☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Recency Bias: Doctor Who, COBOL e o Dia em que o Incidente de Ontem Virou a Verdade de Hoje

 

Bellacosa Mainframe e a recency bias

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Recency Bias: Doctor Who, COBOL e o Dia em que o Incidente de Ontem Virou a Verdade de Hoje

Uma viagem pela TARDIS dos incidentes para entender por que acontecimentos recentes podem pesar mais que todo o histórico — e como isso distorce diagnósticos, prioridades e decisões em sistemas críticos

07:58.

Segunda-feira.

Primeiro café.

Produção aparentemente tranquila.

Na sexta-feira anterior, porém, o mundo quase acabara.

Ou pelo menos parecia.

Uma região CICS havia apresentado lentidão.

A fila MQ crescera.

Clientes reclamaram.

A War Room ficara aberta por quatro horas.

Finalmente descobriram:

ROOT CAUSE:
MQ CONSUMER STALLED

O incidente foi resolvido.

Post-mortem marcado.

Fim de semana.

Segunda-feira.

08:03.

Novo alerta:

PAYMENT RESPONSE TIME
ABOVE BASELINE

O operador olha.

— MQ.

Nosso jovem programador COBOL pergunta:

— Já verificou?

— Não precisa.

— Como assim?

— É igual sexta.

08:05.

Outro alerta:

TRANSACTION TIMEOUT RATE: +180%

DBA entra.

— O que temos?

— MQ de novo.

08:07.

Middleware é acionado.

08:09.

Alguém sugere reiniciar consumer.

Nosso jovem programador olha para o dashboard:

MQ QUEUE DEPTH: NORMAL

Mas encontra:

DB2 LOCK WAIT: +720%

Ele pergunta:

— E esses locks?

O operador responde:

— Deve ser consequência.

— De quê?

— Do MQ.

— Mas o MQ está normal.

Silêncio.

VWORP.

VWORP.

VWORP.

A TARDIS materializa-se ao lado da impressora.

A porta abre.

O Doctor sai.

Olha para o gráfico.

Depois para o operador.

— Qual foi a causa do incidente anterior?

— MQ.

— Quando?

— Sexta.

— E quantos incidentes semelhantes vocês tiveram no último ano?

Silêncio.

Alguém abre o histórico.

ULTIMOS 120 INCIDENTES DE LENTIDÃO

DB2:        46
APLICAÇÃO:  31
REDE:       17
MQ:         14
STORAGE:     8
OUTROS:      4

O Doctor aponta.

— Então MQ representa 14 casos.

— Sim.

— E porque aconteceu sexta-feira...

Pausa.

— hoje vocês decidiram tratá-lo como se representasse cento e vinte?

Silêncio.

Nosso programador sorri.

O Doctor continua:

— O passado recente tem uma habilidade curiosa.

— Qual?

Fingir que é o passado inteiro.

Bem-vindo ao:



Recency Bias

Ou:

Viés de Recência

A tendência de dar peso excessivo a informações, eventos ou experiências recentes ao tomar decisões, subestimando dados mais antigos — mesmo quando o histórico completo é mais representativo.

Em linguagem Bellacosa:

“Aconteceu ontem, então deve estar acontecendo de novo.”


🌀 A TARDIS dos incidentes já tem um bestiário respeitável

Nossa viagem até aqui encontrou:

Swiss Cheese Model — várias barreiras podem falhar juntas.

Normalization of Deviance — desvios viram rotina.

Hindsight Bias — depois do incidente tudo parece óbvio.

Confirmation Bias — buscamos evidências para aquilo em que já acreditamos.

Anchoring Bias — a primeira informação pesa demais.

Groupthink — grupos convergem cedo demais.

Authority Gradient — hierarquia pode transformar dúvida em silêncio.

Plan Continuation Bias — continuamos mesmo quando deveríamos parar.

Alarm Fatigue — alertas demais viram ruído.

Automation Bias — confiamos demais na máquina.

Drift Into Failure — sistemas derivam lentamente para a borda.

Diffusion of Responsibility — todos veem e ninguém assume.

Normalcy Bias — esperamos que tudo volte ao normal.

Survivorship Bias — estudamos apenas quem sobreviveu.

Base Rate Neglect — ignoramos a frequência real dos eventos.

Availability Heuristic — aquilo que lembramos facilmente parece mais provável.

Outcome Bias — resultado bom parece provar boa decisão.

Overconfidence Bias — acreditamos que sabemos mais do que realmente sabemos.

Planning Fallacy — subestimamos tempo, esforço e complexidade.

Sunk Cost Fallacy — custos passados influenciam decisões futuras.

Status Quo Bias — manter parece naturalmente mais seguro.

Present Bias — o conforto de hoje pesa mais que o custo de amanhã.

Optimism Bias — acreditamos que o resultado provavelmente será favorável.

Action Bias — agir parece melhor que esperar.

Omission Bias — não agir pode parecer menos culpável.

Loss Aversion — perder dói mais do que ganhar alegra.

Framing Effect — a maneira de apresentar a informação muda a decisão.

Agora o cérebro faz outro truque:

ele pega o que aconteceu recentemente e aumenta artificialmente sua importância.


🧠 O que é Recency Bias?

Imagine dez eventos.

A B C D E F G H I J

O evento J aconteceu ontem.

Nossa mente tende a lembrar melhor dele.

Quando pergunta:

“O que costuma acontecer?”

podemos responder usando:

J.

Mesmo que:

A até I

contem história diferente.

Recency Bias é essencialmente um problema de peso temporal.

Eventos recentes recebem peso maior que sua representatividade real.


☕ Bellacosa Mainframe: “foi DB2 da última vez”

Incidente de ontem:

Db2 lock.

Hoje:

timeout.

Especialista:

— É Db2.

Por quê?

— Ontem foi.

Isso é hipótese razoável para começar?

Sim.

É diagnóstico?

Não.

Recency Bias aparece quando:

a proximidade temporal é tratada como evidência causal.


🧠 Recency Bias versus Availability Heuristic

Os dois são próximos.

Mas não exatamente iguais.

Availability Heuristic

Algo parece mais provável porque vem facilmente à memória.

Pode ser recente, dramático, famoso ou emocional.

Recency Bias

Algo recebe peso extra especificamente porque aconteceu recentemente.

Todo Recency Bias pode tornar algo cognitivamente disponível.

Mas nem toda Availability Heuristic é recência.

Exemplo:

um acidente aéreo famoso de vinte anos atrás pode ser muito disponível sem ser recente.


👻 Easter Egg nº 1 — o Dalek de ontem

Companion:

— Doctor, há um barulho metálico atrás daquela porta.

— O que acha que é?

— Dalek.

— Por quê?

— Vimos um ontem.

— E antes de ontem?

— Cybermen.

— E na semana passada?

— Uma máquina de venda automática.

Doctor:

— Talvez devêssemos abrir a porta antes de declarar guerra interplanetária.

Recency Bias.


🧠 O cérebro gosta de atualizar rapidamente

Isso não é inteiramente ruim.

Se o ambiente mudou ontem, dados recentes podem ser mais relevantes.

Exemplo:

nova versão implantada.

Novo comportamento aparece.

Nesse caso:

últimas horas podem dizer mais que últimos cinco anos.

Ou seja:

recência pode ser sinal legítimo.

O problema é usar recência automaticamente.

Precisamos perguntar:

o sistema mudou de regime?


📊 Regime Change

Imagine histórico:

2024–2025:
DB2 causa 40% dos incidentes

Após migração de 2026:
MQ causa 55%

Agora histórico antigo talvez seja menos útil.

Recency Bias seria:

usar os últimos dois casos apenas.

Mas usar dados recentes após mudança estrutural pode ser correto.

A pergunta:

houve mudança que torna o passado menos representativo?


☕ Versão nova muda base rate

Deploy de nova arquitetura na semana passada.

Desde então:

quatro falhas de MQ.

Talvez isso seja sinal.

Não porque são recentes apenas.

Mas porque:

compartilham uma mudança causal recente.

Essa distinção é importante.


🧠 Recência precisa de contexto

Pergunte:

  • versão mudou?

  • volume mudou?

  • configuração mudou?

  • fornecedor mudou?

  • tráfego mudou?

  • arquitetura mudou?

Se sim:

recent data ganha relevância racional.

Se não:

talvez estejamos só impressionados pelo último incidente.


📈 Base Rate Neglect volta imediatamente

Último incidente:

rede.

Histórico:

rede em 5%.

Recency Bias:

“é rede de novo.”

Base Rate Neglect:

esquece os 5%.

Os dois juntos transformam:

um evento recente

em:

probabilidade imaginária.


🧠 Bayesian update bem feito

O correto não é ignorar o evento recente.

É atualizar.

Antes:

rede 5%.

Novo evento recente de rede após mudança de firewall:

isso pode aumentar probabilidade.

Mas precisa haver conexão.

Em linguagem Bellacosa:

HISTÓRICO
+
MUDANÇA RECENTE
+
EVIDÊNCIA ATUAL
=
HIPÓTESE ATUALIZADA

Não:

ACONTECEU ONTEM
=
É ISSO HOJE

⚓ Recency Bias + Anchoring Bias

Segunda-feira.

Primeiro comentário:

“Igual sexta.”

Agora temos âncora.

A recência fornece conteúdo.

Anchoring prende investigação.


🔎 Confirmation Bias entra depois

Equipe procura:

timeouts;

retries;

qualquer mensagem MQ.

Ignora:

DB2 lock wait.

Agora a história recente começou a recriar a si mesma.


👥 Groupthink

Todos participaram do incidente de sexta.

Todos lembram.

Uma memória coletiva forte surge.

Um fala:

— MQ.

Outro:

— Também acho.

Terceiro:

— Parece mesmo.

Agora a sala inteira está investigando sexta-feira em plena segunda-feira.


🪜 Authority Gradient

O veterano que resolveu sexta diz:

— É MQ.

A frase possui força adicional porque:

ele estava certo recentemente.

O júnior pensa:

“Ele acabou de resolver exatamente isso.”

E cala.

Recency Bias amplifica autoridade recente.


🏆 Hot Hand Effect

Existe um conceito relacionado:

Hot Hand Fallacy.

A ideia de acreditar que alguém em sequência de sucessos continuará acertando porque está “quente”.

Em operação:

especialista acertou últimos três RCA.

Então:

“Se ele disse storage, deve ser storage.”

Talvez.

Mas acertos recentes podem gerar confiança excessiva.

Overconfidence entra.


🧠 Outcome Bias + Recency

Última ação funcionou.

Restart MQ.

Resultado bom.

Agora novo incidente:

restart MQ.

O resultado recente pesa.

Outcome Bias interpreta ação como correta.

Recency Bias traz essa solução para o topo da mente.

Action Bias executa.

Excelente combo.


☕ Runbook escrito pelo último incidente

Isso acontece muito.

Incidente A.

Pós-mortem.

Criamos dez controles específicos para A.

Incidente B vem de outro lugar.

Mas nossa organização está preparada brilhantemente para repetir A.

Isso é:

fighting the last war.


🧠 Fighting the Last War

Expressão usada para descrever organizações que se preparam excessivamente para o conflito anterior.

Em TI:

último incidente foi certificado.

De repente:

todos os checks são de certificado.

Próximo:

storage.

Depois storage vira obsessão.

Precisamos aprender:

classes de falha, não apenas instâncias.


🧩 Instance versus Pattern

Incidente recente:

MQ consumer parou.

Instance.

Pattern maior:

dependência downstream sem capacidade de auto-recovery.

Se aprendermos só:

“monitorar consumer X”

protegemos um caso.

Se aprendermos:

“detectar perda de consumo em qualquer downstream”

protegemos uma classe.

Isso reduz Recency Bias.


🧠 Availability Heuristic novamente

Incidentes recentes também são mais fáceis de lembrar porque:

estão emocionalmente vivos.

Logo Recency Bias e Availability frequentemente se misturam.

A defesa:

histórico estruturado.


💾 Mainframe adora histórico

Temos ferramentas excelentes:

SMF.

RMF.

Db2 statistics.

CICS statistics.

MQ metrics.

Scheduler history.

Syslog.

Use.

A memória humana não deveria competir sozinha contra SMF.


☕ O SMF não tem memória afetiva

Operador:

— Tenho certeza que isso começou depois da última mudança.

SMF:

“Começou três semanas antes.”

Obrigado, SMF.


📊 Rolling Windows

Uma boa prática:

compare janelas.

Última hora.

24h.

7 dias.

30 dias.

90 dias.

Isso mostra se evento recente é:

anomalia;

tendência;

padrão.


🧠 Uma janela só cria uma narrativa

Se dashboard mostra apenas:

15 minutos,

você vê ruído.

Se mostra:

1 ano,

pode esconder incidente atual.

Então:

use múltiplas escalas temporais.


📈 Short-term versus Long-term View

Exemplo:

LAST 30 MIN:
CPU +20%

Parece grave.

LAST 30 DAYS:
same pattern every Monday 08:00

Talvez normal.

Ou inverso:

TODAY:
CPU 82%

Parece normal.

6 MONTH TREND:
55 → 82%

Drift.

A escala temporal muda conclusão.


🌀 Drift Into Failure e Recency Bias

Drift é lento.

Recency Bias olha recente.

Isso pode fazer equipe perder tendência longa.

Exemplo:

última semana estável.

Conclusão:

tudo bem.

Mas seis meses:

margem caiu 40%.

Recência pode esconder deterioração estrutural.


🧠 Normalcy Bias

Últimos dias foram tranquilos.

Então:

sistema está saudável.

Mas tranquilidade recente não apaga sinais estruturais.

Normalcy Bias usa recência favorável para reforçar expectativa de continuidade.


🔔 Alarm Fatigue

Últimos cem alertas eram falsos positivos.

Hoje alerta real.

Recency Bias:

os últimos eram falsos, este também deve ser.

Alarm Fatigue + Recency.

Perigoso.


🧠 Automation Bias

Ferramenta de RCA foi correta nos últimos cinco incidentes.

Equipe aumenta confiança.

Novo caso:

ferramenta erra.

A sequência recente criou confiança excessiva.

Automation Bias + Hot Hand + Recency.


💻 COBOL e o último bug

Você corrigiu três S0C7 causados por campo packed inválido.

Quarto S0C7 aparece.

Você pensa:

packed inválido.

Excelente hipótese inicial.

Mas dump mostra:

overlay.

Se insiste no padrão recente:

Recency Bias.


🧠 Pattern Recognition é bom

Precisamos ser justos.

Especialistas sobrevivem graças a reconhecimento de padrões.

A meta não é ignorar experiência recente.

É:

tratar experiência recente como hipótese prioritária, não como exclusão das outras.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 1

Quando alguém disser:

“É igual ao último incidente.”

Pergunte:

“O que exatamente é igual?”

Sintoma?

Métrica?

Causa?

Contexto?


🎯 Pergunta Bellacosa nº 2

Outra:

“O histórico de 100 casos concorda com os últimos dois?”


🎯 Pergunta Bellacosa nº 3

Outra:

“O ambiente mudou recentemente a ponto de justificar dar mais peso aos dados novos?”

Excelente.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 4

E:

“Estamos vendo tendência ou apenas uma sequência curta?”


🧪 Como combater Recency Bias

Passo 1 — Consulte histórico antes de concluir

Não apenas memória.


Passo 2 — Use múltiplas janelas temporais

Agora.

Dia.

Semana.

Mês.

Ano.


Passo 3 — Separe incidente recente de padrão histórico

Documente.


Passo 4 — Verifique mudanças de regime

Versão?

Volume?

Arquitetura?


Passo 5 — Use base rates

Sempre.


Passo 6 — Compare assinatura técnica

Não sensação.


Passo 7 — Procure contraexemplos

Casos recentes diferentes.


Passo 8 — Evite alterar controles apenas pelo último incidente

Generalize.


Passo 9 — Use revisão periódica

Não apenas post-mortem imediato.


Passo 10 — Deixe a evidência nova atualizar, não apagar, o histórico

Essa é a chave.


📊 Incident Distribution Board

Em uma War Room:

SYMPTOM:
Timeout

LAST INCIDENT:
MQ

LAST 30:
DB2 12
APP 8
MQ 4
NETWORK 3
OTHER 3

CURRENT EVIDENCE:
DB2 lock ↑
MQ normal

Excelente.

A recência ficou visível.

Mas não dominante.


🧠 Weighted History

Nem sempre todos os dados históricos devem ter peso igual.

Dados de cinco anos atrás podem ser pouco relevantes.

Podemos dar mais peso a dados recentes de forma controlada.

O problema é dar:

100% ao último caso.


☕ Uma espécie de média móvel cognitiva

Pense:

histórico inteiro.

Mais peso recente.

Mas não zero para passado.

Quase como uma média móvel.

O cérebro faz isso intuitivamente.

Engenharia precisa calibrar.


📉 Exponential Decay — conceito útil

Em alguns modelos, dados antigos recebem peso progressivamente menor.

Isso pode ser válido.

Mas o fator de decaimento deve refletir quanto sistema muda.

Se arquitetura é estável:

histórico antigo ainda importa.

Se mudou drasticamente:

recente pesa mais.


🧠 Change Rate determines Memory Length

Regra interessante:

quanto mais rápido o sistema muda, menor pode ser a meia-vida do histórico.

Em uma aplicação COBOL estável há 20 anos:

dados antigos podem continuar relevantes.

Em serviço recém-reescrito:

últimos meses importam muito.


🧪 Post-change Baseline

Após grande mudança:

crie novo baseline.

Não misture cegamente histórico pré e pós mudança.

Isso reduz confusão.


🧠 Base Rate precisa ter versão

Taxa-base de:

v1.

Pode não ser taxa-base de:

v2.

Mantenha contexto de release.


☕ Bellacosa Mainframe: antes e depois do upgrade

Antes:

DB2 CONTENTION: 5%

Depois de upgrade/configuração:

DB2 CONTENTION: 22%

Agora os casos recentes realmente sinalizam mudança.

Recency Bias?

Não necessariamente.

Talvez novo regime.

Investigue.


🧠 Statistical Process Control

Uma ideia útil da qualidade:

distinguir:

variação comum

de:

mudança de processo.

Se últimos pontos saem do comportamento esperado:

talvez houve mudança real.

Isso é melhor que:

“parece diferente.”


📈 Control Charts no espírito

Você não precisa aplicar controle estatístico formal em tudo.

Mas pense:

o novo valor está dentro da distribuição histórica?

Se não:

talvez recente seja importante.


🧠 Framing Effect temporal

Nosso capítulo anterior retorna.

Escolher:

última semana

ou:

último ano

é framing.

Quem escolhe a janela pode alterar a narrativa.

Dashboard temporal também enquadra.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 5

“Por que estamos olhando justamente este período?”

Se resposta:

porque mostra o que queremos,

temos problema.


👥 Gestão e performance

Recency Bias aparece fortemente em avaliações de pessoas.

Funcionário teve ótimo ano.

Errou último mês.

Avaliação:

desempenho ruim.

Ou inverso.

Últimos acontecimentos pesam demais.

Isso pode distorcer gestão.


🧠 Performance Review

Use registros ao longo do período.

Não memória de dezembro.

A mesma lógica da War Room.


💰 Investimentos e mercados

Investidor vê mercado subir últimos meses.

Pensa:

continuará.

Ou queda recente:

tudo está ruim.

Recency Bias influencia finanças há muito tempo.

Sistemas complexos têm a mesma psicologia.


🧠 Forecasting

Últimos dois projetos atrasaram.

Gestor aumenta todas estimativas dramaticamente.

Talvez correto.

Mas precisamos verificar:

foi nova realidade?

Ou eventos específicos?

Recency não deveria substituir reference class.


📊 Planning Fallacy + Recency

Curiosamente podem apontar em sentidos diferentes.

Último projeto foi rápido.

Equipe:

próximo também.

Planning Fallacy.

Recency reforça otimismo.

Último projeto foi terrível.

Equipe infla tudo.

Pode supercorrigir.


🧠 Overreaction

Recency Bias pode gerar:

overcorrection.

Um incidente ocorre.

Criamos quarenta controles.

Depois outro tipo de falha aparece porque processo ficou pesado demais.

Aprenda proporcionalmente.


🔐 Segurança: depois do ransomware

Empresa sofre ransomware.

Agora todo orçamento vai para ransomware.

Mas:

IAM;

fraude interna;

supply chain;

backup

também existem.

Evento recente extremamente traumático pode dominar risco corporativo.

Availability + Recency.


🧠 Risk Portfolio

Gestão de risco precisa olhar:

portfólio.

Não apenas último desastre.


☕ “Security by headline”

Sai notícia de ataque X.

Segunda-feira:

— Precisamos comprar ferramenta X!

Talvez.

Mas compare com threat model real.

Notícia recente não é automaticamente prioridade local.


🤖 IA e Recency Bias de contexto

Há uma analogia interessante.

Se você alimenta um sistema de IA com os últimos cinco incidentes e pergunta:

“Qual causa provável?”

o contexto recente pode dominar resposta.

Se histórico completo não foi recuperado:

a ferramenta pode reforçar recência.


🧠 RAG e temporal bias

Busca sem equilíbrio pode recuperar documentos recentes por relevância ou popularidade.

Talvez correto.

Mas pode esconder casos antigos importantes.

Um bom sistema de RCA deve considerar:

similaridade;

recência;

frequência;

mudança de versão.


🎯 IA: pergunta Bellacosa

“Essa hipótese está alta porque os dados recentes justificam ou porque o contexto fornecido só contém casos recentes?”

Excelente.


🧠 Freshness versus Representativeness

Duas propriedades diferentes:

freshness — quão novo é.

representativeness — quão bem representa a população.

Novo não significa representativo.

Antigo não significa irrelevante.


📚 História operacional é memória externa

Organizações precisam externalizar memória.

Senão dependem de:

quem estava no último incidente.

Isso aumenta recency.

Uma base histórica bem catalogada reduz.


🧠 Post-mortems estruturados

Classifique:

sintoma;

causa;

versão;

sistema;

impacto;

timestamp;

fix.

Agora comparação objetiva fica possível.


💾 Knowledge Graph dos incidentes

Imagine grafo:

TIMEOUT
 ├─ DB2 LOCK
 ├─ MQ
 ├─ NETWORK
 └─ APP

Cada causa com:

frequência;

recência;

versão.

Isso é quase uma vacina tecnológica contra Recency Bias.


🧠 Recency-aware, not recency-blind

A meta não é remover recência.

É incorporá-la de forma explícita.

Exemplo:

HISTORICAL FREQUENCY: 12%
LAST 30 DAYS: 35%
POST-RELEASE: 48%

Agora sabemos:

algo mudou.


☕ Isso é muito melhor que:

“Ultimamente parece que MQ está dando mais problema.”

Transforme “parece” em série temporal.


📊 Trend Detection

Métrica:

12% → 15% → 25% → 35%.

Agora temos tendência.

Recência ganhou suporte.


🧠 Seasonality

Outro detalhe.

Problemas podem ser sazonais.

Fim do mês.

Black Friday.

Fechamento.

Se incidente recente ocorreu no fechamento:

talvez não represente semana normal.

Contexto temporal importa.


📅 Day-of-week effect

Segunda 08:00 pode ter padrão diferente de domingo 03:00.

Base rates temporais.

Recency sem segmentação engana.


🧠 Contextual History

Compare:

mesma hora;

mesmo volume;

mesmo ciclo;

mesma versão.

Isso melhora investigação.


🎯 Pergunta Bellacosa nº 6

“Estamos comparando com qualquer histórico ou com histórico realmente comparável?”

Boa.


🧪 War Room anti-Recency Bias

Um procedimento simples:

  1. anote última causa conhecida;

  2. anote top causas históricas;

  3. anote mudanças recentes;

  4. compare sinais atuais;

  5. mantenha ao menos 3 hipóteses.

Isso reduz fixação.


🧠 Three-Hypothesis Rule

Durante os primeiros minutos:

não tenha uma hipótese.

Tenha três.

Exemplo:

H1 DB2
H2 MQ
H3 APPLICATION

Com evidências.

Isso combate:

Recency;

Anchoring;

Confirmation.


🔬 Hypothesis Scoreboard

DB2
BASE: HIGH
CURRENT EVIDENCE: STRONG

MQ
RECENT INCIDENT: YES
CURRENT EVIDENCE: WEAK

APP
BASE: MEDIUM
CURRENT EVIDENCE: MEDIUM

Agora MQ não ganha só porque está fresco na memória.


🧠 Decision checkpoints

A cada 10 minutos:

reordene.

Não preserve ranking antigo por orgulho.


🧠 Recency Bias em post-mortem

Último incidente grave domina backlog.

Todas ações priorizadas nele.

Mas talvez problemas recorrentes menores causem mais impacto anual.

Faça análise periódica agregada.


📊 Pareto de incidentes

Uma vez por mês:

causas.

horas perdidas.

clientes.

custos.

Talvez descubra:

incidente épico = 4h.

Problema banal recorrente = 200h/ano.

Recency faz épico parecer prioridade.

Dados mostram outra coisa.


☕ Drama versus impacto acumulado

O incidente com diretor na War Room é memorável.

O job que atrasa 10 minutos todo dia não.

Mas:

10 min × 250 dias = 41 horas.

Memória gosta de drama.

Operação precisa gostar de soma.


🧠 Present Bias + Recency

O recente também é temporalmente próximo.

Isso pode amplificar foco curto prazo.

Long-term improvement perde espaço.


🌀 Drift e incidentes pequenos

Pequenos problemas recentes podem parecer irrelevantes.

Mas série longa mostra crescimento.

Ou um grande incidente recente pode desviar atenção do drift.

Por isso análise de tendência é essencial.


🧠 Loss Aversion

Uma perda recente dói.

Então organização pode reagir exageradamente para impedir repetição.

Isso é compreensível.

Mas talvez crie investimento desproporcional.


💥 Scar Tissue Architecture

Existe um fenômeno divertido de chamar:

arquitetura de tecido cicatricial.

Cada incidente deixa um remendo.

Depois de vinte:

sistema virou coleção de traumas históricos.

Alguns controles são necessários.

Outros são cicatrizes do último susto.


☕ “Por que existe esse IF?”

— Incidente de 2004.

Outro:

— E esse?

— Incidente de 2007.

Outro:

— E isso aqui?

— Ninguém sabe.

Recency desaparece com o tempo, mas o código fica.

Por isso documente racional.


🧠 Institutional Memory precisa de meia-vida inteligente

Não esquecer rápido demais.

Nem preservar tudo para sempre.

Revise controles.

Ainda são necessários?

Condição mudou?


🧪 Sunset Review

Controle criado após incidente:

revisar em 6 meses.

Pergunte:

ainda necessário?

Funcionou?

Criou side effect?

Isso evita reação recente virar complexidade eterna.


📋 Checklist anti-Recency Bias

[ ] Estou dando peso demais ao último incidente?

[ ] Qual é o histórico completo?

[ ] Qual é a taxa-base?

[ ] O sistema mudou recentemente?

[ ] Os eventos recentes formam uma tendência real?

[ ] Estamos comparando o mesmo contexto?

[ ] Qual é a assinatura técnica atual?

[ ] Quais sinais contradizem o caso anterior?

[ ] O dashboard mostra mais de uma janela temporal?

[ ] Estamos supercorrigindo pelo último desastre?

[ ] Existe impacto acumulado maior que o incidente recente?

[ ] O controle criado para o último caso generaliza?

[ ] Dados antigos ainda representam o sistema atual?

[ ] Estamos confundindo freshness com representatividade?

🧪 Passo a passo para combater Recency Bias

Passo 1 — Pare de confiar apenas na memória

Use histórico.


Passo 2 — Compare janelas

Curta.

Média.

Longa.


Passo 3 — Verifique mudanças estruturais

Release.

Configuração.

Volume.


Passo 4 — Use base rates

Antes do caso recente.


Passo 5 — Segmente histórico

Contexto semelhante.


Passo 6 — Tenha hipóteses alternativas

Pelo menos três.


Passo 7 — Compare assinatura

Sinais, não sensação.


Passo 8 — Procure tendências

Não sequências pequenas.


Passo 9 — Revise controles após o trauma passar

Evite overreaction.


Passo 10 — Atualize crença proporcionalmente à evidência

Nem ignore recente.

Nem esqueça o passado.


🧬 Regeneração organizacional

Uma organização madura contra Recency Bias:

mantém histórico estruturado;

usa tendências;

versiona baselines;

compara períodos;

registra mudanças de regime;

analisa Pareto mensal;

evita hiperreagir ao último incidente;

e revisa medidas tomadas no calor da crise.

Principalmente:

ela aprende a perguntar:

“Isso está acontecendo mais agora ou apenas aconteceu há pouco?”

Essa diferença parece pequena.

É enorme.


📓 Diário do Doctor

Se guardar algumas ideias desta viagem, guarde estas:

Recency Bias é a tendência de dar peso excessivo a acontecimentos recentes.

O último incidente não representa automaticamente a distribuição inteira.

Recency Bias e Availability Heuristic frequentemente trabalham juntos.

Base rates ajudam a impedir que dois casos recentes virem uma falsa regra geral.

Mudanças de arquitetura podem tornar dados recentes realmente mais importantes — mas isso precisa ser demonstrado.

Múltiplas janelas temporais ajudam a distinguir ruído, sazonalidade, tendência e mudança de regime.

Anchoring e Confirmation Bias podem transformar o último incidente na causa do próximo antes mesmo da investigação começar.

Um grande incidente recente pode esconder problemas menores, recorrentes e mais caros no longo prazo.

Controles criados após um incidente devem atacar classes de falha, não apenas reproduzir a cicatriz daquele caso.

E principalmente:

O acontecimento mais recente merece atenção. Não merece automaticamente o cargo de representante oficial de toda a história.


🕰️ De volta às 08:03

Primeiro alerta.

PAYMENT RESPONSE TIME ABOVE BASELINE

Operador:

— MQ de novo.

Nosso programador responde:

— Pode ser.

Abre o histórico.

DB2: 38%
APP: 26%
MQ: 12%
NETWORK: 14%
OTHER: 10%

Depois:

LAST INCIDENT:
MQ

Depois:

CURRENT:
MQ DEPTH NORMAL
DB2 LOCK WAIT +720%

Ele diz:

— MQ entra na lista porque foi recente.

— Mas?

— Os dados atuais não combinam.

DBA investiga.

Encontra uma transação longa segurando locks.

Resolve.

08:31.

Serviço normal.

O operador olha.

— Se tivéssemos reiniciado MQ...

— Teríamos perdido tempo.

— Então nunca devemos usar o incidente anterior?

O Doctor responde:

— Claro que devem.

— Então qual é a regra?

— O passado recente pode fazer uma pergunta.

Pausa.

— Não pode responder sozinho.

Boa.


🥚 Easter Egg final

Na manhã seguinte aparece:

BELLACOSA.BIAS(RECENCY)

Dentro:

       IF LAST-INCIDENT = CURRENT-HYPOTHESIS
           PERFORM CHECK-HISTORY
       END-IF.

       IF RECENT-EVENTS > EXPECTED
           PERFORM CHECK-REGIME-CHANGE
       END-IF.

       IF MEMORY-SAYS 'IT-IS-THE-SAME'
           PERFORM COMPARE-SIGNATURE
       END-IF.

Comentário:

* RECENT IS NOT THE SAME AS REPRESENTATIVE.

Outro:

* THE LAST INCIDENT GETS A VOTE.
* NOT A VETO.

Outro:

* HISTORY NEEDS VERSION CONTROL TOO.

E naturalmente:

* BAD WOLF HAPPENED RECENTLY.
* THAT DID NOT MAKE EVERYTHING BAD WOLF.

Nosso jovem fecha o membro.

Pouco depois alguém diz:

— Os últimos dois jobs falharam por espaço. Aposto que este também.

Ele pergunta:

— Dataset usage?

— 42%.

— Storage alerts?

— Nenhum.

— Então talvez os dois últimos estejam gritando mais alto do que os dados atuais.

Abre o joblog.

S0C7.

Dado inválido.

Nenhum espaço.

Nenhum storage.

Apenas o cérebro tentando usar ontem para economizar pensamento hoje.

VWORP.

VWORP.

VWORP.

A TARDIS desaparece.

No quadro da War Room fica uma última frase:

O passado recente é excelente para levantar hipóteses. O histórico completo é melhor para dar proporção. E o presente, no fim, ainda precisa fornecer evidência.

☕🌀

Next stop: Representativeness Heuristic — quando algo “tem cara” de um padrão conhecido e começamos a tratá-lo como pertencente àquele padrão, mesmo quando os números contam outra história.

Sem comentários:

Enviar um comentário

De Fã para Fã. Conteúdo não oficial produzido como homenagem, comentário, análise ou paródia. Personagens, marcas e obras eventualmente mencionados pertencem aos seus respectivos titulares.
Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...