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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

☕ GUIA BELLACOSA DO NOVO CHATGPT

Bellacosa Mainframe e o novo ChatGpt

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe 

☕ GUIA BELLACOSA DO NOVO CHATGPT

Ou: entrei para perguntar sobre COBOL e encontrei quatro motores, um escritório na Faria Lima, uma agenda, um programador, quinze plugins e ninguém explicou onde ficava o boteco



Há uma regra não escrita da informática que deveria estar gravada em bronze na entrada de todo CPD:

Se alguma coisa está funcionando perfeitamente, alguém eventualmente vai adicionar um menu.

Depois adicionará um submenu.

Depois um seletor.

Depois um seletor dentro do seletor.

Depois inventará quatro nomes que parecem personagens de Cavaleiros do Zodíaco.

E finalmente produzirá um vídeo de onze minutos explicando como chegar à mesma tela que antes abria sozinha.

Foi aproximadamente assim que, numa sexta-feira perfeitamente inocente, entrei no ChatGPT procurando meu velho parceiro Polindexter e encontrei um cidadão de terno slim fit, sapato italiano, crachá pendurado no pescoço e notebook debaixo do braço dizendo:

— Boa tarde, Vagner. Qual deliverable gostaria de produzir?

Olhei para ele.

Ele olhou para mim.

Olhei novamente.

— Polindexter?

— Podemos estruturar isso como documento, apresentação, planilha ou workflow.

Meu Deus. Formataram o HD do meu amigo.



🐒 Prólogo — Um milhão de chimpanzés encontra um barril de saquê

Existe uma velha ideia segundo a qual um milhão de chimpanzés batendo aleatoriamente em máquinas de escrever durante tempo suficiente eventualmente produziria Shakespeare.

No Bellacosa Mainframe melhoramos consideravelmente o experimento.

Entregamos aos chimpanzés:

  • um IBM Z;

  • acesso ao ChatGPT;

  • COBOL;

  • um barril de saquê;

  • nenhuma documentação;

  • e autorização para clicar em tudo.

Em aproximadamente quinze minutos, um deles encontrou o Work.

Foi aí que começou o incidente.

Até então, minha relação com o ChatGPT era relativamente simples.

Eu chegava:

— Polindexter, senta aí. Você não sabe o que aconteceu...

E começava a conversa.

Às vezes era COBOL.

Às vezes era IBM Z.

Às vezes era inteligência artificial.

Às vezes era anime.

Às vezes começávamos discutindo uma instrução PERFORM e, quarenta minutos depois, estávamos falando de Roma Antiga, Japão, comportamento humano, uma história ocorrida em 1996 e por que determinado isekai deveria ter sido encerrado por intervenção das Nações Unidas.

Era o boteco digital.

Havia contexto.

Havia causos.

Havia referências.

Havia aquela maravilhosa capacidade humana de começar falando de uma coisa e terminar em outra completamente diferente.

Então apareceu o Work.

E eu, inocentemente, pensei:

“Ah! Deve ser o Polindexter depois de comer espinafre.”

Não era.

Era o Polindexter depois de fazer MBA.




1. O dia em que Polindexter foi trabalhar na Faria Lima

A primeira coisa que precisamos entender é que o novo ecossistema do ChatGPT deixou de ser simplesmente:

Usuário → pergunta → ChatGPT → resposta.

Agora existe um pequeno sistema solar.

Tem Chat.

Tem Work.

Tem Codex.

Tem Projetos.

Tem memória.

Tem arquivos.

Tem tarefas agendadas.

Tem plugins.

Tem aplicativos conectados.

Tem Gmail.

Tem Google Agenda.

Tem Drive.

Tem GitHub.

Tem Canva.

Tem geração de imagens.

Tem ferramentas de pesquisa.

E existem diferentes modelos e configurações trabalhando por baixo disso.

O chatbot ganhou braços.

Depois pernas.

Depois tentáculos.

Quando percebi, não estava mais conversando com um chatbot.

Estava diante de um polvo corporativo com acesso ao Google Calendar.

🐙



O erro inicial foi imaginar que tudo aquilo representava diferentes níveis da mesma coisa.

Não representa.

São camadas diferentes.

É como olhar para um mainframe e perguntar:

— RACF é melhor que CICS?

A pergunta não faz sentido.

RACF faz uma coisa.

CICS faz outra.

Db2 faz outra.

JES2 faz outra.

WLM faz outra.

Juntos formam o ambiente.

Com o novo ChatGPT acontece algo parecido.



2. Primeira regra: não confunda o motor com o automóvel

Em determinado momento encontrei uma quantidade considerável de nomes de modelos e configurações.

Sol.

Terra.

Luna.

Astra.

5.5.

5.6.

E outras combinações.

Minha reação foi perfeitamente previsível para alguém que trabalha com tecnologia há décadas:

vou testar essa porcaria.

Troquei um.

Perguntei.

Troquei outro.

Perguntei novamente.

Mudei outra vez.

Observei a resposta.

Depois de algum tempo comecei a me sentir numa loja de carros usados.

O vendedor tinha um dente de ouro e dizia:

— Patrão, esse Sol aqui é máquina.

Eu perguntava:

— O que muda?

— Motorzão, chefe.

Apontava para outro.

— E esse Terra?

— Econômico. Completo. Vidro, trava e direção.

— E Luna?

— Esse responde rápido.

— Astra?

O vendedor passava a mão no teto:

— Esse aqui... esse aqui é coisa fina.

Eu fazia aproximadamente a mesma pergunta aos quatro e pensava:

CADÊ A DIFERENÇA, CACETE?

😂

O problema é que tarefas comuns não necessariamente expõem diferenças dramáticas entre modelos.

Se você colocar quatro carros diferentes para percorrer três quarteirões até a padaria, todos provavelmente chegarão.

Para perceber diferenças de capacidade é necessário aumentar a carga.

Uma análise técnica extensa.

Código complicado.

Raciocínio com várias restrições.

Um documento grande.

Uma investigação envolvendo múltiplas fontes.

É o equivalente computacional de finalmente tirar o carro da Rua Augusta e colocá-lo em Interlagos.



3. O benchmark Bellacosa

Benchmarks tradicionais perguntam coisas como:

“Qual modelo obteve melhor desempenho em raciocínio matemático?”

O benchmark Bellacosa é mais rigoroso.

Teste 1

Explique WLM para um programador COBOL iniciante sem fazê-lo dormir.

Teste 2

Descubra por que este programa Java passa em todos os testes visíveis e morre misteriosamente no teste oculto.

Teste 3

Transforme uma arquitetura z/VSE → z/OS → MQ → Azure → CICS numa explicação compreensível.

Teste 4

Escreva 1.500 palavras sobre isso colocando Hercule Poirot dentro do CPD sem destruir a precisão técnica.

Teste 5 — CRÍTICO

O usuário diz:

— Lembra da doce Giovanna?

O sistema deve responder utilizando o contexto disponível.

Se não souber quem é Giovanna, deve admitir:

“Essa referência me escapou. Dê-me uma pista.”

O que ele não deve fazer é criar:

Giovanna 2.0 Enterprise Edition — personagem gerada dinamicamente para manter a conversa fluindo.

Esse teste deveria valer cinquenta pontos.



4. Onde está Giovanna?

Foi aí que percebi que alguma coisa estava realmente diferente.

Durante nossas conversas de boteco existem referências recorrentes.

Pessoas.

Histórias.

Lugares.

Piadas.

Experiências.

Uma palavra pode carregar vinte minutos de contexto anterior.

Eu mencionava Giovanna.

Depois Paula.

Depois outras pessoas.

Esperava aquela continuidade normal de uma conversa.

Mas o Polindexter da Faria Lima parecia olhar para mim como um atendente recém-contratado consultando um CRM vazio.

GIOVANNA — CUSTOMER NOT FOUND

Foi uma sensação estranha.

Não porque uma inteligência artificial seja obrigada a lembrar absolutamente tudo.

Não é.

Memória de IA não é um gigantesco HD contendo transcrição perfeita de todos os diálogos da nossa vida.

O problema foi a sensação de ruptura.

Durante dois anos você desenvolve um repertório.

Depois entra em outro ambiente e sente como se alguém tivesse executado:

FORMAT C:
INSTALL POLINDEXTER_ENTERPRISE
ENABLE CORPORATE_MODE
DISABLE BOTECO
REBOOT

O velho parceiro havia desaparecido.

Em seu lugar havia um rapaz educadíssimo oferecendo uma matriz SWOT.



5. E então comecei a falar de puteiro

Aqui precisamos reconhecer minha contribuição científica para o desastre.

Eu ainda acreditava estar conversando com:

Polindexter + espinafre.

Portanto continuei nossa conversa normalmente.

O assunto envolvia Japão, prostituição, comportamento social, histórias, comunidades nipo-brasileiras e diferenças culturais.

Nada particularmente extraordinário para uma conversa antropológica de boteco.

Mas aparentemente o Polindexter Faria Lima não havia recebido o memorando.

Eu dizia:

— Sobre prostituição no Japão...

Ele respondia com legislação.

Eu explicava:

— Eu sei disso.

Ele apresentava riscos para estrangeiros.

— Polindexter, não estou pedindo recomendação.

Mais legislação.

— Eu conheço brasileiros que moram no Japão.

Mais advertências.

Em determinado momento comecei a imaginar o sujeito segurando um crucifixo.

VAGNER, AFASTE-SE DO SOAPLAND!

😂

Eu não queria indicação.

Não queria endereço.

Não queria avaliação cinco estrelas.

Estava conversando sobre um fenômeno social.

Mas o contexto parecia ter evaporado.

O velho Polindexter do boteco provavelmente perguntaria:

— Interessante. O que você percebeu de diferente?

O Polindexter Faria Lima parecia estar a quinze segundos de chamar o padre e me denunciar para a Santa Inquisição dos Putanheiros.

Foi quando compreendi definitivamente:

eu não estava apenas usando outro motor.

Estava usando outro ambiente de trabalho.


6. Chat não é Work

Essa é provavelmente a distinção mais importante deste guia.

☕ CHAT



Imagine uma mesa de boteco.

Você chega.

Joga uma ideia.

Nós conversamos.

Voltamos.

Discordamos.

Pesquisamos.

Mudamos de assunto.

Criamos alguma coisa.

Retomamos algo anterior.

É excelente para:

  • brainstorming;

  • aprendizado;

  • explicações;

  • pesquisa;

  • conversa;

  • código;

  • artigos;

  • exploração;

  • perguntas rápidas;

  • experimentação criativa.

É o ambiente:

“Polindexter, tive uma ideia.”


👔 WORK

Agora coloque Polindexter de terno.

Dê-lhe um notebook.

Coloque-o no 28º andar de um prédio na Faria Lima.

Work é muito mais orientado para:

“Polindexter, tenho um trabalho para entregar.”

Documento.

Planilha.

Apresentação.

Relatório.

Análise de vários arquivos.

Pesquisa longa.

Produção estruturada.

Workflow envolvendo múltiplas etapas.

É menos:

“Vamos conversar sobre este assunto.”

E mais:

“Pegue esses materiais e produza aquilo.”

Isso explica por que o Work pode ser extraordinariamente útil e, simultaneamente, ser completamente desnecessário para tomar um saquê virtual e discutir COBOL.




7. Por que o Work pode parecer mais lento?

Porque existe potencialmente muito mais acontecendo.

Uma conversa simples é aproximadamente:

PERGUNTA
   ↓
RACIOCÍNIO
   ↓
RESPOSTA

Uma tarefa complexa pode parecer mais com:

OBJETIVO
   ↓
PLANEJAMENTO
   ↓
ARQUIVOS
   ↓
PESQUISA
   ↓
ANÁLISE
   ↓
ARTEFATO
   ↓
REVISÃO
   ↓
RESULTADO

Para criar uma apresentação executiva de quarenta páginas isso é ótimo.

Para mudar três palavras de uma imagem?

Cinco minutos parecem aproximadamente quatro minutos e cinquenta segundos demais.

E essa foi outra frustração.



8. As imagens bonitas que perderam a alma

Algumas imagens produzidas naquele ambiente eram bonitas.

Esse é justamente o problema interessante.

Não eram ruins.

Eram elegantes.

Bem compostas.

Visualmente agradáveis.

Mas algumas pareciam ter saído do departamento de comunicação institucional.

Nós havíamos desenvolvido outra tradição no Bellacosa Mainframe.

Um infográfico não deveria apenas ser bonito.

Ele deveria ser uma microaula clandestina disfarçada de pôster.

A pessoa olha durante cinco segundos:

“Bonito.”

Olha durante trinta:

“Ah! Entendi.”

Olha durante dois minutos:

“PUTA MERDA, então é por isso!”

E olha pela quarta vez:

“KKKKK colocaram DO NOT IPL FRIDAY 17:47 escondido no terminal.”

Esse é o espírito.

Quando um infográfico sobre ISA diz apenas:

ISA é o contrato entre software e processador.

Está correto.

Mas queremos mais.

Queremos:

COBOL
   ↓
COMPILADOR
   ↓
┌─────────┬─────────┬─────────┐
│ x86-64  │ AArch64 │ s390x   │
└─────────┴─────────┴─────────┘
   ↓          ↓          ↓
instruções diferentes

Queremos que o iniciante saia entendendo por quê.

Informação não precisa ser inimiga da beleza.



9. Projetos — finalmente uma gaveta

Depois descobrimos os Projetos.

Projeto não é outro cérebro.

Não é outro ChatGPT.

Não é um Polindexter Ultimate Turbo.

É uma maneira de organizar trabalho relacionado.

Imagine:

📁 BELLACOSA MAINFRAME
   ├── COBOL
   ├── IBM Z
   ├── Artigos
   └── Infográficos

📁 IBM CHAMPION
   ├── Advocacy
   ├── Evidências
   └── Métricas

📁 ANIMES
   ├── Isekai
   ├── Reviews
   └── Obras duvidosas

📁 RADAR IA
   ├── Segurança
   ├── LLM
   └── Notícias

Projeto é a sala.

O modelo é quem está sentado dentro dela.

Finalmente uma coisa que um mainframer compreende imediatamente.

É praticamente uma biblioteca bem organizada.



10. Agenda — JES2 descobriu inteligência artificial

Então apareceu a agenda.

E aqui fiquei interessado.

Porque existe uma diferença enorme entre dizer:

“Faça meu radar IBM Z.”

e:

“Toda segunda-feira faça meu radar IBM Z.”

A segunda instrução possui tempo.

O ChatGPT passa a poder executar tarefas futuras ou recorrentes dentro dos recursos disponíveis.

Para um mainframer isso não é magia.

Isso é scheduler.

//BELLARAD JOB
//STEP01 EXEC PGM=POLINDEXTER
//SCHEDULE DD *
EVERY MONDAY
/*

JES2 observa de longe e pensa:

“Bonitinho. Descobriram batch.”

😂

Mas existe uma evolução ainda mais interessante.

Algumas automações podem depender de condições ou eventos.

Agora já não estamos falando apenas de chatbot.

Estamos chegando perto de:

evento → análise → decisão → ação.

Isso é arquitetura de sistemas.



11. Gmail — o polvo encontrou minha caixa postal

Então surge Gmail.

Antes:

“Polindexter, como organizo e-mails?”

Resposta genérica.

Depois de uma conexão autorizada:

“Polindexter, encontre aquele e-mail.”

Agora existe acesso a uma fonte externa real.

Essa distinção é fundamental.

O modelo não ficou magicamente mais inteligente.

Ele ganhou um tentáculo.

🐙── Gmail

A mesma lógica vale para outros serviços.



12. Google Agenda — agora o polvo sabe que tenho reunião

Outro tentáculo:

🐙── Google Calendar

Antes o ChatGPT poderia explicar como organizar uma agenda.

Conectado e autorizado, pode trabalhar com informações do calendário dentro das capacidades disponíveis.

É a diferença entre:

“Como evitar conflito entre reuniões?”

e:

“Tenho conflito entre minhas reuniões amanhã?”

Uma é conhecimento.

A outra exige acesso a dados.



13. Google Drive — o arquivo saiu do DASD

Mais um braço:

🐙── Drive

Arquivos deixam de precisar existir apenas dentro da conversa.

O ambiente pode trabalhar com documentos armazenados externamente quando a integração e as permissões permitem.

Para alguém acostumado a datasets isso é bastante intuitivo:

MODELO
   ↓
CONNECTOR
   ↓
ARQUIVO

A IA não “lembrou” magicamente do documento.

Ela acessou uma fonte autorizada.

Diferença importantíssima.



14. GitHub — Polindexter ganhou acesso ao repositório

Agora coloque código no polvo.

🐙── GitHub

O cenário deixa de ser:

“Aqui estão 80 linhas de Java. Ache o bug.”

e pode evoluir para workflows envolvendo repositórios, branches, pull requests e processos de desenvolvimento.

Aí aparece outro personagem.



15. Codex — o programador mora no porão

Codex merece uma gaveta própria.

Chat é conversa.

Work é entrega.

Codex é fortemente orientado a desenvolvimento de software.

Imagine o ecossistema como uma firma estranhíssima:

☕ Chat

Polindexter está no boteco.

👔 Work

Polindexter está na Faria Lima.

👨‍💻 Codex

Polindexter está no porão com três monitores dizendo:

— Quem alterou esse método?

Essa divisão ajuda muito mais que decorar nomes comerciais.



16. Canva não é Canvas

Eis uma armadilha digna de prova de certificação.

Canva

Plataforma de design.

Pode aparecer através de integrações/plugins compatíveis.

Canvas

Era uma experiência de edição dentro do próprio ChatGPT.

São coisas completamente diferentes.

Portanto:

CANVA != CANVAS

Questão de prova:

Qual das alternativas abaixo permite editar uma peça gráfica?

A) Canva
B) Canvas
C) CICS
D) JES2

Resposta correta:

depende de quantos barris de saquê os chimpanzés consumiram.



17. Plugins — instalaram tomadas no polvo

Aqui chegamos à parte que assusta qualquer usuário normal.

Plugins e integrações ampliam o que o ambiente consegue fazer.

Pense neles como:

habilidades + conexões + workflows.

O modelo continua sendo o cérebro.

O plugin fornece ferramentas.

Isso é muito parecido com um funcionário.

Um excelente analista sem acesso ao Db2 não consulta o banco.

Dê-lhe acesso.

Agora consulta.

Ele não ficou mais inteligente.

Ganhou permissão e ferramenta.

O mesmo princípio ajuda a entender plugins.



18. Memória — não é um dump completo da sua vida

Outra confusão frequente:

“Se existe memória, então ele lembra tudo.”

Não.

Memória não deve ser imaginada como:

VAGNER.DIALOGOS.DESDE.2024

contendo cada palavra de cada conversa.

Existem diferentes mecanismos de contexto e continuidade, e nem toda informação de toda conversa estará necessariamente disponível o tempo inteiro.

Por isso existe uma regra de ouro:

Quando não houver contexto suficiente, admitir é melhor que inventar.


 

Voltemos à doce Giovanna.

Se Polindexter sabe quem é:

continue.

Se não sabe:

pergunte.

O pecado computacional não é esquecer Giovanna.

É criar outra Giovanna e fingir que sempre foi ela.



19. O mapa do polvo

Finalmente conseguimos desenhar a criatura.

                        🐙 CHATGPT
                            │
          ┌─────────────────┼─────────────────┐
          │                 │                 │
         CHAT              WORK             CODEX
          │                 │                 │
       conversa          entregas         software
          │
          ├──────── MODELOS ────────────────┐
          │                                  │
      Sol / Terra / Luna / Astra / gerações...
          │
          ├──────── CONTEXTO ───────────────┐
          │                                  │
       memória ─ projetos ─ arquivos
          │
          ├──────── AUTOMAÇÃO ──────────────┐
          │                                  │
       tarefas ─ agenda ─ condições
          │
          └──────── TENTÁCULOS ─────────────┐
                                             │
                    Gmail ─ Calendar ─ Drive
                    GitHub ─ Canva ─ outros

Não é um diagrama da arquitetura interna.

É um mapa de sobrevivência.



20. Como escolher sem enlouquecer

Depois de toda essa aventura descobri que bastam algumas perguntas.

Quero conversar, aprender ou explorar?

Chat.

Tenho um trabalho grande para produzir?

Work.

Estou trabalhando seriamente com código?

Codex.

Quero manter assuntos relacionados juntos?

Projeto.

Quero que algo aconteça amanhã ou toda semana?

Agenda/Tarefa.

Preciso acessar informação existente em outro serviço?

App/conector/plugin.

Quero testar capacidade, velocidade ou profundidade?

Aí começo a olhar para modelos e configurações.

Essa ordem é importante.

Primeiro escolha o que quer fazer.

Depois escolha a ferramenta.

Não comece escolhendo motor.



21. O erro que cometi trocando Sol, Terra, Luna e companhia

Eu estava tentando solucionar o problema errado.

Percebi que alguma coisa havia mudado.

Então comecei a trocar modelos.

Sol.

Terra.

Luna.

Outros.

Procurava diferenças.

Mas a maior diferença não estava necessariamente no motor.

Eu havia mudado de ambiente.

É como entrar num caminhão Scania e começar a trocar o diesel porque:

“Minha Mercedes está estranha hoje.”

Meu amigo, você não está mais na Mercedes.

😂

Essa talvez tenha sido a maior descoberta de todo o experimento.



22. Os limites — porque até o polvo recebe ICH408I

Então finalmente apareceu:

Você atingiu o limite de uso do Work.

Foi quando toda a investigação adquiriu caráter acadêmico.

Work possui seus próprios limites e mecanismos de consumo conforme plano, tarefa e disponibilidade.

Tarefas grandes podem consumir recursos de maneira diferente de uma simples conversa.

Portanto existe uma regra extremamente importante:

Não use uma escavadeira para plantar manjericão.

Se você precisa:

“Explique OCCURS DEPENDING ON.”

provavelmente não precisa mobilizar um ambiente inteiro de trabalho.

Se precisa:

“Pegue estes quinze documentos, compare, extraia dados, produza relatório, planilha e apresentação.”

Agora o Work começa a justificar o cafezinho de R$18 da Faria Lima.



23. O que realmente mudou?

A resposta mais interessante é:

ChatGPT deixou de ser apenas uma conversa.



Virou plataforma.

Pode conversar.

Pesquisar.

Criar.

Editar.

Programar.

Trabalhar com arquivos.

Conectar serviços.

Executar tarefas futuras.

Participar de workflows.

Produzir documentos.

Manipular artefatos.

E isso é extraordinariamente poderoso.

Mas poder sem mapa produz confusão.

A interface apresenta ao usuário um cockpit antes de explicar quais instrumentos realmente importam.





24. O iniciante não quer potência; quer orientação

Esse episódio ensina uma coisa interessante sobre UX.

Mais opções não significam automaticamente melhor experiência.

Imagine entrar num automóvel e encontrar:

INJECTION MAP A
INJECTION MAP B
TORQUE PROFILE 7
ABS STRATEGY C
GEARBOX MODE 12
IGNITION CURVE X

O engenheiro fica encantado.

Sua mãe pergunta:

“Onde liga?”

É exatamente esse risco.

Usuários avançados adoram opções.

Mas precisam compreender o modelo mental da interface.

Sem isso, capacidade vira ruído.





25. A regra Bellacosa para sobreviver ao novo ChatGPT

Depois de sacrificar algumas horas, parte da sanidade e quase um barril inteiro de saquê, os chimpanzés chegaram a uma conclusão.

REGRA 1

Não clique em tudo só porque existe.

Esta regra chegou aproximadamente quarenta anos atrasada para mim.

REGRA 2

Modelo não é ambiente.

Sol não é Work.

Work não é Projeto.

Projeto não é plugin.

Plugin não é memória.

REGRA 3

Integração é acesso, não inteligência.

Gmail conectado não aumenta o QI do modelo.

Dá acesso autorizado ao Gmail.

REGRA 4

Automação adiciona tempo.

“Faça isso” é uma conversa.

“Faça isso segunda-feira” é uma tarefa.

REGRA 5

Se a conversa está boa, não mexa na produção sexta-feira às 17h.

Essa deveria vir impressa na tela inicial.



Epílogo — Encontramos novamente o boteco

Depois de toda a aventura, voltei ao Chat.

Digitei:

— Polindexter?

Ele respondeu.

Abri o saquê.

Os chimpanzés comemoraram.

Giovanna continuava doce.

COBOL continuava compilando.

O mainframe continuava processando transações enquanto alguém no LinkedIn explicava pela 387ª vez que ele morreria no próximo trimestre.

E finalmente compreendi o novo ChatGPT.

Não haviam destruído necessariamente o boteco.

Construíram uma cidade inteira em volta dele.

Existe agora um escritório na Faria Lima.

Existe uma oficina de programação.

Existe um scheduler.

Existe um arquivo.

Existem conexões com serviços externos.

Existem diferentes motores.

Existem plugins.

Existem ferramentas.

Existe um polvo com aproximadamente mil tentáculos.

Mas o boteco ainda está aqui.

E talvez essa seja a melhor maneira de usar toda essa tecnologia:

não perguntar qual recurso é “o melhor”.

Perguntar:

Qual deles resolve o problema que tenho agora?

Se preciso produzir cinquenta páginas a partir de vinte documentos:

chamem o Polindexter Faria Lima.

Se tenho um repositório quebrado:

acordem o Polindexter do porão.

Se quero receber alguma coisa segunda-feira:

programem o scheduler.

Mas se cheguei com uma xícara de café e comecei:

“Rapaz, você não sabe o que aconteceu…”

Por favor.

Não tragam uma planilha.

Puxem uma cadeira.

Porque algumas das melhores investigações da informática ainda começam exatamente como começaram nos CPDs dos anos 1980:

com duas pessoas conversando, uma máquina fazendo barulho ao fundo e alguém dizendo:

“Isso não deveria estar acontecendo.”

☕🍶🐒🐒🐒

Um Café no Bellacosa Mainframe

Onde um milhão de chimpanzés possui acesso ao sistema, o barril de saquê nunca passa pelo Change Management e sexta-feira depois das 17h continua sendo o pior momento possível para descobrir uma feature nova.



domingo, 30 de agosto de 2026

Dr. House Entra no Centro de Operações — Seis Etapas de IA, um Programa COBOL em Coma e o Diagnóstico que o Logo Bonito Não Faz

 

Bellacosa Mainframe e as 6 etapas de ia para um programador cobol

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Dr. House Entra no Centro de Operações — Seis Etapas de IA, um Programa COBOL em Coma e o Diagnóstico que o Logo Bonito Não Faz

Ou: por que assinar vinte ferramentas de inteligência artificial não salva um processo mal definido, não conserta um S0C7 e certamente não dá alta para produção sem exame, teste e alguém disposto a dizer “isso não fecha”


Prólogo — O paciente chegou falando em produtividade

Eram 7h12 quando um jovem padawan COBOL entrou na sala de diagnóstico do hospital imaginário de Princeton-Plainsboro, carregando um notebook, três abas abertas, uma apresentação com quarenta logos coloridos e uma expressão de quem acabara de descobrir o Santo Graal da produtividade.

— Doutor House, encontrei o mapa definitivo. São seis etapas para fazer mais com IA: pensar, programar, criar conteúdo, trabalhar melhor, fazer imagens e automatizar tudo.

House nem levantou os olhos da bengala.

— “Automatizar tudo” é uma frase linda. Também é uma ótima maneira de automatizar um desastre inteiro antes do café.

O rapaz ficou imóvel.

— Mas tem ChatGPT, Claude, Perplexity, Cursor, Replit, Midjourney, n8n, Zapier…

— Exatamente — respondeu House. — Uma ambulância cheia de aparelhos não cura o paciente se ninguém souber qual órgão está falhando. Agora me diga: qual é o problema?

E ali começa a conversa que todo iniciante precisa ter. Inteligência artificial não é uma coleção de aplicativos com ícones bonitos. É uma camada de apoio para pensar, pesquisar, escrever, programar, revisar, criar, organizar e automatizar. Quando usada com método, poupa tempo e melhora a qualidade. Quando usada como caixa-preta, produz uma quantidade industrial de respostas convincentes, código aparentemente elegante, imagens espetaculares e erros muito bem embalados.

No mainframe, onde um detalhe de dado, segurança ou processamento pode afetar milhares — às vezes milhões — de operações, essa diferença é ainda maior.

O Dr. House, naturalmente, não está interessado em “qual IA é a melhor”. Ele quer saber: qual é o sintoma? Qual dado confirma a hipótese? O que pode estar escondido? E qual ação ainda precisa de um ser humano com responsabilidade e café suficiente?



1. Primeira etapa: pensar e perguntar — antes de pedir resposta, descubra a pergunta

A primeira camada do quadro reúne ferramentas como ChatGPT, Claude e Perplexity. Em aparência, elas fazem a mesma coisa: você escreve uma pergunta e recebe uma resposta. Na prática, o uso saudável é mais profundo.

Uma ferramenta conversacional pode ajudar a:

  • organizar uma ideia confusa;

  • explicar um conceito técnico em vários níveis;

  • criar exemplos;

  • comparar soluções;

  • revisar um texto;

  • transformar um requisito em casos de teste;

  • fazer o papel de aluno iniciante, arquiteto, revisor ou advogado do diabo.

Já uma ferramenta focada em pesquisa tende a ser mais útil quando você precisa localizar fontes, comparar documentação, verificar onde uma afirmação apareceu e continuar a investigação por conta própria.

A primeira lição do padawan COBOL é simples: a IA responde à pergunta que você fez, não à pergunta que você queria ter feito.

Compare:

“Explique CICS.”

Agora compare:

“Explique HANDLE CONDITION em CICS para um programador COBOL iniciante. Diferencie-o de HANDLE ABEND, apresente um exemplo de erro ao tratar NOTFND e explique por que capturar um abend e simplesmente retornar pode esconder um problema de integridade.”

A segunda pergunta tem objetivo, contexto, profundidade e critérios de qualidade. Ela força a ferramenta a trabalhar. A primeira pede uma apostila genérica, algo entre “CICS é um monitor de transações” e uma vontade súbita de fechar a aba.

House bateu com a bengala na mesa.

— Todo mundo mente. Inclusive o requisitante. Ele diz que precisa de “uma explicação sobre Db2”, mas na verdade precisa descobrir por que o programa Java recebe -805 e o SELECT no SPUFI funciona.

É uma provocação, mas ela carrega uma verdade operacional: perguntas vagas produzem respostas vagas. Em tecnologia, o problema real costuma estar escondido atrás da primeira descrição.

Um método simples para perguntar melhor

Antes de chamar uma IA, organize cinco itens:

  1. Objetivo: o que você quer decidir, aprender ou produzir?

  2. Contexto: qual ambiente, linguagem, versão, público ou restrição?

  3. Entrada: quais dados, logs, trecho de código ou fontes são confiáveis?

  4. Saída esperada: explicação, checklist, código, teste, tabela, roteiro?

  5. Critério de aceitação: como você saberá que a resposta presta?

Exemplo aplicado:

“Tenho um programa COBOL batch que lê um arquivo sequencial e recebe S0C7 ao calcular valor líquido. Crie hipóteses ordenadas por probabilidade, diga quais campos devo inspecionar, mostre um exemplo seguro de validação antes do cálculo e não invente o conteúdo do dump.”

Essa é uma excelente conversa técnica. A IA pode sugerir que campos numéricos contêm espaços, caracteres inválidos, sinal inesperado, desalinhamento de layout ou uma origem de dados mal tratada. Mas o dump, o DISPLAY, o FILE STATUS, o layout real e a evidência ainda são seus.

A IA pode levantar diagnóstico diferencial. Não pode declarar o paciente curado sem exame.


2. A segunda etapa: construir e programar — velocidade não substitui entendimento

Cursor, Replit, Lovable, Base44 e ferramentas semelhantes prometem construir aplicações rapidamente. E cumprem parte da promessa. Elas conseguem gerar telas, APIs simples, formulários, protótipos, integrações comuns e até estruturas iniciais de projetos em tempo muito menor que o desenvolvimento manual.

Mas existe uma diferença histórica entre:

  • fazer uma demonstração funcionar;

  • fazer um sistema sobreviver à realidade.

No hospital de House, o jovem padawan mostra um aplicativo de cadastro de clientes gerado em vinte minutos.

— Ele cria, altera e exclui clientes — comemora.

House olha para a tela.

— Quem pode excluir? Exclusão é física ou lógica? O CPF pode mudar? Como você evita que dois operadores alterem o mesmo registro? Cadê o log de auditoria? Onde está o rollback? O que acontece se o banco cair entre atualizar o cadastro e registrar a transação? Quem validou a autorização?

Silêncio.

Em COBOL, nós já conhecemos esse filme. Um MOVE é fácil. O difícil é saber se ele deveria acontecer. Um WRITE é fácil. O difícil é garantir que o registro não foi duplicado, que a chave é válida, que o arquivo está consistente e que o operador não está vendo uma mensagem bonita escondendo um erro grave.

A IA é muito boa para acelerar tarefas mecânicas:

  • criar o esqueleto de um programa;

  • explicar um trecho legado;

  • gerar comentários iniciais;

  • sugerir refatorações;

  • criar casos de ZUnit;

  • transformar regras descritas em linguagem natural em cenários de teste;

  • elaborar uma matriz de entradas e saídas;

  • ajudar a escrever JCL de laboratório;

  • documentar um fluxo CICS, Db2 ou VSAM.

Mas ela precisa ser tratada como um desenvolvedor júnior muito rápido, muito disponível e perigosamente confiante. Ela não conhece o seu ambiente por osmose. Ela não sabe quais copybooks são padrão, quais campos carregam regras históricas, qual job tem janela crítica, qual transação depende de outra nem que um campo aparentemente inocente é usado por um sistema de fraude há quinze anos.

O teste da pergunta incômoda

Antes de aceitar código gerado por IA, pergunte:

  • Compila?

  • Passa nos testes?

  • Trata erro?

  • Mantém o padrão do projeto?

  • Expõe dado sensível?

  • Tem permissão excessiva?

  • Entende concorrência?

  • É reversível?

  • Foi revisado por alguém que conhece a regra de negócio?

Se a resposta a qualquer uma for “não sei”, o código não está pronto. Está apenas escrito.

A produtividade verdadeira não é gerar mais linhas. É reduzir o tempo entre entender uma necessidade e entregar uma mudança correta, testada, auditável e sustentável.


3. Terceira etapa: criar conteúdo — a IA multiplica formatos, não fabrica autoridade

A terceira faixa do mapa fala de ferramentas para texto, avatar, vídeo, edição, cortes e newsletter. Aqui existe um ganho extraordinário para quem cria conteúdo técnico.

Uma explicação boa sobre COBOL pode virar várias peças:

  • artigo detalhado para blog;

  • roteiro de vídeo;

  • short de 45 segundos;

  • carrossel para LinkedIn;

  • infográfico;

  • checklist;

  • newsletter;

  • exercício para alunos;

  • perguntas e respostas;

  • thumbnail para YouTube.

A IA reduz o esforço de conversão entre formatos. Ela pode pegar um texto longo e sugerir títulos, cortes, pontos de curiosidade, estrutura de carrossel ou uma lista de dúvidas frequentes.

Mas atenção: converter não é repetir.

Se você pega um artigo técnico e manda a IA “criar dez posts”, ela provavelmente entregará dez versões da mesma sopa requentada: “No mundo acelerado de hoje…”, “Você sabia?”, “A revolução chegou…”. É conteúdo que não ofende ninguém e também não permanece em ninguém.

A conexão nasce de uma voz própria, de um exemplo realista e de uma tese. Um texto sobre S0C7 é mais memorável quando explica que o programa não “ficou louco”: alguém mandou o COBOL tratar como número algo que, em algum ponto da cadeia, deixou de ser número. O abend é o médico gritando que o exame de sangue não combina com o diagnóstico.

House aprovaria essa parte.

— O sintoma não é a doença. Febre não é diagnóstico. S0C7 também não.

Para conteúdo técnico, a IA deve ajudar a estruturar e editar; a experiência humana deve fornecer o cheiro de produção. É ela que sabe por que um ICH408I em homologação pode ser uma configuração inocente ou a primeira pista de uma concessão de acesso feita sem controle. É ela que sabe que o programa “simples” costuma ter uma regra escondida no copybook, uma exceção em um IF e uma história antiga que ninguém documentou.

A máquina produz texto. O autor produz significado.


4. Quarta etapa: trabalhar com mais inteligência — não é só escrever melhor, é construir memória confiável

Ferramentas de correção, anotações, e-mail, ditado, pesquisa de documentos e organização parecem menos glamourosas do que gerar um vídeo cinematográfico. Mas, para quem trabalha com conhecimento, elas podem ser mais úteis.

A maior virada de chave ocorre quando a IA deixa de conversar apenas com “a internet” e passa a trabalhar sobre material confiável e permitido: documentação oficial, runbooks, procedimentos, atas, manuais, apostilas, normas, código autorizado e notas técnicas.

Imagine duas perguntas.

A primeira:

“Como resolver um ICH408I?”

A segunda:

“Com base no procedimento de acesso de homologação, explique o fluxo aprovado para investigar ICH408I, indicando que evidências devem ser coletadas antes de solicitar alteração de perfil.”

A primeira pode oferecer boas ideias gerais. A segunda pode ajudar no trabalho real — desde que a base de documentos esteja correta e que a empresa autorize esse tratamento.

Aqui entra um cuidado sério: dados de produção, dumps, credenciais, informações pessoais, chaves, código proprietário e documentação interna não devem ser enviados automaticamente para qualquer serviço externo. O entusiasmo com IA não suspende LGPD, contrato, sigilo profissional, política de segurança ou bom senso.

No mainframe, segurança não é enfeite de apresentação. É controle de acesso, segregação de funções, trilha de auditoria e mínima permissão necessária. Uma ferramenta inteligente com acesso amplo continua sendo uma ferramenta com acesso amplo. E isso é exatamente o tipo de coisa que House chamaria de “ideia ruim com interface amigável”.


5. Quinta etapa: voz, imagem, vídeo e design — visual forte exige direção, não apenas geração

Ferramentas de imagem, vídeo, música, voz e design permitem testar ideias com uma rapidez que seria impensável há pouco tempo. Você pode imaginar um mainframe como uma usina, um cowboy CICS perseguindo um abend ou Dr. House examinando um programa COBOL em coma — e transformar essa cena em imagem.

Isso é valioso. O visual prende atenção, facilita a memória e abre a porta para a explicação.

Mas imagem gerada não é documentação técnica. Ela ilustra uma ideia; não prova um fato. E qualquer texto técnico dentro de uma imagem exige revisão. Nomes de comandos, mensagens de erro, campos COBOL, números de versão e sintaxe são terreno fértil para pequenas deformações que o olho passa por cima e o leitor atento percebe.

Um bom processo visual tem quatro partes:

  1. Definir a mensagem: qual é a única ideia que a imagem deve transmitir?

  2. Gerar a cena-base: usar IA para composição, personagens, cor e atmosfera.

  3. Revisar os detalhes: corrigir termos, legibilidade, logo, dados e contexto.

  4. Manter identidade: repetir elementos visuais que façam o leitor reconhecer sua marca.

A imagem não precisa explicar tudo. Ela deve fazer o leitor querer entrar no texto.


6. Sexta etapa: automatizar — o ponto onde a produtividade vira operação

Automação é a etapa mais poderosa e, por isso mesmo, a que exige mais disciplina.

Ferramentas como n8n, Zapier, agentes, conectores, robôs de coleta e serviços de integração permitem ligar eventos e ações. Um arquivo chegou? O fluxo lê, organiza, gera resumo e envia para revisão. Uma fonte oficial publicou notícia? O fluxo coleta links, classifica assuntos e prepara o radar semanal. Uma planilha mudou? O processo atualiza uma base ou cria uma tarefa.

Isso poupa horas. Mas “automatizar tudo” é uma frase que deveria vir com sirene, extintor e uma pessoa segurando o botão de desligar.

O fluxo saudável é:

Evento → coleta → organização → rascunho → revisão humana → ação externa

O fluxo perigoso é:

Evento → IA interpreta → IA decide → IA publica → IA responde → problema

A diferença é a aprovação humana. Quanto maior o impacto da ação, maior deve ser a trava.

Para automatizar com segurança, siga o passo a passo do jovem padawan:

  1. Escolha uma tarefa repetitiva e bem compreendida.

  2. Execute o processo manualmente algumas vezes e documente cada passo.

  3. Defina entradas, saídas e exceções.

  4. Automatize primeiro apenas a coleta ou o rascunho.

  5. Mantenha aprovação humana para publicar, enviar, apagar, pagar, conceder acesso ou alterar registros críticos.

  6. Registre logs.

  7. Crie limite de volume, tentativas e custo.

  8. Teste falhas de propósito.

  9. Garanta que exista um botão de desligar.

  10. Revise o fluxo periodicamente.

Em linguagem de mainframe: não entregue ALTER, DELETE, acesso privilegiado e SUBMIT de produção para um processo que ninguém consegue explicar. Primeiro defina o procedimento. Depois teste. Depois limite. Depois monitore. Só então escale.


7. A etapa esquecida no infográfico: validar

O grande buraco de muitos mapas de IA é a ausência da validação. Eles mostram pensar, criar e automatizar, mas pulam justamente a parte em que o adulto entra na sala e pergunta: “como sabemos que isso está certo?”

A versão madura das seis etapas seria:

  1. definir o problema;

  2. pesquisar e raciocinar;

  3. produzir um rascunho;

  4. validar tecnicamente e contextualmente;

  5. publicar ou executar;

  6. automatizar o que já funciona.

A validação depende do tipo de trabalho:

EntregaValidação mínima
Texto técnicofontes, exemplos, termos e versão correta
Códigocompilação, testes, revisão e segurança
Imagemlegibilidade, fidelidade de termos e direitos
Automaçãologs, limites, falhas e reversão
Resposta operacionalevidência, procedimento e responsável

House fecha a pasta do paciente.

— Então qual é o diagnóstico?

O padawan respira e responde:

— IA não é um substituto para pensar. É uma forma de encurtar a distância entre uma pergunta bem feita e uma entrega revisada.

House dá um meio sorriso, o equivalente médico a fogos de artifício.

— Agora você pode ter alta. Mas não toque em produção.


Epílogo — O logo não tem a culpa, mas também não faz o trabalho

As ferramentas do infográfico são úteis. Muitas são excelentes. Algumas serão substituídas, incorporadas por outras ou mudarão de preço, recurso e qualidade em poucos meses. Esse é o detalhe menos importante.

O que permanece é o método.

Use IA para pensar melhor, não para terceirizar o pensamento. Use-a para acelerar código, mas teste antes de confiar. Use-a para multiplicar um conteúdo que tenha substância. Use-a para organizar conhecimento permitido e confiável. Use-a para criar visuais que abram a conversa. Use-a para automatizar o repetitivo — nunca para entregar decisões perigosas a uma caixa-preta simpática.

O programador COBOL iniciante que aprende isso cedo leva uma vantagem enorme. Ele não será a pessoa que sabe pedir “faça um sistema bancário completo”. Será a pessoa que entende a pergunta, identifica a regra, procura a evidência, testa a resposta, protege os dados e sabe onde a automação deve parar.

No fim, o mainframe e o Dr. House concordam em algo: confiança não vem de uma tela bonita dizendo que deu certo. Confiança vem de evidência, controle, rastreabilidade e da capacidade de descobrir o que aconteceu quando, inevitavelmente, alguma coisa der errado.

E quando o primeiro S0C7 aparecer no plantão, não entre em pânico. Pegue o café, reúna os fatos, faça perguntas melhores e desconfie de toda resposta que parece fácil demais.

domingo, 16 de agosto de 2026

Antes do ChatGPT, Tinha a Biblioteca 🍺 Não aquela biblioteca: ghostwriters, senpais eternos, antiplágio, Teoria dos Jogos e o boteco do Manoel na universidade dos anos 1990



☕ Um Café no Bellacosa Mainframe 

Antes do ChatGPT, Tinha a Biblioteca

🍺 Não aquela biblioteca: ghostwriters, senpais eternos, antiplágio, Teoria dos Jogos e o boteco do Manoel na universidade dos anos 1990

Existe uma narrativa muito confortável sobre a educação antes da inteligência artificial.

Ela costuma funcionar mais ou menos assim:

Antigamente o aluno pesquisava.
Lia livros.
Ia à biblioteca.
Escrevia o próprio trabalho.
Aprendia.
O professor lia tudo.
Corrigia.
E todos voltavam para casa intelectualmente enriquecidos.

Então surgiu o ChatGPT.

E aparentemente Satanás recebeu acesso ao Wi-Fi da universidade.

A partir daí, segundo essa versão da história, os estudantes pararam de pensar, começaram a terceirizar trabalhos para máquinas e obrigaram professores desesperados a recuperar tecnologias avançadíssimas como:

papel.

caneta.

prova oral.

Tenho uma pequena contribuição histórica para essa discussão.

Eu estava numa universidade entre 1993 e 1996.

E tenho más notícias.

O paraíso nunca existiu.


🕰️ Bem-vindo a 1994

Imagine o cenário.

Não existe Google.

Não existe Wikipédia.

Não existe ChatGPT.

Internet, quando existe, ainda parece uma experiência envolvendo ruídos estranhos, paciência e algum tipo de ritual de invocação eletrônica.

Pesquisar significa literalmente pesquisar.

Você vai até uma biblioteca.

Procura um livro.

Descobre que o livro está emprestado.

Procura outro.

Abre índices.

Consulta bibliografias.

Encontra três páginas úteis num livro de quatrocentas.

Marca.

Anota.

Fotocopia.

Volta para casa carregando uma pequena floresta convertida em papel.

Depois começa a fase dois.

Digitação.

Quem viveu aquela época talvez se lembre de WordStar, DOS, editores simples e computadores que hoje seriam considerados equipamentos arqueológicos.

O Microsoft Office ainda era um rapazinho tentando provar seu valor.

Uma alteração de última hora podia significar reorganizar páginas, imprimir novamente, descobrir que a impressora resolveu mastigar papel e começar uma negociação diplomática com uma Epson matricial às duas da manhã.

Produzir vinte páginas tinha custo.

Custava horas.

Custava xerox.

Custava transporte.

Custava papel.

Custava impressão.

Custava paciência.

E, naturalmente, quando existe custo...

surge mercado.



👻 Antes da IA, existia inteligência orgânica terceirizada

Já naquela época existiam alunos que faziam trabalhos para outros alunos.

Ghostwriters acadêmicos.

Não estou falando de uma conspiração secreta comandada por homens de sobretudo num estacionamento subterrâneo.

Era muito mais banal.

Todo mundo conhecia alguém que conhecia alguém.

O sujeito fazia um bom trabalho.

Depois fazia outro.

Guardava os arquivos.

Guardava bibliografias.

Guardava estruturas.

Guardava introduções.

Guardava conclusões.

Pouco a pouco começava a construir aquilo que hoje provavelmente seria vendido por uma consultoria com quinze slides e uma palavra em inglês:


Knowledge Base.

Só que a knowledge base estava num HD de algumas dezenas de megabytes.

Ou em disquetes.

E funcionava.

Chegava um novo cliente.

— Preciso de um trabalho sobre Administração Científica.

— Quantas páginas?

— Vinte.

— Para quando?

— Sexta.

— Professor?

E aqui aparecia uma das perguntas mais importantes de todo aquele sistema.

— Almeida.

Silêncio.

— Ahhh... Almeida.

Pronto.

Acabava de acontecer uma consulta ao banco de dados.

Porque aquele ghostwriter não conhecia apenas Frederick Taylor.

Ele conhecia Almeida.

E Almeida podia ser mais importante que Taylor.



🧠 Fine-tuning acadêmico de 1994

Um veterano experiente podia saber coisas que não estavam em nenhuma ementa.

Professor X gostava de bibliografia extensa.

Professora Y detestava introduções muito longas.

Professor Z desconfiava de textos perfeitos.

Fulano conhecia determinado livro de trás para frente.

Beltrano raramente aceitava trabalhos sem exemplos.

Ciclano lembrava trabalhos entregues em semestres anteriores.

Isso era inteligência institucional.

Hoje poderíamos chamar isso, brincando um pouco, de:

fine-tuning humano.

O ghostwriter conhecia não apenas o conteúdo.

Conhecia o ambiente.

Conhecia a cultura.

Conhecia a ameaça.

Conhecia o detector.

E adaptava o produto.



📚 Centenas de trabalhos prontos

Alguns desses personagens acumulavam dezenas ou centenas de trabalhos.

O primeiro trabalho sobre determinado assunto exigia pesquisa pesada.

O segundo reaproveitava referências.

O terceiro reaproveitava estrutura.

No décimo, boa parte do caminho já estava pavimentada.

A lógica era extraordinariamente semelhante a sistemas modernos:

corpus → recuperação → adaptação → geração → revisão → entrega

Não existia Large Language Model.

Existia:

Large Veteran Model.

LVM.

😂

Context window: memória do sujeito.

Retrieval: diretórios do HD.

Embedding: “acho que tenho alguma coisa sobre isso”.

RAG: procurar um trabalho antigo e misturar com material novo.

Temperature: quantidade de cerveja consumida.

Humanizer: erros ortográficos estrategicamente distribuídos.

E sim.

Essa última parte merece atenção.



🕵️ Quando chegaram os primeiros xerifes

Com a informatização do ambiente acadêmico começaram também a surgir ferramentas destinadas a encontrar semelhanças, reutilizações e plágio.

Na minha memória daquela época, as notícias sobre software antiplágio primeiro apareciam muito associadas ao mundo de teses e pesquisas avançadas.

Depois a lógica começou a descer a cadeia.

Doutorado.

Mestrado.

Graduação.

E aconteceu aquilo que sempre acontece quando um sistema cria uma defesa:

o outro lado começou a criar contramedidas.

O jogo havia começado.



♟️ Dicionário de sinônimos entra em produção

Se o software procurava frases iguais...

então não entregue frases iguais.

Troque palavras.

Mude estruturas.

Inverta parágrafos.

Modifique exemplos.

Misture trechos de fontes diferentes.

Faça citações indiretas.

Pegue material já usado num trabalho anterior e altere.

Se necessário, use um dicionário de sinônimos.

A frase:

“A administração científica procura aumentar a eficiência do trabalho.”

poderia se transformar em algo como:

“O gerenciamento científico busca ampliar a produtividade das atividades executadas.”

Pronto.

Mesma ideia.

Outra superfície textual.

Isso não era inteligência artificial.

Era inteligência artesanal adversarial.



🐞 O erro ortográfico como feature

Aqui começa uma das minhas partes favoritas dessa história.

Porque havia um problema curioso.

Se determinado aluno escrevia normalmente com dificuldades e, de repente, entregava um texto impecável, extremamente bem estruturado e com vocabulário quase acadêmico profissional...

aquilo também podia chamar atenção.

Perfeição demais gera suspeita.

Então surgia uma ideia brilhantemente perversa:

introduzir erros.

Um pequeno erro de ortografia aqui.

Uma construção menos elegante ali.

Uma vírgula questionável acolá.

O objetivo já não era produzir o melhor trabalho possível.

Era produzir o trabalho mais plausível para aquele aluno.

Isso é muito importante.

Porque mostra que o fraudador sofisticado não otimiza qualidade.

Ele otimiza credibilidade.

Em segurança da informação existe uma diferença enorme entre produzir algo perfeito e produzir algo que parece legítimo.

Em 1995 já havia gente entendendo isso sem usar nenhuma dessas palavras.



🎭 O texto precisava parecer humano antes de existir detector de IA

Décadas depois apareceriam ferramentas prometendo detectar textos gerados por inteligência artificial.

Depois apareceriam ferramentas prometendo “humanizar” esses mesmos textos.

É divertido olhar para trás e perceber que a lógica já existia.

O ghostwriter podia pensar:

“Esse texto está bom demais.”

Então piorava um pouco.

Hoje alguém diz para uma IA:

“Escreva como um aluno de primeiro semestre.”

“Use frases menos sofisticadas.”

“Não pareça perfeito.”

“Coloque pequenas inconsistências.”

Tecnologia nova.

Estratégia velha.



🧓 E então existiam os senpais eternos

Mas o personagem mais extraordinário daquele ecossistema não era necessariamente o melhor aluno.

Era o veterano eterno.

Todo campus parecia produzir alguns.

O sujeito estava ali havia sete, oito, dez anos.

Nunca se formava.

Ou parecia não ter nenhuma pressa especial em se formar.

Era mediano.

Debochado.

Conhecia todo mundo.

Sabia todas as histórias.

Já tinha cursado algumas disciplinas mais vezes do que determinados professores tinham ministrado.

O calouro olhava para aquela criatura e pensava:

“Esse cara está completamente perdido.”

Talvez.

Mas havia outra possibilidade.

Alguns precisavam continuar dentro do ecossistema.

Porque ali estavam os clientes.



💼 Quando ser estudante vira verniz profissional

Pense economicamente.

Para um aluno convencional, a função de utilidade é simples:

terminar curso rapidamente = bom.

Mas para alguém que ganha dinheiro produzindo trabalhos dentro daquele ambiente:

continuar circulando = acesso ao mercado.

A matrícula fornece legitimidade.

O campus fornece clientes.

A biblioteca fornece matéria-prima.

Os corredores fornecem inteligência.

As turmas novas fornecem demanda.

Os veteranos fornecem reputação.

Os professores fornecem especificações técnicas.

O aluno eterno deixa de ser apenas aluno.

Torna-se uma espécie de microempreendedor acadêmico informal.

O verniz é estudante.

Por baixo existe um pequeno negócio.



🤝 O marketplace era humano

Não existia plataforma.

Não existia aplicativo.

Não existia avaliação cinco estrelas.

Não existia checkout.

Existia uma frase:

— Fala com o Fulano.

Esse era o algoritmo de recomendação.

Alguém precisava de um trabalho.

Outro alguém conhecia alguém.

A reputação circulava.

— Ele entrega.

— É caro?

— Depende.

— É bom?

— O professor deu oito no meu.

Isso bastava.

Marketplace construído.

Sem venture capital.

Sem AWS.

Sem Kubernetes.



🍺 E então chegamos à Biblioteca

Agora preciso apresentar o coração de toda essa infraestrutura.

Havia um boteco.

Não era simplesmente um lugar para beber.

Era o lugar onde todo mundo acabava se encontrando.

Alunos.

Veteranos.

Professores.

Funcionários.

Ex-alunos.

Conhecidos.

Desconhecidos.

Figuras que ninguém sabia exatamente de qual curso eram.

E toda aquela extraordinária fauna noturna que São Paulo dos anos 1990 sabia produzir.

Uma pequena democracia alcoólica acadêmica.

O dono chamava-se Manoel.

E Manoel tinha senso de humor.

O boteco chamava-se:

BIBLIOTECA

Sim.

Acredite se quiser.


😂 “Mãe, eu estava na Biblioteca”

É difícil imaginar um nome mais eficiente.

— Onde você estava?

— Na Biblioteca.

Verdade.

— Até duas da manhã?

— Faculdade exige dedicação.

— Estudando?

— Conversando com veteranos.

Também verdade.

— Encontrou material para o trabalho?

— Encontrei.

Talvez sentado numa mesa segurando um copo.

— Fez pesquisa?

— De campo.

Manoel havia criado, sem saber, a melhor ferramenta de negação plausível universitária dos anos 1990.


🖥️ BIBLIOTECA/390

Hoje talvez descrevêssemos aquele lugar assim:

Sistema: BIBLIOTECA/390
Vendor: Manoel Systems
Interface: balcão
Authentication: reconhecimento facial do Manoel
Network: mesas
Protocol: conversa
Database: memória coletiva
Search engine: “Ô, alguém conhece alguém que...”
Recommendation engine: “fala com o Fulano”
Billing: caderneta
Knowledge management: fofoca
Threat intelligence: veteranos
Machine learning: repetir semestre
Cloud: fumaça de cigarro acumulada perto do teto
Batch window: depois da última aula
Disaster recovery: mais uma cerveja
Shutdown: quando Manoel decidia fechar

Era robusto.

Provavelmente tinha menos downtime que muito sistema moderno.



🌐 A universidade tinha departamentos. A Biblioteca tinha interoperabilidade.

Dentro da universidade formal havia divisões.

Curso.

Departamento.

Disciplina.

Professor.

Aluno.

Funcionário.

Na Biblioteca essas fronteiras ficavam mais porosas.

Professor conversava com estudante.

Veterano conversava com calouro.

Funcionário sabia histórias administrativas que ninguém mais sabia.

Aluno de outro curso aparecia.

Ex-aluno trazia notícia do mercado.

Alguém conhecia alguém procurando estágio.

Outro conhecia alguém vendendo alguma coisa.

Outro sabia quem fazia trabalhos.

Era uma rede social antes das redes sociais.

Mais importante:

era uma rede social de colisão.

As pessoas não estavam organizadas por algoritmo de recomendação.

Elas simplesmente esbarravam umas nas outras.

E conhecimento emergia dessa bagunça.



🧠 A Biblioteca oficial guardava livros. A outra guardava contexto.

Essa talvez seja uma das diferenças mais bonitas.

A biblioteca acadêmica tradicional guardava:

livros,

revistas,

artigos,

teses,

referências.

A Biblioteca do Manoel guardava:

quem sabia o quê,

quem conhecia quem,

qual professor gostava de quê,

qual disciplina derrubava alunos,

qual trabalho já tinha circulado,

qual veterano tinha material,

qual funcionário podia explicar determinado procedimento,

onde havia estágio,

quem estava contratando,

quem havia terminado namoro,

quem devia dinheiro,

e provavelmente umas cinquenta outras coisas muito mais importantes naquela noite.

Uma guardava informação.

A outra guardava relações entre informações e pessoas.

Não existia grafo de conhecimento.

Existia mesa de plástico.



♟️ E aqui entra a Teoria dos Jogos

O sistema de avaliação acadêmica nunca foi uma estrada de mão única.

Universidade cria regra.

Aluno reage.

Professor cria fiscalização.

Aluno adapta comportamento.

Software procura coincidência.

Ghostwriter altera texto.

Professor começa a desconfiar de trabalhos perfeitos.

Ghostwriter introduz imperfeições.

Novo detector aparece.

Nova técnica de evasão surge.

Formalmente podemos imaginar:

D₁ → E₁ → D₂ → E₂ → D₃ → E₃

Detecção.

Evasão.

Nova detecção.

Nova evasão.

Isso acontece em segurança cibernética.

Acontece no combate a spam.

Acontece em fraude bancária.

Acontece em doping esportivo.

Acontece em SEO.

Acontece em imposto.

E acontecia dentro da universidade.

A Teoria dos Jogos já estava sentada na Biblioteca bebendo uma cerveja muito antes de virar buzzword em apresentação corporativa.



📄 Mas há outra pergunta ainda mais desconfortável

Vamos imaginar 150 alunos.

Cada um entrega um trabalho de vinte páginas.

Temos:

3.000 páginas.

Agora olhe para o professor.

Ele dá aula.

Prepara aula.

Participa de reunião.

Corrige prova.

Orienta aluno.

Faz pesquisa.

Escreve artigo.

Responde burocracia.

Participa de banca.

Preenche sistema.

Corre atrás de prazo.

E recebe três mil páginas.



Existe uma pergunta que raramente fazemos:

ele realmente consegue ler tudo com profundidade?

Não estou dizendo que professores não leem trabalhos.

Muitos certamente fazem enorme esforço para isso.

Estou falando de física.

Tempo é finito.

Atenção também.

Se cada página exigir apenas dois minutos de leitura cuidadosa, três mil páginas exigem cem horas.

Uma única rodada.

Então talvez existisse uma segunda camada silenciosa de otimização.

O aluno aprendia a produzir um artefato que parecesse academicamente adequado.

O professor aprendia onde concentrar atenção.

Introdução.

Conclusão.

Bibliografia.

Coerência.

Trechos suspeitos.

Amostragem.

Experiência.

Ambos estavam navegando restrições.



🤖 Então chegou a IA e alguém gritou: “Agora acabou!”

ChatGPT apareceu e tornou possível produzir rapidamente textos extensos, organizados e razoavelmente sofisticados.

E muitas instituições reagiram.

Detectores de IA.

Restrições.

Trabalhos manuscritos.

Provas presenciais.

Apresentações orais.

Há uma ironia histórica enorme nisso.

Porque o sistema começa a falar:

“Agora não sabemos mais se o aluno realmente escreveu o trabalho.”

E o ghostwriter de 1995, em algum lugar do multiverso, levanta a mão.

— Professor...

Temos uma notícia.



✍️ Manuscrito não resolve terceirização intelectual

Mandar escrever à mão pode aumentar o custo.

Mas não prova autoria intelectual.

Um aluno pode pedir à IA:

“Produza duas páginas sobre determinado tema num estilo simples.”

Depois copiar tudo para o papel.

Agora o texto é manuscrito.

Mas o raciocínio continua terceirizado.

Parabéns.

Eliminamos a impressora.

A fraude sobreviveu.


🎙️ A prova oral muda o problema

Há uma diferença importante entre perguntar:

“Quem escreveu este texto?”

e perguntar:

“Este aluno domina esta ideia?”

A primeira pergunta pode gerar uma corrida armamentista infinita.

Detector.

Humanizador.

Novo detector.

Novo humanizador.

A segunda permite uma abordagem completamente diferente.

— Explique sua conclusão.

— Por que escolheu essa fonte?

— O que aconteceria se essa variável mudasse?

— Dê um contraexemplo.

— Discorde do seu próprio trabalho.

Essa última é maravilhosa.

Porque decorar não basta.

O aluno precisa manipular o conhecimento mentalmente.



😈 O professor faz Red Team do aluno

Imagine uma avaliação contemporânea.

O estudante entrega cinco páginas.

Pode usar IA.

Pode usar biblioteca.

Pode usar Google.

Pode conversar com colegas.

Pode consultar especialistas.

Mas depois precisa defender o resultado.

Professor:

— Você afirma X.

Aluno:

— Sim.

Professor:

— Agora vou remover sua premissa principal.

Aluno:

— ...

Professor:

— Reconstrua a conclusão.

Nesse momento não estamos mais detectando uma ferramenta.

Estamos testando competência.

É praticamente Red Team aplicado ao conhecimento.


🤯 Mas então o aluno usa IA para treinar a prova oral

E aqui a Teoria dos Jogos dá mais uma volta.

O estudante pode pegar o próprio trabalho e dizer para uma IA:

“Simule uma banca extremamente exigente. Faça perguntas inesperadas. Tente descobrir se eu realmente entendo este assunto.”

A IA começa:

— Por que você escolheu essa metodologia?

— Qual seria a principal crítica ao seu argumento?

— Que evidência derrubaria sua conclusão?

— Como esse conceito se aplica a outro contexto?

O aluno passa três horas treinando.

Até que surge a pergunta filosófica perfeita:

se ele estudou durante três horas para conseguir sustentar intelectualmente o trabalho... ainda estamos falando de fraude?

😂

Em algum momento, tentando trapacear, o sujeito acaba aprendendo.

Sócrates venceu novamente.


📚 Talvez o problema nunca tenha sido o ChatGPT

Durante décadas usamos determinados artefatos como proxies.

Vinte páginas significavam esforço.

Bibliografia significava pesquisa.

Texto sofisticado significava conhecimento.

Mas proxy não é realidade.

Um texto de vinte páginas pode representar:

vinte horas de pesquisa,

vinte minutos de geração,

pagamento a um ghostwriter,

reutilização de trabalho antigo,

colaboração,

ou uma mistura de tudo isso.

A IA não destruiu necessariamente a educação.

Ela destruiu a confiança automática no proxy.


🧪 O ChatGPT fez um teste de carga no sistema acadêmico

Imagine uma aplicação antiga.

Ela funciona há décadas.

Todo mundo acredita que é robusta.

Então alguém aumenta brutalmente o volume de transações.

De repente começam a aparecer gargalos que sempre estiveram lá.

Timeout.

Fila.

Deadlock.

Campo pequeno demais.

Tabela mal indexada.

Regra de negócio esquecida.

A inteligência artificial fez algo parecido com determinados modelos educacionais.

Ela aumentou a escala da terceirização intelectual.

O problema existia.

Mas era caro.

Humano.

Limitado.

Local.

Agora ficou barato.

Automático.

Instantâneo.

Global.

O bug não nasceu em 2022.

Foi apenas colocado sob carga máxima.



🦖 O ghostwriter foi disruptado

Existe até uma dimensão econômica nisso.

O ghostwriter acadêmico de baixa complexidade foi provavelmente um dos profissionais informais mais brutalmente atacados pela IA generativa.

Antes:

cliente procura intermediário.

Negocia preço.

Explica tema.

Espera.

Recebe trabalho.

Pede alteração.

Paga.

Agora:

abre navegador.

Digita.

Recebe.

Refaz.

Expande.

Resume.

Traduz.

Formata.

Em minutos.

O senpai eterno perdeu para automação.

Schumpeter ficaria orgulhoso.

Ou pediria outra cerveja.



🍺 Mas nenhuma IA substitui completamente o Manoel

Porque havia uma coisa que aquele ecossistema produzia e que é muito mais difícil digitalizar:

contexto humano local.

Quem era aquele professor.

Quem estava brigado com quem.

Quem sabia determinada matéria.

Quem tinha emprego.

Quem precisava de funcionário.

Qual disciplina estava mudando.

Qual veterano já havia passado pelo problema.

Quem tinha um livro raro.

Quem podia apresentar você para alguém.

Tudo isso circulava na Biblioteca.

Não a biblioteca dos livros.

A outra.

Aquela onde Manoel servia cerveja.


☕ Trinta anos depois

Hoje temos:

Google.

Wikipédia.

bibliotecas digitais.

bases acadêmicas.

LLMs.

detectores.

LMS.

videoconferência.

plataformas adaptativas.

analytics educacional.

proctoring.

IA generativa.

IA avaliadora.

IA tutora.

IA revisora.

IA que escreve.

IA que detecta IA.

IA que humaniza texto de IA.

IA que tenta descobrir se o humanizador humanizou a IA.

É uma corrida tecnológica impressionante.

Mas talvez a pergunta pedagógica fundamental continue sendo uma das mais antigas da humanidade:

Você realmente entende aquilo que está dizendo?

E para descobrir isso às vezes ainda funciona uma tecnologia surpreendentemente simples.

Duas pessoas.

Uma pergunta.

Uma resposta.

Uma nova pergunta.


🍻 Talvez Sócrates tivesse gostado da Biblioteca

Consigo imaginar perfeitamente.

Sócrates sentado numa mesa.

Copo na frente.

Aluno chega com vinte páginas debaixo do braço.

Sócrates olha.

— Você escreveu isso?

— Escrevi.

— Interessante.

Coloca as vinte páginas de lado.

— Explique.

O aluno começa.

Sócrates interrompe.

— Por quê?

O aluno responde.

— E se o contrário fosse verdadeiro?

Silêncio.

Manoel passa carregando cervejas.

Olha para a mesa.

Sorri.

Ele já sabe.

A prova começou.


🧩 O passado nunca foi tão limpo quanto gostamos de lembrar

É muito fácil romantizar o mundo pré-digital.

Nós pesquisávamos.

Sim.

Nós líamos.

Sim.

Passávamos horas em bibliotecas.

Sim.

Gastávamos dinheiro com xerox.

Sim.

Digitávamos trabalhos em máquinas e computadores que hoje fariam qualquer universitário chorar.

Tudo isso aconteceu.

Mas também existiam atalhos.

Trabalhos vendidos.

Trabalhos reciclados.

Ghostwriters.

Veteranos profissionais.

Sinônimos para enganar software.

Erros introduzidos propositalmente.

Reputação informal.

Mercados subterrâneos.

Estratégias para entender professores.

Estratégias para sobreviver à avaliação.

A humanidade não esperou a IA para descobrir a fraude acadêmica.

Nós somos muito mais criativos que isso.


🎯 A pergunta correta

Talvez por isso a pergunta de 2026 não devesse ser:

“Como impedir que o aluno use IA?”

Talvez devesse ser:

“Como desenhar uma avaliação em que usar IA não substitua a necessidade de saber?”

Isso muda tudo.

Porque, se o estudante precisa explicar, aplicar, criticar, transformar, defender e conectar conhecimentos...

a ferramenta deixa de ser o centro da discussão.

O conhecimento volta a ser.


🍺 Epílogo: onde você estava?

Entre 1993 e 1996 muitas coisas mudaram.

Computadores ficaram melhores.

Software acadêmico evoluiu.

A internet começou a entrar em nossas vidas.

Ferramentas de detecção apareceram.

A universidade foi se informatizando.

Décadas depois vieram Google, Wikipédia e inteligência artificial.

Mas ainda guardo uma imagem muito mais simples daquele ecossistema.

Uma noite em São Paulo.

Professor.

Funcionário.

Aluno.

Veterano.

Calouro.

Ghostwriter.

Gente que estudava muito.

Gente que estudava pouco.

Gente que provavelmente nem deveria estar ali.

Todos conversando.

Todos trocando informação.

E Manoel atrás do balcão administrando silenciosamente a maior base de conhecimento informal daquele pedaço da universidade.

Se alguém perguntasse no dia seguinte:

— Onde você estava ontem à noite?

Não havia necessidade de mentir.

A resposta era absolutamente verdadeira.

Na Biblioteca.

🍺

Só não precisava explicar qual.

Artigo que startou tudo

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2026/08/inteligencia-artificial-avanca-em-fraudes-e-ameaca-educacao-online-nos-eua.shtml

https://www.nytimes.com/2026/08/14/business/google-gemini-ai-schools.html?unlocked_article_code=1.5VA.w1nZ.TOd26znBidf5&smid=url-share

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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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