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sábado, 3 de outubro de 2026

REXX 1995: O dia em que a IBM quis conquistar o mundo — uma aventura mainframe sob a batuta de Spike Spiegel

 

Bellacosa Mainframe comenta sobre a conferencia que apresentou o REXX ao mundo

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REXX 1995: O dia em que a IBM quis conquistar o mundo — uma aventura mainframe sob a batuta de Spike Spiegel

Bellacosa Mainframe — Arqueologia da Computação, COBOL, REXX e os fantasmas do código legado

Por Vagner Bellacosa — Bellacosa Mainframe

“See you, Space Cowboy…” — Cowboy Bebop







1. Introdução — Uma nave chamada IBM e um caçador de recompensas chamado REXX

Imagine a cena.

Estamos em maio de 1995. A Internet começa a conquistar universidades, empresas e os primeiros aventureiros digitais. O Windows 95 ainda não chegou oficialmente ao mercado. O Linux é uma promessa jovem, o OS/2 tenta conquistar seu território e os mainframes IBM continuam processando uma quantidade gigantesca de informações empresariais.

Em algum ponto desse universo tecnológico, 130 especialistas se reúnem no Stanford Linear Accelerator Center, na Califórnia, para discutir o futuro de uma linguagem que nasceu discretamente nos corredores da IBM.

Seu nome: REXX.

Agora imagine Spike Spiegel, o despreocupado caçador de recompensas de Cowboy Bebop, entrando numa sala repleta de terminais, fitas magnéticas e programadores experientes.

De mãos nos bolsos, observa as telas, pergunta onde está o café e descobre que há uma recompensa muito mais interessante do que alguns milhares de woolongs.

A recompensa é compreender como uma linguagem criada em 1979 estava se preparando para conquistar o universo da computação.

A bordo desta Bebop imaginária, nossa tripulação será formada por COBOL, REXX, JCL, CICS, Db2 e alguns personagens históricos da IBM.

Spike assume a batuta narrativa. Mike Cowlishaw é o arquiteto da linguagem. Melinda Varian, de Princeton, é nossa correspondente especial no simpósio.

E o programador COBOL iniciante? Esse será o novo tripulante que aprenderá a navegar por sistemas com décadas de história.

O mais interessante é que o simpósio realmente aconteceu.

O Sexto Simpósio Internacional de REXX, realizado de 1 a 3 de maio de 1995, deixou um documento histórico extraordinário: o relatório de Melinda Varian, preservado pela REXX Language Association.

Nele encontramos anúncios controversos, discussões técnicas, ideias inovadoras, previsões ousadas e até comentários sobre decisões equivocadas de projeto.

Vamos embarcar nessa aventura.


2. Episódio 1 — A origem de REXX: uma ideia no meio da noite

Nossa viagem começa em março de 1979.

Mike Cowlishaw, engenheiro da IBM no laboratório de Hursley, na Inglaterra, desperta durante a noite pensando em uma nova linguagem de programação.

Sua preocupação não era simplesmente produzir mais uma ferramenta.

Ele queria desenvolver uma linguagem fácil de aprender, fácil de lembrar e suficientemente expressiva para resolver problemas reais.

Naquela época, usuários de VM/CMS trabalhavam com linguagens como EXEC e EXEC2.

Essas ferramentas eram úteis, mas podiam produzir programas difíceis de ler, especialmente pela quantidade de símbolos e convenções sintáticas.

Cowlishaw desejava algo diferente.

Uma linguagem em que o programador pudesse concentrar a atenção no problema, e não na pontuação.

Foi assim que nasceu o REXX, cujo nome se relaciona à expressão Restructured Extended Executor.

A primeira implementação foi distribuída pela rede interna VNET da IBM em 21 de maio de 1979.

Essa rede conectava profissionais distribuídos por diferentes instalações da empresa.

Cowlishaw enviava propostas, recebia comentários, corrigia comportamentos e desenvolvia novas funcionalidades.

A linguagem cresceu por meio da colaboração.

Curiosidade: uma espécie de desenvolvimento comunitário antes do GitHub

O processo descrito por Cowlishaw lembra bastante práticas modernas de engenharia de software.

Primeiro, ele documentava uma funcionalidade.

Depois, compartilhava a proposta com outros profissionais.

Em seguida, escrevia exemplos para verificar se a ideia realmente fazia sentido.

Somente então avançava na implementação.

Hoje chamaríamos parte desse processo de desenvolvimento orientado por especificações, testes e feedback.

Em 1979, tudo isso acontecia por uma rede corporativa.

Ao final do primeiro ano, Cowlishaw havia dedicado aproximadamente mil horas ao projeto, produzido dez mil linhas de Assembler e escrito cinco mil linhas de documentação.

Observe o detalhe: o interpretador era desenvolvido em Assembler, mas seu objetivo era oferecer ao usuário uma linguagem muito mais acessível.

É como construir uma nave espacial sofisticadíssima para que seu piloto precise lidar apenas com comandos compreensíveis.

Primeiro programa REXX

/* BELLACOSA - PRIMEIRO REXX */

say "Bem-vindo ao universo mainframe"
say "Ano historico: 1995"
say "Missao: aprender REXX"
exit 0

A instrução SAY apresenta uma mensagem.

Os comentários ficam entre /* e */.

A instrução EXIT 0 encerra o programa indicando conclusão normal.

Simples, não?

Agora compare com um programa COBOL equivalente.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. PRIMEIRO.
       PROCEDURE DIVISION.
           DISPLAY "Bem-vindo ao universo mainframe"
           DISPLAY "Ano historico: 1995"
           DISPLAY "Missao: aprender COBOL"
           GOBACK.

O exemplo COBOL utiliza formato fixo tradicional, com as instruções iniciando na área apropriada.

Ambos apresentam mensagens, mas suas estruturas são diferentes.

COBOL é especialmente adequado ao desenvolvimento de aplicações empresariais com regras de negócio e dados estruturados.

REXX é excelente para automação, interpretação de comandos e criação de utilitários.

Primeira lição da Bebop: não existe obrigação de escolher uma linguagem e abandonar todas as outras. O bom programador aprende a utilizar a ferramenta apropriada para cada missão.


3. Episódio 2 — A reunião secreta de 1995

Avancemos dezesseis anos.

Stanford Linear Accelerator Center, Califórnia.

Programadores, pesquisadores e especialistas se reúnem para o Sexto Simpósio Internacional de REXX.

Entre os participantes estão Mike Cowlishaw, Charles Daney, Ian Collier e Anders Christensen.

Cada um representa uma parte da evolução da linguagem.

O encontro tinha aproximadamente 130 participantes, o dobro do ano anterior.

Durante três dias, discutiram o REXX tradicional, sua evolução orientada a objetos, ferramentas de desenvolvimento, UNIX, Web, sistemas distribuídos, OS/2 e CICS.

Mas havia uma notícia que preocupava a comunidade.

A IBM havia anunciado a transferência do desenvolvimento de REXX de Endicott, nos Estados Unidos, para Böblingen, na Alemanha.

Segundo Melinda Varian, nenhum dos desenvolvedores existentes seria transferido junto com o projeto.

A autora demonstrou grande preocupação com essa decisão.

Ela estimou que a transferência poderia provocar um período de 18 a 24 meses de pouco avanço.

Essa estimativa era uma opinião registrada em 1995, não uma medição posterior do que efetivamente aconteceu.

O problema do conhecimento que desaparece

Imagine um sistema COBOL desenvolvido durante vinte anos.

Seu programador original conhece particularidades do código, regras de negócio, registros históricos e situações especiais que talvez nunca tenham sido documentadas.

Agora imagine que a equipe inteira seja substituída.

O código continua funcionando.

Os datasets continuam armazenados.

As transações CICS continuam sendo executadas.

Mas parte do conhecimento desaparece.

É exatamente essa a preocupação expressa por Varian.

Um dos maiores riscos de um sistema legado não é sua idade. É perder o conhecimento necessário para compreendê-lo e mantê-lo.

Essa lição permanece relevante para empresas que dependem de COBOL, PL/I, Assembler, REXX e JCL.

Dica Bellacosa Mainframe

Sempre que encontrar um programa antigo, investigue:

  1. Quem desenvolveu o programa?

  2. Qual problema empresarial ele resolve?

  3. Quais arquivos e tabelas utiliza?

  4. Quais outros programas dependem dele?

  5. Como é executado?

  6. Quais são seus códigos de retorno?

  7. Existem procedimentos documentados para recuperação de erros?

Documentação é uma forma de preservar conhecimento.

E conhecimento preservado reduz o custo de manutenção.


4. Episódio 3 — A IBM queria levar REXX para Linux

Entre os anúncios apresentados no simpósio estava uma novidade surpreendente.

A IBM planejava disponibilizar Object REXX para diferentes plataformas.

O cronograma divulgado incluía:

PlataformaPrevisão apresentada
LinuxJulho de 1995
PowerPCSetembro de 1995
OS/2Outubro de 1995
MVSDezembro de 1995
AIXDurante 1995
WindowsDurante 1995
VMMarço de 1996

Atenção: essas eram previsões divulgadas no evento, não comprovação de que todos os lançamentos ocorreram nas datas propostas.

O plano para Linux possuía uma característica especialmente interessante.

A IBM pretendia disponibilizar o código-fonte de sua implementação, permitindo que terceiros construíssem versões para outros sistemas UNIX e comercializassem suas soluções sem pagar royalties à empresa.

Não se tratava necessariamente de software livre nos moldes da GPL.

O anúncio estabelecia condições próprias.

Mesmo assim, para 1995, era uma decisão estratégica importante.

A IBM reconhecia que sua linguagem poderia ter um futuro além dos sistemas operacionais tradicionais da companhia.

Uma linguagem viajando entre planetas

Dentro da nossa analogia com Cowboy Bebop, cada sistema operacional representa um planeta.

VM/CMS é um dos mundos antigos.

MVS é uma enorme estação espacial corporativa.

OS/2 é uma colônia de computadores pessoais.

UNIX e Linux representam novos territórios.

REXX seria um viajante tentando circular entre todos eles.

Naturalmente, cada implementação possui particularidades.

Um script que executa comandos específicos de TSO não funcionará automaticamente em Linux.

A sintaxe básica pode ser semelhante, mas os comandos disponíveis dependem do ambiente.

Essa distinção é fundamental para iniciantes.

Portabilidade da linguagem não significa portabilidade automática de todos os programas.

Um script REXX que utiliza SAY, IF, DO e operações comuns sobre strings pode ser relativamente simples de adaptar.

Já um script que utiliza LISTDS, ALLOC, EXECIO ou serviços específicos de TSO/E exige um ambiente compatível ou alterações.


5. Episódio 4 — COBOL encontra REXX: duas linguagens, uma missão

Vamos imaginar uma empresa financeira.

Todos os dias, um programa COBOL processa movimentações e produz resultados.

O programa executa cálculos, valida registros e grava informações.

Mas alguém precisa preparar o ambiente, executar o processamento, conferir retornos e produzir relatórios.

É aqui que o REXX pode ajudar.

COBOL executa a regra de negócio.

JCL descreve e submete o trabalho em lote.

REXX pode automatizar tarefas operacionais e de desenvolvimento, inclusive a submissão de jobs e a análise de informações.

Vejamos um pequeno laboratório.

Laboratório 1 — Criando um programa COBOL para calcular saldos

Nosso programa inicial não acessará um banco de dados real nem movimentará dinheiro.

Ele trabalhará com valores fixos para facilitar a aprendizagem.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. SALDOB01.

       DATA DIVISION.
       WORKING-STORAGE SECTION.

       01 WS-SALDO-INICIAL PIC 9(7)V99 VALUE 1500.00.
       01 WS-DEPOSITO      PIC 9(7)V99 VALUE 250.00.
       01 WS-SAQUE         PIC 9(7)V99 VALUE 100.00.
       01 WS-SALDO-FINAL   PIC 9(7)V99 VALUE ZERO.
       01 WS-SALDO-EDIT    PIC Z(6)9.99.

       PROCEDURE DIVISION.

           COMPUTE WS-SALDO-FINAL =
               WS-SALDO-INICIAL
               + WS-DEPOSITO
               - WS-SAQUE

           MOVE WS-SALDO-FINAL TO WS-SALDO-EDIT

           DISPLAY "BELLACOSA MAINFRAME"
           DISPLAY "SALDO FINAL: " WS-SALDO-EDIT

           GOBACK.

Esse exemplo usa formato fixo tradicional de COBOL, apropriado para ilustrar fontes clássicos.

Vamos entender os elementos.

WORKING-STORAGE SECTION contém variáveis usadas durante a execução.

PIC 9(7)V99 define um campo numérico com sete posições inteiras e duas decimais implícitas.

A letra V não ocupa espaço físico no campo.

COMPUTE executa o cálculo.

MOVE transfere o resultado para um campo editado.

DISPLAY apresenta informações na saída do programa.

GOBACK retorna o controle ao chamador ou ao ambiente de execução.

O saldo esperado é:

1500 + 250 − 100 = 1650.

O programa deverá apresentar o valor formatado como 1650.00, com os espaços iniciais previstos no campo editado.

O que acontece num sistema real?

Em uma aplicação empresarial, esses valores provavelmente seriam obtidos de arquivos sequenciais, VSAM, Db2 ou outra fonte.

Também seria necessário verificar saldos insuficientes, tipos de operação, consistência dos registros e possíveis falhas.

O programa acima demonstra apenas o cálculo.

A vantagem é que o iniciante consegue compreender sua estrutura antes de acrescentar complexidade.

6. Episódio 5 — JCL: o controlador de tráfego da Bebop

No ambiente z/OS, programas batch frequentemente são executados por meio de jobs descritos em JCL.

JCL significa Job Control Language.

Não é uma linguagem de programação de aplicação como COBOL.

Sua função é informar ao sistema quais programas executar, quais recursos utilizar e como tratar entradas e saídas.

Supondo que nosso programa COBOL já esteja compilado e linkeditado numa biblioteca de carga, poderíamos utilizar um job semelhante ao seguinte:

//BELLJOB  JOB (ACCT),'BELLACOSA',
//             CLASS=A,MSGCLASS=X,
//             NOTIFY=&SYSUID
//*
//RUNCOB   EXEC PGM=SALDOB01
//STEPLIB  DD DSN=USER.COBOL.LOAD,DISP=SHR
//SYSPRINT DD SYSOUT=*
//SYSOUT   DD SYSOUT=*
//

Os nomes de dataset e os parâmetros do JOB são ilustrativos e devem ser adaptados às regras da instalação.

A instrução JOB identifica o trabalho.

EXEC PGM=SALDOB01 solicita a execução do programa.

STEPLIB informa uma biblioteca de carga em que o sistema poderá localizar o módulo executável.

SYSOUT e SYSPRINT representam definições de saída frequentemente utilizadas em jobs.

O que acontece quando o job é submetido?

O JES recebe o trabalho, verifica suas condições de execução e o encaminha conforme a configuração do sistema.

O programa é carregado.

O cálculo é executado.

A saída pode ser examinada no spool, utilizando SDSF ou ferramentas equivalentes.

Passo a passo no ambiente TSO/ISPF

Passo 1: acesse o ambiente de desenvolvimento autorizado.

Passo 2: crie um membro de fonte COBOL em uma biblioteca apropriada.

Passo 3: digite o programa SALDOB01.

Passo 4: compile o programa utilizando o procedimento de compilação disponível na instalação.

Passo 5: verifique mensagens de erro, warnings e o código de retorno.

Passo 6: confirme que o módulo executável foi gravado na biblioteca de carga.

Passo 7: adapte o JCL de execução.

Passo 8: submeta o job.

Passo 9: examine o resultado no SDSF.

Passo 10: compare o saldo apresentado com o valor esperado.

Em muitos ambientes educacionais, existem procedimentos de compilação prontos. Utilize-os antes de tentar construir um JCL de compilação completo.

Dica de veterano

Um código de retorno zero geralmente representa conclusão normal, mas o significado depende da aplicação e de seus contratos de execução.

Não trate todos os retornos diferentes de zero como iguais.

Investigue também mensagens, condições de execução e eventuais abends.

Uma aplicação pode produzir resultado incorreto mesmo terminando com retorno zero.

7. Episódio 6 — REXX entra na sala de controle

Agora precisamos automatizar parte da missão.

Suponha que o programador execute frequentemente o mesmo job COBOL.

Em vez de navegar manualmente até o membro JCL e submetê-lo repetidamente, podemos criar um pequeno exec REXX.

No TSO/E, uma forma de submeter um membro JCL é utilizar o comando SUBMIT.

/* BELLJOB - ENVIO DE JOB COBOL */

say "BELLACOSA MAINFRAME"
say "Iniciando submissao do job..."

address tso

"SUBMIT 'USER.JCL(BELLJOB)'"

say "Retorno do comando SUBMIT:" rc

exit rc

Observe os elementos.

ADDRESS TSO direciona os comandos ao ambiente TSO.

O comando SUBMIT envia o JCL ao JES.

A variável especial RC recebe o código de retorno do comando executado.

O programa apresenta esse valor e termina.

Importante: o retorno de SUBMIT não representa necessariamente o resultado final do processamento COBOL. Ele informa o retorno do comando de submissão.

O job pode ter sido aceito e ainda estar aguardando execução.

Para conhecer o resultado final, será necessário verificar o job no JES/SDSF ou usar uma interface apropriada de consulta.

Essa distinção evita um erro comum entre iniciantes.

Como executar o REXX

Em uma instalação TSO/E, você pode criar um membro chamado BELLJOB numa biblioteca REXX e executá-lo com uma instrução semelhante a:

EXEC 'USER.REXX(BELLJOB)' EXEC

A biblioteca precisa existir, e o usuário deve ter as permissões necessárias.

O nome USER é apenas ilustrativo.

Em ambientes reais, cada instalação define seus padrões de nomenclatura, segurança e autorização.

O que ganhamos?

Ganhamos repetibilidade.

Uma operação executada várias vezes pode ser encapsulada em um procedimento simples.

Mas não devemos exagerar.

O pequeno exec não substitui o monitoramento do JES, não resolve falhas de aplicações e não transforma automaticamente um programa COBOL em um serviço Web.

Ele automatiza uma tarefa específica.

E esse é justamente um dos segredos da produtividade: começar automatizando tarefas pequenas, repetitivas e bem compreendidas.

8. Episódio 7 — REXX dentro do CICS: uma revolução inesperada

Entre as apresentações mais interessantes do simpósio estava a de Bob Vogel, gerente de desenvolvimento da IBM.

Seu tema era REXX for CICS/ESA.

Para compreender a importância dessa apresentação, precisamos conhecer o CICS.

CICS significa Customer Information Control System.

Ele é um servidor de aplicações transacionais utilizado em ambientes empresariais.

Imagine milhares de usuários consultando saldos, registrando pedidos, atualizando contas ou realizando operações simultaneamente.

CICS ajuda a gerenciar a execução dessas transações, coordenando programas e recursos conforme a arquitetura da aplicação.

Historicamente, COBOL ocupa um lugar importante nesse ecossistema.

No simpósio de 1995, Bob Vogel apresentou uma implementação de REXX destinada ao CICS.

Ela utilizava como base o núcleo do interpretador TSO/E REXX.

A solução acrescentava recursos específicos para CICS, incluindo integração com Db2, editor de texto, shell interativo, facilidades de painéis e um sistema de arquivos baseado em VSAM.

A surpresa: produtividade de 10 a 20 vezes

Vogel relatou que sua equipe, composta principalmente de programadores COBOL/CICS, estimava ganhos de produtividade entre dez e vinte vezes em determinadas atividades realizadas com REXX.

Calma, jovem tripulante!

Isso não significa que um programa REXX execute vinte vezes mais rápido que um programa COBOL.

Também não demonstra que REXX seja universalmente superior ao COBOL.

A declaração se referia à produtividade percebida pelos desenvolvedores em seu contexto de trabalho.

São coisas completamente diferentes.

Uma ferramenta pode permitir construir um protótipo em poucas horas sem necessariamente oferecer o melhor desempenho para processar milhões de registros.

Quando utilizar cada tecnologia?

NecessidadeTecnologia frequentemente adequada
Regras empresariais complexasCOBOL
Aplicações transacionaisCICS com COBOL ou outras linguagens suportadas
Processamento batchCOBOL e JCL
Automação TSO/ISPFREXX
Consultas e atualização de dados relacionaisSQL/Db2
Organização da execução batchJCL/JES
Investigação de jobsSDSF e ferramentas associadas

Essas tecnologias podem colaborar.

Não precisam disputar espaço como inimigas.

O sucesso de uma arquitetura depende da combinação correta de responsabilidades.

9. Episódio 8 — Object REXX: quando a linguagem ganhou novos poderes

Outra grande atração do simpósio foi o Object REXX.

Rick McGuire apresentou funcionalidades relacionadas à programação orientada a objetos.

Para um iniciante, orientação a objetos pode parecer um conceito complicado.

Mas sua ideia básica é relativamente simples.

Imagine que precisamos representar uma conta bancária.

Uma conta possui características:

  • Número.

  • Titular.

  • Saldo.

  • Situação.

E possui operações:

  • Consultar saldo.

  • Depositar.

  • Sacar.

  • Bloquear.

Em programação orientada a objetos, podemos organizar parte desses dados e comportamentos numa estrutura chamada classe.

Os objetos são instâncias dessa classe.

A proposta do Object REXX era acrescentar recursos desse modelo à linguagem tradicional.

Exemplo conceitual em Object REXX

/* Exemplo para Object REXX / ooRexx */

conta = .Conta~new
conta~depositar(250)

say "Saldo:" conta~saldo

::class Conta

::attribute saldo get

::method init
  expose saldo
  saldo = 1000

::method depositar
  expose saldo
  use arg valor
  saldo = saldo + valor

Esse exemplo ilustra uma implementação moderna compatível com os conceitos centrais de Object REXX. Não deve ser interpretado como uma reprodução literal de uma demonstração de 1995.

A classe Conta define um objeto.

O método init estabelece o saldo inicial.

O método depositar altera o saldo.

O símbolo ~ é utilizado para enviar mensagens aos objetos.

Mas COBOL também possui orientação a objetos?

Sim. Existem extensões e funcionalidades de COBOL orientado a objetos, dependendo do compilador e do ambiente.

Entretanto, é importante diferenciar o COBOL procedural tradicional das implementações com recursos orientados a objetos.

Grande parte dos sistemas empresariais COBOL utiliza estruturas procedurais, chamadas de programas, divisões, seções, parágrafos e módulos.

Para quem está começando, é mais importante dominar primeiro:

  • Estrutura de programa.

  • Tipos de dados.

  • Instruções condicionais.

  • Laços.

  • Processamento de arquivos.

  • Chamadas entre programas.

  • Tratamento de erros.

Depois disso, aprender novos paradigmas torna-se muito mais fácil.

10. Episódio 9 — REXX na Internet antes de muita gente conhecer a Web

Talvez a apresentação mais visionária do simpósio tenha sido a de Les Cottrell e Bebo White.

O assunto era a construção de scripts CGI para a World Wide Web utilizando REXX.

CGI significa Common Gateway Interface.

Era uma maneira de permitir que servidores Web executassem programas externos para produzir respostas dinâmicas.

Imagine que alguém acessa uma página de consulta.

O servidor recebe a solicitação.

Um programa processa informações.

O resultado é devolvido ao navegador.

Hoje esse modelo parece bastante familiar.

Mas em 1995 a Web ainda estava em sua infância.

Segundo o relatório, o SLAC havia instalado o primeiro servidor Web dos Estados Unidos em setembro de 1991.

Os apresentadores demonstraram principalmente soluções UNIX utilizando Uni-REXX, mas também discutiram ambientes VM.

Um exemplo didático de resposta HTTP

Um script CGI muito simples poderia produzir algo semelhante a:

/* Exemplo conceitual de CGI com REXX */

say "Content-Type: text/html"
say
say "<html>"
say "<body>"
say "<h1>Bellacosa Mainframe</h1>"
say "<p>REXX e a historia da Web</p>"
say "</body>"
say "</html>"

Em um ambiente CGI devidamente configurado, a primeira linha define o tipo de conteúdo.

A linha vazia separa os cabeçalhos do corpo da resposta.

O restante forma uma pequena página HTML.

Naturalmente, um servidor real precisaria estar configurado para executar o interpretador e o programa com permissões apropriadas.

Esse exemplo tem finalidade histórica e educacional. Não é uma recomendação para publicar diretamente um CGI antigo na Internet atual.

O alerta de segurança de 1995

Os apresentadores também discutiram riscos de segurança.

Melinda Varian destacou o cuidado necessário com a instrução INTERPRET.

Em REXX, INTERPRET permite executar uma string como instruções da linguagem.

Imagine receber um texto de um usuário externo e executá-lo diretamente.

Se o conteúdo não for confiável, o resultado poderá ser extremamente perigoso.

A mesma categoria de problema aparece em outras linguagens quando desenvolvedores utilizam recursos equivalentes a eval com entradas não confiáveis.

Lição de segurança: nunca transforme dados fornecidos por usuários em comandos executáveis sem controles rigorosos.

Evitar a execução dinâmica de conteúdo externo costuma ser a abordagem mais segura.

Em sistemas empresariais, valide dados, restrinja permissões e utilize interfaces estruturadas.

Esse aviso já estava presente em 1995.

Os piratas digitais não nasceram ontem.

11. Episódio 10 — O grande segredo: REXX e a preservação dos sistemas legados

Uma das mensagens mais importantes do simpósio não estava relacionada a uma funcionalidade específica.

Era a preocupação com a continuidade tecnológica.

Melinda Varian registrou o receio de que a transferência da equipe de desenvolvimento provocasse perda de conhecimento.

Mike Cowlishaw explicou como a linguagem havia evoluído graças ao retorno de seus usuários.

Os participantes demonstraram interesse em manter a compatibilidade e ampliar a presença do REXX.

Tudo isso revela uma realidade que permanece fundamental nos ambientes mainframe.

Sistemas empresariais são construídos por pessoas.

Programas sobrevivem décadas porque equipes os mantêm, documentam, corrigem e adaptam.

Um sistema COBOL de 1985 pode continuar útil em 2026.

Mas sua manutenção dependerá de profissionais capazes de compreender tanto o código quanto as regras de negócio.

A idade do programa, isoladamente, não determina sua qualidade.

O que importa é sua confiabilidade, segurança, documentação, desempenho, suporte e capacidade de evolução.

Dica prática: seja um arqueólogo de código

Quando receber a missão de analisar um programa COBOL desconhecido, não comece alterando instruções.

Primeiro, investigue a estrutura.

Procure o PROGRAM-ID.

Identifique arquivos no FILE-CONTROL.

Examine os registros na FILE SECTION.

Observe variáveis na WORKING-STORAGE SECTION.

Localize o início do processamento na PROCEDURE DIVISION.

Procure instruções CALL, READ, WRITE, REWRITE, START e EXEC SQL.

Depois, construa um mapa das dependências.

Somente então prepare testes.

Se houver REXX associado ao processo, examine o que ele automatiza.

Se houver JCL, identifique o fluxo dos jobs.

Se houver CICS, investigue as transações, programas e recursos envolvidos.

Essa metodologia permite compreender o sistema antes de modificá-lo.

12. Episódio 11 — Um pequeno laboratório de automação

Vamos criar um segundo exemplo REXX.

Desta vez, nosso objetivo será validar dados numéricos antes de realizar um cálculo.

/* BELLVAL - VALIDACAO SIMPLES */

saldo = "1500.00"
deposito = "250.00"
saque = "100.00"

if \datatype(saldo, "N") |
   \datatype(deposito, "N") |
   \datatype(saque, "N") then do

   say "ERRO: VALOR NAO NUMERICO"
   exit 8
end

saldoFinal = saldo + deposito - saque

say "SALDO INICIAL:" saldo
say "DEPOSITO:" deposito
say "SAQUE:" saque
say "SALDO FINAL:" saldoFinal

exit 0

A função DATATYPE verifica características de um valor.

Com o argumento "N", podemos testar se o conteúdo corresponde a uma representação numérica aceita pelo interpretador.

O operador \ representa negação lógica.

O operador | representa OU lógico.

A estrutura IF ... THEN DO ... END permite executar várias instruções quando uma condição é verdadeira.

Esse exemplo é apenas uma validação introdutória.

Para operações financeiras reais, também seria necessário verificar escala decimal, limites, valores negativos, regras monetárias e consistência empresarial.

Exercício para o leitor

Modifique o programa para que o saque seja maior do que o saldo disponível.

Depois acrescente uma condição impedindo que o saldo fique negativo.

Uma possível solução é:

if saque > saldo + deposito then do
   say "ERRO: SALDO INSUFICIENTE"
   exit 12
end

Repare que agora estamos aproximando um script simples de uma regra de negócio.

É exatamente nesse ponto que o programador precisa pensar na responsabilidade de cada componente.

Uma validação feita em REXX não deve substituir os controles obrigatórios da aplicação COBOL que efetivamente processa a transação.

A segurança e a integridade devem ser garantidas no componente responsável pela operação.

13. Episódio 12 — Easter eggs e curiosidades do simpósio

Toda boa aventura possui seus segredos.

E o encontro de 1995 preservou alguns detalhes deliciosos para quem gosta da história da computação.

Easter egg 1 — A letra X de um milhão de dólares

Segundo Cowlishaw, a mudança do nome REX para REXX teria provocado custos internos estimados em aproximadamente um milhão de dólares.

O motivo envolvia atualizações de documentação e materiais já existentes.

Uma simples letra.

Um milhão de dólares.

É o tipo de história que demonstra como pequenas mudanças podem produzir enormes efeitos em ambientes corporativos.

Easter egg 2 — A mudança que quebrou milhões de programas

Cowlishaw também mencionou que a alteração de ARGS para ARG teria afetado aproximadamente 2,5 milhões de programas.

Essa quantidade era uma estimativa histórica apresentada pelo próprio criador da linguagem.

Para o programador COBOL iniciante, a lição é clara.

Alterar uma interface utilizada por outros sistemas pode produzir consequências muito maiores do que modificar uma variável local.

Compatibilidade é um patrimônio.

Easter egg 3 — O criador reconheceu os próprios erros

Cowlishaw comentou decisões que reconsideraria.

Entre elas estavam as comparações sensíveis a maiúsculas e minúsculas, o uso de DO em diferentes estruturas e a complexidade do mecanismo de parsing.

Essa atitude merece destaque.

Reconhecer limitações de projeto é uma qualidade importante de engenharia.

O fato de uma linguagem possuir milhões de usuários não significa que todas as escolhas originais tenham sido perfeitas.

Easter egg 4 — Perl virou motivo de brincadeira

Melinda Varian registrou uma piada em que Perl foi comparado ao REXX escrito apenas com caracteres especiais.

É uma brincadeira relacionada à conhecida densidade sintática de certas construções em Perl.

A curiosidade revela como as comunidades de programação já discutiam legibilidade, produtividade e estilos de linguagem.

Easter egg 5 — Os exemplos eram distribuídos em disquete

O simpósio começou com tutoriais apresentados por Chip Davis.

Os programas demonstrados foram disponibilizados no disquete do evento.

Hoje compartilhamos exemplos por repositórios digitais e plataformas de colaboração.

Naquela época, um pequeno disco magnético transportava parte do conhecimento técnico da conferência.

Easter egg 6 — Um problema real com ASCII, EBCDIC e PostScript

No final do relatório, Melinda Varian incluiu um exemplo de REXX e CMS Pipelines para processar um arquivo PostScript relacionado à proposta do padrão ANSI.

O arquivo apresentava diferenças nas terminações de linha e exigia conversões de caracteres.

A autora utilizou recursos de pipelines, conversão ASCII/EBCDIC e separação do documento em partes.

Esse trecho demonstra algo valioso: REXX também era uma ferramenta prática para resolver problemas de interoperabilidade entre sistemas.

Quem trabalha com mainframe conhece a importância de compreender codificações, formatos de registros e convenções de armazenamento.

Um arquivo aparentemente simples pode se tornar um quebra-cabeça quando atravessa plataformas.

14. Episódio 13 — O que o iniciante deve estudar depois dessa viagem?

A melhor maneira de aproveitar essa história é transformá-la em conhecimento prático.

Proponho uma trilha de estudos organizada em sete missões.

Missão 1 — COBOL básico. Aprenda a estrutura de um programa, campos PIC, instruções MOVE, DISPLAY, COMPUTE, IF, EVALUATE e PERFORM.

Missão 2 — JCL. Compreenda JOB, EXEC, DD, bibliotecas de carga, datasets, condições de execução e códigos de retorno.

Missão 3 — TSO/ISPF. Aprenda a navegar por bibliotecas, editar membros e localizar programas e jobs.

Missão 4 — REXX. Estude SAY, PARSE, IF, DO, DATATYPE, ADDRESS e o tratamento da variável RC.

Missão 5 — SDSF. Aprenda a consultar a execução de jobs, examinar saídas e interpretar mensagens.

Missão 6 — CICS e Db2. Conheça os fundamentos das aplicações transacionais e dos dados relacionais.

Missão 7 — Automação segura. Construa utilitários pequenos, documentados e testados para reduzir tarefas repetitivas.

O importante é não tentar aprender tudo simultaneamente.

Domine um fundamento.

Pratique.

Cometa erros em um ambiente autorizado de laboratório.

Leia as mensagens.

Corrija.

Depois avance.

Um programador não se torna experiente apenas assistindo a demonstrações.

Ele precisa executar, investigar e compreender.

15. Episódio 14 — O legado de 1995 em 2026

Trinta e um anos se passaram desde o simpósio.

O mercado de computação mudou profundamente.

A Internet se tornou infraestrutura essencial.

Linux passou a ocupar um lugar central em servidores e ambientes corporativos.

Serviços distribuídos, APIs, contêineres, computação em nuvem e inteligência artificial transformaram a maneira como construímos sistemas.

Mas COBOL continua presente em aplicações empresariais importantes.

REXX ainda é utilizado para automação em ambientes IBM Z.

JCL permanece essencial em muitos fluxos batch.

CICS e Db2 continuam associados a aplicações críticas.

Isso não significa que todos os planos apresentados em 1995 tenham se concretizado.

Alguns produtos evoluíram.

Outros perderam espaço.

Algumas arquiteturas foram substituídas por soluções diferentes.

O ponto importante é que a necessidade de integrar sistemas, preservar conhecimento e automatizar operações não desapareceu.

Ela apenas ganhou novas ferramentas.

Hoje podemos utilizar REXX para tarefas tradicionais, Python para automações externas, Zowe para interação com recursos z/OS, APIs para integração e ferramentas de DevOps para organizar entregas.

Cada tecnologia precisa ser avaliada conforme o ambiente, a segurança, o suporte e os objetivos do projeto.

A lição do simpósio é que modernização não começou com a computação em nuvem.

Ela já era uma preocupação concreta dos desenvolvedores de mainframe em 1995.

16. Episódio final — O último café da Bebop

Nossa nave retorna ao presente.

Spike Spiegel observa um antigo terminal.

Na tela, um programa COBOL apresenta seu resultado.

Ao lado, um pequeno exec REXX automatiza uma tarefa.

No spool do JES, um job termina normalmente.

Nada parece extraordinário.

Entretanto, cada componente carrega décadas de decisões arquiteturais, aprendizagem e engenharia.

O REXX nasceu da vontade de tornar a programação mais acessível.

O COBOL consolidou-se como instrumento fundamental para representar e executar regras empresariais.

O JCL organizou a execução de trabalhos.

O CICS ajudou a construir ambientes transacionais.

E os profissionais que desenvolveram essas tecnologias enfrentaram muitos dos mesmos problemas que encontramos hoje: produtividade, interoperabilidade, documentação, segurança e preservação do conhecimento.

O simpósio de 1995 nos ensina que o futuro raramente surge completamente separado do passado.

Muitas vezes ele nasce de uma melhoria aparentemente pequena, de uma necessidade operacional ou de uma ideia discutida entre programadores.

Como na jornada de Spike Spiegel, cada missão deixa alguma coisa para trás.

Algumas decisões não podem ser desfeitas.

Alguns erros continuam presentes.

Mas há sempre uma nova oportunidade para compreender melhor o sistema e construir uma solução mais elegante.

Para o novo programador COBOL, fica uma última recomendação.

Não trate o mainframe como uma caixa-preta.

Abra os manuais.

Leia os programas.

Experimente REXX.

Entenda JCL.

Investigue os jobs.

Aprenda com os profissionais que vieram antes.

E, quando encontrar um programa escrito há trinta ou quarenta anos, lembre-se de que alguém precisou imaginar, desenvolver, testar e colocar aquele código em produção.

Um sistema legado não é apenas um programa antigo. É uma história que continua sendo executada.

Até a próxima missão.

See you, Space Cowboy…


Referências históricas

  1. Melinda Varian — REXX Symposium, May 1995. Relatório do Sexto Simpósio Internacional de REXX, publicado em 1995.
    https://www.rexxla.org/events/1995/report.html

  2. Proceedings of the 6th International REXX Symposium. SLAC-R-95-464, Stanford Linear Accelerator Center.
    https://www.slac.stanford.edu/pubs/slacreports/reports21/slac-r-464.pdf

  3. Mike Cowlishaw — REXX 1995: The Growth of a Language. Apresentação histórica sobre as origens e a evolução do REXX, incluída nos anais do simpósio.

  4. REXX Language Association — Arquivo de apresentações históricas.
    https://www.rexxla.org/events/presentation.rsp

Nota editorial: os personagens e as situações envolvendo Spike Spiegel e a nave Bebop constituem uma homenagem narrativa a Cowboy Bebop. Não representam acontecimentos reais do simpósio. Os programas didáticos foram elaborados para este artigo, e não extraídos literalmente das apresentações históricas. Os números de mercado, previsões de lançamento e estimativas de produtividade são apresentados no contexto em que foram relatados em 1995.


Bellacosa Mainframe
Preservando o passado, compreendendo o presente e programando o futuro.

See you, Mainframe Cowboy…

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

☕ ALAN TURING ENTRA NO CPD — O MAPA DOS AGENTES DE IA EXPLICADO POR UM MAINFRAMER

 


☕ UM CAFÉ NO BELLACOSA MAINFRAME

☕ ALAN TURING ENTRA NO CPD — O MAPA DOS AGENTES DE IA EXPLICADO POR UM MAINFRAMER

De currículo invisível, PF3 e SDSF até WLM, JES2, CICS, Db2, MQ e IMS — nove conversas sobre agentes de inteligência artificial que acabaram revelando que alguns dos problemas mais modernos da computação possuem parentes muito antigos.



🎬 PRÓLOGO — EU NÃO ESTAVA ESCREVENDO UMA SÉRIE

Existe uma coisa curiosa em escrever durante muitos anos.

Às vezes você pensa que está escrevendo artigos independentes.

Um assunto aparece.

Você investiga.

Escreve.

Publica.

Toma outro café.

Algumas semanas depois aparece outra pergunta.

Outro artigo.

Outro café.

Até que um dia você olha para trás e percebe:

Espere um pouco...

Esses textos estão conversando entre si.

Foi exatamente o que aconteceu com uma sequência de artigos que comecei a construir usando Alan Turing como nosso visitante imaginário dentro de um CPD.

No começo, a pergunta parecia relativamente simples:

Como devemos preparar pessoas para trabalhar com inteligência artificial?

Depois apareceu outra:

Como será a interface de um agente que não apenas responde, mas executa ações?

E outra:

Como descobriremos o que esse agente está fazendo?

Depois:

Quem decide qual agente é mais importante?

Quem coloca o trabalho para executar?

Como controlamos uma transação?

Onde guardamos o estado?

Como agentes conversam sem depender uns dos outros?

Como organizamos memória e contexto?

Quando percebi, Alan Turing já estava andando pelo corredor do CPD acompanhado de alguns velhos conhecidos:

ISPF
SDSF
WLM
JES2
CICS
Db2
MQ
IMS

E foi aí que apareceu a hipótese que une esta série inteira:

Talvez alguns dos problemas que estamos descobrindo agora nos agentes de IA sejam novos em implementação, escala e comportamento — mas não necessariamente novos como problemas de engenharia.

O mainframe passou décadas resolvendo problemas como:

IDENTIDADE
AUTORIZAÇÃO
EXECUÇÃO
PRIORIDADE
OBSERVABILIDADE
TRANSAÇÃO
ESTADO
MENSAGERIA
RECUPERAÇÃO
AUDITORIA
CONCORRÊNCIA
DEPENDÊNCIAS

Naturalmente:

JES2 não é um framework de agentes.

SDSF não é observabilidade de LLM.

WLM não é um scheduler de prompts.

CICS não é LangGraph.

Db2 não é memória de IA.

MQ não é protocolo mágico entre agentes.

IMS não foi inventado para armazenar a infância digital de um robô.

😂

A comparação é conceitual.

E justamente por isso ela é tão interessante.

Este artigo é o mapa dessa viagem.



🧠 CAPÍTULO 1 — O CURRÍCULO INVISÍVEL DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Antes de construir o agente, precisamos construir quem vai trabalhar com ele

👉 ALAN TURING E O CURRÍCULO INVISÍVEL DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Nossa viagem começa antes da arquitetura.

Começa nas pessoas.

Existe uma tentação enorme diante de qualquer revolução tecnológica:

NOVA TECNOLOGIA
      ↓
NOVO CURSO
      ↓
NOVA FERRAMENTA
      ↓
CERTIFICADO
      ↓
PRONTO

Mas nunca foi tão simples.

Quem viveu várias gerações da informática sabe disso.

Aprender COBOL não significava apenas conhecer:

MOVE
PERFORM
IF
EVALUATE

O programador acabava aprendendo silenciosamente muitas outras coisas:

  • decomposição de problemas;

  • leitura de documentação;

  • disciplina operacional;

  • análise de impacto;

  • debugging;

  • responsabilidade sobre dados;

  • relacionamento com usuários;

  • conhecimento do negócio;

  • avaliação de riscos.

Existe, portanto, um currículo formal e outro quase invisível.

Com IA acontece algo semelhante.

Prompt engineering pode ser útil.

Conhecer modelos também.

Mas trabalhar seriamente com IA começa a exigir algo muito maior:

IA
│
├── pensamento crítico
├── validação
├── segurança
├── privacidade
├── conhecimento de domínio
├── avaliação de resultados
├── automação
├── ética
├── governança
└── capacidade de perguntar

Este primeiro artigo estabelece o fundamento humano da série.

Antes de perguntar:

O que o agente pode fazer?

precisamos perguntar:

Quem saberá dizer se aquilo que ele fez está correto?

Esse detalhe acompanhará todos os capítulos seguintes.



🤖 CAPÍTULO 2 — A UX DOS AGENTES

Quando PF3 voltou para salvar a inteligência artificial

👉 ALAN TURING E A UX DOS AGENTES — QUANDO PF3, MAXCC E RACF VOLTARAM PARA SALVAR A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Então demos autonomia à máquina.

E imediatamente apareceu outro problema.

Um chatbot responde.

Um agente age.

Essa diferença parece pequena até colocarmos ferramentas nas mãos dele.

Imagine:

USUÁRIO
   ↓
OBJETIVO
   ↓
AGENTE
   ├── consulta arquivos
   ├── chama API
   ├── pesquisa banco
   ├── altera documento
   ├── envia mensagem
   └── executa processo

De repente a interface precisa responder perguntas que o velho chatbot não precisava responder:

O QUE ESTÁ FAZENDO?

POR QUE ESTÁ FAZENDO?

QUAL ETAPA ESTÁ EXECUTANDO?

POSSO PARAR?

POSSO DESFAZER?

QUEM AUTORIZOU?

O QUE JÁ FOI ALTERADO?

E eis que aparece nosso velho amigo:

PF3

O PF3 torna-se uma metáfora perfeita para interruptibilidade.

O artigo também traz RACF para a conversa por meio do princípio de menor privilégio.

Se um agente precisa ler relatórios:

READ

por que entregar:

ALTER
DELETE
CONTROL

?

Não entregue uma bazuca para matar um mosquito.

E jamais resolva problemas de autorização usando a filosofia:

DÊ ACESSO A TUDO
       ↓
DEPOIS A GENTE VÊ

Quatro décadas de segurança corporativa já ensinaram como essa história termina.

O capítulo estabelece uma nova regra:

Autonomia sem controle não é sofisticação. É risco operacional.



🔭 CAPÍTULO 3 — O SDSF DOS AGENTES

Não basta o robô trabalhar. Precisamos enxergar o que está acontecendo.

👉 ALAN TURING E O SDSF DOS AGENTES — O QUE DIABOS O ROBÔ ESTÁ FAZENDO?

Agora o agente está trabalhando.

Maravilha.

Só existe uma pequena pergunta:

O que ele está fazendo?

Quem trabalhou com batch conhece uma rotina quase instintiva:

SUBMIT
  ↓
SDSF
  ↓
ST
  ↓
JOB
  ↓
OUTPUT

Não ficamos olhando para o terminal durante quinze minutos vendo:

Working...

Queremos estado.

Queremos evidência.

Queremos saber onde o processamento está.

A documentação da IBM confirma exatamente essa função histórica do SDSF: monitorar e controlar processamento, visualizar jobs e seus outputs e permitir ações como hold, release e cancel.

Transportando o princípio para agentes:

AGENTE FINANCEIRO

OBJETIVO:
Consolidar relatório mensal

STATUS:
Executando

ETAPA 1 — localizar arquivos       OK
ETAPA 2 — validar período          OK
ETAPA 3 — consultar Db2            OK
ETAPA 4 — reconciliar valores      RUNNING
ETAPA 5 — gerar relatório          WAITING
ETAPA 6 — enviar relatório         APPROVAL

Esse talvez seja um dos conceitos mais importantes da série.

Autonomia aumenta a necessidade de observabilidade.

Quanto menos diretamente o humano controla cada passo, mais importante se torna enxergar o estado da execução.



⚖️ CAPÍTULO 4 — O WLM DOS AGENTES

Quando descobrimos que nem todo trabalho possui a mesma importância

👉 ALAN TURING E O WLM DOS AGENTES

Agora temos outro problema.

Imagine mil agentes querendo trabalhar simultaneamente.

Um está:

resumindo newsletter

Outro:

processando fraude bancária

Outro:

gerando imagem

Outro:

atendendo cliente VIP

Outro:

fechando folha de pagamento

Todos deveriam receber os mesmos recursos?

Evidentemente não.

Bem-vindo ao velho problema de workload management.

No z/OS, WLM trabalha justamente com classes de serviço, metas de desempenho e importância relativa do trabalho. Quando todos os objetivos não podem ser satisfeitos simultaneamente, essa importância participa das decisões de gerenciamento dos recursos.

Nos agentes podemos imaginar:

AGENT WORKLOAD
│
├── CRITICAL
│   └── fraude
│
├── HIGH
│   └── atendimento
│
├── NORMAL
│   └── relatórios
│
└── DISCRETIONARY
    └── indexação histórica

E aparece outra ideia fundamental:

Agentes competirão por recursos.

Tokens custam.

GPU custa.

CPU custa.

APIs possuem limites.

Bancos possuem capacidade.

Pessoas disponíveis para aprovação humana também são um recurso limitado.

O problema deixa de ser:

O agente consegue executar?

e passa a ser:

Qual trabalho merece recursos primeiro?

Alan Turing acaba de conhecer o WLM.



🏭 CAPÍTULO 5 — O JES2 DOS AGENTES

Alguém precisa receber, organizar e despachar o trabalho

👉 ALAN TURING E O JES2 DOS AGENTES

Temos prioridades.

Temos recursos.

Temos agentes.

Agora alguém precisa organizar a bagunça.

No mundo batch, JES recebe jobs, mantém trabalhos em filas, encaminha jobs para execução e administra seus outputs. É exatamente assim que a própria documentação introdutória do z/OS descreve suas funções fundamentais.

Conceitualmente:

SUBMISSÃO
    ↓
  FILA
    ↓
CLASSIFICAÇÃO
    ↓
DESPACHO
    ↓
EXECUÇÃO
    ↓
 RESULTADO

Agora substitua JOB por TASK:

TASK-8472
OBJETIVO = analisar contratos
PRIORIDADE = HIGH
AGENTE = LEGAL-07
STATUS = WAITING

Começamos a perceber que um ecossistema corporativo de agentes precisará responder:

Quem recebeu a tarefa?

Onde ela está?

Quem executará?

Está esperando?

Está rodando?

Falhou?

Pode reiniciar?

Existe dependência?

Qual resultado produziu?

Não significa transformar JES2 em orquestrador de LLM.

Significa reconhecer que gerenciamento do ciclo de vida do trabalho é um problema antigo.


⚡ CAPÍTULO 6 — O CICS DOS AGENTES

Quando inteligência encontra transação

👉 ALAN TURING E O CICS DOS AGENTES

Até aqui nossos agentes estavam realizando trabalho.

Mas empresas não vivem apenas de trabalho.

Vivem de transações.

Comprar.

Vender.

Reservar.

Cancelar.

Transferir.

Atualizar.

Consultar.

Registrar.

CICS existe justamente no universo de processamento transacional. Uma transação dispara programas associados, pode envolver diversos programas e recursos, e muitas instâncias podem executar concorrentemente.

Agora imagine um agente recebendo:

Resolva o problema deste cliente.

Ele talvez precise:

CONSULTAR PEDIDO
      ↓
CONSULTAR PAGAMENTO
      ↓
VALIDAR ENTREGA
      ↓
CALCULAR CRÉDITO
      ↓
ATUALIZAR CADASTRO

Não estamos mais falando apenas de linguagem.

Estamos mexendo no estado real do negócio.

Aqui surge uma fronteira essencial:

PENSAR
≠
AGIR

e:

GERAR UMA RESPOSTA
≠
EXECUTAR UMA TRANSAÇÃO

Quando um agente atravessa essa fronteira, entram em cena concorrência, integridade, autorização, recuperação e consistência.

O simpático chatbot acabou de entrar em produção.

Agora a brincadeira ficou séria.


🗄️ CAPÍTULO 7 — O DB2 DOS AGENTES

Quando o agente descobriu que memória também precisa de COMMIT

👉 ALAN TURING E O DB2 DOS AGENTES

Um agente sem estado vive eternamente no presente.

Para realizar trabalhos complexos ele precisa guardar coisas.

Por exemplo:

objetivos
tarefas
resultados
aprovações
clientes
documentos
eventos
checkpoints
estado do workflow

Mas guardar informação introduz um problema:

Quando uma mudança se torna definitiva?

O velho Db2 imediatamente levanta a mão.

No Db2, uma unidade de trabalho representa uma sequência recuperável de operações; COMMIT confirma as mudanças e ROLLBACK pode desfazer alterações ainda não confirmadas.

Isso produz uma analogia poderosa para agentes.

Imagine:

LER
 ↓
ANALISAR
 ↓
PROPOR ALTERAÇÃO
 ↓
VALIDAR
 ↓
APROVAÇÃO
 ↓
COMMIT

Se algo falhar:

ROLLBACK

Mas existe uma pegadinha deliciosa.

Nem tudo no mundo possui rollback.

Se o agente:

ENVIAR EMAIL

não existe:

ROLLBACK EMAIL

que retire a mensagem da cabeça de quem leu.

😂

Portanto sistemas de agentes precisam distinguir ações reversíveis de ações irreversíveis.

O Db2 nos ensina algo maior que SQL:

Estado precisa possuir fronteiras de consistência.


📨 CAPÍTULO 8 — O MQ DOS AGENTES

Mensagem enviada não significa destinatário disponível

👉 ALAN TURING E O MQ DOS AGENTES — MENSAGEM ENVIADA NÃO SIGNIFICA CONVERSA SÍNCRONA

Então nossos agentes começaram a conversar.

E imediatamente alguém inventou:

AGENTE A
   ↓
AGENTE B
   ↓
AGENTE C

Parece maravilhoso.

Até o agente B ficar indisponível.

Ou lento.

Ou ocupado.

Ou reiniciar.

Ou o agente C morar em outro ambiente.

É exatamente aqui que décadas de mensageria corporativa começam a parecer extremamente atuais.

IBM MQ permite que aplicações se comuniquem através de mensagens e filas, inclusive executando em momentos, velocidades e locais diferentes. Produtor e consumidor podem ficar desacoplados.

Portanto:

AGENTE A
   ↓
 MENSAGEM
   ↓
  FILA
   ↓
AGENTE B

A existência da fila muda completamente a arquitetura.

O produtor não precisa necessariamente ficar parado olhando para o consumidor.

Podemos construir sistemas:

ASSÍNCRONOS
RESILIENTES
DESACOPLADOS
DISTRIBUÍDOS

Mas surgem novos problemas:

ordenação
duplicidade
correlação
persistência
retry
dead letter
idempotência
timeout

A IBM também documenta que filas mantêm mensagens até que aplicações possam recuperá-las e que consumidores e produtores podem operar desacoplados.

De repente, multiagentes deixam de parecer uma reunião de robôs conversando.

Começam a parecer...

sistemas distribuídos.

Bem-vindo ao inferno.

Tem café na entrada.


🌳 CAPÍTULO 9 — O IMS DOS AGENTES

Quando Alan Turing descobriu que encontrar um filho é fácil se você souber quem é o pai

👉 ALAN TURING E O IMS DOS AGENTES — QUANDO O MUNDO VIROU UMA ÁRVORE

Finalmente chegamos ao IMS.

E aparece uma pergunta fascinante:

Toda memória precisa ser representada como tabela?

Não.

IMS trabalha historicamente com modelo hierárquico.

Temos relações:

ROOT
 │
 ├── CHILD
 │     ├── CHILD
 │     └── CHILD
 │
 └── CHILD

Na terminologia oficial do IMS, segmentos possuem relações parent/child; um segmento pode inclusive ser filho de um segmento e pai de outro.

Isso oferece uma metáfora extraordinariamente útil para determinados tipos de contexto de agentes.

Imagine:

CLIENTE
│
├── PEDIDOS
│   ├── PEDIDO 8472
│   │   ├── ITENS
│   │   ├── PAGAMENTO
│   │   └── ENTREGA
│   └── PEDIDO 9011
│
├── CONTRATOS
│
└── ATENDIMENTOS

Contexto frequentemente possui relações naturais.

A própria IBM explica uma diferença fundamental: numa base hierárquica IMS, segmentos ao longo de um caminho hierárquico já possuem relações implícitas com pais e filhos, enquanto no modelo relacional relacionamentos normalmente são construídos explicitamente por joins.

Isso não significa:

Vamos substituir vector databases por IMS!

Calma.

😂

A lição é mais interessante:

A forma como representamos conhecimento influencia profundamente a maneira como conseguimos navegar por ele.

E assim chegamos da execução à memória.


🗺️ CAPÍTULO 10 — AGORA OLHE PARA O MAPA INTEIRO

Depois dos nove artigos, podemos finalmente enxergar a arquitetura escondida.

┌───────────────────────────────────────┐
│       CURRÍCULO INVISÍVEL             │
│ Quem está preparado para trabalhar?   │
└──────────────────┬────────────────────┘
                   ↓
┌───────────────────────────────────────┐
│          UX / PF3 / RACF              │
│ Como controlar autonomia?             │
└──────────────────┬────────────────────┘
                   ↓
┌───────────────────────────────────────┐
│               SDSF                    │
│ O que está acontecendo?               │
└──────────────────┬────────────────────┘
                   ↓
┌───────────────────────────────────────┐
│                WLM                    │
│ Qual trabalho é mais importante?      │
└──────────────────┬────────────────────┘
                   ↓
┌───────────────────────────────────────┐
│               JES2                    │
│ Quem recebe e despacha o trabalho?    │
└──────────────────┬────────────────────┘
                   ↓
┌───────────────────────────────────────┐
│               CICS                    │
│ Como executar ações de negócio?       │
└──────────────────┬────────────────────┘
                   ↓
┌───────────────────────────────────────┐
│               Db2                     │
│ Como manter estado consistente?       │
└──────────────────┬────────────────────┘
                   ↓
┌───────────────────────────────────────┐
│                MQ                     │
│ Como componentes conversam?           │
└──────────────────┬────────────────────┘
                   ↓
┌───────────────────────────────────────┐
│               IMS                     │
│ Como organizar e navegar contexto?    │
└───────────────────────────────────────┘

Agora a série revela algo que talvez não estivesse completamente evidente quando escrevemos o primeiro artigo.

Não estamos mais discutindo simplesmente:

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Estamos discutindo:

SISTEMAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Essa diferença é gigantesca.


🧩 CAPÍTULO 11 — O AGENTE DEIXOU DE SER O CENTRO

Durante algum tempo olhamos para IA assim:

PROMPT
  ↓
LLM
  ↓
RESPOSTA

Só que um sistema corporativo real começa a parecer muito mais com:

                    USUÁRIO
                       │
                       ↓
                   OBJETIVO
                       │
                       ↓
                 ORQUESTRADOR
                       │
        ┌──────────────┼──────────────┐
        ↓              ↓              ↓
     AGENTE A       AGENTE B       AGENTE C
        │              │              │
        └──────────────┼──────────────┘
                       ↓
                    TOOLS
        ┌──────────────┼──────────────┐
        ↓              ↓              ↓
       DB             MQ             API
        │
        ↓
      ESTADO

E ao redor disso precisamos:

IDENTIDADE
AUTORIZAÇÃO
OBSERVABILIDADE
AUDITORIA
PRIORIZAÇÃO
RECUPERAÇÃO
LIMITES
CHECKPOINTS
APROVAÇÕES
MENSAGERIA
TRANSAÇÕES

O LLM continua importante.

Mas ele passa a ser um componente da arquitetura.

Essa talvez seja a evolução mais importante de toda a série.


🧙 CAPÍTULO 12 — TURING FAZ A PERGUNTA ERRADA

Alan Turing olha para nosso jovem programador COBOL.

E pergunta:

— Então finalmente construímos uma máquina que pensa?

O programador olha para o CPD.

Olha para:

SDSF
WLM
JES2
CICS
DB2
MQ
IMS

Depois olha para o pequeno agente trabalhando no terminal.

E responde:

— Não sei.

Turing fica surpreso.

— Depois de tudo isso?

— Talvez a pergunta tenha mudado.

— Como assim?

O programador pega uma caneta.

E escreve no quadro:

CAN MACHINES THINK?

Risca.

Embaixo escreve:

CAN MACHINES WORK
SAFELY,
RELIABLY,
OBSERVABLY
AND
RESPONSIBLY?

Turing olha.

Sorri.


🦖 CAPÍTULO 13 — O MAINFRAME NÃO PREVIU A IA

E precisamos deixar uma coisa muito clara.

O mainframe não previu os LLMs.

JES2 não é ancestral tecnológico direto de agentes.

WLM não administra pensamentos.

CICS não executa raciocínio.

Db2 não possui consciência.

MQ não faz robôs fofinhos conversarem.

IMS não é cérebro artificial.

O valor da comparação está em outro lugar.

Durante décadas sistemas corporativos precisaram responder:

Quem pode executar?

O que pode executar?

Quando executará?

Com qual prioridade?

Sobre quais recursos?

Como sabemos que terminou?

O que acontece quando falha?

Como desfazemos mudanças?

Como componentes se comunicam?

Como reconstruímos o que aconteceu?

Essas perguntas reaparecem quando agentes deixam o laboratório e começam a operar sistemas reais.

Não copiamos a solução.

Reaproveitamos o conhecimento de engenharia.


🥚 EASTER EGG — O PROGRAMA QUE JÁ ESTAVA RODANDO

Turing caminha até o último terminal do CPD.

Na tela existe apenas:

READY

Ele digita:

WHO

A máquina responde:

TURING

Ele pergunta:

STATUS

Resposta:

ACTIVE

Turing sorri.

— Interessante.

O programador COBOL pergunta:

— O quê?

— Passamos nove capítulos tentando descobrir como controlar agentes inteligentes.

— Sim.

Turing aponta para o CPD.

— E vocês passaram cinquenta anos construindo sistemas para controlar humanos, programas, jobs, transações e mensagens.

Silêncio.

O operador do outro lado da sala grita:

— JOB ABENDOU!

Turing pergunta:

— S0C7?

— S0C7!

Turing pega seu café.

— Algumas coisas realmente nunca mudam.

😂


☕ EPÍLOGO — TALVEZ O FUTURO TENHA CHEIRO DE CPD

Existe uma tendência natural na tecnologia de acreditar que tudo começou ontem.

Cada nova geração cria novas palavras.

Novos frameworks.

Novos diagramas.

Novas abstrações.

E muitas delas realmente representam avanços extraordinários.

Mas engenharia também possui memória.

Quando vejo agentes de IA discutindo:

orchestration
observability
workload
state
messaging
transactions
authorization
checkpoints
recovery

é impossível para quem viveu mainframe não sentir um estranho déjà-vu.

Não porque sejam as mesmas tecnologias.

Não são.

Mas porque computadores continuam enfrentando alguns problemas fundamentais:

TRABALHO PRECISA SER ORGANIZADO.

RECURSOS SÃO FINITOS.

ESTADO PRECISA SER PROTEGIDO.

FALHAS ACONTECEM.

MENSAGENS SE PERDEM.

SISTEMAS FICAM INDISPONÍVEIS.

USUÁRIOS COMETEM ERROS.

PROGRAMAS COMETEM ERROS.

AUTOMAÇÃO AMPLIFICA ERROS.

E agora acrescentamos uma criatura nova:

AGENTES PODEM ESCOLHER A PRÓXIMA AÇÃO.

Isso muda muita coisa.

Mas não apaga setenta anos de engenharia de sistemas.

Talvez faça justamente o contrário.

Torne esse conhecimento ainda mais valioso.

Por isso esta série não é apenas sobre Alan Turing.

Não é apenas sobre mainframe.

E nem sequer é apenas sobre inteligência artificial.

É sobre algo muito mais antigo:

COMO CONSTRUÍMOS SISTEMAS NOS QUAIS PODEMOS CONFIAR?

Começamos ensinando pessoas.

Depois demos autonomia à máquina.

Criamos formas de observá-la.

Priorizamos seu trabalho.

Organizamos suas filas.

Controlamos suas transações.

Protegemos seu estado.

Permitimos que conversasse com outros sistemas.

Finalmente começamos a organizar sua memória.

E talvez este seja apenas o começo.

Porque no fundo do CPD existe uma porta.

Turing acabou de encontrá-la.

Na porta existe uma pequena placa:

AGENTS
AUTHORIZED PERSONNEL ONLY

Ele olha para nós.

— Vamos?

O programador COBOL suspira.

Salva tudo.

Confere o spool.

E responde:

— Só depois do café.

☕

Bellacosa Mainframe

☕ UM CAFÉ NO BELLACOSA MAINFRAME

🤖 Alan Turing entra no CPD

O mapa dos agentes de IA explicado por um mainframer

Esta série acompanha a evolução de uma ideia: compreender os problemas modernos dos agentes de inteligência artificial usando conceitos conhecidos por quem trabalha com mainframe, IBM Z e sistemas corporativos.

A viagem começa pelas pessoas e pela experiência de uso, passa por observabilidade, priorização e execução, chega às transações, estado e mensageria e termina na organização hierárquica do contexto.

01
FEV / 2023

🧠 O currículo invisível da inteligência artificial

Antes de construir agentes inteligentes precisamos preparar as pessoas que trabalharão com eles. Técnica, pensamento crítico, conhecimento de negócio, segurança, ética e responsabilidade formam o currículo que nem sempre aparece no certificado.

02
MAR / 2023

🤖 A UX dos agentes

Quando uma IA deixa de apenas responder e começa a executar ações, sua interface precisa mostrar objetivos, progresso, permissões e resultados. PF3, MAXCC e RACF tornam-se excelentes analogias para controle, retorno e privilégio mínimo.

04
MAI / 2023

⚖️ O WLM dos agentes

CPU, GPU, tokens, APIs e bancos de dados são recursos finitos. O Workload Manager inspira uma discussão sobre prioridades, objetivos de serviço, importância do trabalho e distribuição dinâmica de recursos entre agentes.

06
JUL / 2023

⚡ O CICS dos agentes

Uma coisa é uma IA produzir texto. Outra é permitir que ela execute operações reais de negócio. CICS introduz a conversa sobre processamento transacional, concorrência, segurança e integridade.

07
AGO / 2023

🗄️ O Db2 dos agentes

Agentes precisam manter estado, checkpoints, decisões e resultados. O Db2 fornece o ponto de partida para discutir unidade de trabalho, consistência, COMMIT, ROLLBACK e recuperação.

10
SET / 2026

☕ Alan Turing entra no CPD — O mapa completo

O artigo-âncora reúne toda a evolução da ideia: pessoas, UX, observabilidade, prioridade, orquestração, transações, estado, mensageria e contexto transformam artigos independentes em uma arquitetura conceitual para agentes de IA.

🖥️ Leitor da série

Selecione qualquer capítulo acima para abri-lo normalmente. O painel abaixo é apenas um recurso adicional de navegação.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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