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sábado, 31 de julho de 2021

ABEND sem Mistérios — Parte V

 

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☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

ABEND sem Mistérios — Parte V

O Estado da Arte na Investigação de ABENDs: Como os Grandes Bancos Utilizam Observabilidade, Inteligência Artificial e Engenharia de Confiabilidade no IBM Z

"No passado, corrigíamos ABENDs. Hoje, construímos sistemas capazes de prever, explicar e até evitar que eles aconteçam."


Introdução

Nas quatro primeiras partes desta série, aprendemos praticamente toda a jornada de um ABEND.

Começamos entendendo o significado do termo.

Depois aprendemos a investigar mensagens, dumps e CEEDUMP.

Em seguida mergulhamos na arquitetura do IBM Z, compreendendo registradores, TCBs, RBs e o funcionamento interno do processador.

Agora chegamos ao último nível.

Não vamos mais olhar para um único programa.

Vamos olhar para um banco inteiro.

Como uma instituição financeira que executa milhões de transações por hora consegue descobrir um erro em poucos minutos?

Como ela evita que um simples S0C7 derrube dezenas de aplicações?

Como uma equipe identifica um problema antes mesmo que o cliente perceba?

A resposta está em uma palavra que vem transformando toda a indústria de software.

Observabilidade.


O antigo modelo de suporte

Durante muitos anos, o processo era simples.

Usuário reclama

↓

Operação abre chamado

↓

Programador analisa

↓

Descobre o ABEND

↓

Corrige

↓

Fim

Era um modelo totalmente reativo.

O problema precisava acontecer primeiro.


O modelo moderno

Hoje os grandes bancos trabalham de outra maneira.

Monitoramento

↓

Anomalia Detectada

↓

Alerta

↓

Investigação

↓

Correção

↓

Prevenção

↓

Aprendizado

O foco deixou de ser apenas corrigir.

Passou a ser evitar.


O conceito de Observabilidade

Muitos confundem observabilidade com monitoramento.

Não são a mesma coisa.

Monitoramento responde:

"O sistema está funcionando?"

Observabilidade responde:

"Por que ele está funcionando desta maneira?"

É uma diferença enorme.


Os três pilares da Observabilidade

Em praticamente todas as arquiteturas modernas encontramos três pilares.

Logs

Mensagens produzidas pelas aplicações.

DISPLAY

SYSLOG

SMF

JESMSGLG

JESYSMSG

Métricas

Valores numéricos.

Por exemplo:

  • CPU

  • MSU

  • Tempo de resposta

  • Número de transações

  • I/O

  • Locks

  • Esperas

  • Uso de memória


Traces

Registram o caminho percorrido por uma solicitação.

Imagine uma chamada REST.

Aplicativo

↓

API Gateway

↓

z/OS Connect

↓

CICS

↓

COBOL

↓

Db2

Hoje conseguimos acompanhar toda essa jornada.


O nascimento de um incidente

Um ABEND raramente nasce sozinho.

Antes dele normalmente aparecem sinais.

Por exemplo.

Mais CPU

↓

Mais Esperas

↓

Mais Locks

↓

Timeouts

↓

Fila crescendo

↓

ABEND

Quem monitora apenas o ABEND já chegou tarde.


Engenharia de Confiabilidade

Nos últimos anos surgiu uma disciplina chamada:

Site Reliability Engineering (SRE)

Embora tenha ficado famosa no mundo Cloud,

seus princípios combinam perfeitamente com o Mainframe.

Entre eles:

  • automação;

  • observabilidade;

  • prevenção;

  • métricas;

  • melhoria contínua.


O papel do WLM

No IBM Z existe um componente extraordinário.

O Workload Manager (WLM).

Enquanto muitos sistemas apenas distribuem CPU,

o WLM distribui objetivos de negócio.

Ele entende prioridades.

Por exemplo.

PIX

↓

Mais importante

↓

Recebe CPU primeiro

Enquanto um relatório interno pode esperar alguns segundos.


O poder do SMF

Poucos iniciantes percebem a riqueza do System Management Facility (SMF).

Ele registra praticamente tudo o que acontece no sistema.

Alguns exemplos:

  • uso de CPU;

  • I/O;

  • execução de jobs;

  • atividades do CICS;

  • Db2;

  • RACF;

  • MQ;

  • Language Environment;

  • z/OS Connect;

  • redes.

O SMF é a memória histórica do IBM Z.


O papel da Inteligência Artificial

Até pouco tempo,

investigar um dump dependia quase exclusivamente da experiência humana.

Hoje isso começa a mudar.

Ferramentas baseadas em IA conseguem:

  • correlacionar milhares de mensagens;

  • identificar padrões repetitivos;

  • sugerir causas prováveis;

  • resumir logs;

  • localizar mudanças recentes;

  • acelerar a análise.

Elas não substituem o especialista.

Mas reduzem drasticamente o tempo de investigação.


A importância da Correlação

Imagine que ocorram simultaneamente:

S0C7

↓

MQ parado

↓

Db2 lento

↓

Storage cheia

↓

CPU elevada

São quatro problemas?

Talvez não.

Todos podem ter a mesma origem.

Ferramentas modernas fazem exatamente essa correlação.


O conceito de MTTR

Todo centro de operações acompanha uma métrica importantíssima.

Mean Time To Repair

Quanto tempo leva para resolver um incidente?

Imagine dois bancos.

Banco A

Resolve em:

6 horas.

Banco B

Resolve em:

20 minutos.

A diferença financeira pode ser enorme.


MTBF

Outra métrica clássica.

Mean Time Between Failures

Quanto maior,

mais confiável é o ambiente.


O conceito de RCA

Após um incidente importante,

grandes empresas realizam uma

Root Cause Analysis.

O objetivo não é descobrir um culpado.

É descobrir:

  • o que aconteceu;

  • por que aconteceu;

  • como impedir que volte a acontecer.


O ciclo da melhoria contínua

Todo incidente deveria produzir conhecimento.

ABEND

↓

Investigação

↓

Correção

↓

Documentação

↓

Automação

↓

Monitoramento

↓

Novo Conhecimento

Assim o sistema evolui continuamente.


A documentação salva empresas

Um erro comum é resolver um incidente e seguir para o próximo chamado.

Especialistas fazem diferente.

Eles registram:

  • causa;

  • sintomas;

  • mensagens;

  • solução;

  • prevenção;

  • comandos utilizados;

  • dumps analisados.

Anos depois,

essa documentação economiza dias de trabalho.


O papel do ChatOps

Cada vez mais empresas integram:

  • Microsoft Teams;

  • Slack;

  • Webex;

  • IA;

  • automações.

Imagine:

ABEND detectado

↓

Bot consulta logs

↓

Analisa CEEDUMP

↓

Resume incidente

↓

Envia para equipe

↓

Sugere solução

Esse cenário já é realidade em muitas organizações.


O futuro da investigação

Nos próximos anos veremos sistemas capazes de:

  • detectar comportamento anômalo antes do ABEND;

  • comparar incidentes com milhares de casos históricos;

  • sugerir correções automaticamente;

  • gerar documentação técnica;

  • criar testes para impedir regressões;

  • explicar dumps em linguagem natural.

O especialista continuará essencial, mas terá ferramentas muito mais poderosas.


O papel do Programador Padawan

Diante de tanta tecnologia, pode surgir a dúvida:

"Então basta usar IA?"

Não.

A IA acelera a investigação.

Quem toma decisões continua sendo o engenheiro.

Ela pode dizer:

"Existe 92% de chance de este S0C7 ter sido causado por dados inválidos."

Mas alguém precisa confirmar, entender o contexto e validar a correção.

Conhecimento técnico continua sendo indispensável.


As habilidades do profissional moderno

O programador Mainframe do futuro não domina apenas COBOL.

Ele entende:

  • arquitetura IBM Z;

  • JCL;

  • CICS;

  • Db2;

  • MQ;

  • z/OS Connect;

  • APIs REST;

  • JSON;

  • observabilidade;

  • automação;

  • Git;

  • DevOps;

  • IA Generativa.

Quanto maior a visão sistêmica, mais eficiente será na resolução de incidentes.


O ciclo completo de um ABEND na era moderna

Aplicação

↓

Logs

↓

Métricas

↓

Traces

↓

Monitoramento

↓

IA

↓

Correlação

↓

Investigação

↓

Root Cause

↓

Correção

↓

Teste

↓

Deploy

↓

Documentação

↓

Automação

↓

Aprendizado Organizacional

Observe como o ABEND representa apenas uma pequena etapa dentro de um processo muito maior de engenharia.


Dez princípios para nunca mais olhar um ABEND da mesma forma

  1. O ABEND é um sintoma, não a doença.

  2. A primeira mensagem costuma ser mais importante que a última.

  3. O JCL merece tanta atenção quanto o COBOL.

  4. CEEDUMP, SYSMDUMP e IPCS contam a história da execução.

  5. Dados incorretos são responsáveis por grande parte dos incidentes.

  6. Validação custa menos do que investigação.

  7. Documentar um incidente evita dezenas de novos chamados.

  8. Automação reduz erros humanos repetitivos.

  9. Observabilidade permite enxergar problemas antes do cliente.

  10. Todo ABEND deve tornar o sistema mais confiável do que era antes.


Conclusão

Durante décadas, os ABENDs foram vistos como o grande pesadelo dos programadores COBOL. Hoje sabemos que eles são muito mais do que códigos de erro. São mecanismos sofisticados de proteção, diagnóstico e aprendizado incorporados à própria arquitetura do IBM Z.

À medida que tecnologias como observabilidade, automação, engenharia de confiabilidade e Inteligência Artificial se integram ao ecossistema Mainframe, a forma de lidar com incidentes também evolui. O foco deixa de ser apenas restaurar um serviço e passa a compreender profundamente o comportamento do sistema, eliminar causas estruturais e fortalecer continuamente a plataforma.

O Programador Padawan que percorreu esta série provavelmente não verá mais um S0C7, um ASRA ou um U4038 apenas como um problema a resolver. Ele enxergará uma oportunidade de investigar, aprender e aperfeiçoar um dos ambientes computacionais mais robustos do mundo.

Porque, no IBM Z, cada ABEND conta uma história. E os melhores engenheiros são aqueles que aprendem a ouvi-la.


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