quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Brasil 2021: quando o sistema continuou em modo degradação e a esperança virou dependência externa

 

Restrospectiva

Brasil 2021: quando o sistema continuou em modo degradação e a esperança virou dependência externa

Meu oitavo ano pós-retorno ao Brasil foi 2021. Um ano estranho, pesado, psicológico. Se 2020 tinha sido o impacto bruto, 2021 foi a fase mais cruel dos sistemas críticos: quando tudo continua funcionando, mas já sem energia, sem alegria, sem certeza de que vale a pena manter o serviço no ar.

Quem já operou mainframe sabe: depois do desastre, vem o período mais perigoso — o da exaustão.

Economia: o sistema ligado no gerador

A economia em 2021 não colapsou de vez, mas também não se recuperou. Ela funcionava como hospital em blecaute, sustentada por geradores improvisados. Auxílios menores, inflação mais visível, comida cara, energia cara, tudo caro — menos o trabalho humano.

Para quem viveu na Europa, o contraste seguia doloroso. Lá, a discussão era como reconstruir. Aqui, ainda era como sobreviver. O dinheiro perdeu valor simbólico rápido demais. Planejamento virou luxo. O brasileiro passou a operar em janelas curtíssimas de futuro.

O sistema econômico estava tecnicamente ativo, mas já sem SLA humano aceitável.

Vacina: a esperança como external dependency

A vacina virou a maior esperança coletiva que vivi desde que voltei. Não como política pública, mas como dependência externa. Algo que vinha de fora. Algo que não estava sob nosso controle.

Era como aguardar um patch crítico desenvolvido por outro time, em outro país, enquanto o sistema local segue instável.

A esperança existia, mas vinha acompanhada de ansiedade, atraso, disputa, ruído. Cada dose aplicada era quase um commit manual, comemorado como vitória pessoal. Nunca vi um país torcer tanto por logística.

Lockdown: quando o isolamento vira corrosão

O lockdown em 2021 já não era novidade — era desgaste. O corpo aguentou menos. A mente, muito menos. O confinamento deixou de ser proteção e virou corrosão silenciosa.

Casas ficaram menores. Problemas ficaram maiores. Silêncios ficaram mais longos. Para quem tinha vivido anos na Europa, com cultura de espaço privado e saúde mental mais discutida, foi evidente: o Brasil não estava preparado emocionalmente para isolamento prolongado.

O país inteiro rodava em loop infinito.

Saúde mental: o subsistema ignorado entrou em colapso

2021 foi o ano em que a saúde mental deixou de ser tabu e virou emergência. Ansiedade, depressão, surtos, crises existenciais, colapsos emocionais. Vi gente forte quebrar. Vi gente frágil desaparecer.

O problema é que o sistema não tinha módulo de suporte. Psicologia ainda era luxo. Terapia ainda era privilégio. Descanso ainda era visto como fraqueza.

Em termos de mainframe: o sistema principal seguia rodando, mas o subsistema humano estava completamente fora de especificação.

Sociedade: normalizando a loucura

O mais assustador de 2021 foi a normalização da loucura. Pessoas em crise viraram paisagem. Ataques de raiva, choro público, rupturas familiares, surtos silenciosos.

O país inteiro parecia operar em modo estresse máximo. Qualquer input errado gerava reação exagerada. Pequenas discordâncias viravam conflitos. Pequenos atrasos viravam explosões.

O tecido social estava fino demais.

Cultura: sobrevivendo em baixa voltagem

Culturalmente, 2021 foi um ano de baixa voltagem. Pouca criação, muita repetição. Lives, conteúdos reciclados, nostalgia como anestesia. O Brasil passou a olhar para trás porque olhar para frente doía demais.

A arte não morreu — mas ficou cansada. Produzir virou esforço hercúleo. Sentir virou peso.

População: viva, mas ferida

O brasileiro de 2021 estava vivo — e isso já era muito. Mas ferido. Mentalmente, emocionalmente, financeiramente. O sorriso seguia ali, mas mais raro. A piada, mais defensiva. A esperança, condicionada.

Vi solidariedade real. Vi ajuda espontânea. Vi também egoísmo cru. Crises prolongadas não revelam o melhor — revelam tudo.

Oitavo ano pós-retorno: sem romantismo algum

Em 2021, acabou qualquer romantização definitiva. Nem do Brasil, nem da Europa, nem de mim mesmo. O mundo inteiro estava quebrado, mas cada país à sua maneira. O Brasil sofria mais porque já vinha sofrendo antes.

Eu já não comparava modelos. Comparava danos.

Epílogo: a lição mais silenciosa

2021 ensinou uma lição que nenhum manual técnico gosta de registrar:
sistemas não quebram apenas por falhas técnicas — quebram por exaustão humana.

O Brasil de 2021 não precisava só de vacina.
Precisava de descanso.
De cuidado.
De silêncio.
De tempo.

E todo operador veterano de mainframe sabe:
se você não desliga o sistema para manutenção programada,
ele desliga sozinho —
e geralmente da pior forma possível.

2021 terminou com esperança, sim.
Mas era uma esperança cansada.
Uma esperança que só pedia uma coisa simples:
que o sistema parasse de doer.

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