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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

1979 – O Nascimento do Dandan: O Dia em que a Morte Quase Derrubou Nosso Sistema

 


1979 – O Nascimento do Dandan: O Dia em que a Morte Quase Derrubou Nosso Sistema

(Bellacosa Mainframe – El Jefe Midnight / Arquivos da Família em Modo HEX)

Em outro post, meus cartões perfurados já tinham rodado o job que trazia o ano de 1979 de volta para a memória principal. Mas aquilo era o modo soft, a narrativa otimista, travestida de açúcar cristal.
Agora, vamos acessar o dataset bruto, sem filtros, sem SLIP, sem EXIT para suavizar.

A vida da minha família, naquela década, parecia um mainframe antigo sofrendo com sobrecarga, paradas não programadas e abends fatais. E eu só entenderia o tamanho disso muito tempo depois.



Os Dois Que Vieram Antes de Mim – Jobs Abortados por Falhas do Sistema de Saúde

Eu sou o terceiro filho.

Mas antes de mim já tinham passado dois pequenos programas que nem tiveram chance de subir para production.

Wilson Jr, o primogênito, resistiu apenas cinco meses.
Broncopneumonia.
Minha mãe — uma menina de 19 anos, inexperiente, assustada — confiou no hospital.
E o hospital devolveu apenas silêncio, infecções oportunistas e um caixãozinho branco.

Depois veio Ana Cristina.
Prematura.
Fruto de um choque violento: minha mãe descobriu uma traição do meu pai.
O susto virou parto antecipado; e o parto virou perda.
Outra vida que não encontrou tempo para florescer.

Duas dores que nunca foram embora.
Só ficaram ali, rodando em background.



1974 – Finalmente Eu, o Terceiro Job da Linha

Nasci em 1974, carregando no peito a sombra dos irmãos que não voltaram para casa.
Em 1975 veio a Vivi, minha parceira de crime, minha dupla dinâmica na infância.

Mas entre nós e eles, entre um nascimento e outro, o caos seguia firme.

Brigas.
Fechamento temporário da fábrica.
Uma separação.
Um exílio em Guaianases na casa da minha avó Alzira — aquele tipo de exílio que cabe em sacolas de feira, com promessa vazia, juras de mudança, lágrimas silenciosas.

Voltaram.
Reataram.
Temos depois me deixaram um tempo com a minha avó Anna — eu, pequeno, sem entender nada, apenas obedecendo à linha de comando dos adultos.

Mas no retorno…
Havia um quarto elemento silencioso.

O Dandan estava a caminho.




A Descoberta do Problema Cardíaco – E a Gravidez que Virou Jogo da Morte

Minha mãe recebeu uma notícia que mudaria tudo:

Uma doença cardíaca, fruto de infecções de garganta mal tratadas na infância, febre reumática e, como diziam, “látex no sangue”.

Era uma bomba-relógio no peito de uma mulher que já havia enterrado dois filhos.

A gravidez do Dandan virou uma roleta russa.
Consultas, dores, repouso obrigatório, idas e vindas ao hospital.
E cada ida era um risco real.
O médico não dourou a pílula:
"Wilson e Mercedes, se tiverem outro filho depois desse… dos dois, ninguém voltará do hospital."



O Parto do Dandan – Nascido no Modo Emergencial

Dandan nasceu antes da hora.
Frágil.
Pequeno.
Com a vida dependurada num fio fino, quase invisível.

Minha mãe também quase se foi.

E aí aconteceu uma das maiores demonstrações de coragem que já ouvi:
Ela peitou médicos, enfermeiros, protocolos, todo mundo.
Disse que levaria o Dandan para casa.

“Perdi dois. Se deixar aqui, perco o terceiro. Eu cuido dele. Nem que tenha que vir todo dia.”

E ela foi.
E ela cuidou.

Minha avó Anna veio ajudar — aquela santa mulher que sustentou metade da família mais de uma vez.
E nós, os dois diabinhos, assistíamos tudo como quem vê um milagre acontecer na cozinha de uma casa simples.



Gigi, a Girafa de Borracha – Meu Primeiro Amuleto

Nessa época, ganhei algo que para mim foi quase um totem mágico:
Gigi, a girafinha de borracha.

Pequena, amarela, meio torta — mas era ela quem me ajudava a dormir nas noites em que a casa respirava medo e esperança ao mesmo tempo.



As Fórmulas de Baunilha e Tutti-Frutti – O Sabor da Sobrevivência

O hospital recomendou fórmulas nutricionais para minha mãe e o Dandan.
Eles odiaram.

Quem amou?

Eu e a Vivi.
Misturávamos aquilo em mingau, papinha, suco improvisado…
Era uma experiência sensorial que só quem viveu entende:
o sabor de uma infância dura, mas saborosa nos pequenos detalhes.



E Assim, Contra Todas as Probabilidades… Ele Viveu

Dandan cresceu.
Sobreviveu.
E nós sobrevivemos junto.

Aquele ano — duro, cinza, tenso — deixou marcas profundas no nosso firmware emocional.
Mas também deixou beleza.
Deixou força.
Deixou o exemplo de uma mãe que lutou como uma leoa.
De uma avó que segurou o mundo nas costas.
E de um bebê que venceu estatísticas, médicos e até a própria fraqueza do corpo.

1979 não foi só um ano duro.

Foi um ano lendário.

Um ano que provou que, às vezes, milagres acontecem em casas simples, com sacolas de feira, gelatina mole, medo constante e uma girafa de borracha como guardiã da noite.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

1979 – O Ano em que Meu Isekai Acordou

 


1979 – O Ano em que Meu Isekai Acordou

(Arquivo encontrado no Dataset da Vida – Volume Buenos Aires, Track 1979, Bellacosa Edition)

Há anos em que a vida parece girar em torno do eixo, mas 1979… ah, esse foi o ano em que o eixo girou em cima de mim.
Depois que meus pais voltaram do Paraná — ou algum outro destino que minha memória trata como um dataset corrompido — deixei a casa da minha avó Anna e segui para morarmos todos juntos novamente, na Vila Buenos Aires. Um bairro bonito, mas para mim uma quebrada cinzenta, viva, meio dura, meio mágica. Dali sairia meu primeiro choque de realidade… e meu primeiro despertar de isekai pessoal.

Foi nesse ano que terminei de aprender a ler de verdade. Antes eu me arrastava por livrinhos infantis, mas ali apareceu Alice — uma adolescente vizinha, boa de coração e dona de uma coleção completa da historia em quadrinhos espanhola: Mortadelo e Filemón. Eu, pequeno, sentava ao lado dela enquanto brincávamos, e ela apontava:
"Assim não, Vagnito… lê aqui. É ‘Mortadelo’, não ‘Mortedelo’…”

E eu ali, decodificando o mundo igual um estagiário decodifica JCL pela primeira vez.





A Tempestade Familiar – Versão Pré-1983

Enquanto minha alfabetização avançava, a vida em casa era turbulência pura. Minha mãe, grávida do Dan Dan, enfrentava uma gestação de risco. Meu pai, sempre meio aventureiro, embarcou numa jornada de caminhoneiro com o amigo Chico — um personagem folclórico que um dia merece capítulo próprio, porque era daqueles perfis SNA: complexo, cheio de telas, e cada uma mais esquisita que a outra.

Nós ficamos sozinhos.
Minha mãe lutando com dores, enjoos, sustos…
Eu, pequeno, aprendendo que o mundo real não era feito só de gibi e brincadeiras.



O Chico – Um Saqui com Alma de Mainframe Fugitivo

Foi nessa época que meu pai trouxe um presente improvável: Chico, um saqui e sua companheira  — cujo nome se perdeu no tempo, mas minha irmã Vivi, relembrou, era a Chica — veio junto, pois era da Vivi, minha irmã caçula, que disputava palmo a palmo a geopolítica de casa.
A fêmea do saqui morreu na gaiola poucos dias depois, Vivi ficou aos prantos durante semanas e o  Chico, viúvo e esperto, fez o melhor jailbreak da história animal da Vila Buenos Aires:

Ele arrebentou a portinha da gaiola com uma força que nenhum IBM 4300 explicaria…
E fugiu para se juntar a um grupo de saquis que vivia nas árvores próximas.

Chico foi o primeiro rebelde que vi na vida.



A Dureza do Cotidiano – A Geladeira Quebrada e a Gelatina Mole

Aquele ano também me apresentou as versões de sistema mais cinzentas do mundo adulto.

A geladeira quebrou — e isso, para uma família já apertada, era quase um abend 0C7.
Sem geladeira, tudo estragava rápido, e a gelatina ficava mole, irreconhecível, aquele líquido colorido instável, quase um “dataset instável”.

Eu lembro claramente desta gelatina como símbolo daquela fase.
Era doce, mas triste.
Parecia boa, mas não tinha consistência.
Era a metáfora perfeita da nossa vida naquele momento.




O Nascimento do Dan Dan – O Dia que Mudou Tudo

O nascimento dele foi uma batalha. Um dia escrevo isso em detalhes, porque foi daqueles eventos divisores de águas que mudam o fluxo do programa principal da família.

Mas ali, em 1979, em meio à pobreza, tensão, sustos médicos e incertezas… vi surgir meu irmão, uma pessoa que amo mais que tudo nesse mundo, meu filhotinho, meu parça, meu companheiro de muitas histórias.
E com ele, mais uma camada de realidade.
Mais um patch aplicado na versão da minha infância.



Meu Isekai Começa Aqui

Em algum ponto entre a sirene do caminhoneiro Chico deixando meu pai,
o grito da minha mãe de dor,
a fuga épica do Chico,
e a gelatina mole na tigela de plástico…

Eu despertei.

A ficha caiu.
A textura do mundo mudou.
A Vila Buenos Aires me apresentou seu modo hardcore: NPCs brutos, quests aleatórias, perigos reais e recompensas simples — uma moeda para comprar pão, cinto apertado, um gibi emprestado, uma tarde sem briga.

Foi ali, aos meus cinco anos, que entendi que a vida não era só sonho.
Era luta.
Era chão.
Era cinza.

E ainda assim… era minha.

Meu próprio isekai.

Um portal que não me levou para um mundo mágico — mas para o mundo real.

E, sinceramente?
Acho que foi melhor assim.