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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

O Café com Gosto de Saudade Enquanto o Tempo Voa

Bellacosa Mainframe e saudade enquanto vejo o tempo passar

 ☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Café com Gosto de Saudade Enquanto o Tempo Voa

Ou: quando o ano da infância demorava uma eternidade, a vida adulta virou processamento em lote, os boletos assumiram o calendário — e uma velha amiga chamada Lili continuou chamando seu capitão muito depois de o canal ter sido encerrado

Há uma conspiração envolvendo o tempo que ninguém nos explica quando somos crianças.

Talvez porque nenhuma criança acreditasse.

Aos oito anos, um ano não era uma unidade de medida. Era uma cordilheira. Um território imenso, dividido por acontecimentos que pareciam separados por eras geológicas: aniversário, Páscoa, férias de julho, Dia das Crianças e Natal.

Quando janeiro começava, dezembro ficava do outro lado do universo conhecido.

Era preciso atravessar uma nova série escolar, conhecer outra professora, encapar cadernos, copiar matéria, fazer lição de casa, estudar para provas, montar trabalhos em grupo e descobrir que “trabalho em grupo” significava uma criança trabalhando enquanto quatro colegas contribuíam com cartolina, cola, confusão e desaparecimento estratégico.

Cada bimestre parecia uma administração presidencial completa.

A professora anunciava:

— A prova será na próxima semana.

E a próxima semana levava aproximadamente três anos para chegar.

Depois vinha a espera pelo aniversário. Os dias eram riscados no calendário um a um. Faltavam vinte, dezenove, dezoito… O relógio parecia carregado por funcionários públicos romanos, transportando cada minuto em carrinhos individuais.

A ampulheta trabalhava honestamente.

Grão por grão.

Então crescemos.

Em algum momento, sem qualquer comunicado oficial, alguém substituiu a ampulheta por um processador paralelo.

Piscamos os olhos e chegaram as férias.

Piscamos novamente e apareceu o décimo terceiro.

Entramos num projeto, participamos do kickoff, discutimos escopo, cronograma, riscos e dependências. Alguém abriu uma apresentação com quarenta e sete slides explicando que tínhamos tempo suficiente.

Duas reuniões depois, o líder surgiu com os olhos arregalados:

— Gente, gente, precisamos dar um gás. A implantação é na semana que vem.

Como assim, semana que vem?

O kickoff não foi ontem?

Não. O kickoff aconteceu seis meses atrás. Entre uma conferência, uma homologação, três mudanças de requisito e quarenta reuniões que poderiam ter sido e-mails, o tempo executou um SORT FIELDS=COPY e transferiu metade do ano para algum volume que ninguém consegue mais localizar.

Na meia-idade, a transformação finalmente se completa.

O calendário deixa de ser marcado por festas, férias ou projetos.

Passa a ser controlado por boletos.

Dia 1.

Dia 15.

Dia 20.

Dia 25.

Dia 27.

Eles aparecem com tamanha frequência que às vezes olhamos para uma conta e pensamos:

— Porra, mas eu já paguei isso.

Durante meio segundo, imaginamos uma cobrança duplicada, um erro bancário ou uma fraude sofisticada envolvendo uma organização criminosa especializada em contas de energia.

Então consultamos o aplicativo e descobrimos a verdade mais ofensiva:

Nós realmente pagamos.

Mas foi no mês passado.

Outro mês inteiro passou enquanto estávamos olhando para outro lado.

O relógio cuco do capitalismo

O boleto é o relógio cuco da vida adulta.

Periodicamente, ele põe a cabeça para fora da parede e anuncia:

CUCO! VOCÊ CONSUMIU MAIS UM PEDAÇO DA SUA EXISTÊNCIA!

Não interessa se o mês teve trinta ou trinta e um dias. Não interessa se enfrentamos uma crise, concluímos um curso, escrevemos um artigo, começamos uma dieta ou juramos que finalmente organizaríamos aquela gaveta.

O boleto retorna.

Pontual, impassível e rejuvenescido.

Nós envelhecemos. Ele não.

Talvez os boletos sejam os únicos objetos conhecidos capazes de atravessar o espaço-tempo sem sofrer dilatação relativística. Einstein deveria ter incluído uma conta de condomínio em seus experimentos mentais.

Mas essa aceleração não acontece apenas porque ficamos mais velhos.

Quando temos dez anos, um ano representa 10% de toda a vida que conhecemos. Aos cinquenta, corresponde a menos de 2%. A mesma duração ocupa uma proporção muito menor da nossa biografia.

Existe também a maneira como o cérebro arquiva os acontecimentos.

A infância é cheia de primeiras vezes: a primeira professora, o primeiro amigo, a primeira excursão, a primeira bicicleta, o primeiro beijo, o primeiro cachorro, a primeira vez em que somos escolhidos por último para o time e descobrimos que a meritocracia termina quando alguém entrega uma bola a duas crianças populares.

Novidade produz memória.

Memória produz marcos.

Marcos fazem o passado parecer extenso.

A rotina adulta, entretanto, é um gigantesco processamento em lote:

LER E-MAIL
TRABALHAR
PAGAR CONTA
COMPRAR CAFÉ
PARTICIPAR DE REUNIÃO
DORMIR
REPEAT UNTIL FIM-DOS-TEMPOS

Como muitos dias se parecem, o cérebro não os conserva individualmente. Ele aplica compactação.

Trinta dias entram no arquivo.

Três lembranças saem.

Depois consultamos o diretório da memória, encontramos poucos registros e concluímos:

— Este mês passou voando.

O tempo talvez não tenha acelerado.

Fomos nós que deixamos de enxergar seus grãos.

As pessoas que saíram antes do fechamento

Mas existe outra mudança muito mais difícil de aceitar.

Na infância, quase todas as pessoas parecem permanentes.

Pais, professores, vizinhos, colegas, tios, avós e amigos habitam o mundo como se fossem parte de sua infraestrutura. Mesmo quando alguém muda de escola, de bairro ou de cidade, imaginamos que continua vivendo normalmente em algum bastidor, aguardando uma próxima aparição.

É como uma personagem que saiu de cena, mas permanece contratada pela série.

Na meia-idade, começamos a compreender que nem todos retornarão na próxima temporada.

Algumas pessoas desaparecem aos poucos. Mudam de emprego, vão morar longe, deixam de telefonar. A amizade não termina numa briga nem numa cerimônia. Apenas passa a ocupar intervalos maiores.

Outras continuam próximas apesar da distância.

E algumas partem definitivamente.

O aspecto mais cruel é que quase nunca sabemos quando estamos diante de alguém pela última vez.

Não há música triste.

Não há câmera lenta.

Nenhum operador envia uma mensagem:

WTOR IEC999I
ATENÇÃO, CAPITÃO:
ESTA É A ÚLTIMA CONVERSA.
DESEJA PROSSEGUIR? S/N

A última vez chega disfarçada de dia comum.

Uma ligação.

Um café.

Uma mensagem de aniversário.

Uma risada no WhatsApp.

Somente depois ela recebe esse nome.

Lili entra no programa

Lilian Yumi — a Lili — entrou nesta história em 1997, nos corredores do programa de trainees do Banco Real, depois de um sorteio de amigo secreto e por fim trabalhando quase 4 anos juntos num mesmo sistema.

Certas amizades começam com grandes afinidades filosóficas.

Outras começam porque alguém colocou dois nomes em pedaços de papel.

A amizade atravessou quase três décadas.

Durante cerca de cinco anos, trabalhamos frente a frente, no meio da turbulência envolvendo Banco Real e ABN AMRO. Era um período de sistemas, pressões, mudanças, café, decisões, conversas e aquela sensação muito conhecida de que uma organização inteira estava sendo modificada enquanto as pessoas tentavam continuar trabalhando como se tudo estivesse perfeitamente normal.

Lili era intensa.

Escorpiana no modo ON FIRE.

Ela me chamava de Capitão, como era conhecido pelos colegas trainnes, pois brincavamos de USS Enterprise em meios aqueles velhos 3270 na Rua 24 de Maio no centro de São Paulo.

E possuía um método próprio de gerenciamento de estresse que provavelmente não seria aprovado por nenhum departamento moderno de Recursos Humanos.

Às vezes aplicava um cascudo.

Em outras ocasiões, um beliscão no braço.

Havia também reguadas e até chutes na canela registrados na documentação histórica.

Tudo acompanhado por um lindo sorriso e pela explicação técnica:

— Precisava descomprimir.

Eu era, aparentemente, uma espécie de válvula humana para alívio de pressão operacional.

Hoje, uma consultoria chamaria aquilo de “estratégia presencial de liberação rápida de tensão em ambiente de missão crítica”. Na época, era simplesmente Lili castigando o capitão e voltando satisfeita ao trabalho.

Mas nossa amizade não vivia apenas dessas pequenas agressões afetivas.

Havia a máquina de café.

Os origamis.

A surpresa dela ao me ver usando hashi.

A enorme bola de wasabi — um artefato culinário capaz de abrir todos os canais respiratórios e talvez estabelecer contato direto com os antepassados.

Havia o Buscopan em gotas e o aviso de mau humor.

A brincadeira dos quase vinte “porquês”.

A troca de livros.

E aquelas conversas malucas que parecem não ter importância quando acontecem, mas décadas depois se revelam parte fundamental da arquitetura de uma vida.

Nós raramente percebemos quais momentos estão sendo gravados no arquivo permanente.

Do processamento on-line para o assíncrono

Depois do Banco Real, não deixamos simplesmente de existir um para o outro.

Ainda nos encontramos algumas vezes antes de ela partir para o Canadá.

Depois vieram os e-mails.

Mais tarde, as conversas pelo WhatsApp.

A amizade mudou de infraestrutura, mas o canal continuou aberto.

Saímos do processamento on-line — cinco anos trabalhando frente a frente — para uma comunicação assíncrona atravessando fronteiras. As mensagens podiam levar algum tempo. Os encontros tornaram-se raros. Mas bastavam algumas palavras para recuperar aquela intimidade construída no banco.

Amizades verdadeiras possuem compatibilidade retroativa.

Você pode trocar de cidade, país, emprego, cabelo, telefone, sistema operacional e até opinião sobre algumas coisas. Quando a conversa recomeça, o protocolo ainda funciona.

No ano em que Lili partiu, conversamos no meu aniversário.

Demos risada.

Era apenas mais uma conversa entre duas pessoas que haviam atravessado décadas carregando uma coleção particular de histórias.

Quem poderia imaginar que, meses depois, chegaria a triste notícia?

O cérebro volta à última conversa procurando algum sinal.

Uma frase diferente.

Uma pausa.

Um presságio escondido entre as palavras.

Qualquer aviso de que aquela janela não seria aberta novamente.

Mas provavelmente não havia nada.

Havia somente uma conversa de aniversário e duas pessoas rindo porque ambas imaginavam, como naturalmente imaginamos, que outras conversas aconteceriam.

A última vez só se torna a última vez retroativamente.

Enquanto acontece, é apenas a vida.

Nenhum botão para salvar a sessão

Talvez essa seja uma das descobertas mais brutais da maturidade: frequentemente nos despedimos sem saber que estamos nos despedindo.

Dizemos “até mais” quando não haverá mais.

Fechamos uma janela acreditando que poderemos abri-la novamente.

Deixamos uma mensagem para responder depois.

Adíamos uma visita.

Não porque não amamos aquela pessoa, mas porque o futuro sempre parece conter espaço suficiente.

O amanhã é o maior fornecedor de capacidade computacional imaginária da humanidade.

Amanhã telefonamos.

Amanhã encontramos.

Amanhã tomamos café.

Amanhã contamos aquela história.

Até o dia em que o sistema informa que o recurso não está mais disponível.

Não existe botão para restaurar a sessão.

Isso não significa que devamos viver aterrorizados, tratando cada conversa como uma despedida fúnebre. Seria impossível e até cruel. A beleza de muitas relações está justamente na naturalidade: poder rir sem imaginar que estamos produzindo uma lembrança histórica.

Mas talvez possamos prestar um pouco mais de atenção.

Responder uma mensagem.

Fazer aquela ligação.

Tomar aquele café.

Dizer o que precisa ser dito enquanto o canal continua aberto.

Não para derrotar o tempo.

Apenas para deixar menos jobs importantes aguardando na fila.

A memória descomprime o arquivo

E aqui aparece uma ironia que parece escrita por algum roteirista especialmente atento aos detalhes.

Lili dizia:

— Precisava descomprimir.

Décadas depois, é exatamente isso que a memória faz.

Ela encontra um arquivo antigo, aparentemente esquecido entre milhares de registros, e começa a descomprimi-lo.

De repente retornam a voz, o sorriso, os origamis, a máquina de café, o wasabi, o hashi, o Buscopan, os “porquês”, os livros, as conversas e o cascudo que provavelmente chegou sem qualquer aviso de segurança.

Por alguns segundos, o Canadá desaparece.

O tempo desaparece.

A notícia triste desaparece.

Estamos novamente no banco.

Ela olha para mim.

— Capitão.

E algum gesto vem logo em seguida.

Não é imaginação no sentido de fabricar algo que nunca existiu. É a memória reconstituindo uma presença a partir dos registros que sobreviveram.

Pessoas importantes deixam pequenos programas residentes em nós.

Elas alteram nosso vocabulário, nossos hábitos, nossas referências e a maneira como reagimos a determinadas palavras. Depois que partem, continuam sendo executadas em situações inesperadas.

Uma música toca.

Um aroma aparece.

Alguém dobra um papel.

Uma pessoa usa hashi.

Outra exagera no wasabi.

E o programa residente acorda.

Lili não existe apenas nas grandes datas. Está preservada na palavra “capitão” de uma maneira que ninguém mais conseguiria pronunciar exatamente igual.

Essa talvez seja a forma mais profunda de permanência disponível aos seres humanos.

O café com gosto de saudade

O café da juventude era combustível.

O café do trabalho era uma pequena rebelião contra o expediente, uma desculpa para abandonar a cadeira e conversar cinco minutos diante de uma máquina que produzia uma bebida de qualidade duvidosa.

O café da maturidade contém outras coisas.

Tem gosto de lugares que mudaram.

De empresas que trocaram de nome.

De salas desmontadas.

De amigos espalhados pelo mundo.

De gente que prometeu aparecer e nunca apareceu.

De pessoas que apareceram na hora errada.

E de pessoas que, mesmo partindo cedo demais, chegaram no momento exato para se tornar parte de nós.

É um café com gosto de saudade.

Saudade não é apenas tristeza. É a evidência de que alguma coisa foi importante o suficiente para deixar uma ausência.

Sentimos saudade porque houve presença.

Porque houve riso.

Porque houve amizade.

Porque alguém nos chamou por um nome que parecia comum na época e se tornou insubstituível depois.

Como impedir que a vida passe sem deixar log

Não podemos fazer o tempo voltar à velocidade da infância.

Os aniversários continuarão chegando mais depressa.

Os projetos continuarão começando com cronogramas confortáveis e terminando com alguém gritando que precisamos “dar um gás”.

Os boletos continuarão surgindo nos dias 1, 15, 20, 25 e 27 com a regularidade de um relógio atômico mal-intencionado.

Também não podemos impedir todas as despedidas.

Mas podemos lutar contra a compactação excessiva da existência.

Podemos aprender alguma coisa nova.

Viajar.

Escrever.

Telefonar.

Ouvir uma história até o fim.

Guardar uma fotografia.

Responder a um amigo.

Criar pequenos marcos que obriguem o cérebro a registrar que aquele mês não foi somente mais uma execução do mesmo job.

E podemos contar histórias sobre quem partiu.

Não para transformar pessoas em personagens perfeitos, mas para preservar justamente suas imperfeições maravilhosas: o cascudo, o beliscão, o chute na canela, o excesso de wasabi, o mau humor anunciado pelo Buscopan e a necessidade absolutamente inexplicável de descomprimir em cima do capitão.

Enquanto essas histórias forem contadas, o tempo não terá conseguido levar tudo.

Epílogo — Ainda em execução

Talvez o verdadeiro problema da meia-idade não seja perceber que o tempo passa depressa.

É descobrir que ele sempre esteve passando e que, durante muitos anos, acreditamos possuir uma quantidade ilimitada dele.

Na infância, esperávamos o Natal.

Na juventude, esperávamos o futuro.

Na vida profissional, esperávamos a implantação.

Agora esperamos o próximo boleto — e tentamos lembrar se já pagamos o anterior.

Mas, entre um vencimento e outro, às vezes uma pessoa retorna.

Não fisicamente.

Retorna em uma frase, numa risada, numa lembrança que atravessa décadas e abre a porta do datacenter sem apresentar crachá.

Lili apareceu novamente enquanto falávamos sobre a velocidade do tempo.

Veio do Banco Real, passou pelo Canadá, atravessou e-mails, mensagens, aniversários e anos inteiros. Aproximou-se do console, olhou para aquele homem de meia-idade tentando entender para onde foram todos os meses e chamou:

— Capitão.

Talvez tenha dado um cascudo.

Talvez apenas tenha sorrido.

A memória nem sempre precisa escolher.

O importante é que, por alguns instantes, ela esteve aqui.

O boleto marca o mês que chegou.

A saudade marca a pessoa que não volta.

E o café, esfriando ao lado do teclado, guarda os dois: a pressa absurda do tempo e a permanência inexplicável do afeto.

No fim, talvez não exista uma maneira de desacelerar a viagem.

Mas existe uma forma de não desaparecer completamente durante o percurso:

deixar histórias nos outros.

Lili deixou.

O job terminou há algum tempo.

O programa continua em execução.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

💫 Adeus, Lili — Crônica de uma amizade que atravessou oceanos

 


💫 Adeus, Lili — Crônica de uma amizade que atravessou oceanos
Por El Jefe, no Bellacosa Mainframe Midnight Edition

Existem amizades que não nascem de explosões épicas ou grandes coincidências do destino — mas de pequenas linhas de código da vida, compiladas com carinho ao longo dos anos. A minha com a Lili começou assim, em 1997, nos corredores do programa de trainees do Banco Real. Cada um na sua turma, cada um com sua pressa e sonhos. Mas, por um bug do universo — ou talvez uma benção — no sorteio do amigo secreto, caiu o nome dela: Lilian Yumi.



A partir dali, começou a rodar um job que duraria quase três décadas, com checkpoints de risadas, abends de brigas e reprocessamentos de amizade que só quem viveu entende.

Lili era intensa. Escorpiana no modo ON FIRE. daquelas que quando ficava brava, o ambiente inteiro dava abend S0C7. Às vezes, a fúria era contra mim — o “Capitão”, como ela gostava de me chamar. 

Brava, decidida, dona de uma energia que iluminava o andar inteiro — e às vezes queimava um ou outro no processo (eu, especialmente 😅). Quando algo saía do controle, ela vinha com a fúria típica do signo... e eu virava o alvo. 



Mas bastava o dump esfriar que vinha aquele jeitinho doce, um sorrisinho meio sem jeito e o clássico:

“Desculpa, Capitão. Foi mal.”

Aí ríamos juntos. Ríamos muito.
Ríamos da vida, dos bugs, das gambiarras, dos pepinos do sistema e dos planos malucos que fazíamos nas Horas Felizes — nosso ritual sagrado de toda semana. Fosse a marmita dividida no refeitório, fosse um restaurante étnico qualquer, o importante era estarmos juntos: eu, ela, o grupo, as histórias, as confabulações.



Conheci seus namorados — Henrique, Tokunaga, e o Alexandre, que acabou incorporado oficialmente ao grupo, como um novo módulo num sistema legado de amizade.



Em 2002, meu destino me levou para Portugal. Mas mesmo com o Atlântico no meio, nunca deixamos de manter a thread viva: emails, mensagens, reencontros ocasionais. Cada vez que eu voltava ao Brasil, lá estava ela — o mesmo sorriso, as mesmas histórias, as mesmas piadas internas que só quem viveu o Mainframe e o Banco Real entenderia.




Em 2013 voltei de vez. E a roda girou de novo — agora era ela quem partia. Canadá, novas terras, novos sonhos. A vida muda o cenário, mas nunca o vínculo.

Da época que trabalhávamos juntos, me lembro dos origamis que enfeitavam sua mesa, dos pequeninos pokemons e guardo com carinho quando começou a jornada dos mil tsurus... às vezes ajudava cortando o papel, às vezes ajudando a dobrar, era uma farra, momentos lúdicos entre um abend ou outro. Lembro dos códigos secretos e pings no computador avisando algo, que estava acontecendo no andar, ou mesmo a linguagem secreta, ao ve-la pela manha pingando buscapan na boca, sabia que aqueles dias seriam de pisar em ovos, senão levava com taco de beisebol na cabeça. A também tinha a fuga para a maquina do café e fofocas aleatórias sobre filmes, series, animes, livros, mangas, gibis e Pokémons.

Hoje, ao escrever estas linhas na penumbra da madrugada — quando as ideias ecoam e as lembranças gritam mais alto — percebo o quanto essas Horas Felizes foram um checkpoint eterno na minha história.

A Lili partiu.
Mas o job da amizade continua rodando — lá, em algum sistema maior, onde as exceções são tratadas com amor e as memórias nunca dão abend.



Adeus, Lili.
Obrigado pelas risadas, pelas broncas, pelos almoços, pelas confabulações e por ter deixado tanta luz no meu spool de lembranças.
Enquanto eu viver, o log da nossa amizade continuará ativo.

☕💻
*E lá no topo do JCL da vida, deixo registrado: //LILI FOREVER EXEC PGM=FRIENDSHIP


PS: 📓 Uma história real nascida nos bastidores do Banco Real, escrita nas madrugadas do El Jefe Midnight Lunch





🕯️ Em memória de Lilian Yumi Nishimaru (1979–2023)
👨‍💻 Por Vagner Bellacosa


📍 Blog El Jefe Midnight Lunch — onde a madrugada é produtiva, o coração é nostálgico e o Mainframe é eterno.



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

🕊️ Origami Tsuru — A Lenda do Milagre de Papel: Quando um Dobrar Significa Esperança 🕊️

 


🕊️ Origami Tsuru — A Lenda do Milagre de Papel: Quando um Dobrar Significa Esperança 🕊️
Por El Jefe, direto do Bellacosa Mainframe Universe


Se tem uma coisa que o Japão faz como ninguém, é transformar o simples em sagrado.
E nenhum símbolo expressa isso tão bem quanto o origami tsuru (折り鶴) — o famoso grou de papel, dobrado com devoção, esperança e uma pontinha de mágica ancestral.

Não é só um enfeite, nem apenas uma dobradura.
O tsuru é praticamente um Hello World espiritual do Japão: simples, elegante e cheio de significado oculto.


🏮 A Origem: O Voo do Grou Eterno

A palavra origami vem de 折る (oru, dobrar) e 紙 (kami, papel).
Mas o tsuru tem história muito mais antiga.

Na cultura japonesa, o tsuru (grou) é uma ave sagrada, símbolo de longevidade, fidelidade e boa sorte.
Diz a lenda que o grou vive mil anos, e por isso, quem dobrar mil tsurus terá seu desejo realizado pelos deuses.

Essa crença ficou famosa no pós-guerra, com uma menina chamada Sadako Sasaki, vítima da bomba de Hiroshima.
Mesmo doente de leucemia, ela começou a dobrar mil tsurus para pedir a cura — e, mesmo não sobrevivendo, seu gesto virou símbolo mundial da paz e da esperança.
Hoje, há uma estátua de Sadako segurando um tsuru dourado no Parque da Paz de Hiroshima.

📜 “Este é o meu desejo: que todos os povos do mundo vivam em paz.” — Sadako Sasaki




🪶 O Significado: Mais que Papel

O tsuru não é apenas um amuleto de sorte.
Dobrá-lo é um ato meditativo, quase zen: cada vinco representa um pensamento, um pedido, uma oração.
É por isso que no Japão, origamis são usados em casamentos, nascimentos e até no Ano Novo — como votos de prosperidade.

E, sim, dobrar um tsuru “de coração” é bem diferente de seguir um tutorial do YouTube.
(O segredo está no respeito ao processo, não na perfeição da dobra.)


🎐 Curiosidades e Fofoquices Nipônicas

💡 1. Mil tsurus, um desejo:
O conjunto com 1000 dobraduras chama-se Senbazuru (千羽鶴) — e é tradicional pendurá-lo em templos ou enviar a pessoas enfermas como bênção.

💡 2. O desafio dos samurais:
Diz-se que os samurais dobravam tsurus para exercitar paciência e precisão antes de batalhas.

💡 3. Origami hacker:
No Japão moderno, engenheiros usam o conceito do tsuru para desenvolver satélites dobráveis e airbags inteligentes — engenharia inspirada na tradição.

💡 4. Casamento em papel:
Em cerimônias tradicionais, noivos trocam tsurus dourados e prateados — simbolizando fidelidade eterna (já que grous, na natureza, têm apenas um parceiro para toda a vida).

💡 5. Easter Egg Bellacosa:
Nos antigos mainframes da Fujitsu, havia um easter egg escondido num código de teste que imprimia um tsuru em ASCII art. (Sim, os devs japoneses são poetas também.)


📺 Animes que Citaram o Tsuru

🎬 Grave of the Fireflies (Hotaru no Haka) – o tsuru aparece como símbolo da inocência perdida na guerra.
🎬 Naruto – Itachi e Sasuke aparecem dobrando papéis, referência indireta ao tsuru e à tradição de desejos.
🎬 Bleach – em momentos de luto, personagens dobram pássaros de papel como oferendas.
🎬 Your Name (Kimi no Na wa) – a ideia de “destinos conectados por fios invisíveis” é inspirada na filosofia do tsuru.
🎬 One Piece – há uma personagem chamada Tsuru, símbolo da sabedoria e da calma em meio ao caos (nada é coincidência).

E claro, “Sadako and the Thousand Paper Cranes” virou filme e anime educativo — obrigatório nas escolas japonesas.


🪞 Dica Bellacosa: Dobre Seu Tsuru Digital

Quer sentir o espírito do festival?
Pegue uma folha de papel (ou um pedaço de punch card aposentado 🖨️), respire fundo, e siga as dobras.
Enquanto dobra, pense num desejo — de paz, de saúde, de amor, ou daquele abend que você quer resolver sem stress.

Se quiser ir além, há sites e apps que simulam a dobra em 3D — e até tsurus NFT (sim, o Japão também mergulhou nessa).


💭 Bellacosa Reflexão

O tsuru é um lembrete de que a delicadeza é também uma forma de força.

Dobrar mil vezes o mesmo papel é, no fundo, uma aula sobre paciência, fé e repetição com propósito — algo que todo mainframe coder entende muito bem.

Lembranças que guardo com carinho, a imagem da minha amiga Lilian Yumi, que entre uma compilação e outra de programas PLI, ou enquanto esperávamos a fila de compilação no SDSF. Ela costumava fazer origamis e teve uma época que ela começou a missão Tsuru, sua mesa começou a lotar com dezenas destes pequeninos grous.

Porque, convenhamos: compilar um COBOL sem erro também é uma forma de meditação zen. 😌


📜 Easter Egg Final:
No Japão, dizem que se você sonhar com um tsuru voando, um novo ciclo está começando.
Então, se na próxima madrugada de deploy você ver algo voando pelo data center...
Talvez não seja um bug. Pode ser sorte batendo asas. 🕊️


domingo, 13 de maio de 2018

📟🌸 “ABEND NO SISTEMA, FOME NO SISTEMA — UM DIA COMUM NO ANTIGO ABN AMRO REAL”

 


📟🌸 “ABEND NO SISTEMA, FOME NO SISTEMA — UM DIA COMUM NO ANTIGO ABN AMRO REAL”
Crônica Bellacosa Mainframe para os padawans otakus com CPF ativo e saudade de São Paulo raiz


Estamos em 1999, avenida Paulista, coração financeiro do Brasil, ainda atarefados com a fusão do banco, as correções do bug do milenio, o famoso Y2k. Mas era um dia absolutamente comum no antigo ABN AMRO Real, aquele prédio onde a gente sabia que se o CICS estivesse lento, provavelmente a cafeteria também estaria, entupida de analistas parlapiando. Eu e a Lili estávamos naquela conversa matinal clássica de quem já sobreviveu a mais dumps do que relacionamentos:

“Capitão, você já viu esse ABEND S0C7? Seu programa de rateio de acionista,, aqui tá mastigando alfanumérico como se fosse RAMEN.”
“Manda o dump, Lili… vamos ver qual tabela ODO explodiu desta vez.”



Enquanto o SYSLOG cuspia mensagens $HASP e o RACF fazia aquele “não vai passar!” digno de Gandalf corporativo, monte de memos enviados a Analise de Produção e naquele status de waiting, quando a conversa desandou — como sempre — para comidas japonesas.

Porque é isso: nada une mais um time de mainframe do que COBOL e carboidratos.







🍙 ONIGUIRI — O Capitão jurava que era coxinha triangular

Lili, com a sabedoria ancestral de quem já brigou com VSAM RLS, disse:

“Lili, não se estresse, mas eu sempre achei que oniguiri era tipo uma coxinha de sushi.”

E Lili, já em modo senpai, mas quase tacando o teclado na minha cabeça:

“Oniguiri é arroz moldado com carinho e desespero… tipo adaptar copybook novo às 11h58 antes de virar janela.”

Falamos de umeboshi, nori, triângulos, e daquela clássica cena dos animes em que o herói segura o oniguiri com brilho mágico como se fosse um “recupera arquivo perdido” do SDSF.


🍢 DANGO — O trio bolinha que parece job rodando em classe A

Eu ri:

“Dango parece spool: tudo em filinha.”

E a Lili:

“E quando vem com molho mitarashi, parece até que passaram caramelo na JCL pra ver se roda mais rápido.”

Já estávamos naquele nível da fome em que qualquer objeto circular virava comida.


🍰 CASTELLA — O bolo que engana qualquer analista no horário da tarde

Este curioso e atrapalhado amigo:

“Esse é aquele bolo de mel que parece pão de ló?”

Lili no comando...


“Sim, o bolo importado pelos portugueses no século XVI… o único código legado dessa época que ainda funciona sem ABEND.”


🍮 PUDIM JAPONÊS — O PUDIM OTAKU OFICIAL

E, obviamente, caímos na discussão eterna: “Por que no anime o pudim brilha?”

Minha resposta técnica:

“Porque os animadores usam brilho pra dizer: ‘se alguém comer isso sem permissão, o episódio vira filler de briga’.”


De repente…

O relógio do CICS marcava 11h59

E Lili soltou:

“Capitão, se a gente não sair AGORA, só sobra aquele obentô triste com arroz duro do bar da esquina.”

E como dois analistas experientes evitando S322 em batch crítico, levantamos imediatamente.


🍜 Destino: Um restaurante japonês delicioso na Brigadeiro Luís Antônio

Saímos pela Paulista com aquela sensação de missão crítica:
“Se não chegar antes do meio-dia, a fila é maior que validação de RACF num dia de troca de senha.”

E fomos lembrando dos clássicos:

  • Temaki do tamanho de um volume VSAM

  • Lámen fumegante que cura até dump de madrugada

  • Katsu que crunch-crunch igual teclado mecânico novo do programador

  • Karaage que te dá vontade de escrever copybooks melhores

Lili, empolgada:

“Hoje eu quero katsudon. Igual o do Yu-Gi-Oh.”
“Mano… katsudon é do Yuri on Ice.”
“É tudo com Y… deixa quieto.”

E rimos.

Porque mainframe é isso:
entre um ABEND e outro, a gente cria histórias, gargalha e sempre, sempre planeja o almoço.



🍡🍡🍡 Para saber mais sobre delícias da culinária niponica: 🍱🍱🍱

30 comidas japonesas em animes

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2012/08/30-comidas-otaku-que-aparecem-em-animes.html


Doces niponicos para otakus

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2013/06/parte-1-doces-otaku.html


Comidas japonesas de rua e barraquinhas

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/10/parte-2-lanches-street-food-otaku.html


Pratos quentes e deliciosos da culinaria japonesa

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2015/09/parte-3-pratos-quentes-caseiros-otaku.html


Comidas classicas japonesas.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2016/07/parte-4-classicos-tradicionais.html


Comidas exoticas e bizarras no Japão

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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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