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quarta-feira, 17 de maio de 2023

Quando o Sistema Entra em Estado de Conflito — Parte 2

 

Bellacosa Mainframe quando o sistema entra em estado de conflito parte II


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando o Sistema Entra em Estado de Conflito — Parte 2

Líderes, algoritmos, medo, teoria dos jogos e por que sociedades entram em ciclos de polarização

"O maior perigo para um sistema não é a existência de opiniões diferentes. É quando seus mecanismos de correção deixam de funcionar."

No artigo anterior vimos que sociedades podem entrar em algo parecido com um deadlock.

Agora vamos olhar mais fundo.

Vamos abrir o dump do sistema.


Todo sistema precisa de confiança

Imagine um banco rodando no IBM Z.

Milhões de transações por segundo.

Por que ninguém verifica manualmente cada saldo?

Porque existe confiança.

Confiança no hardware.

No sistema operacional.

Nos logs.

Nos mecanismos de auditoria.

Agora imagine que alguém diga:

— O banco altera saldos escondido.

— Os logs são falsos.

— Os administradores mentem.

— O hardware foi comprometido.

Mesmo sem provas, parte dos clientes começaria a desconfiar.

Em pouco tempo surgiria um efeito dominó.

Na sociologia, confiança é um dos pilares do chamado capital social, conceito desenvolvido por autores como Robert Putnam. Quando ela diminui, a cooperação também diminui.

Uma democracia funciona da mesma maneira.

Ela depende de confiança mínima em instituições como Justiça, Congresso, imprensa, universidades, eleições e órgãos de controle.

Sem isso, cada derrota parece uma fraude.

Cada decisão parece uma conspiração.


O paradoxo dos líderes

Existe uma característica curiosa da natureza humana.

Em momentos tranquilos preferimos líderes moderados.

Em momentos de medo preferimos líderes que demonstram certeza absoluta.

Mesmo quando estão errados.

Isso acontece porque nosso cérebro interpreta segurança como competência.

É um atalho cognitivo.

Quanto maior a crise...

Maior a procura por alguém que diga:

"Eu resolvo."

"Eu sei quem é o culpado."

"Eu tenho todas as respostas."

A história mostra isso repetidamente.

Alemanha dos anos 1930.

Itália fascista.

Venezuela.

Hungria.

Turquia.

Diversos países viveram momentos em que crises econômicas ou institucionais fortaleceram lideranças personalistas, embora cada caso tenha causas e contextos próprios.


O cérebro odeia ficar perdido

A neurociência explica parte disso.

Nosso cérebro é uma máquina de previsão.

Ele tenta reduzir incertezas o tempo inteiro.

Quando não consegue...

Surge ansiedade.

Quanto maior a ansiedade...

Maior a necessidade de encontrar uma narrativa coerente.

Mesmo que ela seja falsa.

Uma teoria conspiratória possui uma enorme vantagem psicológica.

Ela explica tudo.

Existe um vilão.

Existe um plano.

Existe uma solução.

Nosso cérebro gosta disso.

A realidade raramente funciona assim.


O algoritmo conhece seu cérebro melhor do que você

As redes sociais não são neutras.

São sistemas de otimização.

O objetivo principal não é informar.

É aumentar permanência.

Para isso elas aprendem:

  • aquilo que você lê;

  • o que comenta;

  • onde para a tela;

  • o que desperta emoção;

  • quais pessoas você admira;

  • quais pessoas você odeia.

Depois devolvem mais do mesmo.

É como um programa COBOL que recebe um parâmetro incorreto e passa décadas reproduzindo o erro.

Cada clique alimenta o próximo clique.

O sistema aprende.

Você também.

Mas nem sempre para melhor.


O ciclo da indignação

Existe uma sequência bastante previsível.

Notícia.

Raiva.

Compartilhamento.

Mais pessoas indignadas.

Mais compartilhamentos.

Mais alcance.

Mais receita publicitária.

O algoritmo aprende rapidamente:

Raiva vende.

Calma não.

Isso cria aquilo que alguns pesquisadores chamam de economia da atenção.

A emoção virou matéria-prima.


A teoria dos jogos explica muita coisa

Vamos imaginar dois partidos.

Ambos podem cooperar.

Ou atacar.

Se os dois cooperarem...

Todos ganham.

Se um coopera e o outro ataca...

Quem atacou obtém vantagem eleitoral.

Logo...

A estratégia racional de curto prazo passa a ser atacar sempre.

É o famoso Dilema do Prisioneiro.

O problema é que, repetido milhares de vezes, ninguém mais coopera.

A confiança desaparece.

O sistema entra em equilíbrio ruim.

Todos perdem.


Escalada de compromisso

Outro fenômeno fascinante.

Imagine um investidor.

Ele perde dinheiro.

Em vez de parar...

Investe ainda mais.

Por quê?

Porque admitir o erro dói.

Na psicologia isso é chamado de escalada de compromisso.

Na política acontece o mesmo.

Quanto mais alguém investe emocionalmente em uma narrativa...

Mais difícil fica abandoná-la.

Mesmo diante de evidências.


Viés de confirmação

Agora imagine um operador de Mainframe.

Ele acredita que o problema é o disco.

Toda evidência passa a confirmar essa hipótese.

Os logs que contradizem sua ideia são ignorados.

Na psicologia chamamos isso de viés de confirmação.

Todos nós fazemos isso.

Esquerda.

Direita.

Religiosos.

Ateus.

Cientistas.

Programadores.

Ninguém está imune.


Populismo

A palavra costuma ser usada como insulto.

Mas cientistas políticos a tratam como um estilo de discurso.

O populismo normalmente divide a sociedade em dois grupos:

"O povo verdadeiro."

"E as elites corruptas."

Essa narrativa pode aparecer em governos de direita ou de esquerda.

O problema surge quando instituições deixam de ser vistas como árbitros e passam a ser tratadas como inimigas.

Nesse momento desaparece a ideia de mediação.

Só resta confronto.


Quando instituições deixam de ser respeitadas

Nenhuma democracia exige que você concorde com decisões judiciais.

Você pode criticá-las.

Recorrer.

Debater.

Propor mudanças.

Mas existe uma diferença enorme entre discordar de uma instituição e negar sua legitimidade sem evidências robustas.

Quando isso acontece repetidamente...

Cada derrota vira fraude.

Cada eleição vira manipulação.

Cada investigação vira perseguição.

O sistema perde previsibilidade.


O Brasil é único?

Não.

Os Estados Unidos viveram forte polarização que culminou na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

A França enfrenta tensões recorrentes entre grupos políticos e sociais.

A Alemanha combate o crescimento de partidos extremistas.

A Espanha vive conflitos identitários relacionados à Catalunha.

Israel convive com intensos debates sobre Judiciário, religião e segurança.

O Reino Unido experimentou uma polarização marcante durante o Brexit.

A polarização não é exclusividade brasileira.

Ela acompanha democracias conectadas por redes sociais e submetidas a rápidas transformações econômicas e culturais.


Por que religião entrou na disputa?

Durante décadas religião e política coexistiram com menor sobreposição.

Nos últimos anos, questões como aborto, educação, direitos LGBTQIA+, drogas, liberdade religiosa e costumes passaram a ocupar o centro do debate político.

Isso aproximou identidades religiosas das disputas eleitorais.

Quando uma crença passa a definir também a identidade política, qualquer discordância pode ser percebida como ameaça existencial.


O medo muda o cérebro

Quando sentimos medo intenso...

A amígdala cerebral assume maior protagonismo.

Ela acelera respostas rápidas.

O córtex pré-frontal, responsável por análise mais racional, tende a perder influência sob estresse elevado.

É por isso que discursos baseados em medo costumam ser tão eficazes.

Eles falam primeiro com nossas emoções.

Só depois com nossa razão.


A lógica das redes

Quanto mais radical uma postagem...

Mais comentários.

Mais compartilhamentos.

Mais tempo de tela.

O algoritmo não entende ética.

Ele entende engajamento.

É como um escalonador que só mede utilização de CPU e ignora tempo de resposta.

O indicador parece ótimo.

O usuário sofre.


O ciclo da desconfiança

A sequência costuma seguir um padrão.

Perda de confiança.

Mais teorias conspiratórias.

Mais polarização.

Menor diálogo.

Mais radicalização.

Nova perda de confiança.

É um loop.

Exatamente como um programa preso em recursão infinita.


Como quebrar esse ciclo?

Na computação usamos redundância.

Logs.

Auditoria.

Rollback.

Validação cruzada.

Na sociedade fazemos algo parecido.

Educação crítica.

Imprensa plural.

Instituições independentes.

Transparência.

Produção científica.

Liberdade de expressão acompanhada de responsabilidade.

Nenhum desses mecanismos elimina conflitos.

Eles reduzem a probabilidade de colapso.


O IBM Z ensina uma última lição

O Mainframe foi construído partindo de uma premissa simples.

Falhas acontecerão.

Hardware quebra.

Operadores erram.

Programas possuem bugs.

Por isso ele não aposta na perfeição.

Ele aposta em mecanismos capazes de detectar erros antes que o sistema inteiro pare.

Democracias maduras fazem exatamente isso.

Não tentam eliminar conflitos.

Criam instituições capazes de absorvê-los.


Para o Padawan

Todo programador aprende cedo que sistemas complexos precisam de observabilidade.

Você não corrige um bug desligando o monitor de logs.

Você não melhora um banco apagando o arquivo de auditoria.

Você não aumenta a disponibilidade ignorando os alarmes.

Na sociedade acontece o mesmo.

Quando perdemos a capacidade de ouvir dados, aceitar críticas, revisar hipóteses e confiar em mecanismos de correção, começamos a operar apenas por emoção.

E emoção é excelente para iniciar processos.

Mas péssima para administrá-los.

Talvez a maior ameaça às democracias modernas não seja uma ideologia específica.

Talvez seja a combinação entre medo, desinformação, incentivos econômicos dos algoritmos, líderes que exploram divisões e cidadãos que deixam de enxergar o outro como um adversário legítimo.

Porque, no fim, um sistema não entra em colapso apenas quando aparece um bug.

Ele entra em colapso quando ninguém mais acredita nos mecanismos criados para corrigi-lo.

E, como todo bom Sysprog sabe, quando o operador deixa de confiar nos logs, a próxima pane costuma ser muito mais difícil de resolver.

sábado, 25 de março de 2023

Quando o Sistema Entra em Estado de Conflito : O que a polarização política pode ensinar sobre software, psicologia e por que sociedades também entram em deadlock

 

Bellacosa Mainframe quando o sistema entra em estado de conflito

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando o Sistema Entra em Estado de Conflito

O que a polarização política pode ensinar sobre software, psicologia e por que sociedades também entram em deadlock

"Nenhum sistema complexo entra em colapso por causa de um único bug. Normalmente, vários pequenos erros passam anos se acumulando até que um gatilho exponha todas as falhas ao mesmo tempo."

Se você trabalha com Mainframe, sabe que um sistema raramente quebra por um único motivo.

Existe uma sequência de eventos.

Um recurso fica saturado.

Uma fila cresce.

Um lock nunca é liberado.

Outro processo espera.

Mais outro.

Até que chega um momento em que tudo para.

Sociedades funcionam de maneira parecida.

Muita gente pergunta:

"O que aconteceu com o Brasil?"

A resposta curta é:

não aconteceu uma única coisa. Aconteceram dezenas delas ao mesmo tempo.

Hoje vamos conversar menos sobre política e mais sobre engenharia de sistemas humanos.


O Brasil sempre foi pacífico?

Na verdade...

Não.

Nossa memória costuma ser seletiva.

O Brasil teve:

  • escravidão durante mais de 300 anos;

  • Guerra de Canudos;

  • Revolta da Vacina;

  • Revolução de 1930;

  • Estado Novo;

  • ditadura militar;

  • guerrilhas;

  • conflitos agrários;

  • violência urbana crescente desde os anos 1980.

A diferença é que esses conflitos eram mais localizados.

Hoje eles entram no bolso de todo mundo através do celular.


A Internet mudou o sistema operacional da sociedade

Imagine um Mainframe.

Antes existia apenas um terminal.

As mensagens passavam por um único operador.

Agora imagine milhões de terminais enviando comandos simultaneamente.

É isso que as redes sociais fizeram.

Antes:

  • jornais filtravam informações;

  • televisão tinha poucos canais;

  • debates eram lentos.

Hoje:

qualquer pessoa publica qualquer coisa para milhões de pessoas em segundos.

A velocidade aumentou.

Mas os filtros diminuíram.


O algoritmo não quer a verdade

Essa talvez seja a parte mais importante.

O algoritmo não foi criado para informar.

Foi criado para prender sua atenção.

E existe algo que prende muito mais atenção do que boas notícias.

Raiva.

Medo.

Indignação.

Escândalo.

Quanto maior a emoção...

Maior o tempo de tela.

Maior o lucro.

Em psicologia isso é conhecido como viés da negatividade.

Nosso cérebro presta mais atenção ao perigo do que à tranquilidade.

Era útil quando vivíamos cercados de predadores.

Hoje isso faz com que uma notícia absurda viaje muito mais rápido que uma notícia comum.


A teoria da identidade social

O psicólogo Henri Tajfel propôs algo fascinante.

As pessoas naturalmente criam grupos.

"Nós."

"Eles."

Mesmo quando as diferenças são mínimas.

Experimentos mostraram que pessoas favoreciam membros do próprio grupo mesmo quando os grupos eram completamente aleatórios.

Imagine agora quando entram:

  • religião;

  • futebol;

  • política;

  • nacionalismo;

  • identidade cultural.

Os grupos deixam de ser apenas opiniões.

Passam a fazer parte da identidade da pessoa.

Criticar uma ideia parece atacar quem ela é.


Quando a política vira religião

Esse é um fenômeno estudado por diversos cientistas sociais.

Em alguns contextos, líderes políticos passam a ocupar funções simbólicas antes desempenhadas por líderes religiosos.

Eles deixam de ser vistos como pessoas falíveis.

Passam a ser vistos como representantes do "bem" contra o "mal".

Quando isso acontece, o diálogo fica muito difícil.

Porque negociar ideias é possível.

Negociar uma fé é muito mais complicado.


Câmara de eco

Imagine um sistema distribuído.

Todos os servidores recebem exatamente a mesma informação.

Nunca existe validação externa.

Depois de algum tempo...

Todo o cluster acredita na mesma coisa.

Mesmo que esteja errado.

Isso acontece nas redes sociais.

O algoritmo mostra conteúdos semelhantes aos que você já consome.

Pouco a pouco parece que:

"todo mundo pensa igual a mim."

Quando aparece alguém diferente...

Ele parece um alienígena.


Radicalização gradual

Quase ninguém acorda pensando:

"Hoje vou atacar uma instituição democrática."

A radicalização costuma ser lenta.

Ela acontece por pequenas etapas.

Uma teoria.

Depois outra.

Depois outra.

Cada nova ideia parece apenas um pequeno passo.

Mas, ao olhar para trás, a pessoa percorreu quilômetros.

É semelhante ao conceito da janela de Overton, que descreve como ideias antes consideradas extremas podem se tornar gradualmente aceitáveis quando o debate público se desloca.


O efeito da crise econômica

Toda crise produz ansiedade.

Quando empregos diminuem.

Quando salários perdem valor.

Quando o futuro parece incerto.

As pessoas procuram explicações simples.

É um mecanismo psicológico.

Problemas complexos geram desconforto.

Respostas simples geram alívio.

Mesmo quando estão erradas.


O cérebro odeia incerteza

Existe um conceito chamado necessidade de fechamento cognitivo.

Algumas pessoas lidam melhor com dúvidas.

Outras precisam de respostas rápidas.

Quanto maior a incerteza...

Maior a atração por líderes que falam com absoluta certeza.

Mesmo sem evidências.


O papel das fake news

Desinformação não é novidade.

A novidade é a velocidade.

Antes uma mentira demorava dias para circular.

Hoje ela alcança milhões em minutos.

Além disso, estudos mostram que conteúdos emocionalmente carregados tendem a ser compartilhados mais rapidamente do que informações neutras.


O 8 de Janeiro

Os ataques de 8 de janeiro de 2023 não surgiram em um único dia.

Eles foram resultado de uma combinação de fatores:

  • forte polarização política;

  • desinformação;

  • mobilização por redes sociais;

  • sentimento de perda e injustiça entre parte dos participantes;

  • teorias conspiratórias;

  • liderança política e influência de figuras públicas;

  • dinâmica de multidões, na qual indivíduos fazem coisas que dificilmente fariam sozinhos;

  • falhas de planejamento e segurança que facilitaram a invasão.

Nada disso justifica os atos.

Mas ajuda a explicar como eles se tornaram possíveis.

Entender causas não significa concordar com comportamentos.

É justamente o contrário: compreender é condição para prevenir.


E a violência da direita?

Pesquisas internacionais mostram que movimentos extremistas podem surgir tanto na extrema direita quanto na extrema esquerda, dependendo do contexto histórico e nacional.

No Brasil recente, diversos estudos apontam um crescimento da mobilização de grupos radicalizados identificados com a direita, especialmente após a intensa polarização política da década de 2010. Também houve episódios de violência praticados por grupos de outras orientações, embora em menor escala e com características distintas no período recente.

É importante separar:

  • direita democrática;

  • conservadorismo;

  • liberalismo;

  • extrema direita.

Assim como devemos distinguir:

  • esquerda democrática;

  • social-democracia;

  • socialismo;

  • extrema esquerda.

Generalizações apenas alimentam o conflito.

A imensa maioria das pessoas, independentemente da posição política, rejeita a violência.


E os CACs?

Os Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores (CACs) formam um grupo bastante heterogêneo.

A grande maioria pratica tiro esportivo ou colecionismo de forma legal.

Ao mesmo tempo, investigações e dados públicos mostraram que, durante a rápida expansão do número de registros e armas em circulação, houve casos de desvio de armas, fiscalização insuficiente e participação de alguns CACs em crimes ou atos políticos violentos.

O aumento da circulação de armas pode ampliar o potencial de letalidade de conflitos, mas possuir registro de CAC não torna alguém violento por si só.


Guerra cultural

Outro conceito importante é o de guerra cultural.

Em vez de discutir apenas economia, parte do debate político passou a girar em torno de identidade:

  • religião;

  • costumes;

  • sexualidade;

  • gênero;

  • família;

  • educação.

Esses temas envolvem valores profundos.

Por isso despertam emoções intensas.


Cristãos versus religiões afro

Na realidade...

A maioria dos cristãos convive pacificamente com pessoas de outras religiões.

Da mesma forma, a maioria dos praticantes de religiões afro busca apenas exercer sua fé.

Os conflitos surgem quando discursos religiosos ou políticos apresentam o outro como ameaça moral ou espiritual, reforçando preconceitos antigos e legitimando hostilidade.


Homens versus mulheres

Outra falsa simplificação.

O feminismo é um conjunto diverso de movimentos que busca enfrentar desigualdades de gênero.

Já o machismo é uma visão que atribui papéis hierárquicos entre homens e mulheres.

Embora existam discursos radicais em diferentes grupos, reduzir o debate a "homens contra mulheres" impede compreender os avanços e desafios reais.


O Mainframe ensina outra lição

Nenhum sistema corporativo funciona porque todas as tarefas concordam.

Ele funciona porque existem protocolos.

Locks.

Regras.

Logs.

Auditoria.

Rollback.

Governança.

A democracia também.

Ela não exige unanimidade.

Ela exige instituições capazes de resolver conflitos sem violência.


O que podemos aprender?

Talvez o maior erro seja acreditar que o adversário sempre é mau.

Na prática...

Quase todas as pessoas acreditam estar fazendo o certo.

O problema começa quando deixam de enxergar a humanidade de quem pensa diferente.

É nesse momento que o diálogo desaparece.

E a violência encontra espaço.


Para o Padawan

No Mainframe aprendemos algo curioso.

Quando um sistema entra em deadlock, aumentar a força não resolve.

É preciso identificar quem está segurando os recursos, liberar os bloqueios e restaurar a comunicação entre os processos.

Sociedades funcionam da mesma forma.

Mais gritos raramente resolvem.

Mais escuta, instituições confiáveis, educação crítica, combate à desinformação e respeito às regras democráticas costumam produzir resultados melhores do que tratar adversários como inimigos absolutos.

No fim, talvez a democracia seja parecida com um grande IBM Z.

Milhões de transações diferentes acontecem ao mesmo tempo.

Há conflitos.

Há contenção.

Há prioridades.

Mas o sistema continua funcionando porque existem mecanismos para processar diferenças sem que tudo precise terminar em pane.

E talvez essa seja a maior lição.

Não construir uma sociedade onde todos pensem igual.

Mas uma onde ninguém precise destruir o sistema para defender suas ideias.

Porque, quando alguém tenta derrubar o próprio sistema para vencer uma disputa, no final todos os usuários perdem.