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sábado, 2 de agosto de 2008

Koihime†Musou — Quando o Romance dos Três Reinos Caiu num Compilador Moe

Bellacosa Mainframe apresenta o anime koihime musou

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Koihime†Musou — Quando o Romance dos Três Reinos Caiu num Compilador Moe

⚔️ O anime que pegou Guan Yu, Cao Cao e companhia, executou GENDER-SWAP, acrescentou ecchi, removeu o protagonista do eroge e descobriu que a China antiga podia funcionar como uma road movie de garotas armadas

Há animes cuja premissa você explica facilmente.

Ghost in the Shell: identidade, tecnologia e consciência.

Cowboy Bebop: caçadores de recompensa, jazz e melancolia.

Koihime†Musou?

Bem...

Pegue Romance dos Três Reinos, uma das obras fundamentais da literatura chinesa. Transforme boa parte dos grandes generais e estrategistas em garotas bishōjo. Acrescente comédia, ação, fanservice, amizade feminina e personagens moe. Depois adapte tudo de uma visual novel originalmente adulta, retire justamente o protagonista masculino e mande as meninas percorrerem uma China fantasiosa resolvendo problemas.

O resultado deveria produzir um S0C7 cultural.

Curiosamente, funciona.

E funciona justamente porque Koihime†Musou é muito mais inteligente em sua construção do que a embalagem sugere.

A franquia nasceu do jogo Koihime†Musō: Doki Otome Darake no Sangokushi Engi — 恋姫†無双 ~ドキッ☆乙女だらけの三国志演義~, desenvolvido pela BaseSon e lançado originalmente para Windows em 26 de janeiro de 2007. Era uma visual novel adulta com elementos de estratégia, livremente inspirada em Romance dos Três Reinos, de Luo Guanzhong. 

O anime chegaria no ano seguinte.

E alguém tomou uma decisão que mudou completamente o sistema.



🗂️ O SYSOUT básico

Título: Koihime†Musou
Título original: 恋姫†無双
Romanização: Koihime Musō
Origem: visual novel/game da BaseSon
Obra inspiradora: Romance dos Três Reinos (Sānguó Yǎnyì), tradicionalmente atribuído a Luo Guanzhong
Estúdio: Doga Kobo
Direção: Nobuaki Nakanishi
Roteiro/composição da série: Gō Zappa
Estreia japonesa: 8 de julho de 2008
Fim da primeira temporada: 23 de setembro de 2008
Episódios: 12, mais OVA posterior
OVA da primeira série: 1º de abril de 2009.  

Depois vieram:

Shin Koihime†Musou — 2009 — 12 episódios;
Shin Koihime†Musou: Otome Tairan — 2010 — 12 episódios.  

Portanto, considerando as três séries regulares de TV:

36 episódios principais, além de OVAs e especiais.


🌸 O gênero

Classificar Koihime†Musou é uma aventura por si só.

Ele mistura:

fantasia histórica, ação, aventura, comédia, ecchi, bishōjo, moe, gender swap e elementos derivados de visual novel/harem.

Mas chamar simplesmente de “anime ecchi” é cometer contra ele o mesmo erro de olhar para um mainframe e dizer:

“É aquele computador preto grande.”

Tecnicamente não está totalmente errado.

Mas você perdeu praticamente tudo.

O anime é principalmente uma aventura episódica de estrada, estruturada em torno de encontros sucessivos.

Há batalhas.

Há fanservice.

Há humor sexual.

Há garotas fazendo coisas absurdas.

Mas também existe amizade, responsabilidade, liderança, amadurecimento e uma brincadeira contínua com uma das maiores narrativas históricas da Ásia.


🐉 O ancestral: Romance dos Três Reinos

Aqui mora a primeira grande sacada.

O material não surgiu do nada.

Romance dos Três Reinos dramatiza o colapso da dinastia Han e as guerras que eventualmente produziram os reinos de Wei, Shu e Wu.

Nesse universo encontramos nomes gigantescos da tradição chinesa:

Liu Bei.
Guan Yu.
Zhang Fei.
Cao Cao.
Sun Quan.
Zhuge Liang.
Zhao Yun.

Personagens que atravessaram literatura, teatro, ópera, televisão, cinema e videogames.

O Japão conhece muito bem esse imaginário.

Quem jogou Dynasty Warriors já esteve nesse CPD sem perceber.

A BaseSon simplesmente decidiu executar:

//SANGOKU EXEC PGM=RECOMPILE
//PARM DD *
 GENDER-SWAP
 MOE
 BISHOUJO
 ECCHI
 ROMANCE
/*

E nasceu Koihime†Musou.


⚔️ A história do anime

A protagonista central da primeira série é Kan'u, conhecida pelo nome verdadeiro Aisha.

Ela é a versão feminina de Guan Yu.

Aisha percorre o país combatendo bandidos e tentando impedir que outras pessoas sofram as consequências da violência que marcou sua própria vida.

Logo encontra Chōhi, ou Rinrin, correspondente a Zhang Fei.

Rinrin é praticamente a versão humana de um job submetido sem TYPRUN=SCAN.

Primeiro executa.

Depois pergunta.

As duas criam um vínculo de irmandade e começam uma jornada juntas.

A estrutura inicial parece simples:

CHEGA NUMA VILA
      ↓
EXISTE UM PROBLEMA
      ↓
ENCONTRAM UMA PERSONAGEM
      ↓
CONFUSÃO
      ↓
BATALHA
      ↓
COMIDA
      ↓
FAN SERVICE
      ↓
PRÓXIMA VILA

Só que cada encontro vai introduzindo personagens que representam figuras conhecidas da tradição dos Três Reinos.

Aos poucos, o espectador percebe que está vendo uma reconstrução extremamente livre do universo de Sangokushi.


👩🏻‍🦱 Kan'u / Aisha — Guan Yu recompilado

Aisha é provavelmente a personagem mais importante para compreender por que o anime funciona.

Ela é forte, disciplinada, séria e profundamente orientada por um senso de justiça.

Em uma obra onde quase tudo poderia virar apenas paródia sexual, Aisha funciona como o ponto de estabilidade do sistema.

Quando todos os demais processos começam a consumir CPU em maluquice, ela é o WLM tentando manter a prioridade da workload.

Sua arma e postura remetem diretamente ao imaginário tradicional de Guan Yu.

O gender swap mudou o corpo.

Não apagou completamente o arquétipo.

E esse é um padrão recorrente em Koihime†Musou.


🐯 Chōhi / Rinrin — Zhang Fei sem controle de mudanças

Rinrin é pequena, barulhenta, impulsiva, extremamente forte e adorável.

Em outras palavras:

IF IDEIA = "BOA"
    EXECUTAR
ELSE
    EXECUTAR-TAMBEM
END-IF

Ela representa Zhang Fei.

A personalidade explosiva e a força extraordinária sobreviveram à transformação.

Rinrin também cria grande parte da química cômica da dupla.

Aisha tenta ser adulta.

Rinrin existe para demonstrar que planos são apenas hipóteses esperando contato com produção.


🧠 Shokatsuryō / Shuri — Zhuge Liang

E então surge uma das transformações mais deliciosamente japonesas.

O lendário estrategista Zhuge Liang, paradigma de inteligência estratégica na cultura chinesa, vira Shuri, uma garota pequena, tímida e extremamente inteligente.

O contraste é proposital.

Fisicamente parece incapaz de organizar uma excursão escolar.

Mentalmente poderia reorganizar todo o datacenter.

É a tradição do personagem loli-genius, mas sustentada por uma referência histórica enorme.


👑 Sōsō / Karin — Cao Cao

Aqui a brincadeira fica ainda melhor.

Cao Cao, uma das figuras mais fascinantes e controversas dos Três Reinos, torna-se Karin.

Ambiciosa.

Dominante.

Brilhante.

Orgulhosa.

Carismática.

Perigosamente segura de si.

A aparência mudou radicalmente.

O espírito do arquétipo, nem tanto.

Karin conserva aquilo que faz Cao Cao funcionar narrativamente:

autoridade + inteligência + ambição + magnetismo.

E recebe ainda uma forte camada de erotismo e interesse por mulheres, que alimenta várias piadas e situações ecchi.


🍑 Ryūbi / Tōka — Liu Bei

Nas continuações, Ryūbi, ou Tōka, assume importância crescente.

Ela representa Liu Bei.

É idealista, bondosa e carismática.

O interessante é observar que Koihime não converte simplesmente personagens masculinos em mulheres aleatoriamente.

Ele tenta manter algum elemento reconhecível de suas funções narrativas.

É quase uma operação de modernização de legado:

INTERFACE = NOVA
CORE BUSINESS LOGIC = PRESERVADA

E qualquer cobolzeiro sabe que isso é mais difícil do que parece.


🤔 Cadê o protagonista masculino?

Aqui está uma das partes mais interessantes da adaptação.

Na visual novel original existe Kazuto Hongō.

Ele é transportado para esse mundo inspirado nos Três Reinos e funciona como protagonista masculino de uma estrutura de romance/harem.

No anime?

DELETE.

Kazuto simplesmente não participa da narrativa principal.

A própria adaptação televisiva segue uma história consideravelmente diferente do jogo: em vez de reproduzir a grande guerra entre os três reinos e a posição de Kazuto no centro das heroínas, acompanha principalmente as viagens de Kan'u e seus encontros. 

Essa mudança é gigantesca.

Porque remove o elemento tradicional:

“Garoto comum cercado por muitas garotas apaixonadas.”

E produz algo quase acidentalmente interessante:

mulheres vivendo aventuras onde suas relações umas com as outras são o centro da narrativa.


🚶‍♀️ Koihime como road movie

A primeira temporada funciona muito mais como uma road movie medieval do que como adaptação tradicional de videogame.

Aisha e Rinrin viajam.

Conhecem pessoas.

Entram em confusões.

Resolvem problemas.

Encontram futuros aliados e adversários.

Partem novamente.

Isso permite que o enorme elenco seja apresentado progressivamente.

E também cria uma sensação curiosa:

o objetivo não é necessariamente chegar a algum lugar.

A própria viagem é o programa.


🌸 A mensagem escondida mais interessante: identidade

O gender swap poderia ser apenas gimmick.

Mas produz uma pergunta involuntariamente interessante:

quanto de um personagem precisa permanecer para ainda reconhecermos aquele personagem?

Retire o sexo.

Mude a aparência.

Mude parte da história.

Mude algumas relações.

E ainda assim dizemos:

“Isso é Cao Cao.”

Por quê?

Porque identidade narrativa não reside apenas em dados superficiais.

Cao Cao continua sendo identificado por determinados padrões:

ambição, liderança, inteligência, pragmatismo.

Guan Yu:

honra, força, lealdade.

Zhuge Liang:

estratégia, conhecimento.

É quase uma discussão de programação orientada a objetos:

CLASS GUAN-YU
   ATTRIBUTES:
      SEX = ALTERADO
      APPEARANCE = ALTERADO
   METHODS:
      LOYALTY()
      STRENGTH()
      JUSTICE()

A implementação mudou.

A interface conceitual sobreviveu.


🤝 Outra mensagem: família escolhida

A relação entre Aisha e Rinrin começa fora de estruturas tradicionais.

Elas escolhem tornar-se próximas.

Outros personagens vão sendo incorporados ao círculo por amizade, respeito, rivalidade ou circunstância.

Isso cria um tema recorrente:

laços não dependem exclusivamente de sangue ou origem.

São construídos por experiências compartilhadas.

Sob toneladas de moe, há uma narrativa bastante simpática sobre pertencimento.


👩 O mundo onde quase todos os heróis são mulheres

Há outra inversão interessante.

Nas histórias tradicionais dos Três Reinos, mulheres existem, mas o palco militar e político é esmagadoramente masculino.

Em Koihime:

as mulheres comandam exércitos.

Planejam estratégias.

Governam territórios.

Combatem.

Negociam.

Erram.

Vencem.

Desejam.

Fazem piadas obscenas.

O anime não tenta realizar um manifesto feminista — seria exagero impor essa leitura.

Mas o gender swap produz, por consequência, um universo onde agência política e militar feminina é absolutamente normal.

Ninguém precisa parar a história para perguntar:

“Mas uma mulher pode comandar esse exército?”

Ela simplesmente comanda.


🍑 E sim, existe muito ecchi

Não podemos cometer fraude na documentação técnica.

Koihime†Musou tem fanservice.

Bastante.

Banhos.

Enquadramentos sugestivos.

Insinuações.

Piadas com seios.

Situações sexualizadas.

Yuri implícito ou explícito no humor.

Roupas desenhadas segundo a rigorosíssima escola militar conhecida como:

“Armadura que protege tudo exceto aquilo que o diretor quer mostrar.”

😂

Mas o anime televisivo é consideravelmente mais moderado que a origem da franquia.

E isso nos leva ao assunto mais curioso.


🔞 O jogo original era eroge

Sim.

O ancestral é um adult visual novel.

A versão original para Windows, lançada em 2007, continha conteúdo sexual explícito e foi comercializada como jogo adulto.

Isso coloca Koihime†Musou em uma linhagem importante da indústria japonesa:

EROGE
  ↓
POPULARIDADE
  ↓
MANGA
  ↓
ANIME
  ↓
CONTEÚDO SEXUAL REDUZIDO
  ↓
PÚBLICO MUITO MAIOR

Não é exclusividade de Koihime.

Diversas franquias japonesas realizaram trajetórias semelhantes.


✂️ Censura ou adaptação?

Aqui vale uma distinção.

Dizer apenas que o anime foi “censurado” simplifica demais.

O que aconteceu foi sobretudo uma mudança de produto e mídia.

O game original tinha conteúdo adulto explícito.

Uma série de televisão precisava funcionar sob outra classificação, outro mercado e outras regras de transmissão.

Consequentemente:

sexo explícito desaparece;

fanservice permanece;

insinuações sobrevivem;

a estrutura harem é radicalmente enfraquecida;

Kazuto desaparece;

aventura e comédia tornam-se muito mais importantes.

Portanto, não foi apenas:

GAME - SEX = ANIME

Foi uma recompilação.


🎮 Os games

A franquia começou justamente ali.

O primeiro jogo foi:

Koihime†Musō: Doki Otome Darake no Sangokushi Engi

Windows, 2007.

Depois ganhou outras versões e sequências.

Uma versão para PlayStation 2 chegou em 2008. (LaunchBox Games Database)

A série cresceu particularmente com Shin Koihime†Musou, expandindo personagens, facções e rotas.

Posteriormente surgiram títulos adicionais e fan discs, entre eles Shin Koihime†Musou ~Moeshouden~, lançado em julho de 2010, concebido como complemento com muitas cenas adicionais. (Koihime)

A genealogia dos games ficou consideravelmente maior do que as três temporadas de anime fazem imaginar.


📚 Manga

Também houve adaptações em mangá.

Uma das primeiras começou a serialização em Dengeki G's Festival! Comic, da ASCII Media Works, em 26 de abril de 2008, com arte de Yayoi Hizuki.

Depois a expansão de Shin Koihime†Musou gerou outros mangás, antologias e material derivado.

Isso é importante porque Koihime não deve ser compreendido como:

“um anime que ganhou game”.

É exatamente o contrário.

O anime é apenas um frontend de um ecossistema multimídia muito maior.


📖 Light novel?

Há material escrito e derivados editoriais ligados à franquia, mas Koihime†Musou não nasceu como light novel.

Sua árvore principal é:

ROMANCE DOS TRÊS REINOS
        ↓
     BASESON
        ↓
VISUAL NOVEL / GAME
        ↓
 ┌──────┼───────┐
MANGA  ANIME   OUTROS GAMES

Isso é importante para não classificarmos qualquer franquia japonesa multimídia como “baseada numa light novel”.

Aqui o executável original é visual novel.


📺 As três temporadas

1. Koihime†Musou — 2008

Aisha e Rinrin estão no centro.

É a temporada que estabelece o universo.

Mais episódica.

Mais “viagem”.

2. Shin Koihime†Musou — 2009

Amplia consideravelmente elenco e relações.

Ryūbi ganha grande importância.

Começa a parecer mais claramente uma enorme releitura do universo dos Três Reinos.

3. Shin Koihime†Musou: Otome Tairan — 2010

Expande novamente os conflitos e reúne personagens/facções.

As temporadas 2 e 3 também foram produzidas pela Doga Kobo e dirigidas por Nobuaki Nakanishi. 


🎬 Doga Kobo antes da fama moderna

Esse detalhe hoje é divertido.

O estúdio é Doga Kobo.

Décadas depois, o nome ficaria associado a produções muito conhecidas do público moderno.

Mas Koihime†Musou pertence a uma fase anterior do estúdio.

O visual denuncia imediatamente o período.

É anime de 2008 sem vergonha de ser anime de 2008.

Olhos grandes.

Design extremamente colorido.

Cabelos que desafiam genética, gravidade e provavelmente algumas convenções internacionais.

Moe.

Super-deformed ocasional.

Fanservice.

CG e composição relativamente modestos em comparação com produções modernas.

Há registros inclusive de que a edição televisiva e os posteriores masters japoneses em DVD tiveram diferenças e melhorias de animação.


🧭 A aventura é mais importante que a guerra

Curiosamente, aquilo que define Romance dos Três Reinos — a gigantesca luta político-militar — não domina a primeira temporada.

Ela funciona quase como introdução ao mundo.

Essa foi uma escolha inteligente.

Tentar apresentar imediatamente dezenas de generais, facções, alianças e traições seria como ensinar z/OS dizendo:

“Hoje começaremos por explicar JES2, RACF, WLM, Db2, CICS, VTAM, SMS, Sysplex e SMP/E.”

Aluno:

“Professor, onde liga?”

Koihime começa pequeno.

Uma guerreira.

Uma garota.

Uma estrada.

Um problema.

Depois amplia o mapa.


🧩 A linguagem dos dois nomes

Outro detalhe divertido para quem entra na franquia:

muitas personagens possuem mais de um nome pelo qual são chamadas.

Por exemplo:

Kan'u → Aisha
Chōhi → Rinrin
Sōsō → Karin
Ryūbi → Tōka
Shokatsuryō → Shuri

Isso deriva da maneira pela qual a franquia brinca com nomes, nomes de cortesia e equivalentes dos personagens históricos.

No começo parece documentação escrita por cinco fornecedores.

Depois você acostuma.


🏯 Japão reinterpretando China

Aqui existe uma camada cultural bem mais rica.

Koihime†Musou não é apenas uma transformação sexualizada de personagens históricos.

Ele participa de uma longa história japonesa de apropriação, tradução e reinterpretação de narrativas chinesas.

Romance dos Três Reinos possui enorme influência no Japão.

Mangás.

Animes.

Games.

Romances.

Estratégia.

Produtos históricos.

A Koei praticamente construiu uma indústria inteira em torno de Sangokushi.

Koihime representa uma manifestação particularmente japonesa desse fenômeno:

“Nós conhecemos tão bem esses personagens que podemos desconstruí-los e ainda esperar que vocês reconheçam quem são.”

A piada funciona justamente porque o original já é culturalmente conhecido.


🧠 A mensagem secreta: história é código-fonte

Talvez esta seja a leitura Bellacosa perfeita.

Nós costumamos imaginar clássicos como objetos imóveis.

Um livro existe.

Sua história está terminada.

Não toque.

Mas cultura nunca funcionou assim.

As histórias são continuamente recompiladas.

Roma recompilou Grécia.

Europa recompilou Roma.

Hollywood recompila mitologia.

Anime recompila literatura europeia.

E Koihime†Musou recompila Romance dos Três Reinos.

SOURCE:
  SANGUO-YANYI.CBL

VERSION 1:
  CHINA

VERSION 2007:
  BASESON

VERSION 2008:
  DOGA-KOBO

O source ancestral continua reconhecível.

O executável mudou completamente.


🌍 Impacto cultural

Seria exagerado colocar Koihime†Musou ao lado de fenômenos globais como Dragon Ball, Evangelion ou Pokémon.

Seu impacto é mais específico.

Mas dentro do universo de visual novels, eroge, bishōjo games e franquias gender-swap de figuras históricas, Koihime tornou-se uma franquia duradoura.

A prova está justamente na quantidade de continuações, games, mangás, fan discs e adaptações produzidas desde o lançamento original.

O conceito revelou-se extraordinariamente reutilizável.

A cada novo personagem histórico havia praticamente:

INPUT:
FIGURA DOS TRÊS REINOS

OUTPUT:
NOVA GAROTA
NOVA PERSONALIDADE
NOVA ROTA
NOVA MERCADORIA

É um modelo industrial brilhantemente japonês.


🧐 O que Koihime†Musou tem de diferente?

No papel, vários elementos parecem comuns:

ecchi;

moe;

garotas guerreiras;

elenco gigantesco;

visual novel;

fanservice.

O diferencial está na combinação.

Poucos animes podem dizer:

“Minha genealogia intelectual começa numa obra chinesa do século XIV, passa por guerras do século III, entra num eroge japonês de 2007 e termina numa menina pequena representando Zhang Fei discutindo comida.”

Isso é patrimônio cultural ou bug.

Provavelmente os dois.


🔞 Classificação

A classificação precisa distinguir as mídias.

O jogo original para PC é uma obra adulta/eroge, com conteúdo sexual explícito.

O anime de televisão não é hentai.

Ele contém ecchi, nudez/fanservice parcial, piadas sexuais, sugestão de relações entre personagens e violência fantasiosa, mas foi concebido como produto televisivo muito mais moderado.

Portanto:

Koihime†Musou anime ≠ hentai.

Koihime†Musou visual novel original = eroge/adult game.

Confundir os dois é como confundir CICS Transaction Server com um programa COBOL que roda nele.

Relacionados?

Sim.

A mesma coisa?

Nem de longe.


❤️ E talvez aqui esteja o charme

Se você entrar esperando uma adaptação historicamente rigorosa dos Três Reinos, Koihime†Musou provavelmente causará um pequeno aneurisma acadêmico.

Se entrar esperando pornografia porque descobriu que veio de um eroge, provavelmente também ficará surpreso.

Se entrar esperando apenas batalha, idem.

O anime funciona melhor quando você aceita sua verdadeira natureza:

uma viagem cômica por uma China imaginária, povoada por versões femininas de personagens lendários, onde amizade e aventura importam mais que fidelidade histórica.

E existe algo estranhamente encantador nisso.

Aisha continua andando.

Rinrin continua se metendo em problemas.

Shuri continua pensando dez passos à frente.

Karin continua convencida de que deveria administrar tudo.

E dois mil anos de história chinesa observam silenciosamente enquanto o Japão transforma seus generais em garotas moe.


🖥️ O diagnóstico Bellacosa

Se Romance dos Três Reinos fosse um sistema legado, Koihime†Musou seria aquele projeto de modernização que chegasse dizendo:

“Não alteraremos a lógica fundamental.”

Então você abriria o pacote de implantação.

CHANGE REQUEST #2007

Alterações:

[x] Frontend substituído
[x] Sexo dos usuários alterado
[x] Arquitetura política simplificada
[x] Protagonista removido
[x] Fanservice instalado
[x] Moe habilitado
[x] Yuri opcional
[x] Comédia ativada
[x] Guan Yu recompilado
[x] Cao Cao recompilado
[x] Zhuge Liang recompilado

CAB:

“E a compatibilidade?”

BaseSon:

“Mais ou menos.”

Doga Kobo:

“Rodou em homologação.”

Historiador:

“EU NÃO APROVEI ISSO!”

Operações:

IEF142I KOIHIME STEP01 - STEP WAS EXECUTED
IEF285I MAXCC=0000

E é justamente aí que mora a graça.

Koihime†Musou pega algo antiquíssimo, respeitado e monumental e prova que um clássico permanece vivo justamente porque alguém ainda tem coragem de fazer coisas absurdas com ele.

Não substitui Romance dos Três Reinos.

Não pretende fazê-lo.

É outra coisa.

É um fork.

Um fork japonês, ecchi, colorido, absolutamente improvável...

...e que, contra todas as boas práticas de Change Management, funciona. ⚔️🌸 

# Bloco HTML/CSS/JS para Blogspot — Koihime†Musou Trilogy
☕ Bellacosa Mainframe Anime Archive

Koihime†Musou — Os Três Reinos Recompilados em Modo Moe

Três artigos conectados sobre Koihime†Musou, Shin Koihime†Musou e Otome Tairan: história chinesa, anime, ecchi, gender swap, BaseSon, Doga Kobo, games, mangás, personagens e o estranho momento em que Shu, Wei e Wu viraram praticamente LPARs.

//KOIHIME JOB CLASS=A,MSGCLASS=X
//SANGOKU EXEC PGM=RECOMPILE
//PARM DD *
GENDER-SWAP, MOE, ECCHI, HISTORY, COMEDY
/*
IEF285I SHU ONLINE
IEF285I WEI ONLINE
IEF285I WU ONLINE
IEF142I MAXCC=0000
2008 · RELEASE 1

Koihime†Musou

O ponto de partida: Guan Yu, Zhang Fei, Cao Cao e os Três Reinos passam pelo compilador moe e viram uma road movie histórica, cômica e ecchi.

2009 · RELEASE 2

Shin Koihime†Musou

A chegada de Ryūbi/Tōka expande o mapa: mais facções, mais estratégia, mais personagens e o nascimento do verdadeiro Sysplex dos Três Reinos.

2010 · RELEASE 3

Shin Koihime†Musou: Otome Tairan

Shu, Wei e Wu convergem: amizade, rivalidade, estratégia, guerras, fanservice e um enorme elenco entram simultaneamente em produção.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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