| Bellacosa Mainframe um drink num bar clandestino em Assuan |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
O Restaurante Fechava às Dez; Assuan Só Começava Depois
Ou: como um brasileiro fumando narguilé virou operador internacional de aquisição etílica, descobriu que uma parede falsa era mais honesta que certas leis e terminou a noite bebendo com novos amigos num porão ao estilo Lei Seca
Há leis que tentam regular comportamentos. Há leis que protegem pessoas. Há leis que organizam uma sociedade complicada, como uma boa PROC que impede o batch de executar um DELETE no arquivo errado.
E há leis que parecem ter sido escritas por alguém que nunca encontrou seres humanos de verdade.
Em uma viagem ao Egito, eu estava em Assuan, sentado na calçada do hotel, fumando narguilé e observando a noite passar. Nada de aventura planejada. Nada de “hoje vou conhecer o submundo egípcio”. Apenas um brasileiro, um narguilé e aquela tranquilidade de fim de noite que faz qualquer lugar distante parecer temporariamente familiar.
Então chegou um rapaz.
— Brasileiro, tudo bem?
A pergunta já era curiosa. Ele sentou, puxou conversa, falou do Egito, perguntou do Brasil. Era simpático demais para ser inteiramente inocente, pensei. Meu processador de risco começou a trabalhar:
Em alguns minutos ele tentará vender um passeio pelo Nilo, um tapete persa, um perfume milagroso, ouro verdadeiro com desconto de amigo ou um camelo que, por razões misteriosas, precisa ser vendido ainda hoje.
Mas o rapaz foi direto ao ponto. Tirou algumas notas egípcias bem gastas, quase pretas de tanto circular de mão em mão, e pediu um favor.
Neste momento, meu cérebro abriu uma tela em letras vermelhas:
ALERTA: possível início de um city tour pela cadeia egípcia.
AÇÃO RECOMENDADA: sorrir, levantar devagar e retornar ao hotel.
O pedido, porém, era simples. E absurdamente humano.
No Egito havia — e talvez ainda haja, em certas situações — comércio voltado para estrangeiros e comércio voltado para egípcios. Uma loja de bebidas para ocidentais podia exigir passaporte estrangeiro para vender álcool. O rapaz e seus amigos não podiam comprar ali como cidadãos locais. Eu podia.
Aquela pilha de notas não era dinheiro de alguma operação obscura do Nilo. Era uma vaquinha. Dez amigos nas redondezas tinham juntado dinheiro e precisavam de um turista disposto a executar o job.
Eu seria o contrabandista internacional de álcool de Assuan.
Naturalmente, topei.
Entrei na vaquinha, acrescentei dinheiro para comprar também algumas bebidas para mim, pegamos o caminho da loja 24 horas destinada aos estrangeiros e fiz a compra do goró em plena conformidade burocrática. Passaporte brasileiro apresentado. Caixa registrada. Nenhuma mala falsa. Nenhum barco cruzando o Nilo às três da manhã. Nenhum contato com a máfia.
Tudo legal, tudo em ordem.
Exceto pelo pequeno detalhe de que uma garrafa era acessível para mim porque eu tinha nascido em outro país e inacessível para aqueles homens porque eles tinham nascido naquele.
Voltamos para o mesmo tapete onde eu fumava narguilé. A noite seguiu com bebida, conversa e risada. Em menos de uma hora, aquele desconhecido que eu imaginava estar prestes a me vender um tour fraudulento havia me dado uma aula de sociologia aplicada. A lei dizia uma coisa; a vida das pessoas organizava outra.
Como presente intercultural de irmão de copo para irmão de copo, ele fez uma recomendação enfática:
— Amanhã, vá jantar em tal restaurante. Comida egípcia de verdade. Muito boa.
No dia seguinte, fui.
O restaurante era normalíssimo. Comida típica, mesas, cozinha, garçons, famílias, o cheiro maravilhoso de temperos e aquela aparência sem glamour que normalmente indica que a comida será melhor que qualquer lugar com cardápio plastificado em cinco idiomas. Comi comida egípcia para egípcios, daquelas que não aparecem no roteiro do hotel.
Quando o restaurante fechou, as portas foram cerradas e as luzes apagaram, bateu aquele friozinho na espinha.
O primeiro filme que me veio à cabeça foi Um Drink no Inferno.
Por alguns segundos, meu cérebro decidiu que a refeição egípcia terminaria com vampiros, motociclistas, uma banda tocando rock no porão e algum sujeito revelando presas atrás do balcão. Pensei, com toda a elegância possível:
— Fudeu.
Aí ri do próprio pensamento bobo e esperei o desenrolar.
O dono saiu, olhou a multidão que permanecia ali — gente demais para um restaurante supostamente fechado —, atravessou o salão, abriu uma cortina e empurrou uma parede falsa. Atrás dela, um corredor escuro e uma longa escadaria desciam para o porão.
Não havia vampiros.
No fim do corredor, uma longa escadaria descia para o porão.
E lá embaixo existia uma discoteca clandestina, música ocidental e álcool à vontade.
O restaurante não era o Titty Twister de Assuan. Era apenas um estabelecimento normalíssimo que, depois das dez, executava uma mudança de ambiente mais radical que qualquer IPL de sexta-feira: desligava a fachada, revelava uma segunda operação e deixava a cidade continuar no subsolo.
O restaurante não fechava às dez. Ele apenas encerrava a operação visível.
Depois, iniciava o segundo turno.
//ASSUAN01 JOB
//DAYSHIFT EXEC PGM=RESTAURANTE
//NIGHTJOB EXEC PGM=SPEAKEASY
//SYSIN DD *
FECHAR PORTAS
APAGAR LUZES
ABRIR CORTINA
MOVER PAREDE
DESCER ESCADARIA
SERVIR ÁLCOOL
/*Aquela discoteca no porão tinha algo de filme americano dos anos 1930. Era o speakeasy da Lei Seca, só que com comida egípcia, narguilé, uma fachada de restaurante e um brasileiro que havia entrado no sistema por causa de uma vaquinha de amigos.
E ali está o ponto que sempre me incomoda quando falamos de proibição moral. O legislador pode declarar que determinada prática não deve existir. Pode limitar, punir, fiscalizar e condenar. Mas, se uma parcela relevante da sociedade continua querendo aquilo — e se aquilo não é percebido por essa parcela como um mal concreto contra outra pessoa — a demanda não evapora.
Ela desce a escada.
Sai do comércio regulamentado e vai para a porta dos fundos. Sai da luz e vai para o corredor escuro. Sai da regra transparente e vai para a rede de favores, cumplicidades e tolerâncias silenciosas.
O resultado raramente é uma sociedade mais virtuosa. Frequentemente é uma sociedade mais hipócrita.
A Lei Seca americana ensinou isso com clareza brutal: não acabou com o álcool; criou contrabando, corrupção, bebida sem controle, violência e oportunidades para quem aceitasse lucrar com a proibição. Em Assuan, não vi uma caricatura de criminosos perigosos. Vi pessoas comuns tentando beber, conversar, dançar e passar uma boa noite — com toda a criatividade que uma regra desconectada da vida cotidiana é capaz de provocar.
Não estou dizendo que toda proibição é errada. Há leis que precisam ser firmes para impedir exploração, violência e dano real. Mas existe uma diferença importante entre proteger vítimas e criar uma polícia da consciência.
Porque, quando a lei começa a tentar administrar desejo, costume e intimidade em vez de dano concreto, ela frequentemente não elimina o comportamento. Ela apenas transforma cidadãos comuns em infratores ocasionais — e transforma um restaurante muito normalzinho em uma escada para o porão.
Na noite seguinte, eu poderia ter ficado no hotel, pedido algo sem graça no serviço de quarto e contado que Assuan era bonita. Em vez disso, comi comida egípcia de verdade, encontrei uma discoteca clandestina e aprendi que um passaporte brasileiro pode abrir portas muito mais interessantes do que qualquer guia turístico.
Ou, naquele caso, abrir uma cortina, mover uma parede e revelar que a cidade só começava depois das dez.
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2016/02/hora-feliz-pensa-que-um-viajante-nao.html
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2015/12/cavalgando-uma-mulinha-no-vale-dos-reis.html
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2016/02/big-crazy-part-uma-festa-muita-louca.html
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2016/02/templo-de-horus-em-edfu.html
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2016/02/complexo-de-templos-em-abu-simbel.html
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2016/02/cavalgando-camelos-em-pleno-deserto-do.html
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2025/08/a-nostalgica-abertura-do-programa-enigma.html
Sem comentários:
Enviar um comentário