sábado, 1 de outubro de 2011

đźš—đź’¨ O Fusquinha Vermelho na Washington LuĂ­s

 



đźš—đź’¨ O Fusquinha Vermelho na Washington LuĂ­s

CrĂ´nica Bellacosa Mainframe — MemĂłrias de um Tempo em que Estrada Era Universo


Antes da internet, antes dos smartphones, antes até de você saber o que era um mainframe, existia o Fusquinha Vermelho 1960, abrindo caminho pelo interior paulista como uma nave estelar rubra rasgando o asfalto quente.

Aquela lataria tremendo, o motorzinho valente, o volante fino, o cheiro de gasolina e banco de curvim — tudo isso fazia parte de um protocolo de aventura que nenhum roteador de 2025 conseguiria replicar.

Motor superaquecendo pelo calor da estrada e o tempo de funcionamento.

E o palco?
A lendária Rodovia Washington Luís
uma linha reta infinita, cortando o estado como um track contĂ­nuo de vida, poeira e descobertas.



🛣️ Quando a Washington LuĂ­s Era Universo Expandido

Nos anos 1970, estrada ainda era o desconhecido.

Poucos carros.
Muitos caminhões.
Retões infinitos.
Declives que davam a sensação de montanha-russa.
As famosas banguelas — aquele momento mágico em que o Fusquinha engatava ponto morto e se tornava uma embarcação livre no vento.

Ali, eu descobri que estrada nĂŁo Ă© caminho: Ă© portal.

Cada viagem era um salto quântico:

  • Ibitinga para comprar bordados,

  • UrupĂŞs e Catanduva para ver famĂ­lia,

  • SĂŁo JosĂ© do Rio Preto para primos e mais parentes espanhois

  • outras cidades para reportagens fotográficas do meu pai,

  • e aquela imensidĂŁo do interior, salpicada de cafezais, canaviais e laranjais ondulando como mar verde.




🌾 Paradas Estratégicas: Os Rituais da Estrada

A cada trecho, havia um ritual:

**🟢 Necessidades fisiológicas?

A natureza sempre foi a primeira área de descanso.**

O Fusquinha parava na beira do cafezal, eu corria atrás de um arbusto qualquer, e pronto. Era o “banheiro do Brasil”.



đźź  Pequeniques improvisados em postos de estrada

  • SanduĂ­che de pĂŁo com mortadela,

  • Tortas e bolos preparado pela minha mĂŁezinha

  • Guaraná quente,

  • Formigas fazendo auditoria na toalha xadrez,

  • Laranjas doces e madurinhas apanhadas pelo caminho

  • E aquele vento quente bagunçando cabelo, roupa e alma.

Era simples.
Era feliz.



🎠 Os Parquinhos do Interior — O Primeiro Parque Temático da Sua Vida

Os postos de serviço da época tinham parquinhos infantis que beiravam a engenharia experimental.

Escadas metálicas, balanços altos, brinquedos de giro capazes de lançar qualquer criança para outra linha do tempo.
E o mais lendário de todos: o robô gigante.

Me lembro dele, agora mesmo o pavor, a estrutura imponente como se fosse um mecha de anime, um Gundam feito de sucata.

Hoje, adulto, reconheço não era tão grande e assustador:

— Devia ter uns 5 metros.

Mas para o pequeno Bellacosa?

Tinha 30 metros e olhava direto para sua alma.

Foi ali que vivi o grande encontro com o medo, o limite para o pequeno malabarista de muros.

Meu pai, paciente como um processador IBM de 2MHz, me colocou no colo e começou a subir a geringonça metálica.

Chegando lá em cima — no topo do mundo — o braço do robĂ´ era um escorregador gigantesco.

Olhei pra baixo.
As pernas tremem.
O coração trava.
A coragem falha no checkpoint.
E o berreiro começa.

Meu pai — herĂłi, sysadmin e suporte emocional Level 99 — te leva de volta pelo caminho seguro, contrariado e durante muitos anos fui lembrado via bulling deste robo.

E assim, naquele dia, entendi duas coisas:

  1. Coragem nĂŁo nasce pronta.

  2. Às vezes o herói é o pai que te desce devagar de um robô gigante, mesmo te zoando para o resto da vida pelo fato.


🏰 O Posto Castelo — Seu Primeiro Reino Imaginário

Outro marco da estrada era o mĂ­tico Posto Castelo.
NĂŁo era sĂł um posto.
Era meu primeiro castelo de RPG.

Uma fortaleza de concreto na beira da rodovia, que para mim era:

  • base militar,

  • reino medieval,

  • sala do trono,

  • fortaleza de cavaleiros,

  • portal para o outro mundo.

  • e palco de aventuras Ă©picas.

O interior paulista, com seus castelos postos-de-gasolina, robĂ´s de escada metálica e cafezais infinitos, foi o meu primeiro multiverso — antes de Tolkien, antes de Star Wars, antes de Shonen Jump.


đźš—đź’– EpĂ­logo Bellacosa

Tudo isso aconteceu no velho Fusquinha Vermelho.
Ele era mais que carro:

Era nave espacial.
Era mula de carga.
Era dragão metálico.
Era cápsula de boas memórias.

E naquela Washington LuĂ­s dos anos 1970, onde cada reta parecia uma eternidade e cada descida era uma montanha-russa, aprendi o que Ă© aventura, o que Ă© movimento, o que Ă© viver.

E hoje, ao lembrar dessas viagens, percebo:

A estrada nĂŁo te levou apenas ao interior.
A estrada te levou para dentro de vocĂŞ mesmo.

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