Brasil 2014: o ano em que o sistema entrou em produção sem homologação
Meu primeiro ano completo de volta ao Brasil foi 2014. Em linguagem de mainframe, 2013 tinha sido o stress test. 2014 foi quando alguém decidiu colocar o sistema em produção mesmo sabendo que vários checks tinham falhado. Eu vinha de doze anos na Europa, acostumado a ambientes previsíveis, cheios de regras, mas também cheios de pactos silenciosos entre Estado e cidadão. No Brasil, o pacto parecia ter expirado — e ninguém renovou o contrato.
O país acordou em 2014 tentando seguir a rotina como se nada tivesse acontecido. Mas quem trabalha com sistemas críticos sabe: depois de um incident report, o ambiente nunca mais é o mesmo.
Economia: quando o caixa ainda tem dinheiro, mas o futuro já foi comprometido
Economicamente, 2014 foi um ano estranho. O consumo ainda respirava por aparelhos, sustentado por crédito, desonerações e discursos otimistas. Era como rodar um sistema em overclock: funciona, mas esquenta demais. Para quem tinha vivido fora, o sinal era claro — o modelo estava exaurido.
Na Europa, crise significava aperto explícito. No Brasil, crise era negada em release notes. O cidadão comum sentia no supermercado, no aluguel, no transporte. Não era colapso, era erosão. Um data corruption lenta, quase elegante, mas contínua.
O ex-imigrante volta achando que entende inflação. Em 2014, descobre que entende, mas subestimou o impacto emocional dela. Porque inflação não é só número — é a sensação diária de que o esforço nunca fecha a conta.
Sociedade: um país dividido rodando o mesmo sistema
O que mais me marcou em 2014 foi a mudança de clima social. As ruas que em 2013 tinham sido confusas, mas plurais, agora estavam polarizadas. Era como se o sistema tivesse sido clonado em dois ambientes incompatíveis, ambos dizendo ser o oficial.
Famílias, amigos, colegas de trabalho — todo mundo virou especialista em política de um dia para o outro. Mas não no sentido europeu do debate público estruturado. Era mais parecido com debug feito aos gritos, sem documentação, com cada operador jurando que o erro estava no código do outro.
Para quem voltou de fora, isso dói mais. Porque você traz a esperança de reconectar, de pertencer novamente. E encontra um ambiente onde qualquer tentativa de nuance é vista como defeito.
Cultura: espetáculo como cortina de fumaça
2014 também foi o ano do grande espetáculo. Copa do Mundo, campanhas publicitárias, narrativas de país alegre, resiliente, criativo. Do lado humano, foi quase esquizofrênico. De manhã, protestos; à tarde, festa; à noite, medo do amanhã.
Na Europa, eventos dessa magnitude vêm acompanhados de debates longos, relatórios, balanços. No Brasil, a cultura do improviso virou virtude oficial. O famoso “depois a gente vê” foi promovido a metodologia.
Culturalmente, percebi um Brasil mais cansado de pensar e mais disposto a sentir. Emoção substituiu análise. Meme substituiu argumento. Era entretenimento rodando em foreground, enquanto processos críticos travavam em background.
População: adaptação como mecanismo de sobrevivência
O brasileiro de 2014 não era apático. Era adaptativo. Vi gente fazendo milagres com pouco, reinventando rotinas, criando pequenos sistemas paralelos para sobreviver. Isso impressiona quem vem da Europa, onde o cidadão confia mais no sistema do que na própria criatividade.
Mas adaptação constante cobra preço. A população estava mais irritada, mais desconfiada, menos paciente. O sorriso continuava lá, mas era um sorriso de quem já viu dump demais e aprendeu a salvar o trabalho com mais frequência.
Como ex-imigrante, senti algo curioso: eu tinha voltado para casa, mas ainda operava com mentalidade de compliance. O Brasil de 2014 não recompensava isso. Aqui, sobrevivia melhor quem sabia contornar, não quem seguia o manual.
Primeiro ano pós-retorno: o choque silencioso
Meu primeiro ano de volta não foi de euforia, foi de reaprendizado. Aprender a atravessar a rua de novo, a negociar prazos irreais, a lidar com a informalidade que a Europa tinha me feito desaprender. 2014 me ensinou que o Brasil não quebra — ele se dobra.
Mas também mostrou algo preocupante: sistemas que se dobram demais perdem integridade.
2014 foi o ano em que o Brasil seguiu funcionando, mas com alerts ignorados, patches improvisados e operadores discutindo entre si enquanto o usuário final só queria que o sistema respondesse.
No fim daquele ano, eu já sabia: o problema não era mais saber se algo ia falhar. A pergunta real era quando — e quem estaria no console quando isso acontecesse.
E todo veterano de mainframe conhece essa sensação incômoda:
o sistema ainda está no ar,
mas ninguém confia totalmente no uptime.
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