sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Brasil 2017: o ano em que o sistema continuou rodando, mas ninguém mais acreditava no output

 


Brasil 2017: o ano em que o sistema continuou rodando, mas ninguém mais acreditava no output

ao estilo bellacosa mainframe, para o El Jefe Midnight Lunch

Meu quarto ano de volta ao Brasil foi 2017. Se 2016 tinha sido recovery mode, 2017 foi aquele estágio pior: o sistema sobe, os serviços respondem, mas o usuário já não confia no resultado. Tudo funciona “mais ou menos”. E em sistemas críticos — e em países — “mais ou menos” é sinônimo de risco permanente.

Depois de doze anos na Europa, eu já não era mais um recém-chegado. Em 2017, eu já estava totalmente reabsorvido pelo ambiente. Já entendia os atalhos, os silêncios, os códigos não escritos. E talvez por isso o descalabro tenha doído mais.

Economia: rastros em vez de crescimento

A economia de 2017 não era de retomada — era de rastros. Pequenos sinais aqui e ali, estatísticas otimistas demais para quem vivia o chão da fábrica, do comércio, do escritório esvaziado. Era como ver logs dizendo “process completed successfully” enquanto o arquivo final vinha corrompido.

Empregos voltavam? Sim — mas piores, mais precários, mais frágeis. O discurso oficial falava em modernização, eficiência, flexibilidade. Para quem viveu na Europa, o contraste era brutal: lá, flexibilidade vem acompanhada de proteção. Aqui, vinha acompanhada de silêncio.

Mudanças na lei laboral foram apresentadas como upgrade. Na prática, muita gente sentiu como downgrade. Menos direitos, mais insegurança, menos previsibilidade. O sistema ficou “mais leve” porque descarregou peso no usuário final.

Previdência: quando o futuro vira variável opcional

As discussões sobre previdência em 2017 escancararam algo profundo: o futuro deixou de ser garantido. Para quem trabalhou anos fora, contribuindo religiosamente, aquilo soava como heresia sistêmica. Previdência, na Europa, é contrato de longo prazo. No Brasil, virou feature flag: pode existir hoje, pode não existir amanhã.

O cidadão comum entendeu rápido a mensagem implícita: cuide-se sozinho. O sistema não promete mais nada. Isso muda comportamento, cultura, mentalidade. Quando o futuro fica nebuloso, o presente vira campo de batalha.

Sociedade: o cansaço virou padrão

Em 2017, o cansaço deixou de ser individual e virou coletivo. Não era mais indignação, era exaustão. As pessoas não estavam menos informadas — estavam saturadas. Escândalos sucessivos, crises sobrepostas, versões conflitantes da realidade.

Era como operar um sistema que dispara alertas o tempo todo. No começo você corre. Depois você silencia alarmes. E quando silencia demais, o desastre passa despercebido.

A confiança institucional estava abaixo do mínimo operacional. Ninguém acreditava totalmente em ninguém. A política virou ruído de fundo, como um fan barulhento que você aprende a ignorar — até o dia em que ele para e tudo esquenta de vez.

Cultura: terreno fértil para extremos

É nesse vácuo que extremos prosperam. Em 2017, vi com clareza o avanço da extrema direita no Brasil. Não como caricatura, mas como sintoma. Para quem viveu na Europa, o padrão era conhecido: medo, insegurança, ressentimento, nostalgia de um passado idealizado que nunca existiu.

Quando o sistema parece injusto, alguém sempre promete apertar RESET à força. Pouca gente pergunta o que se perde nesse processo.

A cultura do diálogo foi substituída pela cultura do confronto. Complexidade virou fraqueza. Dúvida virou traição. Tudo precisava ser rápido, simples, binário. True ou false. Sem maybe.

Itatiba: a política no nível local também falha

No plano local, a decepção foi concreta. A expectativa criada em torno do prefeito de Itatiba se dissolveu rápido. Promessas não cumpridas, gestão confusa, distância da população. Para quem tinha participado do processo político em 2016, aquilo foi especialmente frustrante.

Política municipal é onde o cidadão espera ver resultado rápido. Quando falha ali, a descrença se multiplica. O sentimento era claro: se nem no município as coisas funcionam, por que funcionariam em Brasília?

Foi mais uma lição dura de mainframe: problema sistêmico não se resolve trocando apenas o operador do turno.

População: sobrevivendo sem acreditar

O povo em 2017 seguia sobrevivendo — mas já não acreditava. A esperança virou cautela. O planejamento virou curto prazo. A pergunta deixou de ser “como melhorar?” e passou a ser “como aguentar?”.

Vi gente boa desistindo de participar, desistindo de discutir, desistindo de sonhar. E isso é talvez o dano mais grave que um sistema pode causar: quando o usuário perde o desejo de interagir.

Quarto ano pós-retorno: lucidez amarga

Em 2017, eu já não romantizava mais nada. Nem o Brasil, nem a Europa. Entendi que tinha voltado para um país em transição permanente, preso entre um passado mal resolvido e um futuro mal explicado.

O sistema seguia ligado, sim. Mas com remendos, exceções, workarounds perigosos. E operadores cada vez mais ideológicos, menos técnicos.

Epílogo: lição final do ano

2017 ensinou uma verdade incômoda de qualquer ambiente crítico:
quando o sistema falha por muito tempo, o problema deixa de ser técnico e passa a ser humano.

O Brasil de 2017 não estava só quebrado economicamente.
Estava cansado.
Desconfiado.
E perigosamente aberto a soluções simples para problemas complexos.

E todo veterano de mainframe sabe:
é exatamente nesse momento que mais se precisa de calma, método e responsabilidade —
porque qualquer comando errado, executado com raiva,
pode derrubar tudo de vez.


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