quinta-feira, 6 de maio de 2021

Por que o heroi do anime quase nunca tem mais de 40? O Etarismo nos animes.

 


🏯 1. O peso da juventude na cultura japonesa

O Japão valoriza juventude, energia e pureza — traços associados à ideia de “kawaii” (fofura) e “ganbaru” (esforço, vitalidade).
Na cultura japonesa, ser jovem é símbolo de potencial e esperança, enquanto envelhecer é muitas vezes associado à perda de utilidade social.

💬 Isso não é só nos animes — aparece em publicidade, na música (J-pop, idols), e até no mercado de trabalho, onde a idade define status e valor.


🎨 2. Como o etarismo aparece nos animes

Nos animes, o etarismo surge em várias formas sutis (e às vezes gritantes):

  • Idosos retratados como cômicos ou inúteis, tipo o Mestre Kame (Dragon Ball), que é sábio mas serve de piada sexual.

  • Mulheres maduras vistas como “passadas” (Christmas Cake, termo pejorativo japonês para mulheres acima dos 25).

  • Homens de meia-idade frequentemente retratados como fracassados, amargos ou vilões (Salaryman cansado).

  • Adolescentes dominam as narrativas, como se a vida adulta fosse o “fim do arco do herói”.

💡 Exemplo: Em Naruto, Tsunade é poderosa, mas o anime insiste em brincar com sua idade e aparência — reforçando o estigma da mulher que “envelheceu demais para ser sexy”.


🧠 3. Raízes culturais do etarismo

O Japão moderno mistura valores tradicionais confucionistas (respeito aos anciãos) com uma sociedade hipercompetitiva e obcecada por produtividade.
O resultado é paradoxal:

o idoso deve ser respeitado, mas não atrapalhar o progresso.

Essa mentalidade alimenta um medo da velhice, não como sabedoria, mas como peso social.
Em animes distópicos (Akira, Psycho-Pass, Ergo Proxy), isso vira metáfora: os jovens mudam o mundo, os velhos são a estrutura opressora.


💋 4. A idealização da adolescência

O mercado de anime vive da nostalgia da juventude.
Personagens entre 14 e 18 anos são vistos como o ápice da emoção, da beleza e da transformação — fase onde tudo é possível.

Por isso, obras que retratam adultos costumam ser mais sombrias e cínicas (Monster, Paranoia Agent, Tokyo Godfathers).
É como se o anime dissesse:

“A vida adulta é o epílogo — o que importa já aconteceu.”


🏙️ 5. A economia por trás da estética

As produtoras sabem que o público principal é jovem (ou adulto nostálgico da juventude).
Então o mercado vende a fantasia da idade dourada eterna:

  • Idols que não envelhecem.

  • Protagonistas adolescentes com responsabilidades de adultos.

  • Histórias que terminam antes do casamento, filhos, rugas ou boletos.

Envelhecer, na lógica comercial, significa sair da tela — e isso é o cerne do etarismo midiático.


🧓 6. Exceções e resistências

Nem tudo é superficial. Há animes que desafiam essa lógica:

  • Tokyo Godfathers (2003) — mostra adultos marginalizados com humanidade.

  • In This Corner of the World (2016) — retrata a vida adulta com doçura e dor.

  • Vinland Saga (2019) — amadurecimento como jornada moral.

  • Ojisan to Marshmallow — romance maduro e gentil.

Esses títulos tratam o envelhecer como processo de aprendizado, não de decadência.


⚖️ 7. O paradoxo japonês

O Japão é um dos países mais envelhecidos do mundo — mas sua cultura pop é eternamente adolescente.

Essa contradição é profunda: enquanto o país real precisa lidar com idosos ativos, dependentes e invisibilizados, o anime finge viver num mundo onde ninguém passa dos 25.

É uma forma de escapismo coletivo — uma negação estética do próprio tempo.


Conclusão Bellacosa

O etarismo nos animes é o espelho de um país que idolatra o novo e teme o velho.
Não por maldade, mas por uma mistura de estética, comércio e medo da perda de relevância.

Mas, como toda arte, o anime está mudando — lentamente, mas mudando.
Cada vez mais surgem histórias onde a maturidade é força, não fraqueza.

E talvez um dia, o herói mais poderoso dos animes seja alguém com rugas, cabelos brancos e muita história para contar. 👴✨

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