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sexta-feira, 24 de março de 2023

A Sociedade do Feed Infinito : A Economia da Atenção Parte III

 

Bellacosa Mainframe e a socidedade do feed infinito parte III

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Economia da Atenção

O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Saber Sobre Algoritmos, Inteligência Artificial, Big Tech e Como Suas Emoções se Tornaram um dos Ativos Mais Valiosos da Economia Digital

"Se você não está pagando pelo produto, existe uma boa chance de que o produto seja a sua atenção."


Introdução

Todo programador Mainframe sabe que CPU é um recurso caro.

Memória também.

I/O mais ainda.

Por isso, sistemas críticos utilizam mecanismos sofisticados para administrar cada microssegundo de processamento.

Agora imagine um recurso ainda mais valioso.

Um recurso que não pode ser expandido.

Não pode ser comprado.

Não pode ser armazenado.

Cada ser humano possui exatamente 24 horas por dia.

Desse tempo, apenas uma pequena fração está realmente disponível para consumir informação.

Esse recurso chama-se atenção.

No século XXI, a atenção tornou-se uma das commodities mais disputadas do planeta.

Google, Meta, TikTok, Microsoft, Amazon, Apple e inúmeras outras empresas competem diariamente por alguns segundos da sua concentração.

Porque esses segundos movimentam trilhões de dólares.


A Nova Matéria-Prima da Economia

Durante a Revolução Industrial, a riqueza vinha da produção.

Depois passou para o petróleo.

Mais tarde para os computadores.

Hoje, um dos ativos mais valiosos é invisível.

Nossa capacidade de prestar atenção.

Toda vez que você:

  • abre um aplicativo;

  • assiste um vídeo;

  • clica em uma notícia;

  • comenta uma postagem;

  • compartilha um meme;

  • permanece alguns segundos olhando uma fotografia,

você gera valor econômico.

Não porque clicou.

Mas porque permaneceu.


O Modelo de Negócio das Big Techs

Muitas pessoas acreditam que redes sociais vendem publicidade.

Na realidade, elas vendem previsibilidade.

O anunciante não compra espaço.

Compra a probabilidade de influenciar determinado comportamento.

Quanto mais dados uma plataforma possui sobre você, melhor consegue prever:

  • seus interesses;

  • seus medos;

  • suas preferências;

  • seus horários;

  • seu humor;

  • suas compras;

  • seus relacionamentos.

Essa previsibilidade aumenta o valor da publicidade.


Dados: O Novo Petróleo?

Durante anos ouvimos a frase:

"Dados são o novo petróleo."

Hoje talvez exista uma definição melhor.

Dados são o combustível.

A atenção é a moeda.

Sem atenção, os dados têm pouco valor.

Sem dados, torna-se difícil capturar atenção.

Os dois trabalham juntos.


Como os Algoritmos Aprendem

Cada interação alimenta modelos estatísticos e sistemas de Inteligência Artificial.

Eles observam:

  • quanto tempo você permaneceu em uma postagem;

  • onde interrompeu um vídeo;

  • quais assuntos despertam curiosidade;

  • quais provocam indignação;

  • quais fazem rir;

  • quais geram comentários.

Pouco importa se você gostou.

Importa que permaneceu.

Tempo de tela significa oportunidade de monetização.


O Algoritmo Não Procura a Verdade

Esse é um dos maiores equívocos da era digital.

O algoritmo não foi criado para descobrir o que é verdadeiro.

Foi desenvolvido para otimizar métricas.

Entre elas:

  • tempo de permanência;

  • engajamento;

  • compartilhamentos;

  • retenção;

  • retorno diário.

Se conteúdos emocionais produzem maior retenção, eles naturalmente recebem mais distribuição.

Não existe intenção moral.

Existe otimização matemática.


O Papel da Inteligência Artificial

A IA elevou esse processo a outro nível.

Antes existiam regras relativamente simples.

Hoje, modelos de Machine Learning analisam bilhões de sinais simultaneamente.

Eles identificam padrões impossíveis para um ser humano perceber.

Por exemplo:

"Pessoas que assistem vídeos sobre produtividade às 22h também costumam consumir conteúdos sobre investimentos às 22h30."

Ou:

"Usuários que assistem 80% deste vídeo possuem alta probabilidade de clicar naquele outro."

A IA não entende emoções como nós.

Ela reconhece padrões associados às emoções.

E isso basta para otimizar recomendações.


Engenharia da Dopamina

A dopamina costuma ser chamada de "hormônio do prazer", embora seu papel seja mais relacionado à motivação e expectativa de recompensa.

As plataformas exploram exatamente esse mecanismo.

Cada atualização do feed representa uma nova possibilidade.

Talvez exista algo interessante.

Talvez exista uma mensagem.

Talvez alguém tenha curtido sua postagem.

Talvez apareça um vídeo melhor.

Essa incerteza mantém o cérebro retornando continuamente.

É o mesmo princípio utilizado em sistemas de recompensa variável estudados pela psicologia comportamental.


B. F. Skinner e o Reforço Intermitente

O psicólogo B. F. Skinner demonstrou que recompensas imprevisíveis tendem a produzir comportamentos persistentes.

Não sabemos quando a recompensa virá.

Por isso continuamos tentando.

O feed infinito funciona exatamente assim.

Rolamos a tela inúmeras vezes.

A maioria do conteúdo é comum.

Mas ocasionalmente encontramos algo extremamente interessante.

Essa imprevisibilidade fortalece o hábito.


Emoções Vendem

Pesquisas em comunicação mostram que conteúdos emocionalmente intensos têm maior probabilidade de serem compartilhados.

Principalmente:

  • surpresa;

  • indignação;

  • medo;

  • humor;

  • admiração.

Por isso manchetes moderadas frequentemente perdem espaço para títulos extremos.

Não porque sejam melhores.

Mas porque capturam mais atenção.


O Feed Nunca Termina

Durante décadas, jornais possuíam fim.

Revistas possuíam última página.

Programas de televisão terminavam.

Hoje o feed é infinito.

Não existe um ponto natural para parar.

O usuário precisa decidir conscientemente quando interromper.

Essa mudança altera completamente nosso padrão de consumo.


IA Generativa: O Próximo Salto

Com modelos generativos, produzir conteúdo tornou-se extremamente barato.

Uma única pessoa pode criar diariamente:

  • centenas de imagens;

  • dezenas de vídeos;

  • milhares de textos;

  • vozes sintéticas;

  • personagens virtuais.

A competição pela atenção torna-se ainda mais intensa.

Quando o custo de produzir conteúdo tende a zero, o valor da atenção cresce ainda mais.


Influenciadores Virtuais

Já existem influenciadores completamente artificiais.

Eles:

  • nunca envelhecem;

  • nunca adoecem;

  • nunca entram em férias;

  • nunca cometem erros espontâneos;

  • podem publicar vinte e quatro horas por dia.

Para as marcas, representam enorme vantagem operacional.

Para a sociedade, surgem novas questões éticas.

Até que ponto saberemos distinguir pessoas reais de personagens sintéticos?


Publicidade Preditiva

A publicidade tradicional tentava convencer.

A publicidade baseada em IA tenta prever.

Ela procura identificar:

  • o momento ideal;

  • o produto ideal;

  • o formato ideal;

  • o horário ideal;

  • o preço ideal.

Quanto maior a precisão, menor o desperdício.

E maior o retorno financeiro.


A Economia da Indignação

Infelizmente, emoções negativas costumam gerar elevado engajamento.

Discussões.

Polêmicas.

Escândalos.

Ataques.

Conflitos.

Tudo isso aumenta comentários e compartilhamentos.

Isso não significa que as plataformas desejem conflitos.

Significa que seus algoritmos frequentemente recompensam aquilo que mantém as pessoas interagindo por mais tempo.


O Mainframe da Economia Digital

Podemos imaginar a internet como um gigantesco IBM Z.

Milhões de servidores processam continuamente:

  • cliques;

  • curtidas;

  • compras;

  • localização;

  • pesquisas;

  • tempo de tela.

Os algoritmos funcionam como um gigantesco Workload Manager.

Eles distribuem prioridade para os conteúdos com maior probabilidade de gerar retenção.

O objetivo não é apenas mostrar informações.

É maximizar o uso de um recurso escasso: sua atenção.


O Custo Invisível

Quando passamos horas consumindo conteúdos cuidadosamente selecionados para capturar nossa atenção, deixamos de investir esse tempo em outras atividades.

Ler um livro.

Conversar com a família.

Aprender uma nova habilidade.

Descansar.

Praticar exercícios.

Dormir.

O verdadeiro custo nem sempre é financeiro.

É o custo de oportunidade.

Cada minuto possui apenas um destino possível.


O Futuro da Economia da Atenção

Nos próximos anos veremos:

  • agentes de IA produzindo conteúdo personalizado em tempo real;

  • publicidade gerada individualmente para cada usuário;

  • realidade aumentada integrada ao cotidiano;

  • assistentes pessoais disputando atenção entre si;

  • influenciadores totalmente sintéticos;

  • ambientes digitais praticamente indistinguíveis da realidade.

A disputa deixará de ocorrer apenas nas telas.

Ela acontecerá em todos os espaços digitais.


Como Recuperar o Controle

Não é necessário abandonar a tecnologia.

É necessário compreendê-la.

Algumas práticas podem ajudar:

  • desativar notificações desnecessárias;

  • definir horários para redes sociais;

  • consumir fontes variadas de informação;

  • praticar leitura profunda;

  • reservar períodos sem telas;

  • desenvolver pensamento crítico;

  • compreender como funcionam os algoritmos.

Conhecimento continua sendo a melhor defesa.


O Que Todo Programador Mainframe Já Sabe

Quem trabalha com IBM Z aprende desde cedo que recursos computacionais precisam ser administrados com inteligência.

CPU desperdiçada reduz desempenho.

Memória mal utilizada provoca gargalos.

Workloads mal priorizados comprometem todo o sistema.

O mesmo vale para a mente humana.

Nossa atenção é limitada.

Nosso tempo é finito.

Cada interrupção possui um custo.

Cada notificação altera nosso contexto cognitivo.

Cada algoritmo disputa alguns segundos daquilo que temos de mais precioso.


Conclusão

A Economia da Atenção não é uma teoria conspiratória.

É um modelo econômico baseado em incentivos claros.

As Big Techs competem por atenção porque atenção gera dados.

Dados alimentam Inteligência Artificial.

A Inteligência Artificial melhora recomendações.

Recomendações aumentam permanência.

Permanência aumenta receita.

O ciclo se retroalimenta continuamente.

A tecnologia continuará evoluindo.

Os algoritmos ficarão mais inteligentes.

A IA produzirá conteúdos cada vez mais convincentes.

Mas continuará existindo uma decisão que nenhuma máquina poderá tomar por nós:

onde investir nossa atenção.

Assim como um Sysprog define prioridades para manter um IBM Z estável, cada pessoa precisará definir prioridades para proteger seu recurso mais escasso.

Porque, na economia digital, quem administra a própria atenção administra o próprio futuro.