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sábado, 29 de agosto de 2020

DONA MERCEDES — O CORE SYSTEM DA MINHA VIDA

 


EL JEFE MIDNIGHT LUNCH

DONA MERCEDES — O CORE SYSTEM DA MINHA VIDA

por Bellacosa Mainframe

Há datas que não se apagam.
Algumas viram cicatriz. Outras viram tatuagem na alma.
29 de agosto de 2010 foi as duas coisas: um abend definitivo no coração deste escriba, o desligamento do sistema mais importante que já conheci — minha mãe.

Dona Mercedes não foi apenas minha mãe.
Foi coautora, debugger emocional, analista de suporte vital, e personagem coadjuvante — embora essencial — em cada aventura dessa minha existência meio torta, meio épica, cheia de riso, pancada, poeira, fusquinhas vermelhos, latrinas assassinas e caminhos improváveis.

E em todas essas histórias que o leitor fiel do El Jefe Midnight Lunch já conhece, sempre havia um dedinho de Dona Mercedes ali, escondido entre as linhas, como quem mexe na memória do mainframe e injeta amor sem ninguém perceber.









🌾 ORIGEM: O PRIMEIRO BOOT DO SISTEMA

Dona Mercedes nasceu em Cornélio Procópio, no Paraná, filha de colonos vivendo em um regime duro, daqueles em que o suor era mais constante que o sol.
Família grande, terra pouca, dívida muita.
Vida que começava cedo, sem tutorial, sem manual, sem help desk.

Antes mesmo de entender o mundo, ela já criava irmãos, ajudava no plantio, e trabalhava como babá e empregada doméstica ainda menina.
Estudar?
Não teve essa luxury feature.
A escola dela foi a vida — e foi mestra severa.


🏙 MIGRAÇÃO PARA SÃO PAULO — O PRIMEIRO UPGRADE

Veio para São Paulo com o primário, coragem no bolso e esperança no coração.
Trabalhou a vida inteira.
E ainda arrumou espaço para amar, casar, ter cinco filhos — onde este humilde escriba Bellacosa foi o terceiro processo na fila do batch.

Foram 15 anos de casamento com meu pai, entre brigas, separações, reconciliações e, por fim, o divórcio.
Mas Dona Mercedes era daquelas que faz IPL após desastre:
cai, levanta, recompila, segue.

Quando finalmente veio a separação definitiva — e isso é curioso — a família ganhou estabilidade.
Eu já trabalhava, ajudava em casa, e a vida de penúria foi sendo gradualmente apagada do spool.


🏡 1995 — A CONSTRUÇÃO DO PROJETO MERCEDES

Com sacrifício, suor e fé na marreta, comprei em 1995 o terreno onde futuramente ergueríamos a casinha dela.
A fortaleza.
O castelo possível.

Em 1999, levei para Itatiba a mulher que passou a vida carregando o mundo nas costas.
Ela finalmente teve paz.
Sol.
Rotina.
Família por perto.
E risadas — muitas risadas.

Porque Dona Mercedes sempre foi festeira por natureza.
Se tivesse existido carnaval no interior do Paraná, ela seria porta-bandeira.








✈️ 2005 e 2009 — O SONHO DA MENINA DO PARANÁ

Eu jamais esqueço da cena: minha maezinha — a antiga menina da roça — caminhando pelas ruas de Portugal, olhando castelos, azulejos, igrejas centenárias…
Era como se o mundo dissesse a ela:

“Olha onde você chegou.
Olha o tamanho da sua força.”

Levei-a novamente em 2009, porque memórias boas devem ser replicadas como backup redundante e conhecer o novo membro da famiglia: Luis Renato.


❤️ SAÚDE, LUTA E O ÚLTIMO BATTLE MODE

Mas a vida cobra.
E ela cobrou cedo.

A febre reumática que minha mãe pegou ainda criança, sem remédio, sem recurso, sem hospital, acabou por danificar a válvula aórtica.
Diagnóstico só veio em 1979, quando ela estava grávida do Dandan.

Foram quatro cirurgias.
Quatro batalhas épicas de alguém que já tinha lutado demais.

Na última, o corpo cansou.
E em 29/08/2010, minha maezinha partiu aos 56 anos.

Jovem demais.
Boa demais.
Importante demais.


🧩 A PEÇA QUE UNI A FAMÍLIA

Dona Mercedes não era só mãe.
Era o elo agregador, o middleware emocional, o sistema de mensagem que mantinha todos conectados.
Sabia de tudo.
Contava tudo.
Armazenava cada pequena vitória ou drama dos filhos como se fossem registros preciosos.
Era o nosso CICS familiar: sempre ativa, sempre atendendo requisições, sempre resolvendo tranqueira.


🕊 SAUDADES QUE FICAM

Hoje, quando puxo na memória todas as cidades, poeiras, aventuras, fusquinhas, poços cheios de brinquedos, latrinas assassinas, aranhas, escorpiões, galinhas psicopatas e odisséias interioranas…
Em todas elas, lá estava ela.
Mesmo quando não estava fisicamente — estava na intenção, no conselho, no afeto.

A verdade é simples e brutal:
Eu só fui quem fui porque Dona Mercedes existiu.
E sigo sendo quem sou porque ela ainda existe — aqui, no código-fonte da minha alma.


terça-feira, 24 de julho de 2018

🍽️✨ A Cozinha Maravilhosa da Dona Mercedes — Versão Bellacosa Mainframe, modo saudade ON

 


🍽️✨ A Cozinha Maravilhosa da Dona Mercedes — Versão Bellacosa Mainframe, modo saudade ON

El Jefe, prepara o guardanapo porque hoje eu volto no túnel do tempo, direto para o coração fumegante, aromático e mágico da minha infância: a cozinha da minha mãe, Dona Mercedes. Um templo tão poderoso quanto CP-67 iniciando IPL — só que, em vez de bytes, ali rodava amor em modo batch contínuo, 24x7.

Minha mãe veio da roça.
Roça de verdade, daquela que não tinha água encanada, não tinha gás, não tinha luz, não tinha freezer — só coragem. Viviam do que plantavam ou do que conseguiam comprar na mercearia da fazenda. Quando muito, uma ida à cidade trazia um mimo: um punhado de arroz mais branquinho, um açúcar mais fino, um café cheiroso.



Era vida dura. Dura nível dataset cheio sem espaço no volume.
E mesmo assim ela seguia.
Trabalhou na roça, trabalhou cuidando dos irmãos, estudou até onde deu — quarta série — e depois mergulhou na vida de gente grande: babá, ajudante de doméstica, ajudante de cozinheira, cozinheira.

Mas tudo isso é só o preâmbulo.
A abertura do job.
Porque o que interessava mesmo era o milagre.



💫 Minha mãe cozinhava como uma divindade.
E não digo isso no exagero não — Dona Mercedes era tipo um “Assembler Culinário”: sabia transformar meia dúzia de ingredientes em um banquete digno de Data Center inaugurando máquina nova.

Aprendeu com a vida, com revistas velhas, com programas de TV assistidos na casa dos outros, com a Bisavó Isabel, com a Vó Anna e até com cursos da igreja. E nós — eu e meus dois irmãos, os três pequenos onis glutões — éramos o time de homologação do sistema:

  • ajudávamos,

  • roubávamos pedaços escondido,

  • lambíamos as rapas das panelas como se fosse ouro,

  • e fazíamos fila para experimentar tudo antes do resto da humanidade.



Éramos pobres.
Mas ali, naquela cozinha pequena, simples, temperada com carinho, a mesa era sempre farta, graças à imaginação infinita da minha mãe. Era ela quem operava a multiplicação dos pães versão “Cecap 1980”. Sabia fazer mágica com quase nada. Era alquimista, cientista, engenheira de sabor.

E quando comecei a trabalhar cedo — pequeno trabalhador Bellacosa mode ON — e entrou mais um dinheirinho no orçamento, aí meu amigo… Dona Mercedes subiu mais um nível, liberou novas habilidades, destravou receitas que antes moravam só na revista Cláudia e nos programas da Ofélia.

E como cozinhava!
Bolos, tortas, frangos, empadões, pudins, salgadinhos, doces quentes, doces gelados, pratos de festa… tudo feito no amor.

Eu lembro como se fosse ontem:
Chegar do trabalho, empapado de suor, abrir a porta e ser recebido pelo perfume doce, quente, sedutor do forno trabalhando. E lá estava ela — lenço amarrado na cabeça, bobs no cabelo, pano de prato no ombro — porque se tinha bobs, meu amigo, era porque no dia seguinte ia ter festa.


Festa de verdade.
Com Dona Mercedes comandando tudo, como se fosse o maestro de uma orquestra culinária, com as ajudantes — eu e meus irmãos — operando como subprocessos sincronizados.

Eram tempos difíceis.
Mas eram tempos lindos.
Tempos que aquecem o coraçãozinho deste velho Bellacosa aqui… e deixam a barriga cheia de saudade do sabor divino da minha mãe.

Dona Mercedes…
A cozinheira, a artista, a maga, a programadora do sabor.
E, acima de tudo…
minha mãe.

💛✨