| Bellacosa Mainframe tirem a camera do vagner |
Poh meu da um sossego
...e não acontece nada de interessante.
Nosso amigo Vaguinho em busca de um video interessante bem que tenta, tenta, mas o gato ta de boa... não quer nada com nada.
Olha curioso para a camera, relaxa, espia, mas não faz nada. Fica ali paradinho descansando. O cara bem que tenta... mia... faz graça... provoca... ate que desiste.
E enfim o gato se livrou do chato e pode retornar para seu descanso sossegadinho.
📝 Nota especial — Dez anos depois, o gato finalmente resolveu se pronunciar
Dez anos depois, revejo este pequeno vídeo e percebo uma coisa maravilhosa:
absolutamente nada aconteceu.
E talvez seja exatamente por isso que hoje gosto tanto dele.
Não havia aniversário.
Não havia viagem.
Não havia festa.
Não havia apresentação.
Não havia acontecimento extraordinário algum.
Havia apenas um gato descansando e um cidadão chamado Vaguinho absolutamente convencido de que precisava acontecer alguma coisa diante daquela câmera.
Eu tentava.
Miava.
Fazia graça.
Chamava.
Provocava.
Aproximava a câmera.
E o gato?
O gato já havia compreendido uma filosofia que eu levaria muitos anos para aprender:
nem todo momento precisa produzir alguma coisa.
Às vezes podemos simplesmente ficar ali.
🐈 O protagonista se manifesta dez anos depois
Para fins de justiça histórica, entretanto, acho que está na hora de permitir que o verdadeiro protagonista apresente sua versão dos acontecimentos.
Imaginemos nosso gato agora velhinho.
Mais lento.
Talvez com alguns pelos brancos.
Especialista em cochilos.
Veterano de inúmeras tardes improdutivas.
Ele assiste ao vídeo de 2016, ajeita-se confortavelmente sobre uma almofada e começa sua reclamação:
— Ah, então finalmente resolveram ouvir a minha versão?
Pois muito bem.
Primeiro ponto: eu estava dormindo.
Não estava “sem fazer nada”.
Estava realizando uma atividade felina perfeitamente legítima chamada descanso.
Existe diferença.
🐾 Ponto 2 — Eu nunca pedi para participar desse vídeo
Aquele sujeito apareceu com uma câmera.
Ninguém apresentou contrato.
Ninguém perguntou sobre disponibilidade.
Não houve negociação de cachê.
Nem sequer ofereceram sachê.
Simplesmente apareceu Vaguinho:
— Miau!
E eu pensando:
“Meu amigo... você não é um gato.”
😾 Ponto 3 — O cidadão começou a miar
Precisamos falar seriamente sobre isso.
Eu sou gato.
Eu conheço miado.
Aquilo definitivamente não era miado.
Era um humano adulto produzindo ruídos estranhos enquanto segurava uma câmera.
Olhei por curiosidade profissional.
Nada mais.
Meu olhar não significava:
“Continue.”
Significava:
“O que há de errado com você?”
📹 Ponto 4 — A câmera continuava chegando perto
Eu olhava para a lente.
Ele interpretava como interesse.
Eu desviava.
Ele tentava novamente.
Eu relaxava.
Ele fazia graça.
Eu fechava os olhos.
Ele miava.
Foi quando compreendi que estava participando de um experimento científico:
quanto tempo um humano demora para perceber que um gato quer ficar sozinho?
Resultado registrado naquele dia:
muito.
🐈⬛ Ponto 5 — “Não acontece nada de interessante”
Esta acusação permaneceu registrada durante dez anos e desejo finalmente contestá-la.
Aconteceram diversas coisas interessantes.
Eu respirei.
Mudei ligeiramente a posição da pata.
Olhei para a câmera.
Piscaram meus olhos.
Mexi uma orelha.
Voltei a descansar.
Para um gato, foi praticamente uma tarde movimentadíssima.
O problema era a expectativa editorial do cinegrafista.
😼 Ponto 6 — Quem desistiu primeiro?
Vaguinho.
Portanto:
GATO 1 × 0 CINEGRAFISTA
Não precisei correr.
Não precisei atacar.
Não precisei esconder-me.
Não precisei derrubar a câmera.
Utilizei uma técnica felina ancestral:
resistência passiva através da absoluta falta de interesse.
Funcionou perfeitamente.
O humano cansou.
Foi embora.
E finalmente pude retornar ao meu cochilo.
⏳ Mas então passaram dez anos...
Aqui nosso velho gato provavelmente ficaria alguns segundos em silêncio.
Olharia novamente para aquela versão jovem dele mesmo na tela.
Talvez reconhecesse o quarto.
Talvez reconhecesse aquela voz irritante miando atrás da câmera.
E provavelmente reclamaria mais uma vez:
— Você miava muito mal, Vaguinho.
Mas talvez acrescentasse:
— Ainda bem que filmou.
Porque hoje aquele vídeo guarda algo que nenhum dos dois sabia que precisava ser guardado.
Uma tarde absolutamente comum.
Um gato descansando.
Uma câmera ligada.
Uma pessoa fazendo graça.
Alguns minutos em que ninguém estava preocupado em construir uma memória.
Estávamos simplesmente vivendo.
📼 O valor extraordinário do absolutamente banal
Com o passar dos anos, comecei a perceber que os vídeos mais preciosos nem sempre são aqueles dos grandes acontecimentos.
Temos fotografias dos aniversários.
Vídeos das festas.
Registros das viagens.
Cerimônias.
Apresentações.
Esses momentos naturalmente pedem uma câmera.
Mas quem pensa em filmar uma tarde em que um gato não fez absolutamente nada?
Pouca gente.
E justamente por isso esse vídeo hoje me parece tão bonito.
Ele preservou o cotidiano.
Aquele pedaço da vida que normalmente desaparece sem deixar arquivo.
🐈 Parecer final do gato
Depois de assistir novamente às provas, nosso velho felino apresenta suas conclusões:
PROCESSO: GATO x VAGUINHO
ANO_DO_FATO: 2016
ACUSAÇÃO: NÃO FAZER NADA INTERESSANTE
DEFESA: ESTAVA DESCANSANDO
AGRAVANTE: HUMANO MIANDO SEM AUTORIZAÇÃO
CACHÊ RECEBIDO: ZERO SACHÊS
PACIÊNCIA FELINA: ADMIRÁVEL
CINEGRAFISTA: INSISTENTE
RESULTADO: GATO ABSOLVIDO
E acrescenta uma última observação aos autos:
— Dez anos depois você ainda está falando daquele dia?
Estou.
— E ainda está mostrando o vídeo?
Estou.
— Então alguma coisa interessante aconteceu, não aconteceu?
...
Touché, gato.
Touché.
Talvez seja essa a pequena ironia escondida naquela filmagem.
Vaguinho passou vários minutos tentando fazer o gato produzir alguma coisa interessante.
O gato recusou.
Dez anos depois, justamente porque ele recusou, o vídeo tornou-se interessante.
Hoje podemos apertar PLAY e encontrar novamente aquele quarto.
Aquela tarde.
Aquele bichano.
E aquele cidadão inconveniente tentando conversar em felinês.
📹 CAMERA = REC
😾 GATO = SEM_PACIÊNCIA
🗣️ VAGUINHO = MIAU_MIAU_MIAU
🐈 RESPOSTA = ...
⏳ TEMPO = +10 ANOS
❤️ MEMÓRIA = AINDA_AQUI
E consigo imaginar o velho gato levantando-se lentamente, espreguiçando-se, olhando uma última vez para mim e encerrando definitivamente o processo:
— Muito bonito, Vaguinho.
— Obrigado.
— Agora...
pô, meu... dá um sossego.
🐈❤️📼