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Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens.
Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê.
Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão.
Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
💾 Capítulo 3 — Entre o 3270 e o XT: o despertar do programador
Série: Crônicas de um Office-Boy Mainframe
Entre uma ida ao banco e outra, eu já não era mais o mesmo.
O garoto que carregava pastas começou a carregar também uma curiosidade sem fim.
Naquela época, os computadores ainda tinham cheiro de tinta, poeira e novidade.
E bastava um terminal 3270 piscando na tela para que o coração batesse diferente.
O 3270 era o portal para o sistema central — o grande cérebro da empresa.
Eu via os analistas digitando comandos enigmáticos, telinhas cheias de números, mensagens que pareciam falar com outro mundo.
E pensava comigo:
“Como será que eles fazem isso acontecer?”
Foi então que o XT entrou de vez na minha história.
Aquele micro que chegou em uma caixa, e que ninguém sabia montar, agora estava em pleno funcionamento.
E o office-boy curioso virou seu “operador não-oficial”.
💡 Eu aprendia no instinto — sem curso, sem internet, sem manual.
Descobria as funções por tentativa e erro.
Comandos do MS-DOS, teclas de função, diretórios…
Era o nascimento do meu alfabeto digital.
Comecei a anotar tudo em um caderninho surrado: DIR, COPY, DEL, FORMAT, CLS — cada comando era um pequeno feitiço.
O XT virou minha escola silenciosa.
Durante os intervalos, eu ficava observando o comportamento do sistema.
Quando dava erro, tentava entender o porquê.
Sem perceber, estava pensando como programador — ainda que o cargo dissesse “office-boy”.
Alguns colegas achavam estranho aquele garoto preferir o teclado à conversa.
Outros riam, dizendo que “computador era coisa de engenheiro”.
Mas algo dentro de mim dizia que aquele era o meu caminho.
⚙️ Foi ali, entre o 3270 e o XT, que despertei.
Descobri que máquinas podiam obedecer ideias, que lógica podia virar ação.
E que, no fundo, programar era uma forma de conversar com o invisível —
de transformar curiosidade em código, e código em futuro.
Anos depois, quando entrei no mundo do mainframe, percebi que tudo começou ali:
Naquele micro empoeirado da Avenida Paulista,
com um garoto da Zona Leste digitando seus primeiros comandos
sem saber que estava escrevendo, linha por linha, o roteiro da própria vida.
Bellacosa Mainframe e memoria de um pequeno trabalhador
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
O Velho Vagner Senta-se em Astúrias — O Garoto das 5h15 Finalmente Chegou em Casa
Ou: como um menino de 14 anos atravessou trens destruídos, marmitas, greves, caminhões militares, escola noturna, computadores de 8 bits, montanhas e uma câmera de 35 mm até descobrir que algumas jornadas levam quase uma vida inteira para chegar à estação final
Prólogo — O velho no banco
Astúrias.
Talvez Oviedo.
Talvez uma manhã fria daquelas em que o céu parece não ter decidido se vai chover.
O velho Vagner está sentado em um banco do Campo de San Francisco.
Não está fazendo nada.
E isso, por si só, já é extraordinário.
Durante boa parte da vida ele esteve indo para algum lugar.
Trem.
Ônibus.
Trabalho.
Escola.
Aeroporto.
Escritório.
Data center.
Montanha.
Outro país.
Outra cidade.
Outra aventura.
Mas agora simplesmente está sentado.
Perto dali passam crianças, aposentados, turistas, cachorros, estudantes e pessoas que provavelmente estão atrasadas para alguma coisa.
Vagner observa.
O velho ainda gosta de observar.
Certos programas nunca foram desinstalados.
Ele olha para o relógio.
5h15.
Sorri.
— Eu conheço esse horário.
E, durante alguns segundos, Astúrias desaparece.
Não existe Espanha.
Não existe aposentadoria.
Não existe velho.
Existe São Paulo.
Existe 1987.
E existe um garoto de 14 anos acordando antes do Sol.
1. 05:15 — IPL
Quem trabalha com mainframe sabe que alguns sistemas precisam começar antes que os usuários percebam que existem.
Com aquele garoto acontecia algo parecido.
Às 5h15 começava o IPL.
Não havia botão SNOOZE filosoficamente aceitável.
Era levantar.
Vestir-se.
Conferir documentos.
Dinheiro.
Marmita.
Horário.
Sair.
O mundo ainda estava escuro.
Enquanto muitos adolescentes dormiam, aquele menino já estava executando sua primeira rotina crítica do dia.
Perder alguns minutos em casa podia significar perder o trem.
Perder o trem podia significar perder o ônibus.
Perder o ônibus podia significar chegar atrasado.
Chegar atrasado podia significar problema no emprego.
O relógio não queria saber se chovia.
Nem se fazia frio.
Nem se havia granizo.
Nem se o transporte estava ruim.
Nem se você tinha 14 anos.
O relógio simplesmente contava.
2. O trem que podia matar
Em 1987, a ferrovia deixou de ser apenas transporte.
Um grave acidente envolvendo trens marcou São Paulo.
Para o garoto que dependia daquele sistema, porém, a tragédia não desapareceu quando saiu dos jornais.
Os trens acidentados permaneceram durante meses na região da estação Roosevelt, no Brás.
No começo estavam cobertos.
Um plástico preto escondia parte daquilo.
Mas plástico envelhece.
Rasga.
O vento abre frestas.
E aquilo que deveria desaparecer volta a aparecer.
Todos os dias, o garoto passava por ali.
Não era necessário que ninguém explicasse mortalidade para ele.
A aula estava estacionada diante da plataforma.
Aquilo podia acontecer com o trem em que ele estava.
E na manhã seguinte?
Entrava novamente.
Esse detalhe é importante.
Coragem não significa acreditar que nada acontecerá.
Às vezes coragem significa conhecer perfeitamente o risco e, mesmo assim, perceber que você precisa continuar.
3. O vilão também era o herói
Décadas depois, sentado em Astúrias, Vagner finalmente encontrou uma definição para aquele trem.
Ele era simultaneamente:
vilão e herói.
Era vilão quando estava superlotado.
Quando quebrava.
Quando atrasava.
Quando pessoas brigavam.
Quando havia batedores de carteira.
Quando o medo de assalto acompanhava o passageiro.
Quando alguém precisava viajar perigosamente junto a uma porta aberta.
Mas à noite ele se transformava.
Depois do trabalho.
Depois da escola.
Depois de um dia começado às 5h15.
Quando as luzes daquela composição apareciam ao longe, existia uma certeza extraordinária:
vou chegar em casa.
O mesmo objeto que pela manhã representava perigo, à noite representava salvação.
Talvez algumas das relações mais importantes da vida sejam assim.
Não cabem facilmente nas categorias de amor ou ódio.
4. Quando o sistema caía
Programadores mainframe aprendem cedo uma verdade:
todo sistema eventualmente falha.
E quando aquele sistema ferroviário falhava, o caos não era metafórico.
Trem quebrado significava milhares de pessoas tentando encontrar uma alternativa.
Vagner lembra de ocasiões em que voltou sobre uma locomotiva diesel porque era o espaço disponível.
Lembra também de viagens junto a portas abertas, situação em que permanecer no veículo exigia esforço físico.
Hoje, olhando retrospectivamente, não há qualquer motivo para romantizar aquilo.
Era perigosíssimo.
Mas esse é justamente o problema de analisar o passado apenas com as condições do presente.
Naquele momento a pergunta prática não era:
— Qual opção oferece melhor conforto e segurança?
Era:
— Como volto para casa?
Essa diferença explica muita coisa.
5. GREVE — SYSTEM UNAVAILABLE
Então existiam as greves.
E havia uma perversidade especial quando a paralisação atingia o retorno.
O trabalhador conseguira chegar.
Cumprira sua jornada.
Agora estava dezenas de quilômetros distante de casa.
E o sistema desaparecia.
Hoje um telefone imediatamente apresentaria mapas, aplicativos, mensagens, grupos, localização e alternativas.
Naquele mundo, grande parte do sistema de informação era humano.
— Disseram que tem ônibus lá.
— Parece que vai sair um trem.
— Estão colocando caminhões.
— Vai por aquele lado.
A multidão funcionava como uma gigantesca rede peer-to-peer analógica.
E algumas vezes aparecia uma solução extraordinária:
transporte disponibilizado com apoio policial/militar.
Caminhões utilizados normalmente para transportar efetivos recebiam uma multidão desesperada para voltar para casa.
O garoto via policiais tentando organizar o embarque.
Cães.
Gritos.
Gente comprimida.
Confusão.
Décadas depois, a melhor referência cinematográfica que encontra é:
evacuação de filme de apocalipse zumbi.
Só faltavam os zumbis.
Ou talvez os zumbis fossem os próprios passageiros depois de quinze horas acordados.
6. O pau-de-arara metropolitano
Quando dezenas de pessoas deveriam ocupar determinado espaço e aparece uma multidão muito maior tentando embarcar, desaparece rapidamente qualquer ideia sofisticada de transporte.
Sobra capacidade física.
Onde cabe mais um?
Sobe.
Aperta.
Segura.
Vai.
Foi nesse tipo de situação que o garoto compreendeu corporalmente uma expressão que até então poderia parecer apenas histórica:
pau-de-arara.
Não era aventura.
Não era atração turística.
Era contingência.
E talvez tenha sido justamente daí que nasceu aquela brincadeira mental:
“Estou fazendo treinamento militar.”
Porque havia dias em que a metáfora estava perigosamente próxima da realidade.
7. 08:00 — “Bom dia!”
Talvez uma das maiores ironias daquela vida acontecesse às oito da manhã.
Depois de acordar às 5h15.
Depois do frio.
Depois da estação.
Depois do trem.
Depois da multidão.
Depois do ônibus.
Depois de proteger documentos e dinheiro.
Depois de calcular cada minuto.
O garoto chegava ao trabalho.
E alguém dizia:
— Bom dia!
E começava oficialmente a jornada.
Oficialmente.
Porque para o relógio de ponto, tudo aquilo que aconteceu antes simplesmente não existia.
Era processamento externo.
O trabalhador chegava às oito.
O sistema registrava:
ENTRADA = 08:00
Mas ninguém registrava:
JORNADA-REAL-DO-SER-HUMANO = 05:15
8. A carteira profissional era uma patente
Entretanto, seria um erro transformar toda essa história apenas em sofrimento.
Havia orgulho.
A carteira profissional assinada representava algo enorme.
Era quase uma patente militar.
Aquele adolescente havia entrado oficialmente no mundo do trabalho.
Salário.
Décimo terceiro.
Férias.
Direitos.
Possibilidade de comprar.
Possibilidade de ajudar.
Possibilidade de planejar.
Possibilidade de melhorar.
A carteira dizia:
“Você agora participa do sistema.”
E isso tinha um peso enorme.
9. A marmita era o tesouro
Todo RPG possui inventário.
O inventário daquele aventureiro tinha um item particularmente importante:
MARMITA.
Hoje é fácil subestimar aquilo.
Mas a marmita significava dinheiro, preparação e alimento para atravessar a jornada.
E havia bosses específicos.
Boss 1 — Marmita azedou.
GAME OVER no almoço.
Boss 2 — Marmita caiu.
Tesouro perdido durante o transporte.
Boss 3 — Vazou.
Dano de área na mochila.
O problema é que nem sempre havia dinheiro para simplesmente comprar outra refeição.
Portanto cuidar da marmita era logística.
Décadas depois, quando aquele garoto conseguiu proporcionar comida melhor para a família, talvez a vitória tivesse um sabor que alguém criado com abundância jamais perceberia completamente.
10. 17:15 — Não acabou
Às 17h15 terminava o expediente.
Mas não o dia.
Começava outra quest.
ESCOLA.
Outros bosses.
Outras regras.
Outras exigências.
Professor.
Matéria.
Trabalho.
Prova.
Nota.
E aqui surge um detalhe maravilhoso.
O objetivo do garoto não era simplesmente passar.
Sua meta era:
TOP 5 DA CLASSE
Pense nisso.
Acordar às 5h15.
Atravessar São Paulo.
Trabalhar.
Ir para a escola.
Sentar diante de uma prova.
E ainda pensar:
quero estar entre os cinco melhores.
Não havia bônus por cansaço.
A prova não perguntava:
TRABALHOU-HOJE? S
PEGOU-TREM-LOTADO? S
ESTA-CANSADO? S
ADD 2 TO NOTA-FINAL
Nada disso.
Nove era nove.
Dez era dez.
E o garoto queria disputar as primeiras posições.
11. O sorriso profissional
Existia ainda uma disciplina invisível.
Autocontrole.
O mundo podia estar uma porcaria.
O trem podia ter atrasado.
Alguém podia ter empurrado você.
Sua marmita podia ter sofrido um ABEND.
Você podia estar cansado.
Mas no trabalho precisava existir:
educação;
atenção;
disposição;
respeito;
controle emocional.
Uma explosão de raiva podia colocar tudo a perder.
Portanto o garoto aprendeu cedo uma das habilidades mais difíceis do mundo profissional:
não permitir que todo erro externo provoque um ABEND interno.
Isso não significa engolir tudo.
Significa compreender que nem toda batalha merece ser travada.
12. Então apareceram as recompensas
A campanha começou a produzir loot.
Primeiro, coisas fundamentais.
Melhor comida.
Depois:
melhor assistência médica.
E havia algo ainda maior.
Ele podia ajudar a mãe.
Podia ajudar os irmãos.
O dinheiro deixava de ser apenas remuneração.
Transformava-se em qualidade de vida para uma pequena comunidade chamada família.
Então chegou uma conquista memorável:
a primeira televisão colorida.
Parece banal em 2026.
Não era.
A televisão colorida dizia silenciosamente:
estamos avançando.
13. O Nintendinho entra em casa
Depois veio o videogame.
O primeiro Nintendo.
E quando sobrava algum dinheiro:
cartuchos.
Existe uma ironia deliciosa nisso.
O adolescente que havia passado o dia inteiro enfrentando fases, obstáculos e bosses chegava em casa e ligava uma máquina cujo objetivo era...
enfrentar fases, obstáculos e bosses.
Talvez Mario parecesse até relaxante.
Pelo menos Bowser não fazia greve de transporte.
14. Os computadores de 8 bits
Mas algumas máquinas tinham outra magia.
Os computadores domésticos de 8 bits mostravam uma superfície aparentemente simples.
Teclado.
Tela.
Pouca memória.
Poucas cores.
Entretanto havia alguma coisa escondida dentro deles.
E o garoto queria saber:
como isso funciona?
Essa pergunta é perigosíssima.
Porque algumas pessoas passam o resto da vida tentando respondê-la.
O computador deixa de ser eletrodoméstico.
Vira território.
Você digita alguma coisa.
A máquina responde.
Muda um valor.
Acontece outra coisa.
Erro.
Tenta novamente.
Funciona.
É uma sensação extraordinária:
eu disse para a máquina fazer alguma coisa e ela fez.
Décadas depois haveria COBOL, mainframes, bancos de dados, redes, APIs, inteligência artificial.
Mas antes de todas essas catedrais existiram pequenas máquinas de 8 bits dizendo:
READY.
15. O raio de 500 quilômetros
Quando sobrava algum dinheiro, entretanto, Vagner não comprava somente coisas.
Comprava distância.
Seu universo de aventuras tinha uma regra financeira.
Não dava para atravessar o planeta.
Tudo bem.
Qual era o mundo disponível?
Talvez 100 quilômetros.
No máximo aproximadamente 500.
E dentro daquele raio existiam montanhas.
Vales.
Trilhas.
Estradas.
Campings.
Cidades.
Histórias.
Descobriu cedo algo que muitos viajantes demoram para compreender:
aventura não é proporcional à distância.
Você pode atravessar dez mil quilômetros e não descobrir nada.
Pode caminhar vinte quilômetros e voltar diferente.
16. Caminhar porque queria
Existe uma diferença maravilhosa entre as caminhadas da semana e as caminhadas das aventuras.
Durante a semana ele caminhava porque precisava.
No fim de semana podia caminhar porque queria.
Essa diferença é liberdade.
Na cidade:
você precisa chegar ali.
Na montanha:
quero descobrir o que existe depois daquela curva.
Na cidade havia relógio.
Na trilha havia horizonte.
Na cidade havia ponto.
Na montanha havia cume.
Talvez por isso as pernas que durante a semana eram ferramentas de transporte se transformassem no fim de semana em instrumentos de descoberta.
17. Então apareceu a câmera
Em algum momento surgiu dinheiro suficiente para outra conquista.
Uma câmera fotográfica brasileira de 35 mm.
Não era Leica.
Não era Nikon profissional.
Não era equipamento de fotógrafo da National Geographic.
Sua óptica, lembrada décadas depois, merece uma definição técnica extremamente precisa:
perversa.
Fotografava mal.
E daí?
Ela possuía uma característica que nenhuma câmera moderna consegue reproduzir:
estava lá.
Foi para as aventuras.
Viu aquelas pessoas.
Viu aqueles lugares.
Recebeu aquela luz.
18. Trinta e seis oportunidades
Fotografia analógica ensinava economia.
Um filme tinha quantidade limitada de poses.
Cada clique custava.
Filme custava.
Revelação custava.
Ampliação custava.
Então antes do dedo havia pensamento.
Vale a fotografia?
Qual enquadramento?
A luz está boa?
Chego mais perto?
Espero?
Click.
Pronto.
Não havia tela traseira.
Não existia:
— Ficou ruim, faço mais vinte.
O resultado podia aparecer muito depois.
E talvez justamente por isso cada fotografia carregasse uma expectativa que desapareceu parcialmente da fotografia digital.
19. O aventureiro virou documentarista
Antes da câmera, Vagner voltava com histórias.
Depois dela, voltou também com provas.
Uma montanha.
Um acampamento.
Um amigo.
Uma estrada.
Uma cidade.
Uma roupa.
Uma mochila.
Uma paisagem.
Naquele momento ele provavelmente pensava que estava apenas tirando fotografias.
Não sabia que estava criando um arquivo histórico da própria vida.
20. NEGATIVO.MASTER
Décadas passaram.
As fotografias envelheceram.
A tecnologia mudou.
Mas os negativos permaneceram.
E então aconteceu algo maravilhoso.
As fotografias viraram imagens digitais.
As imagens digitais viraram vídeos.
Os vídeos foram parar no YouTube.
Aquele clique mecânico feito décadas atrás passou a existir em servidores distribuídos pelo planeta.
O pipeline poderia ser representado assim:
AVENTURA
|
V
CAMERA 35MM
|
V
NEGATIVO
|
V
FOTOGRAFIA
|
V
SCAN
|
V
VIDEO
|
V
YOUTUBE
|
V
MEMORIA
Um programador mainframe reconheceria imediatamente a arquitetura.
O negativo é o dataset master.
O scan é uma transformação.
O vídeo é aplicação.
O YouTube é distribuição.
Nunca apague o master.
21. A câmera atravessa o Atlântico
A velha câmera continuou existindo.
Em algum momento atravessou o oceano.
Foi para Portugal.
E acabou nas mãos do filho.
Para o filho?
Um cacareco.
Compreensível.
Objetivamente é uma câmera antiga com óptica limitada.
Existem telefones que fazem fotografias incomparavelmente melhores.
Mas para o velho sentado em Astúrias aquele objeto possui outra especificação.
Não é:
DEVICE TYPE = CAMERA
FORMAT = 35MM
OPTICS = QUESTIONABLE
É:
DEVICE TYPE = TIME MACHINE
VALUE = INCALCULAVEL
Por isso talvez seja hora de buscá-la.
22. “Para ele é um cacareco. Para mim foi o mundo.”
O velho repete a frase baixinho.
Uma senhora que passa pelo banco talvez olhe para ele.
Ele sorri.
Não está falando com ela.
Está falando com alguém sentado imaginariamente ao seu lado.
Um garoto de 14 anos.
O menino pergunta:
— Então a câmera era boa?
O velho ri.
— Era uma porcaria.
— Então por que você quer ela de volta?
O velho olha para as árvores.
Demora alguns segundos.
— Porque foi com ela que eu aprendi que minha vida merecia ser fotografada.
O garoto fica quieto.
Essa resposta ele ainda não consegue compreender.
23. O easter egg no banco
Talvez exista ainda outra personagem naquele parque.
Mafalda.
Em Oviedo, uma escultura da personagem de Quino está sentada justamente em um banco do Campo de San Francisco, diante do estanque.
Isso parece um easter egg bom demais para desperdiçar.
Imagine o velho Vagner passando por ela.
Mafalda continua criança.
Ele envelheceu.
Ela permanece fazendo perguntas desconfortáveis ao mundo.
Ele passou a vida tentando responder algumas delas.
Por alguns segundos olha para a menina de bronze.
— Você não envelheceu nada.
Mafalda obviamente não responde.
— Trapaceira.
E continua andando.
24. O menino finalmente pergunta
De volta ao banco, o garoto imaginário faz outra pergunta:
— A gente venceu?
Essa é difícil.
Porque vida não é videogame.
Não existe tela final.
Não aparecem créditos.
Sempre haverá alguma coisa incompleta.
Alguma escolha errada.
Alguma pessoa que partiu.
Alguma oportunidade perdida.
Alguma cicatriz.
Então o velho poderia responder com números.
Carreira.
Viagens.
Computadores.
Trabalho.
Família.
Projetos.
Mas talvez nada disso responda realmente.
Ele pensa na mãe.
Nos irmãos.
Na televisão colorida.
No Nintendo.
Nos cartuchos.
Na comida melhor.
No plano de saúde.
Na escola.
Nas notas.
Na câmera.
Nos negativos.
Nas montanhas.
Então responde:
— Lutamos o bom combate.
O garoto entende.
25. Não vencemos porque ficamos ricos
Essa distinção importa.
A vitória daquela história não foi transformar pobreza em ostentação.
Foi transformar trabalho em possibilidade.
Possibilidade de comer melhor.
Possibilidade de cuidar da saúde.
Possibilidade de ajudar a família.
Possibilidade de estudar.
Possibilidade de conhecer tecnologia.
Possibilidade de comprar um videogame.
Possibilidade de fotografar.
Possibilidade de caminhar por uma montanha simplesmente porque queria.
Possibilidade de ampliar progressivamente o mapa.
Essa talvez seja uma definição muito mais interessante de prosperidade:
aumentar a quantidade de escolhas disponíveis.
26. O verdadeiro sistema legado
Programadores iniciantes costumam ouvir que sistemas legados são antigos.
Não é uma boa definição.
Legado é aquilo que continua carregando valor de uma geração para outra.
Nesse sentido, a câmera é legado.
Os negativos são legado.
As histórias são legado.
O conhecimento é legado.
Até determinadas cicatrizes são legado.
Um programa COBOL escrito quarenta anos atrás pode continuar processando porque ainda contém regras importantes.
Uma fotografia ruim feita quarenta anos atrás pode continuar valiosa porque contém pessoas e lugares que não podem ser recompilados.
Há coisas que envelhecem.
Há coisas que acumulam significado.
Não confunda as duas.
27. Dica do velho programador
Se você é um programador COBOL iniciante lendo isto, talvez esteja esperando uma grande lição técnica.
Aqui está:
não despreze sistemas antigos apenas porque parecem ruins.
Primeiro pergunte:
— O que existe aqui que não pode ser recriado?
Faça isso com programas.
Faça isso com documentos.
Faça isso com fotografias.
Faça isso com pessoas.
Uma rotina horrorosa escrita em 1987 pode conter uma regra de negócio que ninguém documentou.
Um negativo riscado pode conter a única fotografia existente de determinado momento.
Uma câmera vagabunda pode ser um cacareco para você e o mundo inteiro para outra pessoa.
Valor e qualidade técnica não são sinônimos.
Essa é uma lição que serve tanto para fotografia quanto para mainframe.
28. 05:15 outra vez
O velho olha novamente o relógio.
É curioso.
Durante décadas, 5h15 significou:
CORRA.
Agora não.
Não há trem para pegar.
Não há ponto.
Não há ônibus.
Não há prova.
Não há marmita.
Não há chefe esperando.
Ele pode simplesmente continuar sentado.
Talvez essa seja uma das maiores conquistas de todas.
Ter finalmente conquistado o direito de não correr.
Epílogo — O garoto chegou
Começa uma chuva fina sobre Oviedo.
O velho levanta.
Durante alguns segundos imagina novamente o garoto.
Quatorze anos.
Marmita.
Carteira profissional.
Caderno.
Pouco dinheiro.
Uma quantidade absurda de vontade.
— Vem — diz o velho.
O garoto pergunta:
— Para onde?
Vagner olha para as ruas de Astúrias.
Sorri.
— Para casa.
O garoto olha desconfiado.
— De trem?
O velho ri.
— Hoje não.
Começam a caminhar.
Um tem mais de meio século de histórias.
O outro ainda não sabe nenhuma delas.
Mas são a mesma pessoa.
Passam pelas árvores.
Talvez pela Mafalda.
Talvez por algum turista fotografando tudo com um telefone capaz de produzir imagens que aquela velha câmera brasileira jamais sonharia registrar.
O velho pensa na câmera que ficou em Portugal.
Preciso trazê-la de volta.
Não para fotografar.
Talvez nunca mais coloque um filme nela.
Não importa.
Ela cumpriu sua missão.
Aquela pequena caixa com óptica perversa viu o mundo quando o mundo ainda era pequeno.
Primeiro o mundo tinha vinte quilômetros até o trabalho.
Depois quinhentos quilômetros de aventuras.
Depois atravessou oceanos.
E agora existe um velho caminhando tranquilamente por Astúrias.
Se algum desconhecido perguntasse quanto vale aquela câmera, talvez não houvesse resposta possível.
Porque existem objetos cujo preço pode ser pesquisado.
E existem objetos cujo valor está armazenado em outro sistema.
Um sistema sem SQL.
Sem backup.
Sem REST API.
Sem documentação.
Chamado memória.
E nesse sistema existe um registro que jamais deve receber DELETE:
01 PRIMEIRA-CAMERA.
05 FABRICACAO PIC X(10) VALUE 'BRASILEIRA'.
05 FILME PIC X(04) VALUE '35MM'.
05 OTICA PIC X(10) VALUE 'PERVERSA'.
05 VALOR-COMERCIAL PIC 9(09)V99 VALUE ZEROS.
05 VALOR-PARA-MIM PIC X(12) VALUE 'FOI O MUNDO'.
O compilador reclama:
VALOR-PARA-MIM não cabe no campo.
O velho programador olha para a mensagem.
Sorri.
Claro que não cabe.
Nunca coube.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Alguns sistemas sobrevivem porque ninguém conseguiu substituí-los.
Algumas fotografias sobrevivem porque ninguém consegue repeti-las.
E algumas histórias sobrevivem porque, depois de quase quarenta anos, o garoto das 5h15 finalmente encontrou tempo para sentar em um banco e contá-las.
Bellacosa Mainframe e a quadrilha do colegio São José em Campinas
🌽🎶 Quadrilha em Círculos e Paralelas
Danças na Festa Junina do São José
Festa Junina sem quadrilha não é Festa Junina!
Naquele dia, o São José estava tomado pelas cores, pela música e pela agitação típica de uma boa festa. No meio de tudo isso, as crianças entraram em cena para apresentar uma quadrilha cheia de movimento.
Lenços nas mãos, passos marcados e muita atenção para não perder o momento certo de mudar de posição.
A dança começava a ganhar forma.
Primeiro, os participantes se organizavam em círculos. Depois, surgiam linhas paralelas, com os grupos avançando, recuando e circulando uns entre os outros.
Palmas.
Pés marcando o ritmo.
Gente entrando.
Gente saindo.
E, por alguns minutos, aquilo parecia uma pequena coreografia geométrica acontecendo diante dos nossos olhos.
A quadrilha junina é justamente interessante por isso. Não é apenas uma sequência de passos: ela transforma o espaço em parte da dança.
Os participantes criam corredores, rodas, filas e diferentes desenhos enquanto a música continua.
E existe ainda aquela maravilhosa dose de confusão organizada que toda boa quadrilha precisa ter. 😄
Quem assiste vê diversão.
Quem está dançando precisa lembrar do próximo passo, acompanhar os colegas e tentar descobrir rapidamente para que lado deveria estar indo!
Talvez seja justamente isso que torne essas apresentações tão especiais.
Anos depois, o vídeo deixa de ser apenas o registro de uma dança.
Transforma-se em uma pequena cápsula do tempo.
Um pedaço de uma Festa Junina, preservando a música, os movimentos e a alegria daquele dia.
🎥 Quadrilha em círculos e paralelas — Festa Junina do São José, 2017.
Agora as crianças com lencinhos estão dançando uma quadrilha, com lenços ao alto e em círculos, paralelas todas muito animadas batendo palmas e batendo o pé...
Correndo e dançando, acenando com os lenços, fazendo rodas e circulando entre elas, participe você também, curta o vidro, comente e partilhe.
Bellacosa Mainframe e a semana de ferias no colegio sao jose em campinas
Semana de Ferias no São José
📺 Intervalo comercial entre as danças
Entre o término de uma dança e o início da próxima, entra em cena aquilo que toda grande produção precisa ter: o intervalo comercial.
E quem assume o microfone?
Naturalmente, o Caipira-Mor.
Um caipira particularmente falante, capaz de falar pelos cotovelos e interromper tranquilamente a programação para incomodar todo mundo com sua publicidade. 😄
Desta vez, nosso patrocinador não está vendendo sabão em pó, automóvel ou plano de celular. O anúncio é muito mais importante:
vem aí uma semana de férias para as crianças!
Durante esses dias, a criançada terá várias brincadeiras e atividades disponíveis — informação devidamente transmitida pelo nosso departamento caipira de marketing, provavelmente utilizando muito mais palavras do que seriam estritamente necessárias.
É aquele pequeno momento entre apresentações que, na época, parecia apenas uma pausa.
Anos depois, porém, vira outra coisa.
Você revê o vídeo e percebe as roupas, as vozes, o jeito de falar, as crianças esperando, os adultos organizando tudo e aquela atmosfera de festa que nenhum vídeo profissional conseguiria reconstruir perfeitamente.
As danças eram o espetáculo.
Mas o intervalo comercial também acabou entrando para o backup da memória.
E lá está ele até hoje:
CAIPIRA-MOR.PUBLICIDADE
STATUS: falando pelos cotovelos desde aquela época. 😂🌽📺
Bellacosa Mainframe e a festa junina do Colégio São José
🌽 A Quadrilha Não Para
Festa Junina no Colégio São José — Campinas
Era uma tarde inteira de música, dança e tradição no Colégio São José, em Campinas.
Durante a Festa Junina, alunos do 1º ao 9º ano se revezavam nas apresentações. Aproximadamente a cada meia hora chegava uma nova turma, transformando o espaço da festa em um palco permanente de quadrilhas, brincadeiras e danças típicas.
E a criançada estava com a corda toda.
Já tinham pulado a fogueira, corrido atrás do balão, brincado com o sanfoneiro e participado de diferentes coreografias — mas a quadrilha ainda estava longe de terminar.
Este vídeo preserva um pequeno momento daquela tarde: um registro simples de uma festa escolar que, anos depois, também se tornou memória da vida cotidiana do Colégio São José.
Mais do que uma apresentação, era uma sequência de gerações da escola entrando no tablado, cada turma deixando por alguns minutos sua própria marca na Festa Junina.
🎥 Registro histórico: Festa Junina do Colégio São José — Campinas, SP.
Existem lembranças que sobrevivem ao tempo não pela grandiosidade dos acontecimentos, mas pela delicadeza dos detalhes, sei que já falei antes, mas mesmo assim é uma memoria tão doce, que resolvi reviver, relembrar, colorir um pouco mais.
Uma delas aconteceu em 1986, na saudosa Escola Estadual Amador Bueno da Veiga, em Taubaté.
Era costume nos anos 1980 que, durante a Semana do Professor e também próximo ao encerramento do ano letivo, as salas organizassem pequenas festas. Os rapazes ajudavam comprando refrigerantes, salgadinhos e doces. As garotas traziam quitutes preparados em casa. A sala era decorada com cartolinas, desenhos e enfeites improvisados. Os professores visitavam cada turma, experimentavam as guloseimas e participavam da confraternização.
Era simples.
Mas para nós parecia um grande evento social.
O ponto alto da festa acontecia quando alguém trazia um rádio ou um toca-fitas. Bastava fechar as cortinas, apagar as luzes e colocar uma música lenta para a mágica começar.
E então surgia a lendária tradição do Baile da Vassoura.
As regras eram implacáveis.
Um rapaz começava dançando com uma vassoura. Quando desejasse, podia oferecer a vassoura para qualquer garoto que estivesse dançando.
E aí vinha a lei máxima da brincadeira:
Não podia recusar.
O escolhido era obrigado a assumir a vassoura.
A segunda regra era igualmente cruel.
Não era permitido voltar para a mesma garota.
Era preciso convidar outra parceira.
Resultado?
Uma confusão divertida de trocas, risadas, provocações e, vez ou outra, algum beijo roubado que se tornava assunto durante semanas.
Mas entre tantas festas, uma ficou gravada para sempre na memória.
Havia uma colega chamada Gisele.
Uma amiga querida.
Daquelas pessoas que iluminavam os ambientes sem perceber.
Em determinado momento da festa, ela veio me chamar para dançar.
Eu, tímido até dizer chega, aproximei-me e confessei quase em segredo:
— Eu não sei dançar.
Qualquer outra pessoa talvez desistisse.
Mas não a Gisele.
Com aquele brilho maroto nos olhos que só algumas garotas possuem, ela simplesmente sorriu e respondeu:
— Não tem problema. Eu ensino.
E me levou mesmo assim para o meio da pista improvisada da sala do Sexto Ano A.
A música tocava baixinho.
As luzes permaneciam apagadas.
E ali ficamos.
Coladinhos.
Dois passinhos para lá.
Um passinho para cá.
Dois passinhos para lá.
Um passinho para cá.
Nada extraordinário aconteceu.
Não houve beijo cinematográfico.
Não houve declaração de amor.
Não houve final de novela.
Mas houve algo muito mais raro.
A descoberta da ternura.
Aquela sensação boa de alguém pegar sua mão quando você não sabe exatamente o que fazer.
Décadas se passaram.
Muitas pessoas cruzaram meu caminho.
Muitas cidades ficaram para trás.
Muitas histórias foram vividas.
Mas vez ou outra fecho os olhos e volto para aquela sala.
Ouço novamente a música.
Vejo as cortinas fechadas.
Escuto as risadas dos colegas.
E enxergo a doce Gisele me conduzindo pela pista improvisada.
Talvez seja por isso que Taubaté ainda ocupe um espaço tão especial dentro de mim.
Porque a cidade não foi feita apenas de ruas, bicicletas, açudes e aventuras.
Ela também foi feita de momentos pequenos.
Momentos aparentemente insignificantes.
Mas que continuam vivos quarenta anos depois.
E entre todas as lembranças daquele tempo mágico, ainda existe um garoto tímido aprendendo a dançar.
Dois passinhos para lá.
Um passinho para cá.
Guiado por uma amiga que jamais imaginaria que aquele gesto simples se transformaria numa das memórias mais doces de toda uma vida.
Ps: Não foi a primeira festa escolar, me recordo das turmas de 1983, 1984 e 1985, mas a Gisele foi unica e a festa de 1986 foi memoravel
1978 – A Rua Ultrecht, o Malabarista do Muro e a Primeira Aula de Horror Doméstico
(Bellacosa Mainframe – El Jefe Midnight / Arquivos da Memória em Modo Batch)
1978 foi o ano em que meu sistema central ligou o LOG DETAIL=ALL pela primeira vez.
A casinha da Rua Ultrecht — aquela mesma atendida por um malabarista de muro, especialista em destruir casas de orixás e a paciência alheia — era um laboratório improvisado de caos cotidiano.
Minha mãe, estafada, lutava diariamente contra a entropia gerada por dois diabinhos em modo turbo: eu e Vivi.
Foi então decidido: Hora de nos domesticar. Hora de ir para a escola.
E aí meu mundo mudou.
O Uniforme Vermelho: A Primeira Skin Oficial da Vida Escolar
Short vermelho.
Camiseta branca.
Boné vermelho.
O dress code universal do pré-escolar brasileiro.
Ali, naquele pequeno prédio cheio de gritos, giz, lágrimas e descobertas, eu encontrei o meu primeiro amor verdadeiro: a leitura.
Aprender a decodificar letras foi como descobrir o source code do universo.
A partir daquele dia, nunca mais seria enganado pelas placas, revistas, embalagens, histórias ou segredos escondidos em qualquer canto.
O diabinho estava sendo iniciado na magia das palavras.
E uma vez aberto esse portal… não se fecha nunca mais.
O Menino Abobalhado e o Escorregador Apocalíptico
Todo jardim da infância tem seu evento cataclísmico.
No meu, foi o dia em que um garoto maior — meio perdido, meio solto das engrenagens mentais — decidiu escalar o escorregador de forma absolutamente antipedagógica.
Resultado?
Ele derrubou o escorregador inteiro.
Desceu junto.
Machucou outras crianças.
Criou uma pequena cena de guerra.
Eu, pequeno observador crítico, registrei tudo na “memória não-volátil”:
— Então é assim que funciona o mundo: caos, gravidade e decisões ruins.
A Morte da Bisavó Josefa – Primeiro Contato com o Desligamento do Sistema
1978 também foi o ano em que minha bisavó Josefa faleceu.
Foi minha primeira experiência real com a ideia de que programas podem ser encerrados de forma definitiva.
Mas o evento que realmente marcou aquele período…
Foi outro.
O Dia em que o Horror Invadiu a Cozinha
Meu bisavô José — o mesmo guerreiro vendedor de churrasquinho no ponto final — morou conosco por um tempo depois do falecimento da esposa.
E foi ali que aconteceu um dos episódios mais gore, surrealistas e cinematográficos da história da família.
A Vivi para de respirar. A casa entra em pânico.
Minha irmã, pequenininha, começou subitamente a perder o fôlego.
Era como se o ar tivesse abandonado seus pulmõezinhos.
Minha mãe entrou em modo desespero total, correndo, chorando, implorando.
Eu assistia paralisado, os olhos enormes, vendo cada byte daquela cena se gravar para sempre.
O bisavô corre da cozinha. E aí vem o detalhe.
Ele estava mexendo numa bacia gigante de alumínio, cheia de carnes temperadas, preparadas para virar o famoso churrasquinho que sustentava pedaços da familia.
As mãos dele estavam ensopadas de sangue e tempero.
Literalmente pingando.
No meio do escândalo, ele tenta ajudar.
Corre.
Pega Vivi do colo da minha mãe.
E então…
A Cena Inesquecível
Minha irmã, vestidinha de branco.
Nos braços de um homem de mãos ensanguentadas.
A mistura perfeita para o terror.
Ela recupera o fôlego…
Chora, berra…
E fica rubra, tingida pelo sangue da carne.
Minha mãe aos gritos.
Eu sem ar.
O bisavô em estado de pânico absoluto, sem conseguir reagir.
E então meu pai chega.
A Imagem que Congela o Tempo
O homem abre a porta e vê:
Vivi ensanguentada, aos prantos.
Minha mãe desesperada.
O bisavô petrificado.
E eu, testemunha ocular do apocalipse doméstico.
Meu pai ficou branco.
O mundo parou por uns três segundos.
E só então…
Só então perceberam o detalhe: o sangue não era da Vivi.
Era apenas sangue do churrasquinho.
Ela estava viva, inteira, assustada — mas intacta.
E o pobre bisavô, coitado, quase desmaiou quando percebeu que tinha acabado de encenar, sem querer, uma cena digna de O Exorcista versão brasileira.
1978 – O Ano em que Comecei a Lembrar
Foi ali, naquela casa humilde, naquela cozinha caótica, que meu cérebro clicou e decidiu:
— "A partir de agora, vou registrar tudo."
E assim começou minha vida consciente.
Com livros, sustos, caos, sangue de churrasquinho e um mundo prestes a se abrir para um menino diabinho com fome de histórias.
Quando um Programador COBOL Descobre que a Melhor Comédia Também Pode Ser uma Aula de Engenharia de Sistemas
Existem animes que contam uma história.
Existem animes que fazem rir.
E existe Kangoku Gakuen, uma obra que consegue transformar uma situação completamente absurda em uma narrativa construída com o mesmo cuidado de um thriller psicológico.
À primeira vista, Prison School parece apenas mais um ecchi exagerado. Muita gente abandona a série após os primeiros episódios acreditando que ela vive apenas de fanservice. Quem faz isso perde uma das direções mais inteligentes e criativas da década de 2010.
Assim como muitos sistemas COBOL são julgados apenas pela idade, Prison School também sofre preconceito por sua aparência.
Por trás do humor escrachado existe uma construção narrativa extremamente sofisticada.
O J.C.Staff é conhecido por adaptar obras muito diferentes entre si.
Seu ponto forte sempre foi transformar mangás difíceis em animes visualmente consistentes.
Entre suas produções estão:
Food Wars!
Toradora!
Bakuman
One Punch Man (2ª temporada)
Railgun
DanMachi
Em Prison School o estúdio fez algo curioso.
Ao invés de desenhar um ecchi "fofinho", escolheu uma direção quase cinematográfica.
Resultado?
As cenas possuem iluminação dramática.
Os enquadramentos lembram filmes policiais.
As expressões parecem fotografias.
Tudo é exageradamente sério...
...para contar a situação mais ridícula possível.
A História
A Academia Hachimitsu sempre foi um colégio exclusivo para garotas.
Após décadas, decide aceitar alunos homens.
O problema?
Entram apenas cinco.
Cinco garotos para milhares de meninas.
Naturalmente eles acabam fazendo uma enorme besteira.
Tentam espionar o banho feminino.
São capturados.
E condenados.
Mas não são simplesmente suspensos.
Existe literalmente uma prisão dentro da escola.
Os cinco passam um mês encarcerados pelo Conselho Estudantil Secreto, sob pena de expulsão caso desobedeçam às regras. (Wikipédia)
Os Personagens
Kiyoshi Fujino
O protagonista.
É um rapaz comum.
Não é particularmente inteligente.
Nem forte.
Nem popular.
Sua principal qualidade é continuar tentando resolver problemas impossíveis.
É praticamente um operador de produção tentando salvar um batch às 2h da manhã.
Gakuto
Provavelmente o personagem mais brilhante.
É completamente obcecado pela história chinesa.
Cada plano elaborado por ele parece uma operação militar.
Seu cérebro funciona como um JCL perfeitamente documentado.
Shingo
O impulsivo.
Representa o desenvolvedor que primeiro executa e depois pergunta.
Andre
O gigante gentil.
Seu masoquismo extremo gera parte das piadas da série.
Joe
O personagem mais estranho.
Apaixonado por formigas.
Em qualquer outro anime seria irrelevante.
Aqui funciona perfeitamente.
O Conselho Estudantil Secreto
Mari Kurihara
A verdadeira comandante.
Fria.
Calculista.
Autoritária.
É praticamente um z/OS comandando todos os processos.
Meiko Shiraki
Uma das personagens mais famosas do anime.
Sua postura intimidadora virou ícone da cultura otaku.
Apesar da aparência severa, é extremamente leal.
Hana Midorikawa
Talvez a personagem mais engraçada.
Suas reações emocionais fogem completamente da lógica.
Ela representa o caos absoluto.
Chiyo
A presidente oficial da escola.
Ingênua.
Gentil.
Serve como contraponto ao autoritarismo do conselho secreto.
O que torna Prison School diferente?
O segredo está na direção.
Qualquer outro anime trataria essas cenas como simples piadas.
Prison School faz exatamente o contrário.
Cada situação recebe:
câmera dramática;
trilha épica;
suspense;
montagem lenta;
tensão psicológica.
É como assistir a "Missão Impossível"...
...para descobrir quem roubou uma toalha.
Esse contraste é justamente o que faz o humor funcionar.
Humor de Engenharia
Akira Hiramoto entende algo raro.
Humor depende de estrutura.
Não apenas da piada.
Cada episódio funciona como um algoritmo.
Problema
↓
Plano
↓
Erro
↓
Novo plano
↓
Complicação
↓
Catástrofe
↓
Final inesperado
É praticamente um ciclo de desenvolvimento de software.
As Aventuras
Durante a série vemos:
tentativas de fuga;
espionagem;
infiltrações;
planos absurdamente elaborados;
alianças improváveis;
guerras psicológicas;
julgamentos;
punições.
Tudo acontece dentro de um espaço relativamente pequeno.
É quase um "escape room" gigante.
Mensagens Ocultas
Apesar do humor adulto, Prison School fala sobre diversos temas.
Autoridade
Quem controla as regras controla a narrativa.
Liberdade
Os personagens vivem presos.
Mas a verdadeira prisão não são as grades.
São as regras.
Julgamentos
Todos cometem erros.
Mas alguns recebem punições completamente desproporcionais.
Hipocrisia
Os responsáveis por manter a moral também escondem seus próprios defeitos.
Masculinidade
Os cinco protagonistas representam estereótipos diferentes.
Nenhum é perfeito.
Todos são ridículos.
Isso torna o grupo humano.
Uma Grande Sátira
Prison School exagera tudo.
Fanservice.
Autoridade.
Disciplina.
Honra.
Vergonha.
Quanto maior o exagero...
...mais evidente fica a crítica.
O Fanservice
Aqui vale um comentário importante.
Prison School possui forte conteúdo sexual e humor adulto, sendo recomendado para maiores de idade. O fanservice é constante e faz parte da proposta narrativa da obra, não sendo apenas um elemento ocasional. (IMDb)
A diferença é que, em muitos momentos, o fanservice serve como ferramenta para a comédia física e para satirizar exageros típicos de mangás e animes do gênero, em vez de ser o único objetivo da narrativa.
Impacto Cultural
O mangá vendeu mais de 13 milhões de cópias, venceu o 37º Kodansha Manga Award na categoria geral em 2013 e consolidou-se como um dos seinen de comédia mais conhecidos da década. O anime também ganhou notoriedade pela direção, pelas expressões faciais exageradas e pela adaptação fiel ao material original. (Wikipedia)
Até hoje, inúmeras cenas viraram memes.
Principalmente:
as expressões da Meiko;
os discursos épicos de Gakuto;
os planos mirabolantes de fuga.
Curiosidades
O anime adapta apenas parte dos 28 volumes do mangá.
Existe uma OVA intitulada Mad Wax.
Também foi produzida uma série live-action com 9 episódios em 2015.
O traço de Akira Hiramoto combina corpos estilizados com expressões faciais extremamente detalhadas, uma marca registrada do autor. (Wikipedia)
O Easter Egg para um Programador COBOL
Se você retirar o ecchi da equação...
Prison School é praticamente um sistema legado.
Existe:
regras rígidas;
controle de acesso;
auditoria;
hierarquia;
workflow;
tratamento de exceções;
tentativas constantes de contornar restrições;
consequências para quem quebra procedimentos.
É como um ambiente z/OS.
Cada ação possui efeitos.
Cada decisão altera o fluxo.
Cada erro gera um "ABEND" social.
Os cinco protagonistas passam a série inteira tentando encontrar um "workaround".
Exatamente como um programador COBOL tentando resolver um problema de produção sem derrubar o sistema inteiro.
Conclusão
Kangoku Gakuen é um anime que engana pela aparência. Muitos o classificam apenas como ecchi, mas sua força está na construção de suspense, no ritmo narrativo e na direção extremamente precisa.
Para quem consegue enxergar além do humor exagerado, a obra revela uma sátira sobre poder, disciplina, liberdade e natureza humana. Assim como acontece com um grande sistema IBM Z, a superfície pode parecer simples ou antiquada para quem observa de longe; porém, ao entender sua arquitetura interna, percebe-se um projeto engenhoso, consistente e surpreendentemente sofisticado.
📜 Amores no Quiririm — Bellacosa Mainframe, El Jefe Midnight Lunch (Cheirando a naftalina, como quem abre um diário esquecido no fundo de um armário frio)
Amores no Quiririm…
só de escrever já sinto o cheiro da terra vermelha levantando com o vento da tarde, as ruas meio tortas, os muros descascados, e eu ali — remendado por dentro depois do inverno de 83. Aquele ano que rachou minha infância no meio. O bairro não foi apenas endereço… foi reconstrução. Foi reboot de sistema depois de pane geral.
No Quiririm eu aprendi na marra que crescer é aceitar patch no coração e seguir em frente. Com o primo Celo, a vida rodava overclockada. As bagunças eram release semanal, as brigas eram hotfix na rua, e as travessuras… ah, essas eram deployment constante. Tudo ganhou volume, força, coragem. Tava mais velho, mais malicioso e ao mesmo tempo — graças aos ferimentos — mais frio, mais calculista. Sobrevivência tem seu preço, e eu paguei em cicatrizes.
Mas você veio aqui pelos amores, não pelos tombos…
Então vem comigo.
Tinha eu uma queda épica por Angelica, loirinha de olhos verdes, carinha de princesinha de final de fase, após o Boss furioso. A professora Ligia sempre vigilante, uma colega de classe, sorriso tímido, curiosidade no olhar. A gente fazia lição junto, partilhava caderno e risadas. Ela olhava pra mim como quem descobre defeito novo em máquina antiga — com encanto e risco. Eu, vindo da capital, era novidade no sistema. Mas entre Quiririm e Cecap rolava firewall emocional, diferenças socioeconômicas, rixas bobas de juventude. E por mais que o coração pedisse commit, nada compilou.
Foi aí que entrou em cena Marcia, minha vizinha da Quadra B. Ah, Marcia…
Mais velha, mais divertida, com aquele charme que só quem já viveu uns patchs sentimentais sabe usar. Ela era bug desejável no meu código. O perigo fazia parte do pacote — principalmente porque o irmão Reinaldo, o auditor moral do bairro, monitorava cada tentativa minha de deploy romântico. E dava pau. Dava briga. Dava cascudo.
Reinaldo sempre vencendo? Não.
Apenas com vantagem apertada.
Porque além de pequeno Don Juan, eu era galinho de briga — não fugia do conflito, ajustava estratégia, tentava de novo. E mesmo tomando uns abend, garanti minhas pequenas vitórias no log da memória.
Mas essa ainda não é a história.
Essa é só a fase beta.
A melhor, deixo para outro post: Rosemeire, quadra G.
Outra área de domínio. Outras regras. E uma confusão que me fez entender que mulher cheia de energia pode virar tempestade em copo, rua e coração. Ela merece capítulo próprio — com direito a trilha sonora e risada fora de hora. Obviamente meu parça e companheiro de confusões estava junto, meu primo Marcelo.
Hoje, ao fechar essa memória, volto pra Marcia.
Da quadra B.
Do sorriso que desarmava firewall.
Dos 13 anos que carregavam o magnetismo de uma supernova adolescente.
Minha primeira musa na Quadra B.
Minha lembrança preferida do Quiririm.
— Bellacosa Mainframe ☕🔥 – El Jefe Midnight Lunch
Onde memórias não morrem. Apenas fazem checkpoint.
🎄 Taubaté e o final boss: Bailinhos, amigo secreto e luz meia-boca
Memórias doces das escolas de Taubaté
Esta é, sem dúvida, uma das lembranças mais doces que carrego de Taubaté. Um conjunto de eventos simples, mas carregados de significado, vividos entre 1983 e 1984 no Quiririm e depois em 1985 e 1986 no Parque Sabará, nas escolas Deputado Cesar Costa e Amador Bueno da Veiga.
Naquele tempo, existia um ritual sagrado de fim de ano. Cada sala, de forma quase autônoma — algo bem stand-alone, sem centralização — escolhia um dia para fazer sua festinha de confraternização. Tinha de tudo: amigo secreto, comes e bebes, musiquinha, risadas e aquele clima de “missão cumprida” por mais um ano letivo finalizado sem abend.
Lembro com carinho da primeira caneta “de adulto” que ganhei da Adriana, ainda na quarta série em 1984 no Deputado Cesar Costa no Quiririm. Para muitos era só uma caneta. Para mim, era quase um upgrade de sistema operacional, um sinal claro de que eu estava subindo de versão.
Os comes e bebes tinham sua própria organização social:
rapazes levavam bebidas, meninas traziam quitutes.
Quando dava, fazíamos uma vaquinha — crowdfunding analógico raiz — para melhorar o cardápio. E, claro, sempre surgia alguém com aquele toca-fitas parrudo estilo boombox, com dois alto-falantes, orgulho tecnológico da época, pronto para animar o bailinho.
No quinto ano, ganhei uma das minhas melhores memórias: a Gisele me ensinando a dançar música lenta. Dois passinhos para lá, um prá cá, corpos colados, mão na cintura e no ombro. Gisele, Gisele, danadinha. Nada de exageros. O som tinha que ficar baixo, porque outras salas ainda estavam em aula. Mesmo assim, era mágico.
Chegávamos mais cedo para preparar a sala:
arrastar cadeiras, empurrar mesas, criar um salão improvisado.
Fechávamos as cortinas para dar aquele escurinho estratégico e íamos ao painel de luzes desligar metade das lâmpadas. Um dimmer manual, na raça.
A professora coordenadora ficava ali, presente, fiscalizando — nosso RACF humano, garantindo que nada saísse do controle. E não saía. Era tudo muito saudável:
o bailinho,
o baile da vassoura,
as risadas,
a confraternização.
Claro que os outros professores apareciam para dar um alozinho, era um dia que as barreiras se quebravam, não existiam professores e alunos, apenas colegas de viagem, que terminaram com sucesso mais uma jornada. O Ômega escolar, vencer o chefe final e avançar para o nível seguinte.
Era a alegria pura de terminar mais um ano, passar de série, estreitar laços, criar histórias. Coisa simples. Coisa de interior nos anos 1980. Mas que rendia causos infinitos:
casalzinhos se formando,
paqueras evoluindo,
a chance de dançar com a mais gata da turma,
a zoação dos que amarelaram na hora H.
Troca de presentes, música baixa, luz meia-boca, coração acelerado.
Nada sofisticado. Nada artificial. Tudo real.
Hoje, muitos nomes se perderam na memória. Mas naquela época, cada colega era parte ativa do meu mundo. E lembrar desses momentos ainda anima o coração, como um job antigo que, quando relido, continua funcionando perfeitamente — sem precisar de manutenção.
Bons tempos. Tempos doces. Tempos que não dão rollback, mas deixam logs eternos na alma.
Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe
desde 1988
,
é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2,
z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais,
conhecimento técnico, história da computação e práticas
do universo mainframe para aproximar novas gerações das
tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos
ao redor do mundo.
IBM Champion
IBM Z
COBOL
CICS
Db2
z/OS
Mainframe desde 1988