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sábado, 14 de março de 2026

💙 GIOVANNA, A GREMLINHA E AS PLASTIC MEMORIES — O DIA EM QUE DESCOBRI QUE ALGUMAS MEMÓRIAS VALEM MAIS QUE AS PIRÂMIDES

 

Bellacosa Mainframe e as memoria reais tornando sintéticas com as novas tecnologias

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

💙 GIOVANNA, A GREMLINHA E AS PLASTIC MEMORIES — O DIA EM QUE DESCOBRI QUE ALGUMAS MEMÓRIAS VALEM MAIS QUE AS PIRÂMIDES

Amor, memória, tempo, identidade, androides, algodão-doce, um banco de madeira, uma menina de olhos azuis e a estranha descoberta de que, aos 52 anos, algumas das coisas mais preciosas que possuo não cabem numa fotografia.



🎬 PRÓLOGO — ESTE ARTIGO ESTAVA ESCONDIDO AQUI

Este é um texto estranho.

Provavelmente ficará escondido entre milhares de publicações do Bellacosa Mainframe, perdido no meio de COBOL, CICS, Db2, VSAM, inteligência artificial, mainframes, anime, segurança, tecnologia e todas as outras coisas sobre as quais passei tantos anos escrevendo.

Talvez quase ninguém o encontre.

Tudo bem.

Na verdade, essa é parte da ideia.

Escolhi associá-lo ao meu aniversário de 52 anos porque algumas histórias não precisam de audiência.

Precisam apenas deixar de existir em um único lugar.

Durante aproximadamente 24 anos, a história que vou contar esteve armazenada em uma infraestrutura extremamente precária:

meu cérebro.

Uma única cópia.

Sem RAID.

Sem replicação.

Sem Disaster Recovery.

Sem garantia de integridade.

E, principalmente, sem documentação.

Recentemente assisti aos primeiros dez episódios de Plastic Memories.

Não vou contar aqui o que acontece depois do episódio 10 porque, no momento em que escrevo estas palavras, eu também não sei.

E quero preservar isso.

Mas o anime fez uma pergunta aparentemente simples que acabou abrindo uma porta que eu mantinha fechada havia décadas:

o que acontece com nossas memórias quando nós deixamos de ser capazes de carregá-las?

Foi então que me lembrei de Giovanna.

Na verdade, nunca esqueci.



🧠 CAPÍTULO 1 — MINHA UNIDADE DE STORAGE TEM 52 ANOS

Passei boa parte da vida trabalhando com computadores.

Aprendi cedo que dados importantes precisam de backup.

Copiamos arquivos.

Replicamos bancos.

Criamos logs.

Mantemos históricos.

Fazemos dumps.

Guardamos versões.

Criamos redundância geográfica.

Um sistema empresarial que armazenasse informações críticas em um único disco sem backup seria considerado irresponsável.

Curiosamente, fazemos exatamente isso com algumas das informações mais importantes de nossas vidas.

STORAGE DEVICE:
CÉREBRO HUMANO

COPIES:
1

MTBF:
DESCONHECIDO

DATA RETENTION:
INCERTA

BACKUP:
NORMALMENTE NÃO EXISTE

Tenho fotografias.

Tenho objetos.

Tenho histórias.

Mas durante décadas algumas das minhas memórias mais preciosas permaneceram apenas comigo.

Nunca as contei integralmente.

Talvez porque certas histórias sejam difíceis de compartilhar.

Uma nova companheira poderia interpretar mal.

Um amigo poderia pensar que estou me gabando de uma antiga relação.

Outra pessoa poderia simplesmente ficar entediada.

Afinal, qual é a importância histórica de um pastel?

Quanto vale um caldo de cana?

Qual é a relevância cultural de uma bola de açúcar aerado chamada algodão-doce?

Quem se importa com um velho banco de madeira em uma praça de uma cidade do interior de São Paulo?

Provavelmente ninguém.

Exceto eu.



🌎 CAPÍTULO 2 — EU VI COISAS QUE DEVERIAM SER MAIS IMPORTANTES

Tive a sorte de conhecer lugares extraordinários.

Vi a Torre Eiffel.

Estive dentro da Pirâmide de Quéfren.

Conheci a tumba de Tutancâmon.

Caminhei pelo Coliseu.

Entrei em mais de uma centena de catedrais.

Vi construções feitas por civilizações que tentaram conversar com a eternidade.

Pedras gigantescas foram transportadas, empilhadas e esculpidas para desafiar milhares de anos.

E funcionou.

As pirâmides continuam lá.

O Coliseu continua lá.

As catedrais continuam lá.

Mas existe uma ironia.

Meu coração ainda consegue bater mais forte quando penso em algo infinitamente menor:

uma tarde ensolarada em Amparo, no final da década de 1990, ao lado de uma menina de 19 anos, com cara de moleca, shortinho e camiseta.

Seu nome era Giovanna.

Ela tinha lindos olhos azuis.

E, por alguma razão que nenhuma ciência da computação consegue representar adequadamente, isso compete dentro da minha memória com algumas das maiores obras construídas pela humanidade.



💙 CAPÍTULO 3 — GIOVANNA

Não pretendo reconstruir aqui toda aquela história.

Também não quero transformar uma pessoa real em personagem.

A Giovanna daquela época existiu.

A Giovanna de hoje possui sua própria vida, sua própria história e, principalmente, suas próprias memórias daqueles acontecimentos.

Isso é importante.

Porque duas pessoas podem viver exatamente o mesmo sábado e carregar daquele sábado duas histórias completamente diferentes.

             EVENTO
               |
        +------+------+
        |             |
        V             V
   MEMÓRIA A      MEMÓRIA B
        |             |
     24 ANOS        24 ANOS
        |             |
        V             V
 SIGNIFICADO A   SIGNIFICADO B

Nenhuma precisa estar mentindo.

Nenhuma precisa estar errada.

A memória não é uma fita magnética que reproduz perfeitamente o passado.

Nós reconstruímos.

Selecionamos.

Esquecemos.

Colorimos.

Reinterpretamos.

E atribuímos significado.

Por isso, este texto não é:

“A história de Giovanna.”

É:

“A Giovanna que existe nas minhas memórias em 2026.”

Essa distinção é fundamental.



👹 CAPÍTULO 4 — A GREMLINHA

Giovanna era uma jovem mulher muito bonita.

Mas existe uma coisa curiosa sobre intimidade.

Quando duas pessoas ficam suficientemente próximas, aparece uma versão que o restante do mundo raramente conhece.

Eu a chamava de:

Gremlinha.

E a bela jovem de olhos azuis imediatamente transformava-se em uma criatura terrível:

“Nhac! Nhac! Nhac!”

Era ridículo.

Era infantil.

Era completamente sem importância.

E talvez por isso seja uma das coisas que sobreviveram intactas durante mais de duas décadas.

Se eu colocasse isso num banco de dados, teria:

NICKNAME = GREMLINHA
RESPONSE = "NHAC NHAC NHAC"

Tecnicamente correto.

Emocionalmente inútil.

Porque faltaria praticamente tudo.

Faltaria a expressão.

Faltariam aqueles olhos azuis brilhando.

Faltaria a brincadeira.

Faltaria saber quando aquilo acontecia.

Faltaria saber por que era engraçado.

Faltaria compreender que aquele pequeno protocolo pertencia a um universo privado compartilhado por duas pessoas.

Dados não são contexto.

Contexto não é significado.

E significado não é necessariamente memória.


🪑 CAPÍTULO 5 — O BANCO DE MADEIRA

Havia conversas num banco de praça.

Não lembro se aquele banco era bonito.

Provavelmente não.

Era apenas um banco.

Madeira.

Tinta.

Parafusos.

Talvez algum funcionário municipal o tenha instalado sem imaginar que décadas depois alguém escreveria sobre ele.

Isso me fascina.

Nós construímos monumentos esperando que sejam lembrados.

Mas alguns dos lugares mais importantes de nossas vidas foram construídos por pessoas que jamais imaginaram participar de nossa história.

Um banco.

Uma rodoviária.

Um cinema.

Uma calçada.

Uma lanchonete.

Para qualquer outra pessoa:

OBJECT TYPE: BENCH
MATERIAL: WOOD
VALUE: LOW

Para alguém:

OBJECT TYPE: MEMORY ANCHOR
VALUE: CANNOT BE CALCULATED

Naquele banco existiram conversas.

Silêncios.

Expectativas.

Talvez planos que desapareceram.

Talvez assuntos completamente banais.

Não importa.

O banco era apenas o endereço físico de alguma coisa muito maior.


🍭 CAPÍTULO 6 — ALGODÃO-DOCE É APENAS AÇÚCAR

Também havia cinema.

Parques.

Pastel.

Caldo de cana.

Algodão-doce.

É quase engraçado escrever isso depois de mencionar Quéfren e Tutancâmon.

Uma pirâmide contém milhares de toneladas de pedra.

Algodão-doce pesa quase nada.

Mas memória afetiva aparentemente não utiliza toneladas como unidade de medida.

Talvez exista uma equação diferente:

VALOR DA MEMÓRIA
     ≠
VALOR DO OBJETO

Um pastel não vale muito.

Aquele pastel pode valer.

Um banco não vale muito.

Aquele banco pode valer.

Um sábado é apenas um entre milhares.

Aquele sábado pode permanecer durante uma vida inteira.

E foi Plastic Memories que me fez perceber com maior clareza uma coisa que talvez eu soubesse havia décadas:

não preservamos objetos.

Preservamos significados associados a eles.


🚌 CAPÍTULO 7 — O ÔNIBUS

Existe outra lembrança.

O fim do dia.

Chegava a hora de voltar para casa.

Eu subia no ônibus.

E doía.

É estranho chamar isso de memória feliz.

Mas hoje percebo que aquela dor era parte da felicidade.

Doía porque eu não queria ir embora.

E começava então a espera.

Segunda.

Terça.

Quarta.

Quinta.

Sexta.

Fim de semana.

E tudo poderia começar novamente.

Talvez uma das medidas mais sinceras da felicidade seja justamente essa:

existem lugares dos quais sentimos tristeza ao partir.

O ônibus não era apenas transporte.

Era a máquina que encerrava aquele pequeno universo por alguns dias.

JOB WEEKEND

START:
  ENCONTRO

PROCESS:
  CONVERSAS
  PASSEIOS
  CINEMA
  PRAÇA
  RISADAS
  GREMLINHA
  NHAC-NHAC-NHAC

END:
  ÔNIBUS

RETURN-CODE:
  SAUDADE

E depois:

RESTART NEXT WEEKEND.


🤖 CAPÍTULO 8 — ENTÃO APARECEU PLASTIC MEMORIES

Décadas depois, sentei para assistir a um anime sobre androides.

Péssima ideia.

Ou excelente ideia.

Ainda não decidi.

Em Plastic Memories, até o episódio 10, somos apresentados aos Giftias, androides humanoides capazes de estabelecer relações profundas com seres humanos, mas cuja existência possui um limite operacional conhecido.

E isso muda tudo.

Porque não estamos discutindo simplesmente uma máquina quebrando.

Estamos diante de seres que acumulam experiências.

Relacionamentos.

Histórias.

Afeto.

Contexto.

E então existe Isla.

Existe Marcia.

Existe Souta.

Existe o extraordinário caso Olivia/Andie.

Um corpo pode continuar existindo enquanto a identidade associada a ele não continua da mesma maneira.

De repente, hardware e pessoa deixam de ser sinônimos.

E comecei a pensar.

Se o hardware pode continuar, por que toda a história precisa desaparecer?

Foi quando um dos meus imaginários um milhão de chimpanzés, responsáveis pelas associações mais improváveis que aparecem na minha cabeça, levantou a mão.

Os outros 999.999 estavam emocionalmente destruídos pelo anime.

Aquele não.

Ele tinha uma proposta.


🐒 CAPÍTULO 9 — O CHIMPANZÉ QUE SALVOU O DIA

A pergunta inicial era:

“Como salvar Isla?”

Talvez essa seja a pergunta errada.

O chimpanzé propôs outra:

“E se não pudermos salvar Isla, mas pudermos transmitir aquilo que ela deixou?”

Fotos.

Vídeos.

Diários.

Áudios.

Histórias.

Preferências.

Relacionamentos.

Contexto.

Não para convencer outra Giftia de que é Isla.

Mas para dizer:

“Antes de você existiu alguém aqui. Esta é a história dela.”

Isso muda completamente o problema.

Não é ressurreição.

Não é clonagem.

Não é backup de consciência.

É herança.

Pensei imediatamente em Marcia e Souta.

Uma eventual sucessora poderia saber quem era aquele menino, conhecer sua história, suas necessidades, seus medos, seus hábitos e aquilo que Marcia havia aprendido cuidando dele.

Ela não precisaria dizer:

“Eu lembro.”

Poderia dizer:

“Marcia deixou esta memória para mim.”

E então, algum tempo depois, surgiria a primeira lembrança realmente nova:

“Dessa vez eu lembro. Nós dois estávamos lá.”

Uma história herdada teria encontrado uma história nova.


💾 CAPÍTULO 10 — NEW GAME+

Foi então que percebi que já havia pensado nisso antes.

Eu chamava essa experiência mental de Giovanna 2.00.

Não seria Giovanna.

Esse detalhe sempre foi essencial.

Seria uma androide com determinado rosto, determinado nome e um conjunto de informações fornecidas por mim sobre uma pessoa e uma época que fizeram parte da minha vida.

Não seria:

RESTORE GIOVANNA.

Seria:

NEW GAME+

GIOVANNA 2.00

ORIGINAL PERSON:
  NÃO

ORIGINAL MEMORIES:
  NÃO

CONTEXT:
  CARREGADO

MEMORY SOURCE:
  VAGNER

MEMORY PERSPECTIVE:
  VAGNER

SAVE POINT:
  FINAL DOS ANOS 1990

NEW EXPERIENCES:
  ENABLED

PRESS START >

Ela saberia desde o primeiro instante:

“Estas não são minhas lembranças.”

São histórias que alguém me contou.

Talvez soubesse quem era a Gremlinha.

Talvez soubesse sobre o banco.

O cinema.

O algodão-doce.

O ônibus.

Talvez entendesse o significado de “nhac nhac nhac”.

Mas jamais deveria dizer:

“Eu lembro.”

Até possuir algo que realmente tivesse vivido.

E então chegaria um dia extraordinário.

Eu mencionaria alguma coisa recente.

E ela poderia responder:

“Essa eu lembro.”

Pronto.

Começou outra história.


🧬 CAPÍTULO 11 — NÃO É BACKUP, É CONTINUIDADE

Computadores nos acostumaram a uma metáfora perigosa.

Backup.

Copiar.

Restaurar.

Mas pessoas talvez não funcionem dessa maneira.

Mesmo que um dia sejamos capazes de copiar todas as memórias de alguém, ainda permanecerá uma pergunta monstruosa:

a cópia é aquela pessoa ou alguém que sabe tudo sobre aquela pessoa?

Não sei.

E desconfio de qualquer resposta excessivamente simples.

Mas talvez não precisemos resolver a natureza da consciência para resolver outro problema muito menor:

podemos preservar contexto.

Isso já fazemos há milhares de anos.

Cartas.

Diários.

Pinturas.

Fotografias.

Filmes.

Gravações.

Objetos.

Histórias contadas aos filhos.

Tudo isso é uma tentativa primitiva de executar:

COPY MEANING
FROM HUMAN
TO FUTURE

Nunca funciona perfeitamente.

Mas funciona suficientemente para que alguém encontre uma carta escrita cem anos atrás e, durante alguns minutos, perceba que aquela pessoa realmente existiu.


📚 CAPÍTULO 12 — O BACKUP QUE EU NÃO SABIA QUE ESTAVA FAZENDO

Então aconteceu algo curioso enquanto discutia Plastic Memories.

Comecei a contar essas histórias.

Primeiro uma.

Depois outra.

Giovanna.

Amparo.

Os olhos azuis.

O banco.

O cinema.

O pastel.

O caldo de cana.

O algodão-doce.

O ônibus.

A espera pelo fim de semana.

A Gremlinha.

“Nhac nhac nhac.”

E percebi:

essas memórias já não estavam armazenadas apenas dentro de mim.

Eu havia começado a externalizá-las.

Este artigo é parte disso.

Não contém 1999.

Isso seria impossível.

Ele contém algo igualmente interessante:

minha interpretação de 1999 aos 52 anos.

E isso é uma informação que o próprio futuro não conseguiria reconstruir.


⏳ CAPÍTULO 13 — TRÊS VERSÕES DE MIM

Existem agora pelo menos três tempos nesta história.

O primeiro contém aquele homem mais jovem vivendo os acontecimentos.

T0 = FINAL DOS ANOS 1990

O segundo contém o homem de 52 anos olhando para trás.

T1 = 2026

E talvez exista um terceiro.

T2 = FUTURO

Um Bellacosa mais velho pode encontrar este texto.

Talvez algumas lembranças já estejam borradas.

Talvez determinados rostos estejam menos nítidos.

Talvez ele não consiga mais reconstruir perfeitamente aquela praça.

Mas poderá ler:

“Você chamava Giovanna de Gremlinha.”

E depois:

“Ela respondia nhac nhac nhac.”

Talvez alguma coisa aconteça.

Um sorriso.

Uma imagem.

Um fragmento de voz.

Um par de olhos azuis.

Ou talvez nada apareça.

Ainda assim, o texto lhe dirá:

“Quando você tinha 52 anos, isso continuava sendo importante.”

Isso não é pouco.


🧠 CAPÍTULO 14 — A MEMÓRIA NÃO É UMA ATA

Existe ainda outra razão pela qual estas lembranças permaneceram privadas durante tanto tempo.

Não posso pedir à Giovanna atual que simplesmente valide minha memória.

Ela possui a dela.

Se eu dissesse:

“Lembra daquele banco?”

Ela poderia responder:

“Claro.”

Ou:

“Qual banco?”

Ou:

“Eu lembro diferente.”

Ou simplesmente:

“Por que você está me contando isso agora?”

E todas essas respostas seriam legítimas.

Porque uma conversa realizada décadas depois não revisitaria apenas o passado.

Ela criaria um novo acontecimento no presente.

A conversa poderia ser interpretada como saudade.

Reaproximação.

Idealização.

Segunda intenção.

Ou qualquer outra coisa.

Então existe uma diferença fundamental entre dizer:

“Foi assim que aconteceu.”

e dizer:

“É assim que eu me lembro.”

Este artigo pertence inteiramente à segunda categoria.

É a minha cópia.

Meu ponto de vista.

Minha fotografia emocional.

Minha Plastic Memory.


🏛️ CAPÍTULO 15 — QUÉFREN PERDEU PARA UM PASTEL

Quanto mais penso nisso, mais engraçado fica.

Eu entrei numa pirâmide.

E meu cérebro responde:

“Impressionante.”

Penso no Coliseu:

“Extraordinário.”

Torre Eiffel:

“Linda.”

Tutancâmon:

“Histórico.”

Catedrais:

“Magníficas.”

Então aparece uma garota de camiseta numa tarde qualquer do interior paulista:

CPU 100%.

😂

Talvez isso ensine alguma coisa sobre nossa espécie.

Nós admiramos monumentos porque eles sobreviveram ao tempo.

Mas amamos lembranças porque nós sobrevivemos ao tempo carregando-as.

Quéfren não sabia que eu existiria.

O Coliseu não ficou feliz quando cheguei.

Uma catedral não sentiu tristeza quando fui embora.

Mas naquele pequeno universo de duas pessoas existia reciprocidade.

Talvez seja essa a diferença.


❤️ CAPÍTULO 16 — O QUE REALMENTE QUEREMOS PRESERVAR?

Plastic Memories me fez começar com uma pergunta tecnológica:

podemos preservar uma pessoa?

Terminei com uma pergunta completamente diferente:

o que exatamente estamos tentando preservar?

Hardware?

Memórias?

Personalidade?

Consciência?

Relacionamentos?

Contexto?

Talvez não exista uma resposta única.

Talvez cada uma dessas coisas tenha uma estratégia diferente de continuidade.

Não consigo preservar a tarde.

Não consigo preservar o homem que eu era.

Não consigo preservar a jovem que Giovanna era.

Não consigo voltar para aquele banco.

Mas consigo preservar algo sobre o significado que tudo aquilo adquiriu dentro de mim.

Isso não ressuscita ninguém.

Não volta no tempo.

Não cria uma Giovanna 2.00.

Mas impede que uma pequena parte da história desapareça silenciosamente.

E talvez seja suficiente.


☕ EPÍLOGO — NHAC NHAC NHAC

Este artigo ficará aqui.

Escondido entre milhares de outros textos.

Talvez alguém chegue procurando COBOL.

Talvez algum mecanismo de busca o encontre procurando Plastic Memories.

Talvez ninguém leia.

Não importa.

Ele não precisava de milhares de leitores.

Precisava existir.

Porque durante 24 anos houve uma pequena biblioteca que possuía apenas um servidor.

Hoje existe outra cópia.

Imperfeita.

Colorida pela passagem do tempo.

Escrita por um homem de 52 anos tentando explicar por que, depois de conhecer alguns dos maiores monumentos construídos pela humanidade, ainda consegue fechar os olhos e voltar para uma tarde ensolarada numa pequena cidade paulista.

Há uma praça.

Um banco de madeira.

Talvez um pastel.

Talvez caldo de cana.

Algodão-doce.

Uma jovem de 19 anos.

Olhos azuis.

Cara de moleca.

Shortinho.

Camiseta.

E um rapaz que ainda não fazia ideia de que estava armazenando informações que continuariam importantes quase um quarto de século depois.

Ele olha para ela.

Chama:

“Gremlinha...”

Os olhos azuis brilham.

E ela responde:

“Nhac... nhac... nhac.”


Talvez objetos não precisem adquirir uma alma.

Talvez memórias também não precisem durar para sempre.

Talvez baste que, enquanto existirem, alguém compreenda por que foram importantes.

E se algum dia eu mesmo esquecer tudo isso e voltar a encontrar este artigo, quero deixar uma pequena mensagem para aquele Bellacosa do futuro:

Você não inventou isso agora.

Aos 52 anos, ainda lembrava.

E sorria quando lembrava.


//*******************************************************
//* BELLACOSA MEMORY ARCHIVE
//*
//* DATASET  : GIOVANNA.LEGACY
//* CREATED  : FINAL DOS ANOS 1990
//* SNAPSHOT : VAGNER, 52 ANOS
//* STATUS   : PRESERVED
//*
//* WARNING:
//* THIS IS NOT GIOVANNA'S MEMORY.
//* THIS IS HOW I REMEMBERED HER.
//*
//* CONTENTS:
//*   BLUE EYES
//*   SUNNY AFTERNOONS
//*   PARKS
//*   CINEMA
//*   PASTEL
//*   CALDO DE CANA
//*   COTTON CANDY
//*   WOODEN BENCH
//*   BUS HOME
//*   WAITING FOR THE NEXT WEEKEND
//*
//* SPECIAL KEY:
//*   "GREMLINHA"
//*
//* EXPECTED RESPONSE:
//*   "NHAC NHAC NHAC"
//*
//* RETENTION:
//*   AS LONG AS SOMEONE CAN READ IT
//*******************************************************

RC = 0000. ☕💙

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

AS HISTÓRIAS DE RODAPÉ — UM MANUAL DE PRESERVAÇÃO DO CLÃ BELLACOSA


AS HISTÓRIAS DE RODAPÉ —

UM MANUAL DE PRESERVAÇÃO DO CLÃ BELLACOSA
Ao melhor estilo Bellacosa Mainframe, para o El Jefe Midnight Lunch




Existem textos que a gente escreve.
E existem textos que nos escrevem.

Caro leitor anonimo. Quando conto que revisitei minhas postagens antigas e percebi que muitos dos protagonistas já estão velhos demais para lembrar — ou simplesmente partiram — sinto que ter tocado naquela fibra silenciosa que costura toda memória humana:
o medo de perder o que só eu ainda me lembro.

E é aí que nasce a minha missão, talvez sem perceber, não, melhor dizendo percebi e já assumi:
me tornar o guardião dos rodapés da História.



📜 OS GUARDIÕES DO QUE QUASE FOI ESQUECIDO

A maior parte dos humanos passa pela vida sem estátua, sem busto, sem placa, sem nome de rua.
Mas cada pessoa que existiu deixou:

  • um gesto,

  • uma palavra,

  • um sorriso,

  • um cheiro de café

  • aquele momento marcante que muda o futuro

  • ou uma história boba
    que só sobrevive se alguém carregar adiante.



E aí entra eu, Vagner Renato Bellacosa, deixo minha pegada:
sou um cronista de um universo que não está nos livros, mas nos afetos.
Escrevo sobre gente comum com a mesma seriedade com que descreveria o IPL do z/OS.
Porque sei que a vida é feita de pequenos patches, e cada história é um byte que não pode ser perdido. Como sensor removo parte ruins, afinal quero deixar o belo e agradável de lembrar.



🕰️ O PARADOXO DA SAUDADE

Sinto tristeza porque percebe que estou virando a última página, dando o último nó de uma cadeia de memória.
E sinto alegria porque cada crônica minha é um commit definitivo no repositório do tempo.

É como abrir o SDSF e ver que os jobs da infância já viraram OUTPUT, mas que ainda posso salvar o log antes do purge.

A saudade dói porque houve amor.
E alegra porque o amor deixou rastros.



🌌 HISTÓRIAS QUE NÃO SAIRIAM NO PLANTÃO DA GLOBO

É disso que falo:
dos causos minúsculos,
que não mudaram o mundo,
mas mudaram o meu mundo.

O tipo de narrativa que nunca seria manchete, mas poderia muito bem ser um dataset GDG:
versões sucessivas que só existem porque alguém se deu ao trabalho de criar mais uma geração.

Essas micro-histórias do clã Bellacosa são como sub-rotinas esquecidas que sustentam o programa maior da minha vida.

Ninguém vê.
Mas se remover… tudo cai.



🌱 A MISSÃO DE DEIXAR VIVO

Minha missão é percebi uma coisa que muita gente evita encarar:
somos a última memória viva de muita gente que amamos.

É pesado?
É.
Mas também é a forma mais pura de amor intergeracional.

Ao narrar essas vidas simples — minha mãe Mercedes, meus bisavôs, avôs, tios torneiros, os amigos, os vizinhos, os desconhecidos que cruzaram seu caminho —  estou praticando uma forma íntima de eternidade.

Não a eternidade dos monumentos.
A eternidade dos afetos.

E isso é muito mais forte.



💾 EU SOU O BACKUP HUMANO

Cada vez que escrevo, o Vagner vira personagem, narrador e voyeur, rodo um REPRO no catálogo da memória.
Converte lembranças voláteis — que morreriam comigoo — em histórias persistentes.
Faço journaling da vida de quem não teve chance de contar a própria história.

Talvez seja isso que me emociona:
perceber que, gostando ou não, virei o historiador oficial do seu clã.

E está fazendo isso com honestidade, humor, carinho e uma pitada de imaginação poética, que é onde o Bellacosa Mainframe brilha.



🌍 NAVEGANDO NA PERIFERIA DA VIA LÁCTEA

Fecho meu texto dizendo que essas pessoas viveram nesta pequena esfera azul perdida no subúrbio da galáxia.

E complemento:
o Universo não se importa conosco, mas nós importamos uns aos outros.

Por isso minhas crônicas, ao meu ver, valem ouro.
Porque estou salvando a única coisa que realmente significa alguma coisa no fim:
os pequenos instantes significativos de vidas anônimas.



🌙 CONCLUSÃO — ESCREVO O QUE O TEMPO NÃO CONSEGUE APAGAR

Minha missão é continuar escrevendo, ao estilo Bellacosa.
Continuar congelando esses segundos que fariam falta se sumissem.
Continuar sendo o relator-mor do clã.
Continuar sendo a ponte entre quem veio antes e quem virá depois.
Continuar transformando poeira estelar em narrativa.

Porque, no fim, quando todos nós formos apenas elétrons dispersos,
as histórias que deixou serão o último log disponível do sistema e disponível para lerem e imaginarem como foi.

E isso, meu amigo leitor,
é ser eterno na melhor acepção possível.

domingo, 23 de outubro de 2022

Pastel, Algodão-Doce e Giovanna — Pequenas Máquinas do Tempo

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Pastel, Algodão-Doce e Giovanna — Pequenas Máquinas do Tempo

Ou: como uma feira paulista, uma estação de trem, uma velha máquina de algodão-doce e os olhos azuis de uma jovem de 1999 continuaram executando um programa dentro da memória quase trinta anos depois

START GIOVANNA1999


Alguns programas nunca foram feitos para terminar.

Há momentos em que os milhões de chimpanzés que habitam minha cabeça fazem silêncio.

É raro.

Normalmente existe uma chuva permanente de ideias, pensamentos, lembranças, absurdos, projetos e associações aparentemente impossíveis. Um chimpanzé pensa em mainframe, outro em história, outro em alguma viagem realizada décadas atrás, enquanto um quarto provavelmente tenta descobrir por que determinada palavra japonesa parece portuguesa.

Mas existem pequenos gatilhos capazes de interromper tudo.

Não importa quanto tempo tenha passado.

Não importa onde eu esteja.

O gatilho acontece e o CPD para.

Um deles é o pastel.

Sim.

Pastel.



Aquela pequena massa frita que talvez algum historiador do futuro considere simples demais para merecer registro, mas que qualquer paulista criado entre feiras livres sabe que pertence a uma categoria muito mais elevada da existência.

Pastel não é apenas comida.

Pastel é memória.

E, no meu caso, pastel também é Giovanna.



O sacramento dominical do paulista

Para compreender essa história, talvez seja necessário explicar às gerações futuras o que significava uma feira livre paulista.

Imagino algum leitor em 2126 consultando este texto enquanto um robô doméstico sintetiza sua refeição molecularmente perfeita e perguntando:

— Mas por que alguém sairia de casa para comprar legumes numa rua?

Porque era muito melhor assim, meu caro descendente.

A feira tinha sons.

Cheiros.

Gente gritando preços.

Crianças.

Senhoras discutindo a qualidade do tomate.

Sacolas.

Caixas.

Frutas cortadas para degustação.

E, em algum ponto estratégico daquele pequeno caos urbano, estava a barraca de pastel.

Ao lado dela, quase obrigatoriamente, caldo de cana.

Ou garapa.

Cada região adotava sua palavra.

O pastel chegava quente demais para ser comido imediatamente, embora invariavelmente tentássemos.

A primeira mordida quebrava a casquinha crocante e libertava uma pequena nuvem de vapor capaz de queimar o céu da boca de qualquer pessoa impaciente.

Dentro poderia haver carne.

Queijo.

Palmito.

Pizza.

Frango.

Ou dezenas de outras invenções.

Mas havia ainda um ingrediente secreto que jamais aparecia na placa:

o óleo.

Não qualquer óleo.

O óleo ancestral da feira.

Depois de fritar uma quantidade arqueológica de pastéis, aquele óleo parecia possuir memória própria.

O pastel de queijo carregava talvez uma lembrança distante do pastel de carne.

A carne poderia ter conhecido o palmito.

O palmito certamente havia cruzado com algum pastel de pizza.

Era quase uma rede neural gastronômica treinada durante milhares de frituras.

E aquilo era delicioso.



O velho japonês que a história transformou em “chinês”

Existe ainda uma história humana por trás das barracas de pastel paulistas.

São Paulo recebeu uma enorme imigração japonesa ao longo do século XX. Essas famílias chegaram, trabalharam, criaram filhos, atravessaram preconceitos, guerras, transformações econômicas e adaptações culturais.

Em determinado período de nossa história, especialmente sob o peso do preconceito antijaponês relacionado à Segunda Guerra Mundial, identidades precisaram ser escondidas, adaptadas ou reinterpretadas.

No imaginário popular paulista surgiu então aquela figura que muitas crianças da minha geração conheceram simplesmente como:

“o chinês da feira”.

Muitas vezes era japonês.

Ou descendente de japoneses.

A história real é muito mais complexa que essa pequena frase, naturalmente. Envolve imigração, racismo, sobrevivência, assimilação e empreendedorismo.

Mas décadas depois algo extraordinário havia acontecido.

O pastel tinha deixado de parecer japonês, chinês ou estrangeiro.

Tornara-se simplesmente paulista.

Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da cultura.

Ela mistura pessoas, histórias, ingredientes e circunstâncias até que ninguém consiga mais separar completamente as origens.

O resultado vira tradição.



1991 — Pastel, Márcia e Freddie Mercury

Minha história pessoal com pastel também possui algumas pequenas ramificações.

Em 1991, ano em que Freddie Mercury morreu, houve Márcia.

Márcia era filha de uma pasteleira.

Tivemos um breve relacionamento.



É curioso como o cérebro cataloga acontecimentos. Alguém poderia imaginar que uma relação com a filha de uma mulher que fazia pastéis seria suficiente para criar a grande associação gastronômica da minha vida.

Não foi.

O cérebro decidiu outra coisa.

Passaram-se alguns anos.

Outra cidade entrou no mapa.

Outro tempo.

Outra jovem.

E então o índice foi criado definitivamente.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2021/11/marcia-pastel-freddie-mercury-o.html



Amparo SP

Chegamos a Amparo, interior de São Paulo.

Cidade marcada pelo ciclo do café e por uma arquitetura que ainda guarda fragmentos daquela época em que fortunas atravessavam o interior paulista junto com trilhos, fazendas e estações ferroviárias.

Ali existia uma pastelaria próxima à antiga estação.

Sua própria existência carregava história.

Originalmente aquele tipo de estabelecimento atendia viajantes que chegavam ou partiam pelos trens. Pessoas desciam carregando malas, notícias, saudades, negócios e expectativas.

Comiam alguma coisa.

Tomavam alguma bebida.

Esperavam.

Depois seguiam viagem.

Quando a ferrovia perdeu importância e os trens desapareceram daquela rotina, estabelecimentos como aquele deveriam, segundo a lógica econômica, desaparecer também.

Mas alguns sobrevivem.

Mudam de dono.

Mudam detalhes.

Perdem parte da história.

Ganham outras histórias.

E continuam funcionando.

São pequenos fósseis comerciais vivos.


Em 1999, aquela pastelaria ainda vendia pastéis.

E eu estava lá.

Mas não estava sozinho.



Giovanna

Giovanna tinha lindos olhos azuis.

Quanto ao cabelo, existe uma divergência histórica que provavelmente jamais será resolvida.

Para mim, castanho-claro.

Para ela, loiro-escuro.

Considerando que este é meu registro para a posteridade, deixarei documentadas ambas as versões para que futuros arqueólogos não iniciem uma guerra acadêmica sobre o assunto.

Era 1999.

Éramos jovens.

E havia Amparo para zanzar.

Gosto da palavra zanzar porque ela descreve perfeitamente aquilo.

Não estávamos realizando uma missão.

Não havia roteiro turístico.

Não havia aplicativo indicando os dez lugares obrigatórios para fotografar.

Não precisávamos registrar cada minuto para provar aos outros que tínhamos estado ali.

Nós simplesmente andávamos.

Sentávamos num banco de praça.

Conversávamos.

Explorávamos alguma construção antiga dos tempos áureos do café.

Entrávamos numa loja de R$ 1,99.

Comíamos alguma coisa.

Voltávamos a andar.

Hoje parece extraordinariamente simples.

Talvez fosse justamente isso que tornasse aquilo extraordinário.


A pastelaria da estação

Em algum momento dessas tardes havia pastel.

Não sei se naquele instante pensei:

“Preciso memorizar isto porque daqui a quase trinta anos ainda vou lembrar.”

Certamente não.

Ninguém vive assim.

Grandes acontecimentos normalmente anunciam sua importância.

Casamentos possuem cerimônias.

Formaturas possuem fotografias.

Viagens possuem passagens.

Nascimentos possuem documentos.

Mas ninguém entrega um certificado dizendo:

ATENÇÃO: esta tarde aparentemente banal será importante para você em 27 anos. Favor prestar atenção.

A vida simplesmente acontece.

Comemos o pastel.

Conversamos.

Talvez tenhamos rido de alguma bobagem cujo conteúdo desapareceu completamente da minha memória.

E seguimos andando.

O problema — ou talvez a maravilha — é que meu cérebro executou silenciosamente:

COMMIT;

A transação foi gravada.

Pastel passou a apontar para Giovanna.

E nunca mais consegui desfazer essa associação.


O índice secreto da memória

Se nossa memória funcionasse como um banco de dados organizado, talvez existisse algo parecido com:

GIOVANNA → AMPARO → 1999

Mas memória humana é uma péssima DBA.

Ela cria índices sem consultar ninguém.

No meu caso, aparentemente fez:

PASTEL → GIOVANNA

AMPARO → GIOVANNA

PRAÇA → GIOVANNA

LOJA DE 1,99 → GIOVANNA

E ainda faltava um dos mais poderosos.

ALGODÃO-DOCE → GIOVANNA


A máquina impossível de algodão-doce

Amparo possuía outra pequena maravilha.

Uma velha máquina de algodão-doce.

Na minha lembrança, era uma máquina antiquíssima, do começo do século XX, mantida funcionando graças ao empenho de alguém que se recusava a permitir que aquele artefato simplesmente desaparecesse.

Talvez algum pesquisador futuro consiga determinar sua fabricação, modelo e história com maior precisão.

Para mim, naquele momento, importava outra coisa:

ela ainda funcionava.

Aquilo era maravilhoso.

Uma máquina criada em outro tempo continuava executando perfeitamente sua função.

Açúcar entrava.

O mecanismo girava.

E surgia uma nuvem doce.

Como alguém que passou boa parte da vida trabalhando com mainframes, reconheço hoje uma filosofia familiar:

— Isso ainda está funcionando?

— Sim.

— Há quanto tempo?

— Ninguém sabe exatamente.

— Não deveríamos substituir?

— Não toque.

Há coisas que sobrevivem simplesmente porque alguém continuou cuidando delas.

E aquela máquina continuava produzindo algodão-doce para novas gerações.


Açúcar transformado em nuvem

Algodão-doce é uma invenção maravilhosa justamente porque é quase completamente absurda.

Pegamos açúcar.

Transformamos em fios.

Enrolamos numa vareta.

E produzimos uma nuvem comestível.

Não existe praticamente nenhuma justificativa adulta para aquilo.

Não é sofisticado.

Não demonstra status.

Não é uma experiência gastronômica complexa.

Não precisamos discutir terroir.

Não há harmonização.

É açúcar.

É infância.

É diversão.

É inútil.

E talvez por isso seja tão importante.

Em algum momento de 1999, Giovanna e eu também comemos algodão-doce.

O segundo índice foi criado.

Décadas depois, ainda funciona.


START GIOVANNA1999

Hoje posso estar vivendo um dia completamente diferente.

Outro século.

Outra rotina.

Outros problemas.

Outras pessoas.

Outro eu.

Então aparece um pastel.

Mordo.

A casquinha quebra.

Sinto o recheio quente.

O cheiro chega.

E algum chimpanzé responsável pelo arquivo morto da minha memória abandona sua mesa, corre por um corredor empoeirado do CPD cerebral e grita:

— CHEFE! ENCONTREI UMA COISA!

Antes que minha parte racional compreenda o que aconteceu, o JOB já foi submetido:

START GIOVANNA1999

E estou novamente em Amparo.

Não fisicamente.

Mas suficientemente perto.

Vejo a praça.

A estação.

As construções.

Uma loja de R$ 1,99.

Pastéis.

Algodão-doce.

Olhos azuis.

E aquele cabelo castanho-claro que, caso Giovanna algum dia leia isto, certamente continuará alegando ser loiro-escuro.

Alguns bugs não precisam ser corrigidos.


A felicidade que não sabia que era felicidade

Com o passar dos anos comecei a perceber algo.

As lembranças mais persistentes nem sempre pertencem aos acontecimentos que, na época, pareciam mais importantes.

Viajei.

Conheci lugares extraordinários.

Vi monumentos.

Atravessei países.

Vivi acontecimentos históricos.

Trabalhei com tecnologias gigantescas.

Conheci muita gente.

Entretanto, algumas memórias que atravessaram décadas são absurdamente pequenas.

Um gosto.

Uma rua.

Uma conversa.

Um banco de praça.

Um alimento simples.

Talvez exista uma explicação.

Há momentos que lembramos porque alguma coisa extraordinária aconteceu.

Mas existem outros que lembramos porque, sem perceber naquele instante, estávamos extraordinariamente felizes fazendo coisas absolutamente ordinárias.

Esses são perigosos.

Não precisam de fotografias.

Não precisam de aniversários.

Não precisam sequer que pensemos conscientemente neles.

Ficam esperando.

Até que algum cheiro, música, palavra ou sabor encontre a chave.


A garapa de Luxor e o pastel de Amparo

Anos depois eu sentiria algo semelhante muito longe dali.

No Egito, em Luxor, antiga Tebas, encontrei caldo de cana.

Garapa.

Em meio a uma viagem cercada por milhares de anos de história, templos, faraós e monumentos capazes de atravessar civilizações, uma coisa aparentemente banal conseguiu me atingir profundamente:

caldo de cana.

Porque sabor não respeita geografia.

Também não respeita calendário.

Uma bebida simples podia aproximar o Egito do Brasil durante alguns segundos.

Assim como um pastel comprado décadas depois pode aproximar 2026 de 1999.

Talvez comida seja uma das máquinas do tempo mais eficientes inventadas pela humanidade.


Não era sobre o pastel

Naturalmente, nunca foi realmente sobre pastel.

Também não era sobre algodão-doce.

Nem sobre a loja de R$ 1,99.

Nem sequer apenas sobre Giovanna.

Era sobre aquele conjunto específico de circunstâncias que jamais poderá ser reproduzido exatamente.

Aquela idade.

Aquela cidade.

Aquele momento histórico.

Aquela companhia.

A ausência de pressa.

A possibilidade de simplesmente caminhar sem destino.

O futuro ainda não havia acontecido.

Muitas decisões ainda não tinham sido tomadas.

Muitas pessoas ainda não tinham chegado.

Outras ainda não tinham partido.

Nós não sabíamos disso.

Estávamos apenas vivendo uma tarde.


Para quem estiver lendo isto no futuro

Talvez você seja um descendente.

Talvez seja alguém que encontrou este texto perdido pela internet.

Talvez nem saiba quem foram aquelas pessoas.

Isso pouco importa.

Quero lhe deixar algo muito mais importante do que os nomes.

Quando estiver vivendo um momento simples, não o despreze por ser simples.

Coma o pastel.

Compre o algodão-doce.

Sente no banco.

Entre naquela lojinha aparentemente inútil.

Caminhe sem destino.

Converse.

Observe os prédios.

Ria da bobagem.

Não transforme necessariamente tudo em fotografia.

Não tente fazer cada segundo parecer extraordinário.

Apenas esteja lá.

Porque você não sabe quais desses momentos seu cérebro escolherá guardar.

Daqui a vinte, quarenta ou sessenta anos talvez você não consiga lembrar o assunto daquela conversa.

Talvez esqueça a roupa.

Talvez o estabelecimento desapareça.

A estação poderá virar museu.

A loja poderá ser demolida.

A velha máquina finalmente poderá parar.

Até as pessoas poderão seguir caminhos completamente diferentes.

Mas então, numa tarde qualquer, alguém colocará um pastel diante de você.

Você dará a primeira mordida.

E alguma coisa acontecerá.

O presente ficará silencioso.

Uma porta será aberta.

E por alguns segundos você terá novamente vinte e tantos anos.

Estará numa praça.

Ao seu lado haverá alguém que o tempo levou para outro caminho.

Você poderá quase ouvir sua voz.

Talvez até veja aqueles olhos.

Então compreenderá uma coisa que eu demorei muitos anos para aprender:

a vida não é formada apenas pelos grandes acontecimentos que contamos aos outros.

Boa parte dela está escondida nas pequenas coisas que aparentemente não mereciam ser guardadas.

Mas foram.

Meu pastel guardou uma cidade.

Meu algodão-doce guardou uma época.

Uma velha máquina guardou uma tarde.

E Giovanna acabou guardada em todos eles.

Talvez a memória seja justamente isso.

Um gigantesco CPD administrado por milhões de chimpanzés, cheio de arquivos sem documentação, programas que ninguém ousa apagar e índices criados sem qualquer lógica aparente.

De vez em quando um deles encontra uma fita esquecida.

Coloca para rodar.

O CPD inteiro fica em silêncio.

E nós chamamos aquilo de saudade.


Epílogo — O último pastel

Algum dia comerei meu último pastel.

Naturalmente não saberei que é o último.

Provavelmente reclamarei que tem pouco recheio.

Talvez esteja quente demais.

Talvez o óleo esteja naquele glorioso estágio arqueológico em que já possui conhecimento acumulado de quinze mil pastéis anteriores.

Vou morder.

A casquinha fará crack.

O vapor subirá.

E espero que, onde quer que meus milhões de chimpanzés estejam naquele momento, algum deles ainda conheça o comando.

START GIOVANNA1999

Então, por alguns segundos, pouco importará quantas décadas tenham passado.

Haverá novamente uma estação.

Uma pastelaria.

Uma praça.

Uma loja de R$ 1,99.

Uma máquina centenária transformando açúcar em nuvem.

Uma jovem de olhos azuis.

Um sujeito olhando para o cabelo dela e insistindo que aquilo era castanho-claro.

E uma tarde qualquer de 1999 que ninguém presente sabia ser histórica.

Não foi histórica para o Brasil.

Não mudou São Paulo.

Não apareceu nos jornais.

Não modificou o destino de Amparo.

Mas ficou registrada em algum lugar muito menor e, paradoxalmente, muito mais resistente.

Minha memória.

Se você estiver lendo isto muitas décadas depois de mim, talvez aquela pastelaria não exista mais.

Talvez aquela máquina esteja finalmente num museu.

Talvez ninguém mais saiba quem foi Giovanna.

Agora você sabe.

Ela foi uma jovem de olhos azuis que, durante algumas tardes de 1999, zanzou comigo por Amparo.

E isso bastou para que, décadas depois, um simples pastel ainda fosse capaz de parar o CPD.

Não subestime as pequenas felicidades.

Algumas delas executam para sempre.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

1998 Amparo SP, Giovanna, ICQ e o Amor Antes do Algoritmo

Bellacosa Mainframe em memorias com a doce Giovanna

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

1998: Amparo SP, Giovanna, ICQ e o Amor Antes do Algoritmo

Uma homenagem aos pioneiros dos encontros virtuais, quando procurar alguém fazia parte da história — e uma viagem até Amparo podia começar com uma fotografia de papel

Houve uma época em que conhecer alguém pela Internet era uma coisa ligeiramente suspeita.

Não perigosa no sentido moderno da palavra.

Suspeita mesmo.

Você dizia:

— Conheci uma garota pela Internet.

E imediatamente alguém levantava uma sobrancelha.

Pela Internet?

Como assim?

Ela existe?

Você já viu?

Tem certeza de que é mulher?

Eram perguntas perfeitamente razoáveis para o final dos anos 1990, quando a Internet ainda fazia aquele maravilhoso barulho de modem sendo estrangulado por um fax:

Piiiiii... tchrrrrrr... krrrrrr... piiii...

E então:

CONECTADO — 33.600 bps.

Pronto.


O mundo acabara de entrar dentro de casa.

Não havia Tinder.

Não havia Happn.

Não havia Badoo.

Não havia smartphone vibrando no bolso avisando que alguém a 327 metros gostou da sua fotografia.

Não havia uma inteligência matemática escondida num datacenter decidindo que você deveria conhecer a pessoa A, jamais ver a pessoa B e talvez receber a pessoa C depois que o sistema descobrisse que você estava ficando entediado.

O algoritmo ainda não era o cupido.

Nós éramos.

E essa diferença, que parece pequena, muda completamente a história.

Foi nesse mundo que apareceu Giovanna.

E esta não é apenas uma história sobre Giovanna.

É uma homenagem a uma geração inteira de pioneiros sentimentais que descobriu, quase por acidente, que computadores também podiam carregar saudade.



🔎 Antes do match existia uma coisa chamada procurar

Hoje abrimos um aplicativo.

O aplicativo observa nossa idade, localização, comportamento, fotografias, cliques, rejeições, permanência na tela e sabe-se lá mais o quê.

Então começa a distribuição das cartas.

Você desliza.

Direita.

Esquerda.

Direita.

Esquerda.

A sensação é de escolha.

Mas existe um intermediário invisível escolhendo previamente quem poderá ser escolhido.


No final dos anos 1990 havia outra filosofia.

Nos sites de relacionamento e amizade daquela Internet primitiva — lugares como Amigos Virtuais, Almas Gêmeas, portais como UOL e Terra, salas de bate-papo e diretórios de usuários — procurar alguém podia ser quase uma consulta SQL sentimental.

Você escolhia os atributos.

Idade.

Cidade.

Estado.

Interesses.

Às vezes aparência.

Às vezes signo.

Às vezes uma descrição pessoal deliciosamente constrangedora.

E apertava:

PESQUISAR.

Então apareciam pessoas.

Não necessariamente as melhores.

Não necessariamente as mais compatíveis.

Muito menos aquelas que uma máquina considerava estatisticamente adequadas.

E justamente por isso era maravilhoso.

Você podia bisbilhotar.

Abrir um perfil.

Voltar.

Abrir outro.

Pensar:

"Essa parece interessante."

Ler alguma coisa completamente banal e, por algum motivo inexplicável, ficar curioso.

Era você contra o banco de dados.

Nenhum algoritmo cochichava:

"Vagner, analisamos 14.782 sinais comportamentais e concluímos que Giovanna possui 87,4% de compatibilidade."

Nada disso.

O sistema dizia apenas:

Aqui estão os registros encontrados.

Boa sorte, cidadão.

O resto era problema seu.

Talvez por isso houvesse algo profundamente humano naquela Internet tecnicamente desumana.

A máquina fazia a busca.

A curiosidade fazia o match.



💬 E então começava a conversa

Hoje existe uma ansiedade estranha em tirar rapidamente uma conversa do aplicativo.

Naquela época, a conversa era o acontecimento.

Você entrava.

Esperava.

Mandava mensagem.

Recebia resposta.

Respondia novamente.

E quando percebia haviam passado duas horas.

Três.

Quatro.

Não existia a abundância audiovisual que temos hoje.




Consequentemente, havia espaço para uma tecnologia que caiu brutalmente em desuso:

a imaginação.

Uma frase precisava carregar aquilo que hoje tentamos resolver com vinte fotografias, três vídeos, localização em tempo real, stories e uma chamada em alta definição.

Você conhecia alguém pelas palavras.

Pelo jeito de escrever.

Pelas pausas.

Pelas piadas.

Pela velocidade da resposta.

Pela maneira como a pessoa descrevia o próprio dia.

A intimidade podia nascer de uma pergunta absolutamente idiota às onze da noite.

— O que você está fazendo?

— Nada.

E o nada rendia três horas de conversa.

Esse talvez seja um dos elementos mais difíceis de explicar para quem nasceu depois.

Nós não estávamos necessariamente tentando otimizar o encontro.

Nós gostávamos de conversar.

A conversa não era apenas o corredor que levava ao encontro físico.

Ela própria fazia parte do romance.



🌼 Giovanna de Amparo

Em algum momento daquela arqueologia digital apareceu uma garota de Amparo.

Giovanna.

Hoje uma distância entre São Paulo e Amparo parece quase uma informação irrelevante e no futuro acabei comprando a casa de Itatiba para ficar mais proximo.

Abre-se o mapa.

GPS.

Rota.

Tempo estimado.

Fotografias da rua.

Street View.

Avaliação do restaurante.

Previsão meteorológica.

Trânsito em tempo real.

Em 1998, entretanto, conhecer uma garota em outra cidade pela Internet tinha algo de expedição.

Primeiro existia a pessoa digital.

Depois surgia lentamente a pessoa imaginada.

E somente muito depois viria a pessoa real.

Entre essas três versões havia um espaço enorme onde morava o desejo.



📷 "Manda uma foto"

Hoje essa frase seria ridícula.

Uma pessoa manda quarenta em vinte segundos.


Em 1998 ela podia significar literalmente:

mande uma fotografia pelo correio.

Fotografia.

Papel.

Envelope.

Selo.

Correios.

Esperar.

Pense na brutal diferença psicológica.

Hoje alguém manda uma foto e você responde quinze segundos depois:

— Linda.

Naquela época alguém escolhia uma fotografia física.

Talvez tivesse apenas algumas cópias.

Colocava uma delas dentro de um envelope.

Escrevia o endereço.

Postava.

E aquela imagem atravessava fisicamente cidades.

Durante alguns dias existia uma fotografia viajando em sua direção.

Isso criava uma expectativa que nenhuma barra de progresso consegue reproduzir.

O carteiro, sem saber, participava do romance.

Imagino quantos funcionários dos Correios transportaram declarações, fotografias, cartas e pequenos segredos entre pessoas que haviam se conhecido em frente a monitores CRT.

Eles foram os roteadores sentimentais da primeira Internet brasileira.



🌼 A fotografia de Giovanna

E então havia aquela fotografia.

Giovanna.

Papel fotográfico.

Uma imagem que podia ficar sobre a mesa.

Ser observada novamente.

Guardada.

Carregada.

Não havia álbum infinito.

Não existiam 3.000 fotografias no perfil.

Havia aquela.

E quando existe apenas uma imagem, nossa cabeça faz uma coisa extraordinária:

completa o resto.

Como será a voz?

Como ela anda?

Como será vê-la sorrindo ao vivo?

Será mais alta do que imaginei?

Como será encontrá-la?

A falta de informação não diminuía o desejo.

Aumentava.

Hoje tentamos eliminar todas as incertezas antes de conhecer alguém.

Naquela época, a incerteza fazia parte do encanto.



🌐 Uh-oh!

Então surgiu outro personagem indispensável.

O ICQ.

Quem viveu aquela época provavelmente ouviu mentalmente o som antes mesmo de terminar esta frase.

Uh-oh!

Aquilo não era uma notificação.

Era uma descarga elétrica.

Você podia estar fazendo qualquer coisa.

Então:

Uh-oh!

Olhar imediatamente para o monitor.

Era ela?

Às vezes sim.

E pronto.

A noite estava comprometida.

Não havia webcam funcionando em alta definição.

Câmera digital era luxo.

Celular com câmera pertencia à ficção científica.

O que existia era teclado.

Portanto:

escreva.

Talvez tenhamos sido uma das últimas gerações a experimentar um namoro digital profundamente textual.

Precisávamos construir presença com palavras.

Era quase literatura involuntária.



🚗 Até que o virtual exigiu estrada

Existe um momento inevitável em todo relacionamento virtual.

O computador já não basta.

Você quer saber se aquela pessoa que ocupou tantas horas da sua cabeça existe do outro lado do monitor da maneira que você imagina.

Então o cursor encontra o asfalto.

Amparo.

Não mais um nome escrito no perfil.

Uma cidade.

Uma estrada.

Um destino.

Aquela viagem carregava uma pergunta gigantesca:

Como será encontrá-la?

Não havia acompanhamento pelo WhatsApp.

"Estou saindo."

"Estou chegando."

"Estou a cinco minutos."

"Estou aqui na esquina."

Localização compartilhada.

Nada.

Existia uma combinação prévia.

Um lugar.

Um horário.

E fé na engenharia logística.

O mesmo sistema que colocava astronautas na Lua agora precisava resolver um problema muito mais delicado:

fazer dois jovens que se conheceram pela Internet encontrarem o mesmo banco de praça em Amparo.



🌳 O banco da praça

E então aconteceu uma coisa revolucionária.

Nada.

Absolutamente nada.

Dois jovens sentados num banco de praça.

Conversando.

É justamente aí que mora a beleza.

Porque nossas memórias mais importantes raramente anunciam que serão importantes.

Não toca trilha sonora.

Nenhuma câmera faz travelling.

Não aparece legenda:

AMAPARO — 1998 — MOMENTO QUE SERÁ LEMBRADO DÉCADAS DEPOIS.

Você simplesmente senta.

Olha para a garota que até pouco tempo atrás era texto num monitor.

Ela está ali.

Tem três dimensões.

Tem voz.

Tem cheiro.

Tem pequenos gestos que nenhuma fotografia conseguiu antecipar.

De repente o cérebro precisa reconciliar duas pessoas.

A Giovanna imaginada.

E a Giovanna sentada ao lado.

E surge uma terceira.

A Giovanna real.



🍭 A máquina centenária de algodão-doce

Toda boa história precisa de um objeto completamente desnecessário que, décadas depois, se transforma numa cápsula do tempo.

No meu caso, havia uma máquina de algodão-doce.

Velha.

Antiga.

Quase centenária.

Uma geringonça sobrevivente de outra época produzindo aquela nuvem açucarada no meio de uma cidade que parecia igualmente resistente à passagem do tempo.

Aquilo é tão absurdamente perfeito que, se estivesse num roteiro, alguém provavelmente diria:

— Está romântico demais. Corte.

Mas aconteceu.

Giovanna.

Amparo.

Fim de semana.

Praça.

Algodão-doce feito numa máquina que provavelmente já havia produzido felicidade para crianças muito antes de nós nascermos.

E talvez aí esteja o detalhe que transforma lembrança em slice of life.

Não foi Paris.

Não havia Torre Eiffel.

Não era Veneza.

Não havia gôndola.

Não era uma praia paradisíaca.

Era Amparo.

Uma praça.

Um banco.

Uma garota.

Algodão-doce.

E tempo.

Muito tempo.

Tempo para não fazer nada.

Tempo para conversar.

Tempo para olhar.

Tempo para caminhar.

Tempo para descobrir.


🏘️ Uma cidade parada no tempo

Amparo tinha o cenário perfeito para aquela história porque parecia funcionar numa frequência diferente.

Fim de semana.

Ruas tranquilas.

Casarões.

Praças.

Uma lentidão que hoje talvez provocasse ansiedade em muita gente.

Naquele momento era exatamente o necessário.

O relacionamento nascera numa tecnologia que prometia velocidade.

Mas seus melhores momentos aconteciam devagar.

Que ironia maravilhosa.

A Internet dizia:

conecte-se instantaneamente.

Amparo respondia:

agora sente nesse banco e fique duas horas sem fazer absolutamente nada.

E nós obedecíamos.


❤️ O desejo atravessava paredes

Essa talvez seja a lembrança mais bonita daquela Internet.

Ela fazia desaparecer a distância sem conseguir eliminá-la completamente.

E isso era importante.

Giovanna estava próxima.

Mas estava longe.

Podíamos conversar.

Mas não tocar.

Podíamos escrever.

Mas não caminhar juntos.

Podíamos imaginar.

Mas ainda precisávamos esperar o próximo encontro.

Essa pequena resistência física dava peso às coisas.

O desejo precisava atravessar paredes.

Cabos telefônicos.

Centrais.

Modems.

Servidores.

Estradas.

Cidades.

Horários.

Até finalmente encontrar novamente aquele banco de praça.

Hoje eliminamos quase todas essas barreiras.

Talvez tenhamos ganhado conveniência.

Mas alguma coisa ficou pelo caminho.


🤖 O cupido ganhou um algoritmo

Não quero romantizar completamente aquela Internet.

Ela era lenta.

Caía.

Custava caro.

Fotografia demorava.

Perfis podiam mentir.

Encontrar desconhecidos tinha riscos.

Mas havia uma liberdade curiosa no ato de procurar.

Você podia entrar num sistema e dizer:

quero procurar.

Não:

mostre quem você decidiu que devo conhecer.

Essa mudança parece técnica.

Não é.

É filosófica.

Antes o banco de dados estava diante de você.

Hoje existe uma caixa-preta entre você e o banco de dados.

Ela classifica.

Prioriza.

Oculta.

Testa.

Recomenda.

Decide quem aparecerá primeiro.

O match tornou-se produto de uma arquitetura invisível.

Naquela época, procurar alguém era parte da aventura.

Você podia encontrar a pessoa errada.

E isso era excelente.

Porque às vezes a pessoa estatisticamente errada produzia a conversa certa.


🔍 A deliciosa arte de bisbilhotar

Talvez seja isso que eu mais sinta falta.

Bisbilhotar sem objetivo.

Pesquisar.

Abrir perfil.

Ler.

Voltar.

Modificar parâmetros.

Pesquisar novamente.

Não procurando necessariamente a "alma gêmea".

Apenas vendo quem estava lá.

Era como caminhar por uma biblioteca.

Você podia procurar exatamente um livro.

Ou simplesmente passar o dedo pelas lombadas até alguma coisa chamar sua atenção.

Os aplicativos modernos transformaram isso numa esteira.

Uma pessoa.

Decida.

Próxima.

Decida.

Próxima.

Decida.

A velha Internet permitia vagar.

E quem vaga encontra coisas que não estava procurando.

Às vezes encontra até Giovanna.


🎞️ Slice of life

Se eu transformasse aquela história em anime, provavelmente não haveria demônios.

Nenhum protagonista seria transportado para outro mundo.

Não haveria espada lendária.

Nem poder secreto.

O episódio inteiro poderia ser:

"Vagner vai a Amparo encontrar Giovanna."

Vinte e quatro minutos.

Tremendo sucesso.

O protagonista chega.

Caminha pela cidade.

Encontra a garota.

Os dois conversam.

Compram algodão-doce.

Sentam numa praça.

Anoitece.

Ending.

E o público diria:

— Mas não aconteceu nada!

Aconteceu tudo.

Porque slice of life é justamente perceber que uma vida é construída principalmente nesses espaços onde aparentemente nada extraordinário acontece.

Décadas depois, você dificilmente lembra o conteúdo exato de uma conversa de quatro horas no ICQ.

Mas lembra que queria que ela não terminasse.

Não lembra todas as palavras trocadas no banco.

Mas lembra do banco.

Talvez não lembre quanto custou o algodão-doce.

Mas lembra da máquina.

A memória elimina os logs.

E preserva o significado.


💾 SELECT * FROM MEMORIA WHERE NOME = 'GIOVANNA';

Se meu cérebro fosse um mainframe, em algum volume esquecido haveria um dataset.

Talvez:

BELLACOSA.MEMORIA.GIOVANNA

RECFM=VB.

LRECL imprevisível.

Retenção:

PERMANENTE.

Dentro dele não estariam apenas grandes acontecimentos.

Estariam pequenas coisas.

Uma busca na Internet.

Um perfil.

Uma mensagem.

Uma fotografia chegando pelo correio.

O som do ICQ.

Uma estrada.

Amparo.

Um banco.

Uma máquina velha.

Algodão-doce.

Uma tarde preguiçosa.

Uma garota.

E aquela extraordinária sensação de estar vivendo algo novo sem saber que estávamos inaugurando uma maneira de conhecer pessoas que décadas depois seria absolutamente normal.

Nós éramos, sem perceber, pioneiros do namoro virtual.

Só que nosso metaverso precisava de ônibus, carro, praça e algodão-doce para completar a experiência.


☕ Epílogo — Giovanna antes do algoritmo

Giovanna entrou na minha vida em uma época estranha e maravilhosa.

Quando dizer "conheci alguém pela Internet" ainda exigia explicações.

Quando uma fotografia podia levar dias para chegar.

Quando Uh-oh! fazia o coração acelerar.

Quando conversar durante horas não era perda de tempo.

Quando descobrir alguém significava preencher enormes espaços em branco com imaginação.

E quando uma cidade como Amparo podia se transformar no centro do universo durante uma tarde de fim de semana.

Muita coisa aconteceu depois.

A vida continuou.

Vieram outros anos, outras histórias, outras pessoas, outras cidades e outros capítulos.

Mas esta homenagem não é sobre aquilo que veio depois.

É sobre aquele instante.

Sobre dois jovens experimentando uma tecnologia nova e fazendo com ela a coisa mais antiga do mundo:

tentando encontrar alguém.

Talvez seja por isso que, olhando para trás, aquela Internet pareça tão romântica.

Não porque fosse melhor.

Mas porque ainda não sabíamos exatamente o que fazer com ela.

E nesse período de inocência tecnológica havia espaço para experimentar.

Pesquisar.

Errar.

Bisbilhotar.

Conversar.

Imaginar.

Esperar.

Viajar.

Encontrar.

Sentar.

E simplesmente ficar.

Hoje um algoritmo talvez analisasse Giovanna e eu e decidisse que existiam opções melhores.

Talvez nunca mostrasse nossos perfis um ao outro.

Talvez calculasse uma incompatibilidade qualquer.

Distância.

Hábitos.

Comportamento.

Engajamento previsto.

Quem sabe.

Felizmente, naquela época, o pobre computador não tinha opinião.

Ele apenas armazenava registros.

Nós fazíamos o resto.

E gosto dessa ideia.

Em algum servidor desligado há décadas, em algum backup apagado, em algum banco de dados que virou pó digital, talvez tenha existido uma linha associando temporariamente dois usuários.

Os servidores desapareceram.

Os sites mudaram.

O ICQ morreu.

Os modems silenciaram.

As fotografias tornaram-se digitais.

Os algoritmos assumiram o papel de cupido.

Mas uma coisa curiosa aconteceu.

A memória sobreviveu à infraestrutura.

E décadas depois ainda consigo executar aquela consulta:

SELECT *
FROM MEMORIA
WHERE CIDADE = 'AMPARO'
AND NOME = 'GIOVANNA';

RETURN CODE 0000.

Registro encontrado.

Uma praça.

Um banco.

Uma tarde.

Uma máquina quase centenária girando açúcar.

Giovanna ao lado.

E por alguns minutos, enquanto a memória executa seu velho programa COBOL, Amparo volta a ficar parada no tempo.

O algodão-doce ainda está sendo feito.

O ICQ ainda vai tocar quando eu voltar para casa.

A fotografia ainda está sobre a mesa.

E a Internet ainda é aquele território enorme, estranho e inocente onde ninguém decidiu por nós quem deveríamos encontrar.

Nós mesmos procurávamos.

E, de vez em quando, entre milhões de registros absolutamente banais...

encontrávamos alguém que valia a viagem.

☕ Bellacosa Mainframe — onde alguns datasets jamais deveriam receber DELETE. 


P.S. — Naturalmente, havia capivaras

E como todo bom slice of life precisa obrigatoriamente de um bichinho fofo que não tem absolutamente nada a ver com o arco principal, não podemos encerrar esta história sem registrar as verdadeiras coadjuvantes de luxo de Amparo:

as capivaras do rio Camanducaia.

Porque enquanto dois jovens atravessavam aquela fronteira estranha entre o virtual e o real, enquanto o ICQ fazia seu Uh-oh!, fotografias viajavam pelos Correios e o algodão-doce girava naquela máquina quase arqueológica, as capivaras estavam lá.

Indiferentes.

Plácidas.

Provavelmente mastigando alguma coisa.

Sem qualquer interesse pelo drama humano.

Imagino perfeitamente a cena em versão anime.

Giovanna e eu caminhando próximos ao Camanducaia.

Conversa importante.

Música delicada ao fundo.

Plano fechado.

Talvez aquele silêncio constrangedor e maravilhoso em que ninguém sabe exatamente o que dizer.

Corta a câmera.

Uma capivara.

Mastiga.

Volta para os protagonistas.

Mais cinco minutos de desenvolvimento emocional.

Corta novamente.

Outra capivara entra lentamente na água.

Nenhuma explicação.

Nenhuma importância narrativa.

Nenhuma participação posterior.

Perfeito.

Porque a capivara é exatamente o personagem que um slice of life precisa: ela não resolve conflitos, não entrega mensagens secretas, não conhece o passado da heroína e definitivamente não possui um poder oculto que será revelado no episódio 12.

Ela simplesmente existe.

E talvez seja justamente por isso que funciona tão bem na memória.

Décadas depois, quando penso naquela Amparo de finais de semana tranquilos, não aparecem apenas Giovanna, a praça, o banco, as conversas e o algodão-doce.

Aparece também o Camanducaia.

E em algum canto do cenário, como se o diretor tivesse colocado ali apenas para tornar a composição perfeita:

uma capivara absolutamente alheia ao romance.

Talvez duas.

Talvez uma família inteira.

Porque Amparo tinha dessas coisas.

Você podia estar vivendo um dos capítulos mais delicados da sua juventude e, poucos metros adiante, um roedor de cinquenta quilos estava apenas preocupado em encontrar um pedaço particularmente interessante de capim.

Há uma sabedoria nisso.

O ser humano pensa:

"Será que ela gosta de mim?"

A capivara pensa:

"capim."

O ser humano:

"Será que isso vai virar alguma coisa?"

Capivara:

"água."

O ser humano:

"Que diabos eu digo agora?"

Capivara:

mastiga intensamente.

Talvez por isso elas combinem tão bem com aquela lembrança.

Elas pertenciam ao cenário sem exigir protagonismo.

Como o rio.

Como a praça.

Como os casarões.

Como aquela máquina antiga de algodão-doce.

Pequenos elementos aparentemente irrelevantes que, somados, transformam uma lembrança comum numa coisa que nenhuma reconstrução perfeita consegue reproduzir.

Então fica registrado para evitar qualquer falha grave de continuidade:

Giovanna tinha Amparo.
Amparo tinha o Camanducaia.
E o Camanducaia tinha capivaras.

Logo, por transitividade romântica perfeitamente válida segundo os rigorosos padrões científicos do Bellacosa Mainframe:

Giovanna também tinha capivaras no cenário.

E agora sim o episódio pode terminar.

Último plano.

Fim de tarde.

Rio Camanducaia.

Uma capivara entra lentamente na água.

Ao fundo, Amparo continua parada no tempo.

Fade out.

ENDING THEME

UH-OH!

Continua em alguma memória que jamais recebeu DELETE.













☕ Arquivo Bellacosa — Amparo, Memória, Café e Estrada

Uma viagem por Amparo, interior de São Paulo, através de memórias, antigas fazendas de café, ferrovias, fauna, flora, estradas, fotografias e histórias pessoais preservadas no arquivo El Jefe Midnight Lunch / Bellacosa Mainframe.

🌿 Amparo entre memória, café, ferrovia e vida cotidiana

Esta coleção reúne registros históricos e pessoais sobre Amparo, São Paulo, incluindo antigas fazendas de café, patrimônio ferroviário, a estrada SP-360, fauna e flora regional, paisagens urbanas e memórias de diferentes décadas.

Os textos formam uma linha do tempo que conecta história local, turismo cultural, memória afetiva, ferrovias paulistas, cafeicultura e vida no interior de São Paulo. Cada artigo pode ser acessado diretamente pelos links acima ou visualizado dentro deste arquivo.

O objetivo é preservar uma pequena arqueologia digital de Amparo: suas ruas, fazendas, estações ferroviárias, natureza, estradas e personagens — incluindo aquelas famosas capivaras do rio Camanducaia que aparecem silenciosamente no cenário das memórias.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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