sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Brasil 2023: quando o sistema completou dez anos em produção contínua — e o operador percebeu que a história era mais estranha que o código

 


Brasil 2023: quando o sistema completou dez anos em produção contínua — e o operador percebeu que a história era mais estranha que o código

2023 marcou uma década do meu pós-retorno ao Brasil. Dez anos operando um sistema instável, remendado, resiliente e surpreendentemente vivo. Se eu tivesse ficado na Europa, talvez tivesse envelhecido com mais previsibilidade. Aqui, envelheci com logs, cicatrizes e uma compreensão profunda de como sociedades funcionam quando nada funciona direito.

E 2023 foi um daqueles anos que só o Brasil entrega: uma reviravolta lendária, digna de sistema legado escrito por dezenas de mãos, sem documentação, cheio de ifs morais e elses históricos.

Economia: menos espetáculo, mais chão

Economicamente, 2023 não foi euforia — foi aterrissagem. Depois de anos de extremos, o país buscou algo raro: normalidade operacional. Não crescimento milagroso, mas previsibilidade. Não promessas grandiosas, mas rotina funcionando.

Para quem viveu na Europa, isso é básico. Para o Brasil, é quase revolucionário.

A economia voltou a falar em planejamento, orçamento, reconstrução institucional. Nada mágico. Nada instantâneo. Mas o sistema parou de rodar em modo ideológico extremo e voltou ao modo administrativo.

E isso, em sistemas grandes, já evita desastre.

Sociedade: o fim do bolsonarismo como ciclo — não como apagamento

O bolsonarismo terminou em 2023 não como explosão, mas como esgotamento. Não desapareceu — sistemas sociais não fazem DELETE. Mas perdeu centralidade, perdeu narrativa, perdeu o controle do console.

Para quem viveu fora, o padrão é conhecido: movimentos baseados em raiva sobrevivem enquanto a raiva é combustível. Quando o custo emocional fica alto demais, a sociedade busca outra coisa — mesmo que imperfeita.

O Brasil não se curou. Mas saiu do modo guerra permanente.

Lula volta: rollback improvável, quase mítico

A volta de Lula ao poder foi uma daquelas operações que nenhum arquiteto de sistemas recomendaria — e ainda assim funcionou. Um rollback histórico improvável, feito não por nostalgia pura, mas por comparação concreta.

Não foi idolatria. Foi pragmatismo cansado.

Para quem passou doze anos na Europa, isso foi fascinante: o país escolheu um operador conhecido para estabilizar o sistema, mesmo sabendo dos bugs antigos. Porque o operador anterior estava testando comandos perigosos demais em produção.

Lula voltou não como herói clássico, mas como operador experiente chamado às pressas para evitar pane total.

Lava-Jato: quando o módulo anticorrupção corrompe o sistema

E então veio o capítulo mais rocambolesco de todos.

A Lava-Jato, que por anos foi apresentada como firewall moral da nação, revelou-se um módulo mal projetado, mal auditado e perigosamente politizado. Heróis viraram vilões. Promotores viraram personagens. Juízes perderam aura técnica.

Para quem viveu na Europa, onde instituições caem lentamente quando erram, foi chocante — e didático. No Brasil, a narrativa moral caiu inteira de uma vez.

Não foi o fim da luta contra a corrupção.
Foi o fim da ilusão de pureza institucional.

E todo operador de mainframe sabe: quando um módulo ganha poder demais sem auditoria, ele vira risco sistêmico.

Cultura: menos épica, mais crítica

Culturalmente, 2023 foi menos épico e mais reflexivo. Menos slogans, mais análise. Menos grito, mais ironia. A arte voltou a trabalhar com ambiguidade — sinal claro de que a sociedade saiu do binarismo tóxico.

O Brasil começou a rir de si mesmo de novo. E isso, historicamente, sempre foi sinal de recuperação.

População: dez anos mais velha, dez anos mais dura

O povo em 2023 estava diferente. Não mais inocente. Não mais tão iludido. Mais desconfiado, sim — mas também mais experiente. O brasileiro passou por crise econômica, colapso político, pandemia, guerra cultural e trauma coletivo em menos de uma década.

Isso muda qualquer população.

Vi menos fé cega e mais cautela. Menos heróis instantâneos e mais desconfiança saudável. Menos esperança abstrata e mais foco no que funciona.

Dez anos pós-retorno: a conclusão inevitável

Depois de dez anos de volta ao Brasil, entendi algo que só sistemas grandes ensinam:

não existe versão final de um país.
Existe apenas versão em execução.

O Brasil de 2023 não é melhor nem pior que o de 2013 — é mais consciente do próprio caos. Saiu da fantasia de redenção rápida e entrou na fase adulta dolorosa: a de manutenção constante.

Epílogo: lição definitiva do operador

2023 mostrou que o bolsonarismo foi um fork instável.
Que a Lava-Jato foi um commit sem code review.
Que Lula foi um rollback controverso, mas funcional.
E que heróis, sem auditoria, viram bugs históricos.

E todo veterano de mainframe sabe:
o sistema continua rodando
não porque é bonito,
mas porque alguém insiste em mantê-lo vivo.

O Brasil segue.
Com cicatrizes.
Com memória.
E, finalmente,
com menos ilusão sobre si mesmo.

E isso, depois de dez anos de operação crítica,
já é uma enorme vitória silenciosa.


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