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segunda-feira, 25 de março de 2019

Sempre um Isekai : O Isekai e o Contrato Social Quebrado – Parte II

Bellacosa Mainframe e a quebra do contrato social parte II

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Isekai e o Contrato Social Quebrado – Parte II

Quando um Programador COBOL Descobre que os Anos 1990 Talvez Tenham Sido o Grande IPL da Economia Mundial... e Nem Todos os JOBs Voltaram a Executar

No final da Parte I deixei uma pergunta no ar.

Por que justamente nas últimas décadas o isekai deixou de ser um gênero de nicho para se tornar praticamente uma indústria?

É claro que não existe uma resposta única.

Mas existe uma coincidência histórica impossível de ignorar.

O isekai moderno começou a explodir justamente quando milhões de pessoas passaram a acreditar que o futuro seria pior do que o presente.

Parece exagero?

Vamos fazer um pequeno dump da memória da História.


O Mundo Parecia Ter Encontrado o Caminho

Durante boa parte do século XX existia uma sensação relativamente otimista.

Você estudava.

Conseguia um emprego.

A empresa investia na sua carreira.

Com o passar dos anos...

O salário aumentava.

A experiência era valorizada.

A aposentadoria parecia um destino natural.

Havia crises?

Claro.

Mas existia uma expectativa de progresso.

Era como um JOB batch previsível.

Você sabia onde começava.

Sabia aproximadamente onde terminaria.


Então Chegaram os Anos 1990

A década de 1990 foi um verdadeiro IPL da economia mundial.

Empresas foram privatizadas.

Mercados foram globalizados.

A internet nasceu.

A competição deixou de ser apenas entre empresas da mesma cidade.

Agora ela era mundial.

Uma fábrica no Brasil competia com outra na China.

Um programador na Europa disputava projetos com alguém na Índia.

O mundo ficou menor.

Muito menor.


A Estabilidade Virou Custo

Ao mesmo tempo...

Começou uma mudança silenciosa.

Empregados deixaram de ser vistos como patrimônio da empresa.

Passaram a ser tratados como custo operacional.

Palavras bonitas começaram a aparecer.

Reestruturação.

Otimização.

Sinergia.

Eficiência.

Rightsizing.

Downsizing.

Na prática...

Muitas vezes significavam exatamente a mesma coisa.

Menos pessoas.

Mais trabalho.

Mesma cobrança.


A Tecnologia Prometeu um Paraíso

Quem viveu os anos 1980 e 1990 deve lembrar.

Os computadores iriam reduzir o trabalho.

A automação nos daria mais tempo.

A internet eliminaria burocracias.

A inteligência artificial faria as tarefas repetitivas.

Parecia maravilhoso.

Mas aconteceu algo curioso.

Cada ganho de produtividade gerou novas metas.

Se antes um funcionário fazia cem processos por dia...

Agora esperavam duzentos.

Depois trezentos.

Depois quinhentos.

A CPU ficou mais rápida.

Mas aumentaram a fila do JES.


A Geração do "Sempre Disponível"

Existe uma diferença enorme entre trabalhar...

...e nunca deixar de trabalhar.

Hoje carregamos o escritório no bolso.

Celular.

E-mail.

Teams.

Slack.

WhatsApp.

VPN.

Notebook.

O expediente termina.

Mas a disponibilidade continua.

O resultado?

O cérebro nunca recebe um END JOB.

Fica permanentemente em WAIT.


O Sonho da Casa Própria Mudou de Endereço

Converse com pessoas de diferentes gerações.

Muitos contam histórias parecidas.

"Meu pai comprou uma casa com um único salário."

"Minha mãe criou quatro filhos."

"Meu avô trabalhou na mesma empresa por quarenta anos."

Hoje...

Mesmo profissionais altamente qualificados fazem contas para financiar um apartamento durante décadas.

Isso não significa que o passado fosse perfeito.

Longe disso.

Mas a percepção de mobilidade social mudou bastante para muitas pessoas.


O Tempo Virou a Moeda Mais Cara do Mundo

Quando somos jovens...

Achamos que dinheiro compra tudo.

Depois descobrimos outra verdade.

O recurso mais raro não é dinheiro.

É tempo.

Tempo para almoçar sem olhar o celular.

Tempo para brincar com os filhos.

Tempo para viajar.

Tempo para ler.

Tempo para estudar algo porque gostamos.

Tempo para simplesmente...

...não fazer nada.

Curiosamente...

É exatamente isso que o aventureiro de um isekai parece possuir.


O Herói Trabalha Muito

Mas Existe Uma Diferença

Muita gente diz:

"Mas o aventureiro também trabalha."

Sim.

E trabalha muito.

Enfrenta monstros.

Caminha quilômetros.

Arrisca a vida.

Dorme ao relento.

Mas existe uma diferença gigantesca.

Ele escolheu aquela missão.

Pode recusá-la.

Pode mudar de cidade.

Pode abandonar uma guilda.

Pode abrir uma loja.

Pode virar alquimista.

Pode ser fazendeiro.

Pode simplesmente seguir viagem.

Autonomia.

Essa talvez seja a verdadeira habilidade lendária.


O Nível Subiu...

Mas o Salário Não

Outro fenômeno curioso.

Na maioria dos RPGs.

Quanto maior o nível...

Maior a recompensa.

Na vida moderna...

Nem sempre.

Você aprende novas tecnologias.

Novas linguagens.

Novos frameworks.

Novas certificações.

Novos processos.

Novas responsabilidades.

Mas muitas vezes a sensação é que a recompensa cresce muito menos do que o esforço necessário para continuar competitivo.

É como passar do nível 80 para o nível 99...

...e ganhar apenas mais cinco pontos de HP.


O Isekai Nunca Foi Sobre Espadas

Quanto mais observo esse gênero...

Mais tenho certeza.

A espada é um símbolo.

A magia é um símbolo.

O dragão é um símbolo.

O verdadeiro protagonista é outro.

A esperança.

Esperança de que exista algum lugar onde esforço e recompensa voltem a conversar.

Onde trabalhar produza significado.

Onde o reconhecimento exista.

Onde a vida não seja apenas uma sequência infinita de boletos, impostos, metas, reuniões e relógios.


Bellacosa Mainframe

Talvez seja por isso que tanta gente sonhe com um portal mágico.

Não porque queira abandonar computadores, cidades ou tecnologia.

Mas porque deseja abandonar uma sensação.

A sensação de correr cada vez mais rápido...

...para permanecer exatamente no mesmo lugar.

No fundo, o círculo mágico do isekai talvez seja apenas um enorme botão escrito:

RESTART SYSTEM

Porque milhões de trabalhadores não querem necessariamente um mundo medieval.

Querem apenas recuperar aquilo que o mundo moderno parece ter roubado aos poucos.

Tempo.

Esperança.

Autonomia.

E a certeza de que o esforço de hoje ainda pode construir um amanhã melhor.

Continua na Parte III — "A Guilda dos Aventureiros ou o RH? Por Que Trabalhar em um Mundo de Fantasia Parece Mais Justo do que no Mundo Real".

☕ UM CAFÉ NO BELLACOSA MAINFRAME

O Isekai e o Contrato Social Quebrado

Quando um Programador COBOL Descobre que Talvez Nunca Tenhamos Querido Fugir para Outro Mundo... Apenas Entender Este.

PRIMEIRA REGRA DO PORÃO NENHUM ARTIGO DEVE FICAR ESCONDIDO DOS LEITORES

Entre nesta série sobre trabalho, impostos, burnout, sociedade, salarymen, guildas, promessas quebradas e o verdadeiro significado da fuga para mundos paralelos. Escolha um capítulo, abra a prévia ou leia diretamente no Bellacosa Mainframe.

00
SYSTEM DIAGNOSIS

O Verdadeiro Rei Demônio Talvez Seja o Holerite

Quando um Programador COBOL Descobre que o Isekai Não Vende Magia... Vende um Mundo Onde o Esforço Ainda Vale Alguma Coisa.

Uma introdução à relação entre o sucesso do gênero isekai, a exaustão do trabalhador moderno, os descontos no salário, a perda de propósito e o desejo de recomeçar em outro mundo.

HOLERITE TRABALHO ISEKAI CONTRATO SOCIAL
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01
CONTRACT ABEND

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte I

Quando um Programador COBOL Descobre que Talvez o Verdadeiro Bug Nunca Tenha Estado no Código... Mas na Promessa Feita ao Trabalhador.

A promessa de trabalhar, contribuir, construir uma carreira e receber segurança no futuro começa a apresentar falhas de processamento.

CONTRATO SOCIAL APOSENTADORIA DIGNIDADE
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02
ECONOMY IPL

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte II

Quando um Programador COBOL Descobre que os Anos 1990 Talvez Tenham Sido o Grande IPL da Economia Mundial... e Nem Todos os JOBs Voltaram a Executar.

Globalização, tecnologia, automação, terceirização e produtividade reinicializaram a economia mundial, mas muitos trabalhadores ficaram aguardando uma resposta do sistema.

ANOS 1990 GLOBALIZAÇÃO AUTOMAÇÃO
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03
MISSION ACCEPTED

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte III

Quando um Programador COBOL Descobre que a Guilda dos Aventureiros Talvez Tenha um RH Muito Melhor que o Nosso.

Na guilda existem missões claras, riscos conhecidos, recompensas publicadas e liberdade para escolher o próximo trabalho. No escritório moderno, nem sempre.

GUILDA RH RECOMPENSA
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04
CANCEL JOB

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte IV

Quando um Programador COBOL Descobre que o Truck-kun Nunca Foi um Caminhão... Mas um Botão de CANCEL JOB para uma Geração Inteira.

Truck-kun representa a interrupção brutal de uma vida repetitiva, exausta e sem perspectiva. Um símbolo sombrio do desejo de cancelar a rotina e recomeçar.

TRUCK-KUN BURNOUT CANCEL JOB
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05
SALARYMAN MODE

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte V

Quando um Programador COBOL Descobre que Quase Todo Protagonista de Isekai é um Salaryman... e Isso Está Muito Longe de Ser Coincidência.

Programadores, funcionários de escritório e trabalhadores invisíveis protagonizam histórias de recomeço porque representam milhões de pessoas presas em rotinas semelhantes.

SALARYMAN ESCRITÓRIO PROPÓSITO
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06
TIME AVAILABLE

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte VI

Quando um Programador COBOL Descobre que Talvez o Verdadeiro Feitiço do Isekai Não Seja a Magia... Mas o Tempo para Viver.

O maior luxo de um mundo fantástico talvez não seja lançar feitiços, mas ter tempo para conversar, descansar, conviver, caminhar e participar de uma comunidade.

TEMPO COMUNIDADE QUALIDADE DE VIDA
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07
RETURN CODE 00

O Isekai e o Contrato Social Quebrado — Parte VII

Quando um Programador COBOL Descobre que Talvez Nunca Tenhamos Querido Fugir para Outro Mundo... Apenas Recuperar Este.

A conclusão da série propõe que talvez o verdadeiro sonho nunca tenha sido abandonar o mundo real, mas recuperar dignidade, propósito, tempo, comunidade e esperança.

ESPERANÇA RECONSTRUÇÃO FUTURO
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sexta-feira, 14 de março de 2014

📜 Um Ano após o Retorno — quando o silêncio fala mais alto

 





📜 Um Ano após o Retorno — quando o silêncio fala mais alto
por El Jefe, Bellacosa Mainframe Edition

  1. Quarenta anos cravados.
    Aquele número redondo, simbólico, que bate no peito como o sino do tempo: “e agora, o que fiz de mim?”

Eu voltava da Europa.
Trazia na bagagem mais que roupas e lembranças — vinha carregado de ausências, de vozes que falavam em outros idiomas, de uma calma que o Brasil parece ter desaprendido.
E de repente, o barulho. O calor. O caos.
A dura realidade de um país que te ama com um abraço que sufoca.

O primeiro ano do retorno foi estranho — parecia que eu tinha desembarcado num passado paralelo.
As pessoas falavam das mesmas coisas, riam das mesmas piadas, reclamavam das mesmas dores.
Mas eu… eu já não era o mesmo.
Meu corpo estava aqui, mas a alma ainda caminhava pelas ruas de Lisboa, Paris ou Milão, procurando aquele café de esquina onde eu me sentia inteiro.

Há uma dor curiosa em voltar.
Não é tristeza pura — é um tipo de vazio que não grita, apenas existe.
Uma dor silenciosa, educada, que se senta ao seu lado todas as manhãs e te pergunta:
“E aí, você ainda se reconhece aqui?”

A verdade é que não.
Durante meses, vivi num estado de meia-luz.
Nem lá, nem cá.
O estrangeiro em casa, o forasteiro no próprio espelho.

E ninguém pra compartilhar.
Porque esse tipo de dor não cabe em palavras simples — ela é feita de lembranças, de cheiros, de tempos que não voltam.
É a saudade do que fomos em outro lugar.

Mas o tempo, ah, o tempo é um professor paciente.
Aos poucos, ele vai limpando as janelas da alma e a gente volta a ver o sol daqui — diferente, imperfeito, mas nosso.

Hoje entendo: o retorno também é uma viagem.
Só que pra dentro.
E é nela que a gente descobre que pertencimento não é geografia — é alma em paz com o próprio caminho.

☕️ Bellacosa Mainframe — porque até o sistema operacional da alma precisa de um IPL de vez em quando.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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