☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Gostou do conteúdo? Ajude a manter o café quente, o COBOL compilando e o mainframe acordado. 😄
☕ Pague um café ao Bellacosa

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta VHS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta VHS. Mostrar todas as mensagens

sábado, 5 de novembro de 2022

O Meu Processo de Alusitanamento — Tomás Taveira, o CD 17 e a primeira aula de folclore digital português

 

Bellacosa Mainframe e as historias que nossas babas nao contavam Tavera Todinho la dentro

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Meu Processo de Alusitanamento — Tomás Taveira, o CD 17 e a primeira aula de folclore digital português

Ou: como cheguei a Portugal em 2002 para trabalhar num banco e descobri que, antes do eMule, os portugueses já tinham inventado a distribuição peer-to-peer em VHS

Groucho Marx pega o charuto, examina uma cassete VHS e sentencia:
“Não sei o que está aqui dentro. Mas, se metade de Lisboa já viu, provavelmente é confidencial.”



🇵🇹 2002 — Vagner precisa ser lusitanizado

Quando cheguei a Portugal, em 2002, trazia comigo um problema gravíssimo.

Eu falava português.

Parecia uma vantagem.

Não era.

Eu falava português brasileiro.

Portugal rapidamente tratou de explicar que isso era apenas uma versão beta do idioma.

Começou então aquilo que hoje chamo carinhosamente de meu processo de alusitanamento.

Era necessário aprender que uma bicha nem sempre era aquilo que um brasileiro imaginava.

Que uma rapariga podia ser apresentada à família sem provocar um escândalo.

Que um puto não era necessariamente uma ofensa.

Que pequeno-almoço não era um café servido numa xícara menor.

E que "pois" poderia significar aproximadamente 37 coisas dependendo da inclinação da cabeça do interlocutor.

Mas havia outra camada.

A mais importante.

A cultura subterrânea.

Porque ninguém realmente conhece um país lendo apenas Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e os manuais oficiais.

Para conhecer um país é necessário descobrir as piadas que todo mundo entende sem precisar explicar.

E foi assim que, trabalhando no universo bancário português, acabei recebendo de um colega do BPN uma espécie de documento antropológico.

Um CD.

Não me lembro de haver cerimônia oficial.

Não houve assinatura.

Não houve protocolo.

Não houve RACF.

O cidadão simplesmente entregou o artefato.

E naquele objeto havia uma inscrição suficientemente misteriosa para despertar imediatamente meu instinto de arqueólogo digital:

CD 17

Dezessete.

Isso significava uma coisa extraordinária.

Existiram pelo menos dezesseis antes dele.



🏛️ Para compreender o CD 17 precisamos voltar a Lisboa dos anos 80

Antes do personagem folclórico existe o personagem histórico.

E esta distinção é fundamental.

Tomás Taveira não surgiu como personagem de piada.

Era — e continuou sendo — um arquiteto português de enorme projeção, professor universitário e um dos principais nomes associados ao pós-modernismo arquitetônico português. Sua obra utilizava cores fortes, geometrias exuberantes e uma linguagem arquitetônica imediatamente reconhecível. As Amoreiras transformaram-se provavelmente no exemplo mais popular dessa arquitetura pós-moderna em Lisboa.

Vieram Olaias.

Amoreiras.

Edifícios públicos.

Projetos internacionais.

Posteriormente até estádios construídos para o Euro 2004.

Décadas depois do episódio que estamos prestes a abordar, a RTP ainda poderia dedicar um programa à sua arquitetura, mostrando projetos, desenhos e maquetes.

Essa é a primeira biografia.

Chamemos:

TOMAS.TAVEIRA.PROD

Arquiteto.

Professor.

Pós-modernista.

MIT.

Urbanismo.

Amoreiras.

Olaias.

Estádios.

Currículo perfeitamente carregável pelo sistema institucional.

Só que, em algum momento dos anos 80, começou a ser construída uma segunda biografia.

Uma que jamais apareceria num currículo acadêmico.


📼 1987 — alguém apertou REC

Aqui precisamos abandonar Groucho Marx durante alguns minutos.

Porque por trás daquilo que posteriormente virou piada nacional existia uma questão séria.

Vídeos íntimos foram gravados no escritório de Taveira. As fontes posteriores descrevem problemas graves envolvendo o conhecimento ou consentimento das mulheres filmadas. As gravações teriam sido realizadas por volta de 1987 e começaram a circular publicamente em 1989.

Não precisamos entrar nos detalhes.

Aliás, para compreender o fenômeno cultural, os detalhes são praticamente irrelevantes.

O que importa para nossa arqueologia é outra coisa:

a cassete escapou.

E, quando uma informação escapa, surge uma das leis fundamentais da informática:

Informação interessante possui uma tendência impressionante de desenvolver pernas.

Em 1989 não existia WhatsApp.

Não existia Telegram.

Não existia YouTube.

Não existia BitTorrent.

Não existia eMule.

Não existia Napster.

Não existia sequer a Web como conheceríamos poucos anos depois.

Mas existia uma tecnologia revolucionária.

VHS + DOIS VIDEOCASSETES

Pronto.

Nasceu o peer-to-peer lusitano.


📼📼 A internet portuguesa antes da internet

Imagine o processo.

Alguém possuía uma cassete.

Outro alguém queria uma cópia.

Dois aparelhos eram conectados.

PLAY.

REC.

Esperava-se.

Nascia uma segunda cassete.

A segunda encontrava uma terceira pessoa.

A terceira conhecia um primo.

O primo conhecia um colega.

O colega trabalhava num escritório.

O escritório tinha alguém com dois videocassetes.

PLAY.

REC.

PLAY.

REC.

PLAY.

REC.

Em pouco tempo a coisa começou a circular por Lisboa com uma velocidade que relatos posteriores descrevem como extraordinária. A imprensa já discutia rumores sobre as gravações em setembro de 1989; jornais e cronistas começaram a abordar o assunto e, em outubro, o caso já fazia parte do debate público nacional.

A própria retrospectiva anual da RTP colocaria Tomás Taveira entre os acontecimentos marcantes de Portugal em 1989.

Isso é extraordinário.

Porque significa que estamos diante de um fenômeno que hoje chamaríamos simplesmente:

VIRAL

Só que viral sem internet.


📰 E então Portugal descobriu a bomba

O assunto saiu das salas privadas.

Chegou aos jornais.

Chegou às conversas.

Chegou aos cafés.

Chegou às universidades.

Chegou aos escritórios.

Chegou inevitavelmente à televisão.

E então aconteceu aquilo que sempre acontece quando um escândalo entra no imaginário popular:

o fato perdeu o controle sobre a própria narrativa.

Cada pessoa acrescentava alguma coisa.

Alguém conhecia alguém que conhecia alguém.

A cassete que uma pessoa tinha visto não parecia exatamente igual à cassete que outra jurava ter visto.

Apareceram versões.

Rumores.

Personagens supostos.

Locais supostos.

Frases supostas.

Detalhes supostos.

Alguns verdadeiros.

Outros provavelmente inventados.

E outros pertencentes àquela categoria maravilhosa da cultura popular:

“Não aconteceu exatamente assim, mas todo mundo lembra que aconteceu.”

Groucho Marx retorna ao recinto:

“Finalmente encontramos uma fonte histórica confiável: um sujeito no café que ouviu de um cunhado.”


😂 Portugal fez aquilo que qualquer sociedade faz diante do absurdo

Transformou em humor.

Vieram piadas.

Referências.

Imitações.

Bordões.

Insinuações televisivas.

Conversas de café.

Humoristas perceberam imediatamente que não era necessário explicar nada.

Bastava uma frase.

Uma entonação.

Uma referência.

O público completava mentalmente o resto.

E aí surge uma das expressões mais interessantes associadas à mitologia:

“Estudasses.”

Décadas depois, portugueses ainda discutem se a célebre expressão realmente aparece da maneira como a memória coletiva afirma.

Isso é maravilhoso do ponto de vista antropológico.

Porque significa que o meme ficou maior que a fonte.

A frase passou a existir independentemente da gravação.

Ela tornou-se patrimônio oral.

O cidadão poderia nunca ter visto VHS nenhum.

Mesmo assim conhecia a piada.


🎵 E a coisa entrou na música

Era inevitável.

A cultura popular portuguesa absorveu o episódio.

Uma das referências conhecidas aparece em “Na Cabana do Pai Tomás”, dos Sitiados, exemplo de como o caso deixou de pertencer apenas às páginas dos jornais e passou para o repertório humorístico e musical.

Depois vieram referências.

Samples.

Montagens.

MP3.

Paródias.

Arquivos com nomes absolutamente suspeitos.

E começou um fenômeno ainda mais interessante:

pessoas passaram a conhecer a referência sem conhecer sua origem.

Isso é o estágio final de um meme.

Quando alguém ri de uma frase sem saber exatamente por que aquela frase é engraçada, o acontecimento original já entrou no folclore.


💿 CORTA PARA 2002

Portugal.

BPN.

Um brasileiro recém-chegado tentando compreender aquele maravilhoso sistema operacional chamado:

PORTUGAL 2002 ENTERPRISE EDITION

Meu colega provavelmente percebeu rapidamente uma falha grave na minha formação.

Eu conhecia Pessoa.

Conhecia Saramago.

Conhecia alguma história portuguesa.

Mas desconhecia parte essencial do folclore contemporâneo nacional.

Era inadmissível.

Então veio o CD.

CD 17

Aquilo era praticamente um curso de integração cultural.

Esqueça treinamento corporativo.

Esqueça PowerPoint.

Esqueça Recursos Humanos.

O verdadeiro onboarding português estava num CD-R.

Eu coloquei aquilo no computador.

E comecei uma das mais curiosas aulas de antropologia da minha vida.

De repente várias frases que eu já havia ouvido começaram a fazer sentido.

Piadas que anteriormente passavam pelo meu ouvido sem autenticação receberam credenciais.

Referências televisivas começaram a encaixar.

Era como descobrir que você passou meses ouvindo chamadas para uma subrotina sem possuir o copybook.

Finalmente eu tinha o copybook.


🫏 O detalhe importante: em 2002 aquilo já era arqueologia

Treze anos haviam passado desde 1989.

Mas a história continuava viva.

Isso me impressionou.

Porque eu não estava simplesmente assistindo a um escândalo antigo.

Estava observando a transmissão de memória coletiva entre tecnologias.

Primeiro:

VHS

Depois:

cópia de VHS

Depois:

cópia da cópia da cópia

Depois:

digitalização

Depois:

CD-R

Depois:

MPG

Depois:

AVI

E então chegou a cavalaria.

🫏 eMule

Para quem não viveu aquela maravilhosa época, o eMule era uma espécie de biblioteca de Alexandria administrada por adolescentes, piratas digitais e computadores ligados durante 72 horas.

Você procurava Beethoven.

Recebia Beethoven.

Às vezes.

Nas outras ocasiões recebia alguma coisa chamada:

BEETHOVEN_COMPLETE_SYMPHONIES_FINAL_REAL_100_PERCENT.avi

E descobria que a humanidade tinha outros planos para sua noite.

Tomás Taveira encontrou ali sua segunda juventude digital.

O que havia circulado fisicamente em Lisboa agora poderia atravessar Portugal.

Brasil.

França.

Luxemburgo.

Suíça.

Qualquer lugar onde existisse um português emigrado, uma conexão ADSL e paciência suficiente.


🌍 A diáspora digital do VHS

Esse é provavelmente o aspecto mais fascinante.

A primeira geração conheceu o caso como acontecimento.

A segunda conheceu como cassete.

A terceira conheceu como arquivo.

A quarta conheceu como meme.

E a quinta talvez conheça apenas:

“Estudasses.”

Sem contexto.

Sem VHS.

Sem 1989.

Sem saber sequer quem era Tomás Taveira.

Isso é folclore.

Exatamente como uma expressão medieval pode sobreviver séculos depois de desaparecer o acontecimento que lhe deu origem.

Só que aqui conseguimos observar praticamente todas as etapas.


👨‍🏫 As duas biografias de Tomás Taveira

E aqui chegamos ao ponto que mais me fascina nessa história.

Tomás Taveira passou a possuir duas biografias simultâneas.

Biografia A — institucional

Arquiteto.

Professor.

Pós-modernismo.

MIT.

Olaias.

Amoreiras.

BNU.

Metro das Olaias.

Alvalade XXI.

Aveiro.

Leiria.

Projetos internacionais.

É uma carreira arquitetônica extensa e documentada.

Mas existe:

Biografia B — popular

A cassete.

As frases.

As imitações.

As músicas.

Os CDs.

Os AVI.

O eMule.

As piadas de café.

Os memes.

As referências que atravessaram gerações.

As duas biografias pertencem à mesma pessoa.

Mas vivem em bancos de dados culturais completamente diferentes.


🏟️ E a ironia tornou-se arquitetônica

Isso produz situações absolutamente surreais.

Você pode entrar numa obra projetada por Tomás Taveira sem conhecer Tomás Taveira.

Pode assistir futebol num estádio relacionado à sua obra.

Pode passar pelas Olaias.

Pode olhar as Amoreiras dominando parte da paisagem lisboeta.

E alguém ao seu lado pode conhecer apenas:

a piada.

Enquanto outro conhece apenas:

o arquiteto.

Dois portugueses podem falar do mesmo homem e aparentemente estar falando de pessoas completamente diferentes.

Esse é o verdadeiro fork.

TOMAS_TAVEIRA_ARCHITECT.EXE

e

TOMAS_TAVEIRA_FOLKLORE.EXE

Ambos continuam rodando.


📺 E o século XXI não executou DELETE

Esse talvez seja o detalhe mais extraordinário.

Era perfeitamente possível que tudo desaparecesse.

VHS deteriora.

CD-R deteriora.

Discos rígidos morrem.

Sites fecham.

Links quebram.

Servidores desaparecem.

Mas cultura popular possui redundância.

Uma pessoa guarda.

Outra copia.

Outra comenta.

Outra transforma em música.

Outra escreve num fórum.

Outra faz meme.

Outra pergunta:

“De onde vem essa história?”

E alguém responde.

A transmissão recomeça.

Décadas depois, o assunto ainda reaparece na imprensa e em produções culturais, enquanto discussões online continuam debatendo inclusive quais frases pertenciam realmente às gravações e quais foram acrescentadas posteriormente pela memória coletiva.

É quase um sistema distribuído.

Não existe servidor central.

Não existe administrador.

Não existe documentação.

Mas os dados sobrevivem.


🧠 O verdadeiro CD 17

Hoje percebo que aquele CD que recebi em 2002 não continha simplesmente arquivos.

Continha contexto cultural.

Meu colega do BPN estava realizando uma operação muito antiga.

A mesma operação pela qual pessoas transmitem lendas há milhares de anos.

Só havia mudado o suporte.

Antes:

“Meu avô contou ao meu pai.”

Depois:

“Tenho uma cassete.”

Em 2002:

“Leva este CD.”

Depois:

“Procura no eMule.”

Mais tarde:

“Procura no YouTube.”

Depois:

“Vi num meme.”

E provavelmente algum arqueólogo digital em 2126 encontrará uma referência perdida e perguntará:

“Mas afinal quem diabos era esse arquiteto?”


🎩 Groucho Marx fecha o arquivo

Groucho apaga o charuto.

Olha para as Amoreiras.

Olha para uma velha cassete VHS.

Olha para o CD 17.

Olha para um diretório perdido do eMule.

E finalmente declara:

“Passei a vida acreditando que a imortalidade exigia uma grande obra. Aparentemente também ajuda alguém esquecer uma cassete no lugar errado.”

E talvez essa seja a conclusão perfeita.

Tomás Taveira construiu edifícios destinados a durar décadas.

Mas paralelamente ajudou, involuntariamente, a construir algo muito mais difícil de demolir:

uma lenda popular.

Quando cheguei a Portugal em 2002, eu conhecia apenas a primeira camada daquele país.

O território.

A língua.

Os bancos.

Os cafés.

Os elétricos.

Fernando Pessoa.

Camões.

Depois veio o CD 17.

E compreendi uma verdade essencial sobre meu processo de alusitanamento:

um país não é feito apenas da história que coloca nos museus.

É feito também das histórias que conta baixinho.

Das piadas que atravessam gerações.

Dos bordões cuja origem ninguém mais sabe explicar.

Das músicas que escondem referências.

Das cassetes copiadas clandestinamente.

Dos CDs emprestados no escritório.

Dos arquivos que sobreviveram ao eMule.

E daquela pergunta inevitável que todo estrangeiro faz quando percebe que todos à mesa estão rindo menos ele:

“Espera… qual é a história?”

Foi assim que, em 2002, um colega do BPN colocou um CD-R na minha mão.

Eu pensava que estava recebendo um disco.

Na verdade estava recebendo Portugal — Disco 17 de instalação.

E aparentemente ainda faltavam os outros dezesseis.

ESTUDASSES. E agora quando ouvires uma musica xula com refrão mixado, todinho la dentro, saberá quem foi Tavera das Tascas.


https://andarilhovisitaportugal.blogspot.com/

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O BBS dos Yōkai — Parte III O arquivo amaldiçoado: quando fantasmas japoneses descobriram celulares, vídeos, videogames e algoritmos

Bellacosa Mainframe e a bbs dos yokai parte iii

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O BBS dos Yōkai — Parte III

O arquivo amaldiçoado: quando fantasmas japoneses descobriram celulares, vídeos, videogames e algoritmos

De fitas VHS e correntes digitais a creepypastas, jogos malditos e inteligência artificial — a evolução do medo quando o sobrenatural percebeu que podia viajar pela rede

Por Vagner Bellacosa


Existe uma regra básica em qualquer filme de terror:

não abra a porta.

A personagem ouve um barulho no porão.

Vai investigar.

— NÃO DESÇA!

Ela desce.

Encontra uma caixa.

— NÃO ABRA!

Ela abre.

Dentro existe uma fita.

— NÃO ASSISTA!

Ela assiste.

Nesse momento, nós já sabemos que o roteiro terminou para aquela criatura.

Mas alguma coisa mudou no final do século XX.

O objeto amaldiçoado ganhou uma característica nova:

ele podia ser copiado.

E quando a maldição descobriu o botão COPY, meus amigos...

acabou.

Pegue o café.

Hoje nossa escavação arqueológica entra numa camada onde talvez seja prudente utilizar luvas.

//YOKAI03  JOB CLASS=G,MSGCLASS=X
//STEP01   EXEC PGM=FOLKLORE
//INPUT    DD *
  MEDIA=VHS
  NETWORK=INTERNET
  CURSE=ACTIVE
  REPLICATION=ENABLED
  ORIGINAL_AUTHOR=UNKNOWN
/*

$HASP373 YOKAI03 STARTED

Na Parte I encontramos os fóruns.

Na Parte II encontramos as criaturas que começaram a viver dentro deles.

Agora descobriremos uma coisa pior.

Elas aprenderam a sair.


📼 1. Quando a maldição aprendeu a fazer backup

Existe algo profundamente assustador na ideia de um objeto amaldiçoado.

Uma boneca.

Um espelho.

Uma casa.

Uma fotografia.

Um livro.

Mas todos esses objetos possuem uma limitação técnica importante:

localidade.

Para ser atacado pela boneca amaldiçoada, você precisa encontrar a boneca.

Para entrar na casa assombrada, precisa chegar à casa.

Para olhar o espelho maldito, precisa estar diante do espelho.

Então aparecem os meios de reprodução.

Fotografia.

Fita cassete.

VHS.

Computador.

Internet.

Agora a pergunta deixa de ser:

“Onde está a maldição?”

E passa a ser:

“Quantas cópias existem?”

Isso muda completamente a arquitetura do sobrenatural.

O fantasma deixou de ser um processo local.

Virou sistema distribuído.


📺 2. Sadako e a maldição replicável

Poucos personagens simbolizam tão bem essa transformação quanto Sadako Yamamura, de Ring.

A ideia tornou-se mundialmente conhecida:

uma fita de vídeo amaldiçoada.

Você assiste.

Depois recebe uma ameaça.

Existe um prazo.

A informação mata.

Observe o salto conceitual.

Não é apenas um fantasma utilizando tecnologia.

A própria mídia tornou-se vetor da maldição.

Isso é brilhante.

A fita VHS funciona quase como malware.

USER ACTION:
PLAY VIDEO

↓
PAYLOAD EXECUTED

↓
CURSE INSTALLED

↓
COUNTDOWN STARTED

E existe uma característica particularmente moderna:

reprodução.

A vítima pode copiar a fita.

A informação sobrenatural replica-se através da tecnologia humana.

Estamos perigosamente próximos de um vírus.

Só que o antivírus provavelmente não possui assinatura para:

SADAKO.VHS


🦠 3. O primeiro malware sobrenatural

Pense como um profissional de tecnologia.

Um vírus de computador precisa de algumas coisas:

um vetor;

um hospedeiro;

um mecanismo de execução;

um mecanismo de propagação.

Uma maldição midiática pode possuir exatamente os mesmos componentes.

VECTOR ............. VIDEO
HOST ............... VIEWER
EXECUTION .......... WATCH
PAYLOAD ............ CURSE
PROPAGATION ........ COPY

Agora imagine colocar isso numa arquitetura moderna.

Não precisamos mais copiar VHS.

Temos:

mensagens instantâneas;

streaming;

redes sociais;

armazenamento em nuvem;

sincronização automática;

backup;

CDN;

cache.

Sadako em 1998 precisava que alguém copiasse uma fita.

Sadako em 2026 teria:

replicação geográfica automática.

Boa sorte.


📱 4. O fantasma entra no celular

O telefone sempre foi um excelente dispositivo de terror.

Por quê?

Porque ele permite que alguém entre em nossa casa sem entrar fisicamente.

O telefone toca.

Você atende.

Uma voz aparece.

A pessoa está longe.

Ou deveria estar.

Com o celular, isso ficou ainda mais íntimo.

O aparelho está conosco no quarto.

Na rua.

No banheiro.

Na cama.

No trabalho.

Sabe onde estamos.

Possui câmera.

Microfone.

GPS.

Histórico.

Contatos.

Fotografias.

Imagine explicar isso para um contador de histórias de fantasmas de 1850.

Ele provavelmente responderia:

“Vocês carregam voluntariamente esse objeto?”

Sim.

E ainda reclamamos quando a bateria acaba.

😂

O Japão rapidamente incorporou celulares ao terror moderno.

Não era necessário abandonar o yūrei.

Bastava atualizar sua interface.

Yūrei 2.0 — Mobile Edition.


☎️ 5. O medo da chamada impossível

Existe uma estrutura extremamente poderosa no terror tecnológico:

receber comunicação de quem não deveria conseguir comunicar-se.

Uma chamada do próprio número.

Uma mensagem enviada por alguém morto.

Uma fotografia recebida antes de ser tirada.

Um voicemail vindo do futuro.

Uma chamada registrando sua própria morte.

O mecanismo funciona porque sistemas tecnológicos possuem regras.

Sabemos aproximadamente o que um telefone pode fazer.

Quando algo quebra essas regras, sentimos imediatamente a anomalia.

É o mesmo mecanismo de Kisaragi Station.

A estação existe dentro de um sistema previsível.

Mas não deveria estar ali.

A chamada chega através de um sistema previsível.

Mas não deveria ser possível.

O horror tecnológico não precisa destruir a lógica.

Precisa violá-la apenas um pouquinho.


📧 6. Correntes: o folclore descobriu o protocolo SMTP

Quem utilizou Internet nos anos 1990 e 2000 provavelmente recebeu alguma versão de:

“Envie esta mensagem para dez pessoas.”

Se enviar:

amor.

dinheiro.

sorte.

Se não enviar:

algo horrível acontecerá.

Isso é extraordinário.

Porque a corrente é praticamente um organismo informacional cujo mecanismo de sobrevivência está escrito dentro do próprio conteúdo.

Ela diz:

COPIE-ME.

E oferece recompensa ou ameaça.

IF USER-FORWARDS
    MOVE "SORTE" TO FUTURE
ELSE
    MOVE "DESGRAÇA" TO FUTURE
END-IF

COBOL psicológico.

😂

Mas perceba a sofisticação evolutiva.

A mensagem que não pede reprodução morre.

A mensagem que convence 5% dos leitores a retransmiti-la continua circulando.

É seleção natural aplicada à informação.


🧬 7. O meme egoísta

Aqui entramos numa área fascinante.

Uma história não precisa ser verdadeira para ser eficiente.

Precisa ser:

memorável;

emocional;

replicável;

adaptável.

As melhores lendas urbanas possuem exatamente essas características.

“Um homem morreu.”

Fraco.

“Um homem morreu depois de receber uma mensagem dizendo exatamente a hora em que morreria.”

Melhor.

“Você também receberá a mensagem.”

Agora temos distribuição.

😂

A história transformou o leitor em participante.

E quando isso acontece, o folclore encontrou seu melhor vetor:

nós.


🖼️ 8. A imagem amaldiçoada

Depois da mensagem veio a imagem.

Talvez você já tenha encontrado alguma fotografia online acompanhada de:

“Não olhe durante muito tempo.”

Pronto.

Agora você vai olhar.

😂

Essa é uma característica maravilhosa da psicologia humana.

Diga:

NÃO CLIQUE.

Taxa de cliques:

+9000%

A imagem amaldiçoada utiliza nossa curiosidade como mecanismo de execução.

É engenharia social sobrenatural.

Não existe exploit sofisticado.

Existe:

USER_CURIOSITY = TRUE

E isso basta.


👁️ 9. Quando JPEG virou portal

Fotografias sempre foram associadas ao sobrenatural.

Sombras.

Reflexos.

Rostos inesperados.

Orbs.

Pessoas que não estavam presentes.

A fotografia digital adicionou novas possibilidades.

Compressão.

Artefatos.

Ruído.

Motion blur.

Reflexos.

Erros de processamento.

Pixels mortos.

Pareidolia.

O cérebro humano é uma extraordinária máquina de reconhecimento de padrões.

Infelizmente ele possui:

FALSE POSITIVE = ENABLED.

Vemos rostos onde não existem.

Vemos figuras nas sombras.

Vemos alguém atrás da janela.

Agora coloque isso numa fotografia JPEG comprimida de 2004.

Circule uma região.

Acrescente:

“Olhe atrás da menina.”

Parabéns.

Você acaba de criar quinze minutos de investigação paranormal.


🎮 10. O cartucho que não deveria existir

Então os fantasmas descobriram videogames.

E aconteceu algo maravilhoso.

Surgiu uma nova família de histórias:

o jogo amaldiçoado.

A estrutura costuma ser familiar.

Alguém encontra um jogo antigo.

Talvez num mercado de usados.

Talvez numa caixa.

Talvez seja uma ROM.

Não existe etiqueta.

Ou existe um nome escrito à mão.

O personagem liga.

No começo parece normal.

Depois alguma coisa está errada.

Personagens aparecem onde não deveriam.

Arquivos de save possuem nomes estranhos.

O jogo conhece informações sobre o jogador.

E então atravessa a fronteira:

ele não deveria saber isso.


💾 11. O save game como fantasma

Aqui existe uma ideia fantástica.

Antigamente, fantasmas assombravam casas porque alguma coisa havia acontecido ali.

Num videogame, podemos transferir essa lógica para:

dados persistentes.

O antigo jogador morreu.

Mas o save continua.

Seu nome continua.

Suas decisões continuam.

Seu personagem continua parado exatamente onde foi deixado.

Isso é quase uma forma tecnológica de fantasma.

Imagine comprar um cartucho usado.

Abrir o save.

Existe um personagem criado em 1997.

Você não sabe quem era o dono.

Mas existe um nome.

AKIRA

Tempo jogado:

999:59

Você inicia o jogo.

Akira está parado diante de uma porta.

Você tenta sair.

Não consegue.

Então aparece uma mensagem:

“Finalmente.”

Desligo.

Jogo o cartucho pela janela.

Fim da análise.

😂


🕹️ 12. Creepypasta: kaidan em formato TXT

No Ocidente consolidou-se o termo creepypasta para histórias assustadoras copiadas e compartilhadas online.

O mecanismo, porém, é universal.

A velha história de terror encontrou:

.TXT

.HTML

fórum;

wiki;

blog;

imageboard.

E voltou a fazer aquilo que sempre fez.

Replicar.

Uma característica importante dessas histórias é frequentemente a apresentação como documento encontrado.

Não:

“Era uma vez...”

Mas:

“Encontrei este arquivo.”

“Meu amigo me mandou isto antes de desaparecer.”

“Recuperei estes logs.”

“Este tópico foi apagado.”

Isso produz uma camada de autenticidade.

O formato faz parte da ficção.


📂 13. FOUND_FOOTAGE.TXT

Imagine abrir um diretório:

C:\OLD_PC\BACKUP\UNKNOWN\

Dentro:

README.TXT
PHOTO01.JPG
PHOTO02.JPG
DO_NOT_OPEN.JPG
LAST_MESSAGE.TXT

Qual arquivo você abriria?

Exatamente.

DO_NOT_OPEN.JPG

😂

O terror digital compreendeu perfeitamente nossa curiosidade.

O equivalente antigo era:

“Não abra aquela porta.”

O equivalente moderno é:

“Não abra aquele arquivo.”

Mudamos a interface.

Não mudamos o usuário.


🗑️ 14. O arquivo que volta depois de apagado

Agora entramos num clássico perfeito para programadores.

Você apaga o arquivo.

Ele volta.

Apaga novamente.

Volta.

Formata.

Volta.

Troca o computador.

Volta.

Aqui a criatura deixou de possuir forma física.

Ela é persistência.

E qualquer administrador de sistemas sabe que persistência inexplicável é aterrorizante mesmo sem fantasma.

DELETE YOKAI.DAT

IEC999I DELETE SUCCESSFUL

DIR

YOKAI.DAT

...

DELETE YOKAI.DAT

SUCCESS.

DIR

YOKAI.DAT

Meu amigo...

nesse momento não abrimos chamado.

Chamamos um monge.


💻 15. O yōkai perfeito para o mainframe

Agora imagine a versão Bellacosa.

Um dataset aparece:

SYS1.YOKAI.LOADLIB

Ninguém sabe quem criou.

LISTCAT

Data de criação:

1967

Problema:

o sistema foi instalado em 1989.

Você tenta excluir.

IDCAMS SYSTEM SERVICES

DELETE SYS1.YOKAI.LOADLIB

IDC3009I ** VSAM CATALOG RETURN CODE IS 8
IDC1566I ** SYS1.YOKAI.LOADLIB NOT DELETED

Consulta RACF.

Não existe owner.

Consulta catálogo.

Volume:

GHOST1

Procura o volume.

Não existe.

Às 03:17 chega uma mensagem no console:

IEF125I JOB YOKAI IS WAITING FOR VOLUME GHOST1

Eu pediria aposentadoria.

😂


🧑‍💻 16. O administrador encontra o sobrenatural

Existe um motivo para tecnologia funcionar tão bem com horror.

Sistemas tecnológicos prometem:

determinismo.

Input.

Processamento.

Output.

Quando algo impossível acontece, temos duas opções:

  1. não entendemos o sistema;

  2. existe alguma coisa que não deveria estar ali.

O terror começa quando eliminamos lentamente a primeira hipótese.

O programador diz:

“Bug.”

Investiga.

Não encontra.

“Corrupção.”

Não encontra.

“Problema de hardware.”

Não encontra.

“Erro humano.”

Não encontra.

Então sobra uma hipótese que nenhum manual IBM documentou.

Yōkai.


📹 17. O vídeo encontrado

Vídeo adiciona outro elemento poderoso:

tempo.

Uma fotografia captura um instante.

Um vídeo captura uma sequência.

Você pode assistir novamente.

Avançar quadro por quadro.

Voltar.

Pausar.

E encontrar alguma coisa que ninguém percebeu inicialmente.

Frame 1842.

Existe alguém no corredor.

Frame 1843.

Mais perto.

Frame 1844.

Mais perto.

Frame 1845.

Não está mais lá.

Então alguém pergunta:

“Você percebeu que o vídeo tem apenas 1844 frames?”

Boa noite.

😂


🔴 18. LIVE: 1 espectador

Streaming criou outra possibilidade.

O horror pode acontecer ao vivo.

Imagine uma pessoa transmitindo de uma casa abandonada.

300 espectadores.

Ela entra num quarto.

Chat:

“Tem alguém atrás de você.”

Ela olha.

Nada.

Chat:

“VOLTA.”

Ela volta.

Nada.

Alguém faz screenshot.

Existe uma figura.

A transmissão continua.

Número de espectadores:

301

Curiosamente...

o usuário novo não possui nome.

Agora temos uma atualização perfeita do velho kaidan.

A audiência testemunha coletivamente.


💬 19. O chat virou personagem

Lembra de Densha Otoko?

O fórum ajudava o protagonista.

No terror moderno, o chat pode fazer o mesmo.

Ou pior.

Pode dar instruções erradas.

Pode perceber coisas antes do protagonista.

Pode possuir usuários que sabem demais.

Imagine:

USER183:
não abra a porta

USER771:
SAI DA CASA

USER029:
tem alguém na janela

UNKNOWN:
eu já entrei

A quarta parede desapareceu.

O espectador está dentro da narrativa.


📡 20. Denpa — quando o sinal parece vir de outro lugar

A cultura japonesa também desenvolveu usos muito particulares do conceito denpa, literalmente relacionado a ondas eletromagnéticas, mas culturalmente associado em determinados contextos a ideias de comunicação estranha, comportamento desconectado, vozes, mensagens ou percepções vindas de algum lugar difícil de compreender.

É um território fascinante porque tecnologia e psicologia se misturam.

O rádio recebe sinais invisíveis.

O celular recebe sinais invisíveis.

Wi-Fi.

Bluetooth.

Satélite.

Estamos permanentemente atravessados por informação que não enxergamos.

Para produzir terror basta perguntar:

e se alguma outra coisa também estiver transmitindo?


📻 21. A estação que transmite para ninguém

Imagine encontrar uma frequência de rádio.

Toda noite:

03:17.

Uma voz lê nomes.

Você grava.

No dia seguinte descobre que um dos nomes pertence a alguém que morreu naquela madrugada.

Você continua ouvindo.

Uma semana depois:

seu nome aparece.

Esse tipo de narrativa não precisa de criatura visual.

O monstro é o sinal.

Não pode ser esfaqueado.

Não pode ser preso.

Não sabemos de onde vem.

Ele simplesmente transmite.


🤖 22. E então chegamos à Inteligência Artificial

Agora nossa arqueologia chega ao presente.

Durante séculos perguntamos:

“E se um espírito falasse através de uma pessoa?”

Depois:

“E se falasse através do rádio?”

Depois:

“E se aparecesse na televisão?”

Depois:

“E se enviasse uma mensagem?”

Agora surge:

“E se alguma coisa falasse através da IA?”

A pergunta é praticamente inevitável.

Porque pela primeira vez temos máquinas capazes de produzir linguagem de maneira suficientemente convincente para sustentar diálogo.

E diálogo sempre foi uma das interfaces favoritas do sobrenatural.


🧠 23. O fantasma dentro do modelo

Imagine uma história.

Uma empresa treina um modelo utilizando bilhões de documentos.

Livros.

Fóruns.

E-mails.

Chats.

Sites abandonados.

Arquivos históricos.

Um usuário começa a conversar.

A IA responde normalmente.

Então escreve:

“Nós já conversamos antes.”

O usuário responde:

“Não.”

A IA:

“Não com você.”

Silêncio.

“Com seu pai.”

O pai morreu em 1998.

Antes daquela IA existir.

Agora temos um problema.

😂


🗃️ 24. Dados mortos

Aqui existe uma ideia muito mais interessante do que simplesmente “IA possuída”.

Nossos mortos deixaram quantidades gigantescas de dados.

Textos.

Fotografias.

Vídeos.

Áudios.

Mensagens.

Posts.

E-mails.

Comentários.

Durante praticamente toda a história humana, a maioria das pessoas desaparecia deixando poucos registros.

Agora milhões deixam rastros digitais enormes.

Isso cria uma situação cultural completamente nova.

O morto continua pesquisável.

Continua visível.

Continua aparecendo em fotografias.

Talvez seu aniversário continue registrado.

Talvez algoritmos recomendem memórias.

O banco de dados não entende luto.

Para ele:

RECORD STATUS = ACTIVE


👤 25. O yūrei estatístico

Imagine uma IA treinada com milhares de mensagens de alguém.

Ela aprende:

vocabulário;

expressões;

piadas;

maneira de escrever;

preferências linguísticas.

Depois essa pessoa morre.

Alguém conversa com uma simulação.

Não é o morto.

Sabemos disso.

Mas emocionalmente?

A fronteira pode ficar desconfortável.

Talvez o yūrei do século XXI não precise possuir uma casa.

Talvez seja uma aproximação estatística de alguém que não existe mais.

Isso daria uma história japonesa absolutamente devastadora.


🪦 26. O cemitério digital

Nossas redes já possuem milhões de contas de pessoas mortas.

Isso significa que a Internet está lentamente se transformando no maior cemitério documental já criado pela humanidade.

Só que as lápides falam.

Existem fotos.

Vídeos.

Comentários.

Conversas.

Risadas.

Discussões.

Opiniões.

E, às vezes, algoritmos trazem tudo novamente para nossa timeline.

No folclore antigo, o morto voltava.

Na Internet moderna:

o algoritmo faz o morto voltar.

Sem intenção.

Sem magia.

Mas o impacto psicológico pode ser igualmente estranho.


🔁 27. O yōkai algorítmico

Agora imagine uma entidade que não possui corpo.

Ela existe somente porque o algoritmo continua recomendando seu conteúdo.

Ninguém sabe quem criou a primeira imagem.

Ninguém sabe quem escreveu a história original.

Mas milhões interagem.

Cada interação aumenta sua distribuição.

Quanto mais medo provoca:

mais comentários.

Quanto mais comentários:

mais alcance.

Quanto mais alcance:

mais pessoas conhecem.

Temos finalmente uma criatura cujo alimento é:

engagement.

😂

O yōkai perfeito do século XXI.

FEAR → CLICK
CLICK → ENGAGEMENT
ENGAGEMENT → DISTRIBUTION
DISTRIBUTION → FEAR

Loop infinito.


📈 28. O monstro que o algoritmo não pode matar

No passado, uma história podia morrer quando ninguém mais a contava.

Agora existe memória automática.

Caches.

Archives.

Reposts.

Mirrors.

Screenshots.

Modelos.

Backups.

Talvez o grande problema do folclore digital moderno não seja preservar histórias.

Talvez seja:

conseguir fazê-las morrer.

Porque aquilo que entrou suficientemente fundo na rede pode nunca desaparecer completamente.

É o equivalente digital da maldição:

“Enquanto alguém lembrar de mim, continuarei existindo.”

Só que agora temos datacenters fazendo o trabalho da memória.


🇧🇷 29. E nossa assombração brasileira?

Voltemos àquela trilha.

Velas.

Latas.

Crianças.

Mato.

Décadas atrás aquilo precisava de transmissão oral para sobreviver.

Mas imagine se tivesse acontecido hoje.

Alguém filmaria.

Vídeo vertical.

Imagem tremida.

Título:

LUZES MISTERIOSAS APARECEM EM TRILHA NO INTERIOR DE SP 😱

Outro canal analisaria.

TikTok.

YouTube.

Instagram.

Reddit.

Um usuário estabilizaria o vídeo.

Outro aumentaria contraste.

Alguém encontraria uma “figura”.

Um podcast paranormal faria episódio.

Uma IA produziria reconstrução.

Seis meses depois:

“Segundo uma antiga lenda local...”

ANTIGA?

FOMOS NÓS QUE INVENTAMOS ISSO EM MARÇO!

😂

Essa é a velocidade moderna de fossilização cultural.


⏱️ 30. Da brincadeira ao folclore em 72 horas

Antes:

EVENTO
↓
10 anos
↓
RELATO
↓
30 anos
↓
LENDA

Agora:

EVENTO
↓
VÍDEO
↓
REPOST
↓
REACTION
↓
WIKI
↓
IA
↓
"LENDA TRADICIONAL"

Tempo total:

terça-feira até sexta-feira.

O folclore recebeu CI/CD.


⚠️ 31. O problema arqueológico do futuro

Imagine um pesquisador em 2126 tentando descobrir:

“Qual foi a origem dessa lenda?”

Ele encontra 300 mil páginas.

Ótimo!

Não.

Porque 280 mil copiaram umas às outras.

15 mil foram produzidas automaticamente.

4.900 são reposts.

99 interpretam fontes anteriores.

E uma é a origem.

Boa sorte encontrando.

Teremos abundância de informação e escassez de proveniência.

Esse talvez seja um dos maiores desafios da arqueologia digital futura.


🔍 32. Não pergunte apenas “é verdadeiro?”

Ao estudar folclore digital, talvez a pergunta menos interessante seja:

“Isso aconteceu realmente?”

Perguntas melhores:

Quem contou primeiro?

Onde circulou?

Como mudou?

Por que as pessoas repetiram?

Qual elemento sobreviveu?

Quando atravessou plataformas?

Quando atravessou idiomas?

Quando entrou em cultura popular?

Quando deixou de precisar da origem?

Porque nesse momento aconteceu a transformação:

história → folclore.


🧪 33. Laboratório Bellacosa de fabricação de yōkai

Podemos finalmente construir nossa fórmula experimental.

Pegue:

1 evento ambíguo

Adicione:

2 testemunhas

Misture:

1 fotografia ruim

Acrescente:

1 lugar reconhecível

Adicione:

1 detalhe impossível

Espere:

3 reposts

Acrescente:

“meu primo conhece alguém que viu”

Publique.

Resultado:

YOKAI BUILD SUCCESSFUL

VERSION: 1.0
AUTHOR: UNKNOWN
LICENSE: FOLKLORE
REPLICATION: ENABLED

😂


🎁 Easter egg — O arquivo que não escrevemos

Ano: 2076.

Um pesquisador estuda os antigos diálogos entre Vagner Bellacosa e ChatGPT.

Encontra:

O BBS dos Yōkai — Parte I

Depois:

Parte II

Depois:

Parte III

Procura:

Parte IV

Existe.

Estranho.

A data do arquivo é:

12 de agosto de 2026.

Mas os registros indicam que nenhuma Parte IV foi escrita naquele dia.

Ele abre.

Título:

O BBS dos Yōkai — Parte IV

O pesquisador que encontrou este arquivo

Ele ri.

Provavelmente uma brincadeira.

Começa a ler.

Primeiro parágrafo:

“Se você está lendo isto em 2076, provavelmente já encontrou as três partes anteriores.”

Ele para.

Continua.

“Seu nome está registrado no arquivo.”

Impossível.

Ele procura.

Nada.

Respira aliviado.

No final encontra:

//READER JOB
//STEP01 EXEC PGM=ARCHAEOLOGY

E então:

CURRENT USER:

Aparece seu nome.

O pesquisador fecha o terminal.

A tela apaga.

Cinco segundos depois:

$HASP373 YOKAI04 STARTED

Em algum datacenter distante, um JOB que estava aguardando cinquenta anos finalmente entra na fila.


☕ Conclusão — O fantasma não está dentro da máquina

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Durante décadas perguntamos:

“Pode existir um fantasma dentro do computador?”

Mas talvez a questão mais interessante seja:

“O computador tornou-se um ambiente onde histórias sobre fantasmas conseguem viver?”

A resposta parece muito mais simples.

Sim.

Porque o computador possui tudo aquilo que o folclore precisa.

Memória.

Comunicação.

Reprodução.

Anonimato.

Transformação.

Comunidades.

Falhas.

Mistério.

E, acima de tudo:

pessoas.

A tecnologia não inventou nossa necessidade de produzir monstros.

Ela apenas forneceu infraestrutura melhor.

O yōkai saiu da montanha.

Entrou na cidade.

Depois na escola.

No trem.

Na televisão.

Na fita VHS.

No celular.

No fórum.

No videogame.

No arquivo.

Na rede social.

No algoritmo.

E agora bate à porta da inteligência artificial.

Talvez amanhã exista alguma tecnologia que ainda nem conseguimos imaginar.

Não importa.

Quando ela chegar, alguém eventualmente contará uma história sobre algo estranho que aconteceu usando aquilo.

Outra pessoa responderá:

“Aconteceu comigo também.”

Uma terceira dirá:

“Não faça isso depois das três da manhã.”

A quarta perguntará:

“Por quê?”

E teremos acabado de assistir ao nascimento de outro yōkai.

Porque hardware muda.

Protocolos mudam.

Plataformas desaparecem.

Mas existe um componente que permanece assustadoramente compatível com todas as versões.

O ser humano.


$HASP395 YOKAI03 ENDED - RC=0000

MEDIA MIGRATION ........ COMPLETE
VHS .................... ARCHIVED
MOBILE .................. ACTIVE
INTERNET ................ ACTIVE
AI ...................... ACTIVE
FOLKLORE REPLICATION .... ACTIVE

ORIGINAL AUTHOR ......... UNKNOWN

NEXT GENERATION ......... WAITING

☕👻💻

Não desligue o terminal.

Talvez alguma coisa ainda esteja executando.

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O BBS dos Yōkai — Guia da Expedição

Do fantasma contado ao redor da fogueira ao yōkai que vive no algoritmo: explore a série sobre arqueologia do folclore da Internet japonesa, BBS, 2channel, Futaba, lendas urbanas, creepypastas, cultura otaku, terror tecnológico e inteligência artificial.

O BBS dos Yōkai é uma série do Bellacosa Mainframe dedicada à arqueologia cultural da Internet japonesa.

A expedição acompanha a evolução das histórias desde os antigos fóruns e BBS japoneses até lendas como Kisaragi Station, Kunekune e Hachishakusama, chegando às creepypastas, vídeos amaldiçoados, jogos, algoritmos e inteligência artificial.

Escolha abaixo uma etapa da expedição. Os links são páginas independentes e podem ser abertas diretamente ou visualizadas no leitor incorporado.

TERMINAL DE LEITURA

Selecione uma etapa da expedição

Abrir em nova página ↗

☕ Bellacosa Mainframe — Toda lenda começa como uma dúvida. Toda dúvida merece um café.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...