| Bellacosa Mainframe e o cigarro no anime |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Por que Existe Tanto Cigarro nos Animes Japoneses?
Quando a Cultura do Tabaco se Torna um Processo Legacy Difícil de Descontinuar
Existe uma pergunta curiosa que costuma surgir entre fãs de anime, principalmente aqueles acostumados com produções ocidentais mais recentes:
Por que praticamente todo anime possui alguém fumando?
Pode ser um detetive cansado.
Um yakuza elegante.
Um professor desmotivado.
Uma mulher misteriosa.
Um capitão militar.
Um cozinheiro apaixonado.
Um médico genial.
Ou simplesmente aquele personagem secundário que aparece cinco minutos na tela e acende um cigarro como se estivesse inicializando um job batch no JES2.
Se analisarmos isso ao estilo Bellacosa Mainframe, percebemos que o cigarro nos animes funciona como diversos sistemas críticos do mundo IBM Z:
Todo mundo sabe que deveria ser substituído, muita gente já tentou modernizar, existem inúmeras campanhas para reduzir seu uso, mas ele continua presente porque está profundamente integrado à cultura, ao imaginário social e aos hábitos construídos ao longo de décadas.
Pegue seu café.
Vamos fazer um dump dessa memória cultural japonesa.
O Japão foi durante décadas uma sociedade fortemente fumante
Para entender animes, precisamos entender primeiro o Japão.
Hoje, ver japoneses fumando parece menos comum.
Mas nem sempre foi assim.
Nas décadas de 1960, 1970 e 1980, fumar era praticamente um comportamento padrão entre adultos japoneses.
Homens de negócios fumavam.
Políticos fumavam.
Professores fumavam.
Médicos fumavam.
Policiais fumavam.
Escritores fumavam.
Mangakás fumavam.
Animadores fumavam.
Era algo tão normal quanto tomar café.
Em alguns períodos históricos, mais de 70% dos homens adultos japoneses eram fumantes.
Era uma cultura quase institucionalizada.
O governo japonês era dono da empresa de cigarros
Aqui encontramos algo que parece saído de um ambiente legado.
Durante décadas existiu um monopólio estatal chamado:
Japan Tobacco and Salt Public Corporation
O próprio governo lucrava com a venda de cigarros.
Imagine se o administrador do sistema fosse também o fornecedor oficial do software que está causando incidentes.
Existe um conflito evidente.
A redução do tabagismo avançou lentamente justamente porque havia interesses econômicos envolvidos.
Até hoje existe a empresa Japan Tobacco (JT), uma das maiores fabricantes do mundo.
Nos animes antigos, fumar significava maturidade
No Ocidente tivemos algo semelhante.
Humphrey Bogart.
Clint Eastwood.
James Dean.
Marlon Brando.
No Japão aconteceu a mesma associação simbólica.
Fumar transmitia:
Experiência;
Seriedade;
Independência;
Rebeldia;
Cansaço existencial;
Vida difícil.
Era um atalho narrativo.
Em vez de gastar dez minutos desenvolvendo um personagem, bastava mostrar:
Personagem olhando a chuva.
Janela aberta.
Cinzeiro cheio.
Cigarro aceso.
Pronto.
O espectador entende imediatamente:
"Essa pessoa carrega muitas histórias."
É praticamente um FLAG STATUS = 'COMPLEXO'.
O cigarro funciona como um recurso visual extremamente eficiente
Animadores adoram símbolos.
Porque símbolos economizam tempo.
Observe quantos elementos dramáticos um cigarro oferece:
Fumaça subindo lentamente.
Brasa brilhando.
Cinzas caindo.
Silêncio.
Pausa.
Reflexão.
Ansiedade.
Nervosismo.
Raiva.
Tristeza.
Elegância.
Tudo isso em um único objeto.
É uma API visual extremamente poderosa.
Alguns personagens ficaram icônicos por fumar
Spike Spiegel (Cowboy Bebop)
Talvez seja o maior exemplo.
Spike fuma constantemente.
O cigarro reforça sua personalidade.
Desapego.
Melancolia.
Cansaço emocional.
Homem que já perdeu muito.
Asuma Sarutobi (Naruto)
Quase impossível imaginar Asuma sem cigarro.
Ele representa o mentor relaxado.
Professor experiente.
Figura paternal.
Sanji (One Piece)
Durante muitos anos, o cigarro foi parte inseparável do personagem.
Em versões ocidentais chegou a ser substituído por pirulitos.
Mas os fãs consideraram estranho.
Era como remover o ISPF de um ambiente z/OS.
Funciona?
Talvez.
Parece a mesma coisa?
Definitivamente não.
Yami (Black Clover)
Outro personagem em que o cigarro comunica imediatamente:
"Veterano."
"Pouca paciência."
"Resolve problemas de maneira direta."
A influência dos mangakás
Muitos autores cresceram justamente na época em que fumar era considerado normal.
Consequentemente, reproduzem isso naturalmente.
Não necessariamente fazem propaganda.
Simplesmente desenham o mundo como o conheceram.
É parecido com programadores COBOL que continuam utilizando determinadas convenções criadas nos anos 1970.
Não porque sejam obrigatórias.
Mas porque fazem parte da sua linguagem mental.
O Japão mudou bastante
Atualmente o cenário é muito diferente.
A taxa de fumantes caiu significativamente.
Existem restrições em:
Restaurantes.
Estações.
Prédios comerciais.
Eventos.
Escolas.
Escritórios.
Áreas públicas.
Muitos locais possuem apenas pequenas cabines de fumantes.
As campanhas de saúde cresceram.
Novas gerações fumam menos.
Então por que os animes ainda mostram cigarros?
Porque anime não representa apenas o presente.
Anime preserva memórias culturais.
Funciona quase como um banco de dados histórico.
Um personagem criado hoje pode ter inspiração em:
Detetives dos anos 70.
Filmes noir.
Yakuzas clássicos.
Salariados da bolha econômica japonesa.
Veteranos de guerra.
Professores antigos.
Médicos dos anos 80.
Assim, determinados elementos permanecem.
Mesmo que a sociedade real esteja mudando.
Existe também a questão da censura seletiva
Curiosamente, a indústria de anime costuma tratar violência e tabaco de maneiras diferentes.
Em muitos casos vemos:
Espadas.
Explosões.
Monstros.
Batalhas brutais.
Mas personagens fumando continuam aparecendo sem grande controvérsia.
Principalmente quando são adultos.
Quando envolve personagens visualmente jovens, diversos estúdios passaram a ser mais cuidadosos.
Uma analogia Bellacosa Mainframe
Podemos imaginar a cultura do cigarro nos animes como um grande sistema legado.
Temos algo parecido com isto:
Módulo Cultural Original
Décadas de 1960–1980
↓
Altíssima aceitação social
↓
Mangakás absorvem comportamento
↓
Personagens icônicos fumam
↓
Novos autores homenageiam obras clássicas
↓
Público associa cigarro a arquétipos específicos
↓
Dependência estética criada
↓
Sistema continua em produção
Os engenheiros sociais tentam executar um:
//MIGRATE EXEC PGM=ANTITAB
//SYSIN DD *
REMOVE CIGARETTE
REPLACE MODERN SYMBOLS
/*
Mas encontram inúmeros erros:
IEC999I DEPENDENCIA CULTURAL ENCONTRADA
SPIKE FAILED
SANJI FAILED
ASUMA FAILED
YAKUZA PACKAGE FAILED
NOIR COMPATIBILITY FAILED
Resultado:
O sistema não pode ser simplesmente desligado.
Ele precisa ser modernizado gradualmente, respeitando décadas de contexto histórico, memória coletiva e linguagem visual consolidada.
E talvez essa seja a melhor resposta para a pergunta inicial.
Os cigarros aparecem tanto nos animes não porque o Japão atual seja um paraíso dos fumantes, nem porque os estúdios desejem incentivar o hábito, mas porque eles são um artefato cultural legado. São equivalentes narrativos de aplicações COBOL que continuam executando bilhões de transações diariamente: nasceram em outra época, carregam simbolismos específicos, moldaram gerações de usuários e permanecem ativos porque, gostemos ou não, ainda conversam com uma parte importante da memória coletiva.
No grande data center da cultura japonesa, o cigarro é um módulo antigo que já recebeu inúmeras RFCs de descontinuação, vários patches regulatórios e campanhas de substituição. Ainda assim, ele continua sendo carregado na memória de muitos roteiristas porque, para determinadas histórias, continua funcionando como uma instrução compacta capaz de dizer muito sobre um personagem sem que uma única palavra precise ser pronunciada. Afinal, em narrativa visual, assim como em sistemas legados, algumas linhas de código permanecem em produção muito tempo depois de seus criadores terem deixado a sala de operações para tomar um café.
Sem comentários:
Enviar um comentário