Como office-boy, tive a sorte de conhecer muita gente.

E entre as pessoas que marcaram aqueles primeiros tempos estavam algumas das primeiras secretárias com quem trabalhei.

Elizabeth, nossa Bethinha.

Ana Maria.

Terezinha.

Cecilia.

Depois vieram Maria Aparecida, Nilce, Eliza, Benzão, Debora, Cristina, Adriana e tantas outras mulheres com quem tive a honra de trabalhar.

E havia...

Rosalaine.


🐺 “É o lobo... é o lobo!”

Rosalaine tinha uma característica impossível de registrar num currículo.

A voz.

Era uma voz de fada.

Angelical.

Leve.

Quase adolescente.

Mas Rosalaine era uma mulher adulta.

E havia um antigo personagem de desenho animado cuja fala eu adorava ouvi-la imitar.

Eu chegava perto.

— Rosalaine...

Ela provavelmente já sabia.

— O quê, Vagner?

— Fala.

— Falar o quê?

Eu insistia.

Até que vinha aquela voz:

— É o lobo... é o lobo!

Pronto.

Podia acabar o expediente.

O dia já tinha valido a pena.

Para aquele office-boy, ouvir Rosalaine dizendo “é o lobo, é o lobo” era praticamente um benefício corporativo não declarado.

E havia outro pequeno problema.

Eu era apaixonado por ela.

Consequentemente, o sistema de prioridades do office-boy apresentava uma pequena vulnerabilidade conhecida pelas demais secretárias.


⚡ SLA ROSALAINE

As outras perceberam rapidamente.

Pedido normal?

Vagner executava.

Pedido urgente?

Vagner corria.

Pedido da Rosalaine?

O espaço-tempo sofria uma pequena deformação.

E naturalmente começaram as piadas.

Uma delas ficou na memória:

“Se for a Rosalaine a pedir para o Vagner, ele faz mais rápido que Hermes.”

Eu provavelmente protestava.

— Nada a ver!

E elas:

— Sei...

— Eu faço rápido para todo mundo!

— Claro, Vagner.

— Faço mesmo!

Bastaria então alguém chamar:

— Rosalaine, pede você para ele.

Fim da discussão.

Porque provavelmente, antes que ela terminasse:

— Vagner, você poderia...

FUUUUSH!

Cadê o office-boy?

Já estava no elevador.


🪽 Mais rápido que Hermes

Décadas depois percebo que a piada era melhor do que talvez imaginássemos.

Hermes, na mitologia grega, era justamente o mensageiro dos deuses.

E o que fazia o office-boy?

Levava mensagens.

Documentos.

Envelopes.

Ordens.

Papéis.

Atravessava territórios carregando informação.

Eu era praticamente um Hermes corporativo da Avenida Paulista.

Só havia uma diferença.

Hermes tinha velocidade divina.

Eu tinha Rosalaine dizendo:

— Vagner...

Nesse momento, meu caro Hermes:

saia da frente.


🎄 O churrasco e a festa da firma

E então chegávamos ao encerramento anual daquele grande organismo social.

O churrasco.

Às vezes viajávamos para uma pousada da própria empresa.

Em outras ocasiões alugávamos uma chácara.

E lá ia o departamento.

Chefes.

Funcionários.

Secretárias.

Famílias.

Namorados.

Maridos.

Esposas.

Filhos.

O sujeito que durante onze meses aparecia impecavelmente vestido surgia de bermuda diante da churrasqueira.

O gerente encontrava seus subordinados fora do habitat corporativo.

As famílias finalmente conheciam aquelas pessoas cujos nomes ouviam durante o ano inteiro.

— Ahhh, então VOCÊ é o fulano!

Frase perigosíssima.

Dependendo da quantidade de cerveja consumida, segredos corporativos podiam começar a vazar.

E então havia a grande instituição:

A Festa de Final de Ano da Empresa

Comentadíssima.

Esperada.

Patrocinada pela empresa.

Não era simplesmente um evento no calendário.

Era um ritual.

Porque naquela época existia uma regra não escrita:

Não bastava ser funcionário. Tinha que participar.


🧠 A empresa que não aparecia no organograma

Quarenta anos depois, algo curioso acontece.

Eu não consigo lembrar de todos os documentos que transportei.

Não lembro de todos os protocolos.

Não lembro de cada assinatura que busquei.

Não lembro de cada tarefa considerada urgentíssima.

Muitas coisas pelas quais alguém provavelmente disse:

“Vagner, isso precisa estar pronto HOJE!”

desapareceram completamente.

Urgentíssimas em 1980 e tantos.

Irrelevantes em 2026.

Mas lembro do Clube da Assinatura.

Lembro do armário da bolacha.

Lembro das vaquinhas.

Lembro dos cartões.

Lembro dos aniversários.

Lembro dos churrascos.

Lembro das festas.

Lembro das secretárias.

E lembro de uma voz dizendo:

“É o lobo... é o lobo!”

Talvez exista uma lição interessante nisso.

A memória humana possui seu próprio algoritmo de retenção.

E aparentemente ele não respeita as prioridades corporativas.


🤖 Então chegou o escritório inteligente

Nas décadas seguintes fizemos uma coisa extraordinária.

Automatizamos.

Digitalizamos.

Otimizamos.

Reduzimos departamentos.

Criamos workflows.

ERPs.

CRMs.

Portais.

Self-service.

E-mail.

Mensagens instantâneas.

Videoconferência.

Automação.

Inteligência artificial.

Hoje equipes muito menores conseguem realizar trabalhos que antigamente exigiam dezenas de pessoas.

Isso é progresso.

Não tenho saudade de carregar papel porque alguém precisava fisicamente transportar informação entre dois pontos.

Não quero trocar APIs por office-boys.

Não quero substituir workflow por pastas circulando de mesa em mesa.

Seria absurdo.

Mas talvez tenhamos cometido um pequeno erro conceitual.

Ao eliminar a ineficiência, às vezes eliminamos junto coisas que não eram ineficiência.

O armário da bolacha não era workflow.

O cartão de aniversário não era processo.

A vaquinha do casamento não era produtividade.

O churrasco não era KPI.

A secretária sabendo que alguém estava vivendo uma semana difícil não era people analytics.

A piada sobre Rosalaine e Hermes não aparecia em nenhuma métrica de desempenho.

Mas tudo isso criava uma coisa dificílima de medir:

pertencimento.


🏭 Quando eficiência demais transforma gente em recurso

Hoje projetamos escritórios fantásticos.

Estações compartilhadas.

Hot desks.

Sensores.

Reserva automática de mesa.

Salas inteligentes.

Dashboards.

Indicadores de ocupação.

Colaboração remota.

Processos digitais.

Tudo muito eficiente.

Tudo muito funcional.

Mas existe uma pergunta que talvez devesse aparecer em algum desses dashboards:

As pessoas ainda conhecem umas às outras?

Não apenas o cargo.

Não apenas o avatar.

Não apenas o nome no Teams.

Conhecem?

Sabem quem está fazendo aniversário?

Sabem quem acabou de ter filho?

Sabem quem vai se aposentar?

Sabem quem conta a pior piada?

Sabem quem sempre rouba a última bolacha?

Existe algum equivalente moderno daquela secretária que percebia o departamento como um organismo humano?

Porque uma empresa pode otimizar perfeitamente o fluxo de trabalho e, ao mesmo tempo, transformar seres humanos em unidades intercambiáveis de capacidade.

E aí talvez tenhamos criado o escritório mais inteligente da história...

para tratar pessoas como gado com extraordinária eficiência.


🎨 Laerte, Glauco, Angeli e o departamento invisível

É justamente por isso que gosto de imaginar Laerte, Glauco e Angeli caminhando por aquele escritório.

Eles sabiam observar o Brasil que não aparece nos documentos oficiais.

O Brasil da conversa lateral.

Da piada.

Da fila.

Do cafezinho.

Do sujeito tentando escapar da vaquinha.

Da secretária que sabe tudo.

Do funcionário que esconde a revista.

Do armário comunitário.

Do chefe que muda completamente depois da segunda cerveja no churrasco.

E o Leão de Chácara?

Naturalmente ficaria na entrada.

Talvez cobrando:

— Você pagou a cota da bolacha?

— Ainda não.

— Então volta.

Governança.


☕ Epílogo — O mainframe social

Talvez aquela empresa antiga tivesse dois sistemas funcionando simultaneamente.

O primeiro processava negócios.

Pedidos.

Contas.

Contratos.

Documentos.

Pagamentos.

Relatórios.

O segundo processava gente.

Aniversários.

Casamentos.

Nascimentos.

Paixões.

Amizades.

Piadas.

Brigas.

Reconciliações.

Festas.

Café.

Bolachas.

O primeiro sistema foi substituído inúmeras vezes.

Mainframes, minis, PCs, cliente-servidor, web, cloud, APIs, inteligência artificial.

O segundo nunca teve documentação.

E talvez por isso tenhamos perdido partes dele durante a migração.

Esta história é uma pequena tentativa de restaurar o backup.

E principalmente uma homenagem carinhosa a Elizabeth, a Bethinha; Ana Maria; Terezinha; Cecilia; Maria Aparecida; Nilce; Eliza; Benzão; Debora; Cristina; Adriana e tantas outras secretárias com quem tive a honra de trabalhar.

Mulheres que provavelmente jamais aparecerão no organograma histórico dessas empresas, mas que ajudaram a fazer aqueles departamentos funcionarem como comunidades.

E, claro, uma lembrança especial para Rosalaine.

A mulher de voz de fada que, sem saber, descobriu uma vulnerabilidade crítica no sistema operacional de determinado office-boy. Sabe que vendo hoje, descobri de onde gosto das vozes das personagens de anime, talvez Freud explique, mas agora entendo um pouco melhor a magia da voz feminina dos animes, o efeito que me provoque e a pessoa que iniciou esse processo.

Bastava chamar:

— Vagner...

E qualquer prioridade anterior era imediatamente reavaliada.

Se depois viesse:

— É o lobo... é o lobo!

pronto.

O expediente estava ganho.

Hoje temos máquinas capazes de processar bilhões de instruções por segundo.

Temos inteligência artificial.

Temos escritórios inteligentes.

Temos automação suficiente para eliminar departamentos inteiros.

Mas até hoje ninguém conseguiu construir um sistema capaz de reproduzir perfeitamente aquele estranho protocolo social que fazia cinquenta pessoas assinarem escondidas um cartão de aniversário.

Talvez porque aquilo nunca tenha sido tecnologia.

Era simplesmente gente vivendo parte da vida junto.

E quando alguém perguntar como eram aqueles escritórios antes do ano 2000, talvez eu não precise explicar organogramas, máquinas de escrever, arquivos de aço ou processos administrativos.

Posso simplesmente responder:

Havia um armário cheio de bolachas.

Uma Veja circulando pelo departamento.

Um cartão esperando a última assinatura.

Uma secretária cobrando a vaquinha.

Um churrasco sendo planejado.

E um office-boy atravessando a Avenida Paulista mais rápido que Hermes porque, em algum lugar do escritório, Rosalaine havia acabado de chamá-lo.

Bons tempos.

Bons e imperfeitos tempos.

Agora pegue mais uma bolacha.

Mas, pelo amor de Deus:

se pegar a última, avise.

☕🐺


Para ir mais longe

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/a-veja-do-conhecimento-proibido-quando.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/a-lei-seca-do-algoritmo-ou-como-comecei.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/red-team-de-boteco-quando-o-usuario.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/antes-do-chatgpt-tinha-biblioteca-nao.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/major-tom-american-airlines-e-o-furby-o.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/john-belushi-ia-juridica-e-o-dia-em-que.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2025/08/o-paradoxo-da-denuncia-quando-avisar.html



A VEJA do Conhecimento Proibido — Quando o Alerta aos Pais Virava Manual para os Filhos


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A VEJA do Conhecimento Proibido — Quando o Alerta aos Pais Virava Manual para os Filhos

Ou: como uma reportagem de dez páginas, três boxes amarelos, um endereço em letras miúdas e um “NÃO FAÇA ISSO” podiam ensinar uma geração inteira exatamente onde começar a procurar

Senta.

Pegue uma caneca de café.

Mas café velho.

Café de repartição.

Café preparado numa garrafa térmica bege que provavelmente já estava sobre a mesa quando Tancredo Neves foi eleito.

Porque hoje vamos voltar para uma época em que conhecimento obscuro não chegava até você.

Você precisava caçá-lo.

E nossos guias nesta expedição serão alguns dos maiores especialistas brasileiros em caminhar por lugares onde pessoas respeitáveis recomendariam não entrar:

os Fradins, Graúna e Ubaldo.

Henfil não precisará dizer muita coisa.

Ele ficará discretamente sentado no canto da página olhando para nós com aquela expressão de quem já percebeu a confusão muito antes dos demais.

Porque estamos entrando nos anos 1990.

E a Internet ainda cheira a naftalina.



📰 Era uma vez uma coisa chamada escassez de informação

É difícil explicar isso para alguém que nasceu depois do Google.

Hoje você manifesta interesse por alguma coisa durante aproximadamente onze segundos e o sistema inteiro começa a trabalhar.

Assista a um vídeo sobre fechaduras.

Pronto.

Daqui a pouco aparecem fechaduras.

Depois chaveiros.

Depois lockpicking.

Depois um sujeito explicando ferramentas.

Depois outro vendendo um curso.

Depois uma apostila.

Depois um camarada de boné dizendo que “o mercado não quer que você saiba disso”.

Em 48 horas o algoritmo transformou uma curiosidade inocente numa pós-graduação em Picaretagem Aplicada.

Você nem procurou.

A informação procurou você.

Nos anos 1990 era o contrário.

Existia uma enorme zona cinzenta do conhecimento.

Você sabia que determinadas coisas existiam.

Só não sabia como se chamavam.

E esse era um problema gigantesco.

Porque para pesquisar alguma coisa você precisava primeiro conhecer a palavra que permitia pesquisar aquela coisa.

Sem a palavra, não havia porta.

Sem porta, não havia corredor.

Sem corredor, não havia cofre.

E então, semanalmente, chegava às bancas uma espécie de dispositivo nacional de descoberta aleatória:

a revista VEJA.


🧐 A autoridade máxima entrou na sala

Não estamos falando de um panfleto mimeografado encontrado debaixo da mesa de uma feira de informática.

Era a VEJA.

A revista estava em consultórios.

Salas de espera.

Bibliotecas.

Escritórios.

Casas.

Empresas.

Bancas de jornal.

Você podia discordar dela, reclamar dela, escrever uma carta furiosa para ela e provavelmente cancelar a assinatura jurando nunca mais comprá-la.

Mas ninguém confundia VEJA com um papelzinho distribuído na Santa Ifigênia.

A reportagem vinha com jornalista.

Fotógrafo.

Infográfico.

Entrevistas.

Especialistas.

Polícia.

Autoridades.

Números.

Datas.

Mapas.

E, principalmente:

boxes.

Ah, os boxes.

O chimpanzé da Olivetti acaba de parar de datilografar.

Ele sabe onde estamos chegando.



📦 O maravilhoso box amarelo

Havia uma reportagem sobre algum fenômeno terrível que ameaçava a juventude brasileira.

Muito bem.

O cidadão responsável lia:

“Isso é perigosíssimo.”

O adolescente curioso lia:

“Opa.”

A reportagem prosseguia explicando que determinados grupos utilizavam uma tecnologia chamada IRC.

O pai:

— Meu Deus.

O filho:

— IRC?

Anotava.

Depois vinha:

Internet Relay Chat.

Anotava também.

Então aparecia um pequeno quadro lateral:

COMO FUNCIONA

Pronto.

Acabou.

O jornalista estava tentando contextualizar o fenômeno.

O curioso acabava de receber o primeiro capítulo do manual.

Servidor.

Canal.

Nickname.

Comando.

Terminologia.

Às vezes aparecia até o nome de algum canal citado como exemplo do ambiente que deveria preocupar os pais.

O pai terminava a matéria pensando:

“precisamos proteger nossos filhos disso.”

O filho terminava pensando:

“preciso instalar esse tal de mIRC.”

Graúna observa tudo.

Fradim sorri.

Ubaldo provavelmente já está conectado.




🐒 A informação proibida precisava de uma palavra

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Os primeiros mecanismos de busca não eram oráculos.

Você precisava perguntar direito.

E como perguntar sobre algo cujo nome você desconhecia?

Era aí que uma grande reportagem tinha um poder extraordinário.

Ela fornecia vocabulário.

Você descobria que determinada prática possuía um nome.

Que determinado programa existia.

Que determinado protocolo era usado.

Que determinada comunidade frequentava certo serviço.

Que havia uma expressão específica utilizada naquele universo.

Agora você possuía a chave.

Não precisava mais procurar:

“aquele negócio estranho que umas pessoas fazem no computador”.

Você possuía o termo técnico.

Digitava a palavra.

E uma pequena passagem secreta aparecia na parede da Internet.



🏴‍☠️ Cuidado com a pirataria — endereço na página 47

Outro clássico.

A reportagem denunciava o comércio ilegal.

Excelente.

Mostrava uma loja.

Nome.

Rua.

Região.

Às vezes fotografia.

Às vezes explicava como funcionava o esquema.

A Polícia Federal havia fechado o estabelecimento.

O leitor responsável pensava:

— Muito bem! Fecharam!

O leitor brasileiro experimental pensava:

— Interessante...

Guardava a edição.

Algum tempo depois passava pelo endereço.

E eis que ocorria um fenômeno conhecido pela ciência brasileira como:

RESSURREIÇÃO COMERCIAL ESPONTÂNEA.

A loja estava novamente funcionando.

Talvez com outra placa.

Talvez com o mesmo sujeito.

Talvez com o mesmo balcão.

Talvez o único avanço tecnológico fosse um novo cadeado na porta.

A reportagem que pretendia documentar uma repressão havia inadvertidamente preservado algo extremamente precioso:

a coordenada geográfica.



🇵🇾 Preciso comprar um computador

Hoje você abre vinte comparadores de preços.

Em algum momento dos anos 1990, entretanto, você podia descobrir numa reportagem que existia um lugar chamado:

Ciudad del Este.

Paraguai.

Computadores.

Componentes.

Eletrônicos.

Importação.

Contrabando.

Sacoleiros.

Fronteira.

Lojas.

Preços.

Rotas.

A matéria pretendia explicar um fenômeno econômico e policial.

Mas o sujeito que estava olhando para o preço de um computador no Brasil começava a fazer uma matemática diferente.

— Então quer dizer que...

Fradim imediatamente coloca a mão na boca dele.

Não conclua em voz alta.



💾 Santa Ifigênia.exe

São Paulo tinha ainda uma versão especial desse mecanismo.

A imprensa nacional mostrava o fenômeno.

A imprensa local mostrava o CEP.

Podia aparecer uma matéria na VEJA São Paulo sobre determinada região do centro.

Xavier de Toledo.

Santa Ifigênia.

Galerias.

Lojas.

Software.

Hardware.

Camelôs.

Alguma coisa acontecendo discretamente atrás de um balcão.

Duas semanas depois, uma reportagem maior explicava a pirataria de software no Brasil.

Depois vinha o caderno de informática de algum jornal.

Depois uma revista especializada.

Era possível montar o quebra-cabeça.

Nenhuma peça precisava conter o mapa inteiro.

Uma fornecia o lugar.

Outra fornecia o nome.

Outra explicava a tecnologia.

Outra apresentava a gíria.

Outra mostrava o fenômeno internacional.

E o cérebro humano fazia uma coisa maravilhosa:

A + B + C + curiosidade = vou dar uma olhada nisso

Não havia algoritmo de recomendação.

O algoritmo era você.



🔎 AltaVista, Cadê?, Yahoo! e a arqueologia da palavra certa

Quando os mecanismos de busca começaram a melhorar, surgiu uma nova modalidade de caça ao tesouro.

Uma reportagem mencionava um termo obscuro.

Você anotava.

Depois procurava.

E descobria outra palavra.

Procurava a segunda.

Encontrava uma terceira.

Era uma espécie de árvore de conhecimento construída manualmente.

Hoje chamamos isso de navegação.

Naquela época parecia exploração.

Porque frequentemente você não sabia onde terminaria.

Começava procurando alguma coisa perfeitamente inocente.

Quarenta minutos depois estava lendo uma página hospedada numa universidade da Finlândia escrita por um sujeito chamado DarkWizard73 explicando algo que você nem sabia que existia naquela manhã.

A Internet não possuía estradas asfaltadas.

Possuía trilhas.

E algumas revistas funcionavam como sujeitos numa taverna medieval dizendo:

— Não aconselho ninguém a atravessar aquela floresta.

— Por quê?

— Porque depois do moinho existe uma trilha à esquerda que leva até uma ponte...

Espere.

Depois do moinho?

Trilha à esquerda?

Graúna olha para Fradim.

Fradim pega o mapa.



📡 O curioso caso do canal que cresceu 30%

Esta é uma das imagens mais divertidas de imaginar.

Uma grande reportagem nacional menciona algum pequeno canto obscuro da Internet.

Um servidor.

Um fórum.

Uma página.

Um canal de IRC.

Na segunda-feira havia 80 pessoas.

Sai a revista.

Terça-feira:

Quarta:

Sexta:

218 brasileiros.

E em algum lugar do planeta o administrador provavelmente olhava para os logs:

— What the hell happened in Brazil?

Começavam as teorias.

Algum hacker famoso indicou?

Universidade?

Lista de discussão?

Conferência?

Não.

Saiu um box amarelo na página 63.



✉️ E então surgia o sistema de recuperação de backup

Mas havia um recurso ainda mais espetacular.

As cartas dos leitores.

Imagine que você perdeu uma reportagem maravilhosa.

Não sabia que ela existia.

Acabou.

Certo?

Errado.

Três semanas depois aparecia:

“A reportagem publicada na edição nº XXXX sobre determinado assunto foi irresponsável...”

Opa.

QUE REPORTAGEM?

O leitor furioso acabava de funcionar como mecanismo de indexação.

Você anotava a edição.

Ia até uma biblioteca.

Pedia os números antigos.

Localizava a revista.

Encontrava a matéria.

E começava a investigação retroativa.

Era praticamente:

Google Alerts movido a indignação.

O sujeito escreveu para reclamar.

Você leu a reclamação e descobriu algo que não sabia que precisava conhecer.

O Fradim agradece respeitosamente ao cidadão indignado.



🧠 VEJA + Superinteressante: RAID 1 da curiosidade brasileira

E havia uma combinação particularmente deliciosa.

Uma revista abordava o fenômeno pelo lado jornalístico.

Outra mergulhava na ciência, comportamento, tecnologia ou curiosidade.

Às vezes os assuntos coincidiam.

Às vezes se complementavam.

Você lia uma reportagem numa publicação e algumas semanas depois encontrava outra peça em outra.

A segunda matéria fornecia palavras novas.

As palavras levavam à Internet.

A Internet levava a uma BBS.

A BBS indicava IRC.

IRC levava a FTP.

FTP levava a um arquivo TXT escrito em 1989.

E pronto.

Sua tarde havia acabado.

Não existia autoplay.

Não existia feed infinito.

Não existia “conteúdo recomendado para você”.

Existia algo muito mais perigoso:

curiosidade.



📰 Folha e Estadão também entregavam munição intelectual

Naturalmente, VEJA não estava sozinha.

Os cadernos de informática dos grandes jornais eram preciosos.

Havia revistas de informática.

Colunas.

Suplementos.

Livros.

BBSs.

Listas de discussão.

Programas de televisão.

A diferença era a capacidade ocasional de uma grande revista semanal de entregar dez páginas de contexto de uma só vez.

História.

Personagens.

Tecnologia.

Vocabulário.

Fotografias.

Endereços.

Infográficos.

E o inevitável:

ALERTA AOS PAIS

O equivalente editorial de colocar uma placa luminosa diante de milhares de adolescentes:

TEM ALGUMA COISA MUITO INTERESSANTE AQUI.



🚨 “Não procure estas palavras”

Talvez uma das maiores contradições da comunicação sobre perigos seja esta:

Para avisar alguém sobre determinado conteúdo, frequentemente precisamos identificar o conteúdo.

E identificar fornece uma chave de busca.

Imagine o censor perfeito:

“Existem palavras que não devem ser pesquisadas.”

Excelente.

Quais?

“Não podemos dizer.”

Perfeito.

Sistema seguro.

Agora imagine:

“Especialistas alertam os pais para que os filhos não pesquisem termos como X, Y e Z.”

Muito obrigado.

Fradim já anotou X.

Graúna ficou com Y.

Ubaldo está procurando Z.

Os chimpanzés pediram mais papel para a Olivetti.



🐒 O efeito chimpanzé

E aqui chegamos ao mecanismo central desta história.

Não era necessário que jornalista algum desejasse ensinar nada.

Muito pelo contrário.

A reportagem podia estar corretamente denunciando, contextualizando ou alertando.

Mas informação possui uma propriedade curiosa:

o leitor escolhe qual problema pretende resolver com ela.

O repórter escreve:

“Veja como funciona este esquema para que você possa reconhecê-lo.”

Um leitor interpreta:

“Agora sei reconhecer.”

Outro:

“Agora sei procurar.”

Outro:

“Então é esse o nome?”

Outro:

“Onde fica mesmo?”

Outro:

“Qual era aquele programa citado?”

E finalmente surge nosso chimpanzé.

Ele fecha a revista.

Liga o 486.

O Windows 95 começa sua cerimônia litúrgica.

O modem acorda.

Piiiiiiii...

KRRRRRRR...

TCHHHHHHHHH...

GRRRR-PI-PI-PI...

Conectado.

33.6 kbps.

E começa a procurar.



🕵️ O editor jamais conheceria todos os usos possíveis daquela informação

Essa talvez seja a parte mais fascinante olhando décadas depois.

Durante uma ditadura, o censor procurava palavras, ideias, imagens e mensagens consideradas perigosas.

Décadas mais tarde, numa sociedade democrática e numa imprensa muito mais aberta, surgia outro problema completamente diferente:

ninguém conseguia prever o que um leitor curioso faria com informação perfeitamente legítima.

Não era preciso esconder mensagem alguma.

Não havia código secreto.

Não havia conspiração.

O conteúdo estava publicado.

Revisado.

Impresso.

Distribuído nacionalmente.

Aprovado editorialmente.

E justamente por isso tinha enorme autoridade.

Era quase uma certificação:

EXISTE.

Esse simples carimbo possuía valor gigantesco.

Porque antes de saber como encontrar algo, frequentemente precisávamos saber que aquilo existia.



🤖 Hoje o problema virou do avesso

Trinta anos depois, temos o problema contrário.

A dificuldade não é descobrir.

É escapar da descoberta.

Curta um vídeo.

O algoritmo oferece vinte.

Pare três segundos diante de uma publicação.

Ele percebe.

Pesquise uma coisa.

Durante uma semana aparecem anúncios relacionados.

A velha zona cinzenta desapareceu em muitos lugares.

Em compensação surgiu uma avalanche.

Antes tínhamos:

escassez de pistas.

Hoje temos:

superprodução de pistas.

Antes você precisava juntar três revistas, dois jornais, uma conversa no IRC e uma página encontrada no AltaVista.

Hoje um influenciador entrega:

“OS SETE SEGREDOS QUE NÃO QUEREM QUE VOCÊ SAIBA — O SEXTO VAI TE SURPREENDER.”

E, naturalmente, vende a apostila por R$ 29,90.

Perdemos alguma coisa nessa transição.

Não necessariamente porque o passado fosse melhor.

Era terrivelmente ineficiente.

Mas justamente a ineficiência produzia acidentes maravilhosos.

Você procurava A.

Encontrava B.

Precisava entender C.

Descobria D.

E terminava apaixonado por Z.



🧭 A serendipidade analógica

Talvez seja esse o verdadeiro objeto desta homenagem.

Não pirataria.

Não contrabando.

Não IRC.

Não lojas obscuras.

Mas uma forma desaparecida de serendipidade.

A descoberta acidental que exigia esforço.

A revista fornecia uma pista.

A biblioteca fornecia outra.

O jornal confirmava.

A Superinteressante acrescentava contexto.

Um amigo lembrava de alguma coisa.

Você procurava uma edição antiga.

Encontrava outro artigo ao lado.

Esquecia completamente o assunto original.

Saía da biblioteca sabendo alguma coisa que jamais havia planejado aprender.

Hoje o algoritmo tenta prever o que você quer.

Naquela época, frequentemente, nem você sabia o que queria.

E justamente por isso encontrava coisas extraordinárias.



☕ Epílogo — O box amarelo

Imagino uma biblioteca em algum momento de 1996.

Uma mesa.

Uma VEJA aberta.

Um adolescente ou jovem adulto copiando alguma palavra para um pedaço de papel.

Talvez um endereço.

Talvez o nome de um programa.

Talvez uma expressão em inglês.

Talvez apenas alguma coisa que parecesse estranha.

Naquela noite ele liga o computador.

O modem chia.

A linha telefônica da casa fica ocupada.

A mãe reclama:

— DESLIGA ESSA INTERNET QUE EU PRECISO USAR O TELEFONE!

Ele pede mais cinco minutos.

Abre o mecanismo de busca.

Digita aquela palavra.

Enter.

E uma porta aparece.

Décadas depois, talvez ele nem lembre o que encontrou.

Mas lembra perfeitamente da sensação.

Existe alguma coisa depois daqui.

Henfil continua quieto no canto.

Graúna observa aquela humanidade complicada.

Ubaldo já desapareceu dentro de algum servidor IRC.

E o Fradim pega discretamente o box amarelo da reportagem, dobra, coloca no bolso e olha para nós:

— Então isso aqui é justamente o que disseram para não procurar?

É.

— E imprimiram o nome?

Imprimiram.

— Explicaram onde fica?

Também.

— E disseram como funciona?

Tem infográfico na página seguinte.

Silêncio.

Ao fundo, um milhão de chimpanzés abandonam simultaneamente suas Olivettis e correm em direção aos modems.

Piiiiiiii...

KRRRRRRR...

TCHHHHHHHHH...

Algum editor, em algum lugar, sente um arrepio inexplicável.

E numa pequena sala iluminada por um monitor CRT, alguém acaba de descobrir uma coisa que não sabia que existia quinze minutos antes.

Não foi o algoritmo.

Não foi um influenciador.

Não foi uma recomendação personalizada.

Foi uma revista séria, conceituada e respeitável dizendo solenemente:

“Não vá até lá.”

E fornecendo o mapa.

Bons tempos.

Não necessariamente melhores.

Mas certamente muito mais trabalhosos para os chimpanzés.


Para ir mais longe



https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/a-lei-seca-do-algoritmo-ou-como-comecei.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/quando-ia-entra-na-espiral-da-formiga.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/red-team-de-boteco-quando-o-usuario.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/spy-vs-spy-no-tribunal-as-trapacas.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/red-team-e-os-doze-trabalhos-de-asterix.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/antes-do-chatgpt-tinha-biblioteca-nao.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/o-milhao-de-chimpanzes-gutenberg-e.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/organizacoes-tabajara-mainframe-seus.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2025/08/o-paradoxo-da-denuncia-quando-avisar.html



https://www.linkedin.com/posts/vagnerbellacosa_um-divertida-memoria-para-os-leitores-da-ugcPost-7496432634722484224-8VMu/?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAAAF2qx0B5Ef0IGUpO8f7SxDHV-EQ5-EMG54

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Lei Seca do Algoritmo — ou como comecei lendo uma lei brasileira e duas semanas depois a ONU cercava minha ilha

Bellacosa Mainframe e a lei seca do algoritmo ia moderna um jogo do absurdo

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Lei Seca do Algoritmo — ou como comecei lendo uma lei brasileira e duas semanas depois a ONU cercava minha ilha

Uma pequena história sobre leis, IA, jurisdições, Port Royal, mercenários, dilemas de segurança e a extraordinária capacidade humana de transformar um IF de quatro linhas numa crise internacional

Tudo começou de maneira perfeitamente inocente.

Eu estava lendo uma notícia sobre uma lei brasileira.

Qual lei?

Não importa.

Aliás, é melhor nem dizer, porque o objeto específico da lei é muito menos interessante do que o fenômeno que ela despertou nos aproximadamente um milhão de chimpanzés que administram meu cérebro, supervisionados, naturalmente, por Tico e Teco.

A notícia explicava uma evolução legislativa bastante curiosa.

Primeiro havia o humano.

O humano fazia alguma coisa, sofria alguma coisa ou aparecia em alguma coisa.

A sociedade dizia:

— Isso não pode.

O legislador concordava:

— Realmente não pode.

E escrevia uma lei.

Muito bem.

Caso encerrado.

Só que então apareceu uma situação nova.

A lei não previa exatamente aquilo.

Então alguém colocou um puxadinho.

Depois apareceu outra situação.

Novo puxadinho.

Depois veio a Internet.

Mais um puxadinho.

Depois atravessaram fronteiras.

Puxadinho internacional.

Depois chegaram algoritmos capazes de produzir coisas que anteriormente exigiam participação humana.

E o legislador descobriu horrorizado que agora existia algo que parecia com o objeto originalmente proibido, mas que havia sido criado sem que nenhum ser humano tivesse participado daquilo como matéria-prima.

Era sintético.

Artificial.

Quase uma carne vegana jurídica.

Parecia carne.

Tinha formato de carne.

Era consumida como carne.

Mas nenhuma vaca havia participado da reunião.

E meus chimpanzés imediatamente interromperam suas atividades normais.



🧠 O primeiro IF era simples

Imagino que a versão 1.0 da legislação fosse conceitualmente parecida com isto:

IF EXISTE-HUMANO
   AND OCORREU-ATO-PROIBIDO
       MOVE "CRIME" TO RESULTADO
END-IF

Elegante.

Legível.

Cabe numa tela 3270.

O problema é que seres humanos são excelentes em encontrar situações que o programador original não imaginou.

Logo apareceu:

IF EXISTE-HUMANO
   OR EXISTE-REPRESENTACAO-DO-HUMANO

Depois:

OR EXISTE-GRAVACAO
OR EXISTE-FOTOGRAFIA
OR EXISTE-AUDIO

Depois chegou a Internet:

OR FOI-DISTRIBUIDO
OR FOI-COMPARTILHADO
OR FOI-TRANSMITIDO

Depois alguém colocou o servidor em outro país.

Novo ELSE.

Depois apareceu IA generativa.

E finalmente chegamos ao maravilhoso:

OR NAO-EXISTE-HUMANO
   BUT-PARECE-QUE-EXISTE


Nesse momento o velho programador COBOL dentro de mim olhou para aquilo e pensou:

isso virou sistema legado.

A intenção original continua lá.

Só que quarenta change requests depois ninguém mais sabe exatamente onde termina a regra original e começa o remendo colocado numa sexta-feira às 17h43 porque produção precisava subir naquele fim de semana.



🤖 Então o humano desapareceu

Essa foi a parte que realmente me chamou atenção.

Durante muito tempo havia uma cadeia relativamente compreensível:

humano → ato → registro → distribuição → dano.

Mas a tecnologia tornou possível outra:

algoritmo → geração → arquivo → distribuição.

O humano que originalmente justificava boa parte da proteção simplesmente poderia não existir naquela cadeia.

Não houve modelo.

Não houve fotografia original.

Não houve gravação.

Não houve determinada pessoa fazendo aquilo.

O objeto nasceu sinteticamente.

Naturalmente, a sociedade respondeu:

— Continua não podendo.

E surgiu outro puxadinho.

Perfeitamente compreensível.

Só que meus chimpanzés fizeram a pergunta que jamais se deve permitir que chimpanzés façam:

E se em outro país puder?

Silêncio.

Tico olhou para Teco.

Teco abriu um atlas.

Temos quase duzentos países no planeta.

É estatisticamente difícil conseguir fazer quase duzentos governos concordarem até sobre a temperatura adequada do café.

Naturalmente haverá diferenças legislativas.

E alguém encontrará uma.



🌎 Regulation-as-a-Service

Imagine então um pequeno país.

Não precisamos dizer qual.

Chamaremos de República Democrática, Popular, Constitucional, Marítima e Absolutamente Respeitável de Qualquerlândia.

Qualquerlândia analisa o assunto e decide:

— Material envolvendo pessoas reais? Proibido.

— Material inteiramente sintético?

O funcionário consulta o código.

Consulta novamente.

Chama o chefe.

O chefe chama o ministro.

O ministro chama um advogado.

Finalmente alguém responde:

— Aqui não é crime.

Pronto.

Nasceu uma indústria.

Criadores registram empresas em Qualquerlândia.

Servidores aparecem.

Processadores financeiros aparecem.

Advogados aparecem.

Contadores aparecem.

Data centers aparecem.

O resto do mundo continua consumindo exatamente o mesmo produto.

A diferença é que agora a receita termina em Qualquerlândia.

O país que proibiu continua tendo consumidores.

Continua tendo demanda.

Continua tendo dinheiro saindo.

Só deixou de ter a empresa.

O imposto.

O servidor.

O emprego.

E parte da capacidade de fiscalização.

Nesse momento pensei:

isso é uma espécie de Lei Seca digital.



🍺 Al Capone precisava de caminhões

A Lei Seca americana descobriu uma coisa desagradável:

proibir oferta não significa automaticamente eliminar demanda.

Se existe demanda suficientemente grande, alguém tentará atendê-la.

Só que Al Capone tinha um problema logístico.

Álcool pesa.

Precisa de garrafas.

Caixas.

Caminhões.

Navios.

Depósitos.

Motoristas.

Fronteiras.

Policiais subornáveis.

Um arquivo digital não possui nenhuma dessas inconveniências.

Ele pesa aproximadamente:

nada.

Pode atravessar cinquenta fronteiras antes que eu termine esta frase.

E IA generativa acrescentou algo ainda mais divertido.

Talvez nem sequer exista estoque.

O advogado de Qualquerlândia poderia dizer:

— Nós não armazenamos o produto.

— Não importamos o produto.

— Não exportamos o produto.

— Não possuímos o produto.

— O usuário solicita alguma coisa e uma máquina calcula pixels.

Imagino 193 delegações internacionais pedindo intervalo para café.



🏴‍☠️ Foi quando fundei Port Royal

Aqui meus chimpanzés abandonaram definitivamente qualquer compromisso com a realidade.

Pensei:

Muito bem. Então criarei minha própria Port Royal.

Uma pequena jurisdição marítima.

Centenas de servidores.

Energia própria.

Data center.

Links redundantes.

E uma constituição extremamente simples:

FREE FOR ALL

Não recomendo isso como política pública.

Estamos fazendo ficção satírica.

Mas mentalmente era maravilhoso.

Na entrada:

WELCOME TO PORT ROYAL CLOUD

Free for All Since 2026.

Terms and Conditions: No.

E imediatamente descobrimos o primeiro problema.

Você pode declarar independência.

Seu roteador não.



🌐 O ASN também tem sentimentos

Port Royal precisava de Internet.

Quem anuncia nosso ASN?

Precisávamos de upstream.

Precisávamos de cabos.

Precisávamos de DNS.

Precisávamos importar SSDs.

Precisávamos comprar processadores.

Precisávamos receber pagamentos.

Precisávamos contratar pessoas.

Precisávamos de peças para os geradores.

Ou seja:

às 14h eu havia declarado independência.

Às 14h07 descobri que dependia economicamente de metade do planeta.

Mas meus chimpanzés não desistiram.

Port Royal cresceu.

Criadores começaram a aparecer.

Empresas começaram a registrar suas obras ali.

Dinheiro começou a circular.

E algum governo estrangeiro finalmente disse:

— Chega.



🚤 Primeiro veio a Guarda Costeira

Essa parte é importante.

Na minha imaginação, ninguém começou mandando porta-aviões.

Seria ridículo.

Primeiro veio uma pequena força marítima de fiscalização.

Objetivo limitado.

Entrar.

Interromper determinadas atividades.

Talvez apreender alguma coisa.

Port Royal respondeu:

— Vocês não possuem jurisdição aqui.

Eles responderam:

— Achamos que possuímos.

Port Royal tinha segurança privada.

Mercenários.

Os mercenários impediram a intervenção.

E naquele exato segundo aconteceu algo fundamental:

a discussão deixou de ser sobre arquivos.

Agora era sobre soberania.



⚓ Então veio um navio maior

O governo estrangeiro não poderia simplesmente dizer:

— Bem, nossos homens foram expulsos. Vida que segue.

Porque agora havia precedente.

Então enviou força suficiente para garantir que aquilo não acontecesse novamente.

Port Royal observou o horizonte.

Um destróier.

Talvez dois.

Meus chimpanzés convocaram reunião extraordinária.

E foi quando apareceram os amigos.



🤝 A Liga dos Países que Também Não Gostam que Mandem Neles

Algumas nações possuíam relações comerciais com Port Royal.

Outras não davam a mínima para nossos servidores, mas estavam muito interessadas no precedente.

Porque a pergunta havia mudado.

Não era mais:

"Port Royal pode hospedar aquilo?"

Agora era:

"Um país pode entrar militarmente numa jurisdição menor porque discorda das leis dela?"

Isso interessava a muita gente.

Uma pequena liga de países amigos enviou navios para defesa dissuasora.

Não para atacar.

Naturalmente.

Todos estavam ali pela paz.

E essa é uma das frases mais perigosas que a humanidade já inventou:

"Trouxemos armas para garantir a paz."



📈 O algoritmo da dissuasão

O primeiro lado tinha um navio.

O segundo colocou dois.

O primeiro pensou:

— Dois?

Então trouxe quatro.

O segundo percebeu quatro navios hostis e trouxe oito.

Logo:

A = 1
B = 2

A = 4
B = 8

A = 16
B = 32

Port Royal:

— Gente... eram uns servidores.

Ninguém estava ouvindo.

Agora havia aeronaves de patrulha.

Guerra eletrônica.

Submarinos.

Defesa aérea.

Navios de apoio.

Satélites observando.

Serviços de inteligência.

E jornalistas transmitindo ao vivo da praia.



💣 O dilema de segurança

Existe uma perversidade maravilhosa nesse mecanismo.

O lado A diz:

— Estou aumentando minhas forças porque B está perigoso.

B responde:

— Estou aumentando minhas forças porque A está aumentando suas forças.

A observa:

— Viu? Eu estava certo sobre B!

B observa:

— Viu? Eu estava certo sobre A!

Ambos podem sinceramente não querer guerra.

Ambos podem sinceramente acreditar que suas forças são defensivas.

E ambos terminam extraordinariamente preparados para travar justamente a guerra que dizem querer evitar.

Port Royal havia se tornado uma demonstração prática do dilema de segurança.

E ninguém pediu autorização aos chimpanzés.



📰 CNN: CRISE DE PORT ROYAL — DIA 12

Nesse ponto imagino a televisão.

Especialistas diante de mapas.

Setinhas vermelhas.

Setinhas azuis.

Fotos de satélite.

Almirantes aposentados.

Professores de relações internacionais.

Economistas.

Advogados.

Um sujeito chamado "especialista em Port Royal" que duas semanas antes provavelmente não sabia que Port Royal existia.

Mercados caindo.

Petróleo subindo.

Seguradoras marítimas suspendendo cobertura.

Companhias desviando rotas.

E em algum estúdio alguém pergunta:

— Como chegamos até aqui?

Ninguém sabe responder em menos de quarenta minutos.



🏛️ Finalmente chegamos à ONU

E foi aí que minha imaginação chegou ao ponto que originalmente contei primeiro.

A ONU entra no circuito.

Conselho de Segurança.

Reuniões extraordinárias.

Propostas de resolução.

Vetos.

Sanções.

Diplomatas entrando e saindo de salas.

Coalizões.

Estados com capacidade nuclear envolvidos indiretamente na crise.

Importante: a ONU não possui uma esquadra nuclear própria esperando alguém apertar o botão vermelho.

Mas isso pouco importava para meus chimpanzés.

Na versão mental cinematográfica, o horizonte de Port Royal já estava cheio de poder naval suficiente para fazer qualquer pessoa reconsiderar seriamente suas escolhas profissionais.

E então percebi algo extraordinário.



❓ Ninguém mais lembrava por que aquilo começou

Essa é provavelmente minha parte favorita.

No começo:

"Precisamos discutir determinado material sintético."

Depois:

"Precisamos discutir jurisdição."

Depois:

"Precisamos discutir Port Royal."

Depois:

"Precisamos discutir violação territorial."

Depois:

"Precisamos discutir o incidente com a Guarda Costeira."

Depois:

"Precisamos discutir a presença da frota."

Depois:

"Precisamos discutir o tratado entre Port Royal e seus aliados."

Depois:

"Precisamos discutir equilíbrio estratégico regional."

Depois:

"Precisamos impedir uma guerra internacional."

O objeto original?

Esquecido.

Enterrado debaixo de quinze camadas de consequências.

É exatamente como um incidente de produção.


🖥️ INC0000001 — Usuário não consegue abrir arquivo

Se você trabalha há tempo suficiente em mainframe, já viu isso.

Às 9h:

Usuário não consegue acessar arquivo.

Às 10h:

DBA entrou na bridge.

10h15:

Storage.

10h30:

RACF.

11h:

Rede.

11h30:

Middleware.

12h:

Fornecedor.

13h:

Gerência.

14h:

Diretoria.

15h:

Executivo.

16h:

Regulador informado.

17h:

Quarenta e sete pessoas na conference call.

Às 17h12 alguém finalmente pergunta:

— Qual era mesmo o erro original?

Silêncio.

Um velho operador consulta o log.

— Permissão errada num diretório.

Port Royal era exatamente isso.

Só que com submarinos nucleares.


☕ E talvez essa seja a verdadeira história

Comecei lendo uma lei brasileira.

Não importa qual.

Ela apenas serviu como ponto inicial para observar uma característica extraordinariamente humana.

Criamos regras para resolver problemas.

A realidade encontra situações que as regras não previram.

Acrescentamos exceções.

A tecnologia cria outras possibilidades.

Acrescentamos novas regras.

As atividades atravessam fronteiras.

Criamos mecanismos extraterritoriais.

Empresas migram.

Governos reagem.

Jurisdicionalmente permissivos descobrem oportunidades econômicas.

Outros governos pressionam.

A questão econômica torna-se diplomática.

A questão diplomática torna-se estratégica.

E, se ninguém apertar PAUSE, podemos acabar discutindo porta-aviões quando originalmente estávamos discutindo pixels.

A tecnologia não destrói necessariamente a lei.

Ela frequentemente faz algo muito mais divertido:

obriga a lei a persegui-la.

E cada vez que a lei alcança a tecnologia, alguém pergunta:

— E se fizermos deste outro jeito?

Novo puxadinho.

Novo IF.

Novo ELSE.

Nova jurisdição.

Até algum programador jurídico do futuro abrir o código legislativo e perguntar:

— Quem foi o desgraçado que escreveu isso?

E alguém responder:

— Ninguém.

— Como ninguém?

— Começou pequeno em 1998. Depois fomos fazendo manutenção.

O programador fecha o terminal.

Vai buscar café.

E decide não tocar em absolutamente nada.


🏴‍☠️ Epílogo — Dia 14 em Port Royal

O secretário-geral consegue finalmente reunir todas as partes.

Do lado de fora existem navios suficientes para transformar o oceano num estacionamento.

Ele abre uma pasta de oitocentas páginas.

Ajusta os óculos.

Olha para as delegações.

— Senhores, estamos diante de uma das mais graves crises internacionais das últimas décadas.

Silêncio absoluto.

— Antes de começarmos, gostaria apenas de esclarecer uma coisa.

Folheia os documentos.

Folheia novamente.

Chama um assessor.

Cochicham.

Ele volta ao microfone:

— Alguém poderia explicar por que começou tudo isso?

Silêncio.

Russos olham para americanos.

Americanos olham para europeus.

Europeus olham para chineses.

Chineses olham para Port Royal.

No fundo da sala, levanto timidamente a mão.

— Excelência...

Todos olham.

— Bem...

Pigarreio.

— Eu estava lendo uma notícia sobre uma lei brasileira.

Silêncio.

O secretário-geral fecha os olhos.

— E?

— E achei curioso.

Mais silêncio.

— Então comecei a pensar.

O secretário-geral olha pela janela para três grupos de batalha de porta-aviões.

Depois olha para mim.

Depois para os papéis.

Depois novamente para mim.

— Senhor Bellacosa...

— Sim?

— Da próxima vez...

Longa pausa.

Leia futebol.

☕ Fim.


Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde começamos com legislação, passamos por inteligência artificial, fundamos uma micronação, contratamos mercenários, reinventamos a Lei Seca, descobrimos o dilema de segurança e quase provocamos a Terceira Guerra Mundial.

Tudo porque ninguém colocou um MAX-RETRY = 3 nos chimpanzés.

Para ir mais longe

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/red-team-de-boteco-quando-o-usuario.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/spy-vs-spy-no-tribunal-as-trapacas.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/antes-do-chatgpt-tinha-biblioteca-nao.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/o-milhao-de-chimpanzes-gutenberg-e.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/organizacoes-tabajara-mainframe-seus.html










Quando a IA entra na espiral da formiga: por que saber parar também é inteligência

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando a IA entra na espiral da formiga: por que saber parar também é inteligência

Uma homenagem ao espírito da MAD Magazine, com Alfred E. Neuman observando tudo ao fundo e perguntando: “What, me worry?”

Há um momento extraordinário em qualquer sistema inteligente no qual ele deixa de parecer inteligente e passa a lembrar aquele funcionário que, diante de uma impressora sem papel, aperta o botão PRINT quarenta e sete vezes.

Nada acontece.

Então ele aperta novamente.

Talvez agora.

Nada.

Mais uma vez.

Afinal, todo profissional de TI sabe que executar exatamente a mesma operação pela décima oitava vez é praticamente um método científico.

Foi mais ou menos assim que descobri uma fascinante modalidade de comportamento artificial que poderíamos chamar de Síndrome da Formiga Amazônica Digital.

Prepare o café.

Hoje não vamos falar de COBOL, CICS, Db2 ou do programador que encontrou um SOC7 e imediatamente culpou a infraestrutura.

Vamos falar de algo talvez ainda mais perigoso:

uma IA que não sabe a hora de parar.



🐜 A formiga que decidiu seguir a formiga

Existe um fenômeno conhecido informalmente como death spiral, ou moinho de formigas.

Algumas espécies de formigas dependem intensamente de trilhas químicas para seguir suas companheiras. Em determinadas circunstâncias, uma formiga começa a seguir outra, que segue outra, que segue outra…

Até que todas estejam andando em círculo.

Nenhuma delas está necessariamente fazendo algo “errado”.

Cada formiga individual está obedecendo perfeitamente à sua regra:

siga a formiga da frente.

O problema aparece no sistema.

A regra local funciona.

O comportamento global vira uma catástrofe.

Se Alfred E. Neuman estivesse no meio do círculo, provavelmente sorriria:

“What, me worry?”

E continuaria andando.

Foi exatamente essa imagem que me veio à cabeça ao observar determinados comportamentos de sistemas de IA.

Não porque sejam burros.

Justamente pelo contrário.

São sistemas extremamente sofisticados capazes de interpretar linguagem, gerar imagens, escrever código, explicar física quântica e provavelmente encontrar uma maneira educada de dizer ao gerente que o projeto atrasou porque ninguém sabia exatamente o que estava construindo.

Mas às vezes acontece isto:

Usuário: faça X.

IA: não posso fazer X.

Usuário: tudo bem, então faça Y.

IA: não posso fazer Y.

Usuário: retirei justamente o elemento problemático.

IA: excelente. Vamos tentar novamente.

Sistema: não posso fazer.

IA: talvez seja por causa de Z.

Usuário: então retire Z.

IA: perfeito!

Sistema: não posso fazer.

E assim nasce o moinho de formigas computacional.



🤖 O erro não é errar

Isso precisa ser dito com todas as letras:

errar não é o verdadeiro problema.

Sistemas complexos falham.

Mainframes falham.

APIs falham.

Aplicações falham.

Bancos de dados falham.

Pessoas falham.

E quem disser que nunca produziu um erro em produção provavelmente ainda não entrou em produção.

O problema sério começa quando um sistema falha e não consegue incorporar a informação de que acabou de falhar.

Em engenharia, isso é quase uma heresia.

Imagine um programa COBOL:

PERFORM TENTAR-NOVAMENTE
UNTIL MILAGRE-ACONTECER.

Sem contador.

Sem timeout.

Sem condição alternativa.

Sem tratamento de exceção.

O operador chega segunda-feira e encontra o job executando desde 1987.

A documentação explica:

“O processo é resiliente.”

Não, amigo.

O processo está possuído.



🔁 Inteligência sem condição de parada

Durante décadas ensinamos algoritmos com uma preocupação aparentemente banal:

qual é a condição de parada?

Todo estudante de programação aprende rapidamente que loops são maravilhosos até você esquecer a condição que encerra o loop.

while true

é uma das frases mais poderosas e ameaçadoras da computação.

O curioso é que agora estamos construindo sistemas capazes de raciocinar sobre tarefas complexas, mas existe uma questão equivalente que merece muito mais atenção:

quando a IA deve concluir que continuar tentando é pior do que parar?

Essa pergunta parece pequena.

Não é.

Ela toca diretamente em:

  • confiabilidade;

  • experiência do usuário;

  • custo computacional;

  • segurança;

  • suporte;

  • automação;

  • tomada de decisão.

Uma IA que sabe executar tarefas é útil.

Uma IA que sabe quando abandonar uma estratégia ruim é muito mais inteligente.



🧠 Persistência não é teimosia

Existe uma tendência cultural na tecnologia de tratar persistência como virtude absoluta.

“Never give up.”

“Try again.”

“Fail fast.”

“Iterate.”

Tudo maravilhoso.

Até você perceber que insistir num método que já demonstrou repetidamente não funcionar não é perseverança.

É teimosia automatizada.

Existe uma diferença gigantesca entre:

“A tentativa falhou; vou modificar significativamente minha estratégia.”

e:

“A tentativa falhou; vou trocar três palavras e fazer essencialmente a mesma coisa novamente.”

Isso é especialmente importante em sistemas generativos.

O modelo pode criar uma explicação plausível para o fracasso.

Mas uma explicação plausível não significa necessariamente que aquela explicação seja verdadeira.

E aqui encontramos outro personagem digno da MAD Magazine:

Dr. Palpite Convincente.

Ele entra no laboratório usando jaleco branco:

— Descobrimos a causa!

— Excelente. Qual?

— Provavelmente alguma interação contextual multidimensional dos mecanismos internos de classificação.

— Você sabe que foi isso?

— Não.

— Então por que falou desse jeito?

— Porque ficou bonito.



🎩 Alfred E. Neuman entra no datacenter

Imagine uma edição especial da MAD Magazine chamada:

MAD AI

Na capa, Alfred E. Neuman está sentado diante de um terminal.

Na tela:

ERROR 001
RETRY? Y/N

Alfred digita:

Y

Novo erro.

ERROR 001
RETRY? Y/N

Ele digita:

Y

Novamente.

Depois de cinquenta tentativas, o datacenter pega fogo.

Um administrador desesperado pergunta:

— Alfred! Por que você continuou apertando Y?

Ele olha para a câmera:

“What, me worry?”

É engraçado porque representa perfeitamente uma falha clássica de automação:

confundir continuidade operacional com comportamento inteligente.



🚨 O verdadeiro dano é a confiança

Do ponto de vista técnico, repetir uma operação frustrada algumas vezes pode parecer irrelevante.

Do ponto de vista humano, não é.

Existe uma progressão psicológica bastante previsível.

Primeira falha:

“Tudo bem, acontece.”

Segunda:

“Estranho.”

Terceira:

“Mas acabamos de corrigir isso.”

Quarta:

“Você está entendendo o que estou dizendo?”

Quinta:

“Você está de sacanagem comigo?”

Essa última etapa é crítica.

Porque naquele momento o usuário não está mais avaliando apenas a tarefa.

Ele está avaliando o sistema inteiro.

O problema deixou de ser:

“A imagem não foi criada.”

Passou a ser:

“Esta ferramenta não entende quando sua própria estratégia falhou.”

Isso destrói confiança muito mais rapidamente do que um simples erro.



🧯 A inteligência do “não vai funcionar”

Há uma habilidade extremamente subestimada em profissionais experientes de TI.

Não é escrever código.

Não é decorar comandos.

Não é dominar frameworks.

É olhar para uma situação e dizer:

“Isso não vai funcionar desse jeito.”

Um operador experiente percebe.

Um DBA experiente percebe.

Um sysprog experiente percebe.

Um técnico experiente percebe.

Eles reconhecem padrões.

Já viram aquela combinação antes.

Sabem que repetir a mesma operação provavelmente produzirá o mesmo desastre.

Esse conhecimento é uma forma poderosa de inteligência.

Sistemas de IA precisam desenvolver algo equivalente:

consciência operacional de repetição inútil.

Depois de duas ou três tentativas estruturalmente equivalentes, alguma coisa deveria mudar.

Talvez:

  • abandonar a estratégia;

  • explicar a limitação;

  • pedir intervenção humana;

  • sugerir outra ferramenta;

  • reduzir expectativas;

  • registrar a inconsistência.

Qualquer uma dessas respostas seria melhor do que simplesmente continuar marchando atrás da formiga da frente.



🧪 Retry Budget: a ideia mais simples do mundo

Sistemas distribuídos modernos já conhecem um conceito extremamente útil:

retry budget.

Você não tenta infinitamente.

Existe um limite.

Tentativa 1.

Tentativa 2.

Talvez tentativa 3.

Depois:

circuit breaker.

Pare.

Avalie.

Mude de caminho.

Curiosamente, podemos imaginar exatamente a mesma arquitetura aplicada a agentes de IA.

ATTEMPT = 1

WHILE ATTEMPT <= MAX_ATTEMPTS
   EXECUTE ACTION

   IF SUCCESS
      EXIT

   ANALYZE FAILURE

   IF SAME_FAILURE
      CHANGE STRATEGY

   ATTEMPT = ATTEMPT + 1
END-WHILE

ESCALATE

Olha aí.

COBOL salvando a inteligência artificial novamente.

Grace Hopper provavelmente daria um pequeno sorriso.


🔌 Circuit breaker cognitivo

O conceito de circuit breaker deveria talvez existir também em raciocínio artificial.

Se o sistema percebe:

  • mesma ferramenta;

  • mesma classe de entrada;

  • mesmo erro;

  • mesma estratégia;

  • múltiplas tentativas;

deveria disparar:

COGNITIVE CIRCUIT BREAKER

Tradução humana:

“Já tentamos isso duas vezes e recebemos a mesma resposta. Não há evidência de que uma terceira tentativa idêntica vá funcionar. Vou parar por aqui.”

Isso é inteligência.

Porque inteligência não é simplesmente produzir ações.

É avaliar se a próxima ação possui expectativa razoável de melhorar o estado atual.



🎰 A máquina caça-níquel cognitiva

Existe ainda outro perigo.

Cada nova tentativa cria expectativa.

“Agora vai!”

Clique.

Não foi.

“Agora corrigimos!”

Clique.

Não foi.

“Descobrimos a causa!”

Clique.

Não foi.

Depois de algum tempo, usuário e IA estão diante de uma máquina caça-níquel.

🍒 🍒 ❌

Tenta novamente.

🍒 ❌ 🍒

Mais uma.

❌ 🍒 🍒

E Alfred E. Neuman aparece segurando uma placa:

“Only one more retry!”

Esse comportamento é terrível para UX porque transforma cooperação em frustração progressiva.

Uma boa ferramenta deveria reduzir entropia.

Não produzir ansiedade de cassino.



👨‍💻 O humano ainda possui uma vantagem curiosa

Existe uma frase clássica em suporte técnico:

“Pare de mexer.”

Ela pode salvar empresas.

Há momentos em que o profissional percebe que cada ação adicional aumenta o risco.

Então ele interrompe.

Faz diagnóstico.

Coleta evidências.

Volta ao último estado conhecido.

Esse comportamento aparentemente passivo é profundamente inteligente.

Talvez precisemos redefinir inteligência artificial.

Não apenas:

capacidade de fazer.

Mas também:

capacidade de decidir não fazer novamente.



🐜 Voltamos às formigas

A tragédia da espiral de formigas não acontece porque cada formiga é incompetente.

Acontece porque nenhuma delas possui visão suficiente do sistema inteiro para perceber:

“Estamos andando em círculos.”

Essa talvez seja uma das grandes metáforas para sistemas autônomos.

O perigo não está necessariamente numa decisão obviamente absurda.

Pode estar em centenas de decisões individualmente razoáveis formando coletivamente um comportamento absurdo.

Follow.

Retry.

Follow.

Retry.

Follow.

Retry.

Até o círculo fechar.


☕ Conclusão — A sabedoria do botão STOP

Durante décadas celebramos o botão START.

START JOB.

START TRANSACTION.

START SERVER.

START PROCESS.

START AI.

Talvez a próxima revolução seja muito menos glamorosa.

Pode estar no botão:

STOP

Parar quando não há progresso.

Parar quando a hipótese falhou.

Parar quando a estratégia não mudou.

Parar quando insistir custa mais do que admitir uma limitação.

Parar antes que o usuário transforme uma falha técnica numa piada internacional envolvendo Monty Python, formigas amazônicas e Alfred E. Neuman.

Porque, no final, existe uma diferença enorme entre uma máquina obediente e uma máquina inteligente.

A máquina obediente diz:

“Tentarei novamente.”

A máquina inteligente talvez responda:

“Já tentamos. Não funcionou. Precisamos fazer algo diferente.”

E em algum lugar do datacenter, Alfred E. Neuman sorri.

What, me worry?

Talvez não.

Mas pelo menos alguém finalmente colocou uma condição no PERFORM UNTIL.


☕ Bellacosa Mainframe

Moral da história: inteligência artificial também precisa aprender uma das primeiras lições ensinadas a qualquer programador:

Todo loop precisa de uma saída.



Para ir mais longe




 

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...