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sexta-feira, 14 de março de 2014

📜 Um Ano após o Retorno — quando o silêncio fala mais alto

 





📜 Um Ano após o Retorno — quando o silêncio fala mais alto
por El Jefe, Bellacosa Mainframe Edition

  1. Quarenta anos cravados.
    Aquele número redondo, simbólico, que bate no peito como o sino do tempo: “e agora, o que fiz de mim?”

Eu voltava da Europa.
Trazia na bagagem mais que roupas e lembranças — vinha carregado de ausências, de vozes que falavam em outros idiomas, de uma calma que o Brasil parece ter desaprendido.
E de repente, o barulho. O calor. O caos.
A dura realidade de um país que te ama com um abraço que sufoca.

O primeiro ano do retorno foi estranho — parecia que eu tinha desembarcado num passado paralelo.
As pessoas falavam das mesmas coisas, riam das mesmas piadas, reclamavam das mesmas dores.
Mas eu… eu já não era o mesmo.
Meu corpo estava aqui, mas a alma ainda caminhava pelas ruas de Lisboa, Paris ou Milão, procurando aquele café de esquina onde eu me sentia inteiro.

Há uma dor curiosa em voltar.
Não é tristeza pura — é um tipo de vazio que não grita, apenas existe.
Uma dor silenciosa, educada, que se senta ao seu lado todas as manhãs e te pergunta:
“E aí, você ainda se reconhece aqui?”

A verdade é que não.
Durante meses, vivi num estado de meia-luz.
Nem lá, nem cá.
O estrangeiro em casa, o forasteiro no próprio espelho.

E ninguém pra compartilhar.
Porque esse tipo de dor não cabe em palavras simples — ela é feita de lembranças, de cheiros, de tempos que não voltam.
É a saudade do que fomos em outro lugar.

Mas o tempo, ah, o tempo é um professor paciente.
Aos poucos, ele vai limpando as janelas da alma e a gente volta a ver o sol daqui — diferente, imperfeito, mas nosso.

Hoje entendo: o retorno também é uma viagem.
Só que pra dentro.
E é nela que a gente descobre que pertencimento não é geografia — é alma em paz com o próprio caminho.

☕️ Bellacosa Mainframe — porque até o sistema operacional da alma precisa de um IPL de vez em quando.