domingo, 29 de dezembro de 2019

Brasil 2019: quando o sistema parecia estável — e o operador experiente sentiu o frio na espinha

 


Brasil 2019: quando o sistema parecia estável — e o operador experiente sentiu o frio na espinha

Meu sexto ano de volta ao Brasil foi 2019. E todo veterano de mainframe conhece essa sensação: o sistema para de cair, os gráficos estabilizam, o barulho diminui — e exatamente por isso algo parece errado. Calmo demais. Silêncio demais. Em ambientes críticos, o perigo raramente anuncia chegada com sirene. Ele vem quando todos relaxam.

Depois de doze anos na Europa, eu já tinha aprendido a desconfiar da estabilidade sem explicação.

Economia: a promessa de retomada

Em 2019, a economia começou a falar em retomada. Reformas aprovadas, mercado animado, manchetes otimistas. Era como ver um sistema que finalmente responde aos pings. Mas quem estava no chão sentia outra coisa: pouco emprego de qualidade, renda ainda pressionada, desigualdade mais visível.

A engrenagem girava, mas rangia. Para quem viveu fora, o padrão era claro: ajuste fiscal sem rede de proteção cobra um preço invisível. O sistema melhora nos indicadores, piora na experiência do usuário.

A tal mudança de rumos existia — mas não apontava necessariamente para um lugar seguro.

Sociedade: normalizando o anormal

Socialmente, 2019 foi o ano da normalização do estranho. Discursos agressivos viraram rotina. Conflitos institucionais passaram a ser tratados como entretenimento. A política deixou de chocar e passou a cansar.

Para quem veio da Europa, isso acende alerta vermelho. Quando a sociedade se acostuma ao ruído, perde a capacidade de reagir ao sinal. O absurdo vira paisagem. O inaceitável vira opinião.

Era como operar um sistema com alertas desativados porque “sempre apita mesmo”.

Cultura: entre o escapismo e a negação

Culturalmente, 2019 foi dividido entre dois impulsos: fugir ou negar. Parte do país buscou escapismo — séries, memes, distração constante. Outra parte escolheu negar a complexidade, apostando em narrativas simples, quase infantis.

A arte ficou mais defensiva. O humor, mais ácido. O diálogo, mais raro. A cultura já não elaborava o trauma — apenas o empurrava para baixo do tapete.

Quem viveu fora reconhece esse momento: quando a sociedade está ocupada demais tentando manter a normalidade para perceber que algo grande se aproxima.

População: vivendo no automático

O brasileiro de 2019 estava no automático. Trabalhava, pagava contas, reclamava menos por cansaço, não por concordância. A indignação tinha virado gasto energético alto demais.

Resiliência virou rotina. E rotina, quando envolve sofrimento, é perigosa — porque anestesia.

Vi gente dizendo “pior que isso não fica”. Todo operador experiente sabe: essa frase precede incidentes graves.

Sexto ano pós-retorno: sensação de transição

No meu sexto ano de volta, senti algo diferente. Não era crise aberta, nem euforia. Era transição. Um sistema mudando de estado, silenciosamente. Algo novo no horizonte, mas não no sentido positivo ou negativo imediato — apenas desconhecido.

Na Europa, mudanças grandes costumam ser precedidas de relatórios. No Brasil, elas chegam como interrupt inesperado.

E havia algo no ar. Difícil de explicar racionalmente, fácil de sentir. Uma tensão baixa, constante, como servidor aquecendo além do normal sem disparar alarme.

O mais sinistro de todos: o que ninguém espera

O mais assustador de 2019 não foi o que aconteceu — foi o que não aconteceu. Nada explodiu. Nada caiu. Nada parou. O sistema seguiu rodando.

E é exatamente isso que assusta.

Porque os eventos mais terríveis em sistemas complexos não começam com falha total. Começam com pequenas exceções ignoradas, dependências mal mapeadas, confiança excessiva na estabilidade recente.

O perigo real de 2019 era invisível. Global. Silencioso. Não ideológico. Não nacional. Algo que não respeita fronteiras, discursos ou narrativas políticas. Algo que não pergunta em quem você votou.

Algo que ninguém esperava — justamente porque todos estavam ocupados demais discutindo o sistema antigo.

Epílogo: intuição de operador veterano

2019 terminou como começou: aparentemente normal. Mas para quem passou anos operando sistemas críticos — e vivendo em sociedades diferentes — a sensação era clara:
o sistema estava prestes a ser testado de um jeito que nenhum ajuste político ou econômico conseguiria resolver sozinho.

E todo veterano de mainframe sabe:
os incidentes mais graves
são aqueles que não aparecem nos relatórios,
não respeitam hierarquia
e não dão tempo de preparar discurso.

O Brasil de 2019 estava de pé.
Mas algo vinha aí.
Algo grande.
Algo assustador.

E ninguém, absolutamente ninguém,
estava pronto para o impact.

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