sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Marcas, moda e identidade visual

 


Marcas, moda e identidade visual

Pensamentos sobre marcas e costumes, deixo aqui um dump consciente, daqueles feitos sem o acompanhamento de nectar dos deuses, sem mask, sem compress e com RC=verdade.

Sabe uma coisa que me incomoda há tempos — e curiosamente só cresce a cada ano que passa?
Essa necessidade quase compulsiva de ostentar uma marca X ou Y. Não o produto em si, mas o logotipo, o selo, a chancela visual que grita mais alto que qualquer qualidade real. E que muitas vezes nem é original, sendo uma copia feita por alguma oficina obscura ou importado no contrabando da China.

O mais irônico é que, na maioria das vezes, o produto é o mesmo, encontrado em lojas do Brás em São Paulo, mas marca branca. Mesma matéria-prima, mesma linha de produção, muitas vezes fabricado em algum subúrbio pobre, por trabalhadores terceirizados, quarteirizados, invisíveis no job stream da sociedade. A diferença acontece depois: passa por uma sequência de checkpoints, recebe um símbolo da moda, uma etiqueta charmosa, e pronto. Está autorizado a custar dez vezes mais em uma vitrine climatizada de shopping center.

É como pegar um programa COBOL velho de guerra, rodando firme há 40 anos, renomear o módulo, trocar o cabeçalho, colocar uma splash screen bonita e vender como next-gen. A lógica é a mesma, o core é o mesmo, mas o marketing transforma aquilo em fetiche.

No meio desse processo, vamos perdendo algo mais sério: nossa identidade cultural. Vestimos roupas desenhadas em outros países, pensadas para outras realidades, reproduzidas localmente em escala industrial. Antigamente, comprávamos um item pela durabilidade, pelo tecido, pelo corte, pela confiança no fabricante. Hoje, compra-se porque uma pseudocelebridade A ou B apareceu usando aquilo por quinze segundos em um story patrocinado.

Viramos uma legião de bonecos padronizados, quase NPCs, todos vestidos de forma semelhante, ostentando símbolos cujo significado muitos sequer conhecem. Logotipos viram totens. A marca substitui o discurso. O visual vira identidade emprestada. É o VTAM da moda, conectando todo mundo ao mesmo terminal, exibindo a mesma tela.

Às vezes me pergunto:
— Será que estou ficando velho e ranzinza?
— Será que isso é só picuinha por biscoitos?


Pode até ser. Mas a verdade é que sempre fui avesso às modinhas. Sempre me incomodou a ideia de estar vestido igual a todo mundo, quase como se usássemos um uniforme não declarado. Nunca gostei de parecer um clone batch, gerado em massa, sem personalidade.

No meu mundo — talvez antiquado, talvez teimoso — gosto de coisas que tenham história, contexto, propósito. Prefiro algo simples, honesto, funcional, do que um rótulo gritante tentando me vender pertencimento. Pertencer, pra mim, sempre veio de ideias, conversas, memórias e valores — não de uma estampa.

Mas, enfim… é assim que caminha nossa sociedade.
Cada vez mais orientada a branding, menos a conteúdo. Mais fachada, menos estrutura. Muito frontend, pouco backend.



E eu sigo aqui, meio fora do padrão, rodando meu próprio job, talvez em modo legado, mas ainda convicto de que valor de verdade não precisa de logotipo em fonte gigante para existir.

Vendo mais um ano começar, vivenciando o estilo de vida Europeu, a Dolce Vita Italiana e ao mesmo tempo vendo o mundo ruir graças a grande crise de 2008. Lojas fechadas, o numero de turistas diminuindo e uma grande nuvem cinzenta sobre o ar. Detalhe apesar de morar em Milão, costumo ir de trem até Turim, comprar roupas em lojas com preços mais acessiveis e fora das grandes e custosas marcas em Milão.


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