sábado, 12 de maio de 2018

🧨 Parte 2 — O Século da Pressa: O Mercado Engoliu o Homem

 


🧨 Parte 2 — O Século da Pressa: O Mercado Engoliu o Homem

por Bellacosa Mainframe ☕💼

O novo milênio chegou prometendo liberdade, tecnologia e prosperidade.
Mas entregou algo bem diferente: pressa, cobrança e cansaço crônico.

Os anos 2000 e 2010 foram o laboratório da ansiedade.
O crachá, antes símbolo de pertencimento, virou algema digital.
E o antigo pacto entre empresa e empregado se dissolveu como café solúvel na água morna do RH.

A meritocracia virou religião, e o PowerPoint, seu evangelho.
Coach virou profeta, KPI virou mandamento.
Aquele escritório onde o chefe conhecia o nome de todos foi substituído por open spaces com eco de solidão — e frases motivacionais coladas na parede pra disfarçar o vazio:

“Sonhe grande”,
“Pense fora da caixa”,
“Vista a camisa.”

Sim, a mesma camisa que agora ninguém mais lavava — porque ninguém mais tinha tempo.


⚙️ A Era do Desempenho Infinito

A lógica mudou.
Trabalhar deixou de ser um meio de vida e passou a ser um modo de sobrevivência emocional.
As metas se multiplicaram, os bônus diminuíram, e a pressão virou combustível.

As empresas descobriram que o medo é mais eficiente que o salário.
Basta ameaçar o desligamento, e pronto: nasce o colaborador ideal, sempre disponível, sempre sorrindo, mesmo com o burnout pendurado no crachá.

💻 As salas ficaram mais modernas, as pessoas mais exaustas.
Os computadores ficaram mais rápidos, os dias mais curtos.
E o elogio se tornou uma moeda rara — trocada apenas por “proatividade”, “resiliência” e “espírito de dono”.


🧠 Curiosidade de bastidor

Foi nessa época que o departamento de Recursos Humanos deixou de cuidar de pessoas e passou a administrar métricas.
RH virou planilha, e gente virou dado.
Os “colaboradores” começaram a se tratar como “ativos humanos”.
A linguagem corporativa virou uma espécie de dialeto orwelliano:
“Desligamento” no lugar de “demissão”.
“Sinergia” no lugar de “ordem”.
“Propósito” no lugar de “lucro”.


📟 Easter-egg: O 3270 do Capitalismo Turbo

No mainframe, o terminal 3270 responde rápido — mas só se você sabe o comando certo.
No capitalismo moderno, os comandos mudaram.
O “F3=Exit” foi substituído por “F∞=MaisMetas”.
E o “Enter” virou o novo “Sim, senhor”.

A velocidade que antes era sinal de eficiência virou sinônimo de ausência de pausa.
Trabalhar virou rodar em loop, sem commit de reconhecimento.


💣 O novo credo

O trabalhador pós-2000 aprendeu a sorrir cansado.
A dizer “tudo bem” quando não está.
A acreditar que o sucesso está a um curso online de distância — quando o verdadeiro curso é pra dentro, não pra fora.

A empresa virou um organismo faminto:
se alimenta da energia, do tempo e da juventude de seus colaboradores.
E ainda manda um e-mail motivacional no fim do expediente com o assunto:

“Juntos, somos mais fortes.”


🎯 Conclusão Bellacosa

A pressa virou o novo status.
Quem dorme, perde.
Quem sente, atrasa.
Quem pensa, questiona — e quem questiona, é desligado.

Vivemos a era em que o crachá não abre portas — abre feridas.
A meritocracia virou máscara pra desigualdade, e o “propósito corporativo” virou anestesia pra um sistema que suga em nome da performance.

A alma do trabalho foi substituída por métricas, e o tempo virou um ativo tóxico.
Bem-vindo ao Século da Pressa —
onde todo mundo corre, mas ninguém chega a lugar nenhum.


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