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No-Code
O Que Todo Programador COBOL Precisa Saber Sobre a Revolução do Desenvolvimento Sem Programação
Você Não Está Sendo Substituído. Está Descobrindo Outra Forma de Construir Software.
"Toda década promete eliminar os programadores. Primeiro vieram os geradores de código. Depois os CASE Tools. Em seguida o RAD. Agora é o No-Code. Curiosamente, todas essas tecnologias continuam precisando de bons engenheiros de software."
Introdução
Quem trabalha com IBM Mainframe já ouviu inúmeras previsões durante a carreira.
"COBOL vai acabar."
"O Mainframe será substituído."
"Agora qualquer pessoa poderá criar sistemas."
Quase cinquenta anos depois dessas previsões, os maiores bancos do planeta continuam processando bilhões de transações em COBOL.
Agora surgiu uma nova promessa.
No-Code.
Segundo muitos anúncios de marketing, basta arrastar alguns blocos na tela e qualquer pessoa cria aplicações empresariais.
Será?
Como quase tudo na engenharia de software, a resposta é mais interessante do que parece.
Para um desenvolvedor COBOL, entender No-Code não significa abandonar décadas de conhecimento.
Significa compreender onde essa tecnologia realmente faz sentido.
O que é No-Code?
No-Code é uma abordagem de desenvolvimento onde aplicações são criadas utilizando componentes gráficos, configurações e regras visuais, praticamente sem escrever código tradicional.
Em vez de escrever:
IF SALDO > LIMITE
MOVE "NEGADO" TO STATUS
END-IF
o desenvolvedor conecta dois blocos:
Saldo >
\
> Decisão
/
Limite >
e define:
Sim → Negar operação
Não → Aprovar
A lógica continua existindo.
A diferença é apenas a forma de representá-la.
O princípio do No-Code
Todo software possui quatro elementos fundamentais:
Interface
Regras
Dados
Integrações
No-Code tenta transformar todos esses elementos em componentes reutilizáveis.
Em vez de programar:
Tela
↓
Código
↓
Banco
↓
API
o desenvolvedor monta:
Tela
↓
Blocos
↓
Fluxos
↓
Publicar
A origem do No-Code
Na realidade, No-Code não é novidade.
Ele apenas ganhou um novo nome.
Sua história começa muito antes da Internet.
Década de 1970
Mainframes já possuíam ferramentas declarativas.
CICS BMS
IMS MFS
ISPF Panels
Mapas de tela.
Você descrevia uma tela.
O sistema gerava a interface.
Isso já era uma forma de desenvolvimento declarativo.
Década de 1980
Surgiram os famosos CASE Tools.
Entre eles:
Texas Instruments IEF
AD/Cycle
COOL:Gen
Excelerator
CA Gen
Essas ferramentas prometiam:
"Desenhe o sistema."
"O software será gerado automaticamente."
Muito parecido com o discurso atual.
Década de 1990
Vieram:
Delphi
Visual Basic
PowerBuilder
Oracle Forms
Os componentes eram arrastados para formulários.
Pouco código.
Muito RAD (Rapid Application Development).
Década de 2000
Aplicações Web.
Frameworks.
CMS.
WordPress.
Joomla.
Drupal.
Muitos sites passaram a ser construídos sem programação.
Década de 2010
Cloud.
SaaS.
APIs REST.
Microserviços.
As plataformas começaram a conectar tudo.
Década de 2020
Explosão do verdadeiro No-Code.
Agora existem plataformas completas.
Aplicativos.
Workflows.
IA.
Bots.
Dashboards.
Integrações.
Tudo criado visualmente.
A diferença entre No-Code e Low-Code
Muita gente confunde.
No-Code
Destinado principalmente para usuários de negócio.
Exemplo:
Criar formulário
↓
Criar fluxo
↓
Publicar
Sem programação.
Low-Code
Destinado a desenvolvedores.
Permite código quando necessário.
Exemplo:
Fluxo visual
↓
Componente personalizado
↓
API
↓
Script
↓
Deploy
É muito mais poderoso.
Por que o No-Code cresceu tanto?
Porque o mercado possui um problema enorme.
Faltam desenvolvedores.
Empresas precisam entregar software rapidamente.
Nem toda aplicação exige uma equipe de engenharia.
Imagine criar:
formulário interno
cadastro
workflow de aprovação
pesquisa de satisfação
controle de férias
Não faz sentido desenvolver tudo em Java.
Nem em COBOL.
Nem em C#.
Uma ferramenta No-Code resolve em poucas horas.
Como funciona internamente?
Esse é um ponto importante.
No-Code não elimina programação.
Ele apenas esconde a programação.
Quando você cria:
Botão
↓
Enviar Email
a plataforma gera algo semelhante a:
HTML
CSS
JavaScript
API
Banco
Autenticação
Logs
Infraestrutura
Ou seja...
Alguém escreveu milhares de linhas de código para que você não precise escrevê-las.
As principais características
Uma plataforma No-Code normalmente possui:
Editor visual
Banco de dados
Autenticação
Controle de usuários
Integração com APIs
Dashboards
Automações
Relatórios
Workflow
Notificações
Segurança
Deploy automático
Principais metodologias
Embora cada fabricante possua sua implementação, quase todas seguem os mesmos conceitos.
Model Driven Development
Primeiro modela.
Depois gera.
Visual Programming
Fluxogramas.
Conexões.
Eventos.
Event Driven
Quando algo acontece...
Executa outra ação.
Cliente cadastrado
↓
Enviar Email
↓
Criar Pedido
↓
Registrar Log
↓
Atualizar CRM
Workflow Automation
Automação baseada em processos.
Muito utilizada em empresas.
Business Process Management (BPM)
Fluxos corporativos.
Aprovações.
Assinaturas.
Validações.
Integrações.
Domain Driven Modeling
A aplicação representa o negócio.
Não a tecnologia.
Vantagens
Desenvolvimento extremamente rápido
Horas.
Não meses.
Menor custo inicial
Poucos desenvolvedores.
Interface pronta
Layouts modernos.
Integração simples
Microsoft
SAP
Salesforce
IBM
Oracle
Tudo via conectores.
Facilidade para prototipação
Ideal para MVP.
Atualizações automáticas
O fornecedor cuida da infraestrutura.
Baixa curva de aprendizado
Analistas conseguem construir aplicações simples.
Desvantagens
Agora vem a parte que o marketing raramente comenta.
Dependência do fornecedor
Seu sistema passa a depender totalmente da plataforma.
Vendor Lock-in
Trocar de ferramenta pode significar reconstruir tudo.
Limitações
Quando surge uma necessidade muito específica...
A plataforma pode simplesmente não permitir.
Performance
Nem sempre é ideal.
Algumas plataformas geram muito código desnecessário.
Escalabilidade
Funciona bem para centenas.
Nem sempre para milhões de usuários.
Licenciamento
Pode ficar caro.
Muito caro.
Especialmente conforme o número de usuários cresce.
Performance
Aqui existe um mito.
"No-Code é lento."
Nem sempre.
Depende da arquitetura.
Uma boa plataforma pode gerar aplicações excelentes.
Outra pode gerar aplicações enormes.
Tudo depende da qualidade do motor interno.
Segurança
Outro ponto crítico.
Toda plataforma precisa oferecer:
Autenticação
Criptografia
Auditoria
Controle de acesso
LGPD
Logs
Versionamento
Backup
Governança
Sem isso, ela dificilmente será aceita em ambientes corporativos.
Como desenvolver uma aplicação No-Code
Vamos imaginar um pequeno sistema de solicitação de férias.
Passo 1
Definir o processo.
Funcionário
↓
Solicita férias
↓
Gestor aprova
↓
RH confirma
↓
Sistema encerra
Passo 2
Criar entidades.
Funcionário
Departamento
Solicitação
Período
Gestor
Passo 3
Criar formulários.
Cadastro.
Consulta.
Aprovação.
Passo 4
Criar regras.
Se gestor aprovar...
Enviar ao RH.
Caso contrário...
Rejeitar.
Passo 5
Criar notificações.
Email.
Teams.
Slack.
WhatsApp.
Passo 6
Criar dashboards.
Solicitações abertas.
Pendentes.
Concluídas.
Tempo médio.
Passo 7
Publicar.
Sem compilação tradicional.
Boas práticas
Sempre modelar o processo primeiro.
Evitar criar fluxos gigantes.
Documentar regras.
Versionar alterações.
Controlar permissões.
Criar ambientes separados.
Testar integrações.
Monitorar desempenho.
Ter plano de contingência.
Os principais riscos
Criar aplicações sem arquitetura.
Duplicar regras.
Ausência de documentação.
Dependência da plataforma.
Integrações mal definidas.
Falta de testes.
Crescimento descontrolado.
Shadow IT.
Oportunidades para o programador COBOL
Aqui está o ponto mais importante deste artigo.
No-Code não compete com COBOL.
Ele complementa.
Imagine este cenário.
Cliente
↓
Portal Web
↓
Power Apps
↓
Power Automate
↓
API REST
↓
z/OS Connect
↓
CICS
↓
COBOL
↓
DB2
Quem executa a lógica crítica?
COBOL.
Quem apenas apresenta uma interface bonita?
No-Code.
O papel do Mainframe
O Mainframe continua sendo responsável por:
Transações financeiras.
Processamento batch.
Contabilidade.
Pagamentos.
Cartões.
PIX.
Previdência.
Folha.
Seguros.
Toda essa lógica permanece exatamente onde sempre esteve.
O papel do No-Code
Construir rapidamente:
Painéis administrativos.
Dashboards.
Consultas.
Workflows.
Aprovações.
Aplicativos internos.
Portais.
A integração perfeita
Hoje, uma arquitetura moderna costuma ser assim:
Usuário
│
▼
Power Apps / Mendix / OutSystems
│
▼
REST API
│
▼
IBM z/OS Connect
│
▼
CICS
│
▼
Programa COBOL
│
▼
DB2 / VSAM / IMS
Perceba que o COBOL não desaparece.
Ele ganha uma nova camada de apresentação.
Principais plataformas No-Code
Entre as mais conhecidas estão:
Microsoft Power Apps
Microsoft Power Automate
Mendix (Siemens)
OutSystems
AppSheet (Google)
Bubble
Glide
Zoho Creator
Airtable
Retool
ServiceNow App Engine
Salesforce Lightning Platform
Oracle APEX (frequentemente classificado como Low-Code)
IBM watsonx Orchestrate (automação e IA)
IBM Business Automation Workflow
Cada uma possui foco diferente: aplicativos corporativos, automação de processos, portais, integração ou desenvolvimento empresarial.
Onde o No-Code NÃO funciona bem?
Há cenários em que o desenvolvimento tradicional continua sendo a melhor escolha:
Sistemas bancários de alta criticidade.
Motores de processamento em tempo real.
Aplicações com requisitos extremos de desempenho.
Sistemas embarcados.
Softwares que exigem controle detalhado de memória ou hardware.
Algoritmos científicos complexos.
Grandes motores de processamento batch.
Nesses casos, linguagens como COBOL, Java, C/C++, PL/I ou Assembler continuam sendo mais adequadas.
O futuro do No-Code
A próxima evolução já começou.
Ela combina:
No-Code
Low-Code
Inteligência Artificial Generativa
Agentes de IA
Automação inteligente
APIs
RPA
Event-Driven Architecture
Em vez de apenas montar telas, o desenvolvedor descreve um processo em linguagem natural, e a plataforma gera boa parte da aplicação. Ainda assim, alguém precisa revisar arquitetura, segurança, integração, testes e governança.
O impacto no ambiente Mainframe
Para o profissional de IBM Z, o maior impacto não é técnico, mas estratégico.
As equipes de negócio querem entregar soluções mais rápido. O Mainframe continua sendo o sistema de registro (System of Record), enquanto plataformas No-Code aceleram a criação de experiências digitais.
Isso aumenta a importância de tecnologias como:
IBM z/OS Connect
APIs REST
OpenAPI
IBM MQ
Kafka
CICS Web Services
Db2 Services
OAuth e OpenID Connect
Arquiteturas orientadas a eventos
O programador COBOL deixa de ser apenas um desenvolvedor de programas batch e online para atuar como um engenheiro de serviços corporativos.
O Novo Perfil do Programador COBOL
O profissional mais valorizado nos próximos anos provavelmente será aquele que combina:
COBOL moderno
CICS
Db2
JCL
APIs REST
JSON
Git
DevOps
Segurança
Integração com plataformas Low-Code e No-Code
Arquitetura de sistemas
Ele não precisará construir cada tela manualmente. Em vez disso, projetará serviços confiáveis, escaláveis e seguros que poderão ser consumidos por aplicativos web, mobile, IA e plataformas No-Code.
Conclusão
No-Code não representa o fim da programação.
Representa uma mudança de foco.
Assim como os compiladores não eliminaram os programadores Assembly, e as linguagens de alto nível não eliminaram a engenharia de software, as plataformas No-Code não eliminam a necessidade de profissionais experientes.
Elas reduzem o esforço em tarefas repetitivas e aceleram a construção de aplicações simples, mas continuam dependentes de boas decisões de arquitetura, integração, segurança e governança.
No universo IBM Mainframe, essa realidade é ainda mais evidente. O COBOL permanece executando a lógica de negócios que movimenta bancos, seguradoras, governos e grandes empresas. O No-Code entra como uma camada de produtividade e experiência do usuário, consumindo serviços expostos pelo Mainframe por meio de APIs.
O futuro não será uma disputa entre COBOL e No-Code.
Será uma colaboração entre ambos.
O desenvolvedor que compreender essa integração deixará de enxergar o No-Code como ameaça e passará a utilizá-lo como mais uma ferramenta para entregar valor ao negócio.
Porque, no fim das contas, software nunca foi apenas escrever código.
Sempre foi resolver problemas. E essa continua sendo a missão de qualquer engenheiro de software — seja escrevendo milhares de linhas em COBOL, seja conectando componentes visuais que, por trás da interface, ainda dependem da mesma disciplina, do mesmo raciocínio lógico e da mesma engenharia que sustentam os sistemas mais importantes do mundo há décadas.
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