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segunda-feira, 16 de março de 2026

🚀 O Maestro Invisível do Mainframe: Como o WLM Decide Quem Vive, Quem Espera e Quem Domina o IBM Z

Bellacosa Mainframe apresenta o maestro invisivel do Mainframe: WLM

 

🚀 O Maestro Invisível do Mainframe: Como o WLM Decide Quem Vive, Quem Espera e Quem Domina o IBM Z

“O z/OS não é apenas um sistema operacional. É um sistema de sobrevivência computacional — e o WLM é seu cérebro.”

Se você é um padawan do mainframe 🧙‍♂️, há um momento em que tudo muda.
Você deixa de ver jobs, CICS e DB2 como coisas isoladas… e passa a enxergar um ecossistema vivo, onde milhares de tarefas lutam pelos mesmos recursos.

Nesse universo, existe um árbitro supremo:

🧠 Workload Manager — WLM

Sem ele, um mainframe moderno seria apenas um supercomputador caro brigando consigo mesmo.


🏛️ Antes do WLM: o caos elegante dos anos 70 e 80

Nos primórdios do MVS, a prioridade era… manual.

Operadores e sysprogs definiam:

  • Prioridades fixas

  • Classes de execução estáticas

  • Ajustes “no feeling”

  • Reconfiguração constante

Problemas clássicos:

💥 Batch travando online
💥 CICS lento em horário de pico
💥 CPU livre e usuários reclamando
💥 Sistema imprevisível

O hardware evoluiu. O software também precisava evoluir.


⚙️ O nascimento do WLM — computação orientada ao negócio

O WLM moderno surgiu com o OS/390 nos anos 90.

A ideia foi revolucionária:

❌ Não gerenciar processos
✅ Gerenciar objetivos de negócio

Você não diz:

👉 “Este job tem prioridade 8”

Você diz:

👉 “Quero que 90% das transações respondam em até 1 segundo”

O sistema decide como chegar lá.


🎼 O WLM é um maestro, não um executor

Ele não executa código.

Ele coordena:

  • Dispatcher (CPU)

  • IOS (I/O)

  • Memory manager

  • PR/SM (hardware)

  • Subsystems (CICS, DB2, etc.)

Política → Prioridade → Recursos → Execução

🧩 Os elementos fundamentais do WLM

🏷️ Service Class — “Quem é você?”

Categoria de workload com tratamento específico.

Exemplos reais:

  • CICS_ONLINE

  • DB2_OLTP

  • BATCH_HIGH

  • TSO_USERS

  • DISCRETIONARY

Uma única classe pode representar centenas de workloads.


🎯 Goal — “O que esperamos de você?”

Tipos principais:

  • ⏱️ Response Time — tempo de resposta

  • ⚡ Velocity — progresso contínuo

  • 💤 Discretionary — use as sobras


⭐ Importance — “Quão importante você é?”

Escala de 1 a 5:

1️⃣ Missão crítica
5️⃣ Pode esperar

Sob escassez, isso decide tudo.


⏱️ Performance Periods — prioridade dinâmica

Uma obra-prima do design do WLM.

Permite tratar o mesmo trabalho de forma diferente ao longo do tempo.

Exemplo típico:

Período 1 — Importance 1 — resposta rápida
Período 2 — Importance 3 — menos crítico
Período 3 — Discretionary — só sobras

👉 Protege o sistema contra trabalhos “runaway”.


🧭 Classification Rules — o roteador automático

Determinam qual workload entra em qual Service Class.

Critérios possíveis:

  • Job name

  • User ID

  • Address space name

  • Transaction name (CICS)

  • Atributos de enclave

  • Padrões (wildcards)

💎 Curiosidade: também podem marcar workloads como Storage Critical.


⚡ Dispatchable Units — quem realmente roda

O dispatcher não agenda jobs.

Ele agenda DUs:

  • 🧾 TCB — tasks de aplicação

  • ⚡ SRB — trabalho de sistema

Múltiplas DUs podem rodar simultaneamente no mesmo address space.


🧮 Dispatching Priority — o número mágico

Escala: 0–255 (geralmente >190)

👉 Maior valor ⇒ maior chance de CPU

Mostrado no SDSF (painel DA).

É recalculado constantemente pelo WLM.


📀 I/O Priority e Memory

O WLM também influencia:

📀 I/O

  • Prioridade de acesso a discos

  • Filas de dispositivos

  • Latência de storage

Sem grupos específicos:

👉 I/O priority = Dispatching priority


💾 Storage Critical

Protege workloads contra swap.

Não dá mais memória — evita que sejam expulsos da RAM.

Crucial para:

  • CICS

  • DB2

  • Middleware

  • Serviços online


🩸 Donor vs Receiver — economia de recursos

Sob escassez:

  • 🏆 Receivers → precisam cumprir metas

  • 🩸 Donors → cedem recursos

  • 💤 Discretionary → só sobras

Regra importante:

👉 Só doa quem está usando.


🧠 Enclaves — workloads distribuídos

Representam trabalho que atravessa múltiplos address spaces.

Muito usados em:

  • DB2 DDF

  • APIs

  • Java servers

  • MQ

  • Middleware

Permitem controle ponta a ponta.


🧪 Curiosidades e Easter Eggs

💎 O WLM é considerado uma das maiores vantagens competitivas do mainframe.

💎 Muitos conceitos de QoS em cloud vieram daqui.

💎 Sistemas distribuídos ainda lutam para replicar essa sofisticação.

💎 O mainframe pode parecer “antigo”, mas seu scheduler é mais avançado que o de muitos sistemas modernos.


💥 Falhas mais comuns em produção

❌ Políticas mal projetadas

Sintomas:

  • CPU alta sem ganho real

  • Online lento

  • Batch dominando horários críticos


❌ Service Classes demais

Complexidade gera comportamento imprevisível.


❌ Classificação incorreta

Workloads críticos tratados como comuns.


❌ Ignorar Performance Periods

Trabalhos longos monopolizam recursos.


🛠️ Como controlar e acompanhar

Ferramentas principais:

🖥️ SDSF

  • DA — Address Spaces ativos

  • ENCLAVES — workloads distribuídos

  • ST — Jobs


📊 RMF

Análise profunda de performance.


⚙️ WLM ISPF / z/OSMF

Configuração de políticas.


📈 SMF records

Base para capacity planning e auditoria.


🧭 Como pensar como um especialista

Quando algo está lento, pergunte:

👉 Qual recurso está saturado?
👉 Quem está consumindo?
👉 Esse workload deveria ter essa prioridade?
👉 O WLM está cumprindo ou ignorando metas?


🏆 A verdade final

O poder do mainframe não está apenas no hardware.

Está na capacidade de usar recursos de forma:

✔️ previsível
✔️ controlada
✔️ orientada ao negócio
✔️ resiliente sob carga extrema


🧠 Frase para levar para a vida

WLM não decide quem roda primeiro.
Ele decide quais objetivos do negócio serão preservados quando os recursos acabarem.





sexta-feira, 28 de novembro de 2025

💣🔥 TPS NÃO É THROUGHPUT — É O SEU “COMMIT FINANCEIRO” PASSANDO NO CICS 🔥💣

 

Bellacosa Mainframe CICS e throughput

💣🔥 TPS NÃO É THROUGHPUT — É O SEU “COMMIT FINANCEIRO” PASSANDO NO CICS 🔥💣

Se você entrou numa discussão de arquitetura falando de fila, banco NoSQL e multi-região antes de entender o que é dinheiro sendo movimentado, já começou igual job com JCL errado: vai rodar… mas vai dar abend.


⚙️ TPS vs Throughput — visão Bellacosa Mainframe

No mundo raiz (sim, aquele do CICS + DB2 + commit de verdade):

  • TPS (Transactions Per Second)
    👉 É o COMMIT EXECUTADO
    👉 É o dinheiro que mudou de dono
    👉 É o ponto sem volta
  • Throughput
    👉 É o volume de processamento
    👉 Inclui request, fila, validação, retry
    👉 Muito barulho… nem sempre dinheiro

💥 Tradução brutal:

Throughput é fila cheia.
TPS é saldo alterado com sucesso.

Se você tem:

  • 20k req/s entrando
  • 3k virando transação

👉 Você NÃO tem um sistema de 20k.
👉 Você tem um sistema de 3k TPS financeiro.


🌍 Multi-região — quando o sistema vira “sysplex global sem JES”

Quando você sai de uma região…

Você não escalou.
Você entrou em guerra.

Agora você tem:

  • 🌐 Latência: 100–200ms (no mínimo)
  • 🔄 Consistência distribuída
  • ⚠️ Conflito de escrita
  • 🔁 Failover real (não o de slide de PowerPoint)

💣 E aqui vem o ponto que derruba sistema:

TPS deixa de ser capacidade e vira problema de coordenação global.


💥 Onde TODO mundo quebra (sem exceção)

1. Consistência forte global

👉 “Vamos manter saldo sincronizado em todas regiões”

Resultado:

  • Lock distribuído
  • Round-trip global
  • TPS despenca mais rápido que job mal indexado

💣 Isso aqui mata performance.


2. Dependência síncrona entre regiões

👉 API Brasil → chama EUA → espera resposta

Resultado:

  • Cada request carrega latência global
  • Você virou refém da pior região

💣 É o equivalente moderno de:

“esperar fita montar pra continuar o batch”


3. Hotspot de dados

👉 Conta sendo acessada globalmente

Resultado:

  • Contenção
  • Locking
  • Throughput artificialmente alto… TPS real baixo

💣 Clássico erro de modelagem.


☠️ O ERRO RAIZ (o mais perigoso)

“Vamos usar Kafka”
“Vamos usar Cassandra”
“Vamos fazer active-active”

🚫 Errado.

Isso é igual dizer:

“Vamos usar DFSORT” antes de saber o layout do arquivo.


🧠 Modelo mental Bellacosa (nível arquiteto de guerra)

Antes de falar de tecnologia, responda:

1. Tipo de operação

  • 💰 Financeira crítica?
  • 🔁 Pode reprocessar?
  • ♻️ É idempotente?

2. Consistência

  • 🔒 Forte → saldo, ledger
  • 📊 Eventual → extrato, notificação

💣 Regra de ouro:

Quanto mais consistência, menor o TPS possível.


3. Latência aceitável

  • ⚡ 100ms?
  • 🕒 500ms?
  • 🔁 segundos com retry?

👉 Isso define TUDO.


4. Distribuição geográfica

  • Usuário local?
  • Cross-border?

👉 Se for global, esqueça sonho de consistência forte em tudo.


5. Perfil de carga

  • 📈 Constante?
  • 🚀 Pico violento?

👉 Sistema que aguenta pico não nasce por acidente.


🏦 Caso real (estilo “produção sem desculpa”)

Cenário:

  • 10k TPS global
  • Brasil + México
  • Transferência financeira

Estratégia inteligente

👉 Saldo = consistente localmente
👉 Cross-region = assíncrono

Fluxo mental:

  • Região BR resolve BR rápido
  • Região MX resolve MX rápido
  • Entre regiões → evento + reconciliação

⚖️ O trade-off que ninguém escapa

Você sempre escolhe entre:

  • 🔒 Consistência
  • ⚡ Latência
  • 🚀 Throughput

💣 Não existe arquitetura perfeita.
Existe arquitetura assumida com responsabilidade.


🔥 Conclusão estilo Bellacosa

Sistema financeiro não é sobre tecnologia.

É sobre decisão sob restrição real.

💣 Engenheiro júnior:

“Qual tecnologia usar?”

🔥 Engenheiro sênior:

“Qual risco eu posso aceitar?”


☕ Verdade final (nível mainframe raiz)

Se o seu TPS depende de coordenação global síncrona…

👉 você não construiu escala
👉 você construiu um gargalo distribuído

segunda-feira, 10 de abril de 2017

🧾Os Anos de Ouro : Parte I — Quando o Crachá Valia Sonho

 

Bellacosa Mainframe e os anos de ouro da informatica quando o cracha valia o sonho parte I

🧾 Parte I — Os Anos de Ouro: Quando o Crachá Valia Sonho

por Bellacosa Mainframe ☕💼

Houve um tempo — não muito distante — em que o emprego era quase um sacramento.
Você acordava cedo, vestia a melhor roupa, pegava o ônibus lotado e, ao bater o ponto, sentia um certo orgulho.
O crachá era mais que um cartão magnético: era o símbolo de pertencimento.
Era o “sou alguém” numa cidade que engolia anônimos.

Nos anos 80 e 90, o escritório ainda tinha alma.
O chefe conhecia o nome dos funcionários, o cafezinho era comunitário, o vale-transporte vinha em papel, e o salário — embora modesto — pagava o mês com dignidade.
Havia futuro.
Você podia começar como office-boy, virar, evoluindo como um Pokémon: auxiliar, auxiliar-técnico, técnico, analista,  coordenador, assistente, chefe,  quem sabe gerente, ou mesmo com muito esforço DIRETOR.

Era o tempo dos planos de carreira e das pastas de couro, dos carimbos, dos cheques nominais e da máquina de escrever elétrica que era disputada como se fosse um Tesla. Aqueles sortudos que podiam agendar hora de uso acesso aos Terminais 3270 dos Mainframe IBM.

📠 Curiosidade de época:
Havia um ritual quase sagrado chamado “hollerith”.
Você o recebia em papel, abria com cuidado, e lá estavam seus descontos, seus ganhos, e a prova viva de que você pertencia a algo que fazia sentido.
O mundo do trabalho era humano, previsível, quase paternal.

Comiamos marmitas esquentadas em aquecedores eletricos na sala de reunião transformada em um animado refeitorio improvisado.

E por mais que fosse duro, ainda havia uma relação de reciprocidade entre patrão e empregado.

👔 O pacto invisível

Trabalhar era um contrato de confiança.
Você se dedicava, e a empresa te retribuía.
O chefe tinha palavra, o funcionário tinha lealdade.
Os currículos eram impressos, as entrevistas eram olho no olho — e a palavra “colaborador” ainda não tinha sido inventada pra disfarçar o que se era de fato: empregado.

Havia almoço de fim de ano, amigo screto, festa na firma, cesta de Natal, e até o brinde com refrigerante quente na cozinha improvisada.
Pequenos gestos que, somados, criavam identidade.
O trabalho era mais que salário: era laço social.

💾 Easter-egg: O COBOL das relações humanas

Assim como o COBOL, o trabalho daquela época era direto, estruturado e confiável.
Sem loops infinitos de “feedbacks construtivos” ou “OKRs trimestrais”.
Você entregava, recebia, vivia.
E o sistema, por mais antigo que fosse, funcionava.

🕰️ Nostalgia com propósito

Hoje, pode parecer romantização.
Mas quem viveu sabe: havia mais pertencimento, menos performance.
Mais humanidade, menos “branding pessoal”.
O emprego era porto seguro, não uma roleta emocional.

O office-boy de 15 anos ainda acreditava que o crachá era uma chave — e, de certo modo, era mesmo.
Chave pra independência, pra autoestima, pra esperança.
O crachá valia sonho.
E sonhar, naquela época, ainda era gratuito.


☕ #BellacosaMainframe #ElJefeMidnight #CrônicasDoTrabalho
💼 #MemóriasCorporativas #FuturoDoTrabalho #Anos80 #CracháComAlma #COBOLDaVida


terça-feira, 5 de julho de 2016

Mainframe History : Parte VII — Cartões Perfurados, Hollerith e a IBM: Quando Dois Mundos Caminhavam para o Mesmo Futuro

 

Bellacosa Mainframe e o outro computador z parte vii

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Muito Antes do IBM Z Existia Outro "Z"

Parte VII — Cartões Perfurados, Hollerith e a IBM: Quando Dois Mundos Caminhavam para o Mesmo Futuro

"Nem toda revolução nasce da mesma ideia. Às vezes, duas estradas completamente diferentes acabam chegando ao mesmo destino."

Até aqui acompanhamos a extraordinária trajetória de Konrad Zuse.

Vimos um engenheiro transformar a sala de estar de seus pais em um laboratório improvisado.

Construir o Z1 utilizando milhares de peças mecânicas.

Trocar engrenagens por relés no Z2.

Criar o Z3, considerado por muitos o primeiro computador digital programável totalmente funcional.

Levar o Z4 até a ETH Zürich.

E, por fim, conceber o Plankalkül, uma linguagem tão avançada que o mundo levaria décadas para compreendê-la.

Mas existe uma pergunta inevitável.

Onde estava a IBM enquanto tudo isso acontecia?

A resposta costuma surpreender.

Porque a IBM não estava construindo computadores iguais aos de Konrad Zuse.

Na verdade, estava resolvendo um problema completamente diferente.

E talvez seja justamente por isso que ambas mudaram a história.


Dois Sonhos Diferentes

Imagine duas oficinas trabalhando no mesmo período.

Na primeira, em Berlim, Konrad Zuse tenta construir uma máquina capaz de executar qualquer algoritmo.

Na segunda, espalhada por escritórios, fábricas e órgãos governamentais ao redor do mundo, a IBM aperfeiçoa máquinas capazes de organizar milhões de registros administrativos.

Uma busca flexibilidade.

A outra busca produtividade.

Uma atende engenheiros.

A outra atende empresas.

Uma quer resolver equações diferenciais.

A outra quer processar folhas de pagamento, censos populacionais, seguros e estatísticas.

À primeira vista parecem tecnologias incompatíveis.

Na verdade, ambas eram indispensáveis.


Antes da IBM Existia Herman Hollerith

Toda boa história possui um prólogo.

A da IBM começa muito antes de Thomas J. Watson.

Começa com um engenheiro chamado Herman Hollerith.

No final do século XIX, os Estados Unidos enfrentavam um enorme problema.

O Censo de 1880 levou quase oito anos para ser totalmente processado.

O país crescia rapidamente.

Havia o risco de que o próximo censo terminasse apenas quando o seguinte já estivesse começando.

Era necessário acelerar drasticamente o processamento dos dados.

Hollerith teve uma ideia brilhante.

Representar informações por meio de furos em cartões de papel.

Cada posição representava uma característica.

Sexo.

Idade.

Estado civil.

Profissão.

Nacionalidade.

Os cartões eram lidos por máquinas eletromecânicas capazes de contar e classificar registros em uma velocidade inédita.

O resultado foi espetacular.

O Censo de 1890 foi concluído em uma fração do tempo esperado.

Nascia ali uma nova indústria.


☕ Café com Naftalina

Quando hoje executamos um SORT FIELDS=COPY em um IBM Z, é difícil imaginar que existe uma linhagem histórica ligando essa operação às antigas máquinas classificadoras de cartões perfurados.

O princípio continua o mesmo.

Organizar informação.

A tecnologia é que mudou.


Da CTR à IBM

A empresa criada por Hollerith evoluiu ao longo dos anos e participou de diversas fusões.

Em 1911 surgiu a Computing-Tabulating-Recording Company (CTR).

Poucos anos depois, um executivo extremamente ambicioso assumiu sua liderança.

Seu nome era Thomas John Watson Sr.

Foi Watson quem percebeu que aquela empresa poderia tornar-se muito mais do que uma fabricante de máquinas.

Em 1924, a CTR passou a chamar-se International Business Machines.

Ou simplesmente:

IBM.

O nome já revelava a ambição.

Não era uma empresa local.

Nem nacional.

Era uma empresa que pretendia atender o mundo.


Muito Antes do Mainframe

Quando ouvimos "IBM", imediatamente pensamos em System/360, z/OS, Db2, CICS, RACF e IBM Z.

Mas, nas décadas de 1920 e 1930, a realidade era outra.

A IBM produzia principalmente:

  • perfuradoras de cartões;

  • verificadoras;

  • classificadoras;

  • tabuladores;

  • calculadoras eletromecânicas;

  • máquinas de contabilidade.

Esses equipamentos dominavam o processamento administrativo.

Não eram computadores de propósito geral.

Mas eram extraordinariamente eficientes para seu objetivo.


Como Funcionava um Centro de Processamento de Dados em 1935?

Imagine entrar em um CPD daquela época.

Nada de racks.

Nada de fibras ópticas.

Nada de SAN.

Você encontraria enormes equipamentos metálicos.

Mesas repletas de cartões perfurados.

Operadores cuidadosamente alimentando máquinas.

Funcionárias especializadas em perfuração de cartões.

Classificadoras organizando milhares de registros.

Tabuladores imprimindo relatórios.

O ambiente era barulhento.

Cheio de engrenagens.

Motores elétricos.

E o característico som dos cartões deslizando por mecanismos de leitura.

Era um datacenter.

Só que feito de papel.


🔧 Oficina do Engenheiro

O cartão perfurado tornou-se um padrão porque reunia três características fundamentais:

  • era barato;

  • podia ser transportado facilmente;

  • permitia armazenar informações de forma relativamente confiável.

Durante décadas, milhões de programas COBOL também seriam distribuídos em cartões perfurados.

A mídia mudou.

O conceito de representar dados de forma padronizada permaneceu.


Enquanto Isso, em Berlim...

Enquanto a IBM aperfeiçoava suas máquinas administrativas, Konrad Zuse seguia outro caminho.

Ele não queria apenas processar registros.

Queria construir uma máquina universal.

Uma máquina capaz de executar qualquer sequência lógica.

Essa diferença é fundamental.

As máquinas IBM da época eram configuráveis, mas especializadas.

O Z3 era programável para diferentes problemas matemáticos.

Não competiam entre si.

Atendiam mercados distintos.


A Dehomag

Na Alemanha, a IBM atuava por meio de sua subsidiária Dehomag (Deutsche Hollerith-Maschinen Gesellschaft).

A empresa fabricava e mantinha equipamentos baseados na tecnologia Hollerith para clientes alemães.

Como outras empresas multinacionais da época, sua atuação durante os anos do regime nazista continua sendo objeto de intensa pesquisa histórica. Há consenso de que máquinas Hollerith foram utilizadas por órgãos do governo alemão em atividades administrativas, mas historiadores ainda discutem o grau de autonomia da Dehomag, o nível de controle exercido pela matriz da IBM e as responsabilidades corporativas naquele contexto.

Para quem estuda história da computação, é importante separar duas questões distintas:

  • a evolução tecnológica das máquinas;

  • o contexto político em que elas foram utilizadas.

Misturar esses temas sem cuidado costuma gerar interpretações simplificadas.


📦 Baú do Sysprog

Tecnologia é uma ferramenta.

Ela pode ser utilizada para ampliar conhecimento, organizar empresas, desenvolver medicamentos ou administrar sistemas financeiros.

Também pode ser utilizada em contextos profundamente negativos.

Conhecer a história completa ajuda engenheiros e profissionais de TI a refletirem sobre a responsabilidade associada às tecnologias que desenvolvem e administram.


IBM e Zuse Nunca Foram Inimigos

Existe um mito recorrente.

Muitos imaginam que Konrad Zuse e IBM travavam uma corrida direta.

Na realidade, isso nunca aconteceu.

A IBM era líder absoluta em processamento de dados comerciais.

Zuse trabalhava praticamente sozinho desenvolvendo computadores científicos.

Os clientes eram diferentes.

Os objetivos eram diferentes.

As arquiteturas eram diferentes.

Décadas depois, essas duas linhas evolutivas começariam a convergir.

Os computadores deixariam de ser apenas calculadoras científicas.

As empresas passariam a exigir máquinas programáveis para aplicações comerciais.

Era exatamente o ponto onde a experiência da IBM encontraria as ideias pioneiras de Zuse e de outros pesquisadores.


O Que um Sysprog Aprende?

Todo Sysprog conhece a importância de escolher a ferramenta certa.

Não utilizamos um utility de REORG para fazer um BACKUP.

Não usamos um SORT para administrar segurança.

Cada componente possui um propósito.

A história da computação ensina exatamente a mesma lição.

As máquinas Hollerith eram extraordinárias para organizar grandes volumes de dados administrativos.

Os computadores de Zuse eram extraordinários para cálculos científicos programáveis.

Ambos estavam corretos.

Ambos resolveram problemas reais.

E ambos deixaram contribuições fundamentais para aquilo que décadas depois se transformaria nos modernos ambientes IBM Z.


O Encontro de Dois Mundos

No início dos anos 1960, quando a IBM apresentou o System/360, algo extraordinário aconteceu.

Pela primeira vez, uma arquitetura comercial reunia:

  • processamento científico;

  • processamento administrativo;

  • programação de propósito geral;

  • compatibilidade entre modelos;

  • expansão contínua.

De certa forma, era a convergência das duas grandes correntes que acompanhamos nesta série.

A visão universal de Konrad Zuse.

E a experiência empresarial construída pela IBM desde Herman Hollerith.

O resultado dessa união moldaria toda a computação corporativa das décadas seguintes.


No Próximo Café...

Até agora acompanhamos a evolução da computação alemã e o crescimento silencioso da IBM.

Mas existiam outros protagonistas espalhados pelo mundo.

Na Inglaterra, uma máquina ajudava a decifrar mensagens secretas.

Nos Estados Unidos, universidades desenvolviam computadores eletromecânicos gigantescos.

Na próxima parte responderemos uma pergunta que até hoje desperta debates apaixonados:

Quem realmente inventou o primeiro computador?

Conheceremos o Colossus, o Harvard Mark I, o ENIAC, o EDVAC e veremos por que a resposta depende muito mais da definição de "computador" do que da data em que cada máquina entrou em funcionamento.

Prepare outro café.

A viagem pela história da computação está apenas começando.

Esse capítulo faz a ponte entre a linha evolutiva de Herman Hollerith → IBM → System/360 → IBM Z e a linha de Konrad Zuse → computadores programáveis, preparando o terreno para o grande debate histórico da próxima parte: afinal, quem merece o título de "primeiro computador"?

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Histórias com Cheiro de Naftalina

O Guia do Viajante do Tempo

Muito Antes do IBM Z Existia Outro “Z”

Viaje pelas origens da computação, conhecendo Konrad Zuse, Herman Hollerith, Tommy Flowers, John von Neumann, o Colossus, o EDVAC, o IBM System/360 e os pioneiros que construíram o caminho até o IBM Z.

ARTIGO SELECIONADO

O Guia do Viajante do Tempo

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☕ Quem não conhece o passado não entende o código do futuro.

Bellacosa Mainframe — tecnologia, história, COBOL, IBM Z e memória.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

⚙️ Como Quase viro Torneiro Mecânico (e o SENAI Me Salvou de Mim Mesmo)

 


⚙️ Como Quase viro Torneiro Mecânico (e o SENAI Me Salvou de Mim Mesmo)

Crônica ao estilo Bellacosa Mainframe para o blog El Jefe Midnight Lunch

Existem destinos que brigam com a gente.
Outros que puxam a gente pelo colarinho.
E alguns que dão um grito, uma sirene e uma botinada numa porta de aço — só para deixar bem claro qual caminho você não deve seguir.

A minha história com o “quase” começa cedo. A família estava cheia deles: tios torneiros, avôs torneiros, primos torneiros. A serralheria e o torno eram praticamente segunda religião. E para minha mãe, torneiro mecânico era profissão de futuro — sólida, respeitável, manual, bonita de se ver no currículo.

Eu, obediente e sem internet para consultar “10 carreiras que dão match com seu signo”, fui entrando na dança.

  • Fiz inscrição no vestibulinho.

  • Passei.

  • Fui classificado.

  • E o mais raro de tudo: consegui carta de recomendação e adoção para o curso, o famoso “patrocínio” — a moeda de ouro da época.

Estava tudo certo.
Tudo escrito.
Tudo pronto.

Mas o destino, esse programador meio bêbado que vive rodando scripts improváveis, tinha outros planos.




🔔 A Sirene do SENAI — o som que separou minha vida em duas

Era dia de fazer a matrícula.
Eu e minha mãe fomos ao SENAI…
…no horário de almoço.

E aí aconteceu.

Primeiro, uma sirene.
Daquelas que arrepiam alma, bons costumes e qualquer vocação que você achava que tinha.

Depois, BUMMMM.

Uma estrondosa botinada acertou as portas de aço que separavam a área de aulas da área de máquinas.
Aquelas portas tremeram como se um Kaiju tivesse batido nelas.

E então, a visão.



👷‍♂️ A procissão azul — e a epifania

Saiu um rebanho de alunos, como uma leva de trabalhadores de mina abandonando o turno:

  • Macacões azuis

  • Capacetes brancos

  • Botinas de biqueira de aço

  • Graxa até no DNA

  • Barulho de chave inglesa batendo no bolso

  • Aquele cheiro de ferro, óleo queimado e marmita de alumínio

Olhei para aquilo.
Para aquela massa operária se esparramando rumo ao almoço.
Dei um pause mental.
Fiz uma simulação mental estilo “What If…?” da Marvel:

E se EU estivesse ali no meio deles?

Eu.
O menino que gostava de computador, de tecla, de monitor verde, de café, de cheiro de laboratório fotográfico do pai, de livros e revistas tecnológicas.

Eu ali, no meio daquela avalanche azul, com uma lima numa mão e um paquímetro na outra.

Meu cérebro deu tela azul.
Meu coração deu dump.
A lógica marcou ABEND S0C7.




🛑 Escolha crítica — commit ou rollback

Respirei fundo.
Olhei para a minha mãe.

E falei:

— Mãe… não quero isso. Vamos embora.

Se silêncio matasse, eu não estaria escrevendo este post.
Ela ficou meia pistola, meia frustrada, inteira sem entender.

Mas aceitou.

E fomos embora.

A porta de aço atrás de mim se fechou.
E com ela, a versão alternativa da minha vida.




💾 A virada — do torno ao terminal

Dias depois, estava matriculado em Processamento de Dados.

E ali, naquele desvio, naquele branch alternativo do destino, minha vida começou a compilar direito:

  • Teclado no lugar da lima

  • JCL no lugar de fresadora

  • Tabela ASCII no lugar de catálogo de ferramentas

  • Frio de CPD no lugar de calor de oficina

  • Café de madrugada no lugar de sirene industrial

Aquele menino que congelou vendo a procissão azul virou:

  • Analista

  • Professor

  • Bellacosa Mainframe

  • Evangelista do z/OS

  • Cronista de memórias boas

  • Viajante de trilhos e bytecodes

E sobretudo, alguém que ouviu a própria voz no momento certo — antes que o torno engolisse o sonho.




📌 Conclusão — A porta de aço que mudou tudo

Algumas pessoas são moldadas pelo torno.
Outras são moldadas por aquele exato momento em que percebem que não pertencem ao torno.

Eu fui moldado pela sirene.
Pela botinada.
Pelo susto.
Pela intuição.

Aquele dia me ensinou que:

  • Destino não é linha reta, é branching

  • Vocação não é herança

  • Coragem não é continuar — é dizer “não” quando todo mundo espera um “sim”

  • E portas de aço às vezes servem para te acordar

Se eu tivesse entrado na oficina naquele dia… talvez tivesse virado torneiro.
Talvez fosse feliz.
Talvez não.

Mas eu sei que o menino que saiu correndo do SENAI com a mãe irritada voltou para casa carregando um future-self no bolso:

Um futuro Bellacosa, digitando histórias na madrugada, vivendo entre bytes e trilhos, sanando incidentes e conjurando soluções às 3h da manhã como um bom Dai Maou do Mainframe.

E tudo graças àquela sirene.

Àquela porta.

E àquele não.

segunda-feira, 2 de março de 2009

✏️ Capítulo 2 — Giz, Mimiógrafo e Destinos Impressos

 


📚 SÉRIE “Sempre um Isekai”

Por Bellacosa Mainframe
(Memórias de um garoto que aprendeu a trocar de mundo sem sair da sala de aula)

✏️ Capítulo 2 — Giz, Mimiógrafo e Destinos Impressos

Vim de um tempo em que mal aluno com fraco desempenho era reprovado mesmo — sem dó, piedade e sem discurso motivacional.

Mas eu era bom aluno, sempre me destaquei em todas as matérias, ops, quase todas, era abaixo da média em Educação Física, odiava os exercícios, ter que jogar bola, realmente era algo que não me dava prazer. O curioso é que fora a escola jogava vôlei e futebol normal, andava quilômetros em bicicleta, capinava quintais para ganhar uns trocos. O problema era a questão da aula mesmo... quero dizer não era preguiçoso, só não gostava mesmo, era um nerd, que vivia na biblioteca municipal fazendo pesquisas, numa era sem IA e Google para recuperar pontos em EF.

Passei pelos quatro anos do primário com sucesso, mantive boas notas no ginásio e alcancei a glória sendo um aluno brilhante e invejado e vi o colegial passar num piscar de olhos, nesta época já trabalhava então não foi o melhor alunos, mas estive no Top.

Foi ali que me formei técnico em Processamento de Dados, colegial-tecnico onde aprendiamos o suficiente para prestar o Vestibular, mas garantia uma profissão com melhor remuneração, que abriria as portas do mundo empresarial e me levaria, anos depois, aos corredores sagrados do mainframe.


Naquele tempo, informática ainda tinha cheiro de papel perfurado e fita magnética.
Falar em computador era falar em futuro — e eu queria estar lá, digitando linhas de destino no teclado verde-fósforo, não era um IBM Mainframe, mas sim um microcomputador de 8 bits da marca CP 500.

Participei do centro acadêmico no ginásio e no colegial — outros nomes, mesma essência: alunos que acreditavam poder melhorar o mundo começando pela escola.




Produzíamos jornalzinhos em mimiógrafo, ajudávamos em festas e eventos, organizávamos campeonatos e saraus.





Eram tempos simples, mas cheios de propósito e camaradagem.


Foram anos gratificantes, cheios de aventura, cheiro de álcool e papel úmido, onde cada professor era um farol e cada colega, um companheiro de travessia.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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