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ABEND sem Mistérios — Parte VII
Os 100 Erros Mais Comuns dos Programadores COBOL que Acabam Gerando ABENDs (e Como os Grandes Bancos Evitam Cada Um Deles)
"Quase nenhum ABEND nasce de um único erro. Ele costuma ser o resultado de pequenas decisões aparentemente inocentes que foram se acumulando até encontrar o momento perfeito para falhar."
Introdução
Depois de entender:
o que é um ABEND;
como investigá-lo;
como analisar dumps;
como funciona a arquitetura do IBM Z;
como utilizar observabilidade;
como criar laboratórios de treinamento;
chegamos a uma pergunta extremamente importante.
Por que tantos ABENDs continuam acontecendo?
A resposta surpreende muita gente.
Na maioria das vezes, não é por causa do compilador.
Nem do JCL.
Nem do z/OS.
Nem do CICS.
Muito menos do hardware IBM Z.
Na prática, a maior parte dos incidentes nasce de pequenos erros de desenvolvimento que poderiam ter sido evitados.
É exatamente por isso que grandes bancos investem tanto em padrões de programação, revisões técnicas, testes automatizados e engenharia preventiva.
Neste artigo reunimos os erros mais frequentes encontrados em projetos COBOL corporativos e as práticas utilizadas para evitá-los.
O verdadeiro custo de um pequeno erro
Imagine uma variável.
01 WS-SALDO PIC 9(09)V99.
Agora imagine que um arquivo carregue:
12A4500
Nenhum cliente percebe.
Nenhum operador percebe.
Nenhum batch falha imediatamente.
Horas depois...
COMPUTE
↓
S0C7
↓
Rollback
↓
Fila parada
↓
Chamado de Produção
O problema começou muito antes do ABEND.
Os cinco grupos de erros
Praticamente todos os incidentes podem ser classificados em cinco categorias.
Dados
↓
Lógica
↓
Integração
↓
Infraestrutura
↓
Processos
Vamos explorar cada uma delas.
Grupo 1 — Erros de Dados
São disparadamente os mais comuns.
Erro 1
Não validar campos numéricos.
Resultado.
S0C7.
Boa prática.
Sempre utilizar:
IF campo NUMERIC
Erro 2
Assumir que um arquivo sempre virá correto.
Arquivos mudam.
Layouts evoluem.
Campos chegam em branco.
Sistemas fornecedores falham.
Nunca confie cegamente na entrada.
Erro 3
Ignorar FILE STATUS.
Uma simples instrução OPEN pode falhar.
Sem tratamento adequado,
o programa continua executando até produzir consequências mais graves.
Erro 4
Ignorar SQLCODE.
O SELECT pode não encontrar registros.
O UPDATE pode falhar.
O COMMIT pode ser rejeitado.
Sempre teste SQLCODE.
Erro 5
Ignorar RESP e RESP2 no CICS.
Esses códigos são equivalentes ao SQLCODE do ambiente transacional.
Não tratá-los significa dirigir sem painel de instrumentos.
Grupo 2 — Erros de Lógica
Erro 6
PERFORM infinito.
Resultado.
S322
Boa prática.
Toda repetição deve possuir condição clara de encerramento.
Erro 7
Índices fora do OCCURS.
Principal causa de inúmeros S0C4.
Sempre valide limites.
Erro 8
Variáveis não inicializadas.
Nunca suponha que memória contém zeros.
Use INITIALIZE quando fizer sentido e inicialize explicitamente áreas críticas.
Erro 9
REDEFINES utilizado sem documentação.
REDEFINES é poderoso.
Mas também é uma das maiores fontes de confusão em sistemas antigos.
Erro 10
Uso excessivo de GO TO.
Quanto maior o número de desvios,
mais difícil torna-se reproduzir problemas.
Grupo 3 — Integração
Erro 11
Copybooks incompatíveis.
Programa A espera:
100 bytes
Programa B envia:
120 bytes
Resultado.
S0C4.
Erro 12
CALL USING incompatível.
Mudança em parâmetros sem recompilar todos os módulos.
Problema extremamente comum em aplicações legadas.
Erro 13
Layouts de arquivos desatualizados.
Uma alteração aparentemente simples pode afetar dezenas de programas.
Erro 14
Interfaces sem versionamento.
Grandes bancos tratam contratos de interface como código-fonte.
Grupo 4 — Infraestrutura
Erro 15
STEPLIB incorreta.
Resultado.
S806
Erro 16
DCB incompatível.
Resultado.
S013
Erro 17
Datasets pequenos.
Resultado.
SB37
SD37
SE37
Erro 18
TIME insuficiente.
Resultado.
S322
Erro 19
Catálogo inconsistente.
Nem sempre o problema está na aplicação.
Grupo 5 — Engenharia de Software
Aqui aparecem os erros mais caros.
Erro 20
Falta de logs.
Sem informações,
investigar torna-se muito mais difícil.
Erro 21
Ausência de documentação.
Quando apenas uma pessoa entende um programa,
o risco operacional aumenta significativamente.
Erro 22
Não reproduzir o incidente.
Corrigir "no escuro" costuma gerar novos problemas.
Erro 23
Não escrever testes.
A correção resolve o incidente atual,
mas ninguém garante que outro desenvolvedor não reintroduzirá o mesmo defeito.
Erro 24
Não documentar a causa raiz.
Todo incidente importante deveria gerar conhecimento.
Os erros que quase nunca aparecem nos livros
Alguns problemas são extremamente frequentes na vida real.
Por exemplo.
Alteração de layout sem avisar outras equipes.
↓
Mudança de copybook.
↓
Programa recompilado parcialmente.
↓
Ambiente inconsistente.
↓
Produção.
↓
ABEND.
Tecnicamente,
ninguém escreveu código errado.
O problema foi comunicação.
O perigo das suposições
Um excelente programador desconfia de tudo.
Pergunta:
O arquivo realmente existe?
O retorno foi validado?
A variável foi inicializada?
O parâmetro chegou corretamente?
A transação ainda está instalada?
Essa postura reduz enormemente os incidentes.
Como pensam os grandes bancos
Muitas empresas utilizam listas de verificação antes do deploy.
Exemplo.
SQLCODE tratado?
FILE STATUS tratado?
RESP tratado?
Índices validados?
Logs suficientes?
Testes executados?
Revisão realizada?
Plano de rollback pronto?
Esse checklist evita inúmeros problemas.
O princípio da programação defensiva
Programação defensiva significa assumir que algo pode dar errado.
Em vez de escrever:
ADD WS-VALOR TO TOTAL
O profissional escreve:
IF WS-VALOR NUMERIC
ADD WS-VALOR TO TOTAL
ELSE
PERFORM TRATAR-ERRO
END-IF
O objetivo não é tornar o código maior.
É torná-lo mais confiável.
A importância da revisão de código
Um desenvolvedor acostuma-se com seu próprio código.
Por isso revisões entre colegas são tão valiosas.
Muitas falhas simples são descobertas antes mesmo dos testes.
Revisar código não é fiscalizar pessoas.
É proteger o sistema.
Testes automatizados no Mainframe
Cada vez mais equipes utilizam:
IBM Developer for z/OS;
IBM Test Accelerator;
ZUnit;
Jenkins;
GitHub Actions;
UrbanCode Deploy;
Ansible.
A ideia é simples.
Sempre que uma alteração ocorrer,
os principais cenários são executados automaticamente.
Assim, regressões são identificadas antes da produção.
Os dez mandamentos do Programador COBOL
Nunca confie nos dados de entrada.
Sempre trate retornos do sistema.
Valide limites de tabelas.
Documente alterações importantes.
Escreva logs úteis.
Faça revisões de código.
Teste cenários de erro, não apenas os de sucesso.
Automatize sempre que possível.
Investigue antes de corrigir.
Compartilhe conhecimento com a equipe.
O ciclo dos incidentes
Os sistemas mais maduros seguem um ciclo contínuo.
Erro
↓
ABEND
↓
Investigação
↓
Root Cause
↓
Correção
↓
Teste
↓
Documentação
↓
Automação
↓
Novo Padrão
↓
Menos ABENDs
Cada incidente fortalece a organização.
O Programador Padawan e o Especialista
O Padawan pergunta:
"Como elimino este S0C7?"
O especialista pergunta:
"Como impedir que qualquer programa desta empresa gere esse mesmo S0C7 novamente?"
Essa diferença de perspectiva muda completamente a qualidade do software.
Construindo uma cultura de qualidade
As organizações mais bem-sucedidas não dependem de heróis que resolvem incidentes às três da manhã.
Elas constroem processos que tornam esses incidentes cada vez mais raros.
Isso inclui:
padrões de codificação;
revisão por pares;
integração contínua;
testes automatizados;
observabilidade;
documentação;
treinamento constante.
Quando essas práticas amadurecem, o número de ABENDs em produção tende a cair de forma consistente.
Conclusão
Os ABENDs não surgem do nada. Eles são o reflexo da qualidade das decisões tomadas ao longo do ciclo de desenvolvimento.
Cada variável validada, cada SQLCODE tratado, cada FILE STATUS verificado, cada revisão de código e cada teste automatizado representam pequenas barreiras que impedem que um erro simples evolua para um incidente crítico.
Os grandes bancos sabem disso há décadas. Por essa razão, investem muito mais em prevenção do que em correção. A investigação continua sendo importante, mas seu verdadeiro objetivo é produzir aprendizado, melhorar processos e reduzir a probabilidade de novos incidentes.
O Programador Padawan que compreender essa filosofia deixará de ver o ABEND como um inimigo. Passará a enxergá-lo como um indicador da saúde do sistema e uma oportunidade de tornar suas aplicações mais seguras, previsíveis e resilientes.
Porque, no fim das contas, a melhor investigação é aquela que um dia deixa de ser necessária.
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