| Bellacosa Mainframe introduz o genero sword and sorcery |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Sword and Sorcery sem Mistérios
Quando um Programador COBOL Descobre que Antes dos Isekais Existia um Mundo Onde a Espada Enferrujava, a Magia Custava Caro e Monstros Não Eram NPCs Esperando Sua Vez
"Um aventureiro inteligente não pergunta quantos pontos de vida possui. Pergunta quantos dias faz desde a última refeição."
Introdução — Muito Antes do Herói Overpower
Existe um momento curioso na vida de quase todo fã de fantasia.
Depois de assistir dezenas de isekais, surge uma pergunta inevitável.
"Espera aí... por que esse mundo parece tão confortável?"
A comida nunca falta.
A água nunca causa doença.
As roupas permanecem limpas.
Os cavalos nunca morrem.
As espadas nunca quebram.
As mochilas parecem ter espaço infinito.
Os protagonistas nunca sofrem disenteria, hipotermia ou infecção.
E, curiosamente, os monstros aguardam pacientemente sua vez de apanhar.
Foi exatamente por isso que Goblin Slayer conquistou tantos fãs.
Não porque seja perfeito.
Mas porque recupera uma sensação que dominava a fantasia clássica:
o mundo não gosta de você.
Você não é especial.
Você apenas ainda não morreu.
E essa filosofia nasceu muito antes dos isekais modernos.
Ela pertence a um gênero chamado Sword and Sorcery.
Prepare seu lampião.
Hoje vamos abrir um baú muito antigo.
E ele não contém espadas mágicas.
Contém ferrugem.
O que é Sword and Sorcery?
Traduzindo literalmente:
Espada e Feitiçaria.
Mas isso não explica absolutamente nada.
Sword and Sorcery não é simplesmente fantasia com espadas.
É uma maneira completamente diferente de contar aventuras.
Enquanto a High Fantasy (como O Senhor dos Anéis) fala sobre salvar o mundo...
Sword and Sorcery normalmente fala sobre...
...tentar sobreviver até amanhã.
A escala muda completamente.
Não existe um destino cósmico.
Existe fome.
Existe frio.
Existe dívida.
Existe um mercenário tentando ganhar dinheiro suficiente para comer.
É uma fantasia muito mais humana.
Muito mais brutal.
Robert E. Howard — O Pai de Conan
Se existe um nome obrigatório, é este.
Robert Ervin Howard (1906–1936).
Criador de:
Conan
Kull
Solomon Kane
Bran Mak Morn
Howard escreveu numa época em que aventura significava violência, exploração e sobrevivência.
Conan não era um príncipe.
Não era escolhido.
Não era reencarnado.
Era um bárbaro.
E isso fazia toda diferença.
Ele aprendia observando.
Errando.
Apanhando.
Sobrevivendo.
Conan vence porque luta melhor.
Não porque o roteiro resolveu premiá-lo.
O Conan dos livros é diferente do cinema
Muita gente conhece apenas Arnold Schwarzenegger.
Mas os contos originais são ainda mais interessantes.
Conan é inteligente.
Observador.
Excelente estrategista.
Lê pessoas.
Entende política.
Percebe armadilhas.
É muito mais do que músculos.
Aliás...
Existe um enorme erro moderno.
Confundir força física com ausência de inteligência.
Howard nunca fez isso.
Fritz Leiber — Os Ladrões Mais Carismáticos da Fantasia
Outro gigante.
Criador da dupla:
Fafhrd e Gray Mouser.
Aqui nasce praticamente o modelo das aventuras urbanas.
Tavernas.
Guildas.
Assassinos.
Mercenários.
Magos corruptos.
Ladrões.
Cidade suja.
Becos.
Mercados.
Tudo aquilo que hoje vemos em RPGs nasceu aqui.
Se você gosta de Baldur's Gate...
The Witcher...
Dragon Age...
Dungeons & Dragons...
Existe uma enorme dívida com Fritz Leiber.
Michael Moorcock — O Anti-Herói
Então chega Michael Moorcock.
E apresenta...
Elric de Melniboné.
Elric é o oposto de Conan.
Fraco.
Doente.
Intelectual.
Dependente de magia.
Sua espada, Stormbringer, alimenta-se de almas.
Ela salva.
Mas cobra.
Toda magia possui preço.
Esse conceito influenciou praticamente toda a Dark Fantasy posterior.
Clark Ashton Smith
Pouco lembrado.
Mas gigantesco.
Criou mundos decadentes.
Civilizações morrendo.
Magia antiga.
Horror cósmico.
Ruínas.
Bibliotecas proibidas.
Boa parte do clima sombrio moderno passa por ele.
Karl Edward Wagner
Criador de Kane.
Talvez um dos personagens mais cruéis da Sword and Sorcery.
Nem herói.
Nem vilão.
Um sobrevivente.
Ambicioso.
Violento.
Inteligente.
Perigosíssimo.
Ursula K. Le Guin
Embora caminhe mais para a fantasia filosófica, Earthsea (Terramar) mostrou algo revolucionário.
Magia possui equilíbrio.
Nome verdadeiro importa.
Conhecimento custa caro.
Não existe poder gratuito.
J.R.R. Tolkien
Aqui surge uma confusão comum.
Muita gente coloca Tolkien dentro de Sword and Sorcery.
Não está.
Ele representa a High Fantasy.
Grandes guerras.
Nações.
Destino do mundo.
Profecias.
Enquanto Conan tenta sobreviver...
Frodo tenta salvar toda a Terra-média.
São propostas completamente diferentes.
Então chega Berserk...
Kentaro Miura faz algo extraordinário.
Mistura:
Sword and Sorcery.
Horror.
Psicologia.
Religião.
Trauma.
Violência.
Resultado?
Uma das maiores obras da história dos mangás.
Sem Berserk provavelmente não existiriam, da forma como conhecemos:
Goblin Slayer
Dark Souls
Elden Ring
Dragon's Dogma
A influência é gigantesca.
Goblin Slayer — O Filho Espiritual
Goblin Slayer lembra Conan.
Lembra Berserk.
Lembra campanhas antigas de RPG.
O protagonista não possui magia infinita.
Sua maior arma é planejamento.
Veja como ele pensa.
Entrar na caverna.
Contar inimigos.
Analisar saída.
Verificar ventilação.
Levar óleo.
Preparar cordas.
Calcular retirada.
Isso parece menos um anime...
E mais uma operação militar.
O Verdadeiro Mundo Medieval Era Muito Pior
Agora vem a parte que muitos isekais ignoram.
Imagine acordar em outro mundo.
Você não conhece:
A língua.
A moeda.
As leis.
A religião.
Os costumes.
As doenças.
As plantas.
Os animais.
Você bebe água.
Talvez morra.
Come um cogumelo.
Talvez morra.
Aceita trabalho.
Talvez seja escravizado.
Dorme numa floresta.
Talvez acorde cercado por lobos.
Ou pior.
Monstros Sendo Monstros
Aqui Goblin Slayer acerta novamente.
Os goblins não são malvados porque sim.
São predadores.
Fazem emboscadas.
Roubam comida.
Atacam aldeias pequenas.
Exploram fraquezas.
Fogem quando perdem vantagem.
É exatamente o comportamento esperado de um animal inteligente.
Agora imagine outros monstros.
Um dragão.
Quanto ele precisa comer?
Um grifo.
Qual território defende?
Um troll.
Onde consegue alimento?
Uma hidra.
Como afeta o comércio local?
Monstros alteram toda economia.
Não são chefes de fase.
São parte do ecossistema.
O Grande Problema dos Isekais Modernos
Aqui entra uma crítica divertida.
Você morre atropelado.
Acorda em outro mundo.
Cinco minutos depois:
✔ Já fala o idioma.
✔ Ganha casa.
✔ Recebe espada lendária.
✔ Uma elfa apaixonou-se.
✔ Uma princesa quer casar.
✔ Um dragão virou mascote.
✔ O rei oferece emprego.
Parabéns.
Nem a Receita Federal trabalha tão rápido.
Enquanto isso...
Conan continua tentando pagar a próxima refeição.
O Drama Verdadeiro da Aventura
Sword and Sorcery fala sobre problemas concretos.
A espada quebrou.
O cavalo morreu.
Acabou comida.
Está chovendo há três dias.
A armadura pesa vinte quilos.
Existe febre.
Existe medo.
Existe frio.
Existe culpa.
Não há tutorial.
Dungeons & Dragons Também Mudou
As primeiras edições de D&D eram extremamente mortais.
Uma armadilha podia acabar com um personagem.
Uma porta errada significava morte.
Uma flecha perdida encerrava meses de campanha.
Hoje muitos jogos são mais heroicos.
Mas a raiz continua lá.
Dark Fantasy Herdou Tudo Isso
Dark Fantasy não nasceu do nada.
Ela bebeu diretamente da fonte de:
Howard.
Leiber.
Moorcock.
Smith.
Lovecraft.
Berserk.
A diferença?
Acrescentou desespero.
O mal não pode ser totalmente derrotado.
A vitória sempre cobra um preço.
Às vezes salvar alguém significa perder outra pessoa.
Às vezes vencer deixa cicatrizes maiores do que perder.
O Maior Vilão Não É o Monstro
Conforme você lê mais Sword and Sorcery, percebe algo curioso.
O verdadeiro inimigo raramente é um dragão.
São pessoas.
Reis corruptos.
Sacerdotes fanáticos.
Mercadores gananciosos.
Magos enlouquecidos.
Traidores.
A criatura fantástica apenas torna o mundo mais perigoso.
Quem normalmente destrói civilizações...
...é o próprio ser humano.
Easter Egg do Bellacosa Mainframe
Imagine um programador COBOL entrando em um típico isekai moderno.
No primeiro dia recebe:
LEVEL 999
SUPER MAGIC
INFINITE STORAGE
IMMORTALITY
Ele olha para a tela.
Respira fundo.
E pergunta:
"Cadê o ambiente de homologação?"
Silêncio absoluto.
No horizonte aparece Conan.
Olha para ele.
Entrega uma espada enferrujada.
E responde:
"Produção."
A Grande Lição
Talvez seja por isso que tantas pessoas continuam voltando para Conan, Berserk, Goblin Slayer e outras obras do gênero.
Elas não tratam o espectador como alguém que precisa de uma explicação para cada passo.
Confiam que você observará.
Interpretará.
Ligará os pontos.
Quando Goblin Slayer leva óleo para uma caverna, ninguém interrompe a narrativa para explicar por quê. Quando Conan examina um terreno antes de um combate, o filme não coloca um narrador dizendo "agora ele está montando uma estratégia". A história simplesmente mostra.
É a velha máxima do cinema e da literatura: "mostre, não conte".
No fim, Sword and Sorcery não fala sobre heróis perfeitos. Fala sobre pessoas imperfeitas tentando permanecer vivas em um mundo que não foi feito para elas. É uma fantasia onde a lama suja as botas, o aço perde o fio, a magia cobra juros e cada refeição pode ser a última antes da próxima batalha.
Talvez essa seja a maior diferença em relação a boa parte da fantasia contemporânea. Em vez de perguntar "como o protagonista vai desbloquear seu próximo poder?", Sword and Sorcery nos faz perguntar algo muito mais humano e muito mais antigo:
"Será que ele conseguirá voltar para casa antes do anoitecer?"
E, curiosamente, essa pergunta continua tão poderosa hoje quanto era quando Robert E. Howard começou a escrevê-la quase um século atrás. Algumas arquiteturas nunca envelhecem. Apenas continuam compilando, geração após geração.
P.S. Para Quem Achou Goblin Slayer "Pesado"... Ainda Existe um Andar Abaixo do Calabouço
Se Goblin Slayer foi a porta de entrada para a Dark Fantasy, saiba que ele está longe de representar o limite do gênero. Existem obras que mergulham ainda mais fundo na violência, na desesperança, na corrupção humana e nos dilemas morais. A seguir estão cinco excelentes exemplos para quem deseja explorar esse lado mais sombrio da fantasia.
1. Berserk (ベルセルク)
Título original: ベルセルク (Beruseruku)
Lançamento:
Mangá: 1989
Anime clássico: 1997 (25 episódios)
Autor
Kentaro Miura
Estúdio
OLM Team Iguchi
Classificação
+18
Resumo
Guts é um mercenário criado em um campo de batalha. Sua vida muda ao encontrar Griffith e a Tropa do Falcão. O sonho de construir um reino transforma-se em uma das maiores tragédias da história dos mangás.
Personagens
Guts
Griffith
Casca
Judeau
Pippin
Corkus
Por que é mais pesado?
Berserk aborda:
guerra
tortura
religião
insanidade
abuso psicológico
violência extrema
horror cósmico
O famoso Eclipse tornou-se uma das sequências mais impactantes da história dos animes.
2. Claymore (クレイモア)
Título original
クレイモア
Lançamento
Mangá: 2001
Anime: 2007
Autor
Norihiro Yagi
Estúdio
Madhouse
Classificação
+16
Resumo
Monstros chamados Yoma devoram seres humanos e assumem suas identidades. Apenas guerreiras híbridas entre humanas e Yoma conseguem enfrentá-los.
Personagens
Clare
Teresa
Raki
Miria
Helen
Temas
perda da humanidade
vingança
sacrifício
corrupção do poder
A atmosfera lembra Goblin Slayer, porém com monstros ainda mais assustadores.
3. Devilman Crybaby (デビルマン Crybaby)
Título original
デビルマン Crybaby
Lançamento
2018
Autor original
Go Nagai
Estúdio
Science SARU
Classificação
+18
Resumo
Akira torna-se um híbrido entre humano e demônio para enfrentar uma invasão demoníaca que coloca em dúvida a própria natureza da humanidade.
Personagens
Akira Fudo
Ryo Asuka
Miki Makimura
Por que é tão pesado?
Possui:
violência gráfica
nudez
sexo
massacres
colapso social
questionamentos filosóficos
É um dos poucos animes que realmente transmite uma sensação de apocalipse inevitável.
4. Shigurui (シグルイ)
Título original
シグルイ
Lançamento
2007
Autor
Takayuki Yamaguchi
Estúdio
Madhouse
Classificação
+18
Resumo
Durante o período Edo, dois samurais mutilados enfrentam-se em um duelo cuja origem revela décadas de obsessão, rivalidade e brutalidade.
Personagens
Fujiki Gennosuke
Irako Seigen
Kogan Iwamoto
Temática
Embora não tenha monstros, apresenta um dos retratos mais cruéis do Japão feudal.
Tudo dói.
Tudo custa caro.
Ninguém é herói.
5. Dororo (どろろ) — Versão 2019
Título original
どろろ
Lançamento original do mangá
1967
Anime moderno
2019
Autor
Osamu Tezuka
Estúdio
MAPPA / Tezuka Productions
Classificação
+16
Resumo
Um senhor feudal entrega partes do corpo de seu filho a demônios em troca de poder. O menino sobrevive e parte em uma jornada para recuperar cada parte perdida derrotando os próprios demônios.
Personagens
Hyakkimaru
Dororo
Daigo Kagemitsu
Tahomaru
Temas
guerra
fome
abandono
sacrifício
humanidade
É menos gráfico que Berserk, mas emocionalmente devastador.
Para quem deseja continuar descendo às profundezas...
Uma boa sequência de exploração seria:
Goblin Slayer (+16) — sobrevivência e estratégia contra monstros "realistas".
Claymore (+16) — horror medieval com guerreiras e criaturas grotescas.
Dororo (+16) — fantasia trágica sobre identidade, perda e redenção.
Shigurui (+18) — brutalidade humana sem elementos sobrenaturais, onde a violência nasce da obsessão.
Berserk (+18) — a obra que redefiniu a Dark Fantasy moderna, influenciando mangás, animes e jogos por décadas.
Devilman Crybaby (+18) — um mergulho no horror apocalíptico e na fragilidade da natureza humana.
Como curiosidade, Goblin Slayer costuma ser lembrado pelo impacto do primeiro episódio. Já Berserk e Devilman seguem um caminho diferente: eles aumentam gradualmente a tensão até atingirem momentos que marcaram a história dos animes. São obras que influenciaram desde Dark Souls e Elden Ring até inúmeros mangás e animes de fantasia sombria lançados nas últimas décadas.
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