terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A Arqueologia do Caos Infantil: Um Relato Bellacosa Mainframe Para o Século XXII

 


A Arqueologia do Caos Infantil:
Um Relato Bellacosa Mainframe Para o Século XXII

No século XXII, quando drones-escavadores, IA paleo-doméstica e arqueólogos com exoesqueleto vasculharem as antigas coordenadas da Rua Ultrecht, eles não farão ideia do que estão prestes a encontrar. Nos relatórios oficiais aparecerá algo como:

“Estrato C-22B — Depósito Ritualístico Lúdico.
Artefatos plásticos mutilados, rodas soltas, cabeças de bonecas e fragmentos de carrinhos.”

Eles vão achar que era algum tipo de culto.
E não estarão tão errados assim.

Mas, antes da escavação, antes do carbono-14 aplicado numa Barbie sem cabeça, antes da perplexidade dos doutores tentando entender por que diabos havia braços de Falcon misturados com rodas de rolimã, existe o contexto.
E o contexto é a sagrada liturgia dominical da Rua Ultrecht.



📜 A Feira de Domingo — A Eucaristia Paulistana

Domingo, sol na cara, pouca verba e muita felicidade.
Minha mãe puxando a velha máquina de macarrão caseiro — aquela de ferro, presa na quina da mesa — e preparando a massa como quem prepara o destino da semana. A missão era clara:

  1. Comprar tomates extra maduros (quase virando geleia, perfeitos pro molho).

  2. Comer pastel de feira (mordida com crocância e queimadura de óleo na língua).

  3. Beber caldo de cana (com ou sem limão, dependendo da coragem).

  4. Comprar um brinquedo vagabundo (que quebrava no caminho de volta, mas tudo bem).

E assim começava o ritual.



🚑 O Hospital de Brinquedos da Rua Ultrecht

Um dia, somando:

  • os carrinhos baratos da feira,

  • os presentes usados que ganhávamos de famílias vizinhas,

  • e nossa capacidade natural de destruir tudo em 48 horas…

…minha casa virou um pronto-socorro de brinquedos.

Carrinhos sem rodas.
Bonecas sem cabeça.
Falcons amputados.
Transformers que só “formavam” meia transformação.
Robôs que só acendiam um olho.
Armas de ray-gun enferrujadas que atiravam com imaginação.

Um caos doméstico organizado, um data center de sucatas infantis, um JES2 de brinquedos esperando encaminhamento.
Até que um dia…




☢️ Evento de Nível Crítico: Modo Faxina Hardcore Ativado

Quando minha mãe entrava no Modo Faxina Hardcore, nem o CICS segurava o commit.
A ordem era simples:

“TUDO QUEBRADO VAI EMBORA.”

Minha irmã e eu acionamos o protocolo padrão de emergência:

  • crianças chorando,

  • apelos emocionais,

  • negociação digna de diplomacia intergaláctica,

  • tentativas desesperadas de esconder itens,

  • gritos silenciosos do tipo ‘não, esse não, pelo amor de Deus!’.

Nada funcionou.



Mãe é igual mainframe rodando system finalization:
quando ela decide, é GO.

E então veio a parte mítica da história.



🕳️ O Poço — O Fim de Todas as Coisas

Ao lado da casa havia um antigo poço de água, profundo, escuro, desativado, quase um buraco dimensional.
Minha mãe, com a serenidade de quem faz o que precisa ser feito, decretou:

“Vai tudo pra dentro.”

E ali, naquele precipício ancestral, o saco gigantesco de brinquedos —
nosso tesouro, nossa bagunça, nossa infância quebrada
desceu para o abismo, como oferenda a alguma entidade subterrânea desconhecida.

Choramos.
Suplicamos.
Lutamos.
E perdemos.



🛸 Século XXII — A Descoberta Arqueológica do Milênio

Agora imagine…
Duzentos anos depois.
Tecnólogos-paleo-infantis encontram o poço.

O drone desce com sua câmera, ilumina o fundo e registra:

“Objeto humanoide decapitado (boneca).
Artefato metálico com rodas ausentes (carro).
Conglomerado plástico derretido (origem desconhecida).
Fragmentos de braço articulado (boneco de ação).”

Os arqueólogos concluem:

“Provavelmente um ritual de sacrifício infantil ligado a práticas domésticas do início do século XXI.”

E estarão quase certos.



Porque aquele poço não era só um depósito.
Era o cemitério oficial da infância barulhenta da Rua Ultrecht, gerenciado por uma mãe que sabia muito bem que:




toda casa tem seu limite.
E todo mainframe precisa de limpeza de spool.


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