| Bellacosa Mainframe e o bbs dos yokai guia da expedicao |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
O BBS dos Yōkai — Guia da Expedição
Do fantasma contado ao redor da fogueira ao yōkai que vive no algoritmo: um mapa para explorar a arqueologia do folclore da Internet japonesa
Por Vagner Bellacosa
☕ Introdução — Pegue o café, vamos entrar no arquivo
Tudo começou com uma pergunta aparentemente inocente:
por que existe no Japão a piada de que um homem que chega virgem aos 30 anos ganha poderes mágicos e vira mago?
Era para ser apenas uma curiosidade sobre anime e cultura otaku.
Naturalmente, deu errado.
Ou melhor:
deu Bellacosa.
😂
Quando começamos a procurar de onde surgira aquela ideia, encontramos algo muito maior: fóruns anônimos, BBS, ASCII art, memes, lendas urbanas, fantasmas escolares, estações ferroviárias inexistentes, imagens estranhas, fitas amaldiçoadas, videogames assombrados e histórias cuja origem havia desaparecido depois de milhares de reproduções.
E percebemos que estávamos diante de algo fascinante:
a Internet não matou o folclore.
Ela o acelerou.
Durante milhares de anos, histórias viajaram de pessoa para pessoa.
Alguém via alguma coisa estranha.
Contava para outra pessoa.
A história era repetida.
Um detalhe era acrescentado.
Outro desaparecia.
Décadas depois ninguém sabia mais quem havia contado primeiro.
Então chegaram os computadores.
BBS.
Fóruns.
Imageboards.
Blogs.
Vídeos.
Redes sociais.
Algoritmos.
Inteligência artificial.
A infraestrutura mudou.
O comportamento humano permaneceu assustadoramente familiar.
Foi dessa descoberta que nasceu a série:
O BBS dos Yōkai
Uma pequena expedição arqueológica pelas ruínas da Internet japonesa.
Pegue sua lanterna.
Abra o terminal.
E principalmente:
não clique em nenhum arquivo chamado DO_NOT_OPEN.JPG.
👻 A grande pergunta: o que é um yōkai digital?
Não existe aqui a intenção de estabelecer uma nova classificação acadêmica.
Nosso “yōkai digital” é uma metáfora.
É aquela criatura, personagem, história, rumor ou ideia que começa a apresentar algumas características típicas do folclore:
ninguém sabe exatamente quem criou;
existem inúmeras versões;
a história muda quando é retransmitida;
comunidades diferentes acrescentam elementos;
eventualmente a criação abandona seu contexto original;
e novas pessoas passam a reproduzi-la sem sequer conhecer sua origem.
Nesse momento acontece algo extraordinário.
A história começa a viver independentemente do autor.
É quase como um programa legado cujo programador original desapareceu décadas atrás.
Ele continua executando.
Todo mundo utiliza.
Existem centenas de alterações.
Ninguém possui a documentação original.
E existe aquele comentário:
* NAO ALTERAR ESTA ROTINA
Por quê?
Ninguém sabe.
Mas ninguém tem coragem de apagar.
Folclore e sistemas legados talvez sejam parentes mais próximos do que imaginávamos.
🔥 Da fogueira ao servidor
Podemos resumir milhares de anos de evolução narrativa assim:
FOGUEIRA
↓
CONTADOR DE HISTÓRIAS
↓
TRADIÇÃO ORAL
↓
LENDAS
↓
LIVROS E JORNAIS
↓
RÁDIO / TELEVISÃO
↓
BBS
↓
FÓRUNS
↓
IMAGEBOARDS
↓
MEMES
↓
VÍDEOS
↓
REDES SOCIAIS
↓
ALGORITMOS
↓
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
O meio muda.
A necessidade humana permanece:
“Você não vai acreditar no que aconteceu...”
Essa talvez seja uma das frases mais antigas da humanidade.
🏺 Parte I — Escavando os primeiros fósseis digitais
A primeira etapa da nossa viagem começa nas camadas mais antigas.
BBS.
Comunidades online.
2channel.
Futaba.
ASCII art.
Mona.
Memes.
E uma velha piada japonesa segundo a qual chegar aos 30 anos ainda virgem desbloqueia a classe:
WIZARD.
O que parecia apenas humor otaku revelou uma característica fundamental da Internet japonesa:
ideias circulam, são modificadas, reaparecem em outras comunidades e eventualmente entram na cultura popular.
Mas o grande fantasma da primeira expedição foi:
🚉 Kisaragi Station
Uma pessoa entra num trem.
O trem deveria parar.
Não para.
Finalmente chega a uma estação.
Kisaragi.
Só existe um pequeno problema.
A estação aparentemente não existe.
A história tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de lenda urbana associada à Internet japonesa.
E existe algo particularmente moderno nela.
O monstro não precisa ser uma criatura.
O próprio sistema tornou-se sobrenatural.
A infraestrutura falhou.
Você entrou no trem correto.
Na linha correta.
No horário correto.
E chegou a um lugar que não deveria existir.
Para um programador:
JOB COMPLETED
RC=0000
OUTPUT DATASET:
UNIVERSE.UNKNOWN
Não gosto disso.
😂
📚 Leia a Parte I — O BBS dos Yōkai: uma arqueologia do folclore da Internet japonesa
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2013/09/o-bbs-dos-yokai-uma-arqueologia-do.html
👹 Parte II — As criaturas começam a nascer dentro da rede
Na segunda expedição, descemos mais fundo.
Agora não estamos simplesmente observando histórias antigas sendo transmitidas digitalmente.
Começamos a encontrar criaturas cuja identidade moderna está profundamente ligada às próprias comunidades online.
Entre elas:
Kunekune.
Uma figura distante.
Branca.
Movendo-se de maneira impossível.
Você consegue vê-la.
Mas não consegue entender exatamente o que está vendo.
E talvez seja melhor continuar assim.
Porque, em determinadas versões da história, tentar compreender claramente aquilo pode ter consequências terríveis.
Para nosso mainframeiro:
IF KUNEKUNE = UNKNOWN
CONTINUE
ELSE
RUN.
😂
Depois encontramos:
👩 Hachishakusama
Uma mulher absurdamente alta.
Uma presença inquietante.
E uma assinatura sonora inesquecível:
Po...
Po...
Po...
Aqui percebemos outra característica importante do bom folclore:
compressão narrativa.
Não precisamos de cinquenta páginas.
Às vezes três elementos bastam.
Mulher.
Muito alta.
Som estranho.
O cérebro do leitor completa o resto.
🚽 Japão encontra Brasil
Durante a segunda parte também encontramos fantasmas escolares japoneses, especialmente histórias envolvendo banheiros.
Inevitavelmente apareceu uma brasileira para participar da conversa:
A Loira do Banheiro.
E surgiu uma questão deliciosa.
Quantas versões da Loira do Banheiro existem?
Tem que bater na porta?
Dar descarga?
Chamar diante do espelho?
Quantas vezes?
Como ela morreu?
Qual escola?
Cada região parece possuir sua própria implementação.
LOIRA_DO_BANHEIRO_V7.2
REGIONAL BUILD
😂
Isso nos levou a uma conclusão importante.
O Brasil também possui uma quantidade extraordinária de matéria-prima folclórica.
Curupira.
Boitatá.
Corpo-Seco.
Pisadeira.
Mapinguari.
Iara.
Boto.
Mula-sem-Cabeça.
E inúmeras lendas locais.
Talvez não precisemos copiar os yōkai japoneses.
Precisamos aprender com o Japão uma coisa muito mais importante:
continuar reinventando nossos próprios monstros.
📚 Leia a Parte II — Quando os fantasmas aprenderam TCP/IP
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2013/10/o-bbs-dos-yokai-parte-ii-quando-os.html
💻 Parte III — A maldição descobre o protocolo
Então chegamos à terceira camada.
E as coisas pioraram.
O fantasma percebeu uma coisa:
arquivos podem ser copiados.
Antes, uma entidade precisava assombrar uma casa.
Agora pode assombrar uma mídia.
Fita VHS.
Fotografia.
Mensagem.
Celular.
Arquivo.
Videogame.
Vídeo.
Streaming.
A maldição tornou-se distribuída.
📼 O fantasma encontra a fita VHS
O terror tecnológico moderno percebeu rapidamente o potencial de uma mídia amaldiçoada.
A lógica é assustadoramente semelhante a malware:
USER
↓
MEDIA
↓
EXECUTION
↓
PAYLOAD
↓
CURSE
↓
REPLICATION
Quando uma maldição pode ser copiada, o sobrenatural ganhou escalabilidade.
Antes:
uma casa assombrada.
Depois:
dez mil cópias da maldição.
O fantasma descobriu computação distribuída.
Estamos perdidos.
📱 Depois ele encontrou o celular
E existe algo ainda mais interessante no telefone celular.
Nós carregamos o dispositivo conosco.
Possui:
microfone;
câmera;
localização;
contatos;
fotografias;
mensagens;
histórico.
O telefone tornou-se provavelmente o objeto mais íntimo tecnologicamente que já criamos.
Portanto é perfeito para terror.
Uma chamada do número errado é normal.
Uma chamada do seu próprio número é estranha.
Uma mensagem de alguém morto é assustadora.
Uma mensagem enviada por você mesmo...
amanhã...
já começa a complicar.
🎮 O save game como fantasma
A terceira parte também explorou um dos meus conceitos favoritos:
dados persistentes como assombração.
Imagine comprar um videogame antigo.
Existe um save.
Criado décadas atrás.
O antigo jogador desapareceu.
Mas o personagem continua lá.
Nome.
Itens.
Localização.
Horas jogadas.
Tecnicamente nada sobrenatural aconteceu.
Mas existe algo profundamente fantasmagórico nisso.
O ser humano foi embora.
Os dados ficaram.
E essa ideia nos levou inevitavelmente para algo muito maior.
🤖 Inteligência artificial e os mortos digitais
Hoje deixamos quantidades gigantescas de informação.
Fotografias.
Vídeos.
E-mails.
Mensagens.
Posts.
Áudios.
Comentários.
Textos.
Durante quase toda a história humana, a maioria das pessoas desaparecia deixando pouquíssimos registros.
Agora podemos deixar terabytes.
E então surge uma pergunta desconfortável:
o que acontece quando sistemas de inteligência artificial conseguem reproduzir estatisticamente a maneira como alguém escrevia, falava ou respondia?
Não é o morto.
Mas também não é simplesmente uma fotografia.
Existe interação.
Talvez o yūrei tecnológico do século XXI não precise atravessar uma parede.
Talvez ele apareça numa janela de chat.
📚 Leia a Parte III — O arquivo amaldiçoado
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2013/11/o-bbs-dos-yokai-parte-iii-o-arquivo.html
🕯️ O fantasma que criamos quando éramos crianças
E no meio dessa viagem japonesa apareceu uma lembrança brasileira.
Quando éramos crianças, eu e meus irmãos utilizávamos algumas vezes velas e latas velhas numa trilha escura no meio do mato para assustar pessoas que passavam por ali.
Para nós:
CRIANÇAS + VELAS + LATAS = DIVERSÃO
Para quem passava:
LUZES + BARULHOS + MATO + ESCURIDÃO = ???
Décadas depois, uma dessas pessoas poderia perfeitamente dizer:
“Eu vi umas luzes estranhas naquela trilha.”
E estaria dizendo a verdade.
Ela viu.
O que talvez não soubesse era o que estava vendo.
Agora imagine essa história sendo contada.
Depois recontada.
Alguém acrescenta um detalhe.
Outro esquece outro.
Décadas passam.
Talvez surja:
“Dizem que existem luzes naquela trilha.”
Depois:
“São almas.”
Finalmente:
“Nunca passe ali depois da meia-noite.”
Pronto.
A assombração nasceu.
🧬 Folclore é software sem controle de versão
Depois de três artigos, talvez essa seja minha analogia favorita.
Imagine:
VERSION 1:
Vi uma luz.
VERSION 2:
Vi uma luz estranha.
VERSION 3:
Existe uma luz naquela estrada.
VERSION 4:
É uma pessoa que morreu.
VERSION 5:
Meu avô conhecia quem morreu.
VERSION 6:
TODO MUNDO SABE QUE ESSA HISTÓRIA É VERDADE.
Onde está a versão original?
Perdida.
Quem criou?
Não sabemos.
Qual alteração introduziu o fantasma?
Não sabemos.
Quem fez o commit?
UNKNOWN.
Bem-vindo ao folclore.
🌐 A Internet não criou esse comportamento
Essa talvez seja a conclusão mais importante de toda a série.
Temos tendência a imaginar que memes são fenômenos completamente novos.
Mas muitos dos mecanismos são antiquíssimos.
Copiar.
Modificar.
Repetir.
Adaptar.
Combinar.
Esquecer a origem.
A Internet apenas aumentou brutalmente:
velocidade + alcance + capacidade de reprodução.
Antes uma história atravessava uma região durante décadas.
Agora pode atravessar o planeta durante a madrugada.
🤖 E agora temos um novo participante
A inteligência artificial entrou no circuito.
Temos:
HUMANO
↓
HISTÓRIA
↓
INTERNET
↓
IA
↓
HUMANO
↓
NOVA HISTÓRIA
Isso cria oportunidades extraordinárias.
Mas também um perigo.
Uma informação incorreta pode ser copiada por dezenas de sites.
Uma IA encontra dezenas de páginas dizendo a mesma coisa.
Parece consenso.
Mas talvez todas tenham copiado a mesma fonte errada.
É o equivalente acadêmico da velha frase:
“Todo mundo sabe.”
Quem é todo mundo?
Ninguém sabe.
😂
Por isso a arqueologia digital precisa preservar uma palavra importantíssima:
incerto.
🏺 O problema do arqueólogo de 2076
Imagine alguém tentando estudar nossa Internet daqui a cinquenta anos.
Ele encontrará quantidades gigantescas de informação.
Mas quantidade não significa contexto.
Talvez encontre este blog.
Leia os três artigos.
Encontre COBOL.
Yōkai.
Loira do Banheiro.
Kisaragi.
Mainframe.
Peixeira.
Café.
IA.
E conclua:
“No início do século XXI existia uma corrente espiritual brasileira denominada Bellacosa Mainframe, cujos integrantes utilizavam café para comunicar-se com entidades japonesas através de computadores IBM.”
😂😂😂
E então alguém cita.
Outro artigo cita o primeiro.
Uma IA aprende.
Em 2097 alguém pergunta:
“O que era Bellacosa Mainframe?”
E recebe:
“Antigo ritual tecnológico brasileiro envolvendo café, COBOL e yōkai.”
Pronto.
Nós mesmos viramos folclore.
☕ Conclusão — Toda lenda começa como uma dúvida
Começamos perguntando por que um homem japonês virgem aos 30 anos poderia virar mago.
Terminamos discutindo como a inteligência artificial poderá modificar nossa relação com a memória dos mortos.
No caminho encontramos:
BBS.
2channel.
Futaba.
ASCII art.
Kisaragi Station.
Kunekune.
Hachishakusama.
Hanako-san.
Densha Otoko.
OS-tan.
Yukkuri.
Nico Nico.
Loira do Banheiro.
VHS.
Celulares.
Jogos.
Creepypastas.
Algoritmos.
IA.
E algumas crianças brasileiras com velas e latas numa trilha escura.
Aparentemente são assuntos completamente diferentes.
Mas existe um fio conectando tudo.
Histórias querem viajar.
Nós somos seus transportadores.
Cada vez que contamos novamente, alguma coisa pode mudar.
E quando a origem finalmente desaparece...
começa o trabalho do arqueólogo.
Talvez seja justamente por isso que estudar o folclore da Internet seja tão fascinante.
Estamos observando em velocidade acelerada um processo que acompanha a humanidade há milhares de anos.
A fogueira virou BBS.
O contador de histórias virou usuário anônimo.
O manuscrito virou thread.
A assombração virou arquivo.
O boato virou meme.
E o yōkai...
bem...
o yōkai continua sendo yōkai.
Só aprendeu TCP/IP.
📚 A expedição completa
Parte I — O BBS dos Yōkai: uma arqueologia do folclore da Internet japonesa
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2013/09/o-bbs-dos-yokai-uma-arqueologia-do.html
Parte II — O BBS dos Yōkai: quando os fantasmas aprenderam TCP/IP
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2013/10/o-bbs-dos-yokai-parte-ii-quando-os.html
Parte III — O BBS dos Yōkai: o arquivo amaldiçoado
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2013/11/o-bbs-dos-yokai-parte-iii-o-arquivo.html
//YOKAI JOB CLASS=BELLACOSA
//CAFE EXEC PGM=FOLKLORE
//SYSIN DD *
ORIGIN ............. UNKNOWN
REPLICATION ........ ACTIVE
MUTATION ........... ENABLED
INTERNET ........... CONNECTED
AI .................. ONLINE
COFFEE .............. READY
/*
$HASP395 YOKAI ENDED - RC=0000
WARNING:
STORY MAY CONTINUE EXECUTING
AFTER AUTHOR LOGOFF.
☕👻💻
Toda lenda começa como uma dúvida.
Toda dúvida merece um café.
— Vagner Renato Bellacosa
O BBS dos Yōkai — Guia da Expedição
Do fantasma contado ao redor da fogueira ao yōkai que vive no algoritmo: explore a série sobre arqueologia do folclore da Internet japonesa, BBS, 2channel, Futaba, lendas urbanas, creepypastas, cultura otaku, terror tecnológico e inteligência artificial.
O BBS dos Yōkai é uma série do Bellacosa Mainframe dedicada à arqueologia cultural da Internet japonesa.
A expedição acompanha a evolução das histórias desde os antigos fóruns e BBS japoneses até lendas como Kisaragi Station, Kunekune e Hachishakusama, chegando às creepypastas, vídeos amaldiçoados, jogos, algoritmos e inteligência artificial.
Escolha abaixo uma etapa da expedição. Os links são páginas independentes e podem ser abertas diretamente ou visualizadas no leitor incorporado.
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