☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta carreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta carreira. Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de agosto de 2026

O Guia do Mochileiro das Galáxias para a Crise de Skills no IBM Z

 

Bellacosa Mainframe e a crise dos skills no mundo ibm z

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Guia do Mochileiro das Galáxias para a Crise de Skills no IBM Z

🚀 Como um programador COBOL iniciante pode sobreviver a badges, cursos de 15 semanas, veteranos de 40 anos, abends inexplicáveis e à perturbadora descoberta de que MAXCC=0 não significa que você entendeu alguma coisa

NÃO ENTRE EM PÂNICO.
Especialmente se alguém disser que você virou especialista em mainframe depois de quinze semanas.

Existe, em algum lugar do universo corporativo, provavelmente em uma sala com carpete cinza, café requentado e uma televisão exibindo dashboards coloridos, uma pessoa extremamente satisfeita porque um gráfico ficou verde.

O gráfico provavelmente se chama:

IBM Z SKILLS PIPELINE — STATUS: HEALTHY

Ao lado dele há números impressionantes:

2.437 estudantes treinados
1.982 badges emitidos
784 laboratórios concluídos
97% satisfaction score
42 parceiros
15 semanas

Todos aplaudem.

Alguém tira uma fotografia.

Um executivo diz:

— Excelente! Resolvemos o problema de skills.

Nesse exato momento, a aproximadamente 37 metros dali, um especialista de Db2 com 31 anos de experiência está preenchendo sua documentação de aposentadoria.

Ninguém percebe.

Ele sabe por que determinada subsystem parameter foi alterada em 2004.

Ninguém mais sabe.

Ele lembra por que um batch aparentemente absurdo precisa executar antes das 04:17.

Ninguém documentou.

Ele sabe que existe um programa COBOL compilado em uma determinada opção porque, sem ela, um arquivo produzido por um sistema comprado em 1998 gera um problema extremamente específico que só aparece em fevereiro, em anos bissextos, quando o processamento acontece depois de uma determinada janela.

O programa chama-se:

XPTO047B

Naturalmente.

E assim começa a nossa aventura.

Porque a crise de habilidades do mainframe não é simplesmente uma crise de gente.

É uma crise de continuidade de conhecimento.

E se você é um programador COBOL iniciante entrando agora nesse universo, tenho duas notícias.

A primeira é ótima:

Nunca houve tanto material para aprender mainframe.

A segunda é ligeiramente perturbadora:

Aprender material não significa aprender mainframe.

Pegue sua toalha.

Vamos conversar sobre isso.



🧭 Capítulo 1 — Você não precisa saber IBM Z para começar IBM Z

Comecemos eliminando uma bobagem imediatamente.

Existem pessoas que ficam indignadas quando aparece um curso anunciando:

No previous IBM Z experience required.

Isso, por si só, não é um problema.

Na realidade, é excelente.

Se para aprender mainframe fosse necessário já conhecer mainframe, teríamos criado um paradoxo digno de um departamento burocrático intergaláctico:

Para conseguir experiência:
    você precisa trabalhar com mainframe.

Para trabalhar com mainframe:
    você precisa ter experiência com mainframe.

Resultado:

RC=12
REASON=HUMAN_RESOURCE_NOT_FOUND

Todo ecossistema precisa de portas de entrada.

Precisamos de universidades.

Precisamos de cursos.

Precisamos de bootcamps.

Precisamos de laboratórios.

Precisamos de vídeos.

Precisamos de badges.

Precisamos de ambientes educacionais.

Precisamos até daquele sujeito no YouTube que grava um tutorial às três da manhã explicando JCL enquanto um gato atravessa o teclado.

Tudo isso é valioso.

O problema surge quando confundimos:

porta de entrada

com

linha de chegada.

Um curso de 15 semanas pode apresentar você ao IBM Z.

Ele pode ensinar conceitos fundamentais.

Pode fazer você executar JCL.

Pode mostrar COBOL.

Pode apresentar Db2.

Pode colocar você diante de CICS.

Pode ensinar conceitos de RACF.

Pode fazer você entender datasets, JES, TSO, ISPF e talvez z/OSMF.

Fantástico.

Mas quinze semanas não transformam automaticamente alguém em especialista.

Da mesma forma que quinze semanas de aulas de medicina não transformam alguém em neurocirurgião.

Você pode aprender onde fica o cérebro.

Isso já ajuda bastante.

Mas eu não entregaria imediatamente uma furadeira.



🪪 Capítulo 2 — O Badge não é seu inimigo

Existe uma tendência divertida em tecnologia de atacar badges como se pequenos arquivos PNG fossem responsáveis pela decadência da civilização ocidental.

Eles não são.

Um badge é simplesmente um marcador.

Ele pode dizer:

Esta pessoa concluiu determinada formação.

Perfeito.

O problema aparece quando alguém interpreta:

Esta pessoa concluiu determinada formação.

como:

Esta pessoa domina profundamente a tecnologia.

A diferença é gigantesca.

Para um programador COBOL iniciante, eu gosto de imaginar cinco níveis.

Nível 1 — Exposure

Você já ouviu falar das coisas.

Sabe que:

JCL não é COBOL.
Db2 não é VSAM.
CICS não é um banco de dados.
RACF não é antivírus.
JES2 não é Jesus 2.0.

O último esclarecimento evita algumas reuniões constrangedoras.


Nível 2 — Literacy

Agora você consegue explicar aproximadamente como as coisas se relacionam.

Você entende que um programa COBOL batch pode:

  • receber arquivos;

  • acessar Db2;

  • executar dentro de um JOB;

  • produzir datasets;

  • ser controlado por JCL;

  • retornar códigos;

  • gerar dumps;

  • participar de uma cadeia de processamento.

Você começa a montar o mapa mental.


Nível 3 — Competence

Agora consegue fazer trabalho real.

Você recebe um programa COBOL.

Identifica um problema.

Compila.

Executa.

Interpreta resultados.

Corrige erros.

Entende alguns abends.

Analisa JCL.

Usa ferramentas.

Sabe que mexer em produção sem compreender impacto pode resultar em pessoas pronunciando seu nome em reuniões onde você não foi convidado.


Nível 4 — Proficiency

Você começa a trabalhar independentemente.

Recebe problemas menos estruturados.

Não existe tutorial dizendo exatamente o que fazer.

Você encontra caminhos.

Começa a correlacionar sintomas.


Nível 5 — Mastery

Aqui a brincadeira muda.

Você consegue lidar com problemas que não estavam no treinamento.

Essa é uma definição extremamente importante.

Um especialista não é simplesmente quem sabe responder perguntas conhecidas.

É quem consegue raciocinar quando a pergunta é nova.


🧠 Capítulo 3 — O verdadeiro patrimônio do mainframe não está no DASD

Está dentro da cabeça das pessoas.

Chamamos isso de:

conhecimento tácito.

Conhecimento explícito é relativamente fácil de registrar:

Comando X faz Y.
Parâmetro Z controla W.
Arquivo possui LRECL 100.

Conhecimento tácito é diferente.

É quando o especialista olha para determinada situação e diz:

— Isso está estranho.

Você pergunta:

— Por quê?

Ele responde:

— Não sei ainda.

Isso parece pouco científico.

Mas geralmente significa:

Meu cérebro comparou essa situação com aproximadamente 27 anos de incidentes, padrões, falhas, mudanças, madrugadas, dumps e decisões e encontrou alguma discrepância ainda não verbalizada.

Esse tipo de percepção não aparece instantaneamente.

É acumulada.

Considere dois programadores.

Programador A terminou um curso sobre CICS.

Programador B trabalha com CICS há vinte anos.

Ambos sabem que existe:

EXEC CICS LINK

Mas o segundo talvez tenha vivenciado:

  • problemas de storage;

  • loops;

  • short-on-storage;

  • runaway tasks;

  • deadlocks;

  • transaction dumps;

  • problemas de terminal;

  • mudanças de region;

  • falhas em integração;

  • incidentes envolvendo Db2;

  • problemas de performance;

  • erros provocados por parâmetros aparentemente inocentes.

O conhecimento não é apenas:

“Como funciona CICS?”

É também:

“Como CICS costuma falhar de maneiras que parecem ser outra coisa?”

Essa segunda categoria vale ouro.



🏺 Capítulo 4 — Arqueologia orientada a produção

Em sistemas antigos existe uma disciplina raramente ensinada nas universidades.

Ela se chama:

Arqueologia de Software

Você encontra:

       IF WS-FLAG = 'Y'
           MOVE 'N' TO WS-FLAG
           PERFORM 9000-TRATAMENTO-ESPECIAL.

Você pergunta:

— Por que isso existe?

Ninguém sabe.

O Git não possui histórico porque o programa nasceu antes do Git.

Talvez antes do Linux.

Talvez antes de alguns membros da equipe.

O comentário diz:

* ALTERACAO 12/08/1996 - JORGE

Jorge desapareceu da empresa em 2003.

Ninguém sabe onde Jorge está.

Talvez Jorge esteja pescando.

Talvez Jorge esteja em Portugal.

Talvez Jorge tenha transcendido e virado uma entidade puramente energética.

Mas aquele IF continua executando três milhões de vezes por dia.

O desenvolvedor moderno então pensa:

Código morto.

Remove.

Compila.

Teste passa.

Produção recebe.

Às 03:11 ocorre algo que não acontecia desde 1997.

Parabéns.

Você acabou de descobrir por que Jorge escreveu aquilo.

Esse é um dos motivos pelos quais veteranos são tão valiosos.

Eles frequentemente carregam o contexto histórico do código.


💳 Capítulo 5 — Technical Debt ganhou um primo: Knowledge Debt

Você provavelmente já ouviu falar de Technical Debt.

É quando fazemos escolhas que criam custo futuro.

Existe outra dívida silenciosa:

Knowledge Debt

Ela acontece quando uma organização depende de conhecimento que não está sendo transferido.

Exemplo.

Maria trabalha com Db2 há 28 anos.

Ela conhece profundamente:

performance
utilities
locking
bind
packages
statistics
reorg
recovery
SQL

Todos sabem que Maria sabe.

Então ninguém se preocupa.

Maria resolve problemas.

Maria responde mensagens.

Maria entra nas bridges.

Maria salva a madrugada.

Excelente.

Até o dia em que Maria anuncia:

Vou me aposentar.

Repentinamente surge um PowerPoint:

KNOWLEDGE TRANSFER PLAN

Slide 1:

Duration: 3 weeks

Naturalmente.

Porque obviamente 28 anos podem ser compactados em três semanas através da misteriosa tecnologia conhecida como Microsoft Teams.

Isso é Knowledge Debt vencendo.


🧑‍🏫 Capítulo 6 — Apprenticeship: a tecnologia revolucionária inventada há milhares de anos

Existe uma abordagem surpreendentemente eficiente para formar pessoas.

Coloque alguém menos experiente próximo de alguém experiente.

Deixe trabalhar juntos.

Parece radical.

Antigamente chamávamos isso de:

aprendizagem.

No mundo moderno poderíamos chamar:

Human Knowledge Replication Framework 2.0

e cobrar consultoria.

O processo saudável costuma parecer assim:

OBSERVAR
   ↓
EXECUTAR COM AJUDA
   ↓
EXECUTAR SOZINHO
   ↓
RESOLVER PROBLEMAS
   ↓
TOMAR DECISÕES
   ↓
ENSINAR OUTROS

Observe a última etapa.

Ensinar é importantíssimo.

Quando você consegue ensinar alguém, precisa organizar mentalmente aquilo que sabe.

É por isso que recomendo que programadores iniciantes criem pequenos registros.

Pode ser:

  • blog;

  • notas;

  • Markdown;

  • Git;

  • wiki;

  • caderno;

  • Obsidian;

  • arquivos pessoais.

Depois de resolver um problema, escreva:

O que aconteceu?

O que pensei inicialmente?

O que estava errado?

Como diagnostiquei?

Qual era a causa?

O que faria diferente?

Depois de alguns anos isso vira seu próprio Knowledge Vault.


🧪 Capítulo 7 — O laboratório perfeito não deve funcionar

Isso mesmo.

Se você está aprendendo mainframe, laboratórios onde tudo funciona são úteis apenas até certo ponto.

O verdadeiro aprendizado começa quando alguma coisa quebra.

Um ótimo laboratório deveria dizer:

Aqui está o JOB.

Ele não funciona.

Descubra por quê.

Talvez exista:

DISP incorreto

Talvez:

LRECL incompatível

Talvez:

dataset inexistente

Talvez:

SQLCODE -805

Talvez:

S0C7

Talvez:

AEI9

Talvez seja apenas uma vírgula.

Essa última opção costuma causar mais sofrimento.

O objetivo é criar musculatura diagnóstica.


🩺 Capítulo 8 — House M.D. entra no CPD

Imagine o Dr. House analisando um incidente COBOL.

Operações diz:

— O batch falhou.

House:

— Isso é um sintoma.

Desenvolvimento:

— O programa deu S0C7.

House:

— Outro sintoma.

Gerente:

— Ontem funcionava.

House:

— Impressionante. Ontem também não é hoje.

Então começa o diagnóstico.

A pergunta errada é:

Como elimino o S0C7?

A pergunta correta é:

O que fez o programa interpretar esses bytes como número?

Pode ser:

PIC incorreta

Pode ser arquivo errado.

Pode ser layout diferente.

Pode ser REDEFINES.

Pode ser campo não inicializado.

Pode ser alteração upstream.

Pode ser dados corrompidos.

Pode ser compilação diferente.

O especialista pensa em cadeia causal.

Essa é a diferença entre aprender mensagens e aprender sistemas.


🌌 Capítulo 9 — Systems Thinking: a habilidade secreta

Mainframe ensina uma coisa muito importante:

Nada acontece sozinho.

Programa COBOL pode depender de:

JCL
 ↓
PROC
 ↓
dataset
 ↓
catalog
 ↓
SMS
 ↓
Db2
 ↓
CICS
 ↓
MQ
 ↓
RACF
 ↓
network
 ↓
WLM
 ↓
storage

Um erro aparece no COBOL.

A causa pode estar cinco camadas atrás.

Essa capacidade de pensar em relações é o que chamamos de systems thinking.

Comece a praticar isso imediatamente.

Sempre pergunte:

O que chama isso?

O que isso chama?

Quais dados entram?

Quem produz esses dados?

Quem consome a saída?

Quais configurações externas influenciam?

O que mudou recentemente?

Essas perguntas valem mais do que decorar cem mensagens de erro.


🪜 Capítulo 10 — O caminho real para quem está começando

Se eu estivesse começando COBOL hoje, montaria esta progressão.

Etapa 1 — COBOL puro

Aprenda muito bem:

DIVISION
SECTION
PARAGRAPH
PIC
MOVE
COMPUTE
IF
EVALUATE
PERFORM
OCCURS
REDEFINES
COMP
COMP-3

Entenda dados.

COBOL é profundamente orientado a dados.

Não trate PIC como decoração.


Etapa 2 — Arquivos

Aprenda:

SEQUENTIAL
INDEXED
VSAM
KSDS
ESDS

Entenda:

RECFM
LRECL
BLKSIZE

Arquivo errado é fonte inesgotável de aventuras.


Etapa 3 — JCL

Não diga:

“Sou desenvolvedor, JCL não é comigo.”

Isso é aproximadamente equivalente a ser piloto dizendo:

“Combustível é coisa da equipe de solo.”

Aprenda:

JOB
EXEC
DD
DISP
SPACE
DSN
SYSOUT
COND
IF
PROC
GDG

Etapa 4 — Db2

Entenda:

SELECT
INSERT
UPDATE
DELETE
COMMIT
ROLLBACK
CURSOR
HOST VARIABLES
NULL INDICATOR
SQLCODE

Depois vá mais fundo.


Etapa 5 — CICS

Aprenda pelo menos os conceitos.

COMMAREA
CHANNEL
CONTAINER
LINK
XCTL
RETURN
READ
WRITE
REWRITE
START

E sobretudo entenda transação.


Etapa 6 — Debugging

Comece a amar mensagens de erro.

Não porque seja saudável.

Mas porque é inevitável.

Leia:

compile listing
runtime messages
joblog
sysout
dump

O dump é o romance policial do mainframe.

O assassino está lá.

Você só precisa descobrir quem é.


🧯 Capítulo 11 — MAXCC=0 não significa que o mundo está salvo

Esse merece moldura.

Você executou:

MAXCC=0

Excelente.

Isso significa aproximadamente:

O utilitário não detectou determinados tipos de problema segundo seus critérios.

Não significa:

Sua solução está correta.

Exemplo.

Você pode executar um SORT perfeitamente.

MAXCC=0

Mas ordenar pelo campo errado.

O computador fez exatamente aquilo que você pediu.

A tragédia é que você pediu uma coisa absurda.

Computadores possuem esse hábito desagradável.


🪐 Easter Egg 42

Em O Guia do Mochileiro das Galáxias, a resposta para a grande pergunta sobre a vida, o universo e tudo mais é:

42.

No mainframe também existe uma grande pergunta.

Quantos anos são necessários para dominar completamente IBM Z?

Resposta:

42.

A diferença é que, no ano 42, provavelmente alguém instalará uma atualização e você terá que estudar novamente.


📊 Capítulo 12 — O Grande Deus Dashboard

Organizações adoram métricas.

Não há nada errado nisso.

O problema é medir aquilo que é fácil em vez daquilo que importa.

É fácil medir:

NUMBER_OF_BADGES
NUMBER_OF_STUDENTS
COURSES_COMPLETED
LABS_FINISHED

Muito mais difícil medir:

CAN_HANDLE_PRODUCTION_INCIDENT
CAN_EXPLAIN_ARCHITECTURE
CAN_RECOVER_SERVICE
CAN_MENTOR_JUNIOR
CAN_REPLACE_RETIRING_SME

Imagine dois programas.

Programa A:

1.000 certificados

Programa B:

20 pessoas
18 meses
shadowing
incidentes
laboratórios
mentoria
responsabilidade progressiva

O primeiro produz slide bonito.

O segundo talvez salve seu banco às três da manhã.


👴 Capítulo 13 — Não transforme veteranos em sacerdotes secretos

Agora uma advertência importante.

Também não devemos romantizar demais o passado.

Existia — e ainda existe — o profissional conhecido como:

“Só o Carlos sabe.”

Pergunta:

— Como funciona esse processo?

Resposta:

— Pergunta pro Carlos.

— Onde está documentado?

— Carlos sabe.

— O que acontece se Carlos sair?

Silêncio.

Carlos não é arquitetura.

Carlos é um risco operacional humano.

O conhecimento precisa circular.

Um bom especialista não apenas resolve.

Ele deixa rastros.

Documenta.

Ensina.

Explica contexto.

Forma sucessores.


🗺️ Capítulo 14 — Como aprender com um veterano sem sequestrá-lo

Quando encontrar alguém experiente, não faça apenas perguntas genéricas.

Pergunte histórias.

Em vez de:

Como funciona Db2?

Pergunte:

Qual foi o pior incidente Db2 que você já viu?

Depois:

Como vocês perceberam?

Qual foi a hipótese inicial?

O que enganou vocês?

Qual era a verdadeira causa?

O que mudou depois?

Isso extrai conhecimento tácito.

Profissionais veteranos frequentemente possuem centenas dessas histórias.

Cada história contém:

contexto
hipótese
erro
diagnóstico
causa
solução
prevenção

Isso vale ouro.


⚠️ Capítulo 15 — Não tenha pressa de parecer sênior

Esse talvez seja o conselho mais importante para um iniciante.

Não tenha vergonha de dizer:

Não sei.

Em sistemas complexos, fingir conhecimento é muito mais perigoso do que admitir desconhecimento.

O bom iniciante pergunta.

O iniciante perigoso inventa.

Você encontrará pessoas exibindo uma coleção impressionante de badges.

Ótimo.

Você também encontrará pessoas com trinta anos de experiência e nenhum badge.

Não trate nenhuma das duas coisas isoladamente como prova definitiva.

Observe capacidade.

Observe raciocínio.

Observe comportamento diante de problemas.


🛠️ Capítulo 16 — Seu plano pessoal de apprenticeship

Mesmo que sua empresa não tenha um programa formal, crie um informal.

Faça isso:

1. Escolha um domínio

Por exemplo:

COBOL batch

2. Encontre alguém mais experiente

Não precisa ser o maior guru do planeta.

Só precisa estar alguns quilômetros à sua frente.


3. Observe problemas reais

Sempre respeitando segurança e acesso.


4. Reproduza em laboratório

Transforme incidentes em exercícios.


5. Documente

Crie notas.


6. Explique para outra pessoa

Se você não consegue explicar, talvez ainda não tenha entendido.


7. Volte seis meses depois

Você ficará horrorizado com suas primeiras anotações.

Isso é bom.

Significa evolução.


🧬 Capítulo 17 — Expertise não é uma coleção de comandos

Esse é o ponto central de toda esta conversa.

Expertise não é:

quantidade de sintaxe memorizada

É uma mistura de:

conhecimento
+
experiência
+
contexto
+
julgamento
+
memória de falhas
+
capacidade de investigação
+
capacidade de ensinar

É por isso que ela demora.

E talvez seja bom que demore.

Porque sistemas que movimentam bancos, governos, seguradoras, companhias aéreas, indústrias e redes gigantescas não deveriam depender de uma cultura onde qualquer pessoa é declarada especialista depois de algumas semanas.


🚨 Capítulo 18 — Production Disaster Nobody Predicted

Todo treinamento deveria possuir um módulo final chamado:

“Algo aconteceu e ninguém sabe o quê.”

Descrição:

03:07

Produção degradada.

Nenhuma mudança aparente.

Aplicação parcialmente funcionando.

Usuários reclamando.

Batch atrasado.

CICS estranho.

Db2 aparentemente saudável.

Uma alteração ocorreu 14 horas atrás.

Ninguém lembra qual.

Objetivo:

sobreviva.

Sem múltipla escolha.

Sem botão “Hint”.

Sem resposta imediatamente disponível.

Esse tipo de exercício aproxima treinamento de realidade.


🧙 Capítulo 19 — O verdadeiro mestre Jedi do mainframe

Você reconhece um grande profissional porque ele não precisa fingir onisciência.

Ele diz:

Não sei ainda.

Depois começa a investigar.

Ele sabe onde procurar.

Sabe formular hipótese.

Sabe descartar hipótese.

Sabe evitar mudanças destrutivas.

Sabe pedir ajuda.

Sabe interpretar evidência.

Sabe documentar descoberta.

E depois ensina alguém.

Essa última parte transforma especialista em legado.


🛰️ Capítulo 20 — Então o que fazemos com os programas de 15 semanas?

Usamos.

Melhoramos.

Expandimos.

Mas chamamos as coisas pelo nome correto.

Um programa curto pode ser:

Foundation Program

Excelente.

Depois crie:

FOUNDATION
    ↓
LAB
    ↓
APPRENTICESHIP
    ↓
PRODUCTION SHADOWING
    ↓
RESPONSIBILITY
    ↓
SPECIALIZATION
    ↓
MENTORSHIP

Agora temos um pipeline.

Não um evento.

A crise de skills não será resolvida através de um único curso.

Será resolvida construindo gerações sobre gerações de profissionais.

Exatamente como o próprio mainframe foi construído.


☕ Epílogo — NÃO ENTRE EM PÂNICO

Se você é iniciante e chegou até aqui preocupado porque aparentemente precisa de trinta anos para aprender IBM Z, relaxe.

Você não precisa aprender tudo.

Ninguém sabe tudo.

IBM Z é grande demais.

Escolha uma trilha.

Aprenda profundamente.

Construa conexões com outras áreas.

Pergunte.

Quebre coisas em laboratório.

Leia mensagens.

Leia listings.

Leia dumps.

Leia documentação.

Converse com veteranos.

Ensine iniciantes.

E principalmente:

não confunda velocidade de formação com profundidade de conhecimento.

Badge é ótimo.

Curso é ótimo.

Certificação é ótima.

Laboratório é ótimo.

Mas todos são partes de algo maior.

A verdadeira formação acontece quando conhecimento encontra experiência.

Quando teoria encontra produção.

Quando documentação encontra memória.

Quando o iniciante pergunta:

Por que fazemos isso assim?

E, em vez de receber:

Porque sempre foi assim.

recebe uma história.

Talvez uma história envolvendo um abend.

Talvez um IPL.

Talvez um banco.

Talvez alguém chamado Jorge.

Talvez 1996.

Talvez um PROC.

Talvez uma madrugada particularmente infeliz.

Essas histórias são o DNA invisível do mainframe.

Preservá-las é tão importante quanto preservar código.

Porque máquinas podem executar programas durante cinquenta anos.

Mas somente pessoas conseguem explicar por que aquele programa ainda deveria existir.

E se algum dashboard corporativo disser que resolvemos tudo depois de quinze semanas, faça aquilo que todo bom programador COBOL aprende cedo ou tarde.

Leia o detalhe.

Procure a mensagem.

Questione a condição.

E desconfie profundamente de qualquer universo onde:

SKILLS-CRISIS = 'SOLVED'

foi definido simplesmente porque:

BADGE-COUNT > 1000

Afinal, como diria um guia extremamente confiável de viagens intergalácticas:

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Mas mantenha o dump por perto.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/o-caso-tsb-bank-como-uma-migracao-de.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/quanto-custa-um-programador-salario.htm



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O Ronin e o Castelo: por que todos enxergam a falta de COBOLzeiros, mas ninguém é dono da causa raiz

 

Bellacosa Mainframe e o ronin e o castelo 

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Ronin e o Castelo: por que todos enxergam a falta de COBOLzeiros, mas ninguém é dono da causa raiz

🔴🔵 Silos, incentivos, procurement, turnover e o paradoxo das organizações onde todos batem suas metas enquanto o sistema inteiro perde conhecimento

Por Vagner Bellacosa


Existe uma reunião acontecendo no último andar do Castelo.

Uma grande mesa.

Telas enormes.

Dashboards.

Indicadores.

PowerPoint.

Café provavelmente melhor que o nosso.

Na parede aparece:

CRITICAL SKILLS REPORT

COBOL ................. SHORTAGE
CICS .................. SHORTAGE
DB2 ................... SHORTAGE
IMS ................... SHORTAGE
MAINFRAME ............. SHORTAGE

RISK LEVEL ............ HIGH

Todos concordam.

Existe um problema.

Faltam profissionais.

O representante de RH levanta a mão:

— Precisamos contratar mais.

O responsável por treinamento:

— Precisamos formar mais.

Procurement:

— Precisamos contratar fornecedores capazes de entregar profissionais.

Financeiro:

— Precisamos controlar o custo dessas contratações.

Projetos:

— Precisamos dessas pessoas ontem.

Vendor Management:

— Precisamos aumentar a competição entre fornecedores.

Todos estão certos.

Essa é justamente a parte assustadora.

Morpheus aparece discretamente no fundo da sala.

Olha para Neo.

Neo não está sentado à mesa.

Ele está alguns andares abaixo.

Provavelmente diante de um terminal.

Morpheus pergunta:

— Você percebeu?

Neo responde:

— O quê?

Morpheus aponta para a sala.

Todos estão resolvendo o problema.

Neo olha novamente.

— Então por que ele continua piorando?

Morpheus sorri.

Pegue seu café.

Hoje vamos falar sobre sistemas nos quais ninguém precisa estar errado para que o resultado esteja errado.


🏯 Bem-vindo ao Castelo

Toda grande organização precisa dividir responsabilidades.

Isso não é defeito.

É necessidade.

Imagine uma empresa com dezenas de milhares de pessoas sem departamentos, papéis, responsabilidades ou hierarquia.

Seria impossível administrar.

Então construímos torres.

              CASTELO

                 CEO
                  │
     ┌────────────┼────────────┐
     │            │            │
    RH        FINANCEIRO       TI
     │            │            │
     │        PROCUREMENT      │
     │            │            │
     └──── VENDOR MGMT ────────┘
                  │
             FORNECEDORES
                  │
             PROFISSIONAIS

Cada torre possui sua missão.

Cada torre possui seus indicadores.

Cada torre possui seus samurais.

E cada samurai tenta fazer bem seu trabalho.

Até aqui, perfeito.


🥷 O Ronin

Do lado de fora existe outra figura.

O Ronin.

Ele não pertence permanentemente a nenhum Castelo.

Passou por vários.

Banco A.

Banco B.

Seguradora.

Indústria.

Consultoria.

Fornecedor.

Projeto.

Migração.

Incidente.

Fusão.

Outsourcing.

Insourcing.

Downsizing.

Rightsizing.

Transformação digital.

Agile Transformation.

Cloud Transformation.

AI Transformation.

Ele já sobreviveu a tantas transformações que começa a desconfiar quando alguém coloca “Transformation” no nome.

🤣

O Ronin possui uma característica interessante.

Ele consegue comparar Castelos.


👀 Quem está dentro vê profundidade. Quem está fora vê padrões.

O samurai conhece profundamente sua torre.

O Ronin conhece superficialmente muitas torres.

Essas perspectivas produzem conhecimentos diferentes.

O samurai sabe:

COMO FUNCIONA ESTE CASTELO

O Ronin começa a perceber:

O QUE SE REPETE
EM TODOS OS CASTELOS

Isso é extremamente valioso.

Porque problemas sistêmicos frequentemente parecem locais para quem está dentro deles.


🧠 O conhecimento de segunda ordem

Existe conhecimento técnico.

Sei COBOL.

Existe conhecimento de negócio.

Sei como funciona pagamento.

Existe conhecimento organizacional.

Sei como esta empresa trabalha.

E existe outra categoria:

Já vi organizações tentarem isso antes.

Esse é conhecimento de segunda ordem.

O veterano não conhece apenas soluções.

Conhece padrões.

DECISÃO A
    ↓
EFEITO B

DECISÃO C
    ↓
EFEITO D

DECISÃO A NOVAMENTE
    ↓
"HUM... JÁ VI ESSE FILME."

Esse talvez seja um dos maiores valores do profissional experiente.

Não prever o futuro.

Reconhecer o passado chegando novamente usando outra gravata.


💊 A pílula azul

A explicação tradicional para o shortage de mainframe é bastante razoável.

Muitos profissionais estão envelhecendo.

Durante determinados períodos entraram menos jovens.

Universidades reduziram exposição a COBOL e mainframe.

Tecnologias distribuídas ganharam enorme atenção.

Cloud atraiu novas gerações.

Empresas possuem sistemas que permaneceram por décadas.

Tudo isso contribui.

Seria absurdo negar.

Mas Morpheus levanta a outra mão.


🔴 A pílula vermelha

Talvez parte da escassez seja produzida também pelo próprio modelo de trabalho.

Pergunta:

Quantos profissionais entraram?

Ótimo.

Agora:

Quantos ficaram?

Depois:

Quantos poderiam continuar, mas escolheram sair?

E finalmente:

Por quê?

Essa última pergunta é perigosa.

Porque talvez a resposta não esteja no mercado.

Talvez esteja no Castelo.


🧑‍💼 Torre do RH

RH olha para o dashboard.

OPEN POSITIONS ........ 73
TIME TO HIRE .......... HIGH
COBOL CANDIDATES ...... LOW

Diagnóstico:

Precisamos aumentar o pipeline.

Soluções:

bootcamp,

universidade,

recrutamento,

programas júnior,

reskilling,

campanhas,

employer branding.

Tudo perfeitamente racional.

KPI melhora.

NEW HIRES ↑

RC=00.


💰 Torre do Procurement

Procurement olha para outro dashboard.

VENDOR COST ........... HIGH
CONTRACT VALUE ........ HIGH
SAVINGS TARGET ........ 12%

Missão:

negociar.

Competição.

RFP.

Benchmark.

Renegociação.

Novo fornecedor.

Resultado:

CONTRACT COST -12%

Excelente.

RC=00.


💵 Torre Financeira

Financeiro observa:

OPEX ↑
MARGIN PRESSURE ↑

Determina:

controle de despesas,

redução de custos,

melhoria de produtividade.

Correto.

Uma empresa que ignora custos não permanece empresa durante muito tempo.

Resultado:

BUDGET = TARGET

RC=00.


📅 Torre de Projetos

Project Management olha:

PROJECTS ............... 47
DEADLINES .............. FIXED
DEPENDENCIES ........... 183
RESOURCES .............. INSUFFICIENT

Resposta:

mais capacidade.

Mais fornecedores.

Mais profissionais.

Mais velocidade.

Mais acompanhamento.

Entrega.

RC=00.


🤝 Vendor Management

Vendor Management precisa evitar dependência excessiva.

Diversifica fornecedores.

Compara desempenho.

Renegocia contratos.

Troca empresas quando necessário.

Excelente governança.

VENDOR CONCENTRATION ↓
COMPETITION ↑

RC=00.


👨‍💻 E no porão...

Neo olha para seu dashboard particular.

SALÁRIO RELATIVO ........ ↓
PRESSÃO ................. ↑
BUROCRACIA .............. ↑
AUTONOMIA ............... ↓
CONTRATO ................ 12 MESES
RENOVAÇÃO ............... ?
CARREIRA ................ ?
PLANTÃO ................. SIM
RESPONSABILIDADE ........ ALTA

Ele recebe uma proposta para continuar.

Menor.

Olha.

Pensa.

Aceita porque precisa.

Depois abre:

OPEN TO WORK = Y

Três meses depois:

EMPLOYEE STATUS = LEFT

🚨 RH recebe um alerta

CRITICAL SKILL LOST

Resposta:

Precisamos contratar outro COBOLzeiro.

E o ciclo reinicia.


🔁 O loop corporativo

Agora conseguimos enxergar o sistema completo.

FALTA PROFISSIONAL
       ↓
RH CONTRATA
       ↓
PROJETOS ALOCAM
       ↓
CUSTO AUMENTA
       ↓
FINANCEIRO PRESSIONA
       ↓
PROCUREMENT REDUZ
       ↓
FORNECEDORES COMPRIMEM
       ↓
PROFISSIONAL PERCEBE MENOR VALOR
       ↓
TURNOVER AUMENTA
       ↓
CONHECIMENTO SAI
       ↓
FALTA PROFISSIONAL

Olhe novamente.

Existe algum vilão?

Talvez não.

Isso é que torna o problema tão interessante.


🎯 Todos bateram suas metas

RH:

HIRES TARGET = ACHIEVED

Procurement:

SAVINGS TARGET = ACHIEVED

Financeiro:

BUDGET TARGET = ACHIEVED

Projetos:

DELIVERY TARGET = ACHIEVED

Vendor Management:

COMPETITION TARGET = ACHIEVED

Parabéns.

Agora olhamos para o sistema:

TURNOVER ............... ↑
KNOWLEDGE .............. ↓
SENIORITY .............. ↓
HIRING DIFFICULTY ...... ↑

Como isso é possível?

Bem-vindo à:

Otimização Local


🖥️ O mainframe já nos ensinou isso

Imagine um programa que consome muita CPU.

O desenvolvedor otimiza.

CPU cai 20%.

Excelente.

Mas para conseguir isso ele aumenta brutalmente chamadas ao Db2.

Agora:

PROGRAM CPU ........... -20%
DB2 LOAD .............. +40%
ELAPSED TIME .......... +15%

O programa ficou melhor.

O sistema ficou pior.

Se você medir apenas CPU:

RC=00.

Se medir o workload:

RC=12.

Organizações podem cometer exatamente o mesmo erro.


📏 O problema das métricas

Existe uma ideia famosa em gestão:

Quando uma medida vira alvo, ela pode deixar de ser uma boa medida.

A organização quer eficiência.

Escolhe uma métrica:

VENDOR COST

Então todos otimizam:

VENDOR COST ↓

Mas eficiência organizacional não é apenas vendor cost.

Talvez seja algo mais parecido com:

TOTAL VALUE
---------------------
TOTAL LIFECYCLE COST

E aí entram coisas muito mais difíceis de medir.


🧮 O custo que ninguém recebe numa fatura

Imagine que Procurement economizou:

R$ 2.000.000

Esse número aparece lindamente.

Agora o turnover aumenta.

Custos surgem.

RH:

RECRUITMENT +300K

Treinamento:

TRAINING +200K

Projetos:

DELAY +400K

Operações:

INCIDENTS +?

Sêniores:

MENTORING HOURS +?

Produtividade:

RAMP-UP LOSS +?

Conhecimento:

TACIT KNOWLEDGE LOSS = ???

Talvez o total ultrapasse os dois milhões.

Talvez não.

O ponto é:

alguém calculou?


👻 O custo fantasma

Custos diretos são fáceis.

Possuem nota fiscal.

Centro de custo.

Contrato.

PO.

Invoice.

Custos sistêmicos são fantasmas.

Eles aparecem espalhados.

R$ 80K aqui
R$ 120K ali
3 meses acolá
2 incidentes depois
500 horas de onboarding

Ninguém recebe:

NOTA FISCAL

FORNECEDOR:
PERDA DE CONHECIMENTO S/A

SERVIÇO:
SAÍDA DO CARA QUE SABIA
POR QUE AQUELA PROC
NÃO PODE RODAR ÀS 04:10

VALOR:
R$ 487.391,72

🤣

Se existisse, talvez administrássemos conhecimento de maneira diferente.


⏳ E existe latência

Esse talvez seja o ponto mais perverso.

Decisão:

2026:
REDUCE CONTRACT COST 15%

Resultado imediato:

SAVING = SUCCESS

Consequências possíveis:

2027:
TURNOVER ↑

2028:
SENIORITY ↓

2029:
KNOWLEDGE GAP ↑

2030:
INCIDENT RISK ↑

Agora alguém pergunta:

— Por que temos esse problema?

Quem lembrará da decisão de quatro anos atrás?

Talvez ninguém.

Sistemas complexos possuem memória.

Organogramas nem sempre.


🦋 Causa aqui, efeito lá

Mainframeiros entendem isso.

Um pequeno parâmetro alterado hoje pode produzir comportamento estranho muito depois.

Organizações também possuem dependências invisíveis.

PROCUREMENT DECISION
         ↓
SALARY PRESSURE
         ↓
ENGAGEMENT
         ↓
TURNOVER
         ↓
KNOWLEDGE LOSS
         ↓
INCIDENT RISK

Mas cada seta pode levar meses.

Isso dificulta perceber causalidade.


🥷 Por que o Ronin percebe?

Não porque seja necessariamente mais inteligente.

Isso é importante.

Ele possui outra posição de observação.

Passou por:

CASTELO A
CASTELO B
CASTELO C
CASTELO D

E viu:

PADRÃO A
PADRÃO A
PADRÃO A
PADRÃO A

Então pensa:

Talvez não seja coincidência.

A experiência transversal permite reconhecer padrões que estruturas verticais escondem.


🏯 O samurai conhece profundamente uma torre

Ele talvez passe quinze anos em Procurement.

Conhece negociação como ninguém.

Outro passa quinze anos em RH.

Outro em Finance.

Outro em TI.

Todos especialistas.

Mas o problema mora:

entre as torres.

E problemas que vivem entre departamentos possuem uma característica perigosa:

ninguém é completamente dono deles.


👤 Quem é o owner do turnover sistêmico?

RH?

Talvez.

Mas RH não controla procurement.

Procurement?

Não controla carreira.

TI?

Não controla contratos comerciais.

Financeiro?

Não controla motivação.

Vendor Management?

Não controla mercado.

Então:

PROBLEM OWNER = NULL

E todo programador sabe que NULL pode gerar resultados interessantes.


🧠 Talvez este seja o verdadeiro problema

Não falta inteligência.

Falta ownership sistêmico.

Cada área possui:

LOCAL OWNER = YES

Mas:

END-TO-END OWNER = ???

Quem responde pela pergunta:

Estamos preservando conhecimento crítico ao longo de dez anos?

Talvez ninguém.

Porque dez anos não cabem confortavelmente num trimestre.


📆 O trimestre contra a década

Esse conflito merece atenção.

Sistemas mainframe podem durar:

30,

40,

50 anos.

Contratos:

12 meses.

Metas:

trimestrais.

Orçamentos:

anuais.

Carreiras:

talvez décadas.

Temos escalas temporais completamente diferentes.

MAINFRAME ............. 40 ANOS
CARREIRA .............. 30 ANOS
ESTRATÉGIA ............. 5 ANOS
CONTRATO ............... 1 ANO
BUDGET ................. 1 ANO
KPI .................... 3 MESES

Agora tente otimizar tudo isso simultaneamente.

Boa sorte.


🏃 O curto prazo sempre corre mais rápido

Economizar R$ 1 milhão este ano é concreto.

Evitar perder conhecimento daqui a cinco anos é abstrato.

Então:

BENEFÍCIO PRESENTE
>
RISCO FUTURO PERCEBIDO

Até o futuro virar presente.

Aí abrimos um projeto chamado:

CRITICAL SKILLS
TRANSFORMATION PROGRAM

🤣

Contratamos consultoria.

Criamos steering committee.

Fazemos workshops.

E tentamos reconstruir aquilo que talvez tivéssemos conseguido preservar.


💰 O paradoxo econômico

Podemos gastar:

R$ X

para evitar dar:

R$ Y

de incentivo de retenção.

Porque X está em:

TRANSFORMATION BUDGET

e Y estava em:

PAYROLL

São caixas diferentes.

O dinheiro não sabe disso.

Mas o organograma sabe.


🧱 Silos não são apenas departamentos

Existem silos de:

informação,

tempo,

incentivo,

orçamento,

responsabilidade,

métrica.

O problema pode atravessar todos eles.

Por isso parece invisível.

Cada pessoa enxerga uma parte verdadeira.

Ninguém enxerga necessariamente a verdade completa.


🧩 É o elefante corporativo

RH toca a tromba:

Falta recrutamento.

Procurement toca a perna:

Custo alto.

TI toca a barriga:

Falta capacidade.

Finance toca a orelha:

OPEX.

Neo olha o elefante inteiro:

Talvez tenhamos um problema de retenção e proposta de valor.

Todos podem estar parcialmente certos.


🎯 Goodhart entra no CPD

Imagine que estabelecemos:

KPI:
REDUCE CONTRACTOR COST 10%

A organização conseguirá.

Pessoas são extraordinariamente criativas quando bônus dependem disso.

Mas talvez precisássemos de:

KPI:
REDUCE TOTAL COST
WHILE PRESERVING
CRITICAL KNOWLEDGE
AND SERVICE QUALITY

Muito melhor.

Também muito mais difícil de medir.

E exatamente aí mora o problema.


📊 O que é fácil medir vence

Preço/hora:

fácil.

Número de profissionais:

fácil.

Quantidade de vagas:

fácil.

Turnover:

razoavelmente fácil.

Agora:

valor do conhecimento tácito?

Difícil.

Confiança?

Difícil.

Custo de contexto perdido?

Difícil.

Capacidade de diagnóstico?

Difícil.

Valor de alguém que evita um incidente que nunca aconteceu?

Quase impossível.

Então nossa planilha possui precisão extraordinária sobre as coisas menos interessantes.


👴 Quanto vale o incidente que não aconteceu?

O veterano olha para uma mudança e diz:

— Não façam isso.

Perguntam:

— Por quê?

— Já vi dar problema.

Mudam a abordagem.

Nada acontece.

Resultado:

INCIDENTS = 0

Quanto dinheiro ele economizou?

Zero?

Talvez milhões.

Mas como o incidente nunca aconteceu, não existe número.

Esse é o paradoxo da prevenção.

O sucesso apaga a evidência do próprio valor.


🧑‍🏫 E quando ele sai...

Seis meses depois alguém repete a ideia.

Desta vez ninguém diz:

— Não façam isso.

Executam.

Produção cai.

War Room.

Executivos.

Fornecedores.

Post-mortem.

Consultoria.

Plano de ação.

Agora temos números!

INCIDENT COST:
R$ 4.700.000

Finalmente conseguimos medir o valor daquele conhecimento.

Só precisávamos perdê-lo primeiro.


🔴 Red Pill Management

Talvez precisemos de perguntas diferentes.

Não apenas:

Quantas pessoas contratamos?

Mas:

Quantas perdemos?

Não apenas:

Quanto reduzimos o contrato?

Mas:

Quanto aumentamos o custo total?

Não apenas:

Quantos profissionais temos?

Mas:

Onde está o conhecimento crítico?

Não apenas:

Quem executa?

Mas:

Quem sabe por que fazemos assim?

Não apenas:

Qual fornecedor possui o contrato?

Mas:

Quem continuará sabendo isso depois que o fornecedor sair?

Essas perguntas atravessam torres.


🧠 O WLM humano

Mainframe possui uma ideia maravilhosa.

WLM não deveria simplesmente perguntar:

Qual tarefa está consumindo CPU?

Ele pensa em:

objetivos de serviço.

O sistema tenta administrar recursos olhando para prioridades e resultados.

Talvez organizações precisem de algo semelhante.

Um:

Enterprise Knowledge WLM

Objetivo:

CRITICAL KNOWLEDGE
MUST REMAIN AVAILABLE

Agora RH, Procurement, Finance, TI e fornecedores deixam de otimizar isoladamente.

Precisam negociar recursos em torno de um objetivo comum.


🏯 O problema não é destruir as torres

Silos possuem função.

Especialização importa.

Não queremos RH fazendo tuning de Db2.

Nem queremos o DBA negociando plano odontológico.

🤣

A solução não é eliminar departamentos.

É construir mecanismos que enxerguem:

END-TO-END

Porque alguns problemas não pertencem a nenhuma torre.

Pertencem ao Castelo.


👑 Quem deveria ser dono?

Talvez a resposta varie.

CTO.

CIO.

CHRO.

Knowledge Management.

Workforce Strategy.

Um comitê transversal.

Não importa tanto o título.

Importa existir alguém capaz de perguntar:

Qual é o efeito conjunto das nossas decisões sobre a capacidade técnica daqui a cinco anos?

Essa pergunta raramente cabe num KPI trimestral.

Justamente por isso alguém precisa fazê-la.


🔵 A pílula azul novamente

Grandes empresas não são burras.

Executivos não ignoram necessariamente esses problemas.

Muitas organizações possuem excelentes programas de:

sucessão,

talentos,

retenção,

formação,

knowledge management,

workforce planning.

Além disso, shortages podem realmente resultar de demografia, tecnologia, mercado e mudanças educacionais.

Seria simplista culpar procurement ou terceirização.

Não é essa nossa tese.


🔴 A pílula vermelha novamente

Mas seria igualmente simplista acreditar que políticas internas não participam da equação.

Se profissionais:

ganham relativamente menos,

possuem contratos menores,

veem menos carreira,

enfrentam mais camadas,

recebem mais pressão,

possuem menos autonomia,

e encontram alternativas...

alguns sairão.

Depois disso, chamar todo o fenômeno simplesmente de:

SKILLS SHORTAGE

pode esconder parte da história.

Talvez seja também:

RETENTION SHORTAGE

ou até:

INCENTIVE DESIGN PROBLEM

🥷 O Ronin volta ao Castelo

Um dia convidam Neo para uma reunião.

Ele entra.

Olha os dashboards.

O slide diz:

MAINFRAME TALENT CRISIS

Perguntam:

— O que você acha que deveríamos fazer?

Neo olha para RH.

Depois Procurement.

Financeiro.

Projetos.

Vendor Management.

Respira.

E pergunta:

Quantos COBOLzeiros vocês formaram nos últimos cinco anos?

Alguém responde.

Quantos contrataram?

Resposta.

Quantos ainda estão aqui?

Silêncio.

Quantos saíram?

Mais silêncio.

Então vem a última:

Por que saíram?

A sala fica muito quieta.

Morpheus sorri no fundo.


☕ Cambio final, Torre de Controle

Talvez a pergunta:

“Por que faltam COBOLzeiros?”

seja grande demais para qualquer departamento responder sozinho.

RH enxerga recrutamento.

Procurement enxerga custo.

Financeiro enxerga orçamento.

Projetos enxergam capacidade.

TI enxerga tecnologia.

Vendor Management enxerga fornecedores.

Todos enxergam partes verdadeiras.

Mas sistemas complexos possuem uma característica inconveniente:

o comportamento do todo não é simplesmente a soma das intenções das partes.

Podemos ter:

bons profissionais,

bons gestores,

bons compradores,

bons recrutadores,

bons fornecedores,

bons processos.

E ainda assim produzir um resultado ruim.

Isso não exige conspiração.

Não exige incompetência.

Não exige maldade.

Talvez seja justamente o contrário.

Todos podem estar fazendo exatamente aquilo que foram incentivados a fazer.


Na última tela da reunião aparece:

CORPORATE WLM

HR ..................... RC=00
PROCUREMENT ............ RC=00
FINANCE ................. RC=00
PROJECT MANAGEMENT ...... RC=00
VENDOR MANAGEMENT ....... RC=00

---------------------------------

ENTERPRISE .............. RC=12

ROOT CAUSE:
LOCAL OPTIMIZATION

O executivo olha.

— Como todas as áreas podem estar verdes e a empresa vermelha?

Neo responde:

— Porque vocês mediram as áreas.

— E não a empresa?

Neo balança a cabeça.

— Exatamente.

Morpheus coloca duas pílulas sobre a mesa.

🔵 A azul:

TRAIN MORE PEOPLE

🔴 A vermelha:

FIND OUT WHY
THEY DON'T STAY

Talvez precisemos das duas.

Mas durante décadas prestamos muito mais atenção à primeira.


E essa talvez seja a conclusão mais inquietante de toda esta Matrix.

O problema pode não estar nos samurais.

Pode não estar no Ronin.

Pode não estar no COBOL.

Pode nem estar na terceirização isoladamente.

Pode estar na arquitetura que conecta tudo isso.

Porque sistemas fazem exatamente aquilo para que foram desenhados e incentivados — inclusive quando ninguém pretendia conscientemente produzir aquele resultado.

Então, antes de procurar culpados, talvez devêssemos fazer aquilo que todo velho mainframeiro aprende depois de sobreviver a alguns incidentes:

STOP BLAMING COMPONENTS.

TRACE THE FLOW.

FOLLOW THE DEPENDENCIES.

CHECK THE INCENTIVES.

MEASURE END-TO-END.

FIND THE ROOT CAUSE.

E se depois de tudo isso descobrirmos:

ROOT CAUSE:
CASTLE DESIGN

não adianta demitir o samurai.

Outro ocupará seu lugar.

Receberá os mesmos KPIs.

Responderá aos mesmos incentivos.

Tomará decisões semelhantes.

E alguns anos depois estaremos novamente naquela sala perguntando:

“Onde estão todos os COBOLzeiros?”

Enquanto, do lado de fora do Castelo, o Ronin toma seu café, olha para a estrada e talvez pense:

“Vocês continuam procurando pessoas para alimentar um sistema sem perguntar por que tantas pessoas querem sair dele.”

🔴🔵

Wake up, Neo.

Às vezes o problema não está em quem executa o programa.

Está no programa.

E, às vezes, nem mesmo no programa.

Está na arquitetura que decidiu como todos os programas deveriam trabalhar juntos.

Cambio final, Torre de Controle.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe // IT JOB MARKET RADAR

Mercado de Trabalho em TI: Quando Conhecimento Vira Commodity, Poder e Risco

Cinco leituras sobre salário, memória técnica, conhecimento legado, leilão reverso de profissionais e o êxodo de especialistas COBOL. Um pequeno mapa de um mercado em que experiência vale muito — até alguém tentar transformá-la em desconto.

> ANALYZE IT_WORKFORCE
STATUS=KNOWLEDGE_CRITICAL
SALARY_PRESSURE=HIGH
LEGACY_SKILLS=SCARCE
CORPORATE_MEMORY=VOLATILE
ACTION=READ_THE_EVIDENCE
01

O Spread do Conhecimento: Matrix, COBOL e o Valor do Saber

Quando conhecimento raro deixa de ser apenas competência técnica e passa a funcionar como ativo econômico dentro das organizações.

Knowledge Economics
02

Quanto Custa um Programador? Salário, Valor e Mercado

O preço de um profissional de tecnologia não é simplesmente salário: envolve experiência, escassez, produtividade, conhecimento acumulado e risco operacional.

Salary Economics
03

DELETE USER Não Apaga Memória: O Conhecimento que Sai da Empresa

Demitir ou perder um especialista é simples no RH. Recuperar décadas de contexto operacional depois pode ser impossível.

Corporate Memory
04

O Leilão Reverso do Conhecimento

Quando empresas tentam comprar cada vez mais experiência por cada vez menos dinheiro, o mercado pode transformar contratação em um leilão reverso de conhecimento.

Reverse Auction
05

O Êxodo dos COBOLzeiros

O que acontece quando profissionais que conhecem sistemas críticos descobrem que permanecer onde estão pode valer menos do que sair?

COBOL Exodus

🧠 O problema não é COBOL. É economia do conhecimento.

Empresas costumam tratar conhecimento técnico como se fosse um recurso facilmente substituível. Entretanto, sistemas corporativos acumulam décadas de regras de negócio, exceções, interfaces, decisões históricas e conhecimento informal que raramente aparece integralmente na documentação.

Quando o profissional sai, o USERID pode ser apagado imediatamente. O contexto que ele carregava não possui um comando equivalente.

01 Pressão salarial
02 Saída do especialista
03 Perda de contexto
04 Incidente
05 Consultoria cara

📚 Leituras sobre mercado de trabalho, COBOL e conhecimento em TI

BELLACOSA MAINFRAME // KNOWLEDGE IS NOT A REPLACEABLE RESOURCE

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Êxodo dos COBOLzeiros: quando ganhar menos em outra carreira começa a parecer um ótimo negócio

Bellacosa Maifnrame e o exodo dos cobolzeiros

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Êxodo dos COBOLzeiros: quando ganhar menos em outra carreira começa a parecer um ótimo negócio

🔴🔵 Matrix, mainframe e o paradoxo de uma indústria que reclama da falta de especialistas enquanto torna cada vez menos atraente continuar sendo um deles

Por Vagner Bellacosa


VAGA:

30 ANOS DE EXPERIÊNCIA
COBOL
CICS
DB2
JCL
VSAM
MQ
RACF
PRODUÇÃO
SISTEMA FINANCEIRO
PLANTÃO
INCIDENTES
AUDITORIA
COMPLIANCE
DEVOPS
APIs

CONTRATO: 12 MESES
RENOVAÇÃO: INCERTA
CARREIRA: N/A
ESTABILIDADE: N/A

SALÁRIO: "A COMBINAR"

Neo olha para a tela.

Lê novamente.

Trinta anos de experiência.

COBOL.

CICS.

Db2.

JCL.

VSAM.

MQ.

RACF.

Produção.

Incidentes.

Auditoria.

Compliance.

DevOps.

APIs.

Disponibilidade.

Responsabilidade.

Conhecimento de negócio.

Contrato de doze meses.

Ele permanece alguns segundos olhando para o monitor.

Depois fecha a vaga.

Abre outra janela.

Morpheus aparece atrás dele.

— Vai para onde?

Neo olha para a tela.

— Ainda não sei.

Faz uma pausa.

E responde:

Só descobri que não preciso continuar aqui.

Silêncio.

Morpheus sorri.

Pegue seu café.

Hoje não vamos falar sobre como trazer gente para o mainframe.

Vamos falar sobre uma pergunta talvez ainda mais importante:

Por que alguns dos que já estão aqui começam a querer ir embora?


💊 Temos novamente duas pílulas

🔵 A pílula azul diz:

Existe falta de profissionais COBOL porque a tecnologia é antiga, muitos especialistas estão se aposentando e poucas pessoas entraram durante determinadas décadas.

Existe bastante verdade nisso.

Agora Morpheus levanta a outra mão.

🔴 A pílula vermelha pergunta:

E quantos profissionais que poderiam continuar simplesmente decidiram que continuar deixou de valer a pena?

Essa pergunta muda completamente o diagnóstico.

Porque talvez tenhamos passado anos discutindo apenas:

COMO COLOCAR MAIS GENTE?

quando deveríamos também perguntar:

POR QUE GENTE EXPERIENTE ESTÁ SAINDO?

São problemas diferentes.

E exigem soluções completamente diferentes.


🧓 O COBOLzeiro não nasceu sênior

Existe algo curioso quando olhamos para um profissional com trinta anos de experiência.

Parece que ele sempre esteve ali.

Como um IBM Z.

Você entra no CPD e imagina que aquilo nasceu junto com o prédio.

🤣

Mas não.

Aquele profissional precisou ser construído.

Começou sem saber.

Aprendeu COBOL.

Depois JCL.

Depois arquivos.

Depois banco de dados.

Depois CICS.

Depois produção.

Depois negócio.

Depois descobriu que produção é uma universidade que oferece cursos intensivos às três da manhã.

CURSO:
DIAGNÓSTICO DE INCIDENTES I

HORÁRIO:
03:17

INSTRUTOR:
PRODUÇÃO PARADA

MATERIAL DIDÁTICO:
SYSLOG

AVALIAÇÃO:
CEO ESPERANDO

Essa disciplina costuma formar especialistas rapidamente.


📚 Trinta anos comprimidos em “Senior Developer”

O currículo diz:

Senior Mainframe Developer.

Cinco palavras.

Atrás delas existem décadas.

Primeiro abend.

Primeira implantação.

Primeira recuperação.

Primeiro incidente crítico.

Primeira madrugada.

Primeira decisão errada.

Primeira vez que alguém disse:

“Isso nunca aconteceu antes.”

E ele descobriu que essa frase significa:

“Boa sorte.”

Tudo isso vira:

EXPERIENCE: 30 YEARS

É uma compressão extraordinária.

Mas existe um problema.

Esses trinta anos precisam continuar fazendo sentido economicamente para quem os carregou.


💰 O prêmio da complexidade

Toda profissão difícil precisa oferecer algum motivo para as pessoas continuarem nela.

Pode ser:

dinheiro,

estabilidade,

autonomia,

prestígio,

carreira,

benefícios,

aprendizado,

flexibilidade,

qualidade de vida,

propósito.

Normalmente é uma combinação.

Vamos chamar isso de:

Prêmio da Complexidade

Quanto mais difícil, arriscada, especializada ou desgastante uma atividade, maior precisa ser alguma forma de compensação.

Não necessariamente apenas salário.

Imagine:

ALTA RESPONSABILIDADE
+
ALTA ESPECIALIZAÇÃO
+
ALTA PRESSÃO
+
ALTA REGULAÇÃO
+
ALTA DISPONIBILIDADE
+
ALTO CUSTO DE FORMAÇÃO
+
ALTA CONSEQUÊNCIA DO ERRO

=

PRECISA EXISTIR ALGUMA
COMPENSAÇÃO ATRAENTE

Se ela desaparece, surge uma pergunta inevitável:

Por que continuar?


🏦 Software financeiro não é CRUD da padaria

Nada contra a padaria.

Aliás, adoro padaria.

Mas determinados sistemas financeiros carregam características particulares.

Um erro pode afetar:

milhares de clientes,

milhões de transações,

pagamentos,

cartões,

contabilidade,

investimentos,

crédito,

liquidação,

regulação,

reputação.

Portanto existe enorme quantidade de controle.

E corretamente.

Auditoria.

Segurança.

Segregação de funções.

Change management.

Homologação.

Compliance.

Arquitetura.

Gestão de risco.

Aprovações.

Revisões.

Evidências.

Nada disso existe apenas para irritar o programador.

São sistemas críticos.

Precisam de controle.

A pílula azul está correta.


🔴 Mas existe o outro lado

O profissional pode viver algo assim:

AUTONOMIA ............... ↓
BUROCRACIA .............. ↑
RESPONSABILIDADE ........ ↑
PRESSÃO ................. ↑
RISCO ................... ↑
CONTROLE ................ ↑
ESTABILIDADE ............ ↓
PRÊMIO SALARIAL ......... ↓

Então chega um momento em que ele olha para a equação e pergunta:

“Ainda vale?”

Não:

“O salário é bom?”

Essa é outra pergunta.

Ainda vale?


💵 R$ 15 mil pode ser muito e pouco ao mesmo tempo

Essa discussão exige cuidado.

Uma remuneração considerada alta em relação ao conjunto do mercado de trabalho pode ser percebida como insuficiente para determinada combinação de senioridade, especialização, pressão, risco, disponibilidade e instabilidade.

As duas coisas podem ser verdade.

O profissional não compara apenas:

MEU SALÁRIO
versus
SALÁRIO MÉDIO

Ele também compara:

MINHA REMUNERAÇÃO

versus

TUDO QUE PRECISO ENTREGAR
PARA RECEBÊ-LA

Essa segunda conta pode produzir resultados surpreendentes.


🧮 O ROI da própria carreira

Depois de décadas, o profissional começa a fazer algo que talvez não fizesse aos vinte anos.

Calcula o retorno da carreira.

ROI DA CARREIRA =

DINHEIRO
+ ESTABILIDADE
+ AUTONOMIA
+ RECONHECIMENTO
+ APRENDIZADO
+ QUALIDADE DE VIDA

-

PRESSÃO
- INCERTEZA
- TEMPO
- RESPONSABILIDADE
- ATUALIZAÇÃO
- BUROCRACIA
- PLANTÕES
- ESTRESSE

Obviamente isso não é uma equação financeira real.

É uma forma de pensar.

E então acontece algo fascinante.

Outra profissão pode pagar menos...

e apresentar ROI pessoal maior.


🚪 A porta lateral da Matrix

Imagine duas oportunidades.

Trabalho A

RENDA ............... 15
PRESSÃO .............. 9
INSTABILIDADE ........ 8
BUROCRACIA ........... 9
RESPONSABILIDADE ..... 10
AUTONOMIA ............ 3

Trabalho B

RENDA ............... 11
PRESSÃO .............. 4
INSTABILIDADE ........ 3
BUROCRACIA ........... 4
RESPONSABILIDADE ..... 6
AUTONOMIA ............ 7

Durante muito tempo imaginamos que A venceria automaticamente.

Porque:

15 > 11.

Mas seres humanos não executam apenas:

IF SALARY-A > SALARY-B
   MOVE 'A' TO CAREER.

Existe vida em volta da variável.


☕ Quanto custa sua paz?

Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes que aparecem depois de décadas trabalhando.

Aos vinte anos:

Quanto consigo ganhar?

Depois:

Quanto consigo crescer?

Depois:

Quanto consigo acumular?

E talvez um dia:

Quanto estão me pagando para comprar minha paz?

Essa mudança altera tudo.

Quatro mil reais adicionais podem parecer extraordinários.

Até você descobrir que eles compram:

noites,

finais de semana,

plantões,

incerteza,

reuniões,

pressão,

deslocamento,

responsabilidade,

sono.

Então talvez alguém diga:

“Prefiro ganhar menos.”

Quem olha apenas para salário responde:

— Ficou maluco?

Quem olha para a função completa talvez responda:

— Interessante.


🏃 O profissional que saiu de TI

Existe uma narrativa comum:

“Fulano abandonou tecnologia.”

Como se tivesse fracassado.

Talvez não.

Talvez Fulano tenha feito uma sofisticada realocação de capital humano.

Ele descobriu que consegue produzir renda suficiente em outra atividade com:

menos pressão,

mais previsibilidade,

mais autonomia,

menos burocracia,

mais continuidade,

mais tempo.

Economicamente pode ser perfeitamente racional.

Ele não necessariamente desistiu.

Recalculou.


🏷️ O elo mais distante

Agora retornamos ao terceirizado e ao quarteirizado.

Imagine:

CLIENTE
   ↓
CONSULTORIA
   ↓
SUBCONTRATADA
   ↓
FORNECEDOR
   ↓
PROFISSIONAL

Quanto mais distante do contratante principal, menor pode ser seu poder sobre as decisões comerciais.

Mas sua proximidade com o risco técnico pode continuar enorme.

Ele não decide:

orçamento,

fornecedor,

contrato,

estratégia,

prazo comercial,

modelo de contratação.

Mas pode ser ele quem altera:

PROGRAMA DE PAGAMENTOS

Olha a assimetria:

PODER ORGANIZACIONAL ........ BAIXO

IMPACTO POTENCIAL
DE UM ERRO .................. ALTÍSSIMO

Isso deveria despertar alguma curiosidade.


👑 Muito cacique, pouco índio

Ambientes grandes inevitavelmente possuem hierarquias.

Gerente.

Coordenador.

Arquiteto.

Segurança.

Compliance.

Auditoria.

Produto.

Scrum Master.

Project Manager.

Change Manager.

Release Manager.

Fornecedor.

Subfornecedor.

Todos podem possuir funções legítimas.

O problema aparece quando quem efetivamente altera o sistema começa a perceber:

PESSOAS DIZENDO
COMO FAZER ................. 17

PESSOAS FAZENDO ............ 3

🤣

A burocracia deixa de parecer proteção e começa a parecer atrito.

E atrito também possui custo.


🔥 Pressão sem autonomia

Essa combinação merece atenção.

Alta responsabilidade com alta autonomia pode ser estimulante.

Baixa responsabilidade com baixa autonomia pode ser confortável.

Mas:

ALTA RESPONSABILIDADE
+
BAIXA AUTONOMIA

pode ser extremamente desgastante.

Você responde pelo resultado.

Mas não controla:

prazo,

ferramenta,

processo,

arquitetura,

fornecedor,

prioridade,

ambiente.

É como ser piloto de avião enquanto quinze pessoas seguram partes diferentes do manche.

E no final perguntam:

“Por que você não pousou melhor?”


📉 O prêmio salarial costumava silenciar muita coisa

Historicamente, determinadas carreiras técnicas conseguiam compensar ambientes difíceis oferecendo remuneração suficientemente atraente.

O profissional pensava:

É complicado.

É estressante.

Tem plantão.

Tem burocracia.

Mas paga muito bem.

Esse último item resolvia bastante coisa.

Não eliminava o problema.

Comprava tolerância ao problema.

Se o prêmio relativo diminui enquanto a complexidade permanece — ou aumenta — a equação muda.

ANTES:

COMPLEXIDADE = 10
COMPENSAÇÃO = 10

ACEITÁVEL

Depois:

COMPLEXIDADE = 12
COMPENSAÇÃO = 7

HUM...

Morpheus começa a aparecer novamente.


🧓 O veterano possui uma vantagem perigosa

Ele sabe que existem outras coisas.

Já viu empresas nascerem.

Empresas morrerem.

Tecnologias aparecerem.

Tecnologias desaparecerem.

Projetos terminarem.

Chefes mudarem.

Metodologias passarem.

Consultorias trocarem.

Ele descobre uma coisa libertadora:

Nenhum projeto é eterno.

Então começa a perder o medo de sair.

Esse é um momento importante.

Porque muitas relações de trabalho são sustentadas parcialmente pela percepção:

“Não existe alternativa.”

Quando o profissional percebe que existe...

a Matrix treme um pouquinho.


♻️ E ainda existe o leilão reverso

No capítulo anterior vimos algo particularmente estranho.

O profissional passa um ano aprendendo.

Agora sabe mais.

O contrato é renovado com outro fornecedor.

E recebe proposta menor para continuar.

EXPERIÊNCIA ........ +1 ANO
CONHECIMENTO ........ +1 ANO
PRODUTIVIDADE ....... ↑

SALÁRIO ............. ↓

Ele aceita.

Talvez.

Por causa dos boletos.

Mas alguma coisa mudou.

OPEN_TO_WORK = Y

A organização comemora retenção.

Tecnicamente ele ficou.

Humanamente talvez já tenha começado a sair.


🚨 Retenção física não é retenção emocional

Essa diferença é enorme.

O profissional está sentado na cadeira.

Logo:

“Retivemos.”

Não necessariamente.

Você reteve presença.

Talvez tenha perdido pertencimento.

Ele entrega.

Cumpre horários.

Resolve chamados.

Mas parou de:

sugerir,

experimentar,

ensinar espontaneamente,

ficar dez minutos extras,

defender a organização,

pensar no longo prazo.

Não porque virou mau profissional.

Ele apenas recalibrou a relação.


🚪 “É uma porta de entrada”

E então aparece:

“Aceite um pouco menos. Pense como uma porta de entrada.”

Entrada para onde?

Essa pergunta deveria ser automática.

Existe carreira?

Existem níveis?

Existem promoções?

Existe treinamento?

Existe realocação?

Existe bench?

Existe investimento?

Existe orçamento?

Ou existe apenas:

CLIENTE
   ↓
PROJETO
   ↓
12 MESES
   ↓
???

Promessa sem mecanismo não é plano de carreira.

É possibilidade.

Possibilidades podem acontecer.

Mas não deveriam ser vendidas como garantias.


🧬 O problema da não capitalização

Uma organização pode tratar conhecimento de duas maneiras.

Modelo 1 — Capital

CONTRATA
   ↓
TREINA
   ↓
DESENVOLVE
   ↓
CERTIFICA
   ↓
PROMOVE
   ↓
RETÉM

Ela acredita:

Essa pessoa será mais valiosa daqui a cinco anos.

Modelo 2 — Capacidade

PRECISO AGORA
   ↓
CONTRATO
   ↓
UTILIZO
   ↓
PROJETO TERMINA
   ↓
LIBERO

Nenhum dos modelos é automaticamente imoral.

O problema é querer obter do Modelo 2 o comportamento emocional do Modelo 1.


❤️ “Vista a camisa”

O profissional responde:

— De qual empresa?

🤣

Essa pergunta fica especialmente divertida quando existem quatro camadas contratuais.

CLIENTE
  ↓
CONSULTORIA A
  ↓
CONSULTORIA B
  ↓
EMPRESA C
  ↓
NEO

Qual camisa?

Quem oferece carreira?

Quem oferece estabilidade?

Quem investe?

Quem recebe lealdade?

Relacionamentos humanos precisam de alguma reciprocidade.


🧠 O Memory Leak humano

Agora chegamos ao ponto central.

A indústria diz:

“Estamos com falta de profissionais COBOL.”

Então criamos:

bootcamps,

cursos,

universidades,

programas de formação,

academias,

treinamentos.

Excelente.

Precisamos disso.

Mas imagine:

ENTRADA:

100 NOVOS PROFISSIONAIS
         ↓
      SISTEMA
         ↓
SAÍDA:

30 MUDARAM DE TECNOLOGIA
20 MUDARAM DE CARREIRA
15 SE APOSENTARAM
10 SAÍRAM DO SETOR
25 CONTINUARAM

Talvez o problema não esteja apenas no INPUT.

Existe vazamento no OUTPUT.


💾 MEMORY LEAK DETECTED

Programadores conhecem esse problema.

Você continua alocando memória.

Mas não controla adequadamente o ciclo de vida.

Depois reclama:

“Onde foi parar toda a memória?”

No mercado de trabalho podemos fazer algo parecido.

ALLOCATE JUNIOR
ALLOCATE JUNIOR
ALLOCATE JUNIOR
ALLOCATE JUNIOR

FREE SENIOR
FREE SENIOR
FREE SENIOR

Depois:

ERROR:
SENIOR RESOURCE NOT AVAILABLE

🤣

Talvez não seja surpresa.


🔍 Shortage ou retention failure?

Essa distinção é fundamental.

Problema A

Não existem profissionais suficientes.

Solução:

TRAIN MORE

Problema B

Existem profissionais, mas muitos não querem continuar.

Solução:

MAKE STAYING WORTHWHILE

Se diagnosticarmos B como A, podemos passar décadas treinando gente para alimentar uma esteira que continua perdendo pessoas do outro lado.


🏚️ A casa com a porta dos fundos aberta

Imagine uma casa.

Pessoas entram pela frente.

BOOTCAMP
UNIVERSIDADE
CURSO
TREINAMENTO

Enquanto isso, atrás:

SÊNIOR
VETERANO
ESPECIALISTA

estão saindo.

A administração olha para a fila da frente:

Precisamos aumentar recrutamento!

Talvez.

Mas alguém deveria verificar a porta dos fundos.


💰 Retenção também é economia

Existe uma ironia nisso.

Reter alguém parece caro.

Aumento salarial.

Benefício.

Treinamento.

Carreira.

Flexibilidade.

Mas substituir também custa.

Recrutamento.

Onboarding.

Treinamento.

Curva de aprendizado.

Erros.

Produtividade menor.

Conhecimento perdido.

Mentoria.

Risco operacional.

Talvez:

CUSTO DE RETER
<
CUSTO DE SUBSTITUIR

Mas o primeiro aparece claramente na planilha.

O segundo está espalhado por quinze centros de custo.

E aquilo que está espalhado é muito mais fácil de ignorar.


🕯️ Conhecimento não sai sozinho

Quando um veterano vai embora, não perdemos apenas:

HEADCOUNT = -1

Podemos perder:

história,

contexto,

atalhos,

memória de incidentes,

relações,

conhecimento tácito,

capacidade de diagnóstico,

mentoria,

decisões que nunca foram documentadas.

Um profissional pode ser substituído administrativamente em quinze dias.

Sua experiência talvez leve quinze anos.


🤖 “IA vai resolver”

Talvez ajude enormemente.

IA pode:

explicar COBOL,

documentar código,

ajudar novos profissionais,

buscar conhecimento,

gerar testes,

resumir sistemas,

auxiliar modernização.

Fantástico.

Mas existe uma armadilha.

Se usarmos IA apenas para concluir:

“Agora posso pagar ainda menos porque a máquina ajuda.”

talvez estejamos repetindo exatamente o problema.

Tecnologia deveria aumentar produtividade.

A pergunta econômica continua:

Quem captura esse ganho?

A empresa?

O profissional?

O cliente?

Todos?

Se cada salto de produtividade apenas comprime a remuneração de quem permaneceu, o incentivo para permanecer continua diminuindo.


🧑‍🏫 O veterano como multiplicador

Talvez estejamos calculando errado o valor do sênior.

Ele não produz apenas aquilo que faz.

Produz aquilo que permite outros fazerem.

VETERANO
  │
  ├── resolve problemas
  ├── evita erros
  ├── ensina juniores
  ├── preserva contexto
  ├── acelera diagnóstico
  └── transmite cultura técnica

Sua produtividade real é multiplicativa.

Quando ele sai, talvez não percamos uma unidade.

Perdemos parte da eficiência de outras dez.

Boa sorte colocando isso no Excel.


🔴 A verdadeira escassez

Talvez a escassez mais perigosa não seja:

“Pouca gente sabe COBOL.”

Talvez seja:

“Pouca gente que sabe COBOL ainda acha interessante continuar fazendo COBOL nas condições oferecidas.”

Essa frase muda tudo.

Porque conhecimento pode existir.

O profissional pode existir.

A vaga pode existir.

O salário pode parecer bom.

E mesmo assim:

MATCH = FALSE

O mercado chama isso de falta de talento.

O profissional chama de:

“Não vale a pena.”


🧭 O dinheiro não precisa vencer tudo

Esse talvez seja o grande aprendizado.

Durante muito tempo algumas profissões conseguiam comprar tolerância.

O ambiente era difícil.

Mas o salário dizia:

Aguente.

Quando essa diferença diminui, outras variáveis começam a falar mais alto.

Tempo.

Família.

Sono.

Autonomia.

Continuidade.

Saúde.

Liberdade.

Projetos pessoais.

Curiosidade.

Paz.

E então ganhar menos pode realmente começar a parecer um excelente negócio.


🕶️ Wake up, Neo

Voltamos àquela vaga.

COBOL
CICS
DB2
JCL
VSAM
MQ
RACF
30 ANOS
PRODUÇÃO
PLANTÃO
COMPLIANCE
AUDITORIA
APIs
DEVOPS

CONTRATO: 12 MESES

Neo olha.

Durante trinta anos pensou:

Preciso encontrar o próximo projeto.

Desta vez surge outra pergunta:

Preciso?

Talvez possa ensinar.

Talvez possa empreender.

Talvez possa trabalhar com outra tecnologia.

Talvez possa aceitar uma atividade que pague menos.

Talvez possa transformar conhecimento em conteúdo.

Talvez possa fazer consultoria própria.

Talvez possa simplesmente escolher uma vida menos complicada.

O importante não é qual alternativa escolherá.

É perceber que existem alternativas.


🔵 A pílula azul

Mainframe continua processando alguns dos sistemas mais importantes do planeta.

COBOL continua possuindo enorme relevância em sistemas críticos.

Existem excelentes empresas.

Excelentes carreiras.

Excelentes salários.

Excelentes projetos.

Existem organizações que valorizam veteranos.

Treinam novos profissionais.

Constroem sucessão.

Investem em conhecimento.

Criam ambientes onde pessoas querem permanecer.

Não existe inevitavelmente um êxodo universal.

E transformar a discussão em “mainframe é uma carreira ruim” seria intelectualmente preguiçoso.

Não é isso.


🔴 A pílula vermelha

A tecnologia pode continuar excelente enquanto determinadas relações econômicas se tornam pouco atraentes.

Uma plataforma pode ser estratégica enquanto o profissional que a mantém se sente commodity.

Uma empresa pode reclamar da escassez enquanto contribui para a rotatividade.

Um salário pode ser alto e ainda assim não pagar adequadamente o pacote de pressão, risco e instabilidade exigido.

E uma indústria pode investir milhões formando profissionais enquanto economiza milhares de reais de maneira que incentiva veteranos a sair.

As duas realidades podem coexistir.


☕ Cambio final, Torre de Controle

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Perguntamos:

Onde encontraremos os próximos COBOLzeiros?

Boa pergunta.

Mas existe outra antes dela:

O que estamos fazendo para que os COBOLzeiros atuais queiram continuar sendo COBOLzeiros?

Porque não basta formar.

É preciso reter.

Não basta contratar.

É preciso tornar a permanência racional.

Não basta dizer:

“Você é estratégico.”

Se o contrato diz:

12 MESES

Não basta dizer:

“Seu conhecimento é crítico.”

Se a remuneração diz:

COMMODITY

Não basta dizer:

“Temos dificuldade em encontrar profissionais.”

se toda renovação pergunta:

CONSEGUE FAZER MAIS BARATO?

Em algum momento o profissional também fará sua própria concorrência.

Só que os fornecedores serão:

CARREIRA A
CARREIRA B
CONSULTORIA PRÓPRIA
ENSINO
EMPREENDER
OUTRA TECNOLOGIA
TRABALHAR MENOS
VIVER MAIS

E talvez mainframe não apresente a proposta vencedora.


Neo fecha a vaga.

Morpheus pergunta:

— Você vai aceitar ganhar menos?

Neo responde:

— Talvez.

— Isso não é um retrocesso?

Neo sorri.

— Depende daquilo que estou comprando com a diferença.

Morpheus permanece em silêncio.

Neo continua:

Talvez eu esteja comprando tempo.

Talvez esteja comprando previsibilidade.

Talvez esteja comprando autonomia.

Talvez esteja comprando paz.

Talvez eu finalmente tenha percebido que salário não é a única moeda da Matrix.

Na tela:

CAREER OPTIONS

SALARY .............. -20%
PRESSURE ............ -60%
INSTABILITY ......... -70%
BUREAUCRACY ......... -50%
AUTONOMY ............ +40%
FREE TIME ........... +50%

CONTINUE? Y/N

Neo digita:

Y

ENTER.


E talvez, meses depois, alguém abra uma reunião executiva.

Slide número 27.

Título:

MAINFRAME SKILLS SHORTAGE

Um executivo pergunta:

— Por que está tão difícil encontrar especialistas?

A sala fica em silêncio.

Alguém sugere:

— Precisamos formar mais gente.

Boa ideia.

Mais bootcamps.

Mais cursos.

Mais academias.

Mais programas de capacitação.

Mas ninguém pergunta:

Onde foram parar aqueles que já tínhamos?

Essa pergunta não estava no PowerPoint.

Talvez devesse estar.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. SKILLS-SHORTAGE.

       DATA DIVISION.
       WORKING-STORAGE SECTION.

       01 WS-NEW-TALENT        PIC 9(05).
       01 WS-SENIORS-LEFT      PIC 9(05).
       01 WS-RETENTION         PIC 9(03)V99.
       01 WS-WILLINGNESS       PIC 9(03)V99.

       PROCEDURE DIVISION.

           PERFORM TRAIN-NEW-PEOPLE.

           IF WS-SENIORS-LEFT > 0
               DISPLAY
               'WARNING: CHECK THE BACK DOOR'
           END-IF.

           IF WS-WILLINGNESS < ACCEPTABLE
               DISPLAY
               'SHORTAGE MAY NOT BE
                A TRAINING PROBLEM'
           END-IF.

           DISPLAY
              'MAKE STAYING WORTHWHILE'.

           STOP RUN.

🔴🔵

Wake up, Neo.

Talvez não estejam faltando apenas COBOLzeiros.

Talvez alguns simplesmente tenham descoberto que existe vida fora da Matrix.

E quando um profissional altamente especializado percebe que pode ganhar um pouco menos em troca de muito mais continuidade, autonomia, previsibilidade e paz...

o problema deixa de ser recrutamento.

Passa a ser proposta de valor da carreira.

Porque salário não remunera apenas trabalho.

Em profissões difíceis, ele também precisa remunerar:

a vontade de continuar fazendo aquele trabalho.

E quando essa conta deixa de fechar...

não existe PROCUREMENT, BOOTCAMP, POWERPOINT ou OPEN POSITION capaz de obrigar Neo a tomar novamente a pílula azul.

Cambio final, Torre de Controle.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe // IT JOB MARKET RADAR

Mercado de Trabalho em TI: Quando Conhecimento Vira Commodity, Poder e Risco

Cinco leituras sobre salário, memória técnica, conhecimento legado, leilão reverso de profissionais e o êxodo de especialistas COBOL. Um pequeno mapa de um mercado em que experiência vale muito — até alguém tentar transformá-la em desconto.

> ANALYZE IT_WORKFORCE
STATUS=KNOWLEDGE_CRITICAL
SALARY_PRESSURE=HIGH
LEGACY_SKILLS=SCARCE
CORPORATE_MEMORY=VOLATILE
ACTION=READ_THE_EVIDENCE
01

O Spread do Conhecimento: Matrix, COBOL e o Valor do Saber

Quando conhecimento raro deixa de ser apenas competência técnica e passa a funcionar como ativo econômico dentro das organizações.

Knowledge Economics
02

Quanto Custa um Programador? Salário, Valor e Mercado

O preço de um profissional de tecnologia não é simplesmente salário: envolve experiência, escassez, produtividade, conhecimento acumulado e risco operacional.

Salary Economics
03

DELETE USER Não Apaga Memória: O Conhecimento que Sai da Empresa

Demitir ou perder um especialista é simples no RH. Recuperar décadas de contexto operacional depois pode ser impossível.

Corporate Memory
04

O Leilão Reverso do Conhecimento

Quando empresas tentam comprar cada vez mais experiência por cada vez menos dinheiro, o mercado pode transformar contratação em um leilão reverso de conhecimento.

Reverse Auction
05

O Êxodo dos COBOLzeiros

O que acontece quando profissionais que conhecem sistemas críticos descobrem que permanecer onde estão pode valer menos do que sair?

COBOL Exodus

🧠 O problema não é COBOL. É economia do conhecimento.

Empresas costumam tratar conhecimento técnico como se fosse um recurso facilmente substituível. Entretanto, sistemas corporativos acumulam décadas de regras de negócio, exceções, interfaces, decisões históricas e conhecimento informal que raramente aparece integralmente na documentação.

Quando o profissional sai, o USERID pode ser apagado imediatamente. O contexto que ele carregava não possui um comando equivalente.

01 Pressão salarial
02 Saída do especialista
03 Perda de contexto
04 Incidente
05 Consultoria cara

📚 Leituras sobre mercado de trabalho, COBOL e conhecimento em TI

BELLACOSA MAINFRAME // KNOWLEDGE IS NOT A REPLACEABLE RESOURCE
Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...