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quarta-feira, 18 de março de 2026

O Que Todo Programador COBOL Precisa Saber Sobre os "Thinking Tokens"

 

Bellacosa Mainframe introduz thinking tokens em ia

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Que Todo Programador COBOL Precisa Saber Sobre os "Thinking Tokens"

Você Não Está Pagando por um Cérebro Artificial. Está Pagando por Tokens de Saída que Você Nunca Vê.

"Toda geração de programadores cria novos nomes para conceitos antigos. O desafio não é decorar a nova terminologia, mas compreender a engenharia que continua existindo por trás dela."

Durante décadas trabalhando com IBM Mainframe aprendemos uma lição importante.

Os nomes mudam.

A tecnologia evolui.

As interfaces ficam mais bonitas.

Mas os princípios fundamentais da computação continuam praticamente os mesmos.

Foi assim quando surgiram os bancos de dados relacionais.

Foi assim quando apareceram as CASE Tools.

Foi assim com Java.

Com SOA.

Com APIs.

Com Microservices.

Com Cloud.

E agora está acontecendo novamente com a Inteligência Artificial.

Um dos melhores exemplos dessa confusão moderna é a expressão Thinking Tokens.

Se você acompanha anúncios da OpenAI, Anthropic, Google, xAI ou DeepSeek, provavelmente já viu frases como:

  • O modelo utilizou 2.500 reasoning tokens.

  • Foram consumidos 8.000 thinking tokens.

  • O modelo pensou antes de responder.

  • O raciocínio interno foi ocultado.

Para quem está chegando agora ao universo dos LLMs, parece que existe uma nova categoria de tokens.

Como se o Transformer tivesse criado uma espécie de memória secreta onde a IA realmente "pensa".

Mas isso não é exatamente verdade.

Hoje vamos desmontar esse mito.

E, como sempre fazemos aqui no Bellacosa Mainframe, vamos explicar tudo usando conceitos familiares para quem passou anos desenvolvendo sistemas COBOL no IBM Z.

Pegue seu café.

Porque, no final deste artigo, você provavelmente enxergará os modelos de IA de uma maneira completamente diferente.


O primeiro erro é acreditar que existem três tipos de tokens

Muita documentação simplifica o assunto dizendo que existem:

  • Input Tokens

  • Output Tokens

  • Thinking Tokens

Parece lógico.

Mas essa classificação mistura arquitetura com marketing.

Na prática, um Transformer trabalha apenas com duas grandes fases:

Entrada (Prefill)

e

Saída (Decode)

Todo o resto são interpretações sobre aquilo que acontece durante a geração da resposta.


Vamos lembrar como funciona um programa COBOL

Imagine um programa extremamente simples.

ACCEPT WS-CLIENTE

PERFORM PROCESSA-DADOS

DISPLAY RESULTADO

STOP RUN.

Ninguém diria que existem três tipos de processamento.

Existe apenas:

entrada

processamento

saída.

A IA segue exatamente essa lógica.


O Pipeline de um Transformer

Todo Large Language Model moderno funciona aproximadamente assim:

Prompt

↓

Tokenização

↓

Embeddings

↓

Transformer

↓

Prefill

↓

KV Cache

↓

Decode

↓

Resposta

Observe uma coisa interessante.

Não existe nenhuma etapa chamada:

Thinking Engine

Nem:

Reasoning Processor

Nem:

Artificial Brain

Esses nomes simplesmente não existem dentro da arquitetura.


O Prefill é parecido com a leitura de um arquivo VSAM

Imagine um programa COBOL lendo um cadastro inteiro.

READ CLIENTES

Antes de tomar qualquer decisão, seu programa precisa conhecer o conteúdo.

O Transformer faz algo semelhante.

Quando você envia um prompt como:

Explique a arquitetura do CICS.

O modelo primeiro lê tudo.

Essa leitura acontece em paralelo.

Todas as palavras são analisadas simultaneamente.

Esse processo chama-se Prefill.

É como se o modelo dissesse:

"Primeiro vou entender completamente o problema."


O Decode lembra um programa Batch escrevendo registros

Depois que termina o Prefill, começa uma fase completamente diferente.

Agora o modelo precisa escrever.

E escreve exatamente como um programa COBOL grava registros.

Um por vez.

Token 1

↓

Token 2

↓

Token 3

↓

Token 4

Não existe paralelismo aqui.

Cada novo token depende do anterior.

Da mesma forma que um programa COBOL não consegue escrever o registro 500 antes de criar o registro 499.


É aqui que nasce o famoso "raciocínio"

Imagine que você perguntou:

Quanto é 27 × 34?

O modelo poderia gerar internamente algo parecido com:

27 × 30 = 810

27 × 4 = 108

810 + 108 = 918

Depois entregar apenas:

918

A pergunta é:

Onde aconteceu o raciocínio?

A resposta surpreende muita gente.

No mesmo lugar onde nasceu a resposta final.

Durante o Decode.

Não existe um mecanismo separado.


O maior mito da IA moderna

Muitas pessoas imaginam algo parecido com isto.

Prompt

↓

Cérebro Artificial

↓

Resposta

Bonito.

Mas incorreto.

Na realidade acontece algo muito mais simples.

Prompt

↓

Decode

↓

Token

↓

Token

↓

Token

↓

Token

↓

Resposta

O chamado raciocínio nada mais é do que uma sequência maior de tokens produzidos antes da resposta definitiva.


Os Thinking Tokens são apenas Output Tokens

Esse talvez seja o conceito mais importante deste artigo.

Do ponto de vista da arquitetura Transformer, não existe diferença entre escrever:

Vou resolver passo a passo...

e escrever:

A resposta é 918.

Os dois são produzidos exatamente pelo mesmo algoritmo.

Mesmo Softmax.

Mesmo Sampling.

Mesma GPU.

Mesmo Decoder.

Mesma KV Cache.

Mesmo mecanismo autoregressivo.

A única diferença é o destino dado a esses tokens.


Quem esconde os Thinking Tokens?

Essa é outra dúvida comum.

Muita gente acredita que o próprio Transformer possui um compartimento secreto onde guarda pensamentos.

Não possui.

Quem decide ocultar esses tokens é a aplicação que envolve o modelo.

Imagine um programa COBOL gerando um relatório.

Durante o processamento ele escreve dezenas de mensagens no SYSOUT.

Lendo arquivo...

Registro encontrado...

Validando CPF...

Atualizando saldo...

Fim do processamento.

Mas o usuário recebe apenas:

Processamento concluído com sucesso.

As mensagens existiram.

Foram produzidas.

Consumiram CPU.

Consumiram I/O.

Mas nunca apareceram na tela do usuário.

É exatamente isso que acontece com os Thinking Tokens.


Por que eles custam dinheiro?

Aqui chegamos ao ponto que interessa às empresas.

Imagine duas respostas.

Resposta A

100 tokens.

Resposta B

900 tokens ocultos

100 tokens visíveis.

Qual delas custa mais?

A segunda.

Mesmo que você nunca veja os 900 tokens.

Por quê?

Porque a GPU precisou calcular todos eles.

Cada token exige milhares de operações matemáticas.

Multiplicações matriciais.

Atenção.

Softmax.

Sampling.

Atualização do KV Cache.

Nada disso é gratuito.

A infraestrutura trabalhou para gerar cada token, mesmo aqueles descartados antes da entrega.


Pense como um gerente de CPD dos anos 1980

Quem trabalhou com IBM Mainframe lembra muito bem.

O usuário não pagava apenas pelas páginas impressas.

Pagava pelo tempo de CPU.

Pelo canal.

Pelo DASD.

Pela memória.

Pelos acessos ao banco.

Com IA acontece exatamente o mesmo.

Você não paga apenas pelo texto recebido.

Você paga por todo o processamento necessário para produzir esse texto.

Mesmo quando parte dele nunca chega até você.


Existe realmente pensamento?

Agora entramos numa questão filosófica.

Quando o modelo escreve:

Vou resolver primeiro a multiplicação.

Depois farei a soma.

Agora posso responder.

Ele realmente está pensando?

Depende da definição de pensamento.

Do ponto de vista computacional, isso é apenas texto sendo gerado.

Não existe consciência.

Não existe intenção.

Não existe uma voz interior.

Existe apenas previsão estatística do próximo token mais provável.

Ainda assim, esse processo produz um comportamento que lembra muito o raciocínio humano.

É um exemplo clássico de comportamento emergente.

A inteligência não aparece porque existe um módulo chamado "pensamento".

Ela emerge da sequência de bilhões de operações matemáticas executadas ao longo da geração dos tokens.


Uma analogia que todo programador COBOL entenderá

Imagine um analista experiente escrevendo um programa.

Primeiro ele faz um rascunho.

Abrir arquivo.

Validar cliente.

Atualizar saldo.

Fechar arquivo.

Depois escreve comentários.

Depois reorganiza os parágrafos.

Depois remove código.

No final entrega apenas o programa limpo.

Ninguém vê o rascunho.

Mas ele existiu.

Consumiu tempo.

Consumiu esforço.

Os Thinking Tokens são exatamente esse rascunho.


O papel da auditabilidade

Em ambientes corporativos, especialmente bancos, seguradoras e órgãos governamentais, entender esse processo é essencial.

Imagine um modelo aprovando um empréstimo.

Ele responde apenas:

Aprovado.

Mas internamente gerou centenas de tokens avaliando renda, histórico, garantias e inconsistências.

Esses tokens podem ser úteis para auditoria, depuração e análise de qualidade. Ao mesmo tempo, expô-los integralmente pode revelar detalhes do funcionamento do modelo, facilitar ataques ou criar interpretações equivocadas. Por isso, muitos fornecedores optam por ocultá-los e fornecer mecanismos de explicação específicos em vez da cadeia completa de raciocínio.

Essa distinção é especialmente importante em ambientes regulados, onde transparência e segurança precisam coexistir.


O verdadeiro modelo mental

Depois de tudo isso, talvez seja melhor abandonar a ideia de três tipos de tokens.

Pense apenas assim.

Entrada

O modelo lê.

(Prefill)

Saída

O modelo escreve.

(Decode)

Dentro da saída podem existir:

  • tokens mostrados;

  • tokens resumidos;

  • tokens ocultados;

  • tokens descartados.

Mas continuam sendo apenas saída.


O que um Programador COBOL Padawan deve aprender com isso?

Se você está começando sua jornada em Inteligência Artificial depois de anos trabalhando com COBOL, CICS, JCL e DB2, a principal lição é simples:

não se deixe impressionar pela terminologia de marketing.

Sempre procure entender a arquitetura por trás dos nomes.

Foi assim com:

  • CASE Tools;

  • Orientação a Objetos;

  • SOA;

  • ESB;

  • APIs REST;

  • Microservices;

  • Cloud Computing.

Agora acontece novamente com os LLMs.

Os nomes mudam.

Os princípios permanecem.

Quem entende arquitetura enxerga além das buzzwords.


O Café Terminou...

Durante décadas, os profissionais de Mainframe aprenderam a separar interface de implementação. Um operador via apenas uma tela do CICS; por trás dela existiam TCBs, filas, buffers, logs, gerenciamento de memória e milhares de instruções executadas silenciosamente. Da mesma forma, um usuário conversa com um chatbot e recebe uma resposta elegante, mas por trás dela ocorreu uma longa sequência de cálculos matriciais e geração de tokens.

Os chamados Thinking Tokens não são uma terceira categoria mágica de dados. Eles não representam um "cérebro oculto" nem um mecanismo especial de raciocínio. São, simplesmente, tokens de saída gerados durante o Decode, produzidos pelo mesmo algoritmo que gera a resposta final. A diferença não está na arquitetura do Transformer, mas na política da plataforma: alguns tokens são entregues ao usuário; outros permanecem ocultos.

Para o programador COBOL, essa distinção soa familiar. Assim como um JOB Batch pode produzir centenas de mensagens no SYSOUT enquanto o usuário recebe apenas um relatório resumido, um LLM pode gerar centenas de tokens intermediários antes de apresentar sua resposta. O processamento aconteceu. A CPU — ou, neste caso, a GPU — trabalhou. O custo foi incorrido. Apenas a visibilidade mudou.

No fim das contas, a maior habilidade continua sendo a mesma que diferenciou bons profissionais de Mainframe durante décadas: compreender os mecanismos internos, e não apenas decorar os nomes das tecnologias da moda. Quem domina os fundamentos consegue atravessar gerações de plataformas, linguagens e arquiteturas sem perder a capacidade de entender o que realmente está acontecendo dentro da máquina.

Porque, ontem como hoje, a engenharia continua sendo muito mais interessante do que o marketing.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Transformers: O Que Todo Programador COBOL Precisa Saber Sobre a Arquitetura que Está Revolucionando a Inteligência Artificial

 

Bellacosa Mainframe e os segredos dos transformers 

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Transformers: O Que Todo Programador COBOL Precisa Saber Sobre a Arquitetura que Está Revolucionando a Inteligência Artificial

Você Não Está Diante de Mágica. Está Diante de Engenharia de Software em Escala Nunca Vista.

"Toda geração de programadores encontra uma tecnologia que parece mágica. Para quem programava em Assembly, COBOL parecia mágico. Para quem vivia de cartões perfurados, o CICS parecia magia. Hoje, muitos olham para o ChatGPT da mesma forma. Mas, como todo bom sistema, basta abrir a tampa para descobrir que existe muita engenharia por baixo."


Existe uma pergunta que recebo frequentemente quando converso com profissionais de Mainframe:

"Como exatamente um ChatGPT funciona?"

A maioria das respostas que encontramos na Internet são superficiais.

Dizem apenas:

"Ele usa Transformers."

Excelente.

Mas isso é como responder que um IBM Z funciona porque possui processadores.

Não explica absolutamente nada.

Neste artigo vamos desmontar um Transformer da mesma forma que um Programador COBOL gosta de aprender: entendendo cada etapa do processamento.

Você perceberá que muitos conceitos não são tão diferentes do que já conhece há décadas.

A diferença está na escala.

Muito mais do que na ideia.

Pegue seu café.

Hoje vamos abrir o capô do motor.


O maior equívoco sobre IA

Existe uma crença bastante difundida.

Que o ChatGPT "pensa".

Não.

Ele calcula.

Isso muda completamente a forma de enxergar um LLM (Large Language Model).

O Transformer é, essencialmente, uma gigantesca máquina de estatística, álgebra linear e otimização.

Seu trabalho consiste em responder apenas uma pergunta:

"Qual é o próximo token mais provável?"

Nada além disso.

E, surpreendentemente, essa pergunta simples produz resultados extraordinários.


Imagine um Batch COBOL

Vamos fazer uma analogia.

Considere um programa COBOL clássico.

INPUT

↓

Validação

↓

Conversão

↓

Regras de negócio

↓

Atualização do banco

↓

Relatórios

O Transformer segue exatamente essa filosofia.

O texto entra.

Passa por diversas etapas.

Cada etapa transforma um pouco a informação.

No final, surge uma resposta.


Etapa 1 — Tokenização

Nenhum computador entende palavras.

Computadores entendem números.

Quando digitamos

O gato dorme.

Nós enxergamos quatro palavras.

O modelo enxerga algo parecido com:

502

18472

913

25

Cada número representa um token.

Aqui aparece uma surpresa.

Token não significa palavra.

Pode representar:

  • uma palavra inteira;

  • metade de uma palavra;

  • um caractere;

  • pontuação;

  • espaços.

Por exemplo:

Mainframe

↓

Main

frame

Ou

Bellacosa

↓

Bella

cosa

Isso reduz enormemente o vocabulário.

Em vez de decorar milhões de palavras, o modelo aprende milhares de pequenas peças reutilizáveis.

É como reutilizar COPYBOOKs.


O Token é o novo Campo

Pense em um registro VSAM.

Você não grava um texto inteiro como um único bloco.

Você possui campos.

Cada campo possui significado.

O Transformer faz algo semelhante.

Cada token torna-se uma unidade independente de processamento.


Etapa 2 — Embeddings

Agora temos números.

Mas ainda não existe significado.

Entra o Embedding.

Imagine uma tabela gigantesca.

Algo como:

TOKEN

↓

VETOR

Só que esse vetor pode possuir milhares de posições.

Algo parecido com:

0.83

-1.24

3.91

0.18

...

2048 posições

Esse vetor representa características aprendidas durante o treinamento.

Curiosamente ninguém programa isso.

O próprio treinamento descobre essas relações.


O "Espaço" onde as palavras vivem

Imagine um mapa.

Nele existem milhões de pontos.

Palavras semelhantes ficam próximas.

Por exemplo:

COBOL

PL/I

Assembler

ficariam relativamente próximas.

Enquanto

Pizza

Astronomia

Dinossauro

estariam muito mais distantes.

Esse espaço vetorial é uma das maiores descobertas da IA moderna.


Etapa 3 — Positional Encoding

Existe um problema.

O Transformer não sabe ordem.

Para ele,

A B C

e

C B A

seriam quase iguais.

Mas ordem importa.

Então adicionamos informação de posição.

É como numerar linhas de um arquivo sequencial.

Cada token recebe:

Embedding

+

Posição

Agora ele sabe:

"Sou a quarta palavra."

Sem isso a linguagem desapareceria.


O Coração do Transformer

Chegamos ao conceito mais importante.

Self-Attention.

Se você entender isso, compreenderá por que os Transformers mudaram toda a Inteligência Artificial.


Self-Attention

Imagine a frase:

João entregou o livro para Maria porque ela precisava estudar.

Quem precisava estudar?

João?

Maria?

O modelo precisa descobrir.

É exatamente isso que a Self-Attention faz.

Cada palavra pergunta:

"Quais outras palavras desta frase são importantes para mim?"

Não existe regra fixa.

Cada frase produz um conjunto diferente de relações.


Parece um JOIN Inteligente

Quem trabalha com DB2 pode imaginar algo semelhante.

Cada token consulta os demais.

Mas não procura igualdade.

Procura relevância.

É como um JOIN baseado em significado.


Queries, Keys e Values

Aqui aparece um conceito inspirado em recuperação de informação.

Cada token gera três vetores.

Query

O que estou procurando?


Key

Quem sou eu?


Value

Qual informação entrego?

Imagine uma biblioteca.

Você chega procurando:

"Livros sobre COBOL."

Essa é sua Query.

Cada livro possui uma Key.

Quando uma Key combina com sua Query...

...o conteúdo daquele livro (Value) é utilizado.


Attention Scores

Agora entra matemática.

O Transformer mede a semelhança entre Query e Key.

Quanto maior a semelhança...

Maior a atenção.

Imagine algo assim:

COBOL

92%

DB2

84%

JCL

70%

Linux

12%

Sorvete

0%

O modelo naturalmente concentra esforço onde existe maior relevância.


Softmax

Esses valores ainda precisam virar probabilidades.

Entra o Softmax.

Ele transforma qualquer conjunto de números em probabilidades cuja soma é exatamente 100%.

Exemplo:

COBOL

61%

JCL

24%

Assembler

9%

Java

6%

Agora o modelo sabe exatamente quanto deve "prestar atenção" em cada token.


Multi-Head Attention

Agora imagine uma equipe inteira de analistas.

Um especialista observa gramática.

Outro observa tempo verbal.

Outro procura relações semânticas.

Outro identifica sujeito e objeto.

Todos trabalham simultaneamente.

Depois unem suas descobertas.

Isso é Multi-Head Attention.

Em vez de uma única visão da frase...

Existem dezenas delas.

Ao mesmo tempo.


Por que isso revolucionou a IA?

Antes dos Transformers existiam as RNNs.

Depois vieram as LSTMs.

Ambas liam texto sequencialmente.

Palavra por palavra.

Como um READ NEXT.

Os Transformers mudaram completamente essa abordagem.

Eles conseguem analisar toda a frase simultaneamente.

Isso permitiu enorme paralelismo.

GPUs adoram processamento paralelo.

Resultado?

Treinamentos centenas de vezes mais rápidos.


Feed-Forward Network

Depois da atenção, cada token entra em uma pequena rede neural.

Ela refina a informação.

É semelhante a uma rotina interna.

Imagine:

PERFORM PROCESSA-TOKEN

Para cada token.

Independentemente dos demais.

Essa etapa extrai padrões mais complexos e prepara os dados para a próxima camada.


Residual Connections

Programadores COBOL antigos conhecem uma boa prática.

Nunca destruir a informação original.

As Residual Connections seguem essa ideia.

Em vez de substituir completamente o resultado anterior...

O Transformer soma:

Entrada

+

Saída

Assim nenhuma informação importante se perde.

Esse pequeno detalhe permitiu construir redes com centenas de camadas.


Layer Normalization

Quem trabalha com processamento numérico conhece problemas de overflow.

Na IA existe algo semelhante.

Valores podem crescer demais.

Ou diminuir demais.

A Layer Normalization mantém tudo equilibrado.

Ela impede que o treinamento fique instável.

É um mecanismo silencioso.

Mas indispensável.


Context Window

Imagine ler um livro.

Se você esquecer tudo que aconteceu duas páginas atrás...

A história deixa de fazer sentido.

O Context Window representa exatamente essa memória temporária.

Modelos antigos:

2 mil tokens.

Depois:

8 mil.

32 mil.

128 mil.

Hoje encontramos modelos capazes de trabalhar com milhões de tokens.

Quanto maior o contexto...

Maior a capacidade de manter conversas longas.

Mas existe um preço.

O custo computacional cresce aproximadamente com o quadrado da quantidade de tokens.

É por isso que surgiram otimizações como FlashAttention e Sliding Window Attention.


Encoder

Alguns Transformers apenas leem.

Eles não escrevem.

Seu objetivo é compreender.

É o caso do BERT.

Imagine um auditor lendo um programa COBOL.

Ele não modifica nada.

Apenas entende.

Esse é o Encoder.


Decoder

Já o GPT pertence à família dos Decoders.

Seu trabalho consiste em gerar texto.

Token após token.

Ele escreve:

Hoje

↓

Hoje vamos

↓

Hoje vamos estudar

↓

Hoje vamos estudar COBOL

Cada palavra exige um novo processamento completo.


Masked Attention

Existe uma regra fundamental.

Durante o treinamento o modelo não pode olhar o futuro.

Imagine um exame.

O aluno não pode consultar o gabarito.

Da mesma forma, quando precisa prever a próxima palavra, o modelo só pode enxergar as anteriores.

Essa restrição torna o aprendizado muito mais realista.


Cross-Attention

Em tarefas como tradução automática, um Decoder consulta constantemente as informações produzidas pelo Encoder.

Imagine:

Entrada:

The Mainframe is reliable.

Encoder:

Compreende toda a frase.

Decoder:

Produz

O Mainframe é confiável.

Enquanto escreve, consulta continuamente o significado construído pelo Encoder.


O Grande Treinamento

Antes de responder qualquer pergunta, o modelo passou meses aprendendo.

São trilhões de tokens.

Livros.

Artigos.

Código-fonte.

Documentação técnica.

Sites.

Papers.

Repositórios.

A tarefa parece simples.

Prever o próximo token.

Mas essa simplicidade força o modelo a aprender:

  • gramática;

  • lógica;

  • sintaxe;

  • programação;

  • matemática;

  • estilo;

  • contexto;

  • relações de causa e efeito.

É um gigantesco treinamento estatístico.


Fine-Tuning

Depois disso, surgem especializações.

Imagine pegar um programador COBOL.

Depois treiná-lo apenas em seguros.

Ou apenas em bancos.

Ou apenas em telecomunicações.

É exatamente isso.

O conhecimento geral permanece.

Mas surge especialização.

Hoje existem modelos treinados especificamente para:

  • medicina;

  • direito;

  • engenharia;

  • segurança;

  • programação;

  • IBM Z;

  • documentação técnica.

Além disso, técnicas como Instruction Tuning e RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback) refinam o comportamento do modelo para seguir instruções, responder de forma útil e reduzir respostas inadequadas.


Next Token Prediction

Aqui está a maior surpresa.

O modelo não escreve um texto inteiro.

Ele apenas responde:

Qual é o próximo token?

Depois repete.

Depois repete.

Depois repete novamente.

Em velocidade impressionante.

Uma resposta de 800 palavras pode representar milhares de ciclos de previsão consecutivos.


Inference

É a fase em que você conversa com o modelo.

Você digita:

Explique VSAM.

Internamente acontecem bilhões de multiplicações matriciais.

Tudo isso para escolher...

Uma única palavra.

Depois outra.

Depois outra.

Até formar a resposta completa.


O que o infográfico não mostra

O excelente infográfico que inspirou este artigo apresenta o fluxo principal, mas um Transformer moderno ainda possui diversos componentes fundamentais que trabalham nos bastidores.

Entre eles estão:

  • Funções de ativação, como GELU e SiLU, que permitem à rede aprender relações complexas.

  • Backpropagation, responsável por ajustar bilhões de parâmetros durante o treinamento.

  • Otimizadores, como AdamW, que definem como os pesos serão atualizados.

  • Dropout, utilizado para evitar overfitting.

  • Temperature, Top-k e Top-p Sampling, que controlam criatividade e diversidade na geração de texto.

  • Mixture of Experts (MoE), onde apenas parte da rede é ativada para cada token, aumentando eficiência.

  • RAG (Retrieval-Augmented Generation), que permite consultar documentos externos durante a inferência.

  • Quantização, que reduz o tamanho dos modelos para execução em hardware mais modesto.

  • FlashAttention, uma otimização que diminui drasticamente o custo da atenção em contextos longos.

Esses elementos ajudam a explicar por que os modelos atuais conseguem ser ao mesmo tempo maiores, mais rápidos e mais eficientes do que os primeiros Transformers apresentados em 2017.


O que um Programador COBOL pode aprender com tudo isso?

Talvez a maior lição não seja técnica.

Seja filosófica.

Durante décadas, nós, desenvolvedores Mainframe, aprendemos que bons sistemas são construídos em camadas.

Entrada.

Validação.

Processamento.

Persistência.

Saída.

Os Transformers seguem exatamente essa filosofia.

A diferença é que, em vez de registros VSAM e tabelas DB2, trabalham com vetores em espaços de milhares de dimensões. Em vez de IFs escritos por programadores, utilizam bilhões de parâmetros ajustados durante o treinamento. Em vez de regras de negócio explícitas, aprendem padrões estatísticos a partir de volumes gigantescos de dados.

Ainda assim, os princípios continuam familiares: modularidade, processamento em etapas, reutilização de informação, otimização de desempenho e preocupação constante com escalabilidade.


Um Café Antes de Ir...

Quando ouvimos falar em Inteligência Artificial, é fácil imaginar algo misterioso ou quase mágico.

Mas, depois de abrir o capô de um Transformer, percebemos que não existe magia.

Existe engenharia.

Existe matemática.

Existe arquitetura.

Existe otimização.

E existe uma ideia brilhante: permitir que cada palavra "converse" com todas as outras para construir contexto antes de decidir qual será a próxima.

Talvez seja justamente por isso que tantos profissionais experientes em Mainframe conseguem compreender rapidamente essa tecnologia. Quem passou anos projetando sistemas robustos, escaláveis e confiáveis reconhece os mesmos princípios fundamentais, apenas aplicados em uma escala sem precedentes.

No fim das contas, um Transformer não substitui a engenharia de software. Ele é uma das maiores realizações da engenharia de software moderna.

E, para um Programador COBOL Padawan, entender essa arquitetura não significa abandonar décadas de experiência. Significa descobrir que muitos dos conceitos que sustentam a Inteligência Artificial já faziam parte do seu repertório — apenas ganharam novas formas, novos algoritmos e uma capacidade de processamento que transformou a maneira como interagimos com computadores.

Porque, como sempre dizemos aqui no Bellacosa Mainframe, tecnologias mudam. Bons princípios de engenharia permanecem.