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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

A Sociedade do Feed Infinito: O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Saber Sobre Psicologia, Sociologia, Algoritmos e Como as Redes Sociais Parte II

 

Bellacosa Mainframe e a sociedade do feed infinito parte II

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Sociedade do Feed Infinito

O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Saber Sobre Psicologia, Sociologia, Algoritmos e Como as Redes Sociais Estão Reprogramando a Forma Como Enxergamos o Sucesso

"Nunca tivemos tanto acesso ao mundo. Talvez justamente por isso nunca tenha sido tão difícil encontrar paz dentro dele."


Introdução

Existe uma frase muito conhecida na computação:

"Garbage In, Garbage Out."

Se um sistema recebe entradas distorcidas, suas saídas também serão distorcidas.

O mesmo acontece com o cérebro humano.

Todos os dias recebemos milhares de estímulos vindos de redes sociais, vídeos curtos, notícias, publicidade, influenciadores e algoritmos. O problema não está apenas na quantidade de informação, mas na qualidade daquilo que consumimos.

Nos últimos vinte anos, a humanidade passou por uma transformação silenciosa. Pela primeira vez na história, bilhões de pessoas passaram a acompanhar diariamente estilos de vida, culturas, experiências e níveis de riqueza que talvez jamais experimentem.

O resultado é uma mudança profunda na forma como percebemos sucesso, felicidade e até nosso próprio valor.


Quando a Comparação Era Local

Durante milhares de anos, nosso universo social era pequeno.

Conhecíamos poucas dezenas ou centenas de pessoas. Nossa referência era composta por familiares, vizinhos, colegas de trabalho e moradores da mesma comunidade.

Se alguém possuía uma casa maior, um cavalo melhor ou uma colheita mais abundante, essa era a escala da comparação.

Hoje a realidade é completamente diferente.

Em poucos minutos de navegação podemos assistir:

  • uma lua de mel nas Maldivas;

  • um jantar em um restaurante com estrela Michelin;

  • um desfile de moda em Paris;

  • uma cobertura em Nova York;

  • um supercarro em Mônaco;

  • um show VIP em Tóquio;

  • uma rotina de milionários em Dubai.

Nossa referência deixou de ser o bairro.

Passou a ser o planeta inteiro.


O Cérebro Não Evoluiu na Mesma Velocidade

A tecnologia evoluiu exponencialmente.

Nosso cérebro, não.

A arquitetura biológica do Homo sapiens permanece praticamente igual à de dezenas de milhares de anos atrás.

Continuamos utilizando os mesmos mecanismos psicológicos que ajudaram nossos ancestrais a sobreviver em pequenos grupos.

Entre eles está a necessidade de comparação social.

Esse mecanismo foi extremamente útil para entender nossa posição dentro da tribo.

Mas nunca foi projetado para comparar nossa vida com bilhões de pessoas ao mesmo tempo.


A Teoria da Comparação Social

Em 1954, o psicólogo Leon Festinger apresentou a Teoria da Comparação Social.

Segundo essa teoria, as pessoas avaliam suas capacidades, conquistas e identidade comparando-se com outras.

O problema não é comparar.

O problema é com quem estamos comparando.

Hoje, algoritmos selecionam exatamente os conteúdos que despertam maior emoção.

Não vemos a vida comum das pessoas.

Vemos seus melhores momentos.

É como comparar nosso ambiente de desenvolvimento com o sistema de produção funcionando perfeitamente.

Nunca enxergamos os erros, apenas o resultado final.


A Curadoria da Realidade

Poucos publicam:

  • boletos;

  • noites sem dormir;

  • problemas conjugais;

  • fracassos profissionais;

  • ansiedade;

  • medo.

Mas quase todos publicam:

  • viagens;

  • promoções;

  • presentes;

  • carros;

  • festas;

  • restaurantes;

  • conquistas.

Não estamos vendo a realidade.

Estamos vendo uma curadoria cuidadosamente editada.

É uma versão otimizada da vida.


Privação Relativa

Na sociologia existe um conceito conhecido como Privação Relativa.

Ele explica por que pessoas objetivamente mais ricas podem sentir-se mais pobres.

Imagine alguém que possui:

  • casa própria;

  • automóvel;

  • emprego estável;

  • acesso à educação.

Há cinquenta anos essa pessoa seria considerada bastante confortável financeiramente.

Hoje, após horas navegando em redes sociais, ela pode sentir-se fracassada simplesmente porque viu dezenas de pessoas vivendo em mansões, viajando em classe executiva e frequentando restaurantes inacessíveis.

A riqueza absoluta aumentou.

A satisfação diminuiu.


O Consumo Como Linguagem

O economista Thorstein Veblen descreveu o fenômeno do Consumo Conspícuo.

Consumimos para comunicar posição social.

O relógio deixou de marcar apenas as horas.

O carro deixou de ser apenas transporte.

A viagem deixou de ser apenas descanso.

Tudo passou a comunicar identidade.

As redes sociais amplificaram esse comportamento.

Hoje o consumo é fotografado antes mesmo de ser aproveitado.


Pierre Bourdieu e o Capital Invisível

O sociólogo francês Pierre Bourdieu mostrou que existem diversas formas de riqueza.

Além do dinheiro, existe:

  • capital cultural;

  • capital social;

  • capital simbólico.

Por isso vemos pessoas exibindo:

  • livros;

  • vinhos;

  • restaurantes exclusivos;

  • universidades renomadas;

  • eventos internacionais;

  • experiências consideradas sofisticadas.

Nem toda ostentação envolve dinheiro.

Muitas vezes envolve reconhecimento social.


O Algoritmo Aprende Nossos Desejos

As plataformas digitais utilizam sistemas de recomendação extremamente sofisticados.

Cada curtida.

Cada comentário.

Cada segundo assistindo a um vídeo.

Tudo se transforma em dados.

O objetivo não é necessariamente informar.

É manter nossa atenção.

Quanto maior o tempo conectado, maior a receita publicitária.

Por isso conteúdos emocionalmente intensos recebem prioridade.

Indignação.

Luxo.

Polêmica.

Escândalo.

Admiração.

Essas emoções aumentam o tempo de permanência na plataforma.


A Economia da Atenção

Vivemos aquilo que muitos pesquisadores chamam de Economia da Atenção.

O recurso escasso deixou de ser informação.

O recurso escasso tornou-se a atenção humana.

Empresas disputam segundos.

Influenciadores disputam segundos.

Marcas disputam segundos.

Nossa atenção tornou-se um ativo econômico.

E como qualquer recurso valioso, ela é constantemente disputada.


FOMO: O Medo de Estar Ficando Para Trás

Outro conceito importante é o Fear of Missing Out (FOMO).

A sensação permanente de que todos estão vivendo experiências melhores.

Enquanto trabalhamos...

Alguém está viajando.

Enquanto estudamos...

Alguém está em um festival.

Enquanto economizamos...

Alguém compra um carro esportivo.

O cérebro interpreta essas imagens como sinais de exclusão social.

Isso aumenta ansiedade e reduz satisfação com a própria vida.


A Adaptação Hedônica

Existe ainda a chamada Adaptação Hedônica.

Conquistamos algo.

Ficamos felizes.

Pouco tempo depois, aquilo se torna normal.

Logo desejamos outro objetivo.

Outro celular.

Outra casa.

Outra viagem.

Outro cargo.

As redes sociais aceleram esse processo porque apresentam continuamente novos padrões de sucesso.

A linha de chegada nunca para de se mover.


O Viés da Disponibilidade

Outro fenômeno psicológico importante é o Viés da Disponibilidade.

Quanto mais frequentemente vemos determinado tipo de conteúdo, maior a tendência de acreditar que ele representa a realidade.

Se passamos horas vendo mansões, Ferraris, relógios de luxo e viagens internacionais, nosso cérebro começa a interpretar isso como algo comum.

Na prática, estamos observando uma pequena elite altamente visível.

A percepção estatística torna-se completamente distorcida.


A Sociedade do Espetáculo

O filósofo Guy Debord escreveu, em 1967, A Sociedade do Espetáculo.

Sua principal ideia era que a experiência direta seria progressivamente substituída por representações.

Décadas depois, essa análise parece ainda mais atual.

Muitas experiências são planejadas não pelo prazer de vivê-las, mas pelo potencial de serem compartilhadas.

Em alguns casos, a fotografia tornou-se mais importante que o momento vivido.


Bauman e a Modernidade Líquida

Zygmunt Bauman descreveu uma sociedade marcada por relações frágeis e rápidas.

As redes sociais potencializam esse fenômeno.

Amizades tornam-se seguidores.

Reconhecimento transforma-se em curtidas.

Popularidade passa a ser medida por números.

A validação social fica instantânea, mas também passageira.


O Impacto na Saúde Mental

Diversos estudos apontam associação entre uso intenso de redes sociais e aumento de:

  • ansiedade;

  • depressão;

  • baixa autoestima;

  • solidão;

  • estresse;

  • distúrbios do sono.

As causas são múltiplas.

Comparação constante.

Sobrecarga de informação.

Busca incessante por validação.

Exposição permanente a padrões irreais.

Não se trata de afirmar que redes sociais causam todos esses problemas, mas que podem amplificá-los quando combinadas a outros fatores individuais e sociais.


O Paradoxo da Tecnologia

Seria injusto enxergar apenas o lado negativo.

Nunca foi tão fácil aprender.

Um estudante pode acessar gratuitamente:

  • cursos das melhores universidades do mundo;

  • museus virtuais;

  • bibliotecas digitais;

  • artigos científicos;

  • comunidades técnicas;

  • projetos de código aberto;

  • aulas de idiomas.

A mesma internet que amplia comparações também democratiza conhecimento.

A questão central não é a tecnologia.

É como escolhemos utilizá-la.


O Que o Mainframe Pode Nos Ensinar

No IBM Z existe um componente chamado Workload Manager (WLM).

Sua função é simples.

Garantir que os recursos do sistema sejam direcionados ao que realmente importa.

Talvez precisemos desenvolver um WLM mental.

Nem toda notificação merece interrupção.

Nem todo vídeo merece atenção.

Nem toda comparação merece processamento.

Assim como um Mainframe continua estável porque administra cuidadosamente CPU, memória e prioridade das cargas, nossa mente também precisa aprender a administrar seu recurso mais valioso: a atenção.


Caminhos para o Futuro

A sociedade precisará desenvolver novas competências.

Como indivíduos:

  • compreender como funcionam os algoritmos;

  • fortalecer pensamento crítico;

  • limitar o consumo automático de conteúdo;

  • valorizar relações presenciais;

  • priorizar aprendizado em vez de ostentação.

Como educadores:

  • ensinar educação midiática;

  • desenvolver inteligência emocional;

  • formar cidadãos capazes de interpretar informações digitais.

Como empresas de tecnologia:

  • aumentar transparência algorítmica;

  • reduzir incentivos ao conteúdo nocivo;

  • equilibrar engajamento com responsabilidade social.

Como sociedade:

  • redefinir sucesso para além do consumo;

  • valorizar conhecimento, saúde, tempo, família e propósito;

  • construir ambientes digitais mais saudáveis.


Conclusão

Nunca tivemos tanto acesso ao mundo.

Nunca aprendemos tanto.

Nunca conhecemos tantas culturas.

Nunca tivemos tantas oportunidades de desenvolvimento.

Mas também nunca fomos expostos, diariamente, a uma quantidade tão grande de comparações, expectativas e representações cuidadosamente editadas da realidade.

A tecnologia continuará evoluindo.

A Inteligência Artificial produzirá influenciadores virtuais, vídeos indistinguíveis da realidade e experiências digitais cada vez mais imersivas.

O desafio do futuro não será apenas tecnológico.

Será profundamente humano.

Assim como um Sysprog monitora continuamente o desempenho de um IBM Z para evitar gargalos e manter a estabilidade do sistema, cada um de nós precisará aprender a monitorar aquilo que entra em nossa mente.

Porque, no século XXI, a atenção tornou-se o recurso mais valioso.

E quem controla a própria atenção continua sendo o verdadeiro administrador do seu sistema operacional interior.