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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Mel Brooks e a Piada que Levou 42 Anos para Dar o Segundo Soco

 

Bellacosa Mainframe e a piada de mel brooks que levou 42 anos para dar seu segundo soco

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Mel Brooks e a Piada que Levou 42 Anos para Dar o Segundo Soco

Ou: anunciei um filme inexistente, Mel Brooks já o havia produzido, o chimpanzé consultou a documentação de 1981 — e descobrimos que até uma piada pode quebrar depois de uma atualização em produção

Hoje, clandestinamente, Mel Brooks entrou no Bellacosa Mainframe.

Não houve reunião editorial, planejamento estratégico, formulário de mudança nem convite enviado pela assessoria. Um chimpanzé apareceu carregando uma fita antiga, bateu duas vezes na porta do datacenter e lançou a ideia:

— Precisamos registrar o mestre em nossas páginas.

O chimpanzé tinha razão.

Alguns dos melhores assuntos não chegam por e-mail, release ou calendário editorial. Eles simplesmente entram pela janela, derrubam uma pilha de manuais, roubam uma banana do almoxarifado e apontam para alguma parte esquecida da cultura popular.

Mel Brooks merecia há muito tempo um café neste estabelecimento. Escritor, ator, diretor, produtor, compositor, veterano da Segunda Guerra Mundial, destruidor profissional da solenidade humana e homem capaz de olhar para qualquer instituição respeitável e perguntar onde estava escondida a porta dos fundos.

A escolha da obra parecia igualmente perfeita.

Perguntei:

— Sabe qual é, na minha modesta opinião, um dos melhores filmes de Mel Brooks e que quase não existe no streaming?

Polindexter ajustou os sensores. O chimpanzé consultou a documentação. Um milhão de primatas imaginários se aproximou do palco.

Respondi:

A História do Mundo — Parte II.

Era uma piada.

Pelo menos era o que eu pensava.


O filme que não existia

Em 1981, Mel Brooks lançou History of the World, Part I, conhecido no Brasil como A História do Mundo — Parte I.

O título já carregava a primeira armadilha. Ao chamar o filme de “Parte I”, Brooks insinuava a existência de uma continuação que ninguém havia solicitado, financiado ou planejado.

Aquilo combinava perfeitamente com sua comédia.

O filme atravessava a história da humanidade como um bêbado atravessa um museu depois de encontrar aberta a porta da reserva técnica. Passava pela Idade da Pedra, pelo Antigo Testamento, pelo Império Romano, pela Inquisição Espanhola e pela Revolução Francesa sem demonstrar o menor respeito pelas divisórias colocadas pelos historiadores.

Mel Brooks interpretava Moisés, o filósofo Comicus, Torquemada, Luís XVI e até Jacques, o encarregado do curioso sistema sanitário da corte francesa. Ao redor dele estavam nomes como Dom DeLuise, Madeline Kahn, Harvey Korman, Cloris Leachman, Gregory Hines e Sid Caesar. A narração solene ficou com Orson Welles, porque até a anarquia precisa de uma voz que pareça ter sido enviada diretamente pelo Departamento Central da História.

O filme termina prometendo atrações da futura Parte II:

  • Hitler on Ice;

  • um funeral viking;

  • e o inesquecível Jews in Space.

Naturalmente, não haveria Parte II.

A continuação era apenas o último número do espetáculo. Uma coleção de trailers para filmes inexistentes, colocada depois de uma obra que já havia transformado Moisés, Nero, Torquemada e Luís XVI em funcionários incompetentes do mesmo datacenter humano.

A graça estava justamente na impossibilidade.

O público sairia do cinema sabendo que nunca assistiria àquelas atrações. A expressão “Parte I” era uma peça plantada por Brooks no sistema. A Parte II permaneceria eternamente na fila, com status “planejada”, nenhum orçamento atribuído e data de implementação marcada para o dia de São Nunca.

Durante 42 anos, essa interpretação funcionou perfeitamente.

Então Mel Brooks resolveu atualizar a produção.


Um chamado permaneceu aberto desde 1981

Em outubro de 2021, Hulu e Searchlight Television anunciaram que History of the World, Part II finalmente seria realizada.

Não como filme, mas como série de esquetes.

A continuação estreou em março de 2023, com oito episódios e participação criativa de Mel Brooks, Wanda Sykes, Nick Kroll, Ike Barinholtz e David Stassen. Brooks atuou como roteirista, produtor executivo e narrador. A série percorreu episódios históricos como a Revolução Russa, a Guerra Civil Americana e a vida de figuras religiosas e políticas, mantendo a velha arquitetura da paródia histórica.

Quando entrou oficialmente em produção, Mel Brooks estava com 95 anos. Quando estreou, tinha 96. Em entrevista à Vanity Fair, resumiu sua política editorial de maneira bastante simples: sempre escreveu aquilo que considerava engraçado e deixava as risadas caírem onde caíssem.

É uma explicação modesta para um homem que acabou de modificar retroativamente uma piada feita quatro décadas antes.

A Parte II deixou de ser apenas o filme que nunca existiria. Tornou-se a continuação que demorou tanto para aparecer que parte do público havia transformado sua ausência em tradição.

Não foi apenas uma sequência tardia.

Foi uma alteração na documentação histórica da própria piada.

Durante 42 anos, o valor registrado no banco de dados cultural foi:

HISTORIA_DO_MUNDO_PARTE_II = OBRA_INEXISTENTE

Em 2023, Mel Brooks executou silenciosamente:

UPDATE PIADAS
   SET EXISTE = 'SIM',
       FORMATO = 'MINISSERIE',
       EPISODIOS = 8
 WHERE TITULO = 'HISTORIA_DO_MUNDO_PARTE_II';

O problema é que ninguém invalidou o meu cache.

O chimpanzé consultou a documentação de 1981

Quando anunciei A História do Mundo — Parte II como um dos melhores filmes de Mel Brooks quase impossíveis de encontrar no streaming, estava executando uma versão perfeitamente estável da realidade.

Estável desde 1981.

A piada era simples: o filme não estava no streaming porque jamais havia existido.

Só que Polindexter, sempre disposto a estragar uma boa história com fatos, conferiu o ambiente de produção. A Parte II existia. Havia estreado três anos antes. Tinha oito episódios. E continuava disponível no Disney+.

Foi nesse momento que percebi:

— Aí quem se ferrou fui eu.

Nem sequer poderia alegar que minha base de conhecimento havia sido construída apenas até 2024. A continuação estreou em 2023. O dado deveria estar presente no treinamento, no backup, na fita, na memória auxiliar e em algum post perdido numa rede social.

Não era falta de conhecimento.

Era um cache humano que não havia recebido a invalidação.

Passei décadas sabendo que a Parte II era a piada final de um filme de 1981. Essa informação havia sido escrita numa região aparentemente imutável da memória. Não existia razão para conferir se Mel Brooks, aos 96 anos, havia decidido voltar e transformar em produto real aquilo que sempre fora uma promessa impossível.

Mas foi exatamente isso que ele fez.

O mestre me atingiu com uma piada programada 42 anos antes.

O segundo soco

Uma grande piada não termina necessariamente quando o público ri.

Algumas plantam uma segunda carga explosiva.

O primeiro soco foi dado em 1981. Mel Brooks chamou seu filme de Parte I e mostrou trailers da continuação inexistente. O público entendeu: jamais haveria uma Parte II. Essa ausência era parte essencial do mecanismo.

O segundo soco chegou em 2023.

A continuação passou a existir.

Quem conhecia a piada original tornou-se o novo alvo da piada. A pessoa que afirmasse com segurança que a Parte II nunca fora produzida revelaria que seu conhecimento estava congelado numa verdade antiga.

Foi exatamente o que aconteceu comigo.

Tentei homenagear Mel Brooks usando uma de suas piadas e descobri que o próprio Mel Brooks já havia desmontado a armadilha, reconstruído o mecanismo e deixado uma banana no lugar do detonador.

Ele não apenas contou outra piada.

Ele alterou o significado da anterior.

É quase como se, depois de quatro décadas, Moisés voltasse ao Monte Sinai procurando a tábua que havia deixado cair e descobrisse que Deus já havia migrado os Dez Mandamentos para uma aplicação em nuvem.

O filme continua sem existir

Mas ainda resta uma porta lateral.

History of the World, Part II existe, mas não como filme. Existe como minissérie.

Portanto, tecnicamente, o longa-metragem A História do Mundo — Parte II continua inexistente.

Esse detalhe preserva a piada original e, ao mesmo tempo, a destrói.

A Parte II existe? Sim.

O filme Parte II existe? Não.

Mel Brooks cumpriu a promessa? Mais ou menos.

Eu estava errado? Depende da competência do advogado e da quantidade de café fornecida ao juiz.

É nesse espaço entre o “sim” e o “não” que Mel Brooks continua operando. Ele entregou a continuação sem entregar exatamente aquilo que havia prometido. Transformou um falso trailer cinematográfico numa série para streaming e conseguiu manter viva a possibilidade de alguém afirmar que o filme nunca existiu.

O velho mestre deixou as duas versões da realidade funcionando simultaneamente.

É o Judeus no Espaço de Schrödinger.

O homem que jamais respeitou a solenidade

Há uma razão para Mel Brooks conseguir sustentar uma piada por 42 anos.

Sua carreira foi construída sobre a capacidade de reconhecer que o poder depende, em boa parte, da aparência de seriedade.

Reis precisam de cerimônias.

Ditadores precisam de desfiles.

Sacerdotes precisam de rituais.

Generais precisam de uniformes.

Executivos precisam de apresentações com 47 slides e uma seta apontando para “transformação digital”.

Mel Brooks olha para todos eles e pergunta quem autorizou aquela fantasia.

Em The Producers, transformou Hitler em material para um musical deliberadamente desastroso. Em Blazing Saddles, desmontou o western e expôs o racismo que sustentava parte de sua mitologia. Em Young Frankenstein, tratou o terror clássico com tanto carinho que sua paródia quase se tornou uma continuação legítima dos filmes que homenageava. Em High Anxiety, entrou no universo de Hitchcock carregando uma lupa, um diagnóstico psiquiátrico e nenhuma intenção de respeitar o suspense.

Em Spaceballs, percebeu que impérios galácticos, cavaleiros místicos e merchandising pertenciam ao mesmo departamento financeiro.

Brooks não destrói os gêneros porque os odeia.

Ele os conhece bem demais.

Sua paródia funciona porque compreende a estrutura original, identifica suas convenções e desloca uma única peça até que todo o edifício revele o absurdo que sempre esteve escondido lá dentro.

É o trabalho de um excelente analista de sistemas.

Primeiro, ele entende a arquitetura.

Depois, procura a variável que ninguém deveria alterar.

Por fim, muda seu valor para “ridículo” e observa a produção inteira continuar funcionando.

A história como um datacenter mal administrado

A História do Mundo — Parte I talvez seja um dos melhores exemplos dessa filosofia porque parte de uma constatação simples: os seres humanos mudam as roupas, os títulos, as bandeiras e as tecnologias, mas continuam executando os mesmos defeitos fundamentais.

O homem das cavernas descobre a crítica.

Roma transforma política em espetáculo.

A religião encontra a burocracia.

A Inquisição vira musical.

A monarquia francesa implementa um sistema de saneamento que exige um funcionário especializado em carregar um balde.

A história, segundo Brooks, não é uma marcha contínua em direção ao progresso. É um ambiente legado no qual cada geração instala uma interface nova sobre os mesmos erros.

Mudam as telas.

O código continua lá.

Vaidade, desejo, medo, poder, corrupção, violência, fome, oportunismo e a irresistível necessidade humana de fazer graça no momento menos apropriado.

É por isso que a sátira de Mel Brooks não envelhece facilmente. Ela não depende apenas do evento histórico parodiado. Depende da permanência dos bugs humanos.

Nero pode cair.

Luís XVI pode perder a cabeça.

O Império pode trocar de nome.

Mas sempre haverá alguém dizendo:

— É bom ser o rei.

A atualização que quebrou a piada

Na tecnologia, costumamos imaginar que uma atualização corrige defeitos.

Às vezes ela cria outros.

Minha piada sobre o filme inexistente funcionava perfeitamente com a versão 1981 da realidade. Era rápida, econômica e não exigia explicação. Bastava mencionar a Parte II e esperar que alguém reconhecesse a inexistência.

A atualização de 2023 quebrou a compatibilidade.

Agora, para contar a mesma piada, preciso abrir uma nota técnica:

“Quando digo que a Parte II não existe, refiro-me especificamente ao longa-metragem prometido em 1981, não à minissérie de oito episódios lançada em 2023, escrita e produzida por Mel Brooks e colaboradores.”

Nesse ponto, a piada já morreu durante a homologação.

Porém, justamente quando pensamos que o humor acabou, surge o segundo soco: a destruição da minha piada é, por si mesma, uma nova piada de Mel Brooks.

Eu me tornei personagem.

O chimpanzé também.

Polindexter assumiu o papel do auditor que chegou ao boteco carregando a documentação atualizada.

E um milhão de chimpanzés começou a bater palmas.

Alguns entenderam a piada de 1981.

Outros assistiram à série de 2023.

Alguns continuam esperando Judeus no Espaço.

A maioria apenas viu o chimpanzé da frente aplaudir e decidiu fazer o mesmo — princípio fundamental das audiências, das redes sociais, dos mercados financeiros e de boa parte da crítica cinematográfica.

Aplausos de um milhão de chimpanzés

No dia 28 de junho de 2026, Mel Brooks completou 100 anos. A Associated Press registrou o centenário lembrando que o criador do “Homem de Dois Mil Anos” finalmente chegara aos cem — ainda muito jovem para o personagem, mas suficientemente experiente para continuar sabotando nossas certezas. A Television Academy também celebrou sua contribuição fundamental à televisão, frequentemente ofuscada pelos filmes.

O detalhe torna nossa pequena tragédia ainda mais bonita.

Não fui derrotado por um algoritmo.

Não fui enganado por uma notícia falsa.

Não tropecei num remake obscuro produzido por executivos procurando uma propriedade intelectual esquecida.

Fui atingido por Mel Brooks.

O homem plantou uma piada em 1981, esperou 42 anos, voltou aos 96, transformou a impossibilidade em minissérie e deixou o mecanismo armado para que um sujeito em Itatiba caísse nele em 2026.

Isso não é apenas longevidade artística.

É uma emboscada geracional.

Brooks demonstrou que uma piada pode receber manutenção evolutiva. Pode mudar de plataforma, ganhar novos programadores, migrar do cinema para o streaming e continuar derrubando usuários décadas depois de sua instalação original.

Também demonstrou algo ainda mais importante: o humor não precisa respeitar nem mesmo a própria continuidade.

Uma piada pode contradizer outra.

Pode destruir sua premissa.

Pode transformar o contador em vítima.

Pode voltar quando todos acreditavam que o chamado havia sido encerrado.

Desde que exista um segundo soco.

Epílogo — É bom ser o rei

Hoje, portanto, imortalizamos Mel Brooks no Bellacosa Mainframe não apenas por seus filmes, prêmios ou personagens.

Registramos o homem capaz de programar uma gargalhada com latência de 42 anos.

Um artista que transformou a inexistência de uma obra em piada, depois transformou a existência da obra em uma segunda piada e, por fim, deixou que nossa tentativa de contar a primeira se tornasse a terceira.

No palco, um homem centenário observa a confusão.

No datacenter, Polindexter atualiza a documentação.

No corredor, o chimpanzé jura que consultou a versão correta do manual.

E diante deles, um milhão de chimpanzés bate palmas.

Alguns compreenderam toda a arquitetura.

Outros apenas acharam engraçado ver Hitler patinando no gelo.

Muitos não sabem exatamente por que estão aplaudindo.

Mas aplaudem assim mesmo.

Mel Brooks sorri.

Afinal, é bom ser o rei.

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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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