sexta-feira, 26 de julho de 2024

Quando o arquétipo vira clichê: sinais de alerta para roteiristas

 


Quando o arquétipo vira clichê: sinais de alerta para roteiristas

O ponto exato em que o familiar se torna preguiçoso

Arquétipos são o coração dos animes. Eles fazem com que, desde o primeiro episódio, já compreendamos quem é quem, o que esperar, para onde a trama pode caminhar. Só que existe uma linha tênue: quando um arquétipo deixa de emocionar e passa a irritar, temos um clichê.

Durante minhas maratonas mais recentes, percebi que alguns animes tropeçam exatamente no momento em que escolhem o caminho mais fácil, trocando profundidade por fórmulas vazias.

A pergunta que fica é:
quando o arquétipo deixa de funcionar e vira apenas repetição?


1️⃣ O personagem não muda

Arquétipos devem crescer com a história. Sempre.

Sinal vermelho quando:
• a tsundere passa 12 episódios apenas gritando e batendo
• o protagonista improvável continua bobo e inútil até o final
• o vilão filosófico não tem qualquer ponto coerente

Se o personagem termina igual ao que começou, o arquétipo virou carimbo.

O público não assiste para ver o mesmo, e sim para ver o conhecido se transformar.


2️⃣ A função narrativa é substituída por “checklist”

“Precisamos de um alívio cômico, coloca um.”
“Falta uma moe, joga ali.”
“Coloca um senpai que ninguém liga.”

Quando o arquétipo é colocado apenas para preencher espaço, o roteiro cria ruído. O personagem está presente, mas não serve ao enredo.

Exemplo clássico: mascotes fofos que nada acrescentam, apenas piscam e vendem chaveiros.


3️⃣ Reações previsíveis a cada cena

Se o espectador sabe exatamente qual será a fala seguinte do personagem, há um problema de previsibilidade.

Indícios claros:
• a mesma piada repetida até perder graça
• gatilhos dramáticos que sempre levam ao mesmo choro
• romance arrastado, sem qualquer evolução de intimidade real

Surpresa é o tempero do arquétipo bem usado.


4️⃣ O mundo não influencia o personagem

Arquétipos não podem existir no vácuo. O cenário deve moldá-los.

Falha comum em isekai:
O protagonista vai para um mundo completamente novo, mas continua com mentalidade de colégio e atitudes idênticas ao primeiro episódio.

Se o mundo não transforma a pessoa, a jornada perde propósito.


5️⃣ O fanservice domina a personalidade

Fanservice é válido quando complementa. Torna-se clichê quando substitui.

Sintomas:
• o personagem existe apenas para mostrar pele
• seu fetiche é sua única característica
• qualquer conflito é resolvido “no grito ou no decote”

Quando o arquétipo vira objeto, deixou de ser personagem.


Por que os clichês irritam tanto?

Porque nós amamos potencial.
Vemos um arquétipo e pensamos: “isso pode ser incrível”.
Quando o roteiro não cumpre essa promessa, sentimos frustração.

O clichê não falha por ser familiar.
Ele falha por não surpreender.


Como resgatar um arquétipo antes que morra

Sugestões simples que fazem diferença:

✔ Mudança de contexto: coloque a tsundere em posição vulnerável
✔ Quebra de expectativa: deixe o protagonista falhar feio
✔ Objetivos pessoais além da função de “amar o herói”
✔ Motivação clara, mesmo para o alívio cômico
✔ Vilões com razão para acreditar que estão certos

Pequenas subversões reativam a curiosidade do público.


Conclusão de um otaku que já viu de tudo

Arquétipos são como ingredientes clássicos de ramen:
a massa e o caldo podem ser os mesmos, porém o tempero precisa ser novo.

O clichê não nasce do arquétipo.
O clichê nasce da falta de risco.

Se o roteirista parar de perguntar “qual personagem preciso?”
e começar a perguntar “quem essa pessoa quer ser?”,
o clichê desaparece e o anime floresce.

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