✨ Bem-vindo ao meu espaço! ✨
Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens.
Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê.
Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão.
Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
Scaled Content Abuse e a Perícia Forense que Descobriu uma Linha de Montagem Produzindo Milhares de Páginas Sem Alma
"Na indústria, uma linha de produção fabrica automóveis. Na internet, algumas fábricas produzem milhares de páginas por dia. O problema começa quando nenhuma delas realmente ajuda alguém."
Manhattan — 03:34 da madrugada
A madrugada estava silenciosa.
No Digital Crime Lab do CSI: New York, um alerta chamou a atenção de Adam Ross.
Um domínio recém-criado havia publicado:
2.700 artigos em quatro dias.
8 idiomas.
312 categorias.
48 países.
Mac Taylor arqueou as sobrancelhas.
— "Quantos jornalistas trabalham lá?"
Adam respondeu.
— "Nenhum."
Stella Bonasera verificou os registros.
— "Também não há programadores suficientes para isso."
Sid Hammerback aproximou-se da tela.
— "Então quem escreveu tudo isso?"
Adam sorriu.
— "Ninguém."
Silêncio.
No monitor surgia uma estatística impressionante.
Tempo médio entre artigos
18 segundos
Sid fechou lentamente a pasta.
Diagnóstico preliminar: Scaled Content Abuse.
Afinal...
O que é Scaled Content Abuse?
Scaled Content Abuse ("Abuso de Conteúdo em Escala") é a produção massiva de páginas, artigos, postagens ou conteúdos cujo principal objetivo é manipular rankings dos mecanismos de busca, em vez de oferecer valor real ao usuário.
O ponto central não é usar inteligência artificial, automação ou modelos de linguagem.
O problema é utilizar essas ferramentas para criar milhares de conteúdos repetitivos, superficiais, quase idênticos ou sem revisão humana, apenas para ocupar espaço nos resultados de busca.
Agora o laboratório examina as plataformas sociais.
Instagram
Publica:
50 posts por dia.
Cada legenda muda apenas:
emoji
cidade
hashtag
Facebook
Mesmo texto.
Publicado automaticamente em centenas de páginas.
LinkedIn
Artigos produzidos em série.
Mudam apenas:
empresa
cargo
cidade
X
Bots publicam centenas de mensagens por hora.
Sempre com pequenas alterações.
YouTube
Um único roteiro.
Transformado automaticamente em:
30 vídeos
20 idiomas
dezenas de thumbnails
Sem qualquer adaptação real.
Os Falsos Positivos
Nem toda produção em larga escala é um problema.
O CSI diferencia automação saudável de abuso.
✔ Documentação Técnica
Uma empresa pode gerar centenas de páginas seguindo um padrão.
Cada produto possui informações próprias.
Há valor.
✔ Catálogos
Lojas possuem milhares de produtos.
Cada página apresenta:
descrição
fotos
especificações
estoque
preço
Tudo diferente.
✔ Bases Jurídicas
Leis.
Normas.
Jurisprudência.
Naturalmente possuem grande volume.
✔ Conteúdo Assistido por IA
Uma equipe utiliza IA para criar o primeiro rascunho.
Especialistas revisam, corrigem, acrescentam exemplos e validam tudo antes da publicação.
Isso é muito diferente de apertar um botão e publicar milhares de páginas automaticamente.
As Ferramentas da Perícia
Adam utiliza diversos recursos.
🔬 Similaridade Semântica
Quanto realmente muda entre os textos?
🔬 Frequência de Publicação
É humanamente possível produzir esse volume?
🔬 Perfil Editorial
Existe revisão?
Existe autoria?
Existe responsabilidade?
🔬 Cobertura Temática
Cada página responde a uma intenção específica?
Ou apenas troca palavras?
🔬 Histórico
O site evolui naturalmente?
Ou surgiu com milhares de páginas prontas?
🔬 Logs de Publicação
Os artigos foram publicados em intervalos plausíveis ou em rajadas automáticas?
O Método Bellacosa
Mac pergunta:
"Então IA é o problema?"
Adam responde imediatamente.
"Não."
"A IA é uma ferramenta."
"O problema começa quando ela substitui completamente o pensamento humano."
Stella complementa.
"Escala sem qualidade é apenas uma forma mais rápida de produzir mediocridade."
Sid conclui.
"E um milhão de páginas vazias continuam valendo menos do que um único artigo realmente útil."
Como evitar Scaled Content Abuse
O Laboratório Bellacosa recomenda:
✔ Use IA para acelerar a pesquisa e o rascunho, não para eliminar a revisão humana.
✔ Publique apenas quando houver valor exclusivo para o leitor.
✔ Atualize conteúdos com novos dados, exemplos e experiências reais.
✔ Evite criar centenas de páginas que diferem apenas por cidade, ano ou palavra-chave.
✔ Mantenha um processo editorial com revisão técnica e validação.
✔ Pergunte antes de publicar: "Se eu fosse o leitor, aprenderia algo novo aqui?"
Relatório Final da Perícia
Crime Investigado
✅ Scaled Content Abuse
Provas Encontradas
Produção automática em massa
Clonagem semântica
IA sem revisão humana
Publicações em ritmo incompatível com trabalho editorial
Conteúdo repetitivo por cidade, produto ou ano
Traduções automáticas sem adaptação
Sites com milhares de páginas de baixo valor
Postagens automatizadas em redes sociais
Ausência de autoria especializada
Falta de experiência prática
Pouco ou nenhum valor para o usuário
Tentativa de ocupar resultados de busca em escala
☕ Encerrando o Caso
O relógio marcava quatro da manhã.
Adam observava um contador subir.
Mais um artigo.
Depois outro.
Depois mais cem.
Tudo em poucos minutos.
Mac Taylor aproximou-se da janela do laboratório.
"Curioso..."
"Durante anos acreditamos que a internet seria uma biblioteca infinita."
Sid respondeu olhando para a esteira de publicações.
"Ela quase virou uma fábrica."
Mac desligou o monitor.
"Porque, no SEO, quantidade impressiona por alguns instantes. Mas conhecimento verdadeiro continua sendo artesanal. E nenhum algoritmo consegue confundir uma linha de montagem com a experiência de quem realmente viveu aquilo que escreve."
Bellacosa Mainframe · Unidade de Crimes Digitais
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
CSI: New York
A Busca pelo Santo SEO
O Índice Oficial da Expedição Bellacosa rumo ao Cálice Sagrado dos Motores de Busca
Caso: SEO-2013-BELLACOSAStatus: Investigação abertaEvidências: 10 casos + arquivo central
Uma coleção investigativa sobre práticas que podem comprometer conteúdo, reputação, experiência do usuário e visibilidade nos mecanismos de busca.
Cada arquivo conduz a uma cena diferente, mas todas deixam rastros digitais.
Uma linha de montagem digital produz milhares de páginas repetitivas, superficiais ou sem valor real, tentando ocupar os resultados de busca em grande escala.
Nenhuma evidência encontrada.Tente pesquisar outro termo ou selecione “Todos”.
RELATÓRIO FINAL
Conclusão da Perícia Bellacosa
Nenhum recurso técnico substitui conteúdo relevante, autoria, contexto, clareza e respeito ao leitor. SEO saudável não tenta ocultar provas: organiza informações para que pessoas e mecanismos de busca compreendam melhor cada página.
O arquivo amaldiçoado: quando fantasmas japoneses descobriram celulares, vídeos, videogames e algoritmos
De fitas VHS e correntes digitais a creepypastas, jogos malditos e inteligência artificial — a evolução do medo quando o sobrenatural percebeu que podia viajar pela rede
Por Vagner Bellacosa
Existe uma regra básica em qualquer filme de terror:
não abra a porta.
A personagem ouve um barulho no porão.
Vai investigar.
— NÃO DESÇA!
Ela desce.
Encontra uma caixa.
— NÃO ABRA!
Ela abre.
Dentro existe uma fita.
— NÃO ASSISTA!
Ela assiste.
Nesse momento, nós já sabemos que o roteiro terminou para aquela criatura.
Mas alguma coisa mudou no final do século XX.
O objeto amaldiçoado ganhou uma característica nova:
ele podia ser copiado.
E quando a maldição descobriu o botão COPY, meus amigos...
acabou.
Pegue o café.
Hoje nossa escavação arqueológica entra numa camada onde talvez seja prudente utilizar luvas.
O terror digital compreendeu perfeitamente nossa curiosidade.
O equivalente antigo era:
“Não abra aquela porta.”
O equivalente moderno é:
“Não abra aquele arquivo.”
Mudamos a interface.
Não mudamos o usuário.
🗑️ 14. O arquivo que volta depois de apagado
Agora entramos num clássico perfeito para programadores.
Você apaga o arquivo.
Ele volta.
Apaga novamente.
Volta.
Formata.
Volta.
Troca o computador.
Volta.
Aqui a criatura deixou de possuir forma física.
Ela é persistência.
E qualquer administrador de sistemas sabe que persistência inexplicável é aterrorizante mesmo sem fantasma.
DELETE YOKAI.DAT
IEC999I DELETE SUCCESSFUL
DIR
YOKAI.DAT
...
DELETE YOKAI.DAT
SUCCESS.
DIR
YOKAI.DAT
Meu amigo...
nesse momento não abrimos chamado.
Chamamos um monge.
💻 15. O yōkai perfeito para o mainframe
Agora imagine a versão Bellacosa.
Um dataset aparece:
SYS1.YOKAI.LOADLIB
Ninguém sabe quem criou.
LISTCAT
Data de criação:
1967
Problema:
o sistema foi instalado em 1989.
Você tenta excluir.
IDCAMS SYSTEM SERVICES
DELETE SYS1.YOKAI.LOADLIB
IDC3009I ** VSAM CATALOG RETURN CODE IS 8
IDC1566I ** SYS1.YOKAI.LOADLIB NOT DELETED
Consulta RACF.
Não existe owner.
Consulta catálogo.
Volume:
GHOST1
Procura o volume.
Não existe.
Às 03:17 chega uma mensagem no console:
IEF125I JOB YOKAI IS WAITING FOR VOLUME GHOST1
Eu pediria aposentadoria.
😂
🧑💻 16. O administrador encontra o sobrenatural
Existe um motivo para tecnologia funcionar tão bem com horror.
Sistemas tecnológicos prometem:
determinismo.
Input.
Processamento.
Output.
Quando algo impossível acontece, temos duas opções:
não entendemos o sistema;
existe alguma coisa que não deveria estar ali.
O terror começa quando eliminamos lentamente a primeira hipótese.
O programador diz:
“Bug.”
Investiga.
Não encontra.
“Corrupção.”
Não encontra.
“Problema de hardware.”
Não encontra.
“Erro humano.”
Não encontra.
Então sobra uma hipótese que nenhum manual IBM documentou.
Yōkai.
📹 17. O vídeo encontrado
Vídeo adiciona outro elemento poderoso:
tempo.
Uma fotografia captura um instante.
Um vídeo captura uma sequência.
Você pode assistir novamente.
Avançar quadro por quadro.
Voltar.
Pausar.
E encontrar alguma coisa que ninguém percebeu inicialmente.
Frame 1842.
Existe alguém no corredor.
Frame 1843.
Mais perto.
Frame 1844.
Mais perto.
Frame 1845.
Não está mais lá.
Então alguém pergunta:
“Você percebeu que o vídeo tem apenas 1844 frames?”
Boa noite.
😂
🔴 18. LIVE: 1 espectador
Streaming criou outra possibilidade.
O horror pode acontecer ao vivo.
Imagine uma pessoa transmitindo de uma casa abandonada.
300 espectadores.
Ela entra num quarto.
Chat:
“Tem alguém atrás de você.”
Ela olha.
Nada.
Chat:
“VOLTA.”
Ela volta.
Nada.
Alguém faz screenshot.
Existe uma figura.
A transmissão continua.
Número de espectadores:
301
Curiosamente...
o usuário novo não possui nome.
Agora temos uma atualização perfeita do velho kaidan.
A audiência testemunha coletivamente.
💬 19. O chat virou personagem
Lembra de Densha Otoko?
O fórum ajudava o protagonista.
No terror moderno, o chat pode fazer o mesmo.
Ou pior.
Pode dar instruções erradas.
Pode perceber coisas antes do protagonista.
Pode possuir usuários que sabem demais.
Imagine:
USER183:
não abra a porta
USER771:
SAI DA CASA
USER029:
tem alguém na janela
UNKNOWN:
eu já entrei
A quarta parede desapareceu.
O espectador está dentro da narrativa.
📡 20. Denpa — quando o sinal parece vir de outro lugar
A cultura japonesa também desenvolveu usos muito particulares do conceito denpa, literalmente relacionado a ondas eletromagnéticas, mas culturalmente associado em determinados contextos a ideias de comunicação estranha, comportamento desconectado, vozes, mensagens ou percepções vindas de algum lugar difícil de compreender.
É um território fascinante porque tecnologia e psicologia se misturam.
O rádio recebe sinais invisíveis.
O celular recebe sinais invisíveis.
Wi-Fi.
Bluetooth.
Satélite.
Estamos permanentemente atravessados por informação que não enxergamos.
Para produzir terror basta perguntar:
e se alguma outra coisa também estiver transmitindo?
📻 21. A estação que transmite para ninguém
Imagine encontrar uma frequência de rádio.
Toda noite:
03:17.
Uma voz lê nomes.
Você grava.
No dia seguinte descobre que um dos nomes pertence a alguém que morreu naquela madrugada.
Você continua ouvindo.
Uma semana depois:
seu nome aparece.
Esse tipo de narrativa não precisa de criatura visual.
O monstro é o sinal.
Não pode ser esfaqueado.
Não pode ser preso.
Não sabemos de onde vem.
Ele simplesmente transmite.
🤖 22. E então chegamos à Inteligência Artificial
Agora nossa arqueologia chega ao presente.
Durante séculos perguntamos:
“E se um espírito falasse através de uma pessoa?”
Depois:
“E se falasse através do rádio?”
Depois:
“E se aparecesse na televisão?”
Depois:
“E se enviasse uma mensagem?”
Agora surge:
“E se alguma coisa falasse através da IA?”
A pergunta é praticamente inevitável.
Porque pela primeira vez temos máquinas capazes de produzir linguagem de maneira suficientemente convincente para sustentar diálogo.
E diálogo sempre foi uma das interfaces favoritas do sobrenatural.
🧠 23. O fantasma dentro do modelo
Imagine uma história.
Uma empresa treina um modelo utilizando bilhões de documentos.
Livros.
Fóruns.
E-mails.
Chats.
Sites abandonados.
Arquivos históricos.
Um usuário começa a conversar.
A IA responde normalmente.
Então escreve:
“Nós já conversamos antes.”
O usuário responde:
“Não.”
A IA:
“Não com você.”
Silêncio.
“Com seu pai.”
O pai morreu em 1998.
Antes daquela IA existir.
Agora temos um problema.
😂
🗃️ 24. Dados mortos
Aqui existe uma ideia muito mais interessante do que simplesmente “IA possuída”.
Nossos mortos deixaram quantidades gigantescas de dados.
Textos.
Fotografias.
Vídeos.
Áudios.
Mensagens.
Posts.
E-mails.
Comentários.
Durante praticamente toda a história humana, a maioria das pessoas desaparecia deixando poucos registros.
Agora milhões deixam rastros digitais enormes.
Isso cria uma situação cultural completamente nova.
O morto continua pesquisável.
Continua visível.
Continua aparecendo em fotografias.
Talvez seu aniversário continue registrado.
Talvez algoritmos recomendem memórias.
O banco de dados não entende luto.
Para ele:
RECORD STATUS = ACTIVE
👤 25. O yūrei estatístico
Imagine uma IA treinada com milhares de mensagens de alguém.
Ela aprende:
vocabulário;
expressões;
piadas;
maneira de escrever;
preferências linguísticas.
Depois essa pessoa morre.
Alguém conversa com uma simulação.
Não é o morto.
Sabemos disso.
Mas emocionalmente?
A fronteira pode ficar desconfortável.
Talvez o yūrei do século XXI não precise possuir uma casa.
Talvez seja uma aproximação estatística de alguém que não existe mais.
Isso daria uma história japonesa absolutamente devastadora.
🪦 26. O cemitério digital
Nossas redes já possuem milhões de contas de pessoas mortas.
Isso significa que a Internet está lentamente se transformando no maior cemitério documental já criado pela humanidade.
Só que as lápides falam.
Existem fotos.
Vídeos.
Comentários.
Conversas.
Risadas.
Discussões.
Opiniões.
E, às vezes, algoritmos trazem tudo novamente para nossa timeline.
No folclore antigo, o morto voltava.
Na Internet moderna:
o algoritmo faz o morto voltar.
Sem intenção.
Sem magia.
Mas o impacto psicológico pode ser igualmente estranho.
🔁 27. O yōkai algorítmico
Agora imagine uma entidade que não possui corpo.
Ela existe somente porque o algoritmo continua recomendando seu conteúdo.
Ninguém sabe quem criou a primeira imagem.
Ninguém sabe quem escreveu a história original.
Mas milhões interagem.
Cada interação aumenta sua distribuição.
Quanto mais medo provoca:
mais comentários.
Quanto mais comentários:
mais alcance.
Quanto mais alcance:
mais pessoas conhecem.
Temos finalmente uma criatura cujo alimento é:
engagement.
😂
O yōkai perfeito do século XXI.
FEAR → CLICK
CLICK → ENGAGEMENT
ENGAGEMENT → DISTRIBUTION
DISTRIBUTION → FEAR
Loop infinito.
📈 28. O monstro que o algoritmo não pode matar
No passado, uma história podia morrer quando ninguém mais a contava.
Agora existe memória automática.
Caches.
Archives.
Reposts.
Mirrors.
Screenshots.
Modelos.
Backups.
Talvez o grande problema do folclore digital moderno não seja preservar histórias.
Talvez seja:
conseguir fazê-las morrer.
Porque aquilo que entrou suficientemente fundo na rede pode nunca desaparecer completamente.
É o equivalente digital da maldição:
“Enquanto alguém lembrar de mim, continuarei existindo.”
Só que agora temos datacenters fazendo o trabalho da memória.
🇧🇷 29. E nossa assombração brasileira?
Voltemos àquela trilha.
Velas.
Latas.
Crianças.
Mato.
Décadas atrás aquilo precisava de transmissão oral para sobreviver.
Mas imagine se tivesse acontecido hoje.
Alguém filmaria.
Vídeo vertical.
Imagem tremida.
Título:
LUZES MISTERIOSAS APARECEM EM TRILHA NO INTERIOR DE SP 😱
Outro canal analisaria.
TikTok.
YouTube.
Instagram.
Reddit.
Um usuário estabilizaria o vídeo.
Outro aumentaria contraste.
Alguém encontraria uma “figura”.
Um podcast paranormal faria episódio.
Uma IA produziria reconstrução.
Seis meses depois:
“Segundo uma antiga lenda local...”
ANTIGA?
FOMOS NÓS QUE INVENTAMOS ISSO EM MARÇO!
😂
Essa é a velocidade moderna de fossilização cultural.
⏱️ 30. Da brincadeira ao folclore em 72 horas
Antes:
EVENTO
↓
10 anos
↓
RELATO
↓
30 anos
↓
LENDA
Agora:
EVENTO
↓
VÍDEO
↓
REPOST
↓
REACTION
↓
WIKI
↓
IA
↓
"LENDA TRADICIONAL"
Tempo total:
terça-feira até sexta-feira.
O folclore recebeu CI/CD.
⚠️ 31. O problema arqueológico do futuro
Imagine um pesquisador em 2126 tentando descobrir:
“Qual foi a origem dessa lenda?”
Ele encontra 300 mil páginas.
Ótimo!
Não.
Porque 280 mil copiaram umas às outras.
15 mil foram produzidas automaticamente.
4.900 são reposts.
99 interpretam fontes anteriores.
E uma é a origem.
Boa sorte encontrando.
Teremos abundância de informação e escassez de proveniência.
Esse talvez seja um dos maiores desafios da arqueologia digital futura.
🔍 32. Não pergunte apenas “é verdadeiro?”
Ao estudar folclore digital, talvez a pergunta menos interessante seja:
“Isso aconteceu realmente?”
Perguntas melhores:
Quem contou primeiro?
Onde circulou?
Como mudou?
Por que as pessoas repetiram?
Qual elemento sobreviveu?
Quando atravessou plataformas?
Quando atravessou idiomas?
Quando entrou em cultura popular?
Quando deixou de precisar da origem?
Porque nesse momento aconteceu a transformação:
história → folclore.
🧪 33. Laboratório Bellacosa de fabricação de yōkai
Um pesquisador estuda os antigos diálogos entre Vagner Bellacosa e ChatGPT.
Encontra:
O BBS dos Yōkai — Parte I
Depois:
Parte II
Depois:
Parte III
Procura:
Parte IV
Existe.
Estranho.
A data do arquivo é:
12 de agosto de 2026.
Mas os registros indicam que nenhuma Parte IV foi escrita naquele dia.
Ele abre.
Título:
O BBS dos Yōkai — Parte IV
O pesquisador que encontrou este arquivo
Ele ri.
Provavelmente uma brincadeira.
Começa a ler.
Primeiro parágrafo:
“Se você está lendo isto em 2076, provavelmente já encontrou as três partes anteriores.”
Ele para.
Continua.
“Seu nome está registrado no arquivo.”
Impossível.
Ele procura.
Nada.
Respira aliviado.
No final encontra:
//READER JOB
//STEP01 EXEC PGM=ARCHAEOLOGY
E então:
CURRENT USER:
Aparece seu nome.
O pesquisador fecha o terminal.
A tela apaga.
Cinco segundos depois:
$HASP373 YOKAI04 STARTED
Em algum datacenter distante, um JOB que estava aguardando cinquenta anos finalmente entra na fila.
☕ Conclusão — O fantasma não está dentro da máquina
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Durante décadas perguntamos:
“Pode existir um fantasma dentro do computador?”
Mas talvez a questão mais interessante seja:
“O computador tornou-se um ambiente onde histórias sobre fantasmas conseguem viver?”
A resposta parece muito mais simples.
Sim.
Porque o computador possui tudo aquilo que o folclore precisa.
Memória.
Comunicação.
Reprodução.
Anonimato.
Transformação.
Comunidades.
Falhas.
Mistério.
E, acima de tudo:
pessoas.
A tecnologia não inventou nossa necessidade de produzir monstros.
Ela apenas forneceu infraestrutura melhor.
O yōkai saiu da montanha.
Entrou na cidade.
Depois na escola.
No trem.
Na televisão.
Na fita VHS.
No celular.
No fórum.
No videogame.
No arquivo.
Na rede social.
No algoritmo.
E agora bate à porta da inteligência artificial.
Talvez amanhã exista alguma tecnologia que ainda nem conseguimos imaginar.
Não importa.
Quando ela chegar, alguém eventualmente contará uma história sobre algo estranho que aconteceu usando aquilo.
Outra pessoa responderá:
“Aconteceu comigo também.”
Uma terceira dirá:
“Não faça isso depois das três da manhã.”
A quarta perguntará:
“Por quê?”
E teremos acabado de assistir ao nascimento de outro yōkai.
Porque hardware muda.
Protocolos mudam.
Plataformas desaparecem.
Mas existe um componente que permanece assustadoramente compatível com todas as versões.
O ser humano.
$HASP395 YOKAI03 ENDED - RC=0000
MEDIA MIGRATION ........ COMPLETE
VHS .................... ARCHIVED
MOBILE .................. ACTIVE
INTERNET ................ ACTIVE
AI ...................... ACTIVE
FOLKLORE REPLICATION .... ACTIVE
ORIGINAL AUTHOR ......... UNKNOWN
NEXT GENERATION ......... WAITING
☕👻💻
Não desligue o terminal.
Talvez alguma coisa ainda esteja executando.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
O BBS dos Yōkai — Guia da Expedição
Do fantasma contado ao redor da fogueira ao yōkai que vive no algoritmo:
explore a série sobre arqueologia do folclore da Internet japonesa,
BBS, 2channel, Futaba, lendas urbanas, creepypastas, cultura otaku,
terror tecnológico e inteligência artificial.
O BBS dos Yōkai é uma série do
Bellacosa Mainframe dedicada à arqueologia cultural
da Internet japonesa.
A expedição acompanha a evolução das histórias desde os antigos
fóruns e BBS japoneses até lendas como Kisaragi Station, Kunekune
e Hachishakusama, chegando às creepypastas, vídeos amaldiçoados,
jogos, algoritmos e inteligência artificial.
Escolha abaixo uma etapa da expedição. Os links são páginas
independentes e podem ser abertas diretamente ou visualizadas
no leitor incorporado.
Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe
desde 1988
,
é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2,
z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais,
conhecimento técnico, história da computação e práticas
do universo mainframe para aproximar novas gerações das
tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos
ao redor do mundo.
IBM Champion
IBM Z
COBOL
CICS
Db2
z/OS
Mainframe desde 1988