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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Cautious Hero sem Medo e com muita cautela

Bellacosa Mainframe apresenta Kono Yuusha ga Ore Tueee Kuse ni Shinchou Sugiru

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Cautious Hero sem Medo e com muita cautela

Quando o Programador COBOL Descobre que Paranoia, Testes e Planejamento Podem Salvar Muito Mais que um Mundo Fantástico

"No universo IBM Z existe um velho ditado que nunca foi oficialmente escrito em nenhum manual da IBM: quem testa pouco, reza muito na produção."

Ao assistir Cautious Hero, muitos espectadores enxergam apenas uma comédia isekai cheia de exageros.

Eu enxergo outra coisa.

Vejo um excelente curso sobre engenharia de software, gestão de riscos, qualidade, DevOps, resiliência e arquitetura de sistemas, tudo embrulhado em uma história extremamente divertida.

É curioso perceber como um anime consegue ensinar princípios que um programador COBOL levaria anos para aprender trabalhando em um banco.

Talvez seja justamente por isso que este anime tenha conquistado tantos fãs.


Ficha Técnica

ItemInformação
Título original慎重勇者 ~この勇者が俺TUEEEくせに慎重すぎる~ (Shinchou Yuusha: Kono Yuusha ga Ore Tueee Kuse ni Shinchou Sugiru)
Título internacionalCautious Hero: The Hero Is Overpowered but Overly Cautious
Autor (Light Novel)Light Tuchihi
IlustraçõesSaori Toyota
EstúdioWhite Fox
DiretorMasayuki Sakoi
Composição da sérieKenta Ihara
Design de personagensMai Toda
Trilha sonoraYoshiaki Fujisawa
Lançamento2 de outubro de 2019
ExibiçãoOutubro a dezembro de 2019
Episódios12
Duraçãoaproximadamente 23 minutos
OrigemLight Novel
Classificação indicativa16 anos
GênerosIsekai, Fantasia, Aventura, Comédia, Ação 

Sinopse

A jovem deusa Ristarte recebe uma missão extremamente complicada: salvar o mundo de Gaeabrande, classificado como dificuldade S, onde inúmeros heróis anteriores fracassaram.

Para isso ela invoca um humano da Terra chamado Seiya Ryuuguuin.

Logo percebe que convocou alguém absurdamente poderoso.

Mas também...

absurdamente cauteloso.

Seiya nunca entra em combate sem estar preparado.

Nunca enfrenta um inimigo sem um plano.

Nunca acredita que venceu.

Nunca confia na sorte.

E é justamente aí que mora toda a genialidade da obra.


A história

A narrativa segue o formato clássico dos isekais.

Existe:

  • uma deusa

  • um herói convocado

  • um Rei Demônio

  • cidades

  • monstros

  • magias

  • níveis

  • equipamentos

Até aqui...

nada de novo.

Mas basta assistir ao primeiro episódio para perceber que tudo será diferente.

Enquanto outros protagonistas saem correndo para enfrentar monstros...

Seiya decide treinar.

Depois treinar novamente.

Depois comprar centenas de poções.

Depois verificar seus equipamentos.

Depois fazer mais treinamento.

Depois voltar e treinar outra vez.

É uma inversão completa do clichê do "herói invencível".


O que existe de diferente?

Este anime faz uma pergunta extremamente interessante:

E se o protagonista realmente levasse a missão a sério?

Na maioria dos isekais modernos, os heróis:

  • improvisam

  • vencem facilmente

  • aprendem durante a batalha

Seiya faz exatamente o contrário.

Ele transforma cada luta em um projeto de engenharia.

É praticamente um gerente de qualidade ISO 9001 vestido de cavaleiro.


Os personagens

Seiya Ryuuguuin

O protagonista.

Extremamente poderoso.

Extremamente inteligente.

Extremamente desconfiado.

Sua frase poderia facilmente ser:

"Planejamento é mais importante que coragem."

Ele nunca luta por impulso.


Ristarte

A deusa responsável pela missão.

É praticamente o oposto de Seiya.

Ela representa:

  • emoção

  • improviso

  • entusiasmo

  • impulsividade

Grande parte da comédia nasce justamente dessa diferença.


Mash

Jovem dragonoide.

Representa coragem.

Também simboliza o crescimento pessoal durante a aventura.


Elulu

Outra dragonoide.

Possui enorme importância em diversos momentos dramáticos da história.

Sua evolução é bastante interessante.


Ariadoa

Uma deusa muito mais experiente.

Ela funciona como uma espécie de mentora.

É uma personagem cercada por mistério desde sua primeira aparição.


As aventuras

Durante os 12 episódios vemos praticamente uma campanha completa de RPG.

Entre elas:

  • combate contra cavaleiros demoníacos

  • exploração de cidades

  • treinamento divino

  • armas lendárias

  • dragões

  • deuses

  • reis demônios

  • viagens entre mundos

  • magias proibidas

  • sacrifícios

  • reviravoltas emocionantes

Cada aventura parece inicialmente apenas mais uma piada.

Mas quase todas escondem pistas importantes para o final.


As mensagens ocultas

Aqui está a verdadeira riqueza do anime.

1. Trauma muda pessoas

Sem revelar spoilers.

Descobrimos que Seiya não nasceu cauteloso.

Ele se tornou assim.

O anime mostra que experiências traumáticas podem alterar completamente nossa forma de agir.


2. Preparação salva vidas

Esta talvez seja a maior lição.

Em TI chamamos isso de:

  • contingência

  • rollback

  • plano B

  • disaster recovery

  • testes

Seiya simplesmente vive isso.


3. Poder sem disciplina é inútil

Ele poderia confiar apenas na força.

Mas prefere confiar na preparação.


4. Inteligência supera talento

O anime deixa claro que planejamento frequentemente vence força bruta.


5. O excesso também possui custo

Existe um equilíbrio.

Ser cuidadoso é excelente.

Mas viver apenas com medo também pode impedir o progresso.

Essa dualidade aparece diversas vezes ao longo da narrativa.


Temáticas

A obra mistura vários temas:

  • responsabilidade

  • culpa

  • amadurecimento

  • amizade

  • sacrifício

  • estratégia

  • confiança

  • liderança

  • crescimento pessoal

  • redenção

Por trás das piadas existe uma história surpreendentemente emocional.


A qualidade da animação

O estúdio White Fox já era conhecido por produzir séries visualmente marcantes, como Steins;Gate e Re:Zero. Em Cautious Hero, o estúdio equilibra cenas de ação bem coreografadas com expressões faciais exageradas que reforçam a comédia, especialmente nas reações de Ristarte. 

Os destaques técnicos incluem:

  • excelente direção de timing cômico;

  • expressões faciais extremamente caricatas;

  • boas sequências de magia e combate;

  • trilha sonora que alterna humor e tensão;

  • ritmo consistente ao longo da temporada.


O humor

O humor funciona porque nasce da lógica.

Seiya não é engraçado porque faz piadas.

Ele é engraçado porque leva absolutamente tudo ao extremo.

Um inimigo caiu?

Ele o destrói novamente.

Depois mais uma vez.

Depois verifica os destroços.

Depois pergunta:

"Tem certeza de que morreu?"

Quem trabalha em produção de sistemas provavelmente sorri, porque já viu "processos mortos" voltarem a executar, jobs reaparecerem ou erros aparentemente resolvidos ressurgirem.


O impacto cultural

Embora não tenha alcançado a popularidade de gigantes como Re:Zero ou Konosuba, Cautious Hero conquistou uma comunidade bastante fiel. Muitos fãs destacam justamente a combinação entre humor e a mudança de tom nos episódios finais, além da personalidade única de Seiya, frequentemente comparado ao "Batman dos isekais" por sempre chegar preparado para qualquer situação.

Diversas expressões do protagonista viraram memes entre fãs de anime, e a série continua sendo lembrada como uma das comédias de fantasia mais criativas da década.


Curiosidades

  • O episódio 3 sofreu atraso durante a exibição original devido a problemas de produção.

  • A abertura "TIT FOR TAT", da banda Myth & Roid, tornou-se bastante popular entre fãs do gênero.

  • O encerramento "be perfect, plz!", interpretado por Riko Azuna, contrasta com a intensidade da história usando um tom mais leve. 


Bellacosa Mainframe — O que um Programador COBOL aprende com Seiya?

Agora imagine que Seiya fosse contratado para trabalhar em um grande banco.

Antes de colocar um programa COBOL em produção ele faria:

✔ revisão completa do código

✔ teste unitário

✔ teste integrado

✔ teste de volume

✔ teste de rollback

✔ análise de SQLCODE

✔ análise de ABEND

✔ simulação de indisponibilidade

✔ validação do JCL

✔ conferência de parâmetros

✔ comparação de versões

✔ plano de recuperação

✔ documentação completa

Enquanto todos reclamariam da demora...

Ele apenas responderia:

"E se acontecer alguma coisa?"

No universo IBM Z, onde uma única falha pode afetar milhões de transações financeiras, essa pergunta vale ouro. Seiya pensa como um engenheiro de confiabilidade: elimina riscos antes que eles cheguem à produção. Sua cautela exagerada lembra práticas modernas como testes de regressão, integração contínua, planos de contingência e observabilidade.

No fim das contas, Cautious Hero não é apenas uma paródia dos isekais. É uma história sobre disciplina, responsabilidade e a diferença entre confiar na sorte ou confiar na preparação. Para um Padawan COBOL, a mensagem é clara: heróis não salvam sistemas porque são fortes; eles os salvam porque se prepararam para tudo o que poderia dar errado.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

🍓🥪 Sando Furutsu – O Sanduíche de Frutas que Domina os Animes

 


🍓🥪 Sando Furutsu – O Sanduíche de Frutas que Domina os Animes
(Um post Bellacosa Mainframe para Otakus e Amantes da Gastronomia do Japão)

Por Vagner Bellacosa — Blog El Jefe Midnight Lunch


Se você assiste anime com atenção de SYSOP vasculhando um SDUMP, já deve ter notado aquele sanduíche fofíssimo, branquinho, com creme brilhando e frutas cortadas em formato geométrico que até parecem feitas com SORT FIELDS.

Esse é o Sando Furutsu (フルーツサンド) — o lendário Fruit Sandwich.
Sim, um sanduíche de frutas.
Sim, doce.
Sim, totalmente japonês.
E sim, aparece tanto em anime que parece que todo protagonista, de isekai a slice-of-life, começa o dia com um.

Hoje vamos abrir o dataset gastronômico, carregar o módulo da nostalgia e explicar esse clássico japonês com a fineza Bellacosa Mainframe.





🍰 1) O que é o Sando Furutsu?

O Sando Furutsu é um sanduíche de frutas com pão de forma japonês (o famoso shokupan), extremamente macio, feito com:

  • Pão branco ultramacio (que parece ALLOCADO com “BUFNO=INFINITO”)

  • Chantilly leve e suave

  • Frutas fatiadas (morango, pêssego, manga, kiwi)

  • Um corte perfeito mostrando o desenho da fruta — estética é tudo no Japão

É um doce leve, barato e iconicamente kawaii, quase um Hello Kitty em forma de sanduíche.


📜 2) Origem: Japão Pós-Guerra e o Shokupan Overpower

O Sando Furutsu nasce lá pelos anos 1950–60, quando o pão branco ganhou força no Japão. O Japão adorava experimentar misturas “ocidentais”, e surgiu a ideia genial:

“E se fizermos um sanduíche…
só que… bonito?”

O povo japonês tem um talento ancestral para pegar ideias comuns e transformá-las em obras-primas de estética, precisão e suavidade.
É o Z/OS do pão de forma: robusto, eficiente, simples e dominante.

O primeiro registro popular é de lojas de frutas premium de Tóquio, tipo a Senbikiya, famosa por vender melões mais caros que um iPhone.


🎌 3) Por que aparece tanto em animes?

Porque o Sando Furutsu é:

✔ Barato
✔ Kawaii
✔ Fotogênico
✔ Simples
✔ “Vibe japonesa” instantânea
✔ Símbolo de cafeteria, amizade e conforto

Ele representa aquele momento “vida tranquila”, comum em:

  • Slice of Life

  • Romance escolar

  • Comédias fofas

  • Animes de culinária

  • Heroínas comendo algo lindo que dá vontade de proteger

É quase um JOBLOG de fofura.


🎬 4) Animes onde o Sando Furutsu aparece

Prepare seu SORT FIELDS e sua nostalgia:

🍓 Fruits Basket

Porque claro: fruta + drama emocional + Japão = sando.

🍞 Shokugeki no Souma

Ele aparece como referência nas cafeterias da série.

🥪 Komi-san wa Komyushou desu

Komi recebe ofertas de comida fofinha o tempo todo.
Sando = socializar sem falar. A matemática bate.

🍵 K-On!

Cafeteria? Chá? Dia ensolarado?
Alguém sempre come algo semelhante.

🧁 Cardcaptor Sakura (em versões mais modernas)

Clamp ama estética.
E o sando é praticamente estética materializada.


🧪 5) Por que ele faz tanto sucesso?

Porque o Sando Furutsu é o “Hello World” do Japão”:

  • Fácil de fazer

  • Delicioso

  • Instagramável

  • Leve

  • Elegante

  • Confortável

  • “Limpo” visualmente

Ele é culinária sem exceções, igual uma JCL bem escrita: funciona sempre.


🕵️ 6) Easter Eggs e detalhes que pouca gente nota

🥛 O creme NUNCA é muito doce

Japoneses odeiam sobremesa pesada.
É sempre chantilly leve, quase um código limpo.

🍞 O pão é cortado sem casca

O Japão considera casca ruído visual.
E otakus também — é por isso que a imagem sempre está perfeita.

🔪 O corte é calculado

Animadores literalmente fazem o corte do sando como cena de impacto.
Geometria das frutas tem que ficar centralizada.
É quase como alinhar colunas no ISPF.

🍈 Se aparecer melão, é sando de gente rica

Melão japonês é caro.
Caríssimo.
Dezena de milhares de ienes.
Se aparece, é foreshadowing de família endinheirada.


🛠️ 7) Como fazer um Sando Furutsu (modo Bellacosa)

Ingredientes:

  • Shokupan (pode usar pão de forma bem fofinho)

  • Chantilly

  • Frutas grandes e bonitas

  • Faca afiada

  • Jeito japonês de montar coisas perfeitas

Passo-a-passo:

  1. Passe chantilly dos dois lados.

  2. Posicione as frutas com lógica de layout de tela ISPF:
    centralizadas, simétricas, e com previsão de corte diagonal.

  3. Feche, envolva em plástico filme e pressione levemente.

  4. Deixe na geladeira 1 hora.

  5. Corte com precisão cirúrgica (modo ninja ativado).

Fica lindo.
Lindo mesmo.
É um dataset doce.


🚀 8) Resumo Bellacosa

Sando Furutsu = o sanduíche de frutas japonês que aparece em tudo porque é:

  • bonito

  • doce

  • simples

  • barato

  • icônico

  • estético

  • com vibe pura de vida tranquila

Perfeito para animes, cafeterias, waifus, lolitas e qualquer cena que precise transmitir doçura e paz.


quarta-feira, 23 de outubro de 2019

🌙 Madrugada Discada — o templo sagrado dos 28.800 bps e dos sonhadores digitais

 



🌙 Madrugada Discada — o templo sagrado dos 28.800 bps e dos sonhadores digitais

Ah, padawan… havia um tempo em que a internet não era um direito, era um ritual.
Um culto silencioso celebrado à meia-noite, ao som de um modem cantando sua ópera metálica: “piiiiii... krrrrr... tchhhhhh... biiiiip-biiiip”.
Era o chamado dos deuses da conexão — e só os iniciados sabiam o valor desse som.



💤 O rito do acesso noturno
Lá pelos idos de 1996 a 2003, conectar-se à internet era um ato de engenharia e estratégia familiar.
Os planos de acesso noturno das provedoras — IG, Terra, UOL, Mandic — tinham assinaturas acesso free, porém o custo de um impulso telefônico era assustador, por isso as companhias telefonicas para incentivarem o uso de dados, liberavam conexão grátis a partir da meia-noite pagando apenas 1 impulso.
Então a rotina era sagrada:
dormir umas horinhas depois da novela, jantar qualquer coisa, e às 23h59 já estar de frente pro monitor CRT, dedo no Discador do Windows 98, esperando o relógio virar.

🖥️ O despertar dos 28.800 bps
Quando conectava… ah, que glória!
A sensação de poder abrir o STI, meu primeiro provedor, Altavista, visitar o Cadê?, entrar num chat da UOL, e ver as letras aparecendo linha a linha — isso era magia pura.
O PC 486 ou o Pentium MMX virava uma nave, e a madrugada era o nosso cosmos digital.
A tela iluminava o quarto escuro, o ventilador zumbia, e o tempo simplesmente… parava.

🌀 As epopeias dos downloads
Baixar uma música no Napster ou Kazaa era um ato de fé.
Um MP3 de 4MB levava duas horas — e se alguém tirasse o telefone do gancho, adeus conexão.
Muitos dormiam com o download a 87%, torcendo pra acordar com o “Download Complete”.
Outros passavam a madrugada inteira trocando .jpg, scripts do mIRC, gifs e sonhos.

💬 Os templos da madrugada
Os chats eram nossas ágoras.
#brasil, #amizade, #noturnos, #underground…
Ali nasciam amizades, paixonites, tretas e promessas que se dissolviam com o nascer do sol.
Não existia feed, não existia algoritmo — só curiosidade e paciência.

O nascer do sol digital
E quando o céu começava a clarear, os olhos pesavam, o modem ainda chiava, e o corpo pedia cama.
Um banho rápido, café com pão amanhecido e… direto pro trabalho.
Com olheiras, mas com a alma leve — porque você viveu a madrugada conectada, e ninguém podia tirar isso de você.

💡 Reflexão Bellacosa Mainframe style:
Naquela época, a internet não era sobre velocidade — era sobre descoberta.
Não havia pressa, só fascínio.
Cada clique era uma expedição, cada site, um planeta novo.
A gente esperava, sonhava, desconectava e voltava — porque no fundo, sabíamos que a magia estava no processo, não no download.

E hoje, padawan, quando a fibra óptica carrega o mundo em milissegundos…
às vezes sinto falta de esperar a meia-noite, ouvir o modem, e sentir que o universo inteiro estava ali — no som de um chiado, na solidão de um quarto, e na promessa de um novo link. 🌌

#BellacosaMainframe #ElJefe #NostalgiaDigital #InternetDiscada #Modem56k #MadrugadaRaiz




terça-feira, 22 de outubro de 2019

Como um Sysprog Júnior Pode Aprender a Enxergar a Alma do IBM Z Sem Invocar Magia Negra, RMF Jedi Masters ou Adivinhar Gargalos pelo SDSF

 

Bellacosa Mainframe e o ibm rmf 



☕ O Holocron do RMF

Como um Sysprog Júnior Pode Aprender a Enxergar a Alma do IBM Z Sem Invocar Magia Negra, RMF Jedi Masters ou Adivinhar Gargalos pelo SDSF

Existe um momento na jornada de todo Sysprog Jr. em que ele descobre uma verdade desconfortável.

O mainframe não reclama.

Ele não pisca.

Ele não mostra uma barrinha vermelha dizendo:

"CPU em 98%, boa sorte."

Ele apenas continua trabalhando.

Processando milhões de transações.

Movimentando bilhões de dólares.

Executando CICS.

DB2.

MQ.

IMS.

Batch.

Java.

zCX.

OpenShift.

E fazendo tudo isso em silêncio.

Até o dia em que alguém pergunta:

"Por que o banco ficou lento às 10h37?"

E todos olham para você.

Nesse momento surge um dos maiores artefatos tecnológicos já produzidos pela IBM.

O RMF.

O verdadeiro estetoscópio do IBM Z.


O que é RMF?

RMF significa:

Resource Measurement Facility

Foi criado pela IBM para responder uma pergunta simples:

O que exatamente está acontecendo dentro do z/OS?

Ele é o principal sistema de observabilidade do IBM Z.

Pense nele como:

FerramentaAnalogia
SDSFPainel do carro
SMFCaixa preta
RMFExames médicos completos
OMEGAMONMonitor cardíaco em tempo real
GrafanaPainel bonito
RMFRaios-X, tomografia e ressonância do z/OS

Origem do RMF

Nas décadas de 70 e 80, os computadores custavam milhões de dólares.

Um upgrade errado de CPU podia custar uma fortuna.

A IBM precisava responder:

  • CPU está saturada?

  • Disco é gargalo?

  • Falta memória?

  • Canal está congestionado?

  • O WLM está funcionando?

Nasce então o RMF.

Inicialmente no:

MVS

Depois:

MVS/XA

MVS/ESA

OS/390

z/OS

Hoje continua vivo no:

RMF z/OS 3.1

RMF z/OS 3.2

Praticamente todo grande banco do planeta utiliza RMF.


O grande segredo

Muitos iniciantes pensam:

RMF = Monitor

Errado.

RMF possui três modos.


RMF Monitor I

Produz tendências.

Intervalos de coleta.

Exemplo:

CPU média

Paging

Storage

DASD

Canal

É o favorito do Capacity Planning.


RMF Monitor II

Tempo real.

Parecido com um top do Linux.

Exemplos:

CPU NOW

Address Spaces

Enqueue

Locks

Cache


RMF Monitor III

Quase tempo real.

WLM.

Performance por serviço.

CICS

DB2

MQ

Batch

Muito usado por operadores.


Arquitetura

Aplicações
     │
     ▼

SMF Records
     │
     ▼

RMF Collectors
     │
     ▼

ERBRMFPP
ERBRMF00

     │
     ▼

Reports


Monitor I
Monitor II
Monitor III

Principais componentes

ERBRMF00

Started Task.

Motor do RMF.


ERBRMFPP

Post Processor.

Gera relatórios.


ERB3XDR

Data Reporter

Exportação.


ERBSCAN

Analisador.


ERBMFH

Monitor host.


Onde configurar?

Parmlib.

Normalmente:

SYS1.PARMLIB

Membro:

ERBRMFxx

Exemplo:

ERBRMF00

Exemplo simples

CPU

SYSRPTS(CPU)

DASD

SYSRPTS(DASD)

Storage

SYSRPTS(STOR)

Channel

SYSRPTS(CHANNEL)

Exemplo completo

REPORTS(CPU,DASD,CACHE,STOR)


INTERVAL(15)


CYCLE(24)



SYSRPTS(ALL)

Significa:

Coletar a cada 15 minutos.

Durante 24 horas.

Gerar tudo.


Como iniciar

Operador:

S RMF

ou

S ERBRMF00

Parar:

P RMF

Verificando

D A,RMF

Monitor II

Comandos clássicos.

CPU

RMFCPU

Storage

RMFSTOR

Device

RMFDASD

Channel

RMFCHAN

Monitor III

Entrar:

RMFIII

Painéis ISPF.


Passo a passo para um Sysprog Jr.

Etapa 1

Descobrir se RMF está ativo.

D A,RMF

Etapa 2

Abrir ISPF.

Selecionar:

RMF

Etapa 3

Escolher:

Monitor II

Etapa 4

CPU Activity

Verificar:

Busy %

LPAR

Logical CPU

Dispatch


Etapa 5

Storage

Frames

CSA

ECSA

Paging


Etapa 6

DASD

Response Time

IOSQ

Cache Hit


Etapa 7

Salvar relatório.


Exemplo de análise

Você percebe:

CPU = 35%

Tudo bem.

Mas:

DASD Response

28 ms

Muito alto.

IOS Queue

80

Problema não é CPU.

É disco.

RMF revelou o culpado.


Relatórios mais famosos

CPU Activity

Capacidade.

SMT.

CP.

zIIP.

zAAP.


Paging Activity

Falta memória.


Device Activity

I/O.


Cache Activity

DS8000.


Coupling Facility

Parallel Sysplex.


Workload Activity

WLM.


RMF e WLM

São praticamente irmãos.

WLM decide.

RMF mede.

WLM fala:

Dê mais CPU ao CICS.

RMF responde:

Feito.
Resposta caiu para 0,12 segundos.


Easter Eggs do RMF

Pouca gente sabe.

Os nomes ERB vêm de:

Early Resource Base

Projeto interno IBM.


Os relatórios RMF possuem formato semelhante aos produzidos nos anos 80.

Muitos Sysprogs dizem:

Se você consegue ler um relatório RMF de 1987, consegue ler um de 2026.

A aparência mudou muito pouco.

IBM acredita em compatibilidade quase religiosa.


Curiosidades

O RMF consegue medir:

Cache do processador

HiperDispatch

zIIP

Crypto cards

OSA

FICON

Coupling Facility

Storage Class Memory

zEDC

SMT


É possível alimentar:

Grafana

Splunk

Elastic

Instana

OMEGAMON

IBM Z Performance and Capacity Analytics


Erros comuns dos iniciantes

Olhar apenas CPU

CPU raramente é o problema.


Ignorar IOSQ

Fila de I/O mata aplicações.


Não analisar WLM

Prioridades incorretas distorcem tudo.


Coletar dados demais

RMF também consome recursos.

Planejamento é importante.


O Holocron do Sysprog

Um velho Sysprog costumava dizer:

"O SDSF mostra que a casa está pegando fogo."

"O RMF mostra quem acendeu o fósforo."

E, depois de algum tempo trabalhando em produção, você descobre que ele estava absolutamente certo.

O RMF não é apenas uma ferramenta de monitoramento. Ele é a memória histórica do z/OS, o microscópio do Sysprog, o detector de gargalos do Capacity Planner e, muitas vezes, o único testemunho confiável do que realmente aconteceu em uma LPAR às 10h37 de uma terça-feira em fechamento bancário.

E quando você aprender a ler um relatório RMF com a mesma naturalidade com que lê um JOBLOG, terá dado um dos passos mais importantes para deixar de ser apenas um operador de comandos e começar a pensar como um verdadeiro guardião do IBM Z.

Pegue sua caneca de café. O próximo holocron pode ser o SMF, o WLM ou o OMEGAMON. A jornada de um Sysprog apenas começou. ☕🚀

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

🎨 Screentones no mangá e anime — o truque visual dos mestres japoneses

Bellacosa Mainframe e a arte de manga em screentones

 🎨 Screentones no mangá e anime — o truque visual dos mestres japoneses

Se você já folheou um mangá preto e branco e pensou: “Como eles conseguem dar tanta profundidade e textura só com tons de cinza?”, bem-vindo ao mundo mágico dos screentones — ou, como são chamados no Japão, “ton” (トーン).


🖋️ O que são screentones?

Screentones são camadas adesivas ou digitais com padrões de pontos, linhas, texturas ou sombreados usados pelos artistas de mangá para criar profundidade, contraste e emoção sem precisar usar cor.
Antes da era digital, o artista cortava folhas finas e transparentes com lâmina — tipo decalque — e aplicava diretamente sobre o papel do desenho. Hoje, softwares como Clip Studio Paint, MediBang Paint e Photoshop já trazem bibliotecas inteiras de screentones digitais.


🧩 Como funciona?

Os screentones simulam tons de cinza através de densidades de pontilhado (halftone).

  • Pontos mais próximos → área mais escura

  • Pontos mais espaçados → área mais clara

Essa ilusão ótica cria sombras, gradientes, luz, profundidade e até textura de tecido ou cabelo.


💡 Exemplos de estilos e obras

  • Osamu Tezuka (Astro Boy, Black Jack) — um dos pioneiros no uso de screentones, especialmente para criar efeitos de brilho metálico e contraste dramático.

  • Rumiko Takahashi (Inuyasha, Ranma ½) — usa screentones suaves para cabelos, roupas e emoções cômicas.

  • CLAMP (Cardcaptor Sakura, X/1999) — exploram screentones delicados e ornamentais, criando aquele “brilho etéreo” nos personagens.

  • Kentaro Miura (Berserk) — exemplo extremo: texturas densas e sobreposição de screentones criam o clima sombrio e brutal da obra.

  • Naoko Takeuchi (Sailor Moon) — usa tons cintilantes e suaves, com muitos brilhos, dando feminilidade e leveza.


🖌️ Tipos de screentones mais usados

  • Densidade (Dot tone): Pontilhado para sombras e volumes.

  • Line tone: Linhas para movimento e tensão.

  • Pattern tone: Padrões (flores, corações, estrelas) — muito comum em shōjo.

  • Gradient tone: Transições suaves, imitando degradê de luz.

  • Effect tone: Raios, brilhos, faíscas e fundos de impacto.


⚙️ Screentones digitais: a nova geração

Hoje, artistas usam screentones digitais arrastando e soltando camadas prontas.
O Clip Studio Paint é o queridinho dos mangakás modernos — ele até converte automaticamente grayscale em screentone para publicação impressa.

💡 Dica: se quiser experimentar, procure o pacote “Manga Materials” no CSP Assets — tem milhares de tons usados por profissionais.


🤓 Curiosidades para otaku

  • Mangakás tradicionais guardavam pilhas de screentones em pastas numeradas — cada padrão tinha código!

  • Um erro ao cortar screentone era caríssimo — as folhas eram importadas e vendidas por unidade.

  • No anime, o screentone é raramente usado diretamente, mas inspirou o “halftone shading” em aberturas e filtros artísticos (como em Mob Psycho 100 ou SPY×FAMILY).

  • Alguns artistas “assinam” seu estilo pelo tipo de screentone — por exemplo, Takehiko Inoue (Slam Dunk, Vagabond) mistura screentone com nanquim e pincel seco para um realismo sem igual.


☕ Dica Bellacosa para curiosos de plantão:

Quer entender o charme dos screentones?
Pegue um volume de “Death Note” e observe como o contraste entre luz e sombra muda conforme a moral de Light Yagami desce a ladeira.
Isso não é só roteiro — é screentone trabalhando!


📚 Resumo Bellacosa Style:
Screentones são o “Photoshop analógico” do mangá. Criam atmosfera, drama e textura com engenhosidade.
De folhas adesivas cortadas à mão a bibliotecas digitais, eles transformam preto e branco em pura emoção visual.

domingo, 20 de outubro de 2019

🔥 Ready Player One: quando o mainframe virou fliperama e a nostalgia ganhou CPU dedicada 🔥



 🔥 Ready Player One: quando o mainframe virou fliperama e a nostalgia ganhou CPU dedicada 🔥


Se um IBM zSeries, um Cray vetorial e um Atari 2600 entrassem num bar… Ready Player One seria a trilha sonora tocando no jukebox digital. Livro de Ernest Cline (2011) e filme de Steven Spielberg (2018), a obra é menos sobre realidade virtual e mais sobre memória, legado e o vício humano em sistemas que já entendemos.


📜 A história (ou: batch jobs rodando no OASIS)

Num futuro distópico em que o mundo real virou um dump corrompido, as pessoas vivem plugadas no OASIS, um metaverso global — pense num TSO/E com gráficos 3D, avatars e billing em créditos virtuais. O criador do sistema, James Halliday, morre e deixa um testamento digno de sysprog psicodélico: quem vencer um caça-ao-tesouro baseado em referências da cultura pop dos anos 70, 80 e 90 herda o controle total do OASIS.

O protagonista Wade Watts é o típico operador de turno da madrugada: pobre, invisível, mas que conhece cada manual não oficial do sistema. O vilão? Uma corporação que trata o OASIS como ambiente produtivo sem alma, onde tudo vira KPI, monetização e DRM.



🧠 Filosofia oculta (ou: por que Halliday odiava gente)

Halliday não era apenas um geek nostálgico — ele era um arquiteto de sistemas traumatizado por interações humanas. O OASIS é um mainframe emocional: estável, previsível, controlável. Pessoas falham; sistemas obedecem.

💡 Mensagem escondida:

Quem controla o legado cultural controla o futuro.

O desafio não é técnico, é interpretativo. Não vence quem tem mais poder computacional, mas quem entende o contexto histórico. Exatamente como manter um mainframe legado sem documentação atualizada.

🕹️ Livro vs Filme (trade-offs arquiteturais)

  • 📘 Livro: mais profundo, mais obscuro, referências mais densas. É o JCL comentado, cheio de easter eggs que só quem viveu a era entende.

  • 🎬 Filme: mais visual, mais acessível, menos purista. É o front-end moderno rodando sobre um backend legado.

Spielberg trocou puzzles intelectuais por cenas de ação — não é traição, é otimização para throughput de audiência.

🥚 Easter eggs (prepare o debugger!)

  • O DeLorean de De Volta para o Futuro com luz de Knight Rider e som de Mach 5 — um cluster híbrido de ícones.

  • O desafio em Adventure (Atari 2600) é uma aula de arqueologia digital.

  • Referências a Akira, Gundam, The Shining, Dungeons & Dragons… é um dump de memória cultural sem garbage collection.

🧠 Dica Bellacosa: pause o filme. Volte. Pause de novo. Cada frame é um IPL cultural.

🤫 Fofoquices de bastidor

  • Ernest Cline escreveu o livro quase como um testamento emocional à própria juventude.

  • Spielberg evitou usar muitas referências aos próprios filmes — humildade rara num ambiente cheio de ego, quase um sysprog que documenta o próprio código.

  • Muitos críticos chamaram a obra de “pornografia nostálgica”. Talvez. Mas nostalgia é apenas backup emocional.

🧩 Ideias que ficam

  • O futuro não é criado apenas com inovação, mas com curadoria do passado.

  • Quem ignora sistemas legados repete erros antigos.

  • Realidade virtual não substitui humanidade — só mascara latência emocional.

☕ Comentário final do operador

Ready Player One não é sobre VR, é sobre quem tem a chave do cofre onde guardamos nossas memórias. É um alerta para mainframers, devs, gamers e sonhadores:

não deixe seu mundo virar apenas um sistema bonito rodando em modo automático.

Porque no fim, como diria Halliday — e qualquer operador de plantão às 3h da manhã —
o jogo só começa quando você entende as regras que ninguém escreveu. 🖥️🕹️

El Jefe Midnight Lunch | Bellacosa Mainframe Mode ON 🚀


Eastereggs

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

🕵️ DICK TRACY E O MALWARE QUE NUNCA ENTROU NO MAINFRAME

 

Bellacosa Mainframe e os malwares

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🕵️ DICK TRACY E O MALWARE QUE NUNCA ENTROU NO MAINFRAME

RACF, vírus, worms, trojans, ransomware, wipers, spyware, infostealers, backdoors, USS, CICS, Db2, MQ, SMF, TCP/IP, Zero Trust — e o dia em que Dick Tracy descobriu que o criminoso não precisava arrombar a porta se já possuía a chave.

Sob a tutela de Dick Tracy, o detetive que sabia que encontrar o corpo era apenas o começo da investigação.



🎬 PRÓLOGO — HÁ UM VÍRUS NO MAINFRAME!

03:17 da manhã.

O telefone tocou.

O jovem programador COBOL acordou assustado.

— Produção está estranha.

— ABEND?

— Não.

— CICS caiu?

— Não.

— Db2?

— Também não.

— Então qual é o problema?

Do outro lado da linha veio a frase que nenhum programador COBOL esperava ouvir:

Acho que pegamos um vírus.

O jovem olhou para o terminal.

Aquilo parecia absurdo.

Vírus?

No mainframe?

Ele imaginava vírus como aquelas coisas do PC de casa: anexos de e-mail, executáveis suspeitos, propagandas surgindo na tela e programas dizendo:

SEU COMPUTADOR POSSUI 847 AMEAÇAS! CLIQUE AQUI!

No terminal 3270 não havia pop-up.

Não havia ventoinha girando.

Não havia bateria descarregando.

Muito menos um ícone de caveira piscando sobre o ISPF.

Mas havia alguma coisa.

Um job estava consumindo CPU em horário incomum.

Um usuário havia acessado datasets que normalmente nunca consultava.

Um processo no UNIX System Services aparecera durante a madrugada.

E havia tráfego de rede onde ninguém esperava encontrá-lo.

Nesse momento surgiu Dick Tracy.

Ele olhou para o jovem programador e disse:

— Você está procurando um vírus.

— Sim.

— Esse é o primeiro erro.

— Então o que devemos procurar?

Dick Tracy puxou seu famoso relógio comunicador.

Comportamento.

Bem-vindo ao mundo da segurança no mainframe.



🕵️ CAPÍTULO 1 — MALWARE NÃO É SINÔNIMO DE VÍRUS

Vamos começar pela primeira confusão.

Todo vírus é malware.

Nem todo malware é vírus.

Podemos imaginar:

                    MALWARE
                       │
        ┌──────────────┼──────────────┐
        │              │              │
      Virus           Worm          Trojan
        │              │              │
        ├──────────────┼──────────────┤
        │              │              │
    Ransomware      Spyware       Infostealer
        │              │              │
        ├──────────────┼──────────────┤
        │              │              │
      Wiper         Rootkit        Backdoor

Malware é o grande guarda-chuva.

Um vírus tradicional infecta outros objetos e possui algum mecanismo de propagação.

Um worm procura espalhar-se.

Um Trojan finge ser algo legítimo.

Ransomware tenta produzir extorsão.

Spyware procura observar.

Infostealers roubam informações.

Wipers destroem.

Backdoors criam caminhos escondidos.

A questão interessante para nós é outra:

Como esses conceitos aparecem quando saímos do notebook e entramos no IBM Z?

Não devemos procurar uma tradução literal.

O mainframe possui arquitetura, sistema operacional, segurança, armazenamento, processos e cultura operacional diferentes.

Portanto, Dick Tracy não procuraria VIRUS.EXE.

Ele procuraria evidências.



🏰 CAPÍTULO 2 — O MAINFRAME NÃO É UMA ILHA

Existe uma visão antiga do mainframe:

             ┌─────────────────┐
             │    MAINFRAME    │
             │                 │
             │ COBOL           │
             │ JCL             │
             │ CICS            │
             │ DB2             │
             └─────────────────┘

              Ninguém entra.
              Ninguém sai.

Seria confortável.

Mas não representa um ambiente corporativo moderno.

Podemos encontrar:

Internet
   │
Firewall
   │
Load Balancer
   │
API Gateway
   │
z/OS Connect
   │
CICS
   │
COBOL
   │
Db2

E também:

Aplicação distribuída
       │
       MQ
       │
      z/OS
       │
      CICS
       │
     COBOL

Além disso:

z/OS
 ├── TCP/IP
 ├── UNIX System Services
 ├── SSH
 ├── APIs
 ├── Java
 ├── Python
 ├── MQ
 ├── Db2
 ├── CICS
 └── IMS

Isso não significa que o mainframe seja inseguro.

Significa que ele participa da arquitetura corporativa.

E conectividade significa superfície de ataque.

A pergunta madura não é:

"O mainframe está conectado?"

A pergunta é:

"O que está conectado, através de quê, com qual identidade, utilizando qual protocolo e autorizado a fazer o quê?"

Essa é uma pergunta de Dick Tracy.



🦠 CAPÍTULO 3 — VÍRUS: E SE ALGUÉM ALTERAR O PROGRAMA COBOL?

Imagine:

BANK.PROD.LOADLIB

Dentro dela:

AUTORIZA
CADASTRO
PAGAMENTO
TRANSFER
SALDO

Agora suponha que alguém consiga substituir TRANSFER.

O invasor talvez nem precise criar um mecanismo autorreplicante.

Se TRANSFER for chamado milhares de vezes por dia, a própria arquitetura da aplicação distribui o efeito do programa adulterado.

Esse conceito merece um nome informal:

propagação lógica.

O código não precisa copiar-se para 10.000 lugares.

Um componente central comprometido pode ser executado 10.000 vezes.

Por isso LOADLIBs, bibliotecas de produção, pipelines e processos de deployment são tão importantes.

Perguntas:

Quem pode alterar a LOADLIB?

Quem pode promover programas?

Desenvolvedor pode alterar produção?

O artefato produzido no build é exatamente
o artefato colocado em produção?

Existe rastreabilidade?

O jovem COBOL começa a perceber que segurança não começa quando o programa executa.

Começa muito antes.



🐴 CAPÍTULO 4 — O CAVALO DE TROIA APRENDEU COBOL

Agora imagine este código:

       IF WS-USER-AUTHORIZED = 'Y'
           PERFORM PROCESS-TRANSACTION
       END-IF.

Parece normal.

Mas alguém adiciona:

       IF WS-USER-ID = 'SUPPORT99'
           MOVE 'Y' TO WS-USER-AUTHORIZED
       END-IF.

Pronto.

Talvez não exista vulnerabilidade de memória.

Nenhum buffer overflow.

Nenhum vírus.

O próprio programa possui uma regra escondida.

É uma backdoor lógica.

E aqui nasce uma das razões pelas quais Git, revisão de código e DevSecOps também são mecanismos de segurança.

Precisamos conseguir responder:

Quem escreveu?
       ↓
Quem alterou?
       ↓
Qual commit?
       ↓
Quem revisou?
       ↓
Quem aprovou?
       ↓
Qual build?
       ↓
Qual artefato?
       ↓
Quem promoveu?
       ↓
Quando chegou à produção?

Código-fonte também é evidência forense.

Dick Tracy aprovaria.


🪱 CAPÍTULO 5 — O WORM DESCOBRIU O TCP/IP

Um worm caracteriza-se especialmente pela capacidade de propagação.

No imaginário do programador iniciante:

Mainframe não pega worm porque mainframe não tem Internet.

Ops.

Temos TCP/IP.

Temos aplicações de rede.

Temos USS.

Temos SSH.

Temos APIs.

Temos integração com sistemas distribuídos.

Isso não significa automaticamente que exista um worm esperando para atacar cada LPAR.

Significa apenas que a premissa:

MAINFRAME = COMPUTADOR SEM REDE

está errada.

Uma análise de segurança deve investigar:

Quais portas estão abertas?

Quais serviços estão escutando?

Quais interfaces estão expostas?

Quais protocolos são utilizados?

Existe TLS?

Quem pode conectar?

Que serviço realmente precisa existir?

Aqui segurança encontra arquitetura.


🔐 CAPÍTULO 6 — RANSOMWARE NÃO PRECISA CRIPTOGRAFAR O DASD INTEIRO

Quando pensamos em ransomware, imaginamos:

arquivos
   ↓
criptografia
   ↓
indisponíveis
   ↓
pedido de resgate

Mas ataques modernos podem combinar indisponibilidade, roubo de dados e extorsão.

A chamada dupla extorsão acrescenta:

ROUBAR
  +
CRIPTOGRAFAR

A vítima então enfrenta duas ameaças:

"Se não pagar, você não recupera os dados."

e:

"Se não pagar, divulgamos os dados."

A chamada tripla extorsão pode ampliar a pressão para clientes, parceiros ou outras partes relacionadas.

No mainframe, não precisamos imaginar obrigatoriamente:

ENCRYPT ALL DASD

Um atacante procuraria ativos críticos.

Por exemplo:

Db2
VSAM
IMS
datasets
arquivos USS
configurações
credenciais
aplicações
backups

A questão é impacto.


💀 CAPÍTULO 7 — WIPER: O CRIMINOSO QUE NÃO QUER DINHEIRO

Dick Tracy encontra dois criminosos.

O primeiro diz:

— Dê-me dinheiro e talvez devolva seus dados.

Ransomware.

O segundo diz:

— Não quero dinheiro.

Esse é mais assustador.

Wipers têm como objetivo destruição ou inutilização.

No mundo mainframe, o raciocínio defensivo precisa considerar:

DADOS
  │
  ├── produção
  ├── cópia
  ├── backup
  └── recuperação

Se todas as cópias estiverem acessíveis pela mesma identidade comprometida, temos um problema arquitetural.

Por isso recuperação não pode signific apenas:

"Temos backup."

Precisamos perguntar:

"Um atacante que compromete produção consegue também destruir nossa capacidade de recuperação?"

Essa pergunta muda completamente a conversa.


👁️ CAPÍTULO 8 — SPYWARE: TALVEZ ELE NÃO QUEIRA SEU TECLADO

No PC doméstico, spyware observa atividades.

No mainframe, o prêmio pode estar atrás da aplicação.

Imagine:

CUSTOMER
ACCOUNT
PAYROLL
CARD
CLAIMS
TRANSACTIONS

Se alguém comprometer uma identidade autorizada a consultar essas informações, talvez nem precise instalar spyware no host.

O atacante possui aquilo que realmente queria:

acesso aos dados.

Por isso segurança de banco de dados e segurança do sistema operacional não podem viver isoladamente.

Imagine:

SQL
 │
 ▼
Db2 authorization
 │
 ▼
Db2
 │
 ▼
datasets
 │
 ▼
z/OS

Proteger apenas a porta da frente não basta se houver caminhos laterais inadequadamente protegidos.


🍪 CAPÍTULO 9 — INFOSTEALER: A INFECÇÃO PODE ESTAR FORA DO MAINFRAME

Aqui está uma das maiores armadilhas.

Imagine que o notebook de um administrador seja comprometido.

Um infostealer consegue roubar:

password
token
session
SSH key
API key
certificate
credencial técnica

Depois:

Notebook comprometido
        ↓
credencial roubada
        ↓
VPN
        ↓
ambiente corporativo
        ↓
mainframe

Pergunta:

O mainframe foi infectado?

Talvez não.

Existe um incidente envolvendo o mainframe?

Certamente pode existir.

E agora temos o grande problema:

o criminoso pode parecer um usuário legítimo.


🔑 CAPÍTULO 10 — RACF: DICK TRACY ENCONTRA O PORTEIRO

Chegamos ao RACF.

Para o iniciante:

RACF não é simplesmente:

"onde fica a senha."

Ele participa de um modelo muito maior:

IDENTIDADE
    ↓
AUTENTICAÇÃO
    ↓
AUTORIZAÇÃO
    ↓
RECURSO
    ↓
AUDITORIA

Suponha:

USER01

Quer acessar:

BANK.PROD.CUSTOMER

A pergunta relevante torna-se:

Quem é USER01?

Ele está autenticado?

Qual grupo possui?

Qual perfil protege o recurso?

Qual acesso recebeu?

READ?

UPDATE?

ALTER?

Agora Dick Tracy faz a pergunta incômoda:

E se USER01 estiver sendo utilizado por outra pessoa?

RACF pode estar funcionando corretamente.

A identidade está autenticada.

O acesso está autorizado.

Mas o humano atrás da identidade pode ser o criminoso.

É aí que entram autenticação forte, menor privilégio, auditoria, análise comportamental e Zero Trust.


🚪 CAPÍTULO 11 — A PORTA DOS FUNDOS NÃO PRECISA SER UMA PORTA

Backdoor costuma evocar:

porta TCP secreta

Mas uma backdoor pode ser simplesmente:

       IF USER-ID = 'XYZ123'
           MOVE 'Y' TO AUTHORIZED
       END-IF.

Ou uma conta esquecida.

Ou privilégio temporário que virou permanente.

Ou uma credencial técnica compartilhada.

Ou uma exceção operacional nunca removida.

Essa é uma lição maravilhosa:

Backdoor é um conceito de acesso, não obrigatoriamente uma porta de rede.


🐧 CAPÍTULO 12 — O MALWARE DESCOBRE O USS

O programador COBOL entra no ISPF todos os dias.

Ele conhece:

PDS
PDSE
VSAM
JCL
LOADLIB

Dick Tracy pergunta:

— E /u/app/bin?

Silêncio.

Existe um UNIX dentro do z/OS: UNIX System Services.

Isso muda a superfície de segurança.

Agora temos conceitos como:

directories
files
processes
shell
permissions
UID
GID
SSH
scripts
executables

Portanto, quem investiga segurança z/OS precisa conhecer os dois lados:

Mundo MVSMundo USS
DatasetFile
PDS/PDSEDirectory
JOB/STCProcess
USERIDUID associado
RACFRACF + permissões UNIX
LOADLIBexecutáveis/bibliotecas

O invasor não é obrigado a respeitar a fronteira mental do programador COBOL.

Se você só olha datasets, pode deixar metade da casa sem inspeção.


🤖 CAPÍTULO 13 — BOTNET: 100 MIL ZUMBIS BATENDO NA PORTA

Agora o ataque nem precisa comprometer o z/OS.

Imagine:

PC ─────┐
PC ─────┤
PC ─────┤
PC ─────┤
...     ├──► API ─► z/OS Connect ─► CICS ─► COBOL
PC ─────┤
PC ─────┘

São máquinas comprometidas formando uma botnet.

Milhares ou milhões de requisições podem produzir pressão sobre a infraestrutura.

O programa COBOL pode estar perfeito.

O RACF pode estar perfeito.

O Db2 pode estar perfeito.

Mesmo assim:

requests ↑
CPU ↑
threads/tasks ↑
Db2 work ↑
I/O ↑
latência ↑
filas ↑

Segurança encontrou performance.

E performance encontrou Capacity Planning.


⛏️ CAPÍTULO 14 — CRYPTOMINER: QUANDO CPU ROUBADA VIRA DINHEIRO

Cryptominers roubam recursos computacionais para mineração.

No mainframe, mesmo deixando a mineração específica de lado, o conceito mais amplo é excelente:

consumo computacional não autorizado.

Imagine que o SMF mostre:

00:00  normal
01:00  normal
02:00  normal
03:00  normal
03:17  █████████████████████ CPU
04:00  normal

O analista de performance pergunta:

— Quem consumiu isso?

Essa pergunta pode virar uma investigação de segurança.

SMF, RMF e outras fontes de telemetria não servem somente para Capacity Planning.

Também ajudam a reconstruir:

O QUE aconteceu?

QUANDO?

QUAL workload?

QUAL identidade?

QUAL recurso?

QUAL origem?

QUAL duração?

Observabilidade pode tornar-se ferramenta forense.

E, naturalmente, alguma coisa sempre acontece às 03:17 no Bellacosa Mainframe.

Easter egg encontrado. ☕😉


🕵️ CAPÍTULO 15 — OS 10 SINAIS DE INFECÇÃO, VERSÃO MAINFRAME

Agora podemos reinterpretar o primeiro infográfico.

No PC temos lentidão, pop-ups, bateria, navegador alterado etc.

No mainframe, procure anomalias como:

01 — CPU inesperadamente alta

02 — jobs desconhecidos

03 — STCs inesperadas

04 — processos USS estranhos

05 — acessos RACF fora do padrão

06 — datasets modificados inesperadamente

07 — tráfego TCP/IP anormal

08 — transferência incomum de dados

09 — alterações de configuração

10 — comportamento inesperado de aplicações

Mas atenção.

CPU alta não prova ataque.

Job desconhecido não prova malware.

Falha RACF não prova invasão.

Tráfego elevado não prova exfiltração.

Por isso precisamos de uma palavra fundamental:

BASELINE.


📊 CAPÍTULO 16 — BASELINE: COMO SABER QUE ALGO É ESTRANHO?

Dick Tracy encontra uma pegada tamanho 44.

Isso é suspeito?

Depende.

Se todas as pessoas da sala usam tamanho 44, talvez não.

Se somente uma pessoa possui esse tamanho e ela deveria estar a 500 quilômetros dali, temos algo interessante.

Mainframe funciona da mesma maneira.

Você precisa conhecer o normal.

CPU NORMAL
      │
      ├───────────────
      │
      │       /\          ← anomalia
      │      /  \
      │_____/    \________

Baseline pode incluir:

CPU
I/O
rede
jobs
horários
volume de transações
acessos
datasets
falhas RACF
origens de conexão
processos USS

Segurança sem contexto gera alertas.

Segurança com contexto produz investigação.


🔎 CAPÍTULO 17 — O PASSO A PASSO DE DICK TRACY

Imagine um incidente suspeito.

O iniciante quer imediatamente matar o job.

Dick Tracy segura sua mão.

— Primeiro preserve evidências.

Uma investigação conceitual pode seguir:

1. DETECTAR
      ↓
2. VALIDAR
      ↓
3. DELIMITAR
      ↓
4. PRESERVAR EVIDÊNCIAS
      ↓
5. IDENTIFICAR IDENTIDADES
      ↓
6. IDENTIFICAR RECURSOS
      ↓
7. RECONSTRUIR TIMELINE
      ↓
8. CONTER
      ↓
9. ERRADICAR
      ↓
10. RECUPERAR
      ↓
11. APRENDER

A ordem concreta dependerá da gravidade e dos procedimentos da organização. Um ataque em andamento pode exigir contenção urgente.

Mas existe uma regra preciosa:

Não destrua as pistas tentando resolver rapidamente o problema.

Logs importam.

SMF importa.

Horários importam.

IDs importam.

Mudanças importam.


🧬 CAPÍTULO 18 — DEFESA EM PROFUNDIDADE

Agora chegamos ao coração do artigo.

Não existe um botão:

[ PROTEGER MAINFRAME ]

Existe um conjunto de controles:

                IDENTIDADE
                    │
                 RACF/SAF
                    │
              menor privilégio
                    │
              autenticação forte
                    │
                   REDE
                    │
           TLS / AT-TLS / filtros
                    │
                 SISTEMA
                    │
            z/OS + USS + hardening
                    │
                APLICAÇÃO
                    │
          CICS / Db2 / IMS / MQ
                    │
                  DADOS
                    │
               criptografia
                    │
              MONITORAMENTO
                    │
              SMF / telemetria
                    │
                RESILIÊNCIA
                    │
          backup / recuperação

Isso é defesa em profundidade.

Se uma camada falhar, outra pode conter o ataque.


🧯 CAPÍTULO 19 — MENOR PRIVILÉGIO É UM EXTINTOR INVISÍVEL

Imagine dois usuários comprometidos.

Primeiro:

USERA

READ CUSTOMER.TEST

Segundo:

USERB

ALTER *

Qual comprometimento possui maior raio de impacto?

Óbvio.

O princípio do menor privilégio não existe porque administradores gostam de burocracia.

Existe para reduzir:

BLAST RADIUS

Se uma identidade for comprometida, o atacante herda aquilo que ela consegue fazer.

Logo:

cada privilégio desnecessário também pode tornar-se privilégio disponível ao invasor.


🔐 CAPÍTULO 20 — CRIPTOGRAFIA: A IRONIA DO RANSOMWARE

Existe uma ironia deliciosa.

Ransomware utiliza criptografia para prejudicar o proprietário.

Segurança utiliza criptografia para protegê-lo.

RANSOMWARE

dados
  ↓
chave controlada pelo atacante
  ↓
proprietário perde acesso

Contra:

CRIPTOGRAFIA CORPORATIVA

dados
  ↓
chave controlada adequadamente
  ↓
atacante não consegue interpretar dados

O algoritmo pode até compartilhar fundamentos criptográficos.

O que muda completamente é:

quem controla as chaves e com qual finalidade.


🧠 CAPÍTULO 21 — O ATAQUE MAIS PERIGOSO TALVEZ NÃO TENHA MALWARE

Voltamos à cena inicial.

Dick Tracy reuniu as evidências.

Nenhum vírus.

Nenhum worm.

Nenhum ransomware.

Nenhum executável misterioso.

O jovem programador perguntou:

— Então não houve ataque?

Dick Tracy respondeu:

— Houve.

— Cadê o malware?

— Não precisava.

Uma credencial válida havia sido comprometida.

O criminoso entrou utilizando mecanismos legítimos.

Consultou recursos para os quais aquela identidade possuía autorização.

Executou comandos permitidos.

Usou ferramentas administrativas existentes.

O sistema fez exatamente aquilo que havia sido configurado para fazer.

Esse cenário nos leva a uma conclusão extremamente importante:

O atacante não precisa necessariamente fazer o mainframe executar código malicioso. Às vezes basta conseguir autorização para executar operações legítimas com intenção maliciosa.


🧪 CAPÍTULO 22 — EXERCÍCIO PARA O PADAWAN COBOL

Pegue uma aplicação fictícia:

BANCO
 │
 ├── CICS
 │    └── COBOL
 │
 ├── Db2
 │
 ├── MQ
 │
 ├── Batch/JCL
 │
 └── USS/API

Agora não pergunte:

"Onde instalaríamos antivírus?"

Faça estas perguntas:

Passo 1 — Identidade: quem consegue entrar?

Passo 2 — Autorização: depois de entrar, o que cada identidade consegue fazer?

Passo 3 — Aplicação: existe regra que contorna controles?

Passo 4 — Dados: quem consegue ler, alterar ou destruir?

Passo 5 — Rede: quem consegue conversar com quais serviços?

Passo 6 — Software: quem consegue alterar código e executáveis?

Passo 7 — Produção: quem consegue promover mudanças?

Passo 8 — Auditoria: conseguiríamos descobrir posteriormente quem fez determinada operação?

Passo 9 — Recuperação: conseguimos restaurar o ambiente se produção for destruída?

Passo 10 — Blast radius: se uma única credencial for comprometida, até onde o atacante chega?

Esse exercício vale mais do que decorar 30 nomes de malware.


🕵️ CAPÍTULO 23 — DICK TRACY ENSINA O PROGRAMADOR COBOL A PENSAR COMO INVESTIGADOR

O COBOL ensina:

IF condição
   THEN ação
END-IF

Segurança ensina algo parecido:

IF evidência
   THEN hipótese
   ELSE continue investigando
END-IF

Mas existe uma diferença essencial.

Não faça:

CPU ALTA
    =
HACKER

Faça:

CPU ALTA
   ↓
qual workload?
   ↓
qual horário?
   ↓
qual USERID?
   ↓
qual programa?
   ↓
qual origem?
   ↓
é comportamento normal?
   ↓
existem outras evidências?

Isso é investigação.


🎁 CURIOSIDADE — O MAINFRAME PODE AJUDAR A INVESTIGAR A PRÓPRIA CENA DO CRIME

Uma característica fascinante de ambientes corporativos maduros é a quantidade de telemetria disponível.

O mesmo ecossistema utilizado para:

performance
capacity
billing
auditoria
operação

pode ajudar na segurança.

SMF é um exemplo extraordinário dessa convergência.

Aquilo que para o analista de performance significa:

"Quem gastou CPU?"

para segurança pode significar:

"Quem executou essa atividade?"

Para Capacity Planning:

"Quando começou?"

Para investigação:

"Essa hora coincide com o acesso suspeito?"

Os mesmos dados podem contar histórias diferentes.

O segredo é saber fazer perguntas.


🏁 EPÍLOGO — O CRIMINOSO TINHA A CHAVE

05:42.

O incidente estava finalmente compreendido.

O jovem programador fechou o ISPF.

— Dick, então o que devo guardar dessa noite?

O detetive colocou o chapéu.

— Não procure apenas criminosos arrombando janelas.

— Por quê?

— Porque os melhores entram pela porta.

— E como impedimos isso?

Dick Tracy olhou novamente para o mainframe.

Na tela estavam:

RACF
SMF
CICS
Db2
MQ
USS
TCP/IP
JCL
COBOL

— Não existe uma única defesa. Identifique quem entra. Limite o que pode fazer. Proteja os dados. Observe o comportamento. Registre evidências. Separe responsabilidades. Proteja a recuperação. E nunca confunda uma credencial válida com uma intenção legítima.

O jovem programador pensou por alguns segundos.

Finalmente entendeu.

O mainframe não precisava estar "infectado".

O criminoso poderia estar simplesmente usando o sistema.

E essa talvez fosse a descoberta mais inquietante de toda a investigação.


☕ A LIÇÃO DO BELLACOSA MAINFRAME

Para quem está começando em COBOL, malware pode parecer assunto de outra equipe.

Não é.

Quando você escreve:

IF USER-AUTHORIZED
    PERFORM TRANSACTION
END-IF

você está tomando uma decisão de segurança.

Quando lê um dataset, está acessando um ativo.

Quando executa JCL, está solicitando recursos.

Quando uma aplicação chama Db2, MQ ou CICS, existe uma relação de confiança.

Quando um programa vai para produção, existe uma cadeia de custódia do software.

Quando alguém recebe privilégio demais, aumenta-se o potencial raio de impacto de um comprometimento.

E quando ninguém observa os registros, as pistas podem existir sem que ninguém monte o quebra-cabeça.

Portanto, a evolução mental do padawan deveria ser:

"MAINFRAME NÃO PEGA VÍRUS"
             ↓
"MAINFRAME POSSUI SUPERFÍCIE DE ATAQUE"
             ↓
"PRECISO PROTEGER O SISTEMA"
             ↓
"PRECISO PROTEGER IDENTIDADES E DADOS"
             ↓
"PRECISO OBSERVAR COMPORTAMENTO"
             ↓
"PRECISO LIMITAR O IMPACTO
MESMO QUANDO UMA DEFESA FALHAR"

Essa última etapa é maturidade.

Porque segurança não consiste em acreditar que ninguém conseguirá atravessar a primeira porta.

Consiste também em garantir que, se alguém atravessar, não encontre todas as outras portas abertas.

E talvez seja esse o maior ensinamento de Dick Tracy para o jovem programador COBOL:

Em segurança, encontrar a arma é interessante. Descobrir quem tinha acesso, como entrou, o que fez, quais pistas deixou e por que conseguiu chegar tão longe é a verdadeira investigação.

No Bellacosa Mainframe, o mistério nunca termina no virus.exe.

Às vezes não existe vírus.

Às vezes não existe exploit.

Às vezes não existe sequer uma porta arrombada.

Existe apenas um USERID.

Uma autorização excessiva.

Uma atividade às 03:17.

E um detetive olhando para o SMF e perguntando:

— Muito bem... quem estava usando essa chave? ☕🕵️

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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