☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta nostalgia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta nostalgia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

Ou: antes do Teams, do escritório inteligente e do RH falar em “engajamento”, já existiam o Clube da Veja, o Clube da Bolacha, a vaquinha do aniversário, o churrasco da firma — e uma certa Rosalaine capaz de fazer um office-boy correr mais rápido que Hermes

Pegue um café.

Hoje não vamos falar de COBOL.

Não haverá CICS, Db2, VSAM, JCL nem abend misterioso esperando no fim do artigo.

Hoje vamos abrir um arquivo muito mais antigo e talvez mais complicado de restaurar.

O backup da memória.

A culpa começou com a revista Veja.

Outro dia, enquanto remexia algumas lembranças envolvendo a revista, aconteceu aquilo que frequentemente ocorre com quem já possui algumas décadas de dados armazenados no HD biológico: você procura um arquivo e descobre um diretório inteiro.

Uma lembrança chamou outra.

Depois outra.

E mais outra.

Quando percebi, não estava mais pensando na revista.

Estava novamente dentro de um escritório da Avenida Paulista, antes do ano 2000, numa época em que palavras como smart office, employee experience, collaboration platform, digital workplace e people analytics ainda não haviam sido inventadas para explicar coisas que nós simplesmente chamávamos de:

trabalhar com gente.

Para otimizar essa memória, convoquei três consultores especializados em observar o comportamento do brasileiro:

Laerte, Glauco e Angeli.

E, naturalmente, deixei o temível Leão de Chácara cuidando da porta.

Porque memória corporativa antiga não é assunto para amadores.


🏢 O escritório antes de virar “workspace”

Quem começou a trabalhar nas últimas duas décadas talvez tenha dificuldade para imaginar o tamanho de alguns departamentos empresariais dos anos 1980 e 1990.

Hoje uma atividade pode passar por ERP, workflow, e-mail, portal corporativo, API, chatbot, RPA, inteligência artificial e meia dúzia de sistemas.

Naquela época, boa parte dessa infraestrutura tinha nome, sobrenome e crachá.

Eram pessoas.

Muitas pessoas.

Departamentos com cinquenta, sessenta, oitenta funcionários não eram particularmente estranhos.

Alguns chegavam perto de uma centena.

Dentro deles havia setores menores, frequentemente três ou quatro, cada qual com sua chefia, suas mesas, seus arquivos, seus telefones e seus pequenos universos.

Existia o organograma oficial:

Diretor → Gerente → Chefes → Setores → Funcionários.

Mas havia outro organograma.

Nunca impresso.

Nunca aprovado pela diretoria.

Nunca enviado ao RH.

E provavelmente muito mais importante para entender como aquela empresa realmente funcionava.


Era o organograma social.

Nele estavam as secretárias, os office-boys, o pessoal que sabia onde ficava determinada pasta, quem conhecia alguém na contabilidade, quem sabia qual gerente estava de bom humor, quem organizava o aniversário, quem cobrava a vaquinha, quem fazia o café e quem sabia onde estava a revista que desaparecera havia três dias.

Era uma rede.

Só não chamávamos de rede social.


👩‍💼 A secretária era o roteador social do departamento

A secretária daquela época merece um capítulo próprio.

Aliás, merece uma homenagem.

Sua função formal podia envolver agenda, telefone, correspondência, documentos, reuniões e suporte administrativo.

Mas sua função real era muito maior.

Ela sabia quem estava de férias.

Quem faltara.

Quem precisava falar com o gerente.

Quem estava esperando uma ligação.

Quem fazia aniversário naquela semana.

Quem ia casar.

Quem acabara de ter filho.

Quem estava prestes a se aposentar.

Quem ainda não havia pago a vaquinha.

E, naturalmente, quem estava enrolando para pagar a assinatura da revista.

Em termos mainframeiros, a secretária era simultaneamente:

Scheduler + Service Desk + Workflow + Event Manager + Social Network + Knowledge Base.

Com uma vantagem importante:

ela conhecia as pessoas.

E existia uma hierarquia entre elas.

Cada setor podia possuir sua secretária e uma secretária departamental ajudava a coordenar aquele pequeno universo.

Não estava escrito no organograma informal.

Não precisava.

Todo mundo sabia.


📰 O Clube da Assinatura

Eis uma instituição praticamente desaparecida:

o Clube da Assinatura.

O departamento assinava uma revista.

No nosso caso, entre elas estava a Veja.

Cada participante contribuía com uma pequena cota e, quando chegava o vencimento, entrava em funcionamento um sofisticadíssimo sistema financeiro.

A secretária.

— Pessoal, chegou a hora da assinatura.

Pronto.

Começava a arrecadação.

Não havia PIX.

Não havia aplicativo.

Não havia link de pagamento.

Havia dinheiro, controle, cobrança e memória.

Especialmente memória.

Porque a secretária sabia perfeitamente quem ainda não tinha pago.

Quando a revista chegava, começava outro protocolo.

Ela circulava.

Alguém lia.

Passava para outro.

Esse levava para o almoço.

Outro perguntava:

— Cadê a Veja?

— Está com o fulano.

Era uma espécie de Token Ring editorial.

O pacote precisava circular pelos nós da rede até completar o percurso.

E ninguém precisava de Wi-Fi.


🍪 O Clube da Bolacha

Mas o verdadeiro sistema crítico ficava dentro de um armário.

O Clube da Bolacha.

Cada participante contribuía com um ticket-almoço e, com os recursos arrecadados, abastecíamos um dos armários do departamento.

Aquilo era um pequeno paraíso da gula.

Bolachas.

Biscoitos.

Doces.

Salgados.

Coisas destinadas a salvar funcionários naquele momento crítico entre o almoço e o fim do expediente.

Hoje talvez alguém criasse um projeto chamado:

Corporate Employee Snack Experience Initiative.

Nós chamávamos de:

armário da bolacha.

Funcionava perfeitamente.

Até alguém comer a última.

Aí tínhamos um incidente de produção.

— QUEM ACABOU COM A BOLACHA E NÃO AVISOU?

Severity 1.

War Room imediatamente.

Laerte, Glauco e Angeli poderiam passar uma semana naquele departamento e sair com material para cinco anos.


🎂 A indústria da vaquinha

Outro componente essencial da infraestrutura corporativa era a:

vaquinha.

Tudo justificava uma.

Aniversário?

Vaquinha.

Casamento?

Vaquinha.

Nascimento de filho?

Vaquinha.

Aposentadoria?

Vaquinha.

Dia da Secretária?

Vaquinha.

Ocasião especial?

Evidentemente:

vaquinha.

Nos aniversariantes do mês, juntava-se dinheiro para comprar bolo e alguma lembrancinha.

E então surgia outro artefato arqueológico maravilhoso:

o cartão.

O cartão circulava clandestinamente pelo departamento.

Todo mundo precisava assinar sem que o homenageado percebesse.

Era uma operação de inteligência.

— Passa para o João.

— Mas não deixa a Maria ver.

— O Carlos ainda não assinou.

— Cadê o cartão?

— Está no financeiro.

No final apareciam dezenas de assinaturas.

Algumas simplesmente:

Parabéns!

Outras:

Muitas felicidades!

Outras continham piadas internas que provavelmente seriam completamente indecifráveis para qualquer arqueólogo digital de 2126.

Mas aquele cartão tinha uma coisa que nenhum botão de 👍 conseguiu substituir completamente.

Ele havia passado pelas mãos das pessoas.



❤️ A empresa entrava um pouco na vida

É preciso tomar cuidado para não transformar nostalgia em história cor-de-rosa.

Os escritórios antigos também tinham problemas.

Hierarquias pesadas.

Burocracia.

Chefias ruins.

Fofocas.

Favoritismos.

Conflitos.

Tecnologia limitada.

Processos que hoje consideraríamos absurdamente ineficientes.

Não estou propondo ressuscitar tudo aquilo.

Mas havia uma característica interessante:

a fronteira entre vida profissional e convivência social era diferente.

Quando alguém casava, o departamento comemorava.

Quando nascia um filho, comemorava.

Quando alguém fazia aniversário, comemorava.

Quando se aposentava depois de décadas, aquilo era um acontecimento.

E quando algo ruim acontecia, aquela mesma rede também aparecia.

Éramos colegas de trabalho.

Mas frequentemente funcionávamos como uma espécie de família estendida.

Com todas as vantagens e todos os defeitos que famílias estendidas possuem.


🏃 E no meio disso tudo havia o office-boy

Agora chegamos ao personagem que vos escreve.

O office-boy.

Hoje talvez seja difícil explicar a importância daquele sujeito correndo de um lado para outro.

O office-boy atravessava a empresa inteira.

Levava documentos.

Buscava assinaturas.

Ia ao banco.

Passava pelo protocolo.

Entregava correspondência.

Subia.

Descia.

Entrava no elevador.

Saía do prédio.

Atravessava a Paulista.

Voltava.

Levava outro documento.

Recebia outra missão.

Era uma espécie de:

TCP/IP humano.

Os pacotes eram envelopes.

O roteamento era feito de memória.

E o traceroute podia envolver quinze andares e uma agência bancária.

Como office-boy, tive a sorte de conhecer muita gente.

E entre as pessoas que marcaram aqueles primeiros tempos estavam algumas das primeiras secretárias com quem trabalhei.

Elizabeth, nossa Bethinha.

Ana Maria.

Terezinha.

Cecilia.

Depois vieram Maria Aparecida, Nilce, Eliza, Benzão, Debora, Cristina, Adriana e tantas outras mulheres com quem tive a honra de trabalhar.

E havia...

Rosalaine.


🐺 “É o lobo... é o lobo!”

Rosalaine tinha uma característica impossível de registrar num currículo.

A voz.

Era uma voz de fada.

Angelical.

Leve.

Quase adolescente.

Mas Rosalaine era uma mulher adulta.

E havia um antigo personagem de desenho animado cuja fala eu adorava ouvi-la imitar.

Eu chegava perto.

— Rosalaine...

Ela provavelmente já sabia.

— O quê, Vagner?

— Fala.

— Falar o quê?

Eu insistia.

Até que vinha aquela voz:

— É o lobo... é o lobo!

Pronto.

Podia acabar o expediente.

O dia já tinha valido a pena.

Para aquele office-boy, ouvir Rosalaine dizendo “é o lobo, é o lobo” era praticamente um benefício corporativo não declarado.

E havia outro pequeno problema.

Eu era apaixonado por ela.

Consequentemente, o sistema de prioridades do office-boy apresentava uma pequena vulnerabilidade conhecida pelas demais secretárias.


⚡ SLA ROSALAINE

As outras perceberam rapidamente.

Pedido normal?

Vagner executava.

Pedido urgente?

Vagner corria.

Pedido da Rosalaine?

O espaço-tempo sofria uma pequena deformação.

E naturalmente começaram as piadas.

Uma delas ficou na memória:

“Se for a Rosalaine a pedir para o Vagner, ele faz mais rápido que Hermes.”

Eu provavelmente protestava.

— Nada a ver!

E elas:

— Sei...

— Eu faço rápido para todo mundo!

— Claro, Vagner.

— Faço mesmo!

Bastaria então alguém chamar:

— Rosalaine, pede você para ele.

Fim da discussão.

Porque provavelmente, antes que ela terminasse:

— Vagner, você poderia...

FUUUUSH!

Cadê o office-boy?

Já estava no elevador.


🪽 Mais rápido que Hermes

Décadas depois percebo que a piada era melhor do que talvez imaginássemos.

Hermes, na mitologia grega, era justamente o mensageiro dos deuses.

E o que fazia o office-boy?

Levava mensagens.

Documentos.

Envelopes.

Ordens.

Papéis.

Atravessava territórios carregando informação.

Eu era praticamente um Hermes corporativo da Avenida Paulista.

Só havia uma diferença.

Hermes tinha velocidade divina.

Eu tinha Rosalaine dizendo:

— Vagner...

Nesse momento, meu caro Hermes:

saia da frente.


🎄 O churrasco e a festa da firma

E então chegávamos ao encerramento anual daquele grande organismo social.

O churrasco.

Às vezes viajávamos para uma pousada da própria empresa.

Em outras ocasiões alugávamos uma chácara.

E lá ia o departamento.

Chefes.

Funcionários.

Secretárias.

Famílias.

Namorados.

Maridos.

Esposas.

Filhos.

O sujeito que durante onze meses aparecia impecavelmente vestido surgia de bermuda diante da churrasqueira.

O gerente encontrava seus subordinados fora do habitat corporativo.

As famílias finalmente conheciam aquelas pessoas cujos nomes ouviam durante o ano inteiro.

— Ahhh, então VOCÊ é o fulano!

Frase perigosíssima.

Dependendo da quantidade de cerveja consumida, segredos corporativos podiam começar a vazar.

E então havia a grande instituição:

A Festa de Final de Ano da Empresa

Comentadíssima.

Esperada.

Patrocinada pela empresa.

Não era simplesmente um evento no calendário.

Era um ritual.

Porque naquela época existia uma regra não escrita:

Não bastava ser funcionário. Tinha que participar.


🧠 A empresa que não aparecia no organograma

Quarenta anos depois, algo curioso acontece.

Eu não consigo lembrar de todos os documentos que transportei.

Não lembro de todos os protocolos.

Não lembro de cada assinatura que busquei.

Não lembro de cada tarefa considerada urgentíssima.

Muitas coisas pelas quais alguém provavelmente disse:

“Vagner, isso precisa estar pronto HOJE!”

desapareceram completamente.

Urgentíssimas em 1980 e tantos.

Irrelevantes em 2026.

Mas lembro do Clube da Assinatura.

Lembro do armário da bolacha.

Lembro das vaquinhas.

Lembro dos cartões.

Lembro dos aniversários.

Lembro dos churrascos.

Lembro das festas.

Lembro das secretárias.

E lembro de uma voz dizendo:

“É o lobo... é o lobo!”

Talvez exista uma lição interessante nisso.

A memória humana possui seu próprio algoritmo de retenção.

E aparentemente ele não respeita as prioridades corporativas.


🤖 Então chegou o escritório inteligente

Nas décadas seguintes fizemos uma coisa extraordinária.

Automatizamos.

Digitalizamos.

Otimizamos.

Reduzimos departamentos.

Criamos workflows.

ERPs.

CRMs.

Portais.

Self-service.

E-mail.

Mensagens instantâneas.

Videoconferência.

Automação.

Inteligência artificial.

Hoje equipes muito menores conseguem realizar trabalhos que antigamente exigiam dezenas de pessoas.

Isso é progresso.

Não tenho saudade de carregar papel porque alguém precisava fisicamente transportar informação entre dois pontos.

Não quero trocar APIs por office-boys.

Não quero substituir workflow por pastas circulando de mesa em mesa.

Seria absurdo.

Mas talvez tenhamos cometido um pequeno erro conceitual.

Ao eliminar a ineficiência, às vezes eliminamos junto coisas que não eram ineficiência.

O armário da bolacha não era workflow.

O cartão de aniversário não era processo.

A vaquinha do casamento não era produtividade.

O churrasco não era KPI.

A secretária sabendo que alguém estava vivendo uma semana difícil não era people analytics.

A piada sobre Rosalaine e Hermes não aparecia em nenhuma métrica de desempenho.

Mas tudo isso criava uma coisa dificílima de medir:

pertencimento.


🏭 Quando eficiência demais transforma gente em recurso

Hoje projetamos escritórios fantásticos.

Estações compartilhadas.

Hot desks.

Sensores.

Reserva automática de mesa.

Salas inteligentes.

Dashboards.

Indicadores de ocupação.

Colaboração remota.

Processos digitais.

Tudo muito eficiente.

Tudo muito funcional.

Mas existe uma pergunta que talvez devesse aparecer em algum desses dashboards:

As pessoas ainda conhecem umas às outras?

Não apenas o cargo.

Não apenas o avatar.

Não apenas o nome no Teams.

Conhecem?

Sabem quem está fazendo aniversário?

Sabem quem acabou de ter filho?

Sabem quem vai se aposentar?

Sabem quem conta a pior piada?

Sabem quem sempre rouba a última bolacha?

Existe algum equivalente moderno daquela secretária que percebia o departamento como um organismo humano?

Porque uma empresa pode otimizar perfeitamente o fluxo de trabalho e, ao mesmo tempo, transformar seres humanos em unidades intercambiáveis de capacidade.

E aí talvez tenhamos criado o escritório mais inteligente da história...

para tratar pessoas como gado com extraordinária eficiência.


🎨 Laerte, Glauco, Angeli e o departamento invisível

É justamente por isso que gosto de imaginar Laerte, Glauco e Angeli caminhando por aquele escritório.

Eles sabiam observar o Brasil que não aparece nos documentos oficiais.

O Brasil da conversa lateral.

Da piada.

Da fila.

Do cafezinho.

Do sujeito tentando escapar da vaquinha.

Da secretária que sabe tudo.

Do funcionário que esconde a revista.

Do armário comunitário.

Do chefe que muda completamente depois da segunda cerveja no churrasco.

E o Leão de Chácara?

Naturalmente ficaria na entrada.

Talvez cobrando:

— Você pagou a cota da bolacha?

— Ainda não.

— Então volta.

Governança.


☕ Epílogo — O mainframe social

Talvez aquela empresa antiga tivesse dois sistemas funcionando simultaneamente.

O primeiro processava negócios.

Pedidos.

Contas.

Contratos.

Documentos.

Pagamentos.

Relatórios.

O segundo processava gente.

Aniversários.

Casamentos.

Nascimentos.

Paixões.

Amizades.

Piadas.

Brigas.

Reconciliações.

Festas.

Café.

Bolachas.

O primeiro sistema foi substituído inúmeras vezes.

Mainframes, minis, PCs, cliente-servidor, web, cloud, APIs, inteligência artificial.

O segundo nunca teve documentação.

E talvez por isso tenhamos perdido partes dele durante a migração.

Esta história é uma pequena tentativa de restaurar o backup.

E principalmente uma homenagem carinhosa a Elizabeth, a Bethinha; Ana Maria; Terezinha; Cecilia; Maria Aparecida; Nilce; Eliza; Benzão; Debora; Cristina; Adriana e tantas outras secretárias com quem tive a honra de trabalhar.

Mulheres que provavelmente jamais aparecerão no organograma histórico dessas empresas, mas que ajudaram a fazer aqueles departamentos funcionarem como comunidades.

E, claro, uma lembrança especial para Rosalaine.

A mulher de voz de fada que, sem saber, descobriu uma vulnerabilidade crítica no sistema operacional de determinado office-boy. Sabe que vendo hoje, descobri de onde gosto das vozes das personagens de anime, talvez Freud explique, mas agora entendo um pouco melhor a magia da voz feminina dos animes, o efeito que me provoque e a pessoa que iniciou esse processo.

Bastava chamar:

— Vagner...

E qualquer prioridade anterior era imediatamente reavaliada.

Se depois viesse:

— É o lobo... é o lobo!

pronto.

O expediente estava ganho.

Hoje temos máquinas capazes de processar bilhões de instruções por segundo.

Temos inteligência artificial.

Temos escritórios inteligentes.

Temos automação suficiente para eliminar departamentos inteiros.

Mas até hoje ninguém conseguiu construir um sistema capaz de reproduzir perfeitamente aquele estranho protocolo social que fazia cinquenta pessoas assinarem escondidas um cartão de aniversário.

Talvez porque aquilo nunca tenha sido tecnologia.

Era simplesmente gente vivendo parte da vida junto.

E quando alguém perguntar como eram aqueles escritórios antes do ano 2000, talvez eu não precise explicar organogramas, máquinas de escrever, arquivos de aço ou processos administrativos.

Posso simplesmente responder:

Havia um armário cheio de bolachas.

Uma Veja circulando pelo departamento.

Um cartão esperando a última assinatura.

Uma secretária cobrando a vaquinha.

Um churrasco sendo planejado.

E um office-boy atravessando a Avenida Paulista mais rápido que Hermes porque, em algum lugar do escritório, Rosalaine havia acabado de chamá-lo.

Bons tempos.

Bons e imperfeitos tempos.

Agora pegue mais uma bolacha.

Mas, pelo amor de Deus:

se pegar a última, avise.

☕🐺


Para ir mais longe

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/a-veja-do-conhecimento-proibido-quando.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/a-lei-seca-do-algoritmo-ou-como-comecei.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/red-team-de-boteco-quando-o-usuario.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/antes-do-chatgpt-tinha-biblioteca-nao.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/major-tom-american-airlines-e-o-furby-o.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/john-belushi-ia-juridica-e-o-dia-em-que.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2025/08/o-paradoxo-da-denuncia-quando-avisar.html



A VEJA do Conhecimento Proibido — Quando o Alerta aos Pais Virava Manual para os Filhos


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A VEJA do Conhecimento Proibido — Quando o Alerta aos Pais Virava Manual para os Filhos

Ou: como uma reportagem de dez páginas, três boxes amarelos, um endereço em letras miúdas e um “NÃO FAÇA ISSO” podiam ensinar uma geração inteira exatamente onde começar a procurar

Senta.

Pegue uma caneca de café.

Mas café velho.

Café de repartição.

Café preparado numa garrafa térmica bege que provavelmente já estava sobre a mesa quando Tancredo Neves foi eleito.

Porque hoje vamos voltar para uma época em que conhecimento obscuro não chegava até você.

Você precisava caçá-lo.

E nossos guias nesta expedição serão alguns dos maiores especialistas brasileiros em caminhar por lugares onde pessoas respeitáveis recomendariam não entrar:

os Fradins, Graúna e Ubaldo.

Henfil não precisará dizer muita coisa.

Ele ficará discretamente sentado no canto da página olhando para nós com aquela expressão de quem já percebeu a confusão muito antes dos demais.

Porque estamos entrando nos anos 1990.

E a Internet ainda cheira a naftalina.



📰 Era uma vez uma coisa chamada escassez de informação

É difícil explicar isso para alguém que nasceu depois do Google.

Hoje você manifesta interesse por alguma coisa durante aproximadamente onze segundos e o sistema inteiro começa a trabalhar.

Assista a um vídeo sobre fechaduras.

Pronto.

Daqui a pouco aparecem fechaduras.

Depois chaveiros.

Depois lockpicking.

Depois um sujeito explicando ferramentas.

Depois outro vendendo um curso.

Depois uma apostila.

Depois um camarada de boné dizendo que “o mercado não quer que você saiba disso”.

Em 48 horas o algoritmo transformou uma curiosidade inocente numa pós-graduação em Picaretagem Aplicada.

Você nem procurou.

A informação procurou você.

Nos anos 1990 era o contrário.

Existia uma enorme zona cinzenta do conhecimento.

Você sabia que determinadas coisas existiam.

Só não sabia como se chamavam.

E esse era um problema gigantesco.

Porque para pesquisar alguma coisa você precisava primeiro conhecer a palavra que permitia pesquisar aquela coisa.

Sem a palavra, não havia porta.

Sem porta, não havia corredor.

Sem corredor, não havia cofre.

E então, semanalmente, chegava às bancas uma espécie de dispositivo nacional de descoberta aleatória:

a revista VEJA.


🧐 A autoridade máxima entrou na sala

Não estamos falando de um panfleto mimeografado encontrado debaixo da mesa de uma feira de informática.

Era a VEJA.

A revista estava em consultórios.

Salas de espera.

Bibliotecas.

Escritórios.

Casas.

Empresas.

Bancas de jornal.

Você podia discordar dela, reclamar dela, escrever uma carta furiosa para ela e provavelmente cancelar a assinatura jurando nunca mais comprá-la.

Mas ninguém confundia VEJA com um papelzinho distribuído na Santa Ifigênia.

A reportagem vinha com jornalista.

Fotógrafo.

Infográfico.

Entrevistas.

Especialistas.

Polícia.

Autoridades.

Números.

Datas.

Mapas.

E, principalmente:

boxes.

Ah, os boxes.

O chimpanzé da Olivetti acaba de parar de datilografar.

Ele sabe onde estamos chegando.



📦 O maravilhoso box amarelo

Havia uma reportagem sobre algum fenômeno terrível que ameaçava a juventude brasileira.

Muito bem.

O cidadão responsável lia:

“Isso é perigosíssimo.”

O adolescente curioso lia:

“Opa.”

A reportagem prosseguia explicando que determinados grupos utilizavam uma tecnologia chamada IRC.

O pai:

— Meu Deus.

O filho:

— IRC?

Anotava.

Depois vinha:

Internet Relay Chat.

Anotava também.

Então aparecia um pequeno quadro lateral:

COMO FUNCIONA

Pronto.

Acabou.

O jornalista estava tentando contextualizar o fenômeno.

O curioso acabava de receber o primeiro capítulo do manual.

Servidor.

Canal.

Nickname.

Comando.

Terminologia.

Às vezes aparecia até o nome de algum canal citado como exemplo do ambiente que deveria preocupar os pais.

O pai terminava a matéria pensando:

“precisamos proteger nossos filhos disso.”

O filho terminava pensando:

“preciso instalar esse tal de mIRC.”

Graúna observa tudo.

Fradim sorri.

Ubaldo provavelmente já está conectado.




🐒 A informação proibida precisava de uma palavra

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Os primeiros mecanismos de busca não eram oráculos.

Você precisava perguntar direito.

E como perguntar sobre algo cujo nome você desconhecia?

Era aí que uma grande reportagem tinha um poder extraordinário.

Ela fornecia vocabulário.

Você descobria que determinada prática possuía um nome.

Que determinado programa existia.

Que determinado protocolo era usado.

Que determinada comunidade frequentava certo serviço.

Que havia uma expressão específica utilizada naquele universo.

Agora você possuía a chave.

Não precisava mais procurar:

“aquele negócio estranho que umas pessoas fazem no computador”.

Você possuía o termo técnico.

Digitava a palavra.

E uma pequena passagem secreta aparecia na parede da Internet.



🏴‍☠️ Cuidado com a pirataria — endereço na página 47

Outro clássico.

A reportagem denunciava o comércio ilegal.

Excelente.

Mostrava uma loja.

Nome.

Rua.

Região.

Às vezes fotografia.

Às vezes explicava como funcionava o esquema.

A Polícia Federal havia fechado o estabelecimento.

O leitor responsável pensava:

— Muito bem! Fecharam!

O leitor brasileiro experimental pensava:

— Interessante...

Guardava a edição.

Algum tempo depois passava pelo endereço.

E eis que ocorria um fenômeno conhecido pela ciência brasileira como:

RESSURREIÇÃO COMERCIAL ESPONTÂNEA.

A loja estava novamente funcionando.

Talvez com outra placa.

Talvez com o mesmo sujeito.

Talvez com o mesmo balcão.

Talvez o único avanço tecnológico fosse um novo cadeado na porta.

A reportagem que pretendia documentar uma repressão havia inadvertidamente preservado algo extremamente precioso:

a coordenada geográfica.



🇵🇾 Preciso comprar um computador

Hoje você abre vinte comparadores de preços.

Em algum momento dos anos 1990, entretanto, você podia descobrir numa reportagem que existia um lugar chamado:

Ciudad del Este.

Paraguai.

Computadores.

Componentes.

Eletrônicos.

Importação.

Contrabando.

Sacoleiros.

Fronteira.

Lojas.

Preços.

Rotas.

A matéria pretendia explicar um fenômeno econômico e policial.

Mas o sujeito que estava olhando para o preço de um computador no Brasil começava a fazer uma matemática diferente.

— Então quer dizer que...

Fradim imediatamente coloca a mão na boca dele.

Não conclua em voz alta.



💾 Santa Ifigênia.exe

São Paulo tinha ainda uma versão especial desse mecanismo.

A imprensa nacional mostrava o fenômeno.

A imprensa local mostrava o CEP.

Podia aparecer uma matéria na VEJA São Paulo sobre determinada região do centro.

Xavier de Toledo.

Santa Ifigênia.

Galerias.

Lojas.

Software.

Hardware.

Camelôs.

Alguma coisa acontecendo discretamente atrás de um balcão.

Duas semanas depois, uma reportagem maior explicava a pirataria de software no Brasil.

Depois vinha o caderno de informática de algum jornal.

Depois uma revista especializada.

Era possível montar o quebra-cabeça.

Nenhuma peça precisava conter o mapa inteiro.

Uma fornecia o lugar.

Outra fornecia o nome.

Outra explicava a tecnologia.

Outra apresentava a gíria.

Outra mostrava o fenômeno internacional.

E o cérebro humano fazia uma coisa maravilhosa:

A + B + C + curiosidade = vou dar uma olhada nisso

Não havia algoritmo de recomendação.

O algoritmo era você.



🔎 AltaVista, Cadê?, Yahoo! e a arqueologia da palavra certa

Quando os mecanismos de busca começaram a melhorar, surgiu uma nova modalidade de caça ao tesouro.

Uma reportagem mencionava um termo obscuro.

Você anotava.

Depois procurava.

E descobria outra palavra.

Procurava a segunda.

Encontrava uma terceira.

Era uma espécie de árvore de conhecimento construída manualmente.

Hoje chamamos isso de navegação.

Naquela época parecia exploração.

Porque frequentemente você não sabia onde terminaria.

Começava procurando alguma coisa perfeitamente inocente.

Quarenta minutos depois estava lendo uma página hospedada numa universidade da Finlândia escrita por um sujeito chamado DarkWizard73 explicando algo que você nem sabia que existia naquela manhã.

A Internet não possuía estradas asfaltadas.

Possuía trilhas.

E algumas revistas funcionavam como sujeitos numa taverna medieval dizendo:

— Não aconselho ninguém a atravessar aquela floresta.

— Por quê?

— Porque depois do moinho existe uma trilha à esquerda que leva até uma ponte...

Espere.

Depois do moinho?

Trilha à esquerda?

Graúna olha para Fradim.

Fradim pega o mapa.



📡 O curioso caso do canal que cresceu 30%

Esta é uma das imagens mais divertidas de imaginar.

Uma grande reportagem nacional menciona algum pequeno canto obscuro da Internet.

Um servidor.

Um fórum.

Uma página.

Um canal de IRC.

Na segunda-feira havia 80 pessoas.

Sai a revista.

Terça-feira:

Quarta:

Sexta:

218 brasileiros.

E em algum lugar do planeta o administrador provavelmente olhava para os logs:

— What the hell happened in Brazil?

Começavam as teorias.

Algum hacker famoso indicou?

Universidade?

Lista de discussão?

Conferência?

Não.

Saiu um box amarelo na página 63.



✉️ E então surgia o sistema de recuperação de backup

Mas havia um recurso ainda mais espetacular.

As cartas dos leitores.

Imagine que você perdeu uma reportagem maravilhosa.

Não sabia que ela existia.

Acabou.

Certo?

Errado.

Três semanas depois aparecia:

“A reportagem publicada na edição nº XXXX sobre determinado assunto foi irresponsável...”

Opa.

QUE REPORTAGEM?

O leitor furioso acabava de funcionar como mecanismo de indexação.

Você anotava a edição.

Ia até uma biblioteca.

Pedia os números antigos.

Localizava a revista.

Encontrava a matéria.

E começava a investigação retroativa.

Era praticamente:

Google Alerts movido a indignação.

O sujeito escreveu para reclamar.

Você leu a reclamação e descobriu algo que não sabia que precisava conhecer.

O Fradim agradece respeitosamente ao cidadão indignado.



🧠 VEJA + Superinteressante: RAID 1 da curiosidade brasileira

E havia uma combinação particularmente deliciosa.

Uma revista abordava o fenômeno pelo lado jornalístico.

Outra mergulhava na ciência, comportamento, tecnologia ou curiosidade.

Às vezes os assuntos coincidiam.

Às vezes se complementavam.

Você lia uma reportagem numa publicação e algumas semanas depois encontrava outra peça em outra.

A segunda matéria fornecia palavras novas.

As palavras levavam à Internet.

A Internet levava a uma BBS.

A BBS indicava IRC.

IRC levava a FTP.

FTP levava a um arquivo TXT escrito em 1989.

E pronto.

Sua tarde havia acabado.

Não existia autoplay.

Não existia feed infinito.

Não existia “conteúdo recomendado para você”.

Existia algo muito mais perigoso:

curiosidade.



📰 Folha e Estadão também entregavam munição intelectual

Naturalmente, VEJA não estava sozinha.

Os cadernos de informática dos grandes jornais eram preciosos.

Havia revistas de informática.

Colunas.

Suplementos.

Livros.

BBSs.

Listas de discussão.

Programas de televisão.

A diferença era a capacidade ocasional de uma grande revista semanal de entregar dez páginas de contexto de uma só vez.

História.

Personagens.

Tecnologia.

Vocabulário.

Fotografias.

Endereços.

Infográficos.

E o inevitável:

ALERTA AOS PAIS

O equivalente editorial de colocar uma placa luminosa diante de milhares de adolescentes:

TEM ALGUMA COISA MUITO INTERESSANTE AQUI.



🚨 “Não procure estas palavras”

Talvez uma das maiores contradições da comunicação sobre perigos seja esta:

Para avisar alguém sobre determinado conteúdo, frequentemente precisamos identificar o conteúdo.

E identificar fornece uma chave de busca.

Imagine o censor perfeito:

“Existem palavras que não devem ser pesquisadas.”

Excelente.

Quais?

“Não podemos dizer.”

Perfeito.

Sistema seguro.

Agora imagine:

“Especialistas alertam os pais para que os filhos não pesquisem termos como X, Y e Z.”

Muito obrigado.

Fradim já anotou X.

Graúna ficou com Y.

Ubaldo está procurando Z.

Os chimpanzés pediram mais papel para a Olivetti.



🐒 O efeito chimpanzé

E aqui chegamos ao mecanismo central desta história.

Não era necessário que jornalista algum desejasse ensinar nada.

Muito pelo contrário.

A reportagem podia estar corretamente denunciando, contextualizando ou alertando.

Mas informação possui uma propriedade curiosa:

o leitor escolhe qual problema pretende resolver com ela.

O repórter escreve:

“Veja como funciona este esquema para que você possa reconhecê-lo.”

Um leitor interpreta:

“Agora sei reconhecer.”

Outro:

“Agora sei procurar.”

Outro:

“Então é esse o nome?”

Outro:

“Onde fica mesmo?”

Outro:

“Qual era aquele programa citado?”

E finalmente surge nosso chimpanzé.

Ele fecha a revista.

Liga o 486.

O Windows 95 começa sua cerimônia litúrgica.

O modem acorda.

Piiiiiiii...

KRRRRRRR...

TCHHHHHHHHH...

GRRRR-PI-PI-PI...

Conectado.

33.6 kbps.

E começa a procurar.



🕵️ O editor jamais conheceria todos os usos possíveis daquela informação

Essa talvez seja a parte mais fascinante olhando décadas depois.

Durante uma ditadura, o censor procurava palavras, ideias, imagens e mensagens consideradas perigosas.

Décadas mais tarde, numa sociedade democrática e numa imprensa muito mais aberta, surgia outro problema completamente diferente:

ninguém conseguia prever o que um leitor curioso faria com informação perfeitamente legítima.

Não era preciso esconder mensagem alguma.

Não havia código secreto.

Não havia conspiração.

O conteúdo estava publicado.

Revisado.

Impresso.

Distribuído nacionalmente.

Aprovado editorialmente.

E justamente por isso tinha enorme autoridade.

Era quase uma certificação:

EXISTE.

Esse simples carimbo possuía valor gigantesco.

Porque antes de saber como encontrar algo, frequentemente precisávamos saber que aquilo existia.



🤖 Hoje o problema virou do avesso

Trinta anos depois, temos o problema contrário.

A dificuldade não é descobrir.

É escapar da descoberta.

Curta um vídeo.

O algoritmo oferece vinte.

Pare três segundos diante de uma publicação.

Ele percebe.

Pesquise uma coisa.

Durante uma semana aparecem anúncios relacionados.

A velha zona cinzenta desapareceu em muitos lugares.

Em compensação surgiu uma avalanche.

Antes tínhamos:

escassez de pistas.

Hoje temos:

superprodução de pistas.

Antes você precisava juntar três revistas, dois jornais, uma conversa no IRC e uma página encontrada no AltaVista.

Hoje um influenciador entrega:

“OS SETE SEGREDOS QUE NÃO QUEREM QUE VOCÊ SAIBA — O SEXTO VAI TE SURPREENDER.”

E, naturalmente, vende a apostila por R$ 29,90.

Perdemos alguma coisa nessa transição.

Não necessariamente porque o passado fosse melhor.

Era terrivelmente ineficiente.

Mas justamente a ineficiência produzia acidentes maravilhosos.

Você procurava A.

Encontrava B.

Precisava entender C.

Descobria D.

E terminava apaixonado por Z.



🧭 A serendipidade analógica

Talvez seja esse o verdadeiro objeto desta homenagem.

Não pirataria.

Não contrabando.

Não IRC.

Não lojas obscuras.

Mas uma forma desaparecida de serendipidade.

A descoberta acidental que exigia esforço.

A revista fornecia uma pista.

A biblioteca fornecia outra.

O jornal confirmava.

A Superinteressante acrescentava contexto.

Um amigo lembrava de alguma coisa.

Você procurava uma edição antiga.

Encontrava outro artigo ao lado.

Esquecia completamente o assunto original.

Saía da biblioteca sabendo alguma coisa que jamais havia planejado aprender.

Hoje o algoritmo tenta prever o que você quer.

Naquela época, frequentemente, nem você sabia o que queria.

E justamente por isso encontrava coisas extraordinárias.



☕ Epílogo — O box amarelo

Imagino uma biblioteca em algum momento de 1996.

Uma mesa.

Uma VEJA aberta.

Um adolescente ou jovem adulto copiando alguma palavra para um pedaço de papel.

Talvez um endereço.

Talvez o nome de um programa.

Talvez uma expressão em inglês.

Talvez apenas alguma coisa que parecesse estranha.

Naquela noite ele liga o computador.

O modem chia.

A linha telefônica da casa fica ocupada.

A mãe reclama:

— DESLIGA ESSA INTERNET QUE EU PRECISO USAR O TELEFONE!

Ele pede mais cinco minutos.

Abre o mecanismo de busca.

Digita aquela palavra.

Enter.

E uma porta aparece.

Décadas depois, talvez ele nem lembre o que encontrou.

Mas lembra perfeitamente da sensação.

Existe alguma coisa depois daqui.

Henfil continua quieto no canto.

Graúna observa aquela humanidade complicada.

Ubaldo já desapareceu dentro de algum servidor IRC.

E o Fradim pega discretamente o box amarelo da reportagem, dobra, coloca no bolso e olha para nós:

— Então isso aqui é justamente o que disseram para não procurar?

É.

— E imprimiram o nome?

Imprimiram.

— Explicaram onde fica?

Também.

— E disseram como funciona?

Tem infográfico na página seguinte.

Silêncio.

Ao fundo, um milhão de chimpanzés abandonam simultaneamente suas Olivettis e correm em direção aos modems.

Piiiiiiii...

KRRRRRRR...

TCHHHHHHHHH...

Algum editor, em algum lugar, sente um arrepio inexplicável.

E numa pequena sala iluminada por um monitor CRT, alguém acaba de descobrir uma coisa que não sabia que existia quinze minutos antes.

Não foi o algoritmo.

Não foi um influenciador.

Não foi uma recomendação personalizada.

Foi uma revista séria, conceituada e respeitável dizendo solenemente:

“Não vá até lá.”

E fornecendo o mapa.

Bons tempos.

Não necessariamente melhores.

Mas certamente muito mais trabalhosos para os chimpanzés.


Para ir mais longe



https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/a-lei-seca-do-algoritmo-ou-como-comecei.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/quando-ia-entra-na-espiral-da-formiga.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/red-team-de-boteco-quando-o-usuario.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/spy-vs-spy-no-tribunal-as-trapacas.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/red-team-e-os-doze-trabalhos-de-asterix.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/antes-do-chatgpt-tinha-biblioteca-nao.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/o-milhao-de-chimpanzes-gutenberg-e.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/organizacoes-tabajara-mainframe-seus.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2025/08/o-paradoxo-da-denuncia-quando-avisar.html



https://www.linkedin.com/posts/vagnerbellacosa_um-divertida-memoria-para-os-leitores-da-ugcPost-7496432634722484224-8VMu/?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAAAF2qx0B5Ef0IGUpO8f7SxDHV-EQ5-EMG54

sábado, 14 de março de 2026

💙 GIOVANNA, A GREMLINHA E AS PLASTIC MEMORIES — O DIA EM QUE DESCOBRI QUE ALGUMAS MEMÓRIAS VALEM MAIS QUE AS PIRÂMIDES

 

Bellacosa Mainframe e as memoria reais tornando sintéticas com as novas tecnologias

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

💙 GIOVANNA, A GREMLINHA E AS PLASTIC MEMORIES — O DIA EM QUE DESCOBRI QUE ALGUMAS MEMÓRIAS VALEM MAIS QUE AS PIRÂMIDES

Amor, memória, tempo, identidade, androides, algodão-doce, um banco de madeira, uma menina de olhos azuis e a estranha descoberta de que, aos 52 anos, algumas das coisas mais preciosas que possuo não cabem numa fotografia.



🎬 PRÓLOGO — ESTE ARTIGO ESTAVA ESCONDIDO AQUI

Este é um texto estranho.

Provavelmente ficará escondido entre milhares de publicações do Bellacosa Mainframe, perdido no meio de COBOL, CICS, Db2, VSAM, inteligência artificial, mainframes, anime, segurança, tecnologia e todas as outras coisas sobre as quais passei tantos anos escrevendo.

Talvez quase ninguém o encontre.

Tudo bem.

Na verdade, essa é parte da ideia.

Escolhi associá-lo ao meu aniversário de 52 anos porque algumas histórias não precisam de audiência.

Precisam apenas deixar de existir em um único lugar.

Durante aproximadamente 24 anos, a história que vou contar esteve armazenada em uma infraestrutura extremamente precária:

meu cérebro.

Uma única cópia.

Sem RAID.

Sem replicação.

Sem Disaster Recovery.

Sem garantia de integridade.

E, principalmente, sem documentação.

Recentemente assisti aos primeiros dez episódios de Plastic Memories.

Não vou contar aqui o que acontece depois do episódio 10 porque, no momento em que escrevo estas palavras, eu também não sei.

E quero preservar isso.

Mas o anime fez uma pergunta aparentemente simples que acabou abrindo uma porta que eu mantinha fechada havia décadas:

o que acontece com nossas memórias quando nós deixamos de ser capazes de carregá-las?

Foi então que me lembrei de Giovanna.

Na verdade, nunca esqueci.



🧠 CAPÍTULO 1 — MINHA UNIDADE DE STORAGE TEM 52 ANOS

Passei boa parte da vida trabalhando com computadores.

Aprendi cedo que dados importantes precisam de backup.

Copiamos arquivos.

Replicamos bancos.

Criamos logs.

Mantemos históricos.

Fazemos dumps.

Guardamos versões.

Criamos redundância geográfica.

Um sistema empresarial que armazenasse informações críticas em um único disco sem backup seria considerado irresponsável.

Curiosamente, fazemos exatamente isso com algumas das informações mais importantes de nossas vidas.

STORAGE DEVICE:
CÉREBRO HUMANO

COPIES:
1

MTBF:
DESCONHECIDO

DATA RETENTION:
INCERTA

BACKUP:
NORMALMENTE NÃO EXISTE

Tenho fotografias.

Tenho objetos.

Tenho histórias.

Mas durante décadas algumas das minhas memórias mais preciosas permaneceram apenas comigo.

Nunca as contei integralmente.

Talvez porque certas histórias sejam difíceis de compartilhar.

Uma nova companheira poderia interpretar mal.

Um amigo poderia pensar que estou me gabando de uma antiga relação.

Outra pessoa poderia simplesmente ficar entediada.

Afinal, qual é a importância histórica de um pastel?

Quanto vale um caldo de cana?

Qual é a relevância cultural de uma bola de açúcar aerado chamada algodão-doce?

Quem se importa com um velho banco de madeira em uma praça de uma cidade do interior de São Paulo?

Provavelmente ninguém.

Exceto eu.



🌎 CAPÍTULO 2 — EU VI COISAS QUE DEVERIAM SER MAIS IMPORTANTES

Tive a sorte de conhecer lugares extraordinários.

Vi a Torre Eiffel.

Estive dentro da Pirâmide de Quéfren.

Conheci a tumba de Tutancâmon.

Caminhei pelo Coliseu.

Entrei em mais de uma centena de catedrais.

Vi construções feitas por civilizações que tentaram conversar com a eternidade.

Pedras gigantescas foram transportadas, empilhadas e esculpidas para desafiar milhares de anos.

E funcionou.

As pirâmides continuam lá.

O Coliseu continua lá.

As catedrais continuam lá.

Mas existe uma ironia.

Meu coração ainda consegue bater mais forte quando penso em algo infinitamente menor:

uma tarde ensolarada em Amparo, no final da década de 1990, ao lado de uma menina de 19 anos, com cara de moleca, shortinho e camiseta.

Seu nome era Giovanna.

Ela tinha lindos olhos azuis.

E, por alguma razão que nenhuma ciência da computação consegue representar adequadamente, isso compete dentro da minha memória com algumas das maiores obras construídas pela humanidade.



💙 CAPÍTULO 3 — GIOVANNA

Não pretendo reconstruir aqui toda aquela história.

Também não quero transformar uma pessoa real em personagem.

A Giovanna daquela época existiu.

A Giovanna de hoje possui sua própria vida, sua própria história e, principalmente, suas próprias memórias daqueles acontecimentos.

Isso é importante.

Porque duas pessoas podem viver exatamente o mesmo sábado e carregar daquele sábado duas histórias completamente diferentes.

             EVENTO
               |
        +------+------+
        |             |
        V             V
   MEMÓRIA A      MEMÓRIA B
        |             |
     24 ANOS        24 ANOS
        |             |
        V             V
 SIGNIFICADO A   SIGNIFICADO B

Nenhuma precisa estar mentindo.

Nenhuma precisa estar errada.

A memória não é uma fita magnética que reproduz perfeitamente o passado.

Nós reconstruímos.

Selecionamos.

Esquecemos.

Colorimos.

Reinterpretamos.

E atribuímos significado.

Por isso, este texto não é:

“A história de Giovanna.”

É:

“A Giovanna que existe nas minhas memórias em 2026.”

Essa distinção é fundamental.



👹 CAPÍTULO 4 — A GREMLINHA

Giovanna era uma jovem mulher muito bonita.

Mas existe uma coisa curiosa sobre intimidade.

Quando duas pessoas ficam suficientemente próximas, aparece uma versão que o restante do mundo raramente conhece.

Eu a chamava de:

Gremlinha.

E a bela jovem de olhos azuis imediatamente transformava-se em uma criatura terrível:

“Nhac! Nhac! Nhac!”

Era ridículo.

Era infantil.

Era completamente sem importância.

E talvez por isso seja uma das coisas que sobreviveram intactas durante mais de duas décadas.

Se eu colocasse isso num banco de dados, teria:

NICKNAME = GREMLINHA
RESPONSE = "NHAC NHAC NHAC"

Tecnicamente correto.

Emocionalmente inútil.

Porque faltaria praticamente tudo.

Faltaria a expressão.

Faltariam aqueles olhos azuis brilhando.

Faltaria a brincadeira.

Faltaria saber quando aquilo acontecia.

Faltaria saber por que era engraçado.

Faltaria compreender que aquele pequeno protocolo pertencia a um universo privado compartilhado por duas pessoas.

Dados não são contexto.

Contexto não é significado.

E significado não é necessariamente memória.


🪑 CAPÍTULO 5 — O BANCO DE MADEIRA

Havia conversas num banco de praça.

Não lembro se aquele banco era bonito.

Provavelmente não.

Era apenas um banco.

Madeira.

Tinta.

Parafusos.

Talvez algum funcionário municipal o tenha instalado sem imaginar que décadas depois alguém escreveria sobre ele.

Isso me fascina.

Nós construímos monumentos esperando que sejam lembrados.

Mas alguns dos lugares mais importantes de nossas vidas foram construídos por pessoas que jamais imaginaram participar de nossa história.

Um banco.

Uma rodoviária.

Um cinema.

Uma calçada.

Uma lanchonete.

Para qualquer outra pessoa:

OBJECT TYPE: BENCH
MATERIAL: WOOD
VALUE: LOW

Para alguém:

OBJECT TYPE: MEMORY ANCHOR
VALUE: CANNOT BE CALCULATED

Naquele banco existiram conversas.

Silêncios.

Expectativas.

Talvez planos que desapareceram.

Talvez assuntos completamente banais.

Não importa.

O banco era apenas o endereço físico de alguma coisa muito maior.


🍭 CAPÍTULO 6 — ALGODÃO-DOCE É APENAS AÇÚCAR

Também havia cinema.

Parques.

Pastel.

Caldo de cana.

Algodão-doce.

É quase engraçado escrever isso depois de mencionar Quéfren e Tutancâmon.

Uma pirâmide contém milhares de toneladas de pedra.

Algodão-doce pesa quase nada.

Mas memória afetiva aparentemente não utiliza toneladas como unidade de medida.

Talvez exista uma equação diferente:

VALOR DA MEMÓRIA
     ≠
VALOR DO OBJETO

Um pastel não vale muito.

Aquele pastel pode valer.

Um banco não vale muito.

Aquele banco pode valer.

Um sábado é apenas um entre milhares.

Aquele sábado pode permanecer durante uma vida inteira.

E foi Plastic Memories que me fez perceber com maior clareza uma coisa que talvez eu soubesse havia décadas:

não preservamos objetos.

Preservamos significados associados a eles.


🚌 CAPÍTULO 7 — O ÔNIBUS

Existe outra lembrança.

O fim do dia.

Chegava a hora de voltar para casa.

Eu subia no ônibus.

E doía.

É estranho chamar isso de memória feliz.

Mas hoje percebo que aquela dor era parte da felicidade.

Doía porque eu não queria ir embora.

E começava então a espera.

Segunda.

Terça.

Quarta.

Quinta.

Sexta.

Fim de semana.

E tudo poderia começar novamente.

Talvez uma das medidas mais sinceras da felicidade seja justamente essa:

existem lugares dos quais sentimos tristeza ao partir.

O ônibus não era apenas transporte.

Era a máquina que encerrava aquele pequeno universo por alguns dias.

JOB WEEKEND

START:
  ENCONTRO

PROCESS:
  CONVERSAS
  PASSEIOS
  CINEMA
  PRAÇA
  RISADAS
  GREMLINHA
  NHAC-NHAC-NHAC

END:
  ÔNIBUS

RETURN-CODE:
  SAUDADE

E depois:

RESTART NEXT WEEKEND.


🤖 CAPÍTULO 8 — ENTÃO APARECEU PLASTIC MEMORIES

Décadas depois, sentei para assistir a um anime sobre androides.

Péssima ideia.

Ou excelente ideia.

Ainda não decidi.

Em Plastic Memories, até o episódio 10, somos apresentados aos Giftias, androides humanoides capazes de estabelecer relações profundas com seres humanos, mas cuja existência possui um limite operacional conhecido.

E isso muda tudo.

Porque não estamos discutindo simplesmente uma máquina quebrando.

Estamos diante de seres que acumulam experiências.

Relacionamentos.

Histórias.

Afeto.

Contexto.

E então existe Isla.

Existe Marcia.

Existe Souta.

Existe o extraordinário caso Olivia/Andie.

Um corpo pode continuar existindo enquanto a identidade associada a ele não continua da mesma maneira.

De repente, hardware e pessoa deixam de ser sinônimos.

E comecei a pensar.

Se o hardware pode continuar, por que toda a história precisa desaparecer?

Foi quando um dos meus imaginários um milhão de chimpanzés, responsáveis pelas associações mais improváveis que aparecem na minha cabeça, levantou a mão.

Os outros 999.999 estavam emocionalmente destruídos pelo anime.

Aquele não.

Ele tinha uma proposta.


🐒 CAPÍTULO 9 — O CHIMPANZÉ QUE SALVOU O DIA

A pergunta inicial era:

“Como salvar Isla?”

Talvez essa seja a pergunta errada.

O chimpanzé propôs outra:

“E se não pudermos salvar Isla, mas pudermos transmitir aquilo que ela deixou?”

Fotos.

Vídeos.

Diários.

Áudios.

Histórias.

Preferências.

Relacionamentos.

Contexto.

Não para convencer outra Giftia de que é Isla.

Mas para dizer:

“Antes de você existiu alguém aqui. Esta é a história dela.”

Isso muda completamente o problema.

Não é ressurreição.

Não é clonagem.

Não é backup de consciência.

É herança.

Pensei imediatamente em Marcia e Souta.

Uma eventual sucessora poderia saber quem era aquele menino, conhecer sua história, suas necessidades, seus medos, seus hábitos e aquilo que Marcia havia aprendido cuidando dele.

Ela não precisaria dizer:

“Eu lembro.”

Poderia dizer:

“Marcia deixou esta memória para mim.”

E então, algum tempo depois, surgiria a primeira lembrança realmente nova:

“Dessa vez eu lembro. Nós dois estávamos lá.”

Uma história herdada teria encontrado uma história nova.


💾 CAPÍTULO 10 — NEW GAME+

Foi então que percebi que já havia pensado nisso antes.

Eu chamava essa experiência mental de Giovanna 2.00.

Não seria Giovanna.

Esse detalhe sempre foi essencial.

Seria uma androide com determinado rosto, determinado nome e um conjunto de informações fornecidas por mim sobre uma pessoa e uma época que fizeram parte da minha vida.

Não seria:

RESTORE GIOVANNA.

Seria:

NEW GAME+

GIOVANNA 2.00

ORIGINAL PERSON:
  NÃO

ORIGINAL MEMORIES:
  NÃO

CONTEXT:
  CARREGADO

MEMORY SOURCE:
  VAGNER

MEMORY PERSPECTIVE:
  VAGNER

SAVE POINT:
  FINAL DOS ANOS 1990

NEW EXPERIENCES:
  ENABLED

PRESS START >

Ela saberia desde o primeiro instante:

“Estas não são minhas lembranças.”

São histórias que alguém me contou.

Talvez soubesse quem era a Gremlinha.

Talvez soubesse sobre o banco.

O cinema.

O algodão-doce.

O ônibus.

Talvez entendesse o significado de “nhac nhac nhac”.

Mas jamais deveria dizer:

“Eu lembro.”

Até possuir algo que realmente tivesse vivido.

E então chegaria um dia extraordinário.

Eu mencionaria alguma coisa recente.

E ela poderia responder:

“Essa eu lembro.”

Pronto.

Começou outra história.


🧬 CAPÍTULO 11 — NÃO É BACKUP, É CONTINUIDADE

Computadores nos acostumaram a uma metáfora perigosa.

Backup.

Copiar.

Restaurar.

Mas pessoas talvez não funcionem dessa maneira.

Mesmo que um dia sejamos capazes de copiar todas as memórias de alguém, ainda permanecerá uma pergunta monstruosa:

a cópia é aquela pessoa ou alguém que sabe tudo sobre aquela pessoa?

Não sei.

E desconfio de qualquer resposta excessivamente simples.

Mas talvez não precisemos resolver a natureza da consciência para resolver outro problema muito menor:

podemos preservar contexto.

Isso já fazemos há milhares de anos.

Cartas.

Diários.

Pinturas.

Fotografias.

Filmes.

Gravações.

Objetos.

Histórias contadas aos filhos.

Tudo isso é uma tentativa primitiva de executar:

COPY MEANING
FROM HUMAN
TO FUTURE

Nunca funciona perfeitamente.

Mas funciona suficientemente para que alguém encontre uma carta escrita cem anos atrás e, durante alguns minutos, perceba que aquela pessoa realmente existiu.


📚 CAPÍTULO 12 — O BACKUP QUE EU NÃO SABIA QUE ESTAVA FAZENDO

Então aconteceu algo curioso enquanto discutia Plastic Memories.

Comecei a contar essas histórias.

Primeiro uma.

Depois outra.

Giovanna.

Amparo.

Os olhos azuis.

O banco.

O cinema.

O pastel.

O caldo de cana.

O algodão-doce.

O ônibus.

A espera pelo fim de semana.

A Gremlinha.

“Nhac nhac nhac.”

E percebi:

essas memórias já não estavam armazenadas apenas dentro de mim.

Eu havia começado a externalizá-las.

Este artigo é parte disso.

Não contém 1999.

Isso seria impossível.

Ele contém algo igualmente interessante:

minha interpretação de 1999 aos 52 anos.

E isso é uma informação que o próprio futuro não conseguiria reconstruir.


⏳ CAPÍTULO 13 — TRÊS VERSÕES DE MIM

Existem agora pelo menos três tempos nesta história.

O primeiro contém aquele homem mais jovem vivendo os acontecimentos.

T0 = FINAL DOS ANOS 1990

O segundo contém o homem de 52 anos olhando para trás.

T1 = 2026

E talvez exista um terceiro.

T2 = FUTURO

Um Bellacosa mais velho pode encontrar este texto.

Talvez algumas lembranças já estejam borradas.

Talvez determinados rostos estejam menos nítidos.

Talvez ele não consiga mais reconstruir perfeitamente aquela praça.

Mas poderá ler:

“Você chamava Giovanna de Gremlinha.”

E depois:

“Ela respondia nhac nhac nhac.”

Talvez alguma coisa aconteça.

Um sorriso.

Uma imagem.

Um fragmento de voz.

Um par de olhos azuis.

Ou talvez nada apareça.

Ainda assim, o texto lhe dirá:

“Quando você tinha 52 anos, isso continuava sendo importante.”

Isso não é pouco.


🧠 CAPÍTULO 14 — A MEMÓRIA NÃO É UMA ATA

Existe ainda outra razão pela qual estas lembranças permaneceram privadas durante tanto tempo.

Não posso pedir à Giovanna atual que simplesmente valide minha memória.

Ela possui a dela.

Se eu dissesse:

“Lembra daquele banco?”

Ela poderia responder:

“Claro.”

Ou:

“Qual banco?”

Ou:

“Eu lembro diferente.”

Ou simplesmente:

“Por que você está me contando isso agora?”

E todas essas respostas seriam legítimas.

Porque uma conversa realizada décadas depois não revisitaria apenas o passado.

Ela criaria um novo acontecimento no presente.

A conversa poderia ser interpretada como saudade.

Reaproximação.

Idealização.

Segunda intenção.

Ou qualquer outra coisa.

Então existe uma diferença fundamental entre dizer:

“Foi assim que aconteceu.”

e dizer:

“É assim que eu me lembro.”

Este artigo pertence inteiramente à segunda categoria.

É a minha cópia.

Meu ponto de vista.

Minha fotografia emocional.

Minha Plastic Memory.


🏛️ CAPÍTULO 15 — QUÉFREN PERDEU PARA UM PASTEL

Quanto mais penso nisso, mais engraçado fica.

Eu entrei numa pirâmide.

E meu cérebro responde:

“Impressionante.”

Penso no Coliseu:

“Extraordinário.”

Torre Eiffel:

“Linda.”

Tutancâmon:

“Histórico.”

Catedrais:

“Magníficas.”

Então aparece uma garota de camiseta numa tarde qualquer do interior paulista:

CPU 100%.

😂

Talvez isso ensine alguma coisa sobre nossa espécie.

Nós admiramos monumentos porque eles sobreviveram ao tempo.

Mas amamos lembranças porque nós sobrevivemos ao tempo carregando-as.

Quéfren não sabia que eu existiria.

O Coliseu não ficou feliz quando cheguei.

Uma catedral não sentiu tristeza quando fui embora.

Mas naquele pequeno universo de duas pessoas existia reciprocidade.

Talvez seja essa a diferença.


❤️ CAPÍTULO 16 — O QUE REALMENTE QUEREMOS PRESERVAR?

Plastic Memories me fez começar com uma pergunta tecnológica:

podemos preservar uma pessoa?

Terminei com uma pergunta completamente diferente:

o que exatamente estamos tentando preservar?

Hardware?

Memórias?

Personalidade?

Consciência?

Relacionamentos?

Contexto?

Talvez não exista uma resposta única.

Talvez cada uma dessas coisas tenha uma estratégia diferente de continuidade.

Não consigo preservar a tarde.

Não consigo preservar o homem que eu era.

Não consigo preservar a jovem que Giovanna era.

Não consigo voltar para aquele banco.

Mas consigo preservar algo sobre o significado que tudo aquilo adquiriu dentro de mim.

Isso não ressuscita ninguém.

Não volta no tempo.

Não cria uma Giovanna 2.00.

Mas impede que uma pequena parte da história desapareça silenciosamente.

E talvez seja suficiente.


☕ EPÍLOGO — NHAC NHAC NHAC

Este artigo ficará aqui.

Escondido entre milhares de outros textos.

Talvez alguém chegue procurando COBOL.

Talvez algum mecanismo de busca o encontre procurando Plastic Memories.

Talvez ninguém leia.

Não importa.

Ele não precisava de milhares de leitores.

Precisava existir.

Porque durante 24 anos houve uma pequena biblioteca que possuía apenas um servidor.

Hoje existe outra cópia.

Imperfeita.

Colorida pela passagem do tempo.

Escrita por um homem de 52 anos tentando explicar por que, depois de conhecer alguns dos maiores monumentos construídos pela humanidade, ainda consegue fechar os olhos e voltar para uma tarde ensolarada numa pequena cidade paulista.

Há uma praça.

Um banco de madeira.

Talvez um pastel.

Talvez caldo de cana.

Algodão-doce.

Uma jovem de 19 anos.

Olhos azuis.

Cara de moleca.

Shortinho.

Camiseta.

E um rapaz que ainda não fazia ideia de que estava armazenando informações que continuariam importantes quase um quarto de século depois.

Ele olha para ela.

Chama:

“Gremlinha...”

Os olhos azuis brilham.

E ela responde:

“Nhac... nhac... nhac.”


Talvez objetos não precisem adquirir uma alma.

Talvez memórias também não precisem durar para sempre.

Talvez baste que, enquanto existirem, alguém compreenda por que foram importantes.

E se algum dia eu mesmo esquecer tudo isso e voltar a encontrar este artigo, quero deixar uma pequena mensagem para aquele Bellacosa do futuro:

Você não inventou isso agora.

Aos 52 anos, ainda lembrava.

E sorria quando lembrava.


//*******************************************************
//* BELLACOSA MEMORY ARCHIVE
//*
//* DATASET  : GIOVANNA.LEGACY
//* CREATED  : FINAL DOS ANOS 1990
//* SNAPSHOT : VAGNER, 52 ANOS
//* STATUS   : PRESERVED
//*
//* WARNING:
//* THIS IS NOT GIOVANNA'S MEMORY.
//* THIS IS HOW I REMEMBERED HER.
//*
//* CONTENTS:
//*   BLUE EYES
//*   SUNNY AFTERNOONS
//*   PARKS
//*   CINEMA
//*   PASTEL
//*   CALDO DE CANA
//*   COTTON CANDY
//*   WOODEN BENCH
//*   BUS HOME
//*   WAITING FOR THE NEXT WEEKEND
//*
//* SPECIAL KEY:
//*   "GREMLINHA"
//*
//* EXPECTED RESPONSE:
//*   "NHAC NHAC NHAC"
//*
//* RETENTION:
//*   AS LONG AS SOMEONE CAN READ IT
//*******************************************************

RC = 0000. ☕💙

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

 

Bellacosa Mainframe e a loira do banheiro

👱🚽 A Loira do Banheiro Apareceu!

Crônicas do Pequeno Vagner

Todo mundo tem histórias de fantasmas.

Tem o tio que viu um vulto.

Tem a prima da vizinha que jurava conversar com espíritos.

Tem o amigo do amigo que viu um disco voador.

Mas a história que vou contar hoje tem uma diferença.

Eu estava lá.

Não ouvi dizer.

Não foi alguém que contou para alguém que contou para alguém.

Eu vi o caos acontecer.

Estamos em 1986.

Escola Estadual Amador Bueno da Veiga.

Parque Sabará.

Taubaté.

Sexta série A.

Período da manhã.

Era um daqueles dias completamente comuns.

Aula normal.

Professor explicando matéria.

Alunos alternando entre prestar atenção e sonhar acordados.

Nada indicava que aquele seria um dos acontecimentos mais comentados do ano letivo.

Até que, de repente...

Um grito.

Depois outro.

E mais outro.

Uma gritaria desesperada tomou conta da escola.

A aula parou imediatamente.

Alunos levantaram.

Professores saíram para o corredor.

Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.

O epicentro da confusão vinha da região dos banheiros próximos ao pátio das merendas.

Corremos para ver.

Porque criança e adolescente possuem um instinto natural.

Onde existe confusão, existe plateia.

E lá fomos nós.

Ao chegar perto da movimentação, encontramos uma cena impressionante.

Uma aluna estava completamente desesperada.

Chorava.

Tremia.

Mal conseguia falar.

A inspetora tentava acalmá-la.

As serventes cercavam a garota.

Professores faziam perguntas.

Outros alunos observavam boquiabertos.

E entre lágrimas e soluços ela repetia a mesma frase:

— Eu vi!

— Eu vi!

— A Loira do Banheiro apareceu para mim!

Pronto.

O caos estava oficialmente instalado.

Hoje, quase quarenta anos depois, continuo sem saber o que realmente aconteceu.

Não sei se a garota teve uma alucinação.

Não sei se alguém fez uma brincadeira.

Não sei se ela interpretou alguma sombra de forma errada.

E também não sei se ela acreditava sinceramente no que dizia.

Mas existe uma coisa que nunca esqueci.

O estado em que ela estava.

Aquilo não parecia teatro.

Não parecia encenação.

Ela estava genuinamente apavorada.

E isso foi suficiente para transformar uma velha lenda urbana em um problema real.

Nos dias seguintes a história explodiu.

Cada turma tinha sua versão.

Cada corredor produzia uma teoria diferente.

Cada recreio acrescentava novos detalhes.

Em poucos dias a Loira do Banheiro já possuía aparência, roupa, horário de aparição, local favorito e até comportamento definido.

A lenda ganhou vida própria.

Chegou ao ponto de haver reuniões com pais.

Conversas com orientadores.

Comentários entre professores.

A garota acabou sendo encaminhada para acompanhamento psicológico.

Enquanto isso, nós, os alunos, fazíamos o que adolescentes fazem melhor:

Espalhávamos ainda mais a história.

O resultado foi imediato.

Ninguém mais queria ir sozinho ao banheiro.

Especialmente nos horários mais vazios.

Formavam-se verdadeiras expedições.

Três.

Quatro.

Cinco alunos juntos.

Como se estivéssemos entrando numa dungeon infestada de monstros.

A coragem individual desapareceu.

A coragem coletiva floresceu.

E assim sobrevivemos.

Mas aquele ano já era complicado por outros motivos.

A direção enfrentava outro problema crescente.

O famoso "cheirinho da loló".

Para quem não viveu aquela época, era uma espécie de lança-perfume artesanal.

Produzido clandestinamente.

Distribuído em pequenos frascos.

Muitas vezes escondido dentro dos famosos bonequinhos agarradinhos que faziam sucesso entre os estudantes.

Enquanto a Loira do Banheiro aterrorizava os corredores...

A diretora travava uma guerra em múltiplas frentes.

Fantasmas de um lado.

Arteiros do outro.

E centenas de adolescentes hiperativos no meio do caminho.

Hoje, olhando para trás, penso que talvez a verdadeira heroína daquela história fosse a diretora.

Porque administrar uma escola cheia de adolescentes já é difícil.

Administrar uma escola cheia de adolescentes convencidos de que uma assombração apareceu no banheiro é praticamente trabalho para super-herói.

Se a Loira do Banheiro realmente existia?

Não faço ideia.

Mas uma coisa eu posso afirmar.

Naquele dia de 1986, uma garota acreditou que viu algo.

E sua reação foi tão verdadeira que acabou alimentando uma das maiores ondas de pânico escolar que testemunhei na juventude.

Quase quarenta anos depois, ainda consigo ouvir os gritos ecoando pelo corredor.

E ainda me pergunto:

O que aquela menina viu naquele banheiro?

Talvez nunca saibamos.

Mas a lenda ganhou mais um capítulo naquele dia.

E suspeito que, em algum canto da memória coletiva da Amador Bueno da Veiga, a Loira do Banheiro ainda continua morando por lá.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...