☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta fake news. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fake news. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Todos os Homens do Prefeito — Quando Bellacosa Ligou a Câmera, o YouTube Sofreu um ABEND e Itatiba Descobriu que a Verdade Tinha Backup

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Todos os Homens do Prefeito — Quando Bellacosa Ligou a Câmera, o YouTube Sofreu um ABEND e Itatiba Descobriu que a Verdade Tinha Backup

Ou: uma nota de repúdio chegou pronta, um menor apareceu no centro de uma acusação, vinte mil pessoas receberam o log da confusão, cinquenta mil apertaram PLAY — e um programador COBOL aprendeu que narrativa política sem trilha de auditoria é apenas um arquivo sequencial escrito por quem chegou primeiro.



Prólogo — A redação, a garagem e a câmera que não deveria estar ali

Em All the President’s Men, dois repórteres seguem pistas, conferem versões, protegem fontes e descobrem que o poder não teme apenas denúncias. O poder teme documentos que possam ser verificados por alguém de fora do círculo oficial.

Nossa história não se passa em Washington, não começa no edifício Watergate e não tem uma fonte misteriosa fumando num estacionamento subterrâneo. Ela acontece em Itatiba, no interior de São Paulo, entre 2016 e 2019, dentro e ao redor de uma Câmara Municipal onde situação e oposição travavam suas batalhas políticas semanais.

No lugar dos repórteres do Washington Post, havia um suplente do PMDB conhecido como Vagner Bellacosa. No lugar do caderninho, uma câmera digital. No lugar de uma máquina de escrever, YouTube, Facebook e grupos de WhatsApp. E, no lugar do conselho “siga o dinheiro”, o sistema parecia sussurrar:

Siga a sequência dos acontecimentos.

Bellacosa frequentava as sessões da Câmara quase toda quarta-feira. Não era um observador invisível: tinha posição política, relações partidárias e acesso a muitos grupos locais. Mas carregava algo que se tornaria mais importante que qualquer discurso — a capacidade de registrar o evento inteiro.

Esse detalhe parece banal numa época em que todos possuem celular. Não era. Uma câmera na posição correta funciona como o SYSLOG de um ambiente político: ela não elimina conflitos, mas dificulta que alguém reescreva o processamento depois do RETURN-CODE.



1. Quando o incidente aconteceu, a narrativa já estava compilada

Segundo o relato de Bellacosa, houve uma discussão entre grupos ligados à oposição e à situação. O confronto era essencialmente verbal. Entretanto, pessoas dispostas a criar confusão teriam sido colocadas no ambiente, entre elas um menor de idade. Em algum momento surgiu a acusação de que o menor havia levado um golpe.

A engrenagem começou a funcionar depressa.

Havia a suposta vítima. Havia testemunhas. Houve registro na delegacia. E a prefeitura publicou rapidamente uma nota de repúdio, já assinada, condenando o episódio.

Rapidez, sozinha, não prova planejamento. Uma assessoria pode redigir uma nota em pouco tempo. Da mesma forma, coincidência não é evidência automática de conspiração. Um bom analista precisa separar três campos:

  • aquilo que está documentado;

  • aquilo que foi testemunhado;

  • aquilo que é inferido a partir dos indícios.

Essa separação é tão importante na política quanto em COBOL. Se um campo PIC X(10) contém texto, não devemos tratá-lo como PIC 9(10) apenas porque gostaríamos de somá-lo. Fato, testemunho e hipótese possuem formatos diferentes.

Ainda assim, a combinação era politicamente devastadora. O acusado enfrentava uma narrativa completa: menor agredido, testemunhas, ocorrência policial, posicionamento oficial e provável repercussão no jornal. Em circunstâncias normais, a versão inicial ganharia velocidade antes que a defesa conseguisse calçar os sapatos.

O problema para os autores da narrativa era que existia um log independente.

Bellacosa havia filmado o acontecimento.

Não apenas o segundo mais barulhento. Não somente a reação de alguém. O contexto estava registrado: aproximações, posições, movimentos, falas, antes e depois. A câmera estava no lugar certo.

Em investigação, continuidade vale ouro. Um corte de oito segundos pode transformar defesa em ataque, ironia em ameaça e reação em provocação. Uma sequência longa permite reconstruir a ordem dos eventos.

Para o programador iniciante, é a diferença entre receber apenas a mensagem ABEND S0C7 e possuir também o dump, o offset, o conteúdo dos campos e o job log completo.



2. A nota oficial era o relatório; o vídeo era o dump

Uma nota de repúdio é uma interpretação institucional. Pode ser sincera, precipitada ou deliberadamente orientada. Ela organiza os acontecimentos numa estrutura compreensível para o público: vítima, agressor, ato condenável e resposta da autoridade.

O vídeo não era neutro no sentido filosófico — toda câmera possui posição, enquadramento e limitações. Porém, fornecia elementos verificáveis que a nota não controlava.

Uma testemunha dizia ter visto um golpe? O vídeo permitia localizar o segundo, verificar a distância e observar o movimento. Alguém afirmava que a agressão surgiu do nada? A gravação mostrava o que ocorreu antes. Uma versão omitia a provocação? A linha do tempo a recuperava.

O documento não precisava dizer “a prefeitura está errada”. Bastava tornar impossível sustentar determinados detalhes sem enfrentar as imagens.

Essa é uma lição fundamental sobre evidência digital:

A prova mais poderosa nem sempre é aquela que acusa. Muitas vezes é aquela que obriga todas as versões a caberem na mesma linha do tempo.

Em sistemas corporativos, chamamos isso de rastreabilidade. Uma transação financeira séria deixa identificadores, horários, usuário, terminal e estados intermediários. Se cada departamento puder escrever sua própria versão sem correlação, não existe auditoria — existe literatura criativa.

Na política local, o vídeo de Bellacosa introduziu um TIMESTAMP que ninguém conseguia editar por decreto.



3. O jornal chegou à banca; a réplica já estava em produção

Aqui começa a parte que as antigas estruturas de comunicação demoraram a compreender.

Bellacosa participava de numerosos grupos de WhatsApp de Itatiba. Mal o jornal impresso chegou às bancas, o vídeo já estava carregado no YouTube e compartilhado com aproximadamente vinte mil pessoas. Os destinatários fizeram aquilo que redes distribuídas fazem melhor: replicaram.

O vídeo original alcançou cerca de cinquenta mil visualizações.

Antes da internet, a contestação dependeria do mesmo porteiro que havia publicado a acusação. Seria necessário pedir espaço no jornal, aguardar a edição seguinte, negociar tamanho, título e posição. Quando a correção aparecesse, a acusação já teria se transformado em memória coletiva.

WhatsApp e YouTube eliminaram essa janela de controle.

O YouTube funcionou como repositório. O WhatsApp, como middleware de distribuição. Os cidadãos, como nós de replicação. O vídeo não precisava convencer todos os habitantes; precisava chegar rapidamente às pessoas interessadas no assunto e permitir que elas próprias comparassem as versões.

Para um aluno COBOL, podemos representar o processamento assim:

ENTRADA: acontecimento filmado
VALIDAÇÃO: sequência integral e contexto
ARMAZENAMENTO: upload no YouTube
DISTRIBUIÇÃO: grupos de WhatsApp
REPLICAÇÃO: encaminhamentos dos usuários
SAÍDA: pressão pública por correção

A prefeitura acabou emitindo uma nota corrigindo o texto. Mais importante: a pessoa acusada utilizou o vídeo na própria defesa durante o inquérito. Como a gravação continha o acontecimento, a acusação não avançou e o envolvido foi inocentado, conforme o relato de Bellacosa.

O vídeo deixou de ser apenas conteúdo político. Tornou-se elemento defensivo com consequência concreta.



4. Quando não foi possível refutar o arquivo, tentaram provocar DELETE

A história poderia terminar com a correção. Não terminou.

O primeiro upload sofreu uma campanha de denúncias no YouTube. Algumas pessoas alegavam “violência gratuita”. Outras afirmavam que aquilo “não era real”. As reclamações eram incompatíveis: se a violência era real e gratuita, o vídeo não podia simultaneamente ser uma fabricação completa.

Essa inconsistência sugere que a preocupação central não era classificar corretamente o conteúdo. O objetivo aparente era encontrar qualquer regra capaz de retirá-lo do ar.

O nome moderno desse comportamento é brigading: um grupo coordenado ou convergente aciona em massa os mecanismos de denúncia de uma plataforma. É uma espécie de DDoS burocrático. Em vez de sobrecarregar um servidor com pacotes, sobrecarrega-se a moderação com reclamações.

Bellacosa precisou contestar e lutar para manter o material disponível. O link que sobrevive atualmente corresponde a um segundo upload.

Aqui aparece uma das vulnerabilidades centrais da internet regulada por plataformas: a assimetria.

  • Denunciar exige alguns cliques.

  • Defender exige contexto, documentos, recursos e persistência.

  • A remoção pode ser imediata.

  • A restauração pode chegar depois que o interesse público desapareceu.

Se a plataforma teme multas pesadas por manter conteúdo denunciado, mas enfrenta pouca consequência por remover injustamente uma publicação legítima, seu algoritmo escolherá a precaução. Remover primeiro e analisar depois torna-se a opção economicamente racional.

É assim que uma ferramenta criada para combater violência, fraude e abuso pode ser transformada numa borracha política.

Easter egg para o operador veterano: quem nunca viu um usuário tentar resolver um problema cancelando o job errado não sabe o que é governança.



5. Passo a passo: como preservar uma evidência sem virar Igor da perícia

Se você presencia um acontecimento de interesse público, não basta apertar REC. A utilidade jurídica e histórica do material depende da preservação.

Passo 1 — Filme a sequência, não apenas o clímax

Quando for seguro, registre o antes, o durante e o depois. Evite interromper a gravação para produzir pequenos clipes. Contexto reduz a possibilidade de interpretação enganosa.

Passo 2 — Preserve o arquivo original

Não edite a única cópia. Mantenha o arquivo exatamente como saiu da câmera ou do celular, incluindo metadados. Produza versões separadas para publicação.

Passo 3 — Crie redundância

Use pelo menos três cópias: dispositivo original, armazenamento externo e local remoto confiável. Uma evidência guardada apenas numa plataforma pode desaparecer por denúncia, falha técnica ou perda da conta.

Passo 4 — Registre a integridade

Um hash criptográfico, como SHA-256, funciona como impressão digital do arquivo. Qualquer alteração posterior gera outro resultado. Ele não prova sozinho quem filmou, mas ajuda a demonstrar que determinada cópia não foi modificada.

Passo 5 — Documente o contexto

Anote data, horário aproximado, local, posição da câmera e pessoas capazes de confirmar a gravação. Preserve mensagens, avisos de remoção e protocolos de recurso.

Passo 6 — Proteja pessoas vulneráveis

Se houver menores, vítimas ou dados sensíveis, avalie ocultar rostos e informações na versão pública. O original deve permanecer preservado para advogado ou autoridade competente.

Passo 7 — Entregue a prova pelo canal adequado

Viralização não substitui defesa jurídica. Quando houver inquérito ou processo, o advogado deve receber o original e avaliar a forma correta de juntada.

Passo 8 — Não aceite provocações

Depois de publicar material politicamente sensível, considere que alguém poderá tentar produzir um segundo episódio contra você. Mantenha autocontrole, evite confrontos e registre ameaças pelos canais apropriados.

Em resumo: não seja Igor copiando o arquivo para VIDEO-FINAL-AGORA-VAI-3.MP4 e apagando o original para economizar espaço.



6. “Cuidado, o Bellacosa está presente”

Depois do episódio, Bellacosa virou uma espécie de piada interna na Câmara. Quando ele aparecia, alguém dizia:

“Olha que o Bellacosa está presente e pode te filmar.”

Era brincadeira, mas também aviso operacional.

Sua presença modificava o comportamento do ambiente. Ele havia demonstrado que sabia registrar, publicar, distribuir, enfrentar denúncias e permanecer em cena. Mesmo quando a câmera não estivesse ligada, ninguém teria certeza.

Isso é o efeito do observador aplicado à política: pessoas calculam melhor suas ações quando existe possibilidade de auditoria independente.

Ao mesmo tempo, transformar o episódio em piada ajudava a instituição a digerir o constrangimento. Era mais confortável retratar Bellacosa como “o homem da câmera” do que discutir por que uma gravação externa havia sido necessária para impedir uma acusação injusta.

Nos dias seguintes, porém, não havia apenas humor. Bellacosa comparecia às sessões com medo. Continuar indo toda quarta-feira reforçava sua posição: ele sustentava publicamente aquilo que havia publicado. Mas também se expunha a intimidação, provocação ou agressão.

Sua condição partidária oferecia alguma proteção. Como integrante do PMDB e suplente, possuía relações e custo político. Um militante de partido pequeno, isolado ou facilmente rotulado como radical talvez não tivesse o mesmo escudo.

Essa constatação impede que romantizemos a expressão “qualquer pessoa pode publicar”. Tecnicamente, qualquer pessoa pode. Nem todas conseguem suportar campanha de denúncias, pressão presencial, advogado, exposição pública e risco físico.

Liberdade formal sem proteção prática pode existir apenas para quem possui rede, recursos ou coragem para enfrentar o corredor na quarta-feira seguinte.



7. Eleição 2020: a hipótese da mão santa

No pleito municipal de 2020, o mesmo prefeito tentou a reeleição. Segundo Bellacosa, o político costumava brincar que Facebook não ganhava eleição.

Na reta final, Bellacosa decidiu apoiar um candidato da oposição e realizou campanha intensa dentro das regras eleitorais. Àquela altura, a rede original de aproximadamente vinte mil pessoas teria crescido em mais vinte mil depois dos acontecimentos anteriores.

O prefeito perdeu a reeleição por pouco mais de seiscentos votos.

É possível provar que Bellacosa decidiu o pleito? Não.

Não existe grupo de controle, pesquisa individual de exposição, rastreamento entre postagem e voto ou experimento capaz de isolar sua influência das demais variáveis. Alcance também não corresponde a eleitores únicos: há duplicidade, pessoas de outras cidades, apoiadores já convencidos, abstenções e mensagens nunca abertas.

Mas podemos fazer uma conta divertida.

Se quarenta mil pessoas estavam potencialmente na rede, seiscentos votos representam 1,5% desse total. Num confronto direto, quando um eleitor deixa o prefeito e escolhe o adversário, a margem se altera em dois votos: um sai de um lado e entra no outro. Em modelo extremamente simplificado, pouco mais de trezentas conversões poderiam gerar uma diferença superior a seiscentos votos.

Isso não demonstra causalidade. Mostra apenas plausibilidade.

A formulação cientificamente honesta seria:

“Não posso provar que minha mão derrubou o prefeito. Numa eleição decidida por pouco mais de seiscentos votos, ninguém também pode provar que ela foi irrelevante.”

No Boteco de Itatiba, depois de uma cerveja, essa hipótese recebe seu nome acadêmico definitivo: Teoria da Mão Santa de Bellacosa.

Correlação não é causalidade. Mas algumas correlações combinam maravilhosamente com amendoim.



8. O que um programador COBOL aprende com essa investigação

O iniciante costuma imaginar COBOL como linguagem de contas, arquivos e relatórios. Na realidade, sistemas confiáveis ensinam uma filosofia de responsabilidade.

Registro é diferente de narrativa

O relatório gerencial apresenta uma interpretação. O log preserva eventos. Precisamos dos dois, mas nunca devemos confundi-los.

Ordem importa

Em processamento sequencial, trocar dois registros pode alterar o resultado. Em vídeo, remover o que ocorreu antes de uma reação pode transformar completamente seu significado.

Auditoria exige independência

Se a mesma entidade pratica o ato, registra o ato, interpreta o registro e decide quem pode consultá-lo, não temos uma auditoria robusta.

Redundância protege contra falhas e interesses

Backup não serve apenas para disco quebrado. Também protege contra remoção indevida, erro humano e tentativa deliberada de apagar evidências.

Autoridade não substitui validação

Uma nota oficial merece atenção, mas não se torna verdadeira apenas porque possui brasão. Da mesma maneira, um arquivo marcado como PRODUCAO não está correto apenas porque foi colocado na biblioteca principal.

Toda automação possui viés de incentivo

Se o sistema de moderação é punido por deixar algo no ar e quase nunca por remover injustamente, ele será programado para retirar em excesso. A regra de negócio molda o algoritmo.

O operador também faz parte da segurança

Bellacosa tinha câmera, arquivo e plataforma. O elemento decisivo, contudo, foi insistir: preservar, reenviar, contestar e continuar comparecendo. Tecnologia sem operador disposto a sustentá-la vira apenas equipamento caro.



Epílogo — A verdade não venceu sozinha

É tentador encerrar dizendo que a verdade sempre vence. Seria bonito, cinematográfico e falso.

A verdade daquele episódio precisou de câmera posicionada corretamente, gravação contínua, arquivo preservado, upload rápido, vinte mil contatos iniciais, dezenas de milhares de visualizações, pessoas dispostas a compartilhar, recurso contra denúncias e alguém com coragem para voltar à Câmara na quarta-feira seguinte.

Ela não venceu porque possuía uma força mística. Venceu porque recebeu infraestrutura.

Essa talvez seja a maior lição para quem discute regulação da internet. Redes sociais espalham mentiras, fraudes e violência, e precisam de mecanismos responsáveis. Porém, os mesmos mecanismos de denúncia podem ser capturados por grupos organizados para retirar provas legítimas. Uma regra mal desenhada não pergunta quem está dizendo a verdade; pergunta apenas qual lado consegue produzir maior risco para a plataforma.

Uma internet livre não é uma internet sem lei. É uma internet em que remoções possuem fundamento, transparência, possibilidade de recurso e proteção especial para documentação de interesse público. É uma rede na qual autoridades também podem ser contestadas por registros independentes.

No final, o prefeito tinha nota, assessoria, testemunhas e máquina política. Bellacosa tinha uma câmera, uma conta no YouTube, grupos de WhatsApp e backup.

Anos depois, resta uma vitória moral impossível de colocar numa planilha eleitoral. Talvez sua campanha tenha influenciado cinquenta votos. Talvez trezentos. Talvez mil. Não sabemos.

Mas toda vez que a caneca toca o balcão do Boteco de Itatiba, o sistema executa novamente o mesmo pequeno programa:

       IF PREFEITO-PERDEU
          AND DIFERENCA-DE-VOTOS <= 0600
              MOVE 'MAO SANTA' TO PARECER-HISTORICO
              PERFORM BRINDE-ATE-FECHAR-O-BOTECO
       END-IF.

No rodapé do relatório, uma observação permanece piscando em verde-fósforo:

Causalidade não comprovada. Satisfação pessoal processada com sucesso.

E, em algum estacionamento escuro de Itatiba, uma voz misteriosa completa:

“Siga o log.”

 


 

sábado, 25 de março de 2023

Quando o Sistema Entra em Estado de Conflito : O que a polarização política pode ensinar sobre software, psicologia e por que sociedades também entram em deadlock

 

Bellacosa Mainframe quando o sistema entra em estado de conflito

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando o Sistema Entra em Estado de Conflito

O que a polarização política pode ensinar sobre software, psicologia e por que sociedades também entram em deadlock

"Nenhum sistema complexo entra em colapso por causa de um único bug. Normalmente, vários pequenos erros passam anos se acumulando até que um gatilho exponha todas as falhas ao mesmo tempo."

Se você trabalha com Mainframe, sabe que um sistema raramente quebra por um único motivo.

Existe uma sequência de eventos.

Um recurso fica saturado.

Uma fila cresce.

Um lock nunca é liberado.

Outro processo espera.

Mais outro.

Até que chega um momento em que tudo para.

Sociedades funcionam de maneira parecida.

Muita gente pergunta:

"O que aconteceu com o Brasil?"

A resposta curta é:

não aconteceu uma única coisa. Aconteceram dezenas delas ao mesmo tempo.

Hoje vamos conversar menos sobre política e mais sobre engenharia de sistemas humanos.


O Brasil sempre foi pacífico?

Na verdade...

Não.

Nossa memória costuma ser seletiva.

O Brasil teve:

  • escravidão durante mais de 300 anos;

  • Guerra de Canudos;

  • Revolta da Vacina;

  • Revolução de 1930;

  • Estado Novo;

  • ditadura militar;

  • guerrilhas;

  • conflitos agrários;

  • violência urbana crescente desde os anos 1980.

A diferença é que esses conflitos eram mais localizados.

Hoje eles entram no bolso de todo mundo através do celular.


A Internet mudou o sistema operacional da sociedade

Imagine um Mainframe.

Antes existia apenas um terminal.

As mensagens passavam por um único operador.

Agora imagine milhões de terminais enviando comandos simultaneamente.

É isso que as redes sociais fizeram.

Antes:

  • jornais filtravam informações;

  • televisão tinha poucos canais;

  • debates eram lentos.

Hoje:

qualquer pessoa publica qualquer coisa para milhões de pessoas em segundos.

A velocidade aumentou.

Mas os filtros diminuíram.


O algoritmo não quer a verdade

Essa talvez seja a parte mais importante.

O algoritmo não foi criado para informar.

Foi criado para prender sua atenção.

E existe algo que prende muito mais atenção do que boas notícias.

Raiva.

Medo.

Indignação.

Escândalo.

Quanto maior a emoção...

Maior o tempo de tela.

Maior o lucro.

Em psicologia isso é conhecido como viés da negatividade.

Nosso cérebro presta mais atenção ao perigo do que à tranquilidade.

Era útil quando vivíamos cercados de predadores.

Hoje isso faz com que uma notícia absurda viaje muito mais rápido que uma notícia comum.


A teoria da identidade social

O psicólogo Henri Tajfel propôs algo fascinante.

As pessoas naturalmente criam grupos.

"Nós."

"Eles."

Mesmo quando as diferenças são mínimas.

Experimentos mostraram que pessoas favoreciam membros do próprio grupo mesmo quando os grupos eram completamente aleatórios.

Imagine agora quando entram:

  • religião;

  • futebol;

  • política;

  • nacionalismo;

  • identidade cultural.

Os grupos deixam de ser apenas opiniões.

Passam a fazer parte da identidade da pessoa.

Criticar uma ideia parece atacar quem ela é.


Quando a política vira religião

Esse é um fenômeno estudado por diversos cientistas sociais.

Em alguns contextos, líderes políticos passam a ocupar funções simbólicas antes desempenhadas por líderes religiosos.

Eles deixam de ser vistos como pessoas falíveis.

Passam a ser vistos como representantes do "bem" contra o "mal".

Quando isso acontece, o diálogo fica muito difícil.

Porque negociar ideias é possível.

Negociar uma fé é muito mais complicado.


Câmara de eco

Imagine um sistema distribuído.

Todos os servidores recebem exatamente a mesma informação.

Nunca existe validação externa.

Depois de algum tempo...

Todo o cluster acredita na mesma coisa.

Mesmo que esteja errado.

Isso acontece nas redes sociais.

O algoritmo mostra conteúdos semelhantes aos que você já consome.

Pouco a pouco parece que:

"todo mundo pensa igual a mim."

Quando aparece alguém diferente...

Ele parece um alienígena.


Radicalização gradual

Quase ninguém acorda pensando:

"Hoje vou atacar uma instituição democrática."

A radicalização costuma ser lenta.

Ela acontece por pequenas etapas.

Uma teoria.

Depois outra.

Depois outra.

Cada nova ideia parece apenas um pequeno passo.

Mas, ao olhar para trás, a pessoa percorreu quilômetros.

É semelhante ao conceito da janela de Overton, que descreve como ideias antes consideradas extremas podem se tornar gradualmente aceitáveis quando o debate público se desloca.


O efeito da crise econômica

Toda crise produz ansiedade.

Quando empregos diminuem.

Quando salários perdem valor.

Quando o futuro parece incerto.

As pessoas procuram explicações simples.

É um mecanismo psicológico.

Problemas complexos geram desconforto.

Respostas simples geram alívio.

Mesmo quando estão erradas.


O cérebro odeia incerteza

Existe um conceito chamado necessidade de fechamento cognitivo.

Algumas pessoas lidam melhor com dúvidas.

Outras precisam de respostas rápidas.

Quanto maior a incerteza...

Maior a atração por líderes que falam com absoluta certeza.

Mesmo sem evidências.


O papel das fake news

Desinformação não é novidade.

A novidade é a velocidade.

Antes uma mentira demorava dias para circular.

Hoje ela alcança milhões em minutos.

Além disso, estudos mostram que conteúdos emocionalmente carregados tendem a ser compartilhados mais rapidamente do que informações neutras.


O 8 de Janeiro

Os ataques de 8 de janeiro de 2023 não surgiram em um único dia.

Eles foram resultado de uma combinação de fatores:

  • forte polarização política;

  • desinformação;

  • mobilização por redes sociais;

  • sentimento de perda e injustiça entre parte dos participantes;

  • teorias conspiratórias;

  • liderança política e influência de figuras públicas;

  • dinâmica de multidões, na qual indivíduos fazem coisas que dificilmente fariam sozinhos;

  • falhas de planejamento e segurança que facilitaram a invasão.

Nada disso justifica os atos.

Mas ajuda a explicar como eles se tornaram possíveis.

Entender causas não significa concordar com comportamentos.

É justamente o contrário: compreender é condição para prevenir.


E a violência da direita?

Pesquisas internacionais mostram que movimentos extremistas podem surgir tanto na extrema direita quanto na extrema esquerda, dependendo do contexto histórico e nacional.

No Brasil recente, diversos estudos apontam um crescimento da mobilização de grupos radicalizados identificados com a direita, especialmente após a intensa polarização política da década de 2010. Também houve episódios de violência praticados por grupos de outras orientações, embora em menor escala e com características distintas no período recente.

É importante separar:

  • direita democrática;

  • conservadorismo;

  • liberalismo;

  • extrema direita.

Assim como devemos distinguir:

  • esquerda democrática;

  • social-democracia;

  • socialismo;

  • extrema esquerda.

Generalizações apenas alimentam o conflito.

A imensa maioria das pessoas, independentemente da posição política, rejeita a violência.


E os CACs?

Os Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores (CACs) formam um grupo bastante heterogêneo.

A grande maioria pratica tiro esportivo ou colecionismo de forma legal.

Ao mesmo tempo, investigações e dados públicos mostraram que, durante a rápida expansão do número de registros e armas em circulação, houve casos de desvio de armas, fiscalização insuficiente e participação de alguns CACs em crimes ou atos políticos violentos.

O aumento da circulação de armas pode ampliar o potencial de letalidade de conflitos, mas possuir registro de CAC não torna alguém violento por si só.


Guerra cultural

Outro conceito importante é o de guerra cultural.

Em vez de discutir apenas economia, parte do debate político passou a girar em torno de identidade:

  • religião;

  • costumes;

  • sexualidade;

  • gênero;

  • família;

  • educação.

Esses temas envolvem valores profundos.

Por isso despertam emoções intensas.


Cristãos versus religiões afro

Na realidade...

A maioria dos cristãos convive pacificamente com pessoas de outras religiões.

Da mesma forma, a maioria dos praticantes de religiões afro busca apenas exercer sua fé.

Os conflitos surgem quando discursos religiosos ou políticos apresentam o outro como ameaça moral ou espiritual, reforçando preconceitos antigos e legitimando hostilidade.


Homens versus mulheres

Outra falsa simplificação.

O feminismo é um conjunto diverso de movimentos que busca enfrentar desigualdades de gênero.

Já o machismo é uma visão que atribui papéis hierárquicos entre homens e mulheres.

Embora existam discursos radicais em diferentes grupos, reduzir o debate a "homens contra mulheres" impede compreender os avanços e desafios reais.


O Mainframe ensina outra lição

Nenhum sistema corporativo funciona porque todas as tarefas concordam.

Ele funciona porque existem protocolos.

Locks.

Regras.

Logs.

Auditoria.

Rollback.

Governança.

A democracia também.

Ela não exige unanimidade.

Ela exige instituições capazes de resolver conflitos sem violência.


O que podemos aprender?

Talvez o maior erro seja acreditar que o adversário sempre é mau.

Na prática...

Quase todas as pessoas acreditam estar fazendo o certo.

O problema começa quando deixam de enxergar a humanidade de quem pensa diferente.

É nesse momento que o diálogo desaparece.

E a violência encontra espaço.


Para o Padawan

No Mainframe aprendemos algo curioso.

Quando um sistema entra em deadlock, aumentar a força não resolve.

É preciso identificar quem está segurando os recursos, liberar os bloqueios e restaurar a comunicação entre os processos.

Sociedades funcionam da mesma forma.

Mais gritos raramente resolvem.

Mais escuta, instituições confiáveis, educação crítica, combate à desinformação e respeito às regras democráticas costumam produzir resultados melhores do que tratar adversários como inimigos absolutos.

No fim, talvez a democracia seja parecida com um grande IBM Z.

Milhões de transações diferentes acontecem ao mesmo tempo.

Há conflitos.

Há contenção.

Há prioridades.

Mas o sistema continua funcionando porque existem mecanismos para processar diferenças sem que tudo precise terminar em pane.

E talvez essa seja a maior lição.

Não construir uma sociedade onde todos pensem igual.

Mas uma onde ninguém precise destruir o sistema para defender suas ideias.

Porque, quando alguém tenta derrubar o próprio sistema para vencer uma disputa, no final todos os usuários perdem.


sábado, 29 de dezembro de 2018

Brasil 2018: quando o sistema foi reiniciado à força e ninguém leu o README

 

Bellacosa Mainframe e o caos brasileiro em 2018

Brasil 2018: quando o sistema foi reiniciado à força e ninguém leu o README

Meu quinto ano de volta ao Brasil foi 2018. Se 2017 tinha sido o ano do cansaço, 2018 foi o ano do susto. Aquele momento em que alguém, exausto de ver o sistema falhar, decide reiniciar tudo no grito — sem diagnóstico completo, sem plano de contingência, sem saber exatamente o que será perdido no processo.

Depois de doze anos na Europa, eu já reconhecia esse padrão. Vi versões parecidas em outros lugares: quando a política falha por tempo demais, o medo vira argumento, e o argumento vira arma.

Economia: estabilidade de papel, insegurança real

Economicamente, 2018 parecia estável apenas nos relatórios. O chão continuava irregular. Empregos mais frágeis, renda achatada, informalidade disfarçada de empreendedorismo. Era como rodar um sistema que não cai mais, mas também não entrega desempenho.

Para quem viveu fora, o contraste seguia brutal: na Europa, crise vem com proteção mínima. No Brasil, a lógica parecia outra — o sistema se preserva, o usuário se adapta. A economia seguia deixando rastros, não caminhos.

O brasileiro já não planejava. Administrava danos.

Sociedade: medo como política pública informal

Socialmente, 2018 foi dominado pelo medo. Medo do outro, medo do colapso, medo de perder o pouco que restava. As eleições amplificaram isso. A política deixou de ser espaço de projeto coletivo e virou campo de batalha emocional.

Bolsonaro emergiu não apenas como candidato, mas como sintoma. Para quem voltou da Europa, o padrão era reconhecível: discurso simples, soluções duras, nostalgia de ordem, promessa de força. O “terror da direita” não era só retórico — era a normalização do autoritarismo como resposta ao caos.

Quando o sistema falha demais, alguém sempre promete apertar o botão vermelho.

Cultura: o fim da nuance

Culturalmente, 2018 matou a nuance. Tudo virou rótulo. Ou você estava “dentro” ou “fora”. A complexidade foi tratada como defeito moral. O diálogo virou fraqueza. A dúvida virou crime.

Para quem passou anos em sociedades onde discordar não rompe laços automaticamente, foi doloroso assistir à dissolução do espaço comum. Arte, humor, conversa de bar — tudo contaminado por tensão política constante. O país parecia rodar em high availability, mas com latência emocional altíssima.

População: sobrevivendo em modo defensivo

O povo em 2018 já não reagia — se defendia. As pessoas se fecharam em bolhas, em narrativas próprias, em pequenos círculos de confiança. Vi gente boa se calar para evitar conflito. Vi outras gritarem para não desaparecer.

O brasileiro, resiliente como sempre, seguiu em frente. Mas agora com armadura. E armadura pesa.

Eleições: quando o sistema escolhe o risco

As novas eleições não foram um debate sobre futuro — foram um plebiscito sobre frustração. Bolsonaro venceu não porque apresentou um projeto consistente, mas porque encarnou a negação de tudo que estava aí. Foi um voto de ruptura, não de construção.

Como ex-imigrante, a sensação foi clara: o Brasil escolheu rodar uma versão experimental do sistema em produção. Sem testes suficientes. Sem rollback confiável.

Veteranos de mainframe sabem: isso nunca termina bem.

Vida pessoal: o colapso e o recomeço

E enquanto o país passava por sua própria ruptura, minha vida pessoal também atravessava um cutover. 2018 marcou o fim da Juliana e o início da Ana Paula. Não como metáfora política barata, mas como sincronia estranha entre o macro e o micro.

O fim de um ciclo longo, conhecido, já desgastado. O início de algo novo, incerto, mas necessário. Assim como o país, eu estava cansado de remendos. Precisava de verdade, não de estabilidade artificial.

Às vezes, o sistema pessoal também precisa cair para ser reconstruído com mais honestidade.

Quinto ano pós-retorno: sem ilusões

Em 2018, já não havia ilusão alguma. Nem sobre o Brasil, nem sobre mim mesmo. Eu já não esperava normalidade europeia nem redenção automática brasileira. Entendi que tinha voltado para um país em disputa profunda — de narrativa, de valores, de futuro.

O sistema seguia ligado, sim. Mas agora sob nova administração, com operadores dispostos a sacrificar segurança em nome de controle, e usuários divididos entre esperança desesperada e medo resignado.

Epílogo: lição dura de sistemas críticos

2018 ensinou uma das lições mais antigas de qualquer ambiente complexo:
quando a frustração substitui o projeto,
qualquer solução parece aceitável —
até que o custo aparece.

O Brasil de 2018 não escolheu um caminho claro.
Escolheu um risco.

E todo operador experiente sabe:
reiniciar um sistema sem entender por que ele falhou
é a forma mais rápida de repetir o erro —
só que com consequências maiores.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...