| Bellacosa Mainframe e as case tools parte I |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
CASE Tools
A Tecnologia que Tentou Automatizar a Engenharia de Software Muito Antes da Inteligência Artificial
"Todo desenvolvedor acredita que a IA começou a automatizar software em 2022. Quem viveu a Engenharia de Software dos anos 80 sabe que essa história começou quase quarenta anos antes."
Introdução
Existe uma curiosidade interessante na história da computação.
Sempre que surge uma nova tecnologia capaz de produzir software mais rapidamente, aparecem manchetes dizendo que "os programadores serão substituídos".
Foi assim com as linguagens de quarta geração (4GL).
Foi assim com os geradores de código.
Foi assim com RAD (Rapid Application Development).
Foi assim com Low-Code.
Foi assim com No-Code.
E agora acontece novamente com a Inteligência Artificial.
Mas poucos profissionais conhecem o verdadeiro ancestral de todas essas tecnologias.
Seu nome era CASE Tools.
Para quem trabalha hoje com COBOL, CICS, DB2, IMS ou aplicações IBM Z, entender CASE significa compreender a origem de praticamente todas as ferramentas modernas de desenvolvimento.
Muito antes do GitHub Copilot, do ChatGPT ou dos assistentes inteligentes, já existiam ferramentas capazes de desenhar sistemas inteiros e gerar milhares de linhas de código automaticamente.
E, curiosamente, o ambiente Mainframe foi um dos maiores beneficiados dessa revolução.
O que significa CASE?
CASE significa
Computer-Aided Software Engineering
ou
Engenharia de Software Assistida por Computador.
Observe um detalhe importante.
Não significa programação automática.
Não significa inteligência artificial.
Não significa geração mágica de sistemas.
CASE nasceu com outro objetivo:
Ajudar engenheiros de software a construir sistemas melhores.
A palavra-chave é "assistida".
Da mesma forma que existe CAD (Computer-Aided Design) para engenharia mecânica e arquitetura, surgiu a ideia de criar um "CAD para software".
Em vez de desenhar prédios...
Desenharíamos sistemas.
Em vez de plantas arquitetônicas...
Teríamos modelos de software.
Em vez de construir diretamente...
Primeiro projetaríamos.
Hoje isso parece óbvio.
Na década de 1970 era revolucionário.
O problema da Programação Tradicional
Imagine um banco em 1978.
Ele precisava desenvolver:
Cadastro de clientes
Conta corrente
Empréstimos
Cobrança
Cartões
Tesouraria
Auditoria
Contabilidade
Tudo isso era escrito praticamente à mão.
Cada programa COBOL era desenvolvido individualmente.
Cada programador tinha seu próprio estilo.
Cada documentação era diferente.
Frequentemente a documentação sequer existia.
O resultado era previsível.
Após cinco anos...
Ninguém mais entendia completamente o sistema.
A Crise do Software
Entre o final dos anos 60 e toda a década de 70 surgiu um problema conhecido mundialmente como
Software Crisis.
Não faltavam computadores.
Não faltavam programadores.
Faltava capacidade de construir software grande.
Os sintomas eram conhecidos.
Projetos atrasavam.
Custos explodiam.
Erros apareciam constantemente.
Documentação desaparecia.
Manutenção tornava-se impossível.
Cada nova funcionalidade criava novos defeitos.
Essa crise levou pesquisadores a uma pergunta simples:
Como outras engenharias conseguem construir obras gigantescas com organização?
Um prédio de cinquenta andares não começa com pedreiros.
Começa com arquitetos.
Começa com plantas.
Começa com cálculos.
Começa com modelos.
Por que software era diferente?
O nascimento da Engenharia de Software
Em 1968 ocorreu um evento histórico patrocinado pela OTAN.
Foi a NATO Software Engineering Conference.
Foi ali que o termo
Software Engineering
ganhou força.
A ideia era tratar software como engenharia.
Isso significava:
planejamento
documentação
metodologia
padronização
revisão
qualidade
Essa conferência mudou completamente a indústria.
Ela também abriu caminho para o nascimento das CASE Tools.
A ideia revolucionária
Imagine um arquiteto.
Ele desenha uma planta.
Depois o engenheiro estrutural utiliza essa planta.
Depois o eletricista.
Depois o hidráulico.
Depois a construtora.
Todos trabalham sobre o mesmo projeto.
Agora imagine um sistema bancário.
Em vez de começar programando COBOL...
Primeiro seria criado um modelo.
Desse modelo nasceriam:
banco de dados
telas
relatórios
documentação
diagramas
código COBOL
programas CICS
scripts SQL
especificações técnicas
Tudo derivado do mesmo modelo.
Essa era a visão das CASE Tools.
Antes do Código vem o Modelo
Essa talvez seja a principal mudança de mentalidade.
O programador deixa de pensar:
Vou escrever um programa.
E passa a pensar:
Vou modelar uma solução.
O código passa a ser consequência.
Não o início.
Hoje chamamos isso de
Model Driven Development.
Na década de 80 isso já existia.
Os primeiros CASE Tools
As primeiras ferramentas começaram a aparecer no final dos anos 70.
Mas foi durante os anos 80 que elas explodiram.
Entre as pioneiras estavam soluções como:
Excelerator
IEW
Texas Instruments IEF
KnowledgeWare IEW
Bachman
ADW
System Architect
Oracle Designer
IBM AD/Cycle
Cada fabricante possuía sua própria visão.
Mas todas compartilhavam uma ideia comum.
Modelar primeiro.
Programar depois.
O conceito de Repositório
Talvez a inovação mais importante das CASE Tools tenha sido o conceito de
Repository.
Hoje usamos Git.
Na época usava-se um repositório de conhecimento.
Ali ficavam armazenados:
entidades
processos
atributos
regras
telas
menus
relacionamentos
fluxos
documentação
Não era apenas um repositório de arquivos.
Era um banco de conhecimento.
Hoje chamaríamos isso de um metamodelo.
A documentação deixou de ser um problema
Antes das CASE Tools a documentação era feita depois do sistema.
Quando sobrava tempo.
Normalmente não sobrava.
Resultado:
O documento dizia uma coisa.
O programa fazia outra.
CASE resolveu isso de maneira elegante.
A documentação era produzida automaticamente.
Mudou o modelo?
A documentação era atualizada.
Mudou o banco?
O diagrama era atualizado.
Mudou uma entidade?
Tudo era sincronizado.
Hoje isso parece comum.
Na época era extraordinário.
O poder dos Diagramas
As CASE Tools popularizaram diversos diagramas.
Entre eles:
Fluxogramas
Diagramas Entidade-Relacionamento
Diagramas de Dados
Diagramas de Processos
Diagramas de Estrutura
Diagramas Hierárquicos
Diagramas de Fluxo de Dados (DFD)
Por exemplo:
Cliente
│
├──── Possui
│
Conta Corrente
│
├──── Gera
│
Lançamentos
Hoje isso parece simples.
Na época substituía centenas de páginas de documentação textual.
A Revolução dos Dicionários de Dados
Outra inovação marcante foi o Data Dictionary.
Antes, o campo:
CODCLI
Poderia significar qualquer coisa.
Código do cliente?
Código do fornecedor?
Código do funcionário?
Ninguém sabia.
Com CASE surgiram descrições padronizadas.
CODCLI
Tipo:
Cliente
Formato:
PIC 9(09)
Descrição:
Identificador único do cliente.
Essa simples ideia economizou milhares de horas de manutenção.
A Engenharia Reutilizável
Outro conceito introduzido foi o de reutilização.
Em vez de criar tudo novamente...
Criavam-se componentes.
Por exemplo:
Cadastro de Cliente.
Em vez de existir em vinte programas diferentes...
Passava a existir apenas um modelo reutilizável.
Hoje chamamos isso de reutilização de componentes.
Nos anos 80 isso já fazia parte das CASE Tools.
O impacto nos bancos
Bancos rapidamente perceberam o potencial.
Imagine manter:
milhões de contas
milhares de agências
dezenas de milhões de clientes
Manual?
Impossível.
Modelando primeiro...
Era possível garantir consistência.
Essa foi uma das razões pelas quais instituições financeiras investiram fortemente em CASE.
O Mainframe tornou-se um ambiente ideal
O Mainframe possui uma característica importante.
Sistemas vivem décadas.
Enquanto aplicações web frequentemente são substituídas após poucos anos, sistemas COBOL podem permanecer ativos por 30, 40 ou até 50 anos.
Isso torna documentação, padronização e rastreabilidade ainda mais importantes.
CASE atendia exatamente essas necessidades.
Não era apenas uma ferramenta de produtividade.
Era uma ferramenta de governança.
O sonho da geração automática
Talvez o aspecto mais conhecido das CASE Tools fosse a geração automática de código.
O fluxo era parecido com este:
Modelo
↓
Entidades
↓
Processos
↓
Banco de Dados
↓
Programas
↓
Documentação
Em muitos ambientes era possível gerar:
COBOL
C
PL/I
SQL
JCL
CICS
telas
relatórios
menus
Naturalmente, o código gerado ainda exigia revisão e customização, mas representava um enorme ganho de produtividade em tarefas repetitivas.
CASE não eliminava programadores
Este é um mito que acompanha a tecnologia desde sua criação.
Alguns acreditavam que bastaria desenhar diagramas e a ferramenta faria todo o restante.
Na prática, isso nunca aconteceu.
O que ocorreu foi uma mudança de foco.
Os profissionais passaram a gastar menos tempo escrevendo estruturas repetitivas e mais tempo analisando regras de negócio, arquitetura e qualidade.
A engenharia ganhou espaço sobre a simples codificação.
Curiosamente, esse mesmo debate reaparece hoje com a Inteligência Artificial.
Por que muitas CASE Tools desapareceram?
Apesar do enorme entusiasmo, muitas ferramentas perderam espaço durante os anos 1990.
Os principais motivos foram:
custo elevado de aquisição e manutenção;
necessidade de treinamento especializado;
dificuldade de adaptação a mudanças rápidas nos negócios;
geração de código excessivamente dependente do fornecedor (vendor lock-in);
modelos complexos para projetos pequenos;
ascensão da orientação a objetos e de novas metodologias de desenvolvimento.
Ainda assim, suas ideias não desapareceram. Elas foram incorporadas a UML, IDEs modernas, geradores de código, ferramentas de DevOps, plataformas Low-Code e, mais recentemente, aos assistentes baseados em IA.
Muito além de uma tecnologia antiga
É comum ouvir que CASE é uma tecnologia "do passado". Na realidade, o nome caiu em desuso, mas seus princípios continuam presentes.
Quando um desenvolvedor cria um modelo UML que gera classes Java, está aplicando conceitos de CASE.
Quando uma ferramenta cria APIs a partir de um contrato OpenAPI, há geração baseada em modelos.
Quando um pipeline de DevOps produz documentação automaticamente a partir do código, há automação da engenharia.
E quando uma IA sugere código a partir de uma descrição funcional, ela está ampliando uma ideia que começou décadas antes: reduzir o esforço repetitivo para que o engenheiro concentre sua atenção na solução do problema.
Conclusão
As CASE Tools nasceram para resolver um desafio que permanece atual: como desenvolver software cada vez mais complexo sem perder qualidade, organização e capacidade de manutenção.
Elas introduziram conceitos que hoje parecem naturais: modelagem antes da implementação, repositórios de conhecimento, documentação automática, dicionários de dados, reutilização de componentes e geração de código.
Para quem trabalha com COBOL e IBM Z, compreender essa história é entender por que tantos ambientes corporativos ainda valorizam modelagem, rastreabilidade e padronização. O Mainframe não ficou preso ao passado; ele foi um dos grandes laboratórios onde essas ideias amadureceram e provaram seu valor em sistemas que processam bilhões de transações com confiabilidade excepcional.
No próximo artigo, veremos como as CASE Tools evoluíram em categorias como Upper CASE, Lower CASE e Integrated CASE (I-CASE), conheceremos suas principais metodologias, analisaremos exemplos práticos de uso e entenderemos por que elas influenciam diretamente as plataformas Low-Code, No-Code e até mesmo a Inteligência Artificial aplicada ao desenvolvimento de software.
"Toda geração acredita ter inventado uma nova forma de desenvolver software. A história mostra que quase todas elas começam pela mesma ideia: pensar antes de programar. As CASE Tools foram uma das primeiras grandes tentativas de transformar essa ideia em engenharia."