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sexta-feira, 26 de junho de 2020

☕ O Holocron do Código de Barras: Como um Pequeno Conjunto de Linhas Mudou o Comércio Mundial

 

Bellacosa Mainframe e a origem dos codigos de barra

☕ O Holocron do Código de Barras: Como um Pequeno Conjunto de Linhas Mudou o Comércio Mundial

Em 26 de junho de 1974, ocorreu um daqueles eventos discretos que raramente aparecem nos livros de História, mas que acabaram moldando a civilização moderna.

Num supermercado Marsh Supermarket em Troy, Ohio, uma caixa registradora leu pela primeira vez um UPC (Universal Product Code) impresso em uma embalagem de chicletes Wrigley's Juicy Fruit.

Era apenas um pacote de chicletes.

Mas, na prática, foi o nascimento da infraestrutura invisível do varejo contemporâneo.

Hoje, bilhões de leituras de códigos de barras acontecem diariamente em supermercados, hospitais, aeroportos, centros de distribuição, bibliotecas, fábricas e datacenters.

E existe um forte DNA da IBM nessa história.


Antes do código de barras: o caos do varejo

Imagine um supermercado em 1960.

Cada produto precisava ser:

  • etiquetado manualmente;

  • precificado individualmente;

  • registrado na caixa por digitação;

  • contabilizado posteriormente.

Problemas comuns:

Erro humano.

Filas enormes.

Inventário incorreto.

Furtos não detectados.

Reposição lenta.

Ausência de estatísticas.

O gerente sabia quanto havia vendido apenas dias depois.

Era uma operação quase artesanal.


A ideia original não veio da IBM

Em 1949, dois estudantes americanos:

  • Norman Joseph Woodland

  • Bernard Silver

Buscavam uma solução para automatizar supermercados.

Inspirados em:

Código Morse;

Trilhas ópticas;

Tecnologias militares.

Woodland desenhou linhas na areia de uma praia.

As linhas lembravam ondas circulares.

Nascia o primeiro conceito.

Código em alvo (Bullseye)

Parecia um alvo de tiro.

Leitura em qualquer direção.

Problema:

difícil impressão;

distorções;

baixo contraste.

Patentearam em 1952.

Porém, faltava tecnologia.

Computadores eram gigantescos.

Lasers comerciais não existiam.

Sensores ópticos eram caros.

O projeto ficou adormecido.


IBM entra em cena

Nos anos 70, supermercados americanos decidiram:

Precisamos de um padrão único.

Diversas empresas apresentaram propostas.

RCA apresentou versões circulares.

Outras empresas tinham símbolos complexos.

IBM designou um engenheiro chamado:

George Joseph Laurer

Ele recebeu uma missão aparentemente simples:

Desenvolver um código melhor.

Mas havia inúmeras restrições.

Precisava ser:

Legível rapidamente;

Barato;

Pequeno;

Robusto;

Padronizado;

Compatível com impressoras.

Laurer simplificou tudo.

Criou barras verticais.

Espessuras variáveis.

Zonas de silêncio.

Dígitos verificadores.

Leitura bidirecional.

Nascia o:

UPC

Universal Product Code


O primeiro produto escaneado

26 de junho de 1974.

Local:

Marsh Supermarket

Troy, Ohio

Produto:

Wrigley's Juicy Fruit Gum

Preço:

67 centavos.

A leitura ocorreu em poucos milissegundos.

Ninguém imaginava a magnitude do evento.


A genialidade matemática do UPC

O código possui 12 dígitos.

Exemplo:

036000291452

Estrutura:

Número fabricante

Número produto

Check digit


Dígito verificador

Serve para detectar erros.

Exemplo simplificado:

Somar posições ímpares.

Multiplicar por 3.

Somar posições pares.

Calcular módulo 10.

Se falhar:

scanner rejeita.

É semelhante ao que encontramos em:

CPF;

ISBN;

cartões bancários.


O scanner laser

Outro desafio enorme.

Como ler rapidamente?

Solução:

Feixe laser.

Espelhos rotativos.

Fotossensores.

O sistema mede:

reflexão da luz.

Branco = reflexão alta

Preto = reflexão baixa

Transformação:

Óptico

Elétrico

Digital

Aplicação comercial


O equivalente varejista do protocolo TCP/IP

O UPC tornou-se uma infraestrutura invisível.

Poucas pessoas pensam nele.

Mas ele conecta:

Fabricantes.

Distribuidores.

Transportadoras.

ERP.

WMS.

PDV.

Data Warehouse.

BI.

IA.

É praticamente o:

TCP/IP do varejo.


IBM e a filosofia dos padrões

A IBM historicamente prosperou criando padrões.

Exemplos:

SQL

EBCDIC

SNA

DRDA

COBOL (forte participação)

UPC

IBM percebeu cedo:

O verdadeiro poder não está apenas em fabricar máquinas.

Está em definir linguagens universais.


O código de barras dentro do IBM Z

Curiosamente, muitos sistemas IBM Z continuam sendo responsáveis por processar os dados gerados pelos scanners.

Exemplo típico:

Scanner

PDV

MQ

CICS

COBOL

Db2

Batch Noturno

Data Lake

IA

Ao passar um pacote de café no caixa, pode acontecer:

CICS valida preço;

COBOL verifica promoção;

Db2 consulta estoque;

MQ envia evento;

Batch ajusta inventário;

Modelo de IA prevê reposição.

Tudo em segundos.


O sucessor do UPC

O mundo está migrando gradualmente para:

GS1 Digital Link

QR Codes industriais

DataMatrix

RFID

NFC

Essas tecnologias permitem armazenar:

Lote;

Validade;

Origem;

Certificações;

Rastreamento;

Pegada de carbono;

Informações nutricionais.

Um simples escaneamento poderá revelar toda a cadeia produtiva de um alimento.


Uma análise mais profunda: por que o código de barras é uma das maiores invenções do século XX?

Costumamos admirar tecnologias visíveis:

  • Inteligência Artificial;

  • Computação Quântica;

  • Robótica;

  • Satélites.

Entretanto, a economia mundial depende de tecnologias extremamente discretas.

Poucas inovações entregaram um retorno econômico tão extraordinário quanto o código de barras. Ele reduziu custos operacionais, diminuiu perdas, acelerou filas, permitiu inventários quase em tempo real, alimentou sistemas de planejamento logístico e viabilizou o crescimento das grandes redes globais de varejo.

Sem códigos de barras, seria difícil imaginar:

  • Amazon operando milhões de itens;

  • Walmart sincronizando milhares de lojas;

  • hospitais rastreando medicamentos;

  • aeroportos gerenciando bagagens;

  • centros de distribuição altamente automatizados;

  • modelos modernos de previsão de demanda baseados em IA.

George Laurer não criou apenas um símbolo gráfico. Ele ajudou a construir uma linguagem universal para objetos físicos, uma espécie de protocolo de comunicação entre produtos, empresas, computadores e consumidores.

Para um profissional de IBM Z, a lição é particularmente familiar: assim como um copybook COBOL, um registro VSAM, um DB2 catalog ou um SMF record, o código de barras demonstra que as maiores revoluções tecnológicas frequentemente surgem não de interfaces espetaculares, mas de padrões simples, robustos e estáveis que permanecem funcionando silenciosamente por décadas.

"A IA pode decidir o que comprar amanhã. Mas, em boa parte do mundo, ainda será um descendente direto das barras desenhadas por George Laurer que dirá ao sistema exatamente o que saiu da prateleira hoje."

 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

🛒 Bellacosa Mainframe — Dump de Memória: Supermercado Versão 1970

 



 🛒 Bellacosa Mainframe — Dump de Memória: Supermercado Versão 1970

El Jefe Midnight Lunch – Log nº 004


Ir ao supermercado.
Hoje banal, corriqueiro, item de rotina como rodar um batch diário: vai, pega, paga no cartão, volta, reclama do preço do tomate.
Mas lá nos anos 1970... ah, aquilo era mainframe de 64k rodando Apollo 11, era foguete, era portal dimensional aberto uma vez por mês — e olha lá.

Supermercado era templo.
Lugar de ir arrumado. Roupa de sair. Chinelo? Jamais.
A família entrava séria, solene, como quem pisa no Vaticano do consumo. Corredores que pareciam infinitos, caixas registradoras estalando como impressoras matriciais, etiquetas coladas a mão, promotoras com penteado de laquê estruturado em código IBM 360.



Não existia padaria, não existia hortifruti — isso é feature de patch muito posterior, update da década de 80 pra frente.
Era secos e molhados. Só. Mas, paradoxalmente, era um mundo vasto:

Latas de sardinha por marca, sabão em pó por cor, óleo por litro em garrafa de vidro, arroz em saco grosso costurado na boca, macarrão de pacote áspero, firme como TPU militar.
Naquele tempo o mercado não era um oligopólio, era farol aberto: dez marcas de goiabada, vinte de café, açúcar cristal de fábrica pequena que ninguém lembra mais.

 


E como não tínhamos muitas posses, a viagem era mensal.
Compra de guerra. Compra de sobrevivência.
Um mês inteiro decidido em 1 hora de carrinho.
Às vezes o Fusca azul do meu pai carregava tudo no porta-malas minúsculo e no banco de trás, esmagando filhos e mantimentos no mesmo payload.
Outras vezes o Fusca pifava (o normal, diga-se) e aí entrava em cena o meta recurso milagrosoa Kombi do supermercado.
Clássica. Ladeirando pelas ruas, barulhenta, cheirando mistura de pão dormido, diesel e detergente.

Mas compra boa mesmo — ah, meus amigos — era com Vó Anna.
Aí a coisa mudava de patamar de processamento.
Dois, três carrinhos. Fácil.
Eu, pequeno oni glutão, seguindo como subtarefa autorizada, torcendo pelos itens proibidos, pelos chocolates, pelas balas, pelo achocolatado que durava três dias em vez do mês inteiro.

Acompanhá-la era como entrar no modo bonus.
Era o Chefão final do RPG abrindo portal secreto só pra mim.

Porque até então minha realidade era outra:
comprar óleo avulso na mercearia, embrulhar em sacola de pano, trazer meia dúzia de itens miúdos para casa — transação simples, sem glamour.

Mas no supermercado mensal com a família?
No ritual triunfal com a avó?



Aquilo era entrar no paraíso da abundância.
Era o spool infinito onde tudo era possível, onde sonhos tinham código de barras.
Saía de lá flutuando, carregando sacolas como troféus, sentindo que tinha invadido um data center de delícias, capturado loot raro e voltado vivo para contar.

Hoje passo pelo mercado como quem troca storage sem emoção.
Mas se fecho os olhos…
a luz fluorescente azulada ainda acende, o corredor se abre, o carrinho range em 8 bits…

E eu volto.
Pequeno, feliz, segurando uma lata de pêssegos em calda como se fosse ouro.

🛒✨
Bellacosa — RC=0, carrinho cheio, coração idem.

Ps: Anos mais tarde iria me maravilhar com a Praça do Jumbo em Taubaté, que era o máximo em sonho de consumo, um dos primeiros Hipermercados com a mistura de mercado com loja de eletrodomesticos.

Ps2: Nem conto para vocês a primeira vez num Shopping Center, desta vez em Campinas no Iguatemi

Ps3: Mas até hoje guardo com carinho a velha mercearia do Agnello na Vila Rio Branco, passei por mercados, supermercados, hipermercados, ultramercados em mais de 20 países... mas aquelas memorias infantis estão gravadas no fundo da alma.

Ps4: Hoje sinto falta da variedade de produtos, os mercados ficaram tão sem graça com poucas marcas.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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