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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

OS 30 FILMES FERROVIÁRIOS RAROS QUE TODO TETSUDŌ OTAKU PRECISA VER ANTES QUE O MUNDO APAGUE AS LUZES DA ESTAÇÃO

 

Bellacosa Mainframe compartilha filmes ferroviarios

🚂 EL JEFE MIDNIGHT SPECIAL

OS 30 FILMES FERROVIÁRIOS RAROS QUE TODO TETSUDŌ OTAKU PRECISA VER ANTES QUE O MUNDO APAGUE AS LUZES DA ESTAÇÃO



Bellacosa Mainframe apresenta: “Cinema sobre Trilhos – A Nova Bíblia dos Railfans”


Existem filmes que você assiste.
E existem filmes que apitam dentro do peito.

Ferroviários sabem: um trem não é só uma máquina — é um organismo vivo, pulsando vapor, óleo, aço e histórias. No Japão, no Brasil, nos EUA, na Europa: onde há trilhos, há lendas. E no cinema… ah, no cinema há um universo inteiro que poucos exploraram.

Por isso, preparei a lista definitiva dos 30 filmes ferroviários raros, perfeitos para o fã hardcore — aquele que reconhece um C62 só pelo som, que sabe diferenciar bitola métrica de bitola mista sem olhar, e que chora vendo um trem partir na neblina.

Esta é uma curadoria estilo Bellacosa Mainframe, com história, curiosidades, easter-eggs e trilhos enferrujados de nostalgia.

Sente-se na poltrona.
O trem noturno para o passado vai partir.


🚂 OS 30 FILMES FERROVIÁRIOS RAROS (E BRILHANTES)




1) Tetsudō Shōjo (1956) — Japão

Drama romântico ferroviário escondido nos arquivos da Shochiku.
Easter-egg: Primeira aparição filmada do trem KiHa 20

.


2) The Signal Tower (1924) — EUA

Cinema mudo com tensão e trilhos.
Curiosidade: Real filmagens com locomotivas da Northwestern Pacific.



3) Night Mail (1936) — Reino Unido

Documentário-poema que inspirou gerações de maquinistas.
Easter-egg: Narração escrita por W. H. Auden.



4) La Bête Humaine (1938) — França

Jean Renoir transformando uma locomotiva em personagem.
Curiosidade: Baseado em Émile Zola, estrelando uma Loco 231C.


5) Alma do Brasil (1932) — Brasil

Raridade perdida do cinema nacional com cenas ferroviárias reais do interior paulista.



6) Poppoya – The Railroad Man (1999) — Japão

Drama de arrepiar qualquer ferroviário.
Easter-egg: Locomotiva KIHA 40 filmada em clima ártico real.



7) The Iron Horse (1924) — EUA (John Ford)

A epopeia da construção da ferrovia americana.
Curiosidade: Usou trens históricos reais da Union Pacific.



8) Snow Trail Express (1951) — Japão

Suspense ferroviário soterrado por neve.
Comentário: Uma joia que quase ninguém viu.



9) Gare Centrale (1999) — Egito

Drama social em meio ao caos ferroviário do Cairo.
Atmosférico e brutal.



10) The Titfield Thunderbolt (1953) — Reino Unido

Comédia ferroviária deliciosa.
Easter-egg: Trem preservado até hoje na Didcot Railway.



11) The Great St. Trinian’s Train Robbery (1966) — Reino Unido

Filme de humor anárquico com perseguições ferroviárias insanas.



12) Sky Crawlers – Rail Segment (2008)

Não é filme ferroviário, mas tem o melhor cameo de trem futurista dos anos 2000.



13) Cristo Revue Railway Show (1958) — Japão

Musical ferroviário. Sim, isso existiu.
Raro ao extremo.



14) The Emperor’s Railroad (1960) — China

Épico histórico com trens a vapor monumentais.



15) The Train of Shadows (1997) — Espanha

Experimental, poético, trilhos como memória.



16) Le Rail (1964) — Senegal

Obra-prima africana mostrando a vida dura dos ferroviários.



17) Strangers on a Train (1951) — EUA (Hitchcock)

Versão restaurada rara com cenas estendidas da locomotiva.
Easter-egg: O assassinato do parque foi inspirado em uma estação real.



18) Runaway Train (1985)

Filme cult. Violento. Ferroviário até o osso.
Curiosidade: Baseado em roteiro de Akira Kurosawa (!)



19) The Ghost Train (1941)

Horror britânico com atmosfera absurda.



20) Railroad Tigers (2016) — China (Jackie Chan)

Ação + humor + locomotivas históricas.



21) The Rebirth of Moka Station (1972)

Documentário japonês sobre o fim da linha a vapor Moka.
Comentário: Puro choro ferroviário.



22) Der Tunnel (1933) — Alemanha

Sci-fi raro sobre mega ferrovias futuristas submarinas.



23) Train in the Snow (1976) — Croácia

Clássico nos Bálcãs; raridade no resto do mundo.



24) The Red Lanterns of Sapporo Station (1962)

Film noir ferroviário japonês esquecido pela crítica.



25) Dry Summer Railroad (1959)

Drama rural com trilhos decadentes.
Easter-egg: Última aparição filmada do trem C11-254


.

26) Umalu Express (1955) — Índia

Trens, poeira, romance e caos organizado.
Difícil de achar, mas vale cada minuto.



27) The Man Who Wanted the Railway (1949) — Itália

Uma fábula ferroviária neorrealista.
Comentário: Perfeito para quem ama trilhos e filosofia.



28) The Lure of the Rails (1920)

Cópia quase perdida; sobre a obsessão do ferroviário solitário.



29) The Last Steam Giants of Hokkaido (1978)

Documentário cult.
Easter-egg: Primeira filmagem noturna em 16mm do C62-2.



30) A Noite dos Trilhos Silenciosos (1984) — Brasil

Filme urbano underground sobre a vida ferroviária paulista dos anos 80.
Quase ninguém viu.
Quase ninguém sabe que existe.
Comentário Bellacosa: Já vale por um frame.



Memoria Ferroviaria

🚂 E AÍ, QUAL DESSES TRILHOS VAI TE GUIAR?

Esses filmes são como linhas abandonadas:
parecem esquecidos, mas escondem mundos inteiros.

Para o fã de ferrovia — o Tetsudō Otaku raiz — cada locomotiva em película é mais do que cinema:
é história preservada, memória cultural, engenharia viva.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

🚂 10 ANIMES PARA TETSUDŌ OTAKU (鉄オタ) expandindo a experiencia

 


🚂 10 ANIMES PARA TETSUDŌ OTAKU (鉄オタ)

Lista oficial do Bellacosa Mainframe Railway Department – Seção Noturna (Midnight Edition)


1) 鉄子の旅 — Tetsuko no Tabi

  • Autor: Hirohiko Yokomi (mangá), Jiro Oikawa (ilustrações)

  • Ano: 2007

  • Episódios: 13

  • Personagens chave: Kikuchi (o obsessivo dos trilhos), Yokomi (o autor dentro da história), Tetsuko.

  • Curiosidades: Baseado em viagens reais feitas pelo autor com um railfan nível hardcore.

  • Comentário Bellacosa: É o anime que mais chega perto da realidade dos Tetsudō Otaku: planejamento obsessivo, zero glamour, máximo amor puro.

  • Easter-egg: Mostra estações reais e linhas pouco conhecidas até pelos próprios japoneses.


2) レールウォーズ! — Rail Wars!

  • Autor: Takumi Toyoda (light novel)

  • Ano: 2014

  • Episódios: 12

  • Personagens: Naoto Takayama, Aoi Sakurai, Haruka Kōmi.

  • Curiosidades: Universo alternativo onde as ferrovias não foram privatizadas — só isso já vale a viagem.

  • Comentário: Junta ação, waifus e locomotivas. Um Shinkansen com tempero de Hollywood.

  • Easter-egg: A série recria modelos exatos de trens da JNR com fidelidade milimétrica.




3) 新幹線変形ロボ シンカリオン — Shinkansen Henkei Robo Shinkalion

  • Autor: Projeto coletivo da Takara Tomy

  • Ano: 2018

  • Episódios: 76 + filme

  • Personagens: Hayato, Hokuto, Shin.

  • Curiosidades: Trens-bala que transformam em mechas. O sonho molhado do railfan otaku de 12 anos.

  • Comentário: Surpreendentemente emocional.

  • Easter-egg: O EVA-01 aparece. Sim… o Shinkalion do Evangelion.


4) 銀河鉄道999 — Galaxy Express 999

  • Autor: Leiji Matsumoto

  • Ano: 1978

  • Episódios: 113

  • Personagens: Tetsurō, Maetel, Capitão Harlock (participações).

  • Curiosidades: O anime que fez metade dos japoneses dos anos 70 sonharem em viajar pelo cosmos de trem.

  • Comentário: Um épico existencial com cara de ferroviário vintage.

  • Easter-egg: Diversas referências ocultas a locomotivas europeias e japonesas clássicas.


5) ちびっこ鉄道 — Chibikko Tetsudō (curta clássico obscuro)

  • Autor: Studio Mushi

  • Ano: 1974

  • Episódios: Especial de 20 min

  • Personagens: O garoto ferroviário e seu trem imaginário.

  • Curiosidades: Um dos primeiros animes a retratar ferrovias como tema central.

  • Comentário: Para nostálgicos e historiadores.

  • Easter-egg: O trem do curta é inspirado no D51, a locomotiva a vapor mais querida do Japão.


6) シュガーシュガールーン (segmento ferroviário especial)

  • Autor: Moyoco Anno

  • Ano: 2005

  • Episódios: 51

  • Personagens: Chocola, Vanilla.

  • Curiosidades: Não é anime ferroviário, MAS…
    …tem um episódio inspirado no romance Night Train, cultuado por Tetsudō Otaku.

  • Comentário: O equivalente ferroviário de um cameo secreto.

  • Easter-egg: O layout do trem é baseado no Blue Train japonês.


7) 交響詩篇エウレカセブン — Eureka Seven (Rail Episode)

  • Autor: Bones

  • Ano: 2005

  • Episódios: 50

  • Curiosidades: O anime tem um dos episódios de trilhos mais tecnicamente precisos da TV.

  • Comentário: Para quem gosta de mechas e ferrovias servidas de cortesia.

  • Easter-egg: O número da composição no episódio é o mesmo usado no antigo trem de testes da JR.


8) おもひでぽろぽろ — Only Yesterday (Studio Ghibli)

  • Autor: Isao Takahata

  • Ano: 1991

  • Formato: Filme

  • Curiosidades: O filme tem cenas ferroviárias tão detalhadas que se tornaram referência entre otakus de trem.

  • Comentário: É poesia sobre trilhos.

  • Easter-egg: O trem mostrado é um modelo hoje raríssimo, preservado no Railway Museum de Saitama.


9) 鉄腕バーディー OVA (Rail Chapter)

  • Autor: Masami Yuki

  • Ano: 1996

  • Episódios: 4

  • Curiosidades: Um dos primeiros animes a usar CGI para representar locomotivas realistas.

  • Comentário: Para o nerd ferroviário que também ama sci-fi anos 90.

  • Easter-egg: A locomotiva aparece com número “EF65-1101”, referência ao modelo lendário.


10) 鉄道公安官 — Railway Police Officer

  • Autor: Toei

  • Ano: 1979

  • Episódios: 30

  • Personagens: Detetives ferroviários, mafiosos e maquinistas heróis.

  • Curiosidades: Mistura Tokuso Keisatsu com ferrovias — uma delícia vintage.

  • Comentário: Perfeito para quem ama drama policial no mundo dos trilhos.

  • Easter-egg: Cada episódio apresenta um trecho ferroviário real do Japão dos anos 70.


🚂 Bellacosa’s Midnight Closing Notes

Se você é Tetsudō Otaku, sabe que não existem trilhos mortos — apenas histórias esperando para serem contadas.

Ferrovias não são só máquinas:
são memórias, geografia emocional, poesia metálica, e no Japão… quase uma religião pop.

E como diz o velho maquinista de Osaka:

“Quem segue os trilhos nunca se perde — só descobre novos destinos.”

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

🚍 AS EXCURSÕES DO SENHOR WILSON — UMA CRÔNICA AO ESTILO BELLACOSA MAINFRAME



🚍 AS EXCURSÕES DO SENHOR WILSON — UMA CRÔNICA AO ESTILO BELLACOSA MAINFRAME

PARA O EL JEFE MIDNIGHT LUNCH



Há vidas que parecem roteiros paralelos, diagonais, improváveis — fluxos que jamais seguiriam pelo JOB CARD do “sistema oficial”.
A vida do seu Wilson, meu pai, era exatamente isso:
um JCL escrito à mão, cheio de INCLUDE inusitado, PROC improvisado e STEP que ninguém acreditava que rodaria… mas rodava.
De algum jeito, rodava.



E entre todos esses capítulos, nenhum é tão cinematográfico — ou tão Vagner-raiz — quanto as Excursões do Senhor Wilson, esse épico ambulante que misturava caos, aventura, fé, picaretagem leve, alegria popular e o senso poético de viver fora da curva.


1. WILSON, O HOMEM-MULTITAREFA DO BRASIL PROFUNDO

Meu pai era daqueles brasileiros que parecem ter clonado a própria carteira de trabalho:

  • Vendia bordados de Ibitinga em São Paulo,

  • Levava roupas do Brás como se fossem seda importada e vendia pelo interior,

  • Raspava lucro com rifas de relógios “duvidosos” da Galeria Pagé,

  • Contrabandeava isqueiros, mini-games e qualquer coisa vinda da China, que pudesse ser revendida com lucro.

  • Tentou a sorte com uma mini-fundição de terminais de bateria automotiva,

  • Ia até Mogi das Cruzes, pegava pintainhos de um dia descartados e numa perua kombi ou variant caindo de podre, trocava por sucatas de metal.

  • Produzia velas caseiras derretendo parafina como um alquimista suburbano a parte bizarra era quando comprava parafina usada de cemitério,

  • Era fotógrafo profissional com olhar afiado, fazendo reportagens de casamento, festas, formaturas, batizados, crismas e primeira comum, fotos de velório, binoclinhos nas férias de verão e mais uso que agora fugiu da mente.

  • E quando tudo falhava… ligava o modo motorista de ônibus, trabalhando em fretamento e excursões..

Era o típico brasileiro da gambiarra empreendedora:
não se dobrava ao sistema — também não se encaixava nele.

E assim, com essa combinação de coragem, improviso e permanente estado de “vai dar certo”, nasceram as lendárias…



2. EXCURSÕES POPULARES WILSON TUR — A EMPRESA QUE NUNCA EXISTIU, MAS TODO MUNDO FOI

Enquanto muita gente vendia sonho, meu pai alugava um ônibus…
e entregava o sonho de verdade:

🌴 PARA A PRAIA GRANDE

Clássico absoluto.
Farofa, protetor solar vencido e felicidade genuína.
Golden age da excursão raiz.

🏰 PARA ITU

A cidade dos exageros — local perfeito para o homem das ideias grandes.

🧺 PICNICS EM PARQUES FORMOSOS

Comida na marmita de alumínio, toalha xadrez, bola de capotão e aquele tio que sempre dizia:
“Esse é o verdadeiro lazer da família brasileira!” Numa epoca que apenas a cerveja Skol era vendida em latas de aluminio, sucesso absoluto de vendas, direto do bageiro do busão, geladas durante a viagem.

🙏 ROTEIROS DE FÉ

Aparecida do Norte, Bom Jesus de Pirapora…
E aquela galera que chorava ao ver a Basílica enquanto o motorista fazia contas no canto do volante.

🌊 PRAIAS FLUVIAIS E REPRESAS

Clássico paulista: água escura, churrasqueiras improvisadas e perigo que ninguém percebia.

🏘️ OUTRAS CIDADES QUE A MEMÓRIA NÃO INDEXOU

Mas que certamente existiram.
Cada uma com seu encanto, sua trilha sonora de rádio AM e suas histórias esquecidas.


3. A MAGIA DA INFÂNCIA — ENQUANTO O MUNDO ERA MAIOR

Para o pequeno Vaguinho, tudo era maravilhoso:

  • rodar por estradas infinitas,

  • sentir o vento batendo pela janela,

  • ver cidades novas,

  • dormir no banco do ônibus,

  • acordar com o cheiro de pastel,

  • correr descalço no gramado dos parques.

  • mesmo sendo pobre, não existia limites, por mais longe que fosse, a excursão do seu Wilson chegava.

Era aventura pura.
Era liberdade.
Era uma infância que hoje parece impossível — e por isso é tão preciosa.

Enquanto os adultos se preocupavam com os boletos, eu e minha irmã Vivi viviamos.

E viver era bom.


4. O OLHAR DOS ADULTOS — A TRISTEZA SILENCIOSA DO CLÃ

Porque para a família…
havia sempre aquela frustração velada:

“Wilson poderia ter sido mais.”
“Wilson poderia ter ido mais longe.”
“Wilson perdeu o norte.”

E isso dói.
Dói em quem observa, mas principalmente no próprio homem, que talvez soubesse — mas já não tinha asas, nem forças, nem mapas. Nunca soube o que fez meu pai se perder, estudou até a sexta série e abandonou, foi da polícia do Exército numa época de ditadura e grande destaque aos milicos, saiu do quartel direto para a Volkswagen como segurança... mas enfim... não teve cabeça, anos mais tarde se perdeu para o alcool.

Meu pai não era mau.
Nem negligente.
Nem irresponsável por prazer.

Ele era o típico sujeito esmagado pelas engrenagens invisíveis do Brasil:

  • pouca oportunidade,

  • pouca orientação,

  • muita dureza,

  • e um coração inquieto demais para ficar parado.

Ele vivia tentando.
Pulando de sonho em sonho.
Errando mais que acertando.
E sobrevivendo.

Criou cordornas, produziu e vendeu queijos, fez cineminha nos primórdios do vídeo VHS, mas sempre na pindura, sem dinheiro para evoluir e dar um passo a frente.


5. ENTRE A BELEZA E A MELANCOLIA — A SAGA DO HOMEM QUE NUNCA PAROU

A verdade é que o Senhor Wilson viveu como muitos brasileiros vivem:

no fio da navalha, na incerteza, improvisando a vida como quem improvisa uma música em cifra.

Aquela tristeza que os adultos sentiam…
era uma mistura de amor e impotência.

Aquele brilho nos meus olhos de criança…
era a prova de que, apesar de tudo, ele deu a mim algo raro:

aventura. movimento. histórias.
memórias que atravessam o tempo.

Mesmo sem norte, ele deu paisagens.

Mesmo sem estabilidade, ele deu sol nos finais de semana.

Mesmo sem planos, ele deu mundos novos.

E isso…
é muito mais do que muitos pais conseguem dar.




6. EPÍLOGO — A HERANÇA QUE FICOU

O homem Wilson, com todas as suas falhas, seus rolos, suas loucuras e seus improvisos…
é parte profunda da sua construção.

Meu espírito andarilho?
Veio dele.

Meu impulso criativo, minha inquietação, meu gosto por histórias, meu amor por estrada?
Também.

Meu coração que insiste em sonhar — mesmo depois de levar pancada?
Direto da fábrica do velho Wilson.

A vida dele pode não ter tido norte.
Mas deixou rumos.
E deixou esse escriba que vós escreve.

E isso, meu amigo…
é mais bonito do que qualquer excursão.

As vezes me assusto, quanto sou parecido com meu pai. Quantas maluquices fiz dando seguimento a esta genuina aventura da Famiglia Bellacosa

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A cachoeira da Lua e o caminho a Sobradinho em São Tomé das Letras

Bellacosa Mainframe e as poeirentas estradas de terra em São Tomé das Letras 

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🌙 A Cachoeira da Lua e o Caminho para Sobradinho

Quando o jovem Vagner em 1994 continuou andando e descobriu que o mundo era muito maior do que imaginava.

Existem viagens que começam quando colocamos o pé na estrada. Outras começam muito antes, quando surge aquela inquietação de descobrir o que existe depois da próxima curva.

Aquela aventura por São Thomé das Letras, seguindo pela estrada de terra em direção a Sobradinho, foi uma dessas viagens.

Para o jovem Vagner, significava aumentar mais alguns quilômetros naquele mapa invisível que vinha construindo desde menino. Cada cidade visitada empurrava um pouco mais para longe as fronteiras do mundo conhecido.

E São Thomé parecia pertencer a outro mundo. Poder voltar a essa cidade é se encher de energia e descobrir um outro mundo.

Era uma cidade cercada por histórias, lendas, cavernas, grutas, cachoeiras e formações rochosas. Havia histórias sobre a ocupação humana da região misturadas às narrativas populares, ao misticismo e aos mistérios que transformaram São Thomé das Letras em um lugar tão particular.

Mas uma das maiores descobertas estava simplesmente na paisagem.

Eu estava acostumado ao verde da Mata Atlântica, às árvores grandes, à umidade e àquela vegetação que, observada à distância, parece formar um enorme mar verde.

Ali tudo parecia diferente.

A paisagem ganhava tons amarelados, marrons e ocres. Havia muita pedra, vegetação mais baixa e menos árvores gigantescas dominando o horizonte. O céu parecia maior.

Era como descobrir que o Brasil mudava de cor conforme avançávamos pela estrada.

E nós continuávamos avançando.



Rumando sem rumo.

Essa talvez seja a melhor definição daquela aventura.

Pegávamos estradas de terra, observávamos sítios e pequenas propriedades rurais, atravessávamos caminhos desconhecidos e procurávamos cachoeiras. Nem sempre era necessário encontrar uma atração famosa.

Às vezes bastava encontrar água.

Um ribeirão.

Um córrego.

Uma pequena cachoeira escondida entre as pedras.

Depois de caminhar debaixo do sol e sentir o calor acumulado nas pedras, entrar naquela água fria era um pequeno ritual.

Primeiro os pés.

Depois as pernas.

O corpo protestava por alguns segundos contra a diferença de temperatura.

E então vinha o mergulho.

A água gelada deixava de ser inimiga e se transformava em recompensa.

Nadávamos nos ribeirões, entrávamos debaixo das pequenas quedas d'água e simplesmente aproveitávamos aquele pedaço de natureza encontrado pelo caminho. Ao redor, novos pássaros, insetos, plantas e animais reforçavam a sensação de estarmos explorando um ambiente diferente daquele que conhecíamos.

Depois era hora de continuar.

Roupa secando no próprio corpo, poeira da estrada novamente nos sapatos e mais uma curva esperando adiante.



E havia ainda outra recompensa: a comida sul-mineira.

Depois de caminhar, nadar e explorar, sentar diante daquela comida simples, generosa e cheia de sabores da terra completava a experiência. Viajar também era descobrir um lugar pelo prato.

Hoje percebo que naquela estrada para Sobradinho eu não estava apenas procurando a Cachoeira da Lua.

Estava aprendendo algo que continuaria comigo durante muitas outras viagens:

o mundo é absurdamente grande.

E uma das melhores maneiras de conhecê-lo é continuar andando.

Mesmo quando não sabemos exatamente onde a estrada vai terminar.

Porque, algumas vezes, perder-se um pouquinho é justamente a maneira de encontrar aquilo que nunca soubemos que estávamos procurando.


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Uma estrada de terra com muita poeira.


Estamos em busca de novas cachoeiras, rumando sem rumo pela estrada de Sobradinho, perdidos no interior de São Tomé. Vendo a bela paisagem, sítios e chácaras.


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domingo, 19 de junho de 2016

SP 70 e seu longo tunel

Bellacosa Mainframe e os tuneis da Carvalho Pinto

Um Café no Bellacosa Mainframe

🚗 SP-070 e seu longo túnel — Do Fusquinha Vermelho ao Pretinho

Uma viagem pela Carvalho Pinto, os túneis rumo ao Vale do Paraíba, o Pretinho da Juliana e uma buzina que, décadas antes, transformava o Fusquinha vermelho do meu pai numa pequena locomotiva dentro da montanha.

Quando publiquei este pequeno vídeo em 2016, escrevi poucas linhas.

Era apenas mais um daqueles fragmentos de viagem que eu gostava — e continuo gostando — de guardar.

Estávamos percorrendo a SP-070, Rodovia Governador Carvalho Pinto, seguindo em direção ao Vale do Paraíba. No volante estava Juliana e conosco estava seu famoso Pretinho, o Ford New Fiesta 2013 que durante anos nos levou para mil e uma aventuras.

Naquele momento, entretanto, minha preocupação cinematográfica era bastante simples:

Quero gravar o barulho do motor dentro do túnel.

Naturalmente, o vento resolveu participar da produção e praticamente destruiu minha sofisticadíssima engenharia de áudio.

😂

Mas hoje, dez anos depois daquela publicação, percebo que existe muito mais dentro desse pequeno vídeo.

Porque atravessar aqueles túneis também significa atravessar várias décadas das minhas próprias memórias.


🛣️ Antes da Carvalho Pinto existia outro Vale do Paraíba

Para minhas memórias pessoais, a SP-070 é uma estrada relativamente nova.

Quando eu era garoto, durante os anos 1970 e 1980, viajar para o Vale do Paraíba significava conhecer outro mapa rodoviário.

Íamos visitar meus tios Santiago e Deise e meus primos Andreia e Marcelo.

E havia basicamente dois mundos possíveis.

Um deles era a famosa — e naquela época bastante temida — Via Dutra.

O outro era formado pelas estradas antigas que atravessavam as cidades do Vale.

Entre elas estava a SP-066, uma daquelas rotas que faziam a viagem parecer muito menos uma ligação entre dois pontos e muito mais uma sucessão de pequenas descobertas.

Cidade.

Estrada.

Outra cidade.

Curva.

Comércio.

Posto.

Igreja.

Casas.

Mais estrada.

Hoje entramos numa rodovia expressa e pensamos principalmente no destino.

Naquelas viagens, entretanto, a própria estrada fazia parte da aventura.



🚗 E naturalmente havia o Fusquinha vermelho

Quem acompanha estas histórias já conhece outro personagem recorrente do Bellacosa Mainframe.

O velho Fusquinha vermelho do meu pai.

Aquele Volkswagen não era apenas um automóvel.

Era praticamente nosso módulo de transporte familiar.

E meu pai possuía alguns algoritmos próprios de economia de combustível.

Um deles provavelmente faria qualquer instrutor moderno de direção defensiva arrancar os poucos cabelos restantes da cabeça:

nas descidas, colocava o Fusquinha na banguela.

😱

O motor diminuía o giro.

O carro descia embalado.

E dentro daquele Fusquinha estava uma família inteira acreditando que aquilo fazia parte da mais avançada tecnologia automobilística disponível.

Era outra época.


📯 Então aparecia um túnel

E túnel possuía uma regra.

Não uma regra escrita.

Muito menos uma regra do Código de Trânsito.

Era uma espécie de protocolo distribuído entre motoristas brasileiros:

ENTROU NO TÚNEL?

BUZINA!

Meu pai afundava o dedo na buzina.

FÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓM!

O som batia nas paredes.

Voltava.

Multiplicava-se.

E imediatamente outros motoristas percebiam o chamado.

FÓÓÓM!

FOM-FOM!

FÓÓÓÓÓÓÓÓM!

Em poucos segundos o túnel inteiro transformava-se numa sinfonia absolutamente caótica de buzinas.

Ninguém havia combinado nada.

Não existia WhatsApp.

Não existia grupo de motoristas.

Não havia aplicativo.

Bastava alguém buzinar.

Outro respondia.

Depois outro.

Era praticamente um protocolo de comunicação veicular analógico.

TCP/IP?

Nada disso.

TÚNEL/IP.

🤣



🔊 O túnel era nosso amplificador

Para uma criança aquilo era fantástico.

A buzina que normalmente produzia um som relativamente banal de repente parecia gigantesca.

O túnel funcionava como uma enorme caixa acústica.

O som refletia nas paredes, no teto e no pavimento e retornava aos nossos ouvidos.

Talvez ninguém dentro daqueles carros estivesse pensando em acústica, reflexão de ondas ou reverberação.

Nós simplesmente sabíamos uma coisa:

dentro do túnel a buzina ficava muito mais legal.

E isso bastava.



🛣️ Então chegou a Carvalho Pinto

Décadas depois, o mapa mudou.

Durante os anos 1990 surgiu a Rodovia Governador Carvalho Pinto.

Uma estrada moderna, larga, planejada como via expressa e conectada à Ayrton Senna, antigamente conhecida como Rodovia dos Trabalhadores, mas após o acidente com nosso querido piloto de Formula 1 foi rebatizada.

Para quem havia conhecido as antigas viagens pelo Vale do Paraíba, aquilo representava uma transformação gigantesca.

A Carvalho Pinto criou uma nova alternativa à congestionada Via Dutra.

De repente o Vale parecia diferente.

São José dos Campos.

Taubaté.

Quiririm.

E, seguindo adiante, nosso destino naquela aventura:

🏔️ Campos do Jordão.

Mas existe uma coisa curiosa sobre estradas.

Podemos construir novas pistas.

Novos viadutos.

Novos túneis.

Novos sistemas de segurança.

Mas não conseguimos construir uma estrada sem que nossas antigas estradas apareçam dentro dela.


🚘 Agora quem dirigia era Juliana

E chegamos novamente ao pequeno vídeo de 2016.

Desta vez não havia Fusquinha vermelho.

Havia o Pretinho.

O Ford New Fiesta 2013 da Juliana.

E quem estava ao volante também não era meu pai.

Era ela.

O Pretinho acabou tornando-se outro personagem das nossas histórias.

Campos do Jordão.

Taubaté.

Quiririm.

Piracicaba.

Passeios.

Estradas.

Finais de semana.

Pequenas viagens que talvez naquele momento parecessem absolutamente comuns, mas que hoje constituem uma espécie de arquivo distribuído das nossas vidas.

E naquele dia estávamos novamente entrando em um túnel.


🎥 “Vou gravar o ronco do motor!”

Minha ideia parecia excelente.

O carro entra no túnel.

O motor produz aquele ronco.

As paredes refletem o som.

Bellacosa registra tudo para a posteridade.

Hollywood poderia começar a ficar preocupada.

Só havia um pequeno problema.

O vento.

😂

O microfone da câmera captou muito mais vento do que motor.

Minha sofisticada produção audiovisual transformou-se praticamente num teste aerodinâmico.

Mas o vídeo permaneceu.

E ainda bem.

Porque dez anos depois percebo que o verdadeiro áudio daquela gravação não estava no microfone.

Estava na minha memória.


📯 Faltava uma buzina

Ao atravessar aquele túnel moderno da Carvalho Pinto, alguma parte do cérebro inevitavelmente voltava para décadas antes.

Para o Fusquinha vermelho.

Para meu pai.

Para aquelas viagens familiares.

E principalmente para aquela mão descendo sobre a buzina.

FÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓM!

Hoje aquele comportamento não combina exatamente com as regras modernas de trânsito.

O Código de Trânsito permite essencialmente o toque breve da buzina como advertência. Usá-la prolongada e sucessivamente simplesmente para produzir uma sinfonia dentro do túnel pode resultar em infração.

Portanto:

crianças, não reproduzam o experimento do velho Bellacosa. 😂

Mas existe uma diferença importante entre repetir uma prática antiga e preservar sua memória.

E aquela memória merece continuar existindo.


🕰️ Duas estradas, dois carros, duas épocas

Talvez seja isso que mais me fascine neste pequeno vídeo.

Na superfície temos simplesmente:

um Ford entrando num túnel.

Mas quando faço um DISPLAY MEMORY, aparece outra coisa.

Anos 1970/80

🚗 Fusquinha vermelho
👨 Meu pai dirigindo
🛣️ Dutra e velhas estradas do Vale
📯 Buzina dentro do túnel
👨‍👩‍👧‍👦 Família viajando

Depois:

2016

🚘 Ford New Fiesta 2013 — o Pretinho
👩 Juliana dirigindo
🛣️ Carvalho Pinto
🏔️ Destino: Campos do Jordão
📍 Taubaté e Quiririm pelo caminho
🎥 Bellacosa tentando gravar o ronco do motor

Os equipamentos mudaram.

As estradas mudaram.

Os carros mudaram.

Os motoristas mudaram.

Mas existe uma linha invisível ligando as duas viagens.


💾 Talvez seja para isso que servem esses pequenos vídeos

Quando gravei aquilo, certamente não estava pensando:

“Estou produzindo um documento histórico para meu eu do futuro.”

Eu estava apenas filmando uma viagem.

Mas talvez seja justamente assim que construímos nossos arquivos mais importantes.

Sem perceber.

Uma fotografia.

Trinta segundos de vídeo.

Um carro passando.

Uma pessoa rindo.

Uma estrada.

Um túnel.

Naquele momento parece banal.

Dez anos depois é memória.

Trinta anos depois talvez seja história.


🥚 Easter egg — o verdadeiro túnel não estava na Carvalho Pinto

Talvez exista ainda outro túnel escondido nesta história.

Não aquele feito de concreto atravessando uma montanha.

Mas aquele existente dentro da memória.

Em 2016, o Pretinho entrou no túnel da Carvalho Pinto.

Por alguns segundos tudo ficou escuro.

Depois apareceu novamente a luz na saída.

Mas dentro da minha cabeça outro veículo entrou junto.

Um pequeno Fusquinha vermelho.

Meu pai estava ao volante.

Nós estávamos novamente indo visitar Santiago, Deise, Andreia e Marcelo.

E justamente quando os dois carros — separados por décadas — pareciam ocupar o mesmo túnel...

meu pai colocou o dedo na buzina.

FÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓM!

Talvez o eco que eu estivesse tentando gravar em 2016 já estivesse reverberando havia quarenta anos.

Bellacosa Mainframe

Algumas estradas levam até uma cidade.

Outras levam de volta para casa.

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Indo para Taubate pela Carvalho Pinto.


Para aqueles que curtem viajar... não existe prazer maior que entrar num túnel. Eu ainda sou da época em que a rapaziada buzinava só para fazer eco.

Este túnel moderno e longo na SP 70 torna a viagem mais divertida, pois permite visualizar coisas diferentes entrando no coração da montanha.



Pena que o audio ficou horrível, mas queria ter gravado o som dos motores no túnel e no fim foi apenas o vento.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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